Já pensou em ser um psicanalista???

 

O Melhor Curso de Psicanálise Totalmente à Distância e Sem Mensalidades!

 

Psicanálise Clínica
 
É um curso online totalmente interativo, monitorado permanentemente pelos professores. O curso foi desenvolvido com a melhor tecnologia de ensino a distância, utilizada por diversas universidades de vários países. Tem a duração de 1 ano com emissão de certificado clínico de Psicanalista.

Metodologia

Com a metodologia de educação a distância, o aluno estuda de acordo com sua disponibilidade de tempo a partir de qualquer lugar a sua escolha. Com isso, barreiras geográficas que por ventura existam são superadas, e custos com transporte são significantemente reduzidos. Além da capacitação e da melhoria da prática profissional que os alunos obtém, a metodologia de educação a distância promove o desenvolvimento da autonomia dos estudos.

O ITG dispõe de material didático especialmente elaborado para permitir ao participante realizar estudo independente, de acordo com suas possibilidades de tempo e espaço. O cursista da ITG conta com um serviço de tutoria, para auxiliá-lo em seus estudos.

Mercado

Há uma grande necessidade de psicanalistas para orientar as pessoas na solução de seus problemas existenciais, tais como: fobias, ansiedades, depressões, obsessões, impulsos auto e heteroagressivos, angústias e crises de toda ordem. O profissional de Psicanálise ajudará a sociedade a ficar mais humana e a vida a ter mais sentido!

CAMPO DE ATUAÇÃO

Segundo o CB0 nº 2525-50 do Ministério do Trabalho e Emprego, no final do Curso de Formação em Psicanálise você estará preparado para atuar nas seguintes áreas:

AVALIAR COMPORTAMENTOS INDIVIDUAL, GRUPAL E INSTITUCIONAL.

Triar casos, entrevistar pessoas, levantar dados pertinentes, observar pessoas e situações, escutar pessoas ativamente. Investigar pessoas, situações e problemas, escolher o instrumento de avaliação, aplicar instrumento de avaliação, sistematizar informações, elaborar diagnósticos, elaborar pareceres, laudos e perícias, responder a quesitos técnicos judiciais, devolver resultados (devolutiva).

ANALISAR, TRATAR INDIVÍDUOS, GRUPOS E INSTITUIÇÕES

Propiciar espaço para acolhimento de vivencias emocionais (setting), oferecer suporte emocional, tornar consciente e inconsciente, propiciar a criação de vínculos paciente-terapeuta, interpretar conflitos e questões, elucidar conflitos e questões, promover a integração psíquica, promover o desenvolvimento das relações interpessoais, promover desenvolvimento da percepção interna, mediar grupos, família e instituições para solução de conflitos, dar aula.

ORIENTAR INDIVÍDUOS, GRUPOS E INSTITUIÇÕES

Propor alternativas para solução de problemas, informar sobre o desenvolvimento do psiquismo humano, aconselhar pessoas, grupos e famílias, orientar grupos profissionais, orientar grupos específicos (pais, adolescentes, etc., assessorar instituições.

Você Quer Mesmo Compreender a mente das pessoas e Tornar-se um Psicanalista Altamente Capacitado?

 

ACOMPANHAR INDIVIDUOS, GRUPOS E INSTITUIÇÕES

Acompanhar impactos em intervenções, acompanhar o desenvolvimento e a evolução do caso, acompanhar o desenvolvimento de profissionais sem formação e especialização, acompanhar resultados de projetos, participar de audiências.

EDUCAR INDIVIDUOS, GRUPOS E INSTITUIÇÕES

Estudar caso em grupo, apresentarem estudos de caso, ministrar aulas, supervisionar profissionais da área e de áreas afins, realizar trabalhar para desenvolvimento de competência e habilidades profissionais, formar psicanalistas, desenvolver cursos para grupos específicos, confeccionar manual educativo, desenvolver curso para profissionais de outras áreas, propiciar recursos para o desenvolvimento de aspectos cognitivos, acompanhar resultados de curas, treinamento.

DESENOLVER PESQUISAS EXPERIMENTAIS, TEÓRICOS E CLÍNICAS

Investigar o psiquismo humano, investigar o comportamento individual, e grupal e institucional, definir o problema e objetivos, pesquisar bibliografias, definir metodologia de ação, estabelecer parâmetros de pesquisa, construir instrumentos de pesquisa, coletar dados, organizar dados, compilar dados, fazer leitura de dados, integrar produtos de estudos de caso.

COORDENAR EQUIPES DE ATIVIDADES DE ÁREAS AFINS

Planejar as atividades da equipe, programar atividades gerais, programar atividades da equipe, distribuir tarefas a equipe, trabalhar a dinâmica da equipa, monitorar atividades das equipes, preparar reuniões, coordenar reuniões, coordenar grupos de estudos, organizar eventos, avaliar propostas e projetos,avaliar e executar as ações.

PARTICIPAR DE ATIVIDADES PARA CONSENSO E DIVULGAÇÃO PROFISSIONAL

Participar de palestras, debates, entrevistas, seminários, simpósios, participar de reuniões científicas (Congressos, etc.), publicar artigos, ensaios de livros científicos, participar de comissões técnicas, participar de conselhos municipais, estaduais e federais, participar de entidades de classe, participar de evento junto aos meios de comunicação, divulgar práticas do psicanalista, fornecer subsídios às estratégias organizacionais, fornecer subsídios à formação de políticas organizacionais, buscar parcerias, ética e organizacional.

REALIZAR TAREFAS ADMINISTRATIVAS

Redigir pareceres, redigir relatórios, agendar atendimentos, receber pessoas, organizar prontuários, criar cadastros, redigir ofícios, memorandos e despachos, compor reuniões administrativas técnicas, fazer levantamento estatístico, comprar material técnico, prestar contas.

DEMONSTRAR COMPETÊNCIAS PESSOAIS

Manter sigilo, cultivar a ética,demonstrar ciência sobre o código de ética profissional, demonstrar ciência sobre a legislação pertinente, demonstrar bom senso, respeitar os limites de atuação, ser psico-analisado, ser psicoterapeutizado, demonstrar continência (Acolhedor), demonstrar interessa pela pessoa, ser humano, ouvir ativamente (saber ouvir), manter-se atualizado, contornar situações adversas, respeitar valores e crenças dos clientes, demonstrar capacidade de observação, demonstrar habilidade de questionar, amar a verdade, manter o setting, demonstrar autonomia de pensamento, demonstrar espírito crítico, respeitar os limites do cliente e tomar decisões em situações de pressão.

Custo do Curso

O aluno não paga mensalidade, apenas uma “Única” taxa de matricula, que pode ser parcelada no cartão de crédito. Também, asseguramos que após a conclusão do curso, não cobramos taxa de emissão do certificado e credencial.

Grade Curricular
1º Período
CÓDIGOS DAS DISCIPLINAS CH CRÉDITOS NOTAS
001 – Introdução a Terapia Freudiana 60 4 0,00
002 – Introdução à Psicanálise 60 4 0,00
003 – Introdução a Psicologia 60 4 0,00
004 – Psicanálise Intuitiva 60 4 0,00
005 – Psicanálise & Pesquisa 60 4 0,00
006 – Teoria da Personalidade 60 4 0,00
007 – Método Psicanalítico 60 4 0,00
008 – Metodologia de Pesquisa Científica 60 4 0,00
2º Período
CÓDIGOS DAS DISCIPLINAS CH CRÉDITOS NOTAS
009 – Teoria & Clínica Psicanalítica de Melaine Klein 60 4 0,00
010 – Teoria & Clínica Psicanalítica de Sgmund Freud 60 4 0,00
011 – Psicanálise Quântica 60 4 0,00
012 – Teoria & Clínica Psicanalítica de Donald Winnicott 60 4 0,00
013 – Psicanálise & Religião 60 4 0,00
014 – Escolas Psicanalíticas 60 4 0,00
015 – Psicanálise Junguiana 60 4 0,00
016 – Terapia Lacaiana 60 4 0,00
3º Período
CÓDIGOS DAS DISCIPLINAS CH CRÉDITOS NOTAS
017 – Psicologia do Grupo & Análise do Ego 60 4 0,00
018 – Psicanálise Existencial 60 4 0,00
019 – Saúde Mental & Dependência 60 4 0,00
020 – Interação da Psicanálise de Freud, Lacan & Jung 60 4 0,00
021 – Psicopatologia 60 4 0,00
022 – Neuroses & Psicoses 60 4 0,00
023 – Análise Didática & Clínica 60 4 0,00
024 – Aconselhamento de Idosos I 60 4 0,00
025 – Aconselhamento de Idosos II 60 4 0,00
4º Período
CÓDIGOS DAS DISCIPLINAS CH CRÉDITOS NOTAS
026 – Aconselhamento de Idosos III 60 4 0,00
027 – Fundamentos Teóricos do Aconselhmento Diretivo 60 4 0,00
028 – Cérebro & Linguagem 60 4 0,00
029 – Aconselhamento de Doentes Terminais I 60 4 0,00
030 – Aconselhamento de Doentes Terminais II 60 4 0,00
031 – Aconselhamento de Doentes Terminais III 60 4 0,00
032 – Aconselhamento de Dependentes Químicos I 60 4 0,00
033 – Aconselhamento de Dependentes Químicos II 60 4 0,00
034 – Aconselhamento de Dependentes Químicos III 60 4 0,00
035 – Toxicologia 60 4 0,00
CH Crédito Média
2100 140 0,00

Diploma Os cursos a distância do ITG são amparados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n° 9394/96), pelo Decreto Federal n° 2.494/98 e Decreto n° 2.208, de 17/04/97.

 

Perguntas. Sobre Psicanálise e sua formação profissional!

Concluir o curso de Psicanálise Integrativa me permite clinicar? Sim. O curso de Psicanálise Integrativa permite que você tenha um consultório e exerça livremente a profissão de Psicanalista Integrativos.

O Curso tem registro no MEC?

Nenhum curso e reconhecido pelo MEC, devido a Psicanálise não ser uma ciência.

Não. Nem tão pouco os demais cursos de formação em Psicanálise existentes no País. Inexistem, também, cursos de Psicanálise no âmbito universitário e sim Especialização Lato Sensu. Concluído, o psicanalista recebe um Certificado expedido pela Sociedade. No entanto, há sociedades que não emitem sequer uma comprovação de conclusão de curso. Nossa Escola cumpre a risca essa necessidade. Quem é o Psicanalista junto á clientela e ao Ministério do Trabalho?

É um profissional que pratica a Psicanálise em consultórios, clínicas e até hospitais, empregando metodologia exclusiva ao bom exercício da profissão, quais sejam, as técnicas e meios eficazes da psicanálise no tratamento das psiconeuroses. Para atingir plenamente seus objetivos, o psicanalista deve ser uma pessoa com sólida formação humanitária, visto que a profissão requer uma acentuada cumplicidade entre analista e seu paciente. Os psicanalistas têm sua profissão classificada na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações) no Ministério do Trabalho – Portaria nº 397/TEM de 09/10/2002, sob o nº 2515.50, podendo exercer sua profissão em todo o Território Nacional.

Obs: existe no site do Ministério do Trabalho uma recomendação de como deveria ser a formação da Psicanálise, (recomendação não e regulamentação), Por isso cada escola tem sua formação, umas diferentes das outras. PARA QUE A FORMAÇÃO FOSSE SUPERIOR, TECNICA , BACHARELADO, PÓS GRADUAÇÃO OU QUALQUER OUTRA E NECESSARIO QUE HAJA UMA LEI FEDERAL REGULAMENTO A FORMAÇÃO DA PSICANÁLISE E ATE A PRESENTE DATA ISSO NÃO EXISTE.

PORTANTO A FORMAÇÃO E LIVRE. E CADA ESCOLA TEM UM TIPO DE FORMAÇÃO.

Por que o Curso é aberto às várias profissões?

É aberto porque nenhuma Lei especificou o contrário. Vale dizer, que desde o princípio era uma profissão aberta a quem se interessasse e que atraiu não só médicos – como Jung e Adler – mas também advogados, filósofos, literatos, educadores e teólogos, sociólogos e pedagogos. Por isso restringir a Psicanálise a essa ou àquela profissão é absolutamente contrário à ciência, ilegal e inconstitucional, pois “todos são iguais perante a Lei”.

O que regulamenta a profissão de Psicanalista?

No Brasil e no Mundo a psicanálise é exercida livremente e não é uma profissão regulamentada. Sendo assim, é uma profissão livre, reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (CBO – código 2515.50), amparada pelo Decreto nº 2.208 de 17/04/1997, que estabelece Diretrizes e Bases da Educação Nacional e pela Constituição Federal nos artigos 5º incisos II e XIII. Repisando: pode ser exercida em todo o País.

O que faz o psicanalista?

Há uma grande necessidade de psicanalistas para orientar as pessoas na solução de seus problemas existenciais, tais como: fobias, ansiedades, depressões, obsessões, impulsos auto e heteroagressivos, angústias e crises de toda ordem. O profissional de Psicanálise ajudará a sociedade a ficar mais humana e a vida a ter mais sentido!

Quem poderá fazer o curso?

Médicos, Professores, Engenheiros, Odontólogos, Advogados, Assistentes Sociais, Pedagogos, Teólogos, Enfermeiros, Pastores, Padres, Psicólogos, Contadores, etc. Este curso é dirigido a todos os interessados em adquirir conhecimentos mais profundos em Psicanálise. Aos que querem aprender a dinâmica de seus problemas emocionais e afetivos de acordo com as teorias psicanalíticas, e aos que desejam dedicar-se à Psicanálise como Terapeutas e Clinicar.

O Curso de Psicanálise oferece titulação acadêmica?

Não. Nem tão pouco os demais cursos de formação em Psicanálise existentes no País. Inexistem, também, cursos de Psicanálise no âmbito universitário e sim Especialização Lato Sensu. Concluído, o psicanalista recebe um Certificado expedido pela Sociedade e pode atuar como psicanalista em todo país. No entanto, há sociedades que não emitem sequer uma comprovação de conclusão de curso. o ITG cumpre à risca essa necessidade. O certificado de conclusão do curso de Psicanálise é reconhecido em todo o território nacional, ou apenas para São Paulo?

O certificado é válido para que você atue como psicanalista em todo território nacional sem problemas legais.

Como deve ser feito o estágio no curso presencial e no curso à distância?

O estágio para o curso presencial pode ser feito utilizando-se nossa infra-estrutura na qual você atenderá pessoas com baixa renda em nossa clínica social. Será necessária que você tenha um supervisor para orientá-los em relação às sessões. Você decidirá de acordo com a agenda de atendimento da clínica social a disponibilidade para atendimento, os dias e a hora das suas consultas. É obrigatório que você compra no mínimo 80 horas de atendimentos supervisionados. Para o curso a distância você poderá prestar esses atendimentos em alguma instituição na sua cidade e da mesma forma solicitar supervisão para estes atendimentos. São recomendadas 80 horas de atendimento supervisionado.

Ao terminar o curso abrir um consultório e trabalhar como psicanalista?

Concluído curso de psicanálise, e conseqüentemente todas as suas exigibilidades, você terá um diploma que lhe dará o título de psicanalista permitindo que você abra um consultório e trabalhar legalmente como tal.

Regulamentação

Ante o todo exposto, concluímos, pois que a psicanálise, nos dias de hoje, é uma atividade livre e não regulamentada por lei, que pode ser exercida por qualquer cidadão que possua os conhecimentos técnicos e habilidades suficientes à sua desenvoltura. Até o presente momento, não há lei que impeça o livre exercício da psicanálise, a qual não onstitui num desdobramento, especialidade ou ramo, privativo da atividade médica ou da atividade psicológica. e por não configurar um ramo privativo da profissão de médico, ou da profissão de psicólogo, a psicanálise não está vinculada ou subordinada à atividade fiscalizadora dos conselhos regionais de medicina ou dos conselhos regionais de psicologia. Porém, mesmo inexistindo regulamentação legal da profissão, o psicanalista não está isento de reparar (indenizar) os danos decorrentes do mau exercício de sua atividade.

 

Perguntas e respostas:

a) É a psicanálise uma atividade profissional livre, que pode ser exercida por qualquer cidadão, ou consiste em profissão regulamentada?

A psicanálise é uma profissão livre, que pode ser exercida por qualquer cidadão, desde que esta possua conhecimentos técnicos ou habilitação profissional suficientes ao seu desempenho

b) .É a psicanálise uma atividade privativa de médicos ou de psicólogos, e somente por estes pode ser exercida?

Não. A psicanálise é uma atividade autônoma e independente, e não constitui desdobramento, ramo ou especialidade privativa da medicina ou da psicologia, em termos legais. pode ser exerci da por qualquer cidadão, inclusive por médicos e por psicólogos, desde que detentores dos mínimos conhecimentos por tanto.

c) Caso não seja a psicanálise uma profissão regulamentada, qual lei que a regulamenta, e sob quais condições?

Prejudicado. A psicanálise, até o presente momento, não é uma profissão regulamentada, pois inexiste lei federal que a regulamente e imponha limites ao seu exercício. Convém anotar que a continuada sistematização da matéria, bem com a criação de um maior número de associações de classe, tende a forçar a regulamentação legal da profissão, a exemplo de tantas outras.

d) Existe um Conselho Federal de Psicanálise, bem como Conselhos Regionais, a exemplo do Conselho Federal de Medicina e do Conselho Federal de Psicologia? Não, pois a atividade de psicanálise não é regulamentada por lei, logo inexistentes os órgãos incumbidos de seu controle e fiscalização. Os Conselhos Federais e Regionais, como o de Medicina ou de Psicologia, são autarquias públicas federais, órgãos da administração pública indireta da união. possuem poder de polícia e agem em nome do interesse público. sua esfera de atuação emana da vontade estatal e seus atos decorrem do poder de império que administração pública possui e impõe à toda sociedade. Os atos praticados por tais entidades são unilaterais, imperativos, e coercitivos, além de gozarem da presunção de legitimidade, tais quais os demais atos perpetrados pela administração pública.

 

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ITG – Instituto Teológico Gamaliel

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Introdução à Psicanálise

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A psicanálise foi criada por Sigmund Freud (1856-1939), ele nasceu em Freiberg, mas sua família se mudou para Viena quando ele tinha três anos de idade. Freud só deixou a capital austríaca em 1938, após a ocupação nazista; já idoso e doente, instala-se em Londres. A trajetória e historia da psicanálise está indissociavelmente ligada à vida de Freud. A teoria criada por ele em Viena no início do século XX se difundiu por inúmeras áreas do saber, e seus termos circulam até mesmo em conversas coloquiais. Freud inaugurou uma nova área do conhecimento, uma nova forma de ver e pensar o mundo: as neuroses, a infância, a sexualidade, os relacionamento humanos, a subjetividade, a sociedade etc.

A psicanálise, na verdade não é uma escola da psicologia, é uma área do conhecimento independente, que surgiu como uma forma alternativa de dar conta do sofrimento psíquico e de entender o funcionamento mental como um todo. Suas noções e hipóteses teóricas são forjadas e articuladas de maneira a constituir modelos para a compreensão de fenômenos psíquicos que povoam a clínica e a vida cotidiana. A psicanálise tem seu próprio princípio organizador, sua própria episteme. Entender sua criação e desenvolvimento envolve questões epistemológicas, relações com outras áreas do conhecimento e sua contextualização através da história.

Freud teve sensibilidade e receptividade para escutar o discurso do histérico e aprender o que este tinha a lhe ensinar. Foi escutando o histérico que Freud criou a psicanálise, sua teoria, sua prática, seu método terapêutico e sua ética. Ele teve o despojamento de reconhecer a ignorância e a impotência diante de um sem número de situações, diante do sofrimento e lançou-se a busca de novos instrumentos, novos conceitos, novas técnicas.

O ambiente cultural da Áustria, o contexto iluminista pós-Revolução Industrial e a Revolução Francesa, aliada aos conhecimentos psiquiátricos, neurofisiológicos, literários, sociológicos, antropológicos e artísticos, contribuíram, segundo Colich (2005) para que Freud identificasse fenômenos mentais que iam além dos perceptíveis pela consciência.

Segundo Colich (2005), Freud procurou construir uma ciência explanatória que pudesse provar seus achados, encontrando seus fatores e agentes causais, organizados em forma de leis e princípios gerais. Olhava o cérebro e a mente como fenomenologicamente idênticos e estava preocupado com o modelo neurofisiológico, a hidrostase, a termodinâmica e o conceito darwiniano de evolução da mente. Isso influenciou de forma decisiva o modelo de inconsciente construído por Freud, estabelecendo a centralidade dos conceitos de pulsão (formulação teórica para tentar expressar a transformação de estímulos em elementos psíquicos) e recalque. Decorre daí formulações sobre “investimento”, “representação”, “resistência”, “defesas”, fases do desenvolvimento da libido”, “a teoria inicial sobre ansiedade”, a “transferência” como revivência de uma memória passada, e a “realidade psíquica”.Banner wix II

Até a Primeira Guerra Mundial vigorava uma situação de relativa centralidade em torno da figura de Freud. Mas aos poucos ocorre a formação de tradições psicanalíticas locais. Budapest, Londres, Zurique, além de Viena e Berlim, tornam-se referencia para analistas, que agora ultrapassam o laço pessoal e direto com a figura do fundador. Dunker (2005) diz que trata-se agora de pequenos grupos à procura de autolegitimação e reconhecimento no quadro de um movimento psicanalítico cada vez mais extenso e impessoal.

O modelo psicanalítico da mente considera que a atividade mental é baseada no papel central do inconsciente dinâmico. O contato com a realidade teórica da psicanálise põe em evidência uma multiplicidade de abordagens, com diferentes níveis de abstração, conceituações conflitantes e linguagens distintas. Mas isso deve ser entendido um em um contexto histórico cultural e em relação as próprias características do modelo psicanalítico da mente.

Colich, J. C. Modelos Psicanalíticos da Mente. In: Eizirik, C. L.; Aguiar, R. G. de; Schestatsky, S. S. (orgs). Psicoterapia de Orientação Analítica: fundamentos teóricos e clínicos. Porto Alegre: Artmed, 2005.

Dunker, C. I. L. Aspectos Históricos da Psicanálise Freudiana. In: Jacó-Vilela, A. M.; Ferreira, A. A. L.; Portugal, F. T. Historia da Psicologia: rumos e percursos. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2005.

Winnicott – Principais Conceitos

Para Winnicott a criança nasce indefesa. É um ser desintegrado, que percebe de maneira desorganizada os diferentes estímulos provenientes do exterior. O bebê nasce também com uma tendência para o desenvolvimento. A tarefa da mãe é oferecer um suporte adequado para que as condições inatas alcancem um desenvolvimento ótimo.

Holding

Para Winnicott a sustentação ou holding protege contra a afronta fisiológica. O holding deve levar em consideração a sensibilidade epidérmica da criança – tato, temperatura, sensibilidade auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade às quedas – assim como o fato de que a criança desconhece a existência de tudo o que não seja ela própria. Inclui toda a rotina de cuidados ao longo do dia e da noite. A sustentação compreende, em especial, o fato físico de sustentar a criança nos braços, e que constitui uma forma de amar. A mãe funciona como um ego auxiliar.

Winnicott propõe que, durante os últimos meses de gestação e primeiras semanas posteriores ao parto, produz-se na mãe um estado psicológico especial, ao qual chamou de “preocupação materna primaria”. A mãe adquire graças a esta sensibilização, uma capacidade particular para se identificar com as necessidades do bebê.

HoldingO holding feito pela mãe é o fator que decide a passagem do estado de não-integração, que caracteriza o recém-nascido, para a integração posterior. O vínculo entre a mãe e o bebê assentará as bases para o desenvolvimento saudável das capacidades inatas do indivíduo.

Self Verdadeiro e Falso Self

O ser humano, para Winnicott, nasce como um conjunto desorganizado de pulsões, instintos, capacidades perceptivas e motoras que conforme progride o desenvolvimento vão se integrando, até alcançar uma imagem unificada de si e do mundo externo. (Bleicmar e Bleicmar, 1992).

O papel da mãe é prover o bebê de um ego auxiliar que lhe permita integrar suas sensações corporais, os estímulos ambientais e suas capacidades motoras nascentes.

Quando a mãe não fornece a proteção necessária ao frágil ego do recém-nascido; a criança perceberá esta falha ambiental como uma ameaça à sua continuidade existencial, a qual, por sua vez, provocará nela a vivência subjetiva de que todas as suas percepções e atividades motoras são apenas uma resposta diante do perigo a que se vê exposta. Pouco a pouco, procura substituir a proteção que lhe falta por um “fabricada” por ela. O sujeito vai se envolvendo em uma casca, às custas da qual cresce e se desenvolve o self. O individuo vai se desenvolvendo como uma extensão da casca, como uma extensão do meio atacante.

Winnicott diz que a “mãe boa” é a que responde a onipotência do lactante e, de certo modo, dá-lhe sentido. O self verdadeiro começa a adquirir vida, através da força que a mãe, ao cumprir as expressões da onipotência infantil, dá ao ego débil da criança. A mãe que “não é boa” é incapaz de cumprir a onipotência da criança, pelo que repentinamente deixa de responder ao gesto da mesma, em seu lugar coloca o seu próprio gesto, cujo sentido depende da submissão ou acatamento do mesmo por parte da criança. Esta submissão constitui a primeira fase do self falso e é própria da incapacidade materna para interpretar as necessidades da criança.

Nos casos mais próximos da saúde, o self falso age como uma defesa do verdadeiro, a quem protege sem substituir. Nos casos mais graves, o self falso substitui o real e o indivíduo. Winnicott diz que na saúde o self falso se encontra representado por toda a organização da atitude social cortês e bem educada. Produziu-se um aumento da capacidade do individuo para renunciar a onipotência e ao processo primário, em geral, ganhando assim um lugar na sociedade que jamais se pode conseguir manter mediante unicamente o self verdadeiro. O falso self, especialmente quando se encontra no extremo mais patológico da escala, é acompanhado geralmente por uma sensação subjetiva de vazio, futilidade e irrealidade.

Objeto transicional

O objeto transicional representa a primeira posse “não-ego” da criança, têm um caráter de intermediação entre o seu mundo interno e externo.

Em Winnicott o conceito de objeto ou fenômeno transicional recebe três usos diferentes: um processo evolutivo, como etapa do desenvolvimento; vinculada às angústias de separação e às defesas contra elas; representando um espaço dentro da mente do indivíduo. Ele propõe ainda que em determinadas condições, o fenômeno ou objeto transicional pode ter uma evolução patológica, ou mesmo se associar a certas condições anormais.

O objeto transicional é algo que não está definitivamente nem dentro nem fora da criança; servirá para que o sujeito possa experimentar com essas situações, e para ir demarcando seus próprios limites mentais em relação ao externo e ao interno. Bleichmar e Bleichmar (1992) dizem que o objeto transicional está situado em uma zona intermediária, na qual a criança se exercita na experimentação com objetos, mesmo que estejam fora, sente como parte de si mesma.

Para explicar a constituição do objeto transicional, Winnicott remonta ao primeiro vínculo da criança com o mundo externo, a relação com o seio materno. No princípio, a criança tem uma ilusão de onipotência, vivenciando o seio como sendo parte do seu próprio corpo. Mas, uma vez alcançada esta onipotência ilusória, a mãe deve idealmente, ir desiludindo a criança, pouco a pouco, fazendo com que o bebê adquira a noção de que o seio é uma “possessão”, no sentido de um objeto, mas que não é ele (“pertence-me, mas não sou eu”).

Objeto TransicionalO objeto transicional ocupa para um lugar que Winnicott chama de ilusão. Ao contrario do seio, que não está disponível constantemente, o objeto transicional é conservado pela criança. Ela é quem decide a distância entre ela e tal objeto. Como os fenômenos transacionais “representam” a mãe é essencial que ela seja vivenciado como um objeto bom. Bleichmar e Bleichamar (1992) relatam que, quando dentro da criança, o objeto materno está danificado, é pouco provável que ela recorra, de maneira constante, a um fenômeno transicional.

Winnicott aponta algumas características que são comuns aos objetos transicionais: a criança afirma uma série de direitos sobre o objeto; o objeto é afetuosamente ninado e excitadamente amado e mutilado; deve sobreviver ao ódio, ao amor, e à agressão. É muito importante que o objeto sobreviva à agressão, possibilitando a criança neutraliza-la, dando-lhe, posteriormente, um fim construtivo, ao notar que esta não destrói os objetos.

A ligação e o afastamento do objeto transicional deixa em cada sujeito uma marca: fica na mente do indivíduo um espaço que, assim como o objeto transicional, é intermediário entre o interno e o externo. É nesse espaço que se produz muitas das atividades criativas do homem, como as artes, a musica, etc. que “representam” o mundo interno para o exterior e, em certo sentido, “representa” a realidade para si mesmo.

Desenvolvimento psíquico

Winnicott propõe que a maturação emocional se dê em três etapas sucessivas: a da integração e personalização, a da adaptação à realidade e a de pré-inquietude ou crueldade primitiva.

Integração e personalização

Para Winnicott as experiências iniciais ou diádicas são estruturantes do psiquismo, participam da organização da personalidade e dos sintomas. O bebê nasce em um estado de não integração. Onde os núcleos do ego estão dispersos e, para o bebê, estes núcleos estão incluídos em uma unidade que ele forma com o meio ambiente. A meta desta etapa é a integração dos núcleos do ego e a personalização – adquirir a sensação de que o corpo aloja o verdadeiro self. O objeto unificador do ego inicial não integrado da criança é a mãe e sua atenção (holding).

Na etapa inicial de desenvolvimento a questão primordial é a presença de uma mãe-ambiente confiável que se adapte às suas necessidades de maneira virtualmente perfeita. Gurfinkel (1999) lembra que Winnicott inclui entre as “necessidades do ego” tanto os cuidados físicos quanto os psíquicos. Nem a realização mecânica das tarefas físicas ligadas ao lidar com o bebê, e nem a resposta imediata às suas demandas pulsionais implicam a satisfação das necessidades do ego.

A integração é obtida a partir de duas séries de experiências: por um lado tem especial importância a sustentação exercida pela mãe, que “recolhe os pedacinhos do ego”, permitindo a criança que se sinta integrada dentro dela; por outro lado há um tipo de experiência que tende a reunir a personalidade em um todo, a partir de dentro (a atividade mental do bebê). Chega um período em que a criança, graças às experiências citadas, consegue reunir os núcleos do seu ego, adquirindo a noção de que ela é diferente do mundo que a rodeia. Esse momento de diferenciação entre “eu” e “não-eu” pode ser perigoso para o bebê, pois o exterior pode ser sentido como perseguidor e ameaçador. Essas ameaças são neutralizadas, dentro do desenvolvimento sadio, pela existência do cuidado amoroso por parte da mãe.

A personalização – definida por Winnicott como “o sentimento de que a de que a pessoa de alguém encontra-se no próprio corpo”. O autor propõe que o desenvolvimento normal levaria a alcançar um esquema corporal, chamando-o de unidade psique-soma. Gurfinkel (1999) diz que a psique e o soma – que formam o esquema corporal de todo indivíduo – interpenetram-se e desenvolvem-se em uma relação dialética, e apresentam o paradoxo da diversidade na unidade.

Para Winnicott mente e psique são conceitos diferentes; trata-se de registros relacionados, mas heterogêneos. A psique é a elaboração imaginativa das partes, sentimentos e funções somáticas e não se separa, nem se divide do soma. A mente, no desenvolvimento saudável, não é nada mais do que um caso particular do funcionamento do psicossoma, surgindo como uma especialidade a partir da parte psíquica do psicossoma.

Adaptação à realidade

Winnicott e uma CriançaA medida que o desenvolvimento progride, a criança tem um ego relativamente integrado, e com a sensação de que o núcleo do si-próprio habita o seu corpo. Ela e o mundo são duas coisas separadas. A etapa seguinte é conseguir alcançar uma adaptação à realidade.

Nessa etapa a mãe tem o papel de prover a criança com os elementos da realidade com que irá construir a imagem psíquica do mundo externo. A adaptação absoluta do meio ao bebê se torna adaptação relativa, através de um delicado processo gradual de falhas em pequenas doses.

Bleichmar e Bleichmar (1992) dizem que para Winnicott a fantasia precede a objetividade, e o seu enriquecimento com aspectos da realidade depende da ilusão criada pela mãe; tudo repousa no vínculo precoce da criança com sua mãe. Mas o acoplamento entre alucinação infantil e os elementos da realidade fornecidos pela mãe nunca poderá ser perfeito. No entanto, o lactante pode vivê-lo como quase ótimo, graças a uma parte de sua personalidade, que procura preencher o vazio entre alucinação e realidade – a mente.

Winnicott considera que a atividade mental da criança faz com que um meio ambiente suficiente se transforme em um perfeito, converte o relativo fracasso da adaptação em um sucesso adaptativo. O autor fala que o que libera a mãe de ser quase perfeita é a compreensão da criança.

A mente se desenvolve através da capacidade de compreender e compensar as falhas; é uma função do ambiente à medida que ele começa a falhar, Gurfinkel (1999) diz que é apenas à medida que o ambiente falha que ele começa a existir para o bebê enquanto realidade. Portanto, se no início, a tarefa da mãe é adaptar-se de maneira absoluta às necessidades do bebê, em seguida, será de fundamental importância que ela possa fornecer um fracasso gradual da adaptação para que a função mental do bebê se desenvolva satisfatoriamente. O resultado disto será a emergência da capacidade do próprio sujeito de cuidar de seu self, atingindo um estágio de dependência madura.

Quando p ambiente não proporciona os cuidados que o psicossoma considera como elementares, a mente se vê obrigada a uma hiperatividade, o pensamento do indivíduo começa a assumir o controle e a organizar o cuidado ao psique-soma, podendo ocasionar uma oposição entre mente e psicossoma, ocasionado um distanciamento do verdadeiro self. Em estado de saúde, a mente não usurpa as funções do meio, mas possibilita uma compreensão e eventual aproveitamento de sua falha relativa.

Crueldade primitiva (fase de pré-inquietude)

Depois de a criança ter alcançado a diferenciação entre ela e o meio circundante e se adaptar em certa medida à realidade, pela absorção de pautas objetivas dela, que modificam suas fantasia, o último passo que deve dar é integrar em um todo as diferentes imagens que tem de sua mãe e do mundo.

Winnicott pensa que a criança pequena tem uma cota inata de agressividade, que se exprime em determinadas condutas auto-destrutivas. O bebê volta seu ódio sobre si mesmo para proteger o objeto externo; mas esta manobra não é suficiente e em sua fantasia a mãe pode ficar intensamente danificada. (Bleichmar e Bleichmar, 1992).

A mãe é, além do objeto que recebe, em certos momentos, a agressão da criança, é também aquela que cuida dela e a protege. Quando a criança exprime raiva e recebe amor, a criança confirma que a mãe sobreviveu e é um ser separado dela. O bebê adquire a noção de que suas próprias pulsões não são tão danosas e pode, pouco a pouco, aceitar a responsabilidade que possui sobre elas.

Bleichmar e Bleichmar (1992) dizem que simultaneamente a mãe que é agredida e a mãe que cuida vão se aproximando na mente do indivíduo, que assim adquire a capacidade de se preocupar com seu bem-estar, como objeto total. Isto constitui o grande sucesso que, que Winnicott identifica como a última das etapas do desenvolvimento emocional primitivo.

Gurfield, Décio. Psicanálise e Psicossoma: notas a partir do pensamento de Winnicott. In: Volich, R. M.; Ferraz, F. C.;

Arantes, M. A. de A. C. Psicossoma II – psicossomática psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.

Bleichmar, N. M. e Bleichmar, C. L. A Psicanálise depois de Freud: teoria e clínica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

Oliveira, C. A. Disponível em:

http://www.psicologia.org.br/internacional/winncar.htm. 17 de julho de 2008.

Santos, Eder Soares. A Teoria do Amadurecimento de D. W. Winnicott como Ciência Ôntica da Acontecência Humana – apresentação do projeto de doutorado. http://www.psicanaliseefilosofia.com.br/eder/doutorado.pdf. 17 de julho de 2008.

Introdução à teoria de Winnicott

download (5)Winnicott foi um dos primeiros autores a hierarquizar o papel da mãe no funcionamento mental da criança. Ele considerou que a mãe intervém como ativa construtora do espaço mental da criança. Santos (2008) diz que na teoria psicanalítica de Winnicott o ser humano não é apresentado como um objeto da natureza, mas sim como uma pessoa que para existir precisa do cuidado e atenção de um outro ser humano.

Para Winnicott o objeto externo é muito mais do que um modulador das projeções da criança. A mãe participa de uma verdadeira unidade com o seu filho, ajuda a formar sua mente, fazendo com que este processo seja bem feito. “Ao lhe dar amor, fornece-lhe uma espécie de “energia vital”, que o faz progredir e amadurecer.” (Bleichmar e Bleichmar, 1992, pág. 246). Winnicott acreditava que a mãe suficientemente boa é aquela que possibilita ao bebê a ilusão de que o mundo é criado por ele, concedendo-lhe, assim, a experiência da onipotência primária, base do fazer-criativo. E a percepção criativa da realidade é uma experiência do self, núcleo singular de cada indivíduo.

Gurfinkel (1999) destaca que para a teoria psicanalítica de Winnicott o que está em questão não é a vida erótica do sujeito, mas a conquista de um lugar para viver, ou a base do self no corpo. A localização do self no corpo não é uma experiência dada desde sempre, mas sim o fruto de um desenvolvimento sadio.

Ao se estudar o primeiro vínculo emocional com a mãe, em termos de experiência sensoriais, afetivas e de constituição do psiquismo, passa-se de uma postura edípica a uma bipessoal, do falo ao seio, do triangulo à relação com a mãe.” (Bleichmar e Bleichmar, 1992, pág. 243)

Winnicott acreditava no potencial criativo humano, a noção de um ser humano que já traz em si as potencialidades do viver. Santos (2008) diz que o que está em jogo na natureza humana e o que a constitui é o seu acontecimento como ser humano, isto é, a sua continuidade de ser como pessoa. Winnicott recusa decididamente o naturalismo e o determinismo, isto é, recusa a objetificação do ser humano. Ele não concebe o ser humano como um mero fato, um efeito de causas, uma coisa em conexão causal com outras coisas da natureza.

Ele localiza o início dos problemas psicológicos no vínculo entre recém-nascido e mãe. A base da estabilidade mental depende das experiências iniciais com a mãe e, principalmente, de seu estado emocional. Na abordagem winnicottiana o analista deve oferecer ao paciente o que não teve, criando processos que nunca existiram, capacidades e funções psicológicas, dotando seu paciente de estruturas ausentes.

Winnicott acredita que há três espaços psíquicos. O interno, o externo e o transicional. O espaço transicional é uma zona intermediária, que vai do narcisismo primário ao julgamento de realidade. No início há objetos que não são internos nem externos, só depois virá a delimitação entre ambos. A mãe deve juntar os pedacinhos, permitindo que a criança se sinta dentro dela. A mãe, ao nomear o filho unifica-o.

O ambiente deve se adaptar adequadamente à criança, para formar seu verdadeiro self. Se a mãe se adequa de uma forma suficientemente boa, não interfere no desenvolvimento da criança. Não é a mãe que molda completamente a criança – esta tem sua autonomia, com sua capacidades inatas de desenvolvimento – a mãe assegura o ponto de referência para que o processo continue. Winnicott crê que ao sair do narcisismo primário, o destino do sujeito depende do fracasso ou do êxito do ambiente.

Não considera os fatores internos tão determinantes quanto os externos. Enquanto para Melanie Klein o ambiente era um fator importante, mas não concentrava nele sua atenção, para Winnicott o ambiente era um elemento fundamental, a ponto de considerar as falhas ambientais como a etiologia principal dos quadros psicopatológicos.

A mãe deve funcionar como “ego-auxiliar” da criança. Quando a sustentação exercida pela mãe for bem sucedida, a criança a vive como uma “continuidade existencial”; no entanto, quando falha, o bebê terá uma experiência subjetiva de ameaça, que obstaculiza o desenvolvimento normal. A falta de holding adequado provoca uma alteração no desenvolvimento, cria-se uma “casca” (o falso self) em extensão da qual o individuo cresce, enquanto o “núcleo” (o verdadeiro self) permanece oculto e sem poder se desenvolver. O falso self surge pela incapacidade materna de interpretar as necessidades da criança.

O desenvolvimento do falso self às custas do verdadeiro self, se relaciona a uma amplitude na escala de psicopatologia que irá desde sensações subjetivas de vazio, futilidade e irrealidade até tendências anti-sociais, psicopatia, caracteropatias e psicoses.

Algumas de suas contribuições mais importantes de Winnicott são suas idéias sobre oobjeto transicional, a diferença entre self verdadeiro e falso, a noção de sustentação ou holding e as muitas aberrações entre o desenvolvimento emocional infantil.

Introdução ao Conceito de Pulsão

download (4)Freud (1916) define pulsão como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam no corpo – dentro do organismo – e alcança a mente, como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo.

Freud fala que não existe um caminho natural para a sexualidade humana. Não há uma maneira única de satisfazer o desejo, o que confere ao humano a sina de estar sempre insatisfeito frente a este . É em nome desses desvios que Freud fala em pulsão sexual (trieb) e não em instinto (instinkt), que é um padrão de comportamento, hereditariamente fixado e que possui um objeto especifico, enquanto a Trieb não implica nem comportamento pré-formado, nem objeto especifico.

Em Escritos, Lacan (1998) diz que:

 A pulsão, tal como é construída por Freud a partir da experiência do inconsciente, proíbe ao pensamento psicologizante esse recurso ao instinto com ele mascara sua ignorância, através de uma suposição de uma moral na natureza. (Lacan, 1998, pág.865).

Em O Inconsciente (Das Unbewusste) Freud (1915) fala que a antítese entre consciente einconsciente não se aplica às pulsões; se a pulsão não se prendeu a uma idéia ou não se manifestou como um estado afetivo, nada poderemos saber sobre ela.

A pulsão nunca se dá por si mesma, nem a nível consciente, nem a nível inconsciente; ela só é conhecida pelos seus representantes: o representante ideativo (vorstellung) e o afeto (affekt).

O afeto é a expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional. Afetos correspondem a processos de descarga, cujas manifestações finais são percebidas como sentimentos. Os destinos do afeto e do representante ideativo são diferentes. Os afetos não podem ser recalcados. Portanto não se pode falar em afeto inconsciente; os afetos são sentidos a nível consciente, embora não possamos determinar a origem do afeto ao sentir suas manifestações. Os representantes ideativos são catexias, basicamente de traços de memória.

O afeto não pode ser recalcado (não pertence ao sistema inconsciente), mas ele sofre as vicissitudes do recalque: o afeto pode permanecer; ser transformado (principalmente em angústia); ou é suprimido.

Freud (1915) fala que suprimir o desenvolvimento do afeto constitui a verdadeira finalidade do recalque e que seu trabalho ficará incompleto se essa finalidade não for alcançada. O controle do consciente sobre a motilidade voluntária se acha firmemente enraizada, suporta regularmente a investida da neurose e só cessa na psicose. O controle do consciente sobre o desenvolvimento dos afetos é menos seguro.

O recalcamento provoca uma ruptura entre o afeto e a idéia a qual ele pertence, e cada um deles passam por vicissitudes diversas. Mas Freud (1915) diz acreditar que de modo geral, o afeto não se apresenta até que o irromper de uma nova apresentação do sistema consciente tenha sido alcançada com êxito.

Garcia-Roza (2005) diz ser a pulsão o instinto que se desnaturalizou, que se desvia de suas fontes e de seus objetos específicos; ela é o efeito marginal desse apoio-desvio. A pulsão se apóia no instinto, mas não se reduz a ele. Zimerman, (1999) diz que o apoio marca não a continuidade entre o instinto e a pulsão, mas a descontinuidade entre ambos, transformando o somático em psíquico, com as respectivas sensações das experiências emocionais primitivas, o indivíduo vai construindo o seu mundo interno de representações.

Em o Instinto e suas Vicissitudes (1915) Freud localiza a pulsão como tendo uma “pressão”; uma “finalidade” ou “objetivo”; seu “objeto” e sua “fonte”.

A Pressão (drang)

A pressão é o fator motor da pulsão, a quantidade de força ou exigência do trabalho que ela representa. A rigor, não existe pulsão passiva, apenas pulsões cuja finalidade é passiva. (Freud, 1915). Toda pulsão é ativa e a pressão é a própria atividade da pulsão.

Desde o Projeto para uma Psicologia Cientifica (1895), Freud define a pressão como o elemento motor da pulsão que impele o organismo para a ação especifica responsável pela eliminação da tensão.

A Finalidade ou objetivo (ziel)

A finalidade da pulsão é sempre a satisfação, sendo que a satisfação é definida como a redução da tensão provocada pela pressão. Freud (1915) fala que as pulsões podem ser inibidas em sua finalidade, mas mesmo nesses mecanismos há uma satisfação substitutiva, parcial.

O objeto (objekt)

É uma coisa em relação a qual ou através da qual o instinto é capaz de atingir sua finalidade. (Freud, 1915). É o que há de mais variável em uma pulsão.

Garcia-Roza (2005) fala que objeto (objekt) para Freud não é aquilo que se oferece a consciência, mas algo que só tem sentido enquanto relacionado à pulsão e ao inconsciente.

A Fonte (quelle)

A fonte é o processo somático que ocorre num órgão ou parte do corpo, e cujo estimulo é representado na vida mental por uma pulsão (trieb).

Uma pulsão não pode ser destruída nem inibida, uma vez tendo surgido, ela tende de forma coerciva para a satisfação. Aquilo sobre o qual vai incidir a defesa é sobre os representantes psíquicos da pulsão.

Os destinos dos representantes ideativos são: reversão ao seu oposto, retorno em direção ao próprio eu, recalcamento, sublimação. Os destinos do afeto: transformação do afeto (obsessões) deslocamento do afeto (histeria de conversão), troca do afeto (neurose de angústia e melancolia).

A reversão da pulsão em seu oposto transforma-se em dois processos diferentes: uma mudança da atividade para a passividade e uma reversão do seu conteúdo. Do primeiro temos o exemplo do sadismo e do masoquismo. A reversão afeta apenas a finalidade da pulsão (amor transforma-se em ódio, por exemplo).

As vicissitudes pulsionais que consistem no fato de a pulsão retornar em direção ao próprio ego do sujeito e sofrer reversão da atividade para a passividade, se acham na dependência da organização narcisista do ego e trazem o cunho dessa fase. (Freud, 1915)

Economia das Pulsões

Do ponto de vista econômico, as manifestações das pulsões sexuais são ligadas à existência de uma força de uma energia especifica chamada libido.

A catexia – que é o investimento de energia pulsional – alude ao fato de que certa quantidade de energia psíquica esteja ligada a um objeto, tanto externo como a seu representante interno, numa tentativa de reencontrar as experiências de satisfação que lhe estejam correlacionadas. (Zimerman,1999)

Depois da experiência de satisfação, a representação do objeto satisfatório, fortemente investida, orientara o sujeito para a busca do mesmo objeto. O termo objeto pode designar tanto o objeto da pulsão quanto o objeto de amor do sujeito.

O objeto do investimento pulsional pode ser o próprio sujeito, que é o caso do narcisismo.

Freud, Sigmund (1915). O Inconsciente. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, Sigmund (1916). Instinto e suas Vicissitudes. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, Sigmund (1895). Projeto para uma Psicologia Científico: In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Vol. I, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1996.

Lacan, Jacques Marie-Emilie. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

Roza, Luiz Alfredo Garcia. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

Zimerman, David E. Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.

Jacques Lacan – Biografia

download (4)Em Paris no dia 13 de abril de 1901 nascia Jacques Marie Émile Lacan – um ano depois do lançamento da obra a “Interpretação dos sonhos”, de Sigmund Freud. Lacan era o primogênito de uma próspera família católica, burgueses de origem provinciana. Seu irmão caçula Marc Marie nasceu seis anos depois e veio a entrar para a ordem dos beneditinos.

O pai de Lacan era Alfred Lacan que não se ocupava de coisas intelectuais. Já a sua mãe,Emile Baudry, proporciona ao filho uma vasta cultura cristã e um ardoroso misticismo.

Jacques Lacan não renega a cultura religiosa que recebeu, mas abandona toda a crença em Deus e toda participação na prática cristã. Isso fica marcado pela decisão de não mais usar o prenome Marie ligado a Jacques.

Lacan estudou no Colégio Stanislas, dirigido por jesuítas. Sempre foi um aluno brilhante. Em 1919 Lacan matricula-se na faculdade de medicina, no ano seguinte começou o curso e a partir de 1926 especializou-se em psiquiatria. Paralelamente estudava literatura e filosofia e se aproximou do movimento surrealista. Fez amizade com René e Salvador Dali, encontra Breton, lê os trabalhos de Pichon, em quem admira um novo mestre da língua.

Dois dos grandes mestres do jovem Lacan foram: Henri Wallon (e sua teoria do estágio do espelho); e Alexandre Kojéve (nos seus comentários sobre Hegel).

Revoltado com o crescimento nos Estados Unidos da escola da “Psicologia do Ego”, que Lacan acreditava estar deturpando o real sentido da psicanálise, resolveu dirigir seus estudos para uma releitura de Freud.

Lacan é um autor polêmico – discutido e admirado, para alguns teóricos é considerado o maior psicanalista depois de Freud, ou até mesmo do seu porte; para os seus críticos, a teoria lacaniana é um retrocesso da psicanálise, um desvirtuador da teoria freudiana. Amado ou odiado… Lacan jamais passa despercebido.

Entre 1928 e 1929 trabalha como interno ao Serviço de Enfermaria Especial da Delegacia de Polícia, dirigida por Clérambault, a quem no futuro Lacan veio a reconhecer como o seu único mestre em psiquiatria.

Entre 1929 e 1930 passa no Instituto de Psiquiatria e de Profilaxia Mental do Hospital Henhi-Roussele.

Em 1931 após examinar Marguerite Pantaine, que havia tentado assassinar a atriz Huguette Duflos, escreve uma monografia que está na gênese da sua tese de doutorado.

Em 1932 inicia sua análise com Rudolf Loenstein. Defende sua tese de doutorado “Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade”. Lacan envia um volume de sua tese para Freud, recebendo como resposta apenas um cartão postal.

Em 1934 Lacan casa-se com Marie Louise Blondin com quem tem três filhos: Caroline (1937), Thibault (1939) e Sybille (1940). Neste mesmo ano decide orientar-se para a psicanálise. É nomeado médico dos Asilos e adere a “Société Psychanalytique de Paris” (SPP) (que foi fundada em 1926.

Em 1936, obtém o título de Médico dos Hospitais Psiquiátricos; torna-se membro da Sociedade Psicanalítica de Paris (SSP). Nesse mesmo ano inicia relações com Sylvia Bataille. E em 1941 separa-se de sua primeira esposa e tem uma filha Judith Sofhie, filha de Lacan com Sylvia.

Em 1951 dá início aos Seminários, uma série de apresentações orais que foram reunidos em livros. A técnica de sessões curtas gera controvérsias na SSP.

Em 1953 faz conferencias fundamentais como: O Mito Individual do Neurótico (em que utiliza pela primeira vez a expressão Nome-do-Pai); O Real o Simbólico e o Imaginário (onde coloca suas teorias sob o signo do retorno a Freud); Função e Campo da palavra e da Linguagem em Psicanálise. Deixa a SSP junto com Françoise Dolto, Daniel Lagache e outros 40 analistas. Funda a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP). Realiza o Seminário Os Escritos Técnicos de Freud (esse foi o primeiro Seminário de Lacan que foi registrado por estenotipista, possibilitando posterior publicação).

A IPA não vê com bons olhos a rebeldia de Lacan às regras técnicas em vigor. Lacan interrompe sessões a seu gosto, recebe pessoas a qualquer hora, fica muitíssimo com um cliente num dia e, no outro, dez minutos… Come refeições durante as sessões, anda de um lado para o outro, aceita famílias em análise. A técnica lacaniana é alvo de uma contestação permanente. Em 1951, a comissão de ensino exige que Lacan regule sua situação.

Em 1963 a IPA admite a filiação da SFP. Em 1964 Lacan fundou a Escola Freudiana de Paris (EFP) com antigos alunos como: Françoise Dolto, Maud e Octave Mannoni, Serge Leclaire, MOustapha Safouan e François Perrier. A formação lacaniana é complexa e bem mais exigente que a universitária; é uma formação de um a um, não há padronização. Na teoria lacaniana o analista empresta conseqüência às palavras do analisando.

Em 1966 reúne seus escritos em um único volume os Escritos. Em 1967 propõe a criação do “passe”, que seria um dispositivo regulador da formação do analista. Em 1980 ele anuncia a dissolução da EFP e funda em outubro a Escola da Causa Freudiana. v

Sigmund Freud – Biografia

Embora Freud fosse agnóstico (A posição agnóstica é caracterizada por considerar que certas realidades são icognoscíveis, o que tornaria supérflua qualquer especulação ou discussão sobre, nesse caso, a existência de Deus (Loureiro (2005)), a educação judaica lhe proporciona um sólido conhecimento da Bíblia, bem como a familiaridade com procedimentos e técnicas de interpretação dos textos sagrados.

Influências das Artes e Literatura

Em suas obras Sigmund Freud cita grandes nomes da literatura universal (Sófocles, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Henrik Ibsen, Fiodor Dostoieski) e contemporâneos de todas as matizes (Thomas Mann, Emile Zola, Mark Twain); sobressaem os autores de língua alemã, como Heinrich Heine, Friedrich Schiller e Johann Wolfgang von Goethe (figura central no universo intelectual de Freud, e citado por ele mais de uma centena de vezes em seus escritos). Demonstra também grande interesse pela escultura (Michelangelo) e pela pintura (Leonardo da Vinci, Herman von Riju Rembrandt).

Em 1896 Freud iniciou sua célebre coleção de antiguidades, composta por mais de 2000 peças, das mais variadas procedências; que testemunha o grande interesse de Freud por civilizações antigas e pela arqueologia.

FreudO interesse artístico-literário de Freud se infiltra profundamente na psicanálise, e estilo freudiano de escrita e argumentação é bastante “literário”.  Loureiro (2005) relata que a prosa elegante de Freud foi admirada por muitos críticos e o único prêmio que Freud recebeu em vida, o Prêmio Goethe (1930), foi-lhe atribuído pelas qualidades literárias de sua obra.

Sob a influência de uma amizade formada na escola com um menino mais velho, Freud desenvolveu o desejo de estudar direito e de dedicar-se a atividade sociais. Ao mesmo tempo, as teorias de Darwin atraíram-lhe a atenção, “pois ofereciam esperanças de extraordinário progresso em nossa compreensão do mundo” (Freud, 1935); e foi ouvindo o ensaio de Goethe sobre a Natureza, lido em voz alta numa conferência popular pelo professor Carl Brühl pouco antes de ter deixado a escola, que Freud resolveu tornar-me estudante de medicina.

Ao completar a escola secundária, o jovem Freud já sabia latim, grego, judeu, alemão, francês, inglês e tinha ainda noções de italiano e espanhol.

Formação Médica e Estudos em Fisiologia

Em 1873 ingressou na universidade de medicina, sofrendo grande preconceito por ser judeu. Entre 1876 e 1888 com breves interrupções trabalhou no laboratório de fisiologia de Ernst Brücke e seus assistentes Sigmund Exner e Ernst Fleischl von Marxow.  Recebeu seu título de doutor em 1881.

Devido a sua situação financeira desfavorável, Freud se viu impelido a abandonar a carreira de teórico ingressou no Hospital Geral como Aspirant (assistente clínico). Logo depois foi promovido a Sekundararzt (médico estagiário ou interno), e trabalhou em vários departamentos do hospital, entre outros por mais de seis meses sob a orientação de Meynert, cujo trabalho e personalidade muito lhe haviam impressionado quando ainda era estudante.

Meynert propôs que Freud devia dedicar-se inteiramente à anatomia do cérebro e prometeu passar-lhe suas atividades como conferencista, visto sentir-se velho demais para lidar com os métodos mais novos. Havia naquela época, em Viena, poucos especialistas em neurologia, o material para seu estudo estava distribuído por grande número de diferentes departamentos do hospital, não havia oportunidade satisfatória para aprender a matéria, e se era forçado a ser professor de si mesmo. (Freud, 1935)

Em 1885, foi nomeado conferencista (Dozent) de neuropatologia com base em suas publicações histológicas e clínicas. Logo depois, como resultado de caloroso testemunho de Brücke, foi concedida uma bolsa de estudos que possibilitou sua viajem para Paris para assistir às aulas de Charcot.

Aulas com Charcot

Freud (1935) declara que no início Charcot dispensava-lhe pouca atenção; mas Charcot um dia em uma de suas aulas declarou que estava necessitando de um tradutor de alemão para suas conferências, prosseguiu dizendo que ficaria satisfeito se alguém se encarregasse de verter o novo volume de suas conferências para o alemão. Freud ofereceu-lhe seus préstimos. Charcot aceitou a oferta, foi admitido no círculo de seus conhecidos pessoais, e a partir dessa época tomou parte integral em tudo que se passava na clínica.

Antes de partir de Paris, Freud examinou com Charcot um plano para um estudo comparativo das paralisias histéricas e orgânicas. Freud desejava estabelecer a tese de que na histeria as paralisias e anestesias das várias partes do corpo se acham demarcadas de acordo com a idéia popular dos seus limites e não em conformidade com fatos anatômicos. Mas na realidade Charcot não teve qualquer interesse especial em penetrar mais profundamente nesse estudo. (Freud, 1935)

No outono de 1886, fichou-se em Viena como médico e casou-se com Martha. Cabia-lhe apresentar um relatório perante a ‘Gesellschaft der Aerzte’ (Sociedade de Medicina) sobre o que vira e aprendera com Charcot. Teve, porém, má recepção. Pessoas de autoridade declararam que o que ele disse era inacreditável. Meynert desafiou-lhe a encontrar alguns casos em Viena semelhantes àqueles que ele descrevera e a apresentá-los perante a sociedade. Foi excluído do laboratório de anatomia cerebral e durante intermináveis trimestres não teve onde pronunciar suas conferências; afastou-se da vida acadêmica e deixou de freqüentar as sociedades eruditas.

Josef Breuer

Enquanto ainda trabalhava no laboratório de Brücke, Freud travara conhecimento com o Dr. Josef Breuer que era um dos médicos de família mais respeitados de Viena. Antes da viagem de Freud a Paris, Breuer já havia lhe falado sobre um caso de histeria que, entre 1880 e 1882, ele havia tratado de maneira peculiar, o qual lhe permitira penetrar profundamente na acusação e no significado dos sintomas histéricos. Freud fez um esboço desse caso a Charcot, que não demonstrou nenhum interesse no assunto.

A paciente, que mais tarde ficou conhecida nos livros de psicanálise como Ana O. (Berta Papenheim), tinha sido uma jovem de educação e dons incomuns, que adoecera enquanto cuidava do pai, pelo qual era devotamente afeiçoada. Quando Breuer se encarregou do caso, esta apresentava um quadro variado de paralisias com contraturas, inibições e estados de confusão mental. Ela podia ser aliviada de seus sintomas se fosse induzida a expressar em palavras a fantasia emotiva pela qual se achava no momento dominada. A partir dessa descoberta, Breuer chegou a um novo método de tratamento. Ele a levava a uma hipnose profunda e fazia-a dizer-lhe, de cada vez, o que era lhe oprimia a mente. Esta paciente, durante o estado de transe hipnótico, recordava uma série de ocorrências traumáticas que aconteceram em um passado remoto, e das quais ela não lembrava quando em estado consciente.Por esse processo Breuer conseguiu, após longos e penosos esforços, aliviar a paciente de seus sintomas.

Freud começou então a repetir as pesquisas de Breuer com seus próprios pacientes. Após observar durante vários anos que os achados de Breuer eram invariavelmente confirmados em cada caso de histeria acessível a tal tratamento, e depois de haver acumulado considerável quantidade de material sob a forma de observações análogas às dele, Freud propôs a Breuer lançar uma publicação conjunta.

Freud (1935) diz que, no início, Breuer objetou com veemência, mas por fim cedeu, especialmente tendo em vista que, nesse meio tempo, as obras de Janet haviam previsto alguns dos seus resultados, tais como o rastreamento de sintomas histéricos em fatos da vida do paciente e sua eliminação por meio da reprodução hipnótica in statu nascendi. Em 1893 foi lançado uma comunicação preliminar, “Sobre o Mecanismo Psíquico dos FenômenosHistéricos”, e em 1895 seguiu-se o livro, Estudos sobre a Histeria.

Entre Comunicação Preliminar e Estudos Sobre Histeria, Freud publicou o artigo As Neuropsicoses de Defesa (1894) onde já demonstra sua independência em relação às idéias de Breuer. É nesse trabalho que Freud começa a tratar de forma intensa o fenômeno da defesa; mas é importante sublinhar que ele só entende de forma profunda esse fenômeno quando abandona a hipnose e passa para o método de associação livre. Foi o conceito de defesa que rompeu de forma decisiva com a concepção neurologizante do conflito psíquico.

Freud (1935) diz que Estudos sobre a Histeria não procurou estabelecer a natureza da histeria, mas apenas lançar luz sobre a origem de seus sintomas. Assim, dava ênfase à significação da vida das emoções e à importância de estabelecer distinção entre os atos mentais inconscientes e os conscientes (ou, antes, capazes de ser conscientes). O livro introduziu também a noção de um fator dinâmico, supondo que um sintoma surge através do represamento de um afeto, e um fator econômico, considerando aquele mesmo sintoma como o produto da transformação de uma quantidade de energia que de outra maneira teria sido empregada de alguma outra forma.

Freud passou a sustentar que não era qualquer espécie de excitação emocional que estava em ação por trás dos fenômenos da neurose, mas habitualmente uma excitação de natureza sexual. Passou, então, a investigar a vida sexual dos chamados neurastênicos, que costumavam visitar-lhe em grande número durante suas horas de consulta. Essa experiência custou-lhe a popularidade como médico. Ele percebeu que em todos esses pacientes graves irregularidades da função sexual se encontravam presentes.

Breuer tentava explicar a divisão mental nos pacientes histéricos pela ausência de comunicação entre vários estados (estados de consciência) e construiu então, a teoria dos “estados hipnóides”. Freud encarava a divisão psíquica como efeito de um processo de repulsão, que na época ele denominou de “defesa” e depois de “repressão”. Com o tempo as duas teorias, “da defesa” e “hipnóide” se opuseram. Mas segundo Freud (1916) o que realmente causou o rompimento os dois foi a ênfase de Freud na significação da sexualidade na etiologia das neuroses.

Durante os anos que se seguiram à publicação dos Estudos sobre Histeria, Freud leu alguns artigos sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses perante várias sociedades médicas, mas só obteve incredulidade e contradição. Breuer tentou por algum tempo usar sua influência pessoal a favor de Freud, mas nada conseguiu. Sendo que Breuer não estava inclinado a reconhecer a etiologia sexual das neuroses.  Breuer abandonou Freud a própria sorte, mas também nunca usou sua autoridade como o terapeuta de Ana O para atacar Freud diretamente. E Freud (1935) relata que não entendeu esse silêncio de Breuer. Só depois, quando reviu o caso Ana O pôde entender a atitude de Breuer. Nesse momento ele “descobre” atransferênciae a contratransferência. A paciente de Breuer desenvolvera uma condição de ‘amor transferencial’, Breuer não havia feito a ligação disso com sua doença e então se afastara desalentado.

A teoria do trauma

Freud acreditava que o conflito psíquico e sua conseqüência, a neurose era resultante de repressões impostas por traumas de sedução sexual que realmente teriam ocorrido no passado, e que retornavam sob a forma de sintomas. (Zimerman, 1999).

Freud (1935) menciona que seus pacientes com freqüência reproduziam cenas nas quais eram seduzidos sexualmente por adultos; ele acreditava nessas historias e pensou ter descoberto as raízes da neurose subsequente nessas experiências de sedução sexual na infância.

Freud tentava de forma coercitiva estimular os pacientes a recordar o trauma que havia sido esquecido e que tinha relação direta com os sintomas histéricos. Primeiramente para superar as resistências dos pacientes Freud se utilizou da sugestão, do estímulo e da insistência. No entanto esse método foi substituído por outro, onde em vez de incitar o paciente a dizer algo sobre algum assunto específico, solicitava que se entregasse a um processo deassociação livre— isto é, que dissesse o que lhe viesse à mente, sem dar qualquer orientação consciente a seus pensamentos.

A partir de 1896 Freud passa a empregar o método da associação livre, abandonando o método hipnótico, por considera-lo um meio artificial de neutralizar as resistências.

Por volta de 1897, Freud se deu conta de que o trauma psíquico era insuficiente para explicar todos os sintomas neuróticos. Ele percebeu que suas pacientes não contavam sempre a verdade e que seus discursos estavam cheios deidéias fantasiosas. Os sintomas neuróticos não estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos; e, como destaca Freud (1935), no tocante à neurose, a realidade psíquica era de maior importância que a realidade material. A sedução durante a infância retinha certa parcela, embora mais humilde, na etiologia das neuroses. Mas os sedutores vieram a ser, em geral, crianças mais velhas.

Freud com o tempo pôde concluir que tudo que tinha sido esquecido de alguma forma fora aflitivo; e que ao mesmo tempo havia algo no próprio individuo que tentava a todo custo não ser lembrado. Surgia a teoria da resistência e por conseguinte, a dorecalque.

A teoria dos sonhos

Sigmund FreudA teoria dos sonhos também veio trazer novas possibilidades para a psicanálise; abriu um caminho que conduzia muito longe, até as esferas do interesse universal. O sonho é de grande importância na psicanálise, porque não são manifestações patológicas como os sintomas, mas uma manifestação da vida mental normal que poderia ocorrer em qualquer pessoa sã. (Freud, 1935)

A Interpretação dos Sonhos (1900) marca a passagem para um modelo que investiga não apenas as manifestações psicopatológicas, mas capaz de dar conta do psiquismo em geral. No Capitulo VI da Interpretação dos Sonhos Freud formula o primeiro grande modelo do aparelho psíquico (a primeira tópica). O psiquismo é composto por dois grandes sistemas – inconsciente e pré-consciente/consciente – que são separados por uma barreira (a censura) que através do mecanismo do recalque expulsa e mantêm certas representaçoes inaceitáveis fora do sistema consciente. Mas essas representações exercem uma pressão para tornarem-se conscientes e ativas. Ocorre um jogo de forças, entre os conteúdos reprimidos e os mecanismos repressores. Como resultado desses conflitos há a produção das formações do inconsciente: os sintomas, sonhos, lapsos e chistes. Essas formações representam o fracasso e o sucesso das duas forças conflitantes e representam uma espécie de acordo entre elas.

Em 1905 veio a público os Três Ensaios para uma Teoria da Sexualidade. Esse texto situa a sexualidade como a base da vida psíquica. Loureiro (2005) diz que a psicanálise efetua uma verdadeira ruptura naquilo mesmo que era considerado sexualidade. Ao contrário dos discursos normativos da sexologia e da criminologia, que priorizavam a explicação dos desvios sexuais com base em teorias da hereditariedade e da degenerescência, a concepção psicanalítica da sexualidade embaralha as fronteiras entre normal/patológico, bem como prescinde da categoria de instinto sexual (impulso pré-formado, comum à espécie como um todo, dotado de objeto e finalidade fixos).  Freud usa o termo Trieb (impulso ou pulsão); pulsão não implica nem comportamento pré-formado, nem objeto específico. A pulsão demonstra a múltiplas, contingentes e mutantes feições que pode assumir a sexualidade humana.

O Fim do isolamento de Freud

Até 1906, Freud já havia lançado as bases fundamentais da psicanálise: a primeira tópica com a divisão do psiquismo em três instancias (consciente, pré-consciente e inconsciente); as fases psicossexuais da sexualidade infantil; Complexo de Édipo; os conceitos de transferência e contratransferência; a importância das resistências etc..
Por mais de dez anos após o seu afastamento de Breuer, Freud não teve seguidores. Ficou completamente isolado. Em Viena, foi evitado; no exterior, ninguém lhe deu atenção. A Interpretação de Sonhos Freud (1900), mal foi objeto de críticas nas publicações técnicas.

Após 1906 seu isolamento gradativamente chegou ao fim. Para começar, um pequeno círculo de alunos reuniu-se em torno de Freud em Viena; depois chegou a notícia de que os psiquiatras de Zurique, E. Bleuler, seu assistente C. G.Jung e outros, estavam adquirindo vivo interesse pela psicanálise. Entraram em contato pessoal, e na Páscoa de 1908 reuniram-se em Salzburg, concordaram com a realização regular de outros congressos informais semelhantes e adotaram providências para a publicação de um órgão que foi organizado por Jung e que recebeu o título de Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen (Anuário de Pesquisas Psicanalíticas e Psicopatológicas). Veio a lume sob direção de Freud e Bleuler, deixando de ser publicado no início da Primeira Guerra Mundial. Ao mesmo tempo em que os psiquiatras suíços ingressavam no movimento, o interesse pela psicanálise começou também a ser despertado em toda a Alemanha, tornando-se tema de grande número de comentários escritos e de vivos debates em congressos científicos. Mas sua acolhida em parte alguma foi amistosa ou mesmo benevolentemente neutra. Segundo Freud (1935), após travar o mais leve conhecimento com a psicanálise, a ciência alemã estava coesa para rejeitá-la.

A partir de 1906 Freud e passou a reunir-se na sala de espera com um seleto grupo de brilhantes colaboradores: Abraham, Fereczi, Rank, Steckel, Sanchs, Jung, Adler. Eram as chamadas “Reuniões das Quartas-Férias”.

Entre 1914 e 1917 Freud produz seus “artigos metapsicológicos” que buscavam sintetizar o conhecimento teórico até então construído. Sobre o Narcisismo’ (1914) ‘As Pulsões e suas Vicissitudes’ (1915), ‘Repressão’ (1915), ‘O Inconsciente’ (1915), ‘Luto e Melancolia’ (1917) etc. vem fazer parte dessa tentativa de construção de uma Metapsicologia. Com isso Freud queria construir um método de abordagem de acordo com o qual todo processo mental é considerado em relação com três coordenadas, as quais descreveu como dinâmica, topográfica e econômica, respectivamente.

Em sua Teoria Sobre o Narcisismo (1914) Freud atribui novas dimensões ao conceito de libido e, consequentemente, à psicanálise.O desenvolvimento do conceito de narcisismo coloca a prova o dualismo entre pulsões do ego (pulsões de autopreservação) e pulsões sexuais.

Em Além do Princípio do Prazer (1920), Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1921c) e O Ego e o Id (1923), Freud considera uma nova solução para o problema das pulsões. Combinou as pulsões para a autopreservação e para a preservação da espécie sob o conceito de Eros e contrastou com ele um instinto de morte ou destruição que atua em silêncio. A pulsão, em geral, é considerada como uma espécie de elasticidade das coisas vivas, um impulso no sentido da restauração que outrora existiu, mas que foi conduzida a um fim por alguma perturbação externa. Esse caráter essencialmente conservador dos instintos é exemplificado pelos fenômenos da compulsão de repetição. O quadro que a vida nos apresenta é o resultado da ação simultânea e mutuamente oposta de Eros e do instinto de morte.

Em O Id e o Ego Freud (1923) entrega-se à tarefa de dissecar o aparelho mental, com base no ponto de vista analítico dos fatos patológicos, e o divide em um ego, um id e um superego. O superego é o herdeiro do complexo edipiano e representa os padrões éticos da humanidade.

Zimerman, David E. Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.

Freud, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas: Imago Editora, Rio de Janeiro, 1996.

Loureiro, Inês. Luzes e Sombras: Freud e o advento da psicanálise. In: Jacó-Vilela, A. M.; Ferreira, A. L. L.; Portugal, F. T. (orgs.) História da Psicologia: rumos e percursos. Rio de janeiro: NAU Editora, 2005.

O Inconsciente

O inconsciente abrange tanto atos que são meramente latentes, temporariamente inconscientes, mas que em nenhum outro aspecto diferem dos atos conscientes; e por outro lado abrange processos tais como os recalcados, que caso se tornassem conscientes, estariam propensos a sobressair num contraste mais grosseiro com o restante dos processos conscientes

Em seu artigo metapsicológico sobre oInconsciente Das Unbewusste – Freud (1915) justifica o conceito de inconsciente lembrando que os dados da consciência apresentam um número muito grande de lacunas; ocorrem atos psíquicos que só podem ser explicados pela pressuposição de outros atos, para os quais a consciência não oferece qualquer prova.

O inconsciente abrande tanto atos que são meramente latentes, temporariamente inconscientes, mas que em nenhum outro aspecto diferem dos atos conscientes; e por outro lado abrange processos tais como os recalcados, que caso se tornassem conscientes, estariam propensos a sobressair num contraste mais grosseiro com o restante dos processos conscientes (Freud, 1915). Esses conteúdos recalcados estão submetidos à lógica do inconsciente, aqui Freud está diferenciando o inconsciente adjetivo do topográfico. Esse inconsciente tópico, como uma instância psíquica é a grande descoberta de Freud, o que vem a separar definitivamente a psicanálise das outras áreas do saber, principalmente da psiquiatria, da neurologia e da psicologia.

Freud não foi o primeiro autor do seu tempo a falar em inconsciente, em pensamentos ou componentes inconscientes, mas foi o primeiro a não falar em inconsciente de forma puramente adjetiva para designar apenas aquilo que não era consciente; em Freud inconsciente designa um sistema psíquico independente da consciência e dotado de atividade própria, com suas próprias leis e regras.

Quem formulou uma idéia de inconsciente mais próxima da de Freud foi Herbart, mas a idéia de inconsciente formulada por ele não é uma instância psíquica distinta, mas designava apenas idéias que continuavam ativas mesmo depois de serem inibidas.

Até mesmo depois das formulações de inconsciente estabelecidas por Freud, o inconsciente ainda continuou a ser identificado com o caos, o mistério, o inefável, o ilógico, sem nenhuma inteligibilidade. O inconsciente não é o que fica abaixo da consciência. “A psicanálise não é a psicologia das profundezas, na medida em que o ‘profunda’ aponte para uma espécie de subsolo da mente até então desconhecida e que ela se proponha a explorar” (Rosa, 2005, p.17).

No capítulo VII da ‘Interpretações dos Sonhos’, Freud (1900) fez sua primeira definição de inconsciente. Ele se justifica declarando que não há nada de arbitrário nos acontecimentos psíquicos, todos eles são determinados; não há é uma determinação única. O tipo de ordem do Sistema Inconsciente é distinta da dos Sistemas Consciente/Pré-consciente; mas isso não significa que não haja nenhuma ordem.

Freud (1915) lembra que a topografia psíquica nada tem que ver com anatomia; refere-se não a localidades anatômicas, mas a regiões do mecanismo mental, onde quer que estejam localizados no corpo. Freud (1935) diz que a subdivisão em inconsciente e consciente/pré-consciente faz parte de uma tentativa de retratar o aparelho mental como sendo constituído de grande número de instâncias ou sistemas, cujas relações mútuas são expressas em termos espaciais, sem contudo, implicarem qualquer ligação com a verdadeira anatomia do cérebro.

Roza (2005) fala que o homem ocidental tem uma particular dificuldade para pensar qualquer coisa que não seja substância ou propriedade de substância. “O inconsciente freudiano não é substância espiritual, contrafração de res cogitans cartesiana, nem é um lugar ou outra coisa.” (Roza, 2005, pág. 174).

O inconsciente não é as profundezas da consciência, nem aquilo que a subjetividade tem de caótico e impensável. “O inconsciente não é o mais profundo, nem o mais instintivo, nem o mais tumultuado, nem o menos lógico, mas uma outra estrutura, diferente da consciência, mas igualmente inteligível.” (Roza, 2005, pág. 173).

Consciente e inconsciente

O inconsciente possui uma sintaxe própria, ele é uma forma e não uma coisa ou um lugar. É uma lei de articulação. A consciência e o inconsciente têm formas diferentes, gramáticas diferentes para submeter seus conteúdos. O que define consciente e inconsciente não são seus conteúdos, mas o modo segundo o qual cada um dos dois sistemas opera, impondo a seus conteúdos determinadas formas.

A representação consciente é a representação da coisa, mais a representação da palavra a ela pertencente. Já a representação inconsciente é apenas a representação da coisa. O inconsciente possui as primeiras e verdadeiras catexias (ligação de energia) objetais. O pré-consciente se torna possível quando a representação da coisa é hipercatexizada através da ligação com as representações da palavra correspondente. Essa ligação entre a coisa e a palavra ainda não é tornar-se consciente, é sim a possibilidade de tornar-se consciente. A linguagem possibilita a constituição de um Eu independente.

Cada sistema psíquico, segundo Freud (1915) possui uma estrutura própria com características marcadamente distintas; o inconsciente tem como núcleo representantes pulsionais que procuraram descarregar sua energia. No inconsciente não há o princípio da não-contradição; o que ocorre é um maior ou menor investimento de uma representação, mas não a expulsão de uma por ser incompatível com a outra.

Investimento indica uma certa quantidade de afeto ligada a uma representação mental. A energia mental é retirada das pulsões.

Desde ‘Estudo Sobre Histeria’ (1895) e ‘Projeto Para uma Psicologia Cientifica’ (1895) Freud distingue dois tipos de energia nervosa: entre um estado livre de energia e um estado ligado. O primeiro corresponde ao processo primário e o segundo ao processo secundário. O processo primário é o modo de funcionamento do inconsciente (sistema). É caracterizado por um estado livre de energia. Tem dois mecanismos básicos: deslocamento e condensação.

O deslocamento é o escoamento, o deslizamento de uma energia de investimento ao longo de uma via associativa, encandeando diversas representações, o que leva a fazer figurar uma representação no lugar de outra. (Boulanger, 2006). Possui uma função mais ou menos defensiva, no sonho, por exemplo, permite aceitar pela censura, representações atenuadas; é o caso também do sintoma fóbico.

Na condensação, uma representação única aparece como ponto comum a diversas cadeias associativas de representações, e é sobre ela que se investem suas energias: esta fica, pois, no lugar de todas aquelas que nela se reúnem. (Boulanger, 2006).

No processo primário a energia tende a escoar livremente, passando de uma representação para outra e procurando a descarga de maneira mais rápida e direta possível, o que caracteriza o princípio do prazer.

O processo secundário é o modo de funcionamento do sistema consciente/pré-consciente. Aí, a energia é ligada. A energia tende a ter sua descarga retardada, de maneira a possibilitar um escoamento controlado. No processo secundário as representações são investidas de forma mais estável. A introdução do pensamento reflexivo e da temporalidade traz consigo também a substituição do princípio de prazer pelo princípio da realidade.

Mecanismos de Defesa

images (10)Os mecanismos de defesa constituem operações de proteção postas em jogo pelo Ego ou pelo Si-mesmo para assegurar sua própria segurança. Os mecanismos de defesa não representam apenas o conflito e a patologia, eles são também uma forma de adaptação. O que torna “as defesas” um aspecto doentio é sua utilização ineficaz ou então sua não adaptação às realidades internas ou externas. (Bergeret, 2006).

Os mecanismos de defesa fazem parte dos procedimentos utilizados pelo Eu (Ego) para desempenhar suas tarefas, que em termos gerais consiste em evitar o perigo, a ansiedade e o desprazer.

Entre os mecanismos de defesa é preciso considerar, por um lado, os mecanismos bastante elaborados para defender o Eu (ego), e por outro lado, os que estão simplesmente encarregados de defender a existência do narcisismo. Freud (1937) diz que mecanismos defensivos falsificam a percepção interna do sujeito fornecendo somente uma representação imperfeita e deformada.

Os mecanismos de defesa constituem operações de proteção postas em jogo pelo Ego ou pelo Si-mesmo para assegurar sua própria segurança. Os mecanismos de defesa não representam apenas o conflito e a patologia, eles são também uma forma de adaptação. O que torna “as defesas” um aspecto doentio é sua utilização ineficaz ou então sua não adaptação às realidades internas ou externas. (Bergeret, 2006).

Fenichel (2005) diz que as defesas patogênicas, nas quais se radicam as neuroses, são defesas ineficazes, que exigem repetição ou perpetuação do processo de rejeição, a fim de impedir a irrupção de impulsos indesejados; produz-se um estado de tensão com possibilidade de irrupção.

Foi a partir de um desses mecanismos, o recalque, que o estudo dos processos neuróticos se iniciou. Não obstante, o recalque é algo bastante peculiar, sendo mais nitidamente diferenciada dos outros mecanismos do que estes o são entre si.

Os primeiros tradutores de Freud utilizaram o termo “Ego” para dar conta do Ich alemão. Em alemão Ich é um pronome pessoal da primeira pessoa do singular empregado no nominativo, ou seja, sujeito individual ativo da ação. Ich não corresponde portanto, ao ego, que traduziria o Mich alemão, ou seja, um acusativo utilizado para designar o objeto referido pelo verbo, isto é, aqui, o sujeito tomado a ele mesmo (quer dizer, Si-mesmo), ou seja, seu Si-mesmo como objeto. Esse processo concerne à relação narcisista e não a relação de ordem genital, em que o sujeito Eu visa, justamente, a um outro objeto. (Bergeret, 2006).

Existem mecanismos de defesa encarregados de defender as diferentes instâncias da personalidade (id, Ideal de Si-mesmo, Ideal do Ego, Superego) de um conflito que pode nascer entre elas, assim como conflitos que podem opor o conjunto de todas as instâncias (inclusive o Eu e o Si-mesmo) contra algumas provenientes da realidade exterior; ou ainda exclusiva e excessivamente de um mesmo tipo, o que faz com que o funcionamento mental perca a sua flexibilidade, harmonia e adaptação.

Os mecanismos de defesa mais elaborados concernem ao Eu (ego), enquanto que de natureza mais primitiva se refeririam antes ao Si-mesmo. (Bergeret, 2006)

Os mecanismos de defesa não se reduzem apenas ao clássico conflito neurótico. Quando se trata de uma organização de modo neurótico, genital e edipiano, o conflito se situa entre as pulsões sexuais e suas proibições (introjetadas no superego). A angústia, é então, a angústia de castração, e as defesas operam no sentido de diminuir essa angústia, seja facilitando a regressão em relação à libido, sendo organizando saídas regressivas, por exemplo auto e alo-agressivas, retomando e erotizando a violência instintual primitiva. (Bergeret, 2006)

Nas organizações psicóticas toda uma parte predominante do conflito profundo dá-se com a realidade. A angústia é uma angústia de fragmentação, seja por medo de um impacto violento demais por parte da realidade, seja por temor por perda de contato com essa realidade. As defesas contra a angústia de fragmentação podem operar de modo neurótico. Mas, como lembra Bergeret (2006), esse tipo de defesa muitas vezes não basta, e, é quando surgem as defesas próprias ao sistema psicótico: autismo (tentativa de reconstituição do narcisismo primitivo, com seu circuito fechado); recusa da realidade (em todo ou em parte), necessitando às vezes de uma reconstrução de uma neo-realidade, o conjunto desses processos conduzindo à clássica posição delirante.

No grupo dos estados limítrofes o conflito se situa entre a pressão das pulsões pré-genitais sádicas orais e anais, dirigidas contra o objeto frustrante e a imensa necessidade de que o objeto ideal repare essa ferida narcísica por uma ação exterior gratificante. A angústia que disso decorre é a angústia de perda de objeto, a angústia de depressão. As defesas, nesse caso serão essencialmente centradas nos meios de evitar essa perda e devem conduzir a um duplo maniqueísmo: clivagem interna entre o que é bom (ideal do self) e mau (imediatamente projetado para o exterior), e clivagem externa (entre bons e malvados: não Si-mesmo). Há uma tentativa de aliviar a ferida narcísica arcaica por um narcisismo secundário em circuito aberto, árido, mas impotente para preencher a falta narcísica fundamental. (Bergeret, 2006).

Habitualmente em psicopatologia agrupam-se entre as defesas ditas “neuróticas” o recalque, o deslocamento, a condensação, a simbolização, etc. e entre as defesas ditas “psicóticas”, a projeção, a recusa da realidade, a duplicação do ego, a identificação projetiva, etc.

Entretanto encontra-se estruturas autenticamente psicóticas que se defendem contra a decomposição graças à defesas de modalidade neurótica, mais particularmente obsessiva, por exemplo. Há casos de estruturas autenticamente neuróticas que utilizam abundantemente a projeção ou a identificação projetiva em virtude do fracasso parcial do recalque e diante do retorno de fragmentos demasiado importantes ou inquietantes de antigos elementos recalcados, cujos efeitos ansiogênicos devem ser apagados, de modo certamente mais arcaico e mais custoso, e igualmente mais eficaz. É possível também encontrar angústias de despersonalização em uma desestruturação mínima, de origem traumática (por exemplo), sem que tais fenômenos possam ser atribuídos a qualquer estrutura específica.

Bergeret (1998) alerta em ter-se a prudência de falar apenas em defesas de modalidade “neurótica” ou “psicótica”, sem fazer previsões acerca da autenticidade da estrutura subjacente.

Freud (1937) lembra que as defesas servem ao propósito de manter afastados os perigos. Em parte, são bem-sucedidos nessa tarefa, e é de duvidar que o ego pudesse passar inteiramente sem esses mecanismos durante seu desenvolvimento. Mas esses próprios mecanismos, que a priori, são defensivos podem transformar-se em perigos. O ego pode começar a pagar um preço alto demais pelos serviços que eles lhe prestam. O dispêndio dinâmico necessário para mantê-los, e as restrições do ego que quase invariavelmente acarretam, mostram ser um pesado ônus sobre a economia psíquica. Tais mecanismos não são abandonados após terem assistido o ego durante os anos difíceis de seu desenvolvimento.

Nenhum indivíduo, naturalmente, faz uso de todos os mecanismos de defesa possíveis. Cada pessoa utiliza uma seleção deles, mas estes se fixam em seu ego. Tornam-se modalidades regulares de reação de seu caráter, as quais são repetidas durante toda a vida, sempre que ocorre uma situação semelhante à original. Concedendo-lhes um teor de infantilismos. O ego do adulto, com sua força aumentada, continua a se defender contra perigos que não mais existem na realidade; na verdade, vê-se compelido a buscar na realidade as situações que possam servir como substituto aproximado ao perigo original, de modo a poder justificar, em relação àquelas, o fato de ele manter suas modalidades habituais de reação. Os mecanismos defensivos, por ocasionarem uma alienação cada vez mais ampla quanto ao mundo externo e um permanente enfraquecimento do ego, preparam o caminho para o desencadeamento da neurose e o incentivam. (Freud, 1937)

Mecanismos de defesa e Resistências

É comum a confusão entre mecanismos de defesa do Eu (Ego) (utilizados patologicamente ou não) com as resistências.

As resistências são noções que concernem apenas às defesas empregadas na transferência (e no tratamento psicanalítico, em particular) por um sujeito que se defende especificamente do contato terapêutico e das tomadas de consciência dos diferentes aspectos desse contato, em particular da associação livre de idéias.

O paciente repete suas modalidades de reação defensiva também durante o trabalho de análise. Isso não significa que tornem impossível a análise. Constituem a metade da tarefa analítica. (Freud, 1937). A dificuldade da questão é que os mecanismos defensivos dirigidos contra um perigo anterior reaparecem no tratamento como resistências contra o restabelecimento. Disso decorre que o ego trata o próprio restabelecimento como um novo perigo.

Contra-investimento

É sobre os representantes ideativos das pulsões que incidem muitos dos mecanismos de defesa.

Quando o superego e as instâncias ideais se opõem ao investimento pelo consciente de representantes pulsionais indesejáveis, há, inicialmente um desinvestimento da representação pulsional ansiogênica. Mas uma certa quantidade de energia psíquica vai se tornando disponível. Não podendo essa energia permanecer assim, ela deverá ser reutilizada em um contra-investimento incidindo sobre outras representações pulsionais, de aspectos diferentes. (Bergeret, 2006)

Formação reativa

É um contra-investimento da energia pulsional retirada das representações proibidas. Por exemplo, a solicitude pode ser uma formação reativa contra as representações violentas ou agressivas; ou as exigências de limpeza e asseio uma reação reativa contra o desejo de sujar.

Fenichel (2005) define as reações reativas como tentativas evidentes de negar ou suprimir alguns impulsos, ou de defender a pessoa contra um perigo pulsional. São atitudes opostas secundárias.

Bergeret (2006) fala que a formação reativa tem um aspecto funcional e utilitário, contribuindo para a adaptação do sujeito à realidade ambiente. Pois a formação reativa se forma em proveito de valores postos em destaque pelos contextos históricos, sociais e culturais, e em detrimento das necessidades pulsionais frustradas, agressivas ou sexuais diretas, ao mesmo tempo que procura direciona-las de maneira indireta.

Existem mecanismos de defesa que são intermediários entre o recalque e a formação reativa. Por exemplo a mãe histérica que odeia o seu filho é capaz de desenvolver uma afeição aparentemente extrema por ele, a fim de assegurar a repressão de seu ódio, essa solicitude ou beatude permanece limitada a um determinado objeto.

As formações reativas são capazes de usar impulsos cujos objetivos se opõem aos objetivos do impulso original. Podem aumentar os impulsos de ordem reativa para conter o impulso original. De tal forma que um conflito entre em impulso pulsional e uma ansiedade ou sentimento de culpa dele decorrentes podem tomar, por vezes, a aparência de um conflito entre pulsões opostas.

O individuo pode então intensificar sua formação reativa, na luta com contra-investimento do impulso indesejável. Pode tornar-se reativamente heterossexual para rejeitar a homossexualidade; reativamente passivo-receptivo para rejeitar a agressividade.

Formação Substitutiva

A representação do desejo inaceitável é recalcado no inconsciente. Fica então uma falta que o ego vai tentar preencher de forma sutil e compensatória. Tentará obter uma satisfação que substitua aquela que foi recalcada e que obtenha o mesmo efeito de prazer e satisfação que aquela traria, mas sem que essa associação apareça claramente à consciência.

Bergeret (2006) dá como exemplo o transe mítico, que pode constituir somente um substituto do orgasmo sexual: aparentemente não há nada de sexual, na realidade, porém, o laço com o êxtase amoroso e físico se acha conservado, o afeto permanece idêntico. A formação substitutiva vem então constituir um dos modos de retorno do recalcado.

A formação substitutiva pode da-se no sentido inverso. O sujeito pode tentar mascarar por meio de uma pseudo-sexualidade substitutiva de superfície, suas carências objetais e sexuais, ao mesmo tempo que tenta se assegurar contra a carência de suas realidades narcísicas. O sujeito opera no registro das defesas do Si-mesmo.

Formação de compromisso

É um modo de retorno do recalcado, de tal forma a não ser reconhecido, por um processo de deformação. É um processo que procura aliar em um processo de compromisso, os desejos inconsciente proibidos e as exigências dos proibidores.  

Formação de sintomas

Para a psicanálise os sintomas têm um sentido e se relacionam com as experiências do sujeito.

Os sintomas são atos prejudiciais, ou pelo menos, inúteis à vida da pessoa, que por sua vez, deles se queixa como sendo indesejados e causadores de desprazer ou sofrimento. O principal dano que causam reside no dispêndio mental que acarretam, e no dispêndio adicional que se torna necessário para se lutar contra eles. Onde existe extensa formação de sintomas, esses dois tipos de dispêndio podem resultar em extraordinário empobrecimento da pessoa no que se refere à energia mental que lhe permanece disponível e, com isso, na paralisação da pessoa para todas as tarefas importantes da vida. (Freud, 1916-1917).

A formação de sintomas é uma forma de retorno do recalcado. “Quer seja de um modo físico, psíquico ou misto, o sintoma não é causado pelo sintoma em si mesmo. Ele assinala apenas o fracasso do recalcamento; não constitui senão o resultado desse fracasso.” (Bergeret, 2006, pág. 98)

O sintoma resulta de três mecanismos precedentes: a formação reativa, a formação substitutiva e a formação de compromisso. Mas é mais complexa do que cada um deles isoladamente. O sintoma assume, graças ao jogo da formação de compromisso e da formação substitutiva, um sentido particular em cada entidade psicopatológica. Bergeret (2006) aponta que a defesa constituída pelo sintoma vai no sentido da luta contra a angústia específica: evitar a castração, na neurose, evitar a fragmentação, na psicose, evitar a perda do objeto, no estado limítrofe.

Bergeret (1998) lembra que é um pouco equivocado qualificar de saída, demasiado nitidamente, um sintoma como “neurótico” ou “psicótico” sintomas aparentemente neuróticos, por exemplo, podem esconder uma estrutura psicótica ou vice-versa; seria mais prudente falar em sintomas de linhagem neurótica ou psicótica. O autor diz que convém ocupar-se com o sintoma único apenas no uso limitado, para o qual o sintoma foi construído, isto é, “uma manifestação de superfície destinada a expressar a presença de um conflito, o retorno de uma parte do recalque pelos desvios das formações substitutivas ou das realizações de compromisso.” (Bergeret, 1998, pág.48).

Identificação

A identificação é uma atividade afetiva e relacional indispensável ao desenvolvimento da personalidade. “Como todas as outras atividades psíquicas, a identificação pode, por certo, ser utilizada igualmente para fins defensivos.” (Bergeret, 2006, pág. 101)

De acordo com Laplanche e Pontalis, “um processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade ou um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, a partir do modelo deste. A personalidade se constitui e se diferencia por uma série de identificações.”

Existem dois grandes movimentos identificatórios, constitutivos da personalidade: a identificação primária e a identificação secundária.

Identificação primária: “é o modo primitivo de constituição do sujeito sobre o modelo do outro, correlativo da relação de incorporação oral, visando, antes de mais nada, a assegurar a identidade do sujeito, a constituição do Si-mesmo e do Eu.” (Houser, 2006, pág. 43)

Identificação secundária: é contemporânea do movimento edipiano, se fazendo sucessivamente em relação aos dois pais, em suas características sexuadas, e constitutiva da identidade sexuada e da diferenciação sexual. (Houser, 2006)

Bergeret (2006) diz que na identificação primária o objeto deve ser devorado sem distinção prévia entre ternura e hostilidade, nem entre Si-mesmo e não-Si-mesmo, em um movimento que visa precisar a identidade narcisista de base do sujeito.

A identificação secundária, segundo Bergeret (2006), é destinada a afirmar a identidade sexual do sujeito, com todos os seus avatares possíveis em psicopatologia. A criança, primeiro renunciando a incorporar o genitor amado, depois renunciando à idéia de um comércio sexual com ele, vai se consolar absorvendo as qualidades representadas por ele, por meio desse objeto. Esse movimento pode ir até uma regressão defensiva, com todas as perturbações dialéticas possíveis. Mas as identificações ligadas ao genitor do mesmo sexo vêm normalmente completar e organizar genitalmente as identificações primárias, e abrir caminho para as relações posteriores do tipo verdadeiramente objetal e genital.

A partir da psicologia coletiva, Freud descreveu um terceiro tipo de identificação: onde o sujeito identifica seus próprios objetos aos objetos de um outro sujeito, e principalmente aos objetos de um grupo por inteiro. Isso se produz por imitação e contágio, fora do laço libidinal direto. (Bergeret, 2006)

Identificação com o agressor

O indivíduo se torna aquele de quem havia tido medo, ao mesmo tempo, o suprime, o que tranqüiliza. Esse mecanismo, descrito por Ferenczi e Ana Freud, pode ir de simples inversão dos papéis (brincar de doutor , de lobo, de fantasma) a uma verdadeira introjeção do objeto perigoso.

Bergeret (2006) lembra que essa defesa pressupõe uma onipotência mágica do outro e se encontra relacionada com distorções das instâncias ideais, preparando secundariamente para as condutas masoquistas e para as instâncias proibidoras severas.

Identificação projetiva

É um mecanismo descrito por Melanie Klein e faz parte da posição esquizo-paranóide.  É um conceito fundamental para a teoria e clínica, e foi o instrumento teórico com que os kleinianos abordaram a análise dos pacientes psicóticos e limítrofes.

Para Klein a mente tem a capacidade onipotente de se liberar de uma parte do self, colocando-a em um outro objeto; o resultado é uma confusão da identidade, uma perda da diferença real entre sujeito e objeto. (Bleichmar e Bleichmar, 1992).

Através desse mecanismo o sujeito expulsa uma parte de si mesmo, identificando-se com o não projetado; e ao objeto são atribuídos os aspectos projetados, dos quais o sujeito se desprendeu, o que constituiria para Klein uma das bases principais dos processos de confusão.

Esse mecanismo é produzido por uma motivação pessoal que procura se livrar de certas partes de si mesmo (para Klein os processos de desenvolvimento obedecem sempre a uma intenção inconsciente do sujeito). O bebê pode precisar, para aliviar sua angústia, desprender-se de aspectos dolorosos do seu próprio self, usando a identificação projetiva, colocando-os em sua mãe; mas esta mãe, adquirirá um aspecto persecutório.

Na clínica, quando a identificação projetiva é muito intensa o paciente percebe o terapeuta a partir de suas próprias projeções e sua subjetividade. Esse mecanismo permite desprender-se tanto dos aspectos maus, como dos bons de alguém. O individuo pode situar os aspectos bons fora do self para preservá-los dos aspectos maus internos.

Uma das consequências da identificação projetiva excessiva é que o ego se debilita, ficando submetido a uma dependência extrema das pessoas nas quais se projetam os aspectos bons, para voltar a recebê-los delas, ou aspectos maus, para controlá-los e assim poder se proteger da ameaça da introjeção.

Para Klein o equilíbrio entre os processos de identificação projetiva e introjetiva é estruturante do mundo externo e interno. A identificação projetiva constitui-se como um fenômeno normal, base da empatia e da possibilidade de comunicação entre as pessoas. É a intensidade e qualidade que determina se o mecanismo é patológico ou normal.

Bleichmar e Bleichmar (1992) relatam que a identificação projetiva é base de muitas situações patológicas. Se o sujeito tem a fantasia de se meter violentamente dentro do objeto e controlá-lo, sofrerá um temor pela reintrojeção violenta , tanto no corpo quanto na mente. Isto provoca dificuldades na reintrojeção, que levam a alterações no ego e no desenvolvimento sexual; pode levar o indivíduo a se isolar em seu mundo interior, refugiando-se em um objeto interno idealizado.

Projeção

Para Freud, existem nesse mecanismo três tempos consecutivos. Primeiro a representação incômoda de uma pulsão interna é suprimida, depois esse conteúdo é deformado, enfim, ele retorna para o consciente sob a forma de uma representação ligada ao objeto externo.

A projeção ocorre em todos os momentos da vida. Ela é essencial no estágio precoce de desenvolvimento, contribuindo para a distinção entre Si-mesmo e não-Si-mesmo, onde tudo o que é prazeroso é experimentado como pertencente ao Si-mesmo; e tudo o que é penoso e doloroso se experimenta como sendo não-Si-mesmo. Esse é um processo normal que ajuda a fortificar o Si-mesmo e a estabelecer o esquema corporal.

Fenichel (2005) diz que a projeção é uma reação arcaica que nas fases iniciais do desenvolvimento ocorrem de forma automática e ulteriormente é amansada pelo ego e usada para fins defensivos. O autor destaca que esse mecanismo defensivo só pode ser amplamente utilizado se a função que tem o ego de ajuizar a realidade estiver severamente lesada por uma regressa narcísica. Servindo para toldar mais uma vez os limites entre Si-mesmo e não-Si-mesmo.

Bergeret (2006) assinala que a projeção assinala praticamente um fracasso dorecalcamento. Com efeito, com as defesas mais elaboradas, como o recalcamento, principalmente, o ego se defende contra os perigos interiores por meios que utilizam diretamente o inconsciente de maneira imediata e automática. “Se esses procedimentos não bastam mais, torna-se então necessário transformar, pela projeção, o perigo interior em perigo exterior, contra o qual se aplicam os meios de proteção mais arcaicos, mais elementares do Si-mesmo, utilizando e enganando o consciente, tais como a projeção, o deslocamento e a evitação.” (Bergeret, 2006, pág. 103)

Bergeret (2006) destaca que é preciso distinguir na projeção não uma forma de retorno do recalcado, mas um retorno do que, após o recalcamento normal, deveria ter sido recalcado, mas não o pôde ser. A projeção é uma maneira de tratar esse não-recalcado, que, tornando-se incômodo, deve ser eliminado por procedimentos menos eficazes que o recalcamento, mas também menos custosos em contra-investimento.

Na teoria de Melanie Klein a projeção aparece, primeiramente, ligada à pulsão de morte, cuja ameaça de destruição interna é neutralizada, ao ser expulsa para fora do sujeito. Esta projeção de agressão e de libido permite que se constituam os objetos parciais seio bom e seio mau.

Introjeção

Nos estágios iniciais do desenvolvimento tudo o que agrada é introjetado. A introjeção é um mecanismo que repete, com objetivo defensivo e regressivo no adulto, esse movimento que consistia em fazer entrar no aparelho psíquico uma quantidade cada vez maior do mundo exterior. Mas como destaca Bergeret (2006), enquanto na criança o ego se encontra enriquecido com isso, no adulto cria-se assim toda uma série de fantasias interiores inconscientes, organizando uma imagem mental íntima que o sujeito vai terminar por considerar como se ela fosse um objeto real exterior.

A introjeção seria uma defesa contra a insatisfação causada pela ausência exterior do objeto. A incorporação é o objetivo mais arcaico dentre os que se dirigem para um objeto. A identificação, realizada através da introjeção, é o tipo mais primitivo de relação com os objetos. Fenichel (2005) destaca que daí por que todo tipo de relação objetal que depare com dificuldades é capaz de regredir à identificação; e todo objetivo pulsional ulterior é capaz de regredir à introjeção.

Para os autores kleinianos, há um jogo de interações constantes entre os movimentos projetivos e introjetivos, do mesmo modo que entre os mundos objetais interno e externo, o que contribui para a manutenção de boas relações objetais, vitais para o sujeito.

Na teoria de Melanie Klein a introjeção é essencial para o psiquismo, pois é através dela que se constroem os objetos internos, o que permite a formação do ego e do superego. Mas para Klein, os objetos que se introjetam nunca são uma cópia fiel dos objetos externos, mas que estes se encontram deformados por uma projeção das pulsões e sentimentos do sujeito.

Há no nível da introversão, um certo número de confusões, principalmente no que tange as diferenças entre introversão, incorporação, identificação, introversão e internalização.

A incorporação oral descrita por Melanie Klein é essencialmente uma fantasia ligada a representações psíquicas mais corporais do que psíquicas, e não como um mecanismo psíquico propriamente dito.

A identificação secundária incide sobre as qualidades do sujeito e não sobre as recriminações a seu respeito.

A internalização (ou interiorização) concerne ao modo de relação com outrem, por exemplo, rivalidade edipiana com o pai, enquanto que a introjeção comporta o estabelecimento, no interior de si, de uma imagem paterna substitutiva do pai faltante. (Bergeret, 2006)

A introversão, descrita por Jung e retomada por Freud, incide sobre os fenômenos de retirada da libido em relação aos objetos reais. Essa retirada pode se efetuar de duas maneiras: para o ego (narcisismo secundário) ou para os objetos imaginários internos, as fantasias.

Na conferência XXIII – O Caminho da Formação de Sintomas – Freud (1916 – 1917) diz que a retração da libido para a fantasia é um estagio intermediário no caminho de formação dos sintomas e merece ser denominada de introversão. Freud considera que a introversão denota desvio da libido das possibilidades de satisfação real e a hipercatexia das fantasias que até então foram toleradas como inocentes.

Freud diz que um introvertido não é um neurótico, porém se encontra em situação instável, desenvolverá sintomas na próxima modificação da relação de força, a menos que encontre algumas outras saídas para sua libido represada.

Bergeret (2006) aponta que o neurótico busca um ser exterior, objeto edipiano deformado pelos conflitos; o psicótico procura voltar seu amor sobre si mesmo, mas sem sucesso; nos estados-limítrofes o individuo ama um ser imaginário, que se assemelha a seu Ideal de Si-mesmo e ao mesmo tempo um ser real, mas escolhido porque justamente afastado e inacessível. “Esse parece ser o verdadeiro domínio da defesa por introversão, ou seja, uma retirada não estritamente autística, mas constituída por fantasias interiores.” (Bergeret, 2006, pág. 104)

Anulação

Freud diz que é um processo ativo consiste em desfazer o que se fez. O sujeito faz uma coisa que, real ou magicamente, é o contrario daquilo que, na realidade ou na imaginação se fez antes.

Bergeret (2006) lembra que é conveniente que as representações incômodas, evocadas em atos, pensamentos ou comportamentos do sujeito sejam considerados como não tendo existido. Para isso, o sujeito coloca em jogo outros atos, pensamentos ou comportamentos destinados a apagar magicamente tudo o que estava ligado às representações incômodas.

A anulação ocorre nos atos expiatórios no animismo, em certas necessidades de verificação e, em geral, em todo mecanismo obsessivo, onde uma atitude é anulada por uma segunda atitude, destinada, segundo Bergeret (2006), não somente às consequências da primeira atitude, mas essa atitude em si, pelo próprio fato de que ela constitui um suporte para a representação proibida. Fenichel (2005) diz que a própria idéia de expiação nada mais é do que a expressão da crença na possibilidade de anulação mágica.

Há vezes em que a anulação não consiste em compulsão em fazer o contrário do que se fez antes, mas em compulsão em repetir o mesmíssimo ato. Fenichel (2005) destaca que o objetivo de repetir (que tem a compulsão) consiste em praticar o mesmo ato liberto do seu significado inconsciente, ou com o significado inconsciente contrário. E se ocorre de o material reprimido se insinuar outra vez na repetição, a qual visa a expiação, uma terceira, quarta, quinta repetição talvez se faça necessária.

A anulação constitui um mecanismo narcisicamente muito regressivo. Ela deve operar quando os processos mentais mais clássicos, à base de desinvestimento e de contra-investimento não sejam mais suficientes. A anulação irá incidir sobre a própria realidade, pois é a temporalidade, elemento importante do real, que se acha negada, alterada.

Denegação

É um mecanismo mais arcaico que o recalcamento. Na denegação o representante pulsional incômodo não é recalcado, mas o indivíduo depende dele, recusando-se a admitir que possa se tratar de uma pulsão que o atinja pessoalmente.

Segundo Bergeret (2006) com esse mecanismo defensivo uma representação pode, tornar-se assim consciente, sob a condição de que sua origem seja negada.

Recusa 

A recusa trata-se de eliminar uma representação incômoda, não a apagando (anulação) ou recusando (denegação), mas negando a própria realidade da percepção ligada a essa representação. (Bergeret, 2006).

Não há necessidade de recalcamento, a recusa incide sobre a própria realidade, que se tornou consciente e não é levada em conta como tal.

A recusa é essencialmente um mecanismo que se dá nas psicoses e perversões. Na psicose há a recusa de toda a realidade incômoda, sem especificidade, e o delírio vem, se necessário, sobre-investir em uma neo-relaidade compensadora. No perverso a recusa incide sobre uma parte muito focalizada da realidade, ficando o resto do campo perceptivo intacto.

Isolamento

Esse mecanismo é descrito por Freud desde 1894, e consiste em separar a representação incômoda do seu afeto. No isolamento o paciente não esquece os traumas patogênicos, mas perde o rastro das conexões e o significado emocional. Os fatos importantes de sua vida (e que podem ter forte teor patogênico) perdem o significado afetivo, são isolados de sua carga emotiva.

Bergeret (2006) diz que o isolamento constitui uma forma de resistência freqüente no tratamento analítico, por interrupção defensiva do processo associativo, quando ele põe em evidência elementos angustiantes.

Fenichel (2005) relata que há casos em que o paciente tenta impedir todo efeito terapêutico de sua análise, realizando-a, toda ela, “isolada”. O paciente aceita a análise enquanto está no consultório, mas ela permanece isolada do resto da sua vida. Há sujeitos que começam e terminam a entrevista com rituais que se destinam a isolá-la daquilo que ocorre antes e depois.

Fenichel (2005) relata que um tipo de isolamento que ocorre com muita frequência em nossa cultura é aquele dos componentes sensuais e amorosos da sexualidade. Muitas pessoas não conseguem obter satisfação sexual plena porque só são capazes de gozar a sensualidade por pessoas pelas quais não sentem amor ou até com pessoas que desprezam.

Deslocamento

Nesse mecanismo a representação incômoda de uma pulsão proibida é separada de seu afeto e este é passado para uma outra representação, menos incômoda, mas ligada à primeira por um elemento associativo (Bergeret, 2006). O afeto contido em relação a um certo objeto explode contra outro objeto.

Bergeret (2006) diz que o deslocamento trata-se de um mecanismo muito primitivo e bastante simples, ligado aos processos primários. O deslocamento opera habitualmente nas fobias, diante do fracasso do recalcamento. O isolamento, nos obsessivos, e o deslocamento nas fobias, são complementados pela evitação, destinada a poupar o sujeito a encontrar mesmo a representação isolada ou deslocada.

Sublimação

Na sublimação o alvo é abandonado em proveito de um novo alvo, valorizado pelo superego e ideal de Si-mesmo. A sublimação não necessita de nenhum recalcamento.

Bergeret (2006) diz que a sublimação constitui um processo normal, e não patológico, à condição de que ela não suprima por si só, toda atividade sexual ou violenta propriamente dita.

Freud, Sigmund (1916-1917). Conferências Introdutórias de Psicanálise, Conferência XVII – O Sentido dos Sintomas. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol.XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, Sigmund (1937). Análise Terminável e Interminável. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Bergeret, J. O problema das defesas. In: Bergeret, J. …[et al.]. Psicopatologia: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Fenichel, Otto. Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo: Editora Atheneu, 2005

Bergeret, J. A personalidade Normal e Patológica. Porto Alegre: Artmed, 1998.

Laplanche, J. e Pontalis, J. B. Vocabulaire de Psychanalyse. Paris: PUF, 1967. 520 páginas.

Metapsicologia freudiana

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A metapsicologia freudiana traz os princípios, os modelos teóricos e os conceitos fundamentais da clínica psicanalítica. É um método de abordagem de acordo com o qual todo processo mental é considerado em relação com três coordenadas: dinâmica, topográfica eeconômica.

Estrutura e funcionamento do psiquismo

Pouco a pouco o psiquismo se organiza, se estrutura como um todo complexo, com traços originais que não poderão variar depois. Bergeret (2006) fala que essa organização e estruturação do psiquismo individual começará desde a tenra infância; antes do nascimento em função da hereditariedade para certos fatores, mas sobretudo do modo de relação com os pais, desde os primeiros momentos da vida, das frustrações, dos traumas e dos conflitos encontrados, em função também das defesas organizadas pelo ego para resistir às pressões internas e externas, das pulsões do id e da realidade.

Em seus aportes teóricos Freud foi levado a elaborar um modelo de funcionamento mental. Desde cedo ele forjou o termo metapsicologia mental para designar os aspetos teóricos da Psicanálise. Essa metapsicologia busca dar conta dos fatos psíquicos em seu conjunto, principalmente de sua vertente inconsciente. A metapsicologia freudiana traz os princípios, os modelos teóricos e os conceitos fundamentais da clínica psicanalítica.

Em 1915 fez uma tentativa para produzir uma ‘Metapsicologia. ‘Sobre o Narcisismo’ (1914) ‘As Pulsões e suas Vicissitudes’ (1915), ‘Repressão’ (1915), ‘O Inconsciente’ (1915), ‘Luto e Melancolia’ (1917) etc. vem fazer parte dessa tentativa. Com isso queria construir um método de abordagem de acordo com o qual todo processo mental é considerado em relação com três coordenadas, as quais descreveu como dinâmica, topográfica e econômica, respectivamente.

Ponto de vista dinâmico

O ponto de vista dinâmico explica os fenômenos mentais como sendo o resultado da interação e de contra-ação de forças mais ou menos antagônicas. A explicação dinâmica examina não só os fenômenos, mais também as forças que produzem os fenômenos. Aspulsões¹ são um tipo especial de fenômeno mental que força no sentido de descarga, experimentada como uma “energia urgente”. Zimerman (1999) define pulsão como necessidades biológicas, com representações psicológicas que urgem em ser descarregadas.

Segundo Freud (1915) as pulsões são o representante psíquico dos estímulos somáticos. As pulsões tendem a baixar o nível de tensão através da descarga de forma imediata, mas existem contra-forças que se oporão a essa descarga (satisfação da pulsão). E a luta que se cria constitui a base dos fenômenos mentais.

Em Psicopatologia da Vida Cotidiana Freud (1914) diz que os lapsos de língua, erros, atos sintomáticos, sonhos são os melhores exemplos de conflitos que se produzem entre a luta pela descarga das forças que a isso se opõem. Em Conferências Introdutórias Freud (1916) defende que o produto do lapso pode ele próprio ter o direito de ser considerado como ato psíquico inteiramente válido, que persegue um objetivo próprio. Para Freud os fenômenos lacunares – sonhos, atos falhos, parapraxias, sintomas constituem um meio – êxito e um meio – fracasso para cada uma das duas intenções.

Quando as tendências à descarga e as forças repressoras que inibem essa descarga são igualmente fortes a energia consome-se em luta interna e oculta; o que se manifesta clinicamente com sinais de exaustão sem produção de trabalho perceptível. (Fenichel, 2005).

Ponto de vista econômico

O ponto de vista econômico considera a energia psíquica sob um ângulo quantitativo. Esse ponto de vista econômico se esforça em estudar como circula essa energia, como ela é investida e se reparte entre as diferentes instâncias, os diferentes objetos ou as diferentes representações. (Boulanger, 2006)

A energia das forças pulsionais e das forças repressoras que estão por trás dos fenômenos mentais é deslocável. Algumas pulsões são mais fortes e mais difíceis de reprimir, mas podem sê-lo se as contra-forças forem igualmente poderosas. Que quantidade de excitação pode ser suportada sem descarga é problema econômico.

A pulsão é um elemento quantitativo da economia psíquica. As pulsões são constituídas pelas representações e pelos afetos que lhes estão ligados. o termo afeto designa o aspecto qualitativo de uma carga emocional, mas também, o aspecto quantitativo do investimento da representação dessa carga. Investimento é o nome dado à ação de que uma certa quantidade de energia psíquica esteja ligada a uma representação mental. Freud diz que investimento pode ser aumentado, diminuído, deslocado, descarregado e que se estende sobre as representações, um pouco como uma carga elétrica na superfície dos corpos.

Teoria Topográfica

A concepção tópica do aparelho psíquico ocorreu progressivamente e desde os primeiros trabalhos de Freud sobre a histeria. O primeiro esquema topológico do aparelho psíquico está descrito no capitulo VII da Interpretação dos Sonhos (1900) e no ensaio sobre O Inconsciente (1915).

É no capítulo VII da Interpretação dos Sonhos que Freud formula o primeiro grande modelo do aparelho psíquico (a primeira tópica). Nesse texto Freud teoriza um psiquismo composto por dois grandes sistemas – inconsciente e pré-consciente/consciente – que são separados por uma barreira (a censura) que através do mecanismo de recalque expulsa e mantêrm certas representações inaceitáveis fora do sistema consciente. Mas essas representações exercem uma pressão para tornarem-se conscientes e ativas. Ocorre um jogo de forças, entre os conteúdos reprimidos e os mecanismos repressores. Como resultado desses conflitos há a produção das chamadas formações do inconsciente: sintomas, sonhos, lapsos e chistes. Essas formações representam o fracasso e o sucesso das duas forças em conflito, uma espécie de acordo entre elas.

A palavra “aparelho” é usada para caracterizar uma organização psíquica dividida em sistemas, ou instâncias psíquicas, com funções especificas para cada uma delas, que estão interligadas entre si. (Zimerman, 1999).

Consciente

Localizado entre o mundo exterior e os sistemas mnêmicos; é encarregado de registrar as informações oriundas do exterior e perceber as sensações interiores da série prazer – desprazer. (Boulanger, 2006).

Recebe informações provenientes do exterior e do interior que ficam registradas qualitativamente (prazer x desprazer); mas não tem função de inscrição; não conserva nenhum traço duradouro das excitações que registra; pois funciona em registros qualitativos enquanto o resto do aparelho mental funciona em registros quantitativos.

Faz a maior parte das funções perceptivas, cognitivas e motoras, como a percepção, o pensamento, juízo critico, evocação, antecipação, atividade motora.

Pré-Consciente

O conteúdo do pré-consciente não está presente na consciência, mas é acessível a ela. Ele pertence ao sistema de traços mnêmicos e é feito de representações de palavras.

Funciona como um pequeno arquivo de registros (representações de palavras) que consiste num conjunto de inscrições mnêmicas de palavras oriundas e de como foram significadas pela criança. (Zimerman, 1999).

A representação da palavra é diferente da representação da coisa, cujas inscrições não podem ser nomeadas ou lembradas voluntariamente.

Inconsciente

É a parte do psiquismo mais próxima da fonte pulsional. É constituído por representantes ideativos das pulsões. Contém as representações das coisas, as quais consistem em uma sucessão de inscrições de primitivas experiências e sensações provindas dos órgãos dos sentidos o que ficaram impressas na mente antes do acesso à linguagem para designá-las.

O inconsciente opera segundo as leis do processo primário e além das pulsões do id, esse sistema também opera muitas funções do ego, bem como do superego.  

Segunda tópica

As primeiras linhas dessa conceituação aparecem em Além do Princípio do Prazer (1920) e será desenvolvida em o Ego e o Id (1923). Introduz a existência de três instâncias: o Id, o Ego e o Superego. Essas três estruturas separadamente têm funções especificas, mas que são indissociadas ente si, interagem permanentemente e influenciam-se reciprocamente.

Id

O id tem um correspondente quase exato na primeira tópica: o inconsciente. É o pólo pulsional. Na segunda tópica pulsão de vida e pulsão de morte pertencem a ele. No id não há lugar para a negação, nem o princípio da não-contradição, ignora os juízos de valor, o bem, o mal, a moral.

Em Esboço de Psicanálise Freud (1930) diz que na origem tudo era id; o ego se desenvolveu a partir do id, sob a influência persistente do mundo externo.

Sob o ponto de vista econômico, o id é a um só tempo um reservatório e uma fonte de energia psíquica. Do ponto de vista funcional ele é regido pelo princípio do prazer; logo, pelo processo primário. Do ponto de vista da dinâmica psíquica, ele abriga e interage com as funções do ego e com os objetos, tanto os da realidade exterior, como aqueles que, introjetados, estão habitando o superego, com os quais quase sempre entra em conflito, porém, não raramente, o id estabelece alguma forma de aliança. (Zimerman, 1999).

Ego

O ego é o pólo defensivo do psiquismo. É um mediador. Por um lado pode ser considerado como uma diferenciação progressiva do id, que leva a um continuo aumento do controle sobre o resto do aparelho psíquico. Por outro ponto de vista, o ego se forma na seqüência de identificações a objetos externos, que são incorporados ao ego. De qualquer forma, o ego não é uma instância que passa a existir repentinamente, é uma construção.

O ego não é equivalente ao consciente, não se superpõe ao consciente, nem se confunde com ele. O ego tem raízes no inconsciente, como é o caso dos mecanismos de defesa, que são funções do ego, assim como o desenvolvimento da angústia.

A função do ego é mediadora, integradora e harmonizadora entre as pulsões do id, as exigências e ameaças do superego e as demandas da realidade exterior.

Ao contrário do id, que é fragmentado em tendências independentes entre si, o Ego surge como uma unidade, e com instância psíquica que assegura a identidade da pessoa. (Boulanger, 2006). Também tem a função de consciência assegura a auto-conservação.

Superego

É o herdeiro do Complexo de Édipo. É estruturado por processos de identificação. A identificação com o superego dos pais. Assume três funções: auto-conservação; consciência moral; função de ideal – ideal de ego.

O superego é constituído pelo precipitado de introjeções e identificações que a criança faz com aspectos parciais dos pais, com as proibições, exigências, ameaças, mandamentos, padrões de conduta e o tipo de relacionamento desses pais entre si. Zimerman, 1999).

Freud, S. (1916/1917) Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Zimerman, David E. Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.

Freud, Sigmund (1915). O Inconsciente. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, S. (1914). Psicopatologia da Vida Cotidiana Freud. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Fenichel, O. Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo: Editora Atheneu, 2005.
Bergeret, J. Noção de Estrutura. In: In: Bergeret, J. …[et al.]. Psicopatologia: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Boulanger, J. –J. Aspecto Metapsicológico. In: Bergeret, J. …[et al.]Psicopatologia: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Freud, S. Esboço de Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1998.