Família, Parentalidade e Adoção: Um Estudo Psicanalítico sobre Homoafetividade

images (3)Tendo em vista a considerável evolução ocorrida na sociedade e mais especificamente no que tange as relações familiares durante o passar dos tempos e a fim de contemplar um tema bastante atual e porque não dizer polêmico, este artigo tem por objetivo discorrer sobre algumas questões que envolvem a família homoafetiva, enfocando a adoção por pares do mesmo sexo. Numa perspectiva psicanalítica é possível questionar: “Desejo e Identificação: a identidade de gênero e a sexualidade dos pais e das mães são fundantes na identidade dos/as filhos/as?” A ciência inicialmente dá sua contribuição com alguns pontos negativos para a homossexualidade, estabelecendo estigmas, como por exemplo, afirmando que estes seriam perversos. Diante de tantas vitórias judiciais conseguidas pelos casais homoafetivos, identifica-se que os impedimentos acerca deste tema são totalmente reflexos de uma sociedade que muda, muito lentamente, seus conceitos morais, apresentando uma dificuldade em aceitar “o novo” mesmo estando em pleno século XXI.

Palavras-chave: Família, Parentalidade, Adoção, Homoafetividade, Psicanálise.

1. Introdução

O presente trabalho se inscreve sobre o tema família homoafetiva e adoção, cujo objetivo maior é o de sondar as percepções e atitudes que a sociedade tem em relação a este tema, abarcando o papel de suma importância da psicologia e suas contribuições para promoção dos direitos dos homossexuais e seus possíveis vínculos familiares, uma vez que as transformações da sociedade advindas com o passar do tempo implicam em mudanças que também ocorreram nos âmagos familiares.

As relações afetuosas e sexuais que envolvem pessoas do mesmo sexo são exemplos claros de tais mudanças. A adoção por estes é um tema polêmico e controverso, não só porque abrange a paternidade/maternidade homossexual, mas também pelo pouco valor somado a muito preconceito que resulta em uma enorme cicatriz que o tema adoção traz consigo.

Nos últimos anos, entram em cena questões concernentes a parentalidade exercida por pessoas do mesmo sexo. Podemos dizer que o Brasil ainda é uma “criança engatiando” ao se tratar do tema central deste artigo, mesmo estando no século XXI. Faz-se necessário um debate sobre homoparentalidade, ao ponto que fique esclarecido para profissionais que irão se deparar com pessoas que se apresentam com identidades variáveis. A ideia é discutir adoção e homossexualidade passeando no campo psi e costurando assim vários subsídios que avaliam positivamente homoparentalidade.

2. A História da Família e as novas configurações – Uma breve narrativa

Philippe Ariès (1975) afirma que na Idade Média, a família tinha a função de assegurar a transmissão da vida, dos bens e dos nomes, no entanto não ia muito longe quando o assunto era sensibilidade. Tratavam as crianças como meros aprendizes de adultos e assim, afrouxavam cada vez mais o laço afetivo entre pais e filhos. Em meados do século XV surgiu a preocupação com a educação, deixando assim a família de ser uma instituição do direito privado para assumir uma função moral, formando corpos e almas.

Diz ele:

A família moderna retirou da vida comum não apenas as crianças, mas uma grande parte do tempo e da preocupação dos adultos. Ela correspondeu a uma necessidade de intimidade: os membros da família se unem pelo sentimento, o costume, e o gênero da vida (ARIÈS, 1975, p. 195).

No Brasil, o Estado influenciou bastante para que a história social da família fosse modificada e tomasse para si características da burguesia européia. De acordo com Jurandir Freire Costa (1979), a família teve um destino semelhante no que se refere às normas e leis aplicadas aos loucos naquela época, ou seja, a punição, repressão e exclusão era o destino final de quem não seguisse as ordens do contrato social democrático-burguês.

O autor diz:

O Estado moderno, voltado para o desenvolvimento industrial, tinha necessidade de um controle demográfico e político da população adequado àquela finalidade. Esse controle, exercido junto às famílias, buscava disciplinar a prática anárquica da concepção e dos cuidados físico dos filhos, além de, no caso dos pobres, prevenir as perigosas conseqüências políticas da miséria e do pauperismo. No entanto, não podia lesar as liberdades individuais, sustentáculo da ideologia liberal. Criam-se, assim, dois tipos de intervenção normativa que, defendendo a saúde física e moral das famílias, executavam a política do Estado em nome dos direitos do homem (COSTA, 1979, p. 51).

Nessa perspectiva, diz-se que tanto no caso dos loucos, como no da família, a norma deu-se para contrapesar as falhas da lei. No primeiro elemento não poderia haver punição, pois o infrator era visto como irresponsável; no segundo, o contrato social não antevia a conduta infratora da família como crime. Torna-se possível conhecer os motivos para o estreitamento entre família e Estado no Brasil do século XIX.

A instrução sexual de acordo com a higiene alterou homens e mulheres em reprodutores e guardiões de suas gerações para que fossem raças puras. Ainda de acordo com Jurandir Freire Costa (1979), a sanidade física da família de elite aumentou, no grau em que as condutas sexuais foram abreviadas às funções de “pai” e “mãe”. Assim, consolida-se o amor entre pais e filhos idealizado pela higiene. Na família burguesa os pais não sentem-se seguros nunca com as atitudes tomadas em relação aos filhos e sempre estão cercados pelos especialistas para revelar-lhe os excessos e faltas do amor paterno e materno.

Atualmente é possível conceituar família de várias formas: no sentido do dicionário Aurélio (2002), significa pessoas aparentadas que vivem na mesma casa, particularmente o pai, a mãe e os filhos. Para o UNICEF (2012), as famílias são o espaço natural e privilegiado para garantir que cada criança tenha assegurados seus direitos à saúde, educação de qualidade, igualdade, proteção e participação, com a absoluta prioridade determinada pela Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Na história da humanidade foram muitas as tentativas de se conceituar a família. Segundo Mariana de Oliveira Farias e Ana Cláudia Bortolozzi Maia (2009), muitos foram os significados e funções atribuídas ao decorrer da história, como por exemplo, de que o casamento deveria garantir que a riqueza e bens de duas famílias seguissem com seus respectivos herdeiros ou também a família baseada no amor romântico. Assim, podemos afirmar que a família pode ser vista sob várias óticas e estes conceitos são moldados por múltiplos aspectos como a sociedade em que se vive.

As autoras esclarecem:

Percebemos que se pode entender família a partir de várias concepções, no entanto, sabemos também que tais concepções estão sempre sendo modificadas. Assim, pode-se dizer que a família é uma instituição em constante mutação, que passa por influências socioculturais e econômicas, variando sua dinâmica e estrutura (FARIAS & MAIA, 2009, p. 58).

De acordo com Ana Cristina Pontello Staudt e Adriana Wagner (2011), com tantas mudanças sociais a multiplicidade dos arranjos familiares é a característica que mais reflete os novos tempos. São divórcios, recasamentos, adoção, pais e mães solteiros, uniões homoafetivas, entre outras que passam a dialogar com o modelo da família nuclear.

3. Filhos/as adotivos/as: como o/a brasileiro/a lida com esta questão?

O desejo de procriação e continuidade através da maternidade e paternidade é um dos predicados que marca a existência do ser humano. A palavra “adotar” deriva do latim “adoptare” que significa considerar, cuidar, escolher. Assim, Gina Khafif Levinzon (2009), apresenta a adoção como sendo também uma forma de satisfação das necessidades da família adotante que desejou uma criança, mas que por algum motivo esta não nasceu e/ou as necessidades da família que gerou a criança e não pôde cuidá-la.

A autora afirma:

A adoção provê a criança um lar permanente e uma base social segura que vai ao encontro de suas necessidades básicas. Se ela não pode ser criada por seus pais biológicos, ser adotada e criada como uma pessoa que tem uma família lhe dá condições para que possa crescer com segurança e equilíbrio (LEVINZON, 2009, p.12).

De acordo com Terezinha Féres-Carneiro (1999), os bebês carecem de algo que os forneça cuidados, permitindo com isso antecipar e unificar suas experiências, causando assim uma sensação de continuidade, pois bebês adotivos ou não sofrem com separações e manifestam em sintomas a perda de seus referenciais. Tais cuidados providos por uma pessoa estável criam um sentimento de coesão deixando claras e organizadas sensações e percepções da criança.

Mariana de Oliveira Farias e Ana Cláudia Bortolozzi Maia (2009), enfatizam que a adoção muitas vezes passa por um processo de desvalorização e consequentemente preconceito em relação à filiação biológica, pois algumas pessoas acreditam que a hereditariedade é responsável pelo elo que une pais e filhos. Entretanto, é possível afirmar que a conexão e o sentimento de filiação que parte da adoção tem um significado simbólico construídos no dia-a-dia, no convívio familiar, desembocando na elaboração de valores e projetos.

A autora constatou:

Como o laço sanguíneo entre pais e filhos é muito valorizado e a adoção não o abarca, ela ainda gera muito preconceito social e, muitas vezes, as pessoas têm medo de assumir a adoção tanto para o filho quanto para a sociedade (FARIAS e MAIA, 2009, p. 97)

Ainda de acordo com as autoras Mariana de Oliveira Farias e Ana Cláudia Bortolozzi Maia (2009), no Brasil existiu uma diferenciação entre filiação legítima e filiação biológica, conceitos desfeitos com a Constituição de 1988 assegurando que ambas as filiações teriam os mesmos direitos e os mesmos tratamentos legais perante a lei. Acoplado à Constituição, temos a ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e o Código Civil que anularam o antigo registro de nascimento do adotado que continha os pais biológicos, validando um novo contendo os pais adotivos. Contudo é importante ressaltar que

Apesar dessa integração legal, isso não significa que a criança já esteja profundamente socializada e integrada afetivamente com a família (FARIAS e MAIA, 2009, p. 96).

Em se tratando da Clínica Psicanalítica, Gina Khafif Levinzon (2009) relata de acordo com sua experiência no que tange o universo da adoção, que a demanda que busca pelo atendimento psicológico é frequente, predominando crianças que apresentam dificuldades emocionais. As famílias buscam apoio nos profissionais de psicologia alegando sintomas de desajustamento que causa incômodo e não se referem à adoção como tema de principal do conflito. Tópicos como a permanência no lar adotivo, sentimentos de não serem amados, ou de que são diferentes surgem e necessitam de acompanhamento terapêutico.

Expressa a autora:

Os psicanalistas e psicoterapeutas que lidam com pessoas ligadas por laços de adoção encontram-se diante da tarefa de não exagerar, nem subestimar a dimensão do papel da adoção em cada caso. É certo que não se pode atribuir tudo o que ocorre com uma pessoa ou uma família à sua condição de adotado ou adotante. Esta é uma simplificação ingênua, que leva a erros grosseiros de avaliação do psiquismo dessas pessoas, que funcionam com “as mesmas paixões” de todos os seres humanos. Por outro lado, a desconsideração de diferenças específicas ou de angústias geradas pela situação de adoção, em cada caso, implica na negação de aspectos importantes que podem estar influenciando todo o panorama individual e familiar (LEVINZON, 2009, p. 104).

4. Novas Parentalidades e a Adoção no Brasil: O Caso dos Casais Homoafetivos

À medida que os homossexuais vão conquistando espaço nas diferentes redes sociais, tornam-se mais visíveis suas formas de casamento, família e parentalidade, demandas que são comuns a qualquer cidadão. Ocorre que, embora haja em nossos dias mais liberdade de expressão, a homoafetividade ainda é objeto de preconceitos nos diferentes tipos de relações sociais[…] (PASSOS, 2009, p. 71).

É de suma importância contextualizar a parentalidade quando se fala em família homoafetiva, uma vez que esta exerce um papel tão importante quanto às outras configurações familiares sob seu(s) filho/a(s). De acordo com Elizabeth Zambrano (2011), parentalidade configura-se no exercício do cuidado habitual com as crianças pelos cuidadores, podendo estes ser mãe, pai, avós e etc. Embora a sociedade leve em consideração o vínculo biológico com a criança para que a parentalidade exista, é possível colocá-la em prática sem o exercício da consangüinidade, tornando esta idéia um impedimento para que se possa pensar em família de outras formas.

A homoafetividade e tudo o que esteja em sua circunferência é um tema que abarca muito preconceito e hostilidade. Pensando nisso e de acordo com sua experiência em atendimentos a casais homossexuais Terezinha-Féres Carneiro (1999), publicou em sua obra “Casal e Família – Entre a tradição e a transformação” uma pesquisa feita de própria autoria acerca de temas como: escolha amorosa, relacionamento sexual, fidelidade, virgindade, ciúme, influência da AIDS, separação conjugal e o papel atribuído à terapia de casal. Ainda com os homossexuais foram investigadas as demandas aceitação da família e filhos.

Diz ela:

As análises dos discursos dos sujeitos entrevistados evidenciaram semelhanças e as diferenças entre homens e mulheres de ambos os grupos, como também entre as dinâmicas conjugais hetero e homossexual (FÉRES-CARNEIRO, 1999, p. 97).

Com o intuito de desmistificar alguns elementos no que se refere à homoafetividade, a autora conseguiu constatar que as implicações da pesquisa são de extrema importância para a prática clínica uma vez que os dados colhidos mostram grande semelhança entre as dinâmicas dos casais homossexuais e heterossexuais.

Partindo da perspectiva da adoção por casais homoafetivos, Elizabeth Zambrano (2011) narra à aceitação da sociedade de famílias que se formam sob novas tecnologias reprodutivas, como por exemplo, as famílias monoparentais ou até mesmo as recompostas que de certa forma passam a ideia de heterossexualidade por terem fixado a procriação. Contudo, as famílias homoafetivas apagam totalmente esta ideia e então a rejeição dessa configuração ganha ainda mais espaço, sendo muito difícil romper com preconceitos e com as concepções da família tradicional. Pontuações são feitas por estudiosos acerca do assunto para que não haja tantas “desculpas” para a não aceitação homoafetiva.

Como coloca a autora:

Várias questões são colocadas como argumento contrário à existência das famílias homoparentais. Uma delas é a “diferença de sexo” entre os pais, que provoca uma série de discussões em relação à saúde psíquica das crianças e a possibilidade de se construir uma família do ponto de vista jurídico (ZAMBRANO, 2011, p. 112).

Segundo Maria Consuêlo Passos (2009), a diferença mais marcante entre os casais heterossexuais e homossexuais se dá pelo fato de que estes últimos têm que lidar com as linhas de força entre a demanda afetiva na criação de um filho e as barreiras ocorridas pelas condições naturais de procriação bem como com as formas de preconceito produzidas pela sociedade.

Em nível de Brasil, deixa-se claro pela autora que:

Quando observamos que no Brasil o índice de violência praticada contra homossexuais tem aumentado, ficamos assustados com as repercussões que essa intolerância pode trazer para a vida relacional das crianças nascidas no contexto de famílias homoparentais. Ainda que os pais, a família de origem e os amigos recebam essas crianças e não as discriminem, estamos longe de uma situação de naturalidade. A opção por filhos, a chegada destes e suas inserções nos espaços públicos, como a escola, quase sempre estão encobertos por sigilos, e às vezes, dissimulações que, certamente, interferem na constituição psíquica da criança (PASSOS, 2009, p. 75).

A pauta “adoção por homossexuais” sempre gerou polêmica principalmente por conta dos mitos acerca do bem-estar da criança. Mariana de Oliveira Farias e Ana Cláudia Bortolozzi Maia (2009), afirmam que visões estereotipadas por inúmeras vezes patologizam a homossexualidade, e acreditam assim que esses mitos se eternizam até os dias de hoje porque há uma considerável falta interesse da sociedade em se aproximar desse tipo de realidade, acurando-se a premissa de que é preciso conhecer e estudá-la.

4. Desejo e Identificação: a identidade de gênero e a sexualidade dos pais e das mães são fundantes na identidade dos/as filhos/as?

É pontual abordar gênero ao se abranger o assunto homoafetividade. Ethel Person e Lionel Oversey (1999) afirmam que por muitos anos não houve nenhum interesse a respeito das origens e desenvolvimento da feminilidade e masculinidade. Achava-se que satisfaziam apenas o sexo biológico mesmo tendo intervenções históricas e culturais.

Em sua dissertação de mestrado, Fellippe Figueiredo Lattanzio (2011) cita que em uma hipótese feita por Freud de um visitante de outro planeta ao chegar à Terra este deparou-se com a presença de dois sexos. A partir disso e de acordo com suas leituras em Laplanche, o autor assegura que se torna presente neste caso que a mais adequada tradução para esses citados dois sexos seria gêneros, onde o que impressionaria este visitante seriam os hábitos diferenciados dos homens e mulheres e não dos órgãos genitais.

Discorre:

A primeira aparição, numa publicação, do conceito de gênero data de 1955, num texto de Money sobre o hermafroditismo. Para ele, a pertinência psicológica de se estudar o hermafroditismo situa-se no fato de que esta condição possibilita a descoberta de enormes evidências a respeito do desenvolvimento da orientação sexual dos humanos em geral (LATTANZIO, 2011, p. 27).

Deste modo, não necessariamente o gênero é um conceito ligado ao sexo biológico, tornando-se mais próximo das relações sociais do que sendo uma estrutura inata.

Ricardo de Souza Vieira (2011), diz que o senso comum conceitua as figuras parentais como sendo aquelas que correspondem à perspectiva biológica, assim a mãe é aquela que gera e dá a luz, portanto sempre uma mulher, e o pai é aquele que fecundou e dá suporte na educação dos filhos. Em se tratando da perspectiva psicanalítica diz-se que pai, mãe e filho antes de serem pensados como pessoas, são vistos como funções.

Traz ainda que o desejo que a mãe sente em relação ao seu filho anula qualquer possibilidade de alguma falta entre os dois seres, é uma sensação fantasiosa de total satisfação e plenitude absoluta. Trazendo para o cenário psicanalítico, o desejo que habita no inconsciente, diferente da vontade consciente, não equivale precisamente do amor materno, mas cruza essencialmente por ele, assim o amor materno passeia no desejo da mãe pela criança.

O autor cita:

Ao contrário do que se poderia pensar, o exercício da função materna não depende, necessariamente, da presença da mãe biológica. A mãe biológica é única e, como tal, insubstituível, mas a função pode ser exercida através de uma outra pessoa. Ainda que a coincidência entre a mãe biológica e função materna seja o mais comum, a mãe que gera não tem que ser necessariamente aquela que exerce essa função. Se na ausência da mãe biológica houver um substituto, a função se preserva (VIEIRA, 2011, p. 128 apud FARIA, 2004, p. 86).

Neste formato, fica esclarecido que nem sempre é preciso existir a articulação entre a mãe biológica e quem exerce a ação materna para que o papel primordial à composição psíquica da criança se resguarde.

Propaga:

E vale ressaltar que o substituto da mãe biológica pode ser de qualquer sexo ou gênero e de qualquer orientação de desejo sexual, ou escolha de objeto, desde que possua essa relação de desejo com a criança, investindo-a libidinalmente, traduzindo as necessidades do pequeno infante em demandas, relação esta que criará a ilusão de completude, laço libidinal que, em outro momento, carecerá da interdição de uma outra função, a paterna, como limitadora dessa relação, através da entrada em cena de um terceiro nessa relação dual, propiciando o desenvolvimento psíquico do sujeito (VIEIRA, 2011, p. 128).

Também de acordo com o autor, o tema família homoafetiva despertou em alguns pesquisadores a curiosidade em saber se uma vez que não há a diferenciação sexual as crianças não ficariam sem referências ou essas referências ficariam distorcidas. Porém fica claro, de acordo com a psicanálise que crianças consangüíneas ou não, sendo adotadas, precisam ser criadas pelos pais como filhos e estes, como pais pela criança.

Argumenta ele:

É o desejo que circunda as estruturas discurssivas de determinada configuração familiar que colocará em jogo os lugares e funções que cada membro desempenha e ocupa em relação a cada um dos membros.

Acerca disso e para firmarmos a ideia de desejo e identificação é imprescindível refletir acerca de um fato que o autor menciona, onde uma criança que é criada por sua avó materna e sua mãe pode ser constituída e assinalada pela castração simbólica, bem como no caso de um casal heterossexual há a impossibilidade de distinção de papéis, funções simbólicas e gerações.

Sendo assim, o que se leva em consideração é que a criança seja recebida por pessoas que a desejam. Um fato relevante para a parental idade não é a diferença anatômica dos sexos, mas a grandeza simbólica das funções que os adultos constroem junto às necessidades da criança. Por sua vez, em relação à identidade sexual destas, seria impossível haver um homossexual caso a identidade sexual dos pais fosse tão categórica quanto à dos filhos, tendo em vista que os homossexuais são gerados de pais heterossexuais.

5. Considerações Finais

Partindo das mudanças nas configurações familiares, o tema abarcado neste artigo traz consideráveis reflexões acerca da dinâmica familiar vivida por casais homoafetivos e seus possíveis filhos. As entidades familiares são unidades sociais basilares do ser humano, estando justificada por esta razão a necessidade de que a Psicologia, enquanto ciência em construção e aplicada à realidade social, contenha os entendimentos e assistência concernentes ao contexto avaliado.

A adoção em si já traz muitos estigmas e quando se fala de adoção por casais homoafetivos a crença generalizada de que essa configuração familiar poderá ser prejudicial ao desenvolvimento psicológico das crianças se estende e ganha força. Muitas pessoas questionam se a ausência de modelo do gênero masculino e feminino pode, eventualmente, tornar confusa a própria identidade sexual, havendo o risco de a criança tornar-se homossexual.

Embaraçam mais uma vez a sexualidade com a função parental, como se a orientação sexual das figuras parentais fosse determinante na orientação sexual dos filhos. No decorrer do artigo clarificou-se a ideia distorcida de que a função parental não está contida no sexo, e, sim, na forma como os adultos que estão no lugar de cuidadores lidam com as questões de poder e hierarquia no relacionamento com os filhos, com as questões relativas a problemas disciplinares, de controle de comportamento e de tomada de decisão.

Fica bastante evidente que os problemas que se colocam às famílias homoparentais são de ordem social, como sempre foram em todas as situações de mudança na instituição familiar. A homoafetividade vem obtendo cada vez mais visibilidade, levando assim mais pessoas a assumirem a verdadeira orientação sexual.

Gays e lésbicas esquadrinham a efetivação do sonho de estruturarem uma família com filhos. Por conseguinte ao fim deste trabalho, espera-se que negar ao par homossexual o direito à convivência familiar e não reconhecer a existência de pais do mesmo sexo seja só uma questão de tempo.

LEVIZON, G. K. Adoção. Clínica Psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009. 3ª Ed.

ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1981. 2ª Ed.

FARIAS, M. de O. & MAIA, A. C. B. Adoção por homossexuais: a família homoparental sob o olhar da psicologia jurídica. Curitiba: Juruá Editora, 2009. 1ª Ed.

WAGNER, A. & COLS. Desafios psicossociais da família contemporânea. Pesquisas e Reflexões. Porto Alegre: Artmed, 2011.

FERREIRA, A. B. de H. Mini Aurélio Século XXI. O minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2002. 4ª Ed.

UNICEF. Família: parceiras ou usuárias eventuais: análise de serviços de atenção a famílias com dinâmica de violência doméstica contra crianças e adolescentes. Disponível em: http://www.unicef.org/brazil/pt/activities_10162.htm  – acessado em 08/09/2012.  

FÉRES-CANEIRO, T. (Org.) Casal e Família: Entre a tradição e a transformação. Rio de Janeiro: NAU Editora, 1999.

__________________. Casal e Família: Permanências e Rupturas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.

Conselho Federal de Psicologia. Psicologia e Diversidade Sexual: desafios para uma sociedade de direitos. Brasília: CFP, 2011.

COSTA, J. F. Ordem Médica e Norma Familiar. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

VIEIRA, R. S.Homoparentalidade: estudo psicanalítico sobre papéis e funções parentais em casais homossexuais com filhos. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47133/tde…/vieira_me.pdf – acessado em 10/10/2012.

LATTANZIO, F. F. O lugar do gênero na psicanálise: da metapsicologia às novas formas de subjetivação. Disponível em: www.bibliotecadigital.ufmg.br/…/disserta__o_felippe_lattanzio_vers_o_definitiva__o_lugar_do_g_nero_na__psican_lise.pdf – acessado em 10/10/2012.

CECCARELLI, P. R. (Org.) Diferenças sexuais. São Paulo: Escuta, 1999.

Histeria e Suas Manifestações no Masculino

histeria_masculina-1Pela sua designação de origem grega, histeria que traduz útero, era considerada uma manifestação da frágil e carente mulher. Era impossível falar da histeria masculina, sem um útero, e ainda hoje não se faz sem reservas, tanto pelo homem afetado como pelos médicos que diagnosticam. Este artigo discorre justamente sobre homens que tiveram suas vidas significativamente comprometidas pelos diagnósticos equivocados, e também incita uma reflexão sobre o translado da predominância da histeria feminina para a masculina, principalmente pelo fator agravante de aspectos socioculturais contemporâneos.

Palavras-chave: Histeria, masculino, psicanálise

Nos estudos psicanalíticos, desde minha formação em psicologia, sempre me intrigou a ênfase dada às mulheres na histeria, que apesar de ter predominantemente suas manifestações no gênero feminino, em diversos pacientes masculinos de Freud podemos encontrar seus traços e manifestações.

No caso Hans, por exemplo; uma histeria de angustia recebe de Freud a denominação de zoofobia histérica infantil e também a citada loucura histérica analisada por Freud em 1923, no trabalho “Uma neurose demoníaca no século XVII”.

Na literatura contemporânea, poucas são as referencias sobre histeria masculina, entretanto seus sinais são observados frequentemente.

Para abordar as questões que me envolvem, gostaria de lembrar que para Charcot, um dos pioneiros nas investigações sobre histeria, este distúrbio era atribuído à hereditariedade. Freud sendo seu aluno e discípulo não se contentou com esta tese, dedicando-se incansavelmente na questão até chegar aos processos de conflitos inconscientes como deflagradores de sintomas.

Suas pacientes, através da evocação de ideias, conseguiam reviver emoções, fantasias e situações que possibilitavam a emergência de seus conflitos para o campo da consciência e na medida em que se tornavam conscientes de tais conflitos, estes eram suprimidos.

No final do século 19 a histeria ainda era considerada uma manifestação da frágil e carente mulher, a considerar pela sua designação de origem grega histeria, que traduz útero, acreditava-se que o sangue contaminado do útero chegando ao cérebro era a causa das convulsões, e não apenas estas ganhavam expressão nos quadros histéricos, manifestações diversas como sabemos entre paralisias, crises respiratórias, taquicardia e uma constelação de outros sintomas que poderiam revelar, a grosso modo, a angustia das repressões, castrações, resistências, enfim.

Falar da histeria masculina na ausência de um útero, era impossível, ainda hoje o é, não se faz sem resistências e reservas, tanto dos homens afetados quanto dos médicos que diagnosticam segundo Alonso e Fuks (2004).

No decorrer do século 20 a histeria deixa de ter a atenção médica em função das sucessivas reformas nosológicas na saúde mental, recebendo outras nomenclaturas nos consultórios médicos de diversas especialidades, principalmente na psiquiatria e neurologia. As convulsões ganharam status de distúrbios psíquicos como transtorno de pânico ou de ansiedade, podendo também ser confundidas com epilepsia de controle difícil. Entretanto esta, em geral, tem origem orgânica bem definida e a histeria não.

Portanto ainda que a histeria tenha suas facetas, ainda se revela em alto índice nas clinicas de neurologia, estudos por oito centros médicos em diversos estados do Brasil, que contam com o videoeletroencefalografia (V-EEG) instrumento que possibilita a diferenciação do que é epilepsia e o que não é, apontam por ano cem casos de pacientes que apresentam as crises conhecidas como “Não-epiléticas psicogênicas”, ou seja, além da histeria outros distúrbios psiquiátricos podem apresentar estas crises, como anorexia, bulimia, pânico, bipolaridade e transtorno de ansiedade.

Estudos recentes do Hospital das clinicas em São Paulo, indicam prevalência na histeria. Encaminhados pela neurologia trinta e cinco pacientes para o tratamento psicoterápico, apenas 26 concluíram o processo e vinte e cinco receberam diagnóstico de histeria, entre eles as mulheres representam 23 casos e homens dois, sendo que um deles apresentava tanto crises epiléticas quanto emocionais.

Freud já fazia referencias a histeria como manifestação em homens e mulheres, e ao ser questionado porque só apresentava mulheres histéricas, dizia que os histéricos poderiam ser encontrados como maltrapilhos nas ruas, acometidos pelo mal cronificado do alcoolismo. Cujas manifestações outras, em geral estão maquiadas, disfarçadas pelos traumas honrosos, pela coragem, heroicidade e não revelada claramente como tal, mas através de “síndromes honrosas” como invalidez, por exemplo.

Hoje, porém, pouco se fala do mal que multifacetado acomete gravemente a vida desses homens, por vezes impossibilitando-os de trabalhar e garantir o sustento próprio e ou de suas famílias, entre outras dificuldades e prejuízos em suas vidas de modo geral, a partir inclusive de diagnósticos equivocados. Neste campo a neurologia tem prestado grandes contribuições para o diagnóstico diferencial nas investigações com a videoeletroencefalografia (V-EEG).

Em referencias citadas por Fioravante (2005) diz o psiquiatra e psicanalista Fábio Hermann, pesquisador e membro da USP e do HC de São Paulo, que visualiza neste novo cenário, grande oportunidade para investigações em alto nível, “num campo estagnado por repetição teoria”.Aposta na equipe multi-profissional, com neurologistas, psicólogos (Psicanalistas) e psiquiatras juntos para descobrirem a melhor forma de lidar com estas expressões do inconsciente.

Mas a questão que me instiga no tema é pensar no cenário sociocultural em que estamos vivendo, a ditadura pela igualdade dos sexos implicando diretamente o lugar, os papéis, funções já estabelecidas e arraigadas, na psique feminina e masculina, há séculos.

Em minhas reflexões penso no fenômeno cultural como significativo deflagrador da histeria masculina, quantos lares apresentam estes papéis e funções trocadas, outros casos em que o homem já não se mantém como o grande provedor, e ao dividir esta tarefa com a mulher é intimado a contribuir com atividades antes atribuídas exclusivamente ao sexo feminino.

Penso que de certa forma isso agride profundamente o narcisismo masculino, ao se perceberem destituídos de um lugar que lhe garantia uma condição de poder na sociedade e na família e jogados a outro que por séculos fora considerado por eles de pouquíssima valia.

Segundo Silvia Alonso e Fuks autores de “Histeria”, no homem está menos em jogo o corpo e ou imagem do que na mulher, visto que honra ou desonra está mais ligada ao narcisismo, atualmente com as mudanças dos representantes do masculino os sintomas se diversificaram. Suas manifestações aparecem através de taquicardia, distúrbios gastrointestinais, ideias hipocondríacas, crises ansiosas com alterações cardíacas entre outras, diferentemente da mulher que com mais frequência apresentam paralisias, anestesia, encefaléias.

Estudos apontam que a histeria masculina se manifesta também em crises de ira, agressividade, violência contra mulher, em alguns transtornos que envolvem a compulsão como jogo patológico, endividamento exacerbado, na bipolaridade, ou seja, vários estudos apontam que os histéricos se encontram nas delegacias e as histéricas nos consultórios médicos.

Atualmente os homens encontram mais espaço para expressar seus sofrimentos neuróticos e procuram ajuda com mais frequência. Mas pouco ainda se fala sobre a histeria entre eles, e minhas questões aumentam a esse respeito.

Freud nos diz que a sexualidade é mais ampla que a atividade sexual em si, e compreende todo processo cíclico de prazer e desprazer que envolve desejo e experiência humana. Na psicanálise entendemos a histeria como funcionamento psíquico caracterizado pela busca incansável e inconsciente do sujeito em ser o objeto de desejo do outro.

Na literatura encontramos também a metáfora de Don Juan cuja manifestação histérica é não estabelecer vinculo amoroso com uma mulher, estas representam um numero numa lista, como o desejo insaciável de “realizar” um desejo. O desejo, a conquista é o objeto, por isso mais um numero, na aquisição dos desejos, estes perdem atrativos, levando o histérico a uma nova busca.

Logo me pergunto se o objeto do desejo pode estar localizado no fenômeno transitóriode Winnicott, ou na falta de um olhar vivo da mãe, ou ainda na falta de representação fálica do pênis, cujo homem não se sente capaz de ser objeto de desejo ou realizar, satisfazer as necessidades da mulher. Dito de outra forma, não se estabeleceu como falo da mãe.

Com efeito, observam-se algumas expressões histéricas no masculino, como na sedução e não realização efetiva de uma relação amorosa sexual e até mesmo nas relações sociais, assim como na histeria feminina. Já observei em alguns relatos na clinica, pacientes masculinos afirmando uma necessidade de ter o olhar das mulheres sobre ele, que a ideia de que o desejam o satisfaz. Parece-me também que existe uma angustia escamoteada, de não conseguir sustentar este desejo do outro se houver uma aproximação maior.

“Podemos compreender as constantes visitas dos histéricos aos hospitais como um contínuo apelo para que a mãe volte a cuidar deles e para que ela redescubra o corpo do bebe como algo agora desejável”. (Bollas, apud Fioravante, C.; 2005)

Vale lembrar as referencias psicanalíticas que não atribuem a etiologia da histeria apenas à mãe, mas também ao pai, pois ambos podem dar condições para o desenvolvimento em seus filhos de uma identidade que não lhes são próprias. A histeria também é fomentada quando, deixando de realizar a castração simbólica, via omissão nas funções paternas não se define limites que auxiliam no estabelecimento da identidade e dos papeis sociais e sexuais dos filhos.

Voltamos então ao contexto sociocultural, cujos papeis e funções sociais e sexuais estão em intensa transformação, de modo que o lugar antes estabelecido para homens e mulheres já não são definidos com o rigor precedente.

Podemos indagar que para o homem o avanço nas conquistas do sexo feminino foi a destituição de um lugar, que até então, estava de algum modo confortável ou adaptado e justificado, sendo lançado a uma zona desconhecida que lhe impõe outras funções deflagradoras de conflitos intensos e inconscientes, principalmente às gerações transitórias que sofrem uma forçosa adaptação nas ultimas décadas.

Com base nesta prévia de estudo e reflexão, questiono ainda se a histeria no masculino poderia ter suas origens nas fases primitivas do indivíduo, numa possível falha da “narcisização” deste sujeito ou a não ocorrência dela, deflagrando os estados regredidos, motivados pelo contexto social e expressos nos sintomas…

Poderíamos conjecturar a possibilidade da predominância da histeria transladar do feminino para o masculino?

Estas reflexões me apontam o vasto campo de possibilidades e necessidade de estudos e pesquisas mais aprofundados no tema, mas o que me parece muito claro é que o tempo nos impele sempre à descoberta, ao desconhecido, não há fim, mas transformação continua, assegurando ao ser humano de modo geral, as possibilidades inimagináveis do devir, do poder estratégico de continuidade que caracteriza a essência humana.

ALONSO,S. L.; FUKS, M. P.; “Histeria” – Clinica Psicanalítica; São Paulo: Casa do Psicólogo, 1ª Ed., 2004. – (Coleção Clinica Psicanalítica / dirigida por Flávio Carvalho Ferraz).

AVELAR A.; A Questão da Histeria Masculina: Um Caso Clínico. Acesso em 26 de setembro de 2010. Disponível no site: http://www.spid.com.br/pdfs/Atividades%20-%20Jornada%20Externa%20A%20quest_o%20da%20histeria%20masculina_%20Um%20caso%20cl%C3%ADnico%20-%20Andr%C3%A9%20Avelar.pdf

FIORAVANTE, C.; “As Máscaras da Histeria”. Distúrbio psíquico que ajudou a gênese da psicanálise é confundido no presente com epilepsia . Edição impressa 117; 2005. Disponível no site: http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=2785&bd=1&pg=1&lg=Pesquisa Online Fapesp; Acesso em 25 de stembro de 2010.

FREUD, S.; “Análise De Uma Fobia Em Um Menino De Cinco Anos (1909)”; in Obras completas, vol. X; Ed. Eletrônica.

FREUD, S. (1925) “Algumas conseqüências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos”. Em: Obras completas, vol. XIX. Rio de janeiro:Imago, 1977.

FREUD, S.; (1893); “Sobre O Mecanismo Psíquico Dos Fenômenos Histéricos” – Comunicação Preliminar; in Ob. Completas, vol. II; Ed. Eletrônica.

FREUD, S.; “Estudos Sobre a Histeria”. Ed. Standad Ob. Completas, vol II, pg. 01 a pg.184. RJ: Imago Editora, 1996.

QUINTAES, M.; O Mito de D.Juan ou “é possível um homem amar uma mulher”? Histeria masculina ou arquétipo do Puer? Acesso dia 25 de setembro de 2010. Disponível no site: http://www.clinicapsique.com/doc/histeriamasc.doc.

RASSIAL, Jean-Jacques. Psicopatologia do endividamento excessivo. Ágora (Rio J.), Rio de Janeiro, v. 8, n. 2, Dec. 2005. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S151614982005000200007&l ng=en&nrm=iso>. access on 01 Oct. 2010. doi: 10.1590/S1516-14982005000200007.

TOMASELLI, T.; O Caráter Histérico e Sua Estrutura; Publicado em 21de outubro de 2007. Acesso em 01 Outubro de 2010. No site: http://www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/makepdf.php?itemid=811.

A Identificação com os Pais na Busca do Parceiro Amoroso na Vida Adulta

namoroEstamos constantemente buscando fazer ligações em nossa vida, encontrar alguém para namorar, casar, formar uma família. Diante desse tema, este trabalho teve a intenção de seguir os passos da teoria freudiana para investigar como e porque tendemos a escolher alguém que se assemelhe aos nossos pais ou cuidadores. A teoria de Freud, sobre o complexo de Édipo, mostra sua importância na infância, no que se refere ao desejo de sedução da criança pelo sexo oposto, a rivalidade após seu desapontamento diante da negação e também a destruição do complexo de Édipo, formando, a partir disso, a identificação e nossa estrutura psíquica para mais tarde encontrarmos alguém para nos unirmos e formarmos uma família. Para isso, nossa pesquisa foi feita com seis moradores de São Miguel do Oeste-SC, todos casados, sendo três homens e três mulheres, com idades de 20 a 40 anos. O objetivo principal foi analisarcomo a identificação com os pais influencia a escolha do parceiro amoroso na vida adulta. O método de pesquisa utilizado é qualitativo, com análise de conteúdo. As discussões e interpretações relacionadas ao tema foram baseadas na teoria psicanalítica. Ao final do trabalho, foram identificadas, nas falas dos entrevistados, como suas relações com os pais influenciam as escolhas na fase adulta. Além disso, como suas experiências infantis de cuidados e amor repassados pelos seus pais ficaram marcadas no psiquismo de cada um e influenciaram para, na vida adulta, encontrar alguém e formar uma relação amorosa.

Palavras-chave: Identificação. Relacionamento amoroso. Complexo de Édipo.

1. Introdução

Este trabalho tem o propósito de investigar como ocorre o processo de escolha dos parceiros na vida adulta, como nos identificamos com alguém, o porque nos identificamos com esse indivíduo que pouco conhecemos, e o que está atrás desta escolha que inconsciente fazemos.

A dúvida intrigante é porque escolhemos alguém que, muitas vezes, se assemelha aos nossos cuidadores ou a nós mesmos e como ocorre esta identificação com algo que não podemos ver e nem sequer pensar sobre o que está acontecendo.

Muitas pessoas que passam ao longo de nossas vidas se assemelham as que foram ou ainda são importantes para nós. A pessoa que escolhemos para namorar ou casar, em muitos casos, pode ser semelhante ou com nosso pai, ou com nossa mãe, ou com quem os substituiu em nossa vida. A identificação é exposta por Freud (1921, p. 115) como sendo “a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa.”

Freud (1921) diz que podemos nos identificar com coisas boas do indivíduo, mas podemos, também, outras vezes, nos identificarmos com os sintomas das pessoas, problemas que se apresentam no outro, mas que reconhecemos como nosso, pois, para o autor, em algum momento da nossa vida, já passamos por aquilo que o outro está passando e tendemos a nos colocar no lugar dele. Neste caso Freud (1921) observa a escolha que o indivíduo faz, onde este anula o objeto, ou seja, a pessoa com quem iria se identificar e dá uma total importância ao sintoma do mesmo, se identificando com o sintoma e não com o objeto. A Psicologia chama este fato de empatia, mas, como Freud (1921) em seu texto, nós a colocamos como identificação, o que não deixa de ser uma nem outra.

Nesta perspectiva, Nasio (1999) diz que a pessoa pode identificar-se com o outro de duas maneiras, a primeira é através da vontade consciente, é o caso de você admirar uma pessoa, vestir-se como ela, falar com o modo da outra pessoa, enfim, traços que são visíveis e que você adota como seus. A segunda forma de identificação é inconsciente, pois ocorre um movimento ativo de ir em busca da pessoa que elegemos a fim de assimilar seus traços, se possível incorporá-la, mas, segundo esclarecimento do autor, não temos consciência porque fazemos ou porque escolhemos certa pessoa para adorá-la, amá-la ou odiá-la.   

A intenção neste trabalho é justamente investigar como acontece o processo de escolha do parceiro amoroso, como a nossa ligação com os pais traz, no decorrer de nossa vida, a determinação de escolher tal indivíduo para se unir e formar uma família.

Como consequências, exemplificamos a enorme procura por psicólogos ou por terapeutas de família para resolver conflitos dentro da relação e até mesmo para dar um entendimento para a vida e para a escolha daquele amor.

2. Desenvolvendo o Processo de Escolha do Parceiro Amoroso

Geralmente é por volta dos 20 a 40 anos que começamos a fazer nossas escolhas de vida, escolher com quem iremos nos casar, se teremos filhos ou não. Tais decisões devem ser muito bem pensadas, pois podem se estender pela maior parte de nossas vidas (OLDS; PAPALIA, 2000).

Para Olds e Papalia (2000), é nesta fase que ocorre a ideia de pertencer a alguém, é quando os relacionamentos se tornam fortes, íntimos e com amor, pois a maturidade individual já aconteceu, podendo assim formarmos uma relação, em que a troca será mútua, e cada um poderá dar ao outro o que ele necessita.

Segundo Erikson (apud OLDS; PAPALIA, 2000, p. 400), “desenvolver relacionamentos íntimos, é tarefa crucial do adulto jovem.” Na teoria proposta por Erikson, o adulto jovem que, durante a adolescência, desenvolveu um forte senso de identidade, já está pronto para a fase que é chamada intimidade versus isolamento, é aqui que os indivíduos estabelecem um senso de comprometimento um com o outro, tendo assim sua estrutura principal formada para ir em busca de uma companhia e formar sua relação. O jovem adulto que resolveu a crise de intimidade versus isolamento estará agora disposto a viver um relacionamento a dois, com quem escolheu partilhar sua vida, ter filhos e formar uma união saudável e duradoura (OLDS; PAPALIA, 2000).

Para Erikson (apud RAPPAPORT, 1981b), o sentimento adquirido de ser “eu”, estabelecido na etapa da identidade, possibilitará ao adulto unir sua identidade a outra, podendo ser este um amor, ou uma relação mais concreta, sem que se sinta ameaçado ou controlado pelo outro.

Conforme Olds e Papalia (2000), as pessoas tendem a buscar, para se unirem, parceiros semelhantes, na aparência física, inteligência ou, até mesmo, com preferências iguais, enfim, procuram uma semelhança para decidirem qual será a pessoa ideal para compartilhar suas vidas, além disso tentam buscar, na repetição, a semelhança da relação dos seus próprios pais, ou seja, a aproximação com a mesma felicidade e união se assim o tiveram.

Para Bee (1997), nós praticamos um processo de escolha antes de nos unirmos a alguém. Este processo é por ela descrito como sendo composto de três etapas. A primeira a ser observada são as características externas da pessoa. Neste primeiro momento, será observado se esta pessoa combina fisicamente, a idade e também se a classe social são compatíveis. No segundo momento, observamos as atitudes e crenças em relação ao sexo, religião, se as escolhas são semelhantes as suas ou não. Já, no terceiro e último momento, a compatibilidade relaciona-se aos ideais sobre sexo, relacionamento, família e filhos, aspectos que são fortes influenciadores para o escolhido. Portanto, para Bee (1997), somos atraídos por quem é parecido conosco. Também não podemos esquecer que a atração sexual exerce um poderoso papel na hora de atrair ou ser atraído por alguém.

 Freud (1910) coloca um ponto obscuro e ao mesmo tempo intrigante na forma de ver como é feita a escolha do objeto amado pelo homem. Evidenciando que o que tem por trás do objeto que escolhemos para amar na vida adulta, nada mais é que uma representação do amor e cuidado que recebemos na nossa infância, Freud apresenta quatro características que seriam fundamentais para a escolha do objeto que vai ser amado.

Para iniciar a escolha, o homem irá desejar, como objeto de seu amor, uma mulher que seja também cobiçada por outros, ou seja, que algum homem reivindique direitos ou posse sobre ela. Tendo isso como base, estes sentimentos que incidem ao homem procurar desta forma seu objeto de escolha, remonta do seu complexo de Édipo, em que a mulher cobiçada e desejada por outro é sua própria mãe e quem reivindica direitos sobre ela é seu próprio rival, o pai (FREUD, 1910).

O segundo passo é que a mulher pura, ingênua e que expressa extrema fidelidade, na teoria de Freud (1910), não é a mulher que vai ser a primeira escolhida por esses homens. Podemos achar um pouco complexa esta forma de escolha, mas, para o autor, o amor que dedicará a esta mulher deverá ter um certo dispêndio de energia, fantasiando seu bem-amado ao ser possuída por outro homem. Não que esta mulher vá traí-lo, mas a questão é que cause um certo ponto de incerteza e ciúme, provocando sua masculinidade de proprietário de um bem que, na verdade, não lhe pertence. Na verdade, na fantasia da criança, a mãe sempre será inocente e pura, ela sempre vai precisar do homenzinho para defendê-la, o que fica um tanto que contraditório na vida adulta. Assim o homem, com sua mentalidade machista, deseja ter uma mulher que poderá algum dia traí-lo. Para explicar essa possível escolha, retornaremos a fase edípica, pois, quando o menino começa a ter noções do que é o ato sexual, e que sua mãe também o pratica, mas ela o faz com o seu rival – o pai, gera no menino o sentimento de infidelidade. Podemos pensar que vem desta fase edípica o desejo deste homem possuir uma mulher que poderá traí-lo.

Chegamos a terceira condição, em que Freud (1910) explicaque a mulher é considerada do mais alto valor pelos seus dotes sexuais, sendo estes permitidos apenas a um único homem. Essas mulheres são consideradas como as únicas a serem amadas e serão descartadas com toda ira se este objeto de prazer for oferecido a outros. Na última condição para escolha, a mulher é vista como um objeto frágil e que necessita do homem para salvá-la, fechando, assim, a parte total e integrante de um objeto de escolha por parte de um homem.

Nas duas últimas condições para a escolha de objeto, retornando a fase edípica, a identificação de ver sua mãe como única e de apenas um único homem é transferida para sua vida futura, quando os outros podem desejar tê-la como mulher, mas apenas ele pode usufruir o amor desta. Quanto à ideia de que as mulheres devem ser salvas pelo homem, Freud (1910) diz que esta forma de salvamento é dar uma recompensa para esta mulher que lhe deu a vida, portanto, na vida adulta, este homem dará a sua mulher um filho que será igual a ele.

É possível identificar o que ocorre com o indivíduo para que ele estabeleça estas condições na busca do seu objeto de amor. No amor normal, algumas características da mãe permanecem na escolha do objeto, visto que o homem manifestará isso mais tarde na sua escolha, o que é bem visível quando um rapaz se apaixona por uma mulher com idade um pouco mais avançada que a dele, demonstrando, para Freud (1910, p. 174), que:

A libido permaneceu ligada á mãe por tanto tempo, mesmo depois do início da puberdade, que as características maternas permanecem impressas nos objetos amorosos que são escolhidos mais tarde, e todas elas se transformam em substitutos facilmente reconhecíveis da mãe.

Portanto, na teoria de Freud (1910), a nossa energia libidinal ou também chamada pelo autor de investimento [1] é liberada para o amor maternal na infância quando cria um elo, entre mãe e filho, e é esta energia que fará parte da nossa busca pelo parceiro da vida adulta, quando retornaremos a esta fase inconsciente para viver aquele amor e cuidado que ganhamos na nossa infância.

Podemos, neste momento, explicar o que Freud coloca como sendo um objeto em suas obras, e que neste trabalho aparecerá em grande número. Neste caso recorremos aoVocabulário de Psicanálise, em que Laplanche e Pontalis (2001, p. 326) explicam de forma pontual este termo utilizado como sendo um:

[…] correlativo da pulsão, é aquilo em que e por que esta procura atingir a sua meta, isto é, um certo tipo de satisfação. Pode tratar-se de uma pessoa ou de um objeto parcial, de um objeto real ou de um objeto fantasístico. Enquanto correlativo do amor (ou ódio), trata-se então da relação da pessoa total, ou da instância do ego, com um objeto visado também como totalidade (pessoa, entidade, ideal, etc.) (o adjetivo correspondente seria “objetal”).

Desta forma, compreendemos o significado da palavra “objeto” utilizada nas obras de Freud.

2.1 A Identificação

A identificação, segundo Freud (1921), pode ter um caráter de dois valores desde o início, pois a criança pode ter um sentimento enorme de ternura, identificando-se com seu objeto amado; ou o contrário, identificando-se com quem ela não ama. Ocorre, nesses casos, que o ego copia parte desta pessoa que não é amada. Vale lembrar que nos dois casos a criança não se identifica por completo com o outro e sim só com um traço deste, ou seja, uma identificação parcial, o que ocorre de maneira diferente e patológica quando um indivíduo se identifica com o todo de outra pessoa, não formando desta forma um eu pessoal (FREUD, 1921).

Referente a esse aspecto, Nasio (1999) fala da identificação parcial, em que o indivíduo se identifica com traços visíveis do outro, incorporando a maneira de andar, passa a se comunicar através de gestos como a pessoa idealizada, ou até na vida adulta exerce, por exemplo, a profissão de seu pai, logo, há uma identificação inconsciente.

Para Laplanche e Pontalis (2001, p. 226), a identificação é o “processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desse outro.” E, segundo Nasio (1999, p. 80), “um sujeito se identifica com alguém ou alguma coisa quando ele se confunde com esse alguém ou essa coisa […].”

Conforme Nasio (1999), essa identificação de querer ser o outro, de assimilar o outro, é um desejo inconsciente, podemos demonstrar em pequenos atos esta intenção, mas nem sempre nos damos conta disso, geralmente são as pessoas a nossa volta que têm esta observação. Desta forma, podemos citar o menino que, quando pequeno quer ser como o pai, a menina usa as roupas da mãe, o menino pega a mala de trabalho do pai, ou seja, eles querem incorporar traços visíveis da figura paterna, materna ou seus substitutos.

O sujeito pode identificar-se não só com a parte integrante do outro que seja visível, mas também “com as emoções, sentimentos, afetos, desejos e até fantasias, ocultas na vida interior desse outro.” (NASIO, 1999, p. 82).

Para que a identificação seja parte integrante e normal do desenvolvimento da criança, Bee (1997) sugere que, tanto o ambiente, quanto os cuidados passados para esta, sejam pertinentes a cada fase, e que satisfaçam às suas necessidades primordiais relevantes ao período em que está vivendo, mas estes cuidados não podem ser exagerados e nem diminutos. A criança necessita de um pai presente para que se identifique com este e de uma mãe que a proteja e que ao mesmo tempo não seja tão sedutora com a criança, ou seja, a mãe não deve disponibilizar um cuidado extremo para a criança, impondo, também, quando necessário, limites para sua formação.

Se este ambiente inicial for alterado, não haverá um processo nas condições normais para o desenvolvimento sadio da criança, o que fará com que a estrutura do indivíduo cresça com resíduos de problemas não resolvidos e necessidades que não foram totalmente satisfeitas.

Para explicar a importância dos sentimentos e comportamentos repassados para a criança no início de sua vida, Rappaport (1981a, p.32) cita:

Diante de sentimentos de inadequação, o sujeito internaliza características de alguém valorizado, passando a sentir-se como ele. A identificação é um processo necessário no início da vida, quando a criança está assimilando o mundo. Mas permanecer em identificações impede a aquisição de uma identidade própria.

 Para Nasio (1999), a identificação é um ato de amor, em que só vai ocorrer a identificação quando tiver um envolvimento entre as pessoas, uma ligação de amor. O autor cita uma história de intensa identificação entre pai e filho, que, após muitos anos, o filho deixa a agricultura para ser definitivamente um marinheiro, e subitamente seu pai o lembra de que, quando jovem, este era seu sonho e, sem saber disso, o filho, quando adulto, vai realizar inconscientemente um sonho que era da infância de seu pai.

Segundo Rappaport (1981b), a identificação pode ser evolutiva, pois a criança vai adquirir em seu comportamento um valor de reforço secundário, sendo este a capacidade da criança auto-reforçar a repetir o comportamento do pai ou da mãe. Pode ocorrer também a identificação defensiva, quando a criança está sendo ensinada a viver em sociedade, e as exigências pessoais internas dos pais são passadas para o filho, a criança então forma sentimentos de punição, agressão, raiva, gerando um conflito interno e interiorizando estes padrões, formando, assim, um traço de caráter rígido.

O vínculo inicial com a mãe começa no processo de amamentação, com o seio e na incorporação do alimento na primeira mamada que é repassado pela mãe. Segundo Rappaport (1981a), é neste momento da incorporação, em que as simbolizações ainda não existem, que a criança sente ter a mãe dentro de si. Como há uma falta de simbolização, a criança precisa de algo que seja concreto para que ocorra a incorporação e assim sucessivamente ocorra a identificação que, neste caso, será o leite e o seio da mãe.

Para Freud (1921), os primeiros objetos sexuais da criança são as pessoas que as alimentam e que as cuidam, logo será sua mãe ou quem a substitua. Este tipo de relação é chamado de anaclítico ou de ligação, ocorre no primeiro momento em que a criança investe sua energia libidinal no objeto e não no ego.

Para Costa (2007), a identificação é a expressão de um laço emocional com o objeto identificado. A pessoa se identifica com características que se tornaram importantes para ela. Estas identificações podem ser projetivas, quando nos identificamos ou projetamos algo no outro que são questões nossas; e podem ser introjetivas, quando adquirimos algo do outro que valorizamos muito, sendo assim duas formas de usar o objeto que amamos.

Segundo Nasio (1999, p. 83):

A identificação é o movimento ativo e inconsciente de um sujeito, isto é, o desejo inconsciente de um sujeito apropriar-se dos sentimentos e fantasias inconscientes do outro. Essa definição, traduz bem, as turbulências e os movimentos muito vivos das forças íntimas que circulam entre dois seres e os aproximam sem que eles saibam.

Em sua definição acerca da identificação, Nasio (1999) diz que esta age no inconsciente do indivíduo sem que ele mesmo perceba que está acontecendo quando se identifica com alguém, o que mostra a força que este mecanismo tem, fazendo ligações na vida do indivíduo sem o seu conhecimento consciente dos fatos.

Segundo Freud (1914), ocorrem processos diferentes em relação ao homem e à mulher no processo de escolha do objeto. Para o autor, o amor objetal é propriamente masculino, pois a libido é sempre masculina e sempre ativa. O primeiro objeto de amor será a mãe a quem ele irá investir sua libido.

Para o gênero feminino, Freud (1914) diz que, na puberdade, o desenvolvimento dos órgãos genitais intensifica o próprio narcisismo da criança, quando ocorre um super investimento de energia libidinal, que é até prejudicial depois para um desenvolvimento normal e uma escolha de objeto sadio na vida adulta da menina, visto que, na maioria das vezes, essas mulheres futuramente vão amar com muita intensidade a si mesmas e, quando houver escolha de parceiro, seu interesse maior será no amor que estes dedicarão a elas. Assim estas não darão ao homem a mesma intensidade de amor, mais tarde a escolha de objeto desta mulher poderá ser uma escolha narcísica ou de ligação.

Esta escolha de amar o outro seguindo o tipo narcísico é encontrar no outro ela mesma, ou o que ela foi um dia ou o que ela gostaria de ser, buscando um ideal de ego idealizado no outro, o que pode acarretar em uma identificação patológica. No tipo de escolha de objeto de ligação, o indivíduo poderá procurar por alguém que o alimentou ou protegeu na sua infância, sua mãe, seu pai, ou os seus respectivos substitutos (FREUD, 1914).

2.2 Complexo de Édipo

Segundo Laplanche e Pontalis (2001, p. 77), o complexo de Édipo é denominado como sendo:

Conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança sente em relação aos pais. Sob forma dita positiva, o complexo apresenta-se como […] o desejo da morte do rival que é a personagem do mesmo sexo e desejo sexual pela personagem do sexo oposto. Sob a forma negativa, apresenta-se de modo inverso: amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento ao progenitor do sexo oposto.

Para Freud (1924), a criança, neste caso do gênero masculino, começa a ter interesse por seus órgãos genitais, sendo logo repreendida por este fato. Na manipulação do seu órgão sexual, a criança sente muito prazer e demonstra explicitamente tal comportamento. Assim, ela internaliza a repressão que é imposta pelos outros como uma ameaça, entendendo que, se continuar com tal atitude, pode perder seu órgão sexual. Esta repressão ganha mais força quando o menino visualiza a falta do objeto amado na menina, seu órgão sexual, sendo que se continuar com tais atitudes um dia também poderá perder o seu.

Surge então o conflito em investir sua energia nesta parte genital ou investir libidinalmente no objeto parental, geralmente aqui o menino dá as costas ao Édipo para iniciar a fase de identificação, pois sabe que não poderá investir sua energia para conquistar a mãe, podendo ser repreendido. Passa agora a introjetar a autoridade dos pais, dando início assim a formação do superego, que impossibilitará a criança de regredir e tentar novamente aplicar sua energia no objeto parental, provocando o incesto (FREUD, 1924).

Conforme Rappaport (1981a), por volta dos 4 a 5 anos, a libido está investida nos genitais, começando o processo do complexo de Édipo. Neste momento, o menino começa a ver o pai como um rival possuidor da mulher dos seus desejos, a mãe, portanto, tenta assemelhar-se a ele para conquistar o amor desta mulher.

Na teoria de Freud (1924) sobre o complexo de Édipo, a criança tem duas possibilidades de satisfazer seu desejo. Uma será ativa, em que ela vai utilizar sua fantasia para se colocar no lugar do outro e obter por completo o que tanto almeja, ter relação com sua mãe ou com o pai, o menino vai colocar-se no lugar do pai e ter relação com a mãe, e a menina colocar-se no lugar da mãe para ter a relação com o pai. Outra será forma passiva, assumindo o lugar da mãe ou do pai e, assim, sendo amada pelo sexo oposto a quem ela considera como um rival.

A organização do complexo de Édipo feminino acontece de maneira um pouco diferente que o masculino. A primeira diferença é que a menina não identifica a falta do pênis como um órgão sexual, ela entende como se o tivesse como parte integrante de seu corpo e que lhe foi tirado. No entanto, não aceita essa perda e, com o tempo, vê que não terá seu falo de volta. Então, a menina guarda inconscientemente este sentimento, ajudando a lhe estruturar, para mais tarde, construir uma relação e ter o filho deste homem que dará o presente que ela perdeu, o falo [2] (FREUD, 1924).

2.3 A Identificação no Complexo de Édipo

Freud (1940) inicia com as observações sobre a busca da pessoa que fazemos na vida adulta para nos casarmos ou nos identificarmos. Segundo o autor, buscamos “fenômenos acessórios ou atos introdutórios” para iniciar uma relação, sendo estes, outro corpo para desejá-lo ou tocá-lo. Todos esses pequenos estados dão seu aparecimento na fase em que começa a evolução corporal, e no aumento do desejo sexual, a puberdade, mas a forma para que aconteça a busca está sendo impressa muito antes no inconsciente de cada indivíduo.

A identificação do menino no primeiro momento inicia com a sua mãe, afinal é ela que mostra para ele o primeiro modelo de papéis, mas essa identificação deve mudar da mãe para o pai. A desidentificação, termo usado por Tyson e Tyson (1993), é muito importante para o menino, pois, ocorrendo este processo, ele se identifica com o pai, sendo para ele como um ideal adorado, esta identificação inicial começa a se manifestar como uma forma de proteção contra seus desejos incestuosos em relação à mãe e também contra desejos hostis projetados em relação a seu rival, o pai.

Freud (1924) apresenta, em sua teoria, que o menino deve escolher o caminho para aplicar seu amor, este poderá ser sua mãe ou o seu falo. Ocorrendo um conflito na criança, então esta começa primeiro a fazer identificações, isso para a sua própria sobrevivência, pois observa que seu pai é maior que ele e que, neste momento, não poderá conquistar o amor de sua mãe, abandonando aquela energia que empregaria a ela e introjetando a autoridade do pai para formar seu superego.

Freud(1921), diz que a idealização e identificação do menino com seu pai, é a preparação do caminho para a chegada do complexo de Édipo.

Agora, já no complexo de Édipo, a ligação do menino com sua mãe é diferente, ele quer ser mais masculino com relação à mãe, quer sair da ligação de mãe e filho para ter uma relação exclusiva com ela. Para Tyson e Tyson (1993, p. 220), “o movimento para a fase edípica não implica em mudança exterior do objeto amado, mas uma mudança nas fantasias sobre o objeto e uma mudança de papel em relação ao objeto amado.” Os impulsos sexuais em direção à mãe são elevados e é, neste momento, que o menino quer ter um pênis igual o do pai e substituí-lo, para ficar com ela.

Conforme Freud (1940), os meninos começam a manipular o pênis já com intenções de usar seu órgão em alguma atividade que envolva sua mãe, ao passo que percebem a ameaça de perder seu pênis e ter a visão de que a menina já perdeu o seu falo eleva sua angústia a níveis tão altos que ocorre um rompimento com o Édipo, investindo agora sua energia para os estudos, iniciando o período de latência.

Para Tyson e Tyson (1993), o desenvolvimento da fase edípica da menina acontece no estado de reconhecimento da castração. Com isto, volta-se com raiva para a mãe e a vê como uma rival, isto pelo fato de sua mãe não ter lhe dado um pênis como deu para o menino. Em seu pensamento, ela entende isso como uma rejeição, ela não foi a escolhida de sua mãe. Ocorre aqui a importância da ligação e do sentimento que a menina formou com sua mãe na fase pré-edípica, se ela resolveu sua fase diádica com sua mãe e formou um sentido valorizado de ser feminina, ao invés de se sentir inferior em relação àquela mulher, sua mãe.

Vale ressaltar que esta fase é muito importante para que a menina consiga passar para o complexo de Édipo mais bem resolvida com seus sentimentos em relação à mãe, pois agora ela vai voltar toda sua energia para conquistar o pai. Desta forma terá fantasias em relação ao pai, quer ser desejada e conquistar seu amor, logo, nesta fase, não tem medo de perder o amor de sua mãe, pois resolveu bem a fase diádica que antecedeu seu complexo de Édipo. Para que o complexo de Édipo feminino ocorra normalmente, a menina deverá mais tarde voltar-se a identificar com sua mãe, temendo perder seu amor (TYSON; TYSON, 1993).

 Tyson e Tyson (1993) dizem que o progresso do complexo de Édipo feminino implica a consideração que a menina vai fazer de seu pai vendo este como objeto de amor puro e incondicional, construindo, assim, fantasias em torno da figura do pai fálico.

 As turbulências que transformam o comportamento da menina, em relação aos seus desejos para com o pai, formam sentimentos de hostilidade para com sua mãe, interferindo na visão de identificação com a mãe ideal e no prazer de identificar-se com esta pessoa do mesmo sexo. Contanto que estas manifestações contra a mãe não sejam tão violentas, a menina conseguirá de forma normal separar-se da mãe e ao mesmo tempo identificar-se com ela, formando assim sua individualidade e um prazer em ser feminina (TYSON; TYSON, 1993).

Para Freud (1940), a menina tenta fazer tudo o que o menino faz, começa a manipular seu órgão sexual e fazer investidas sexuais para o pai. O próprio autor expõe que, no momento em que a menina percebe não possuir um falo como o menino, ela se reconhece numa posição inferior com seu clitóris, ou seu pequeno pênis, e começa a ver que não tem um falo e não terá um pênis igual ao do menino, surgindo então o desapontamento. Esta angústia de não ter um falo como o menino marca o início do complexo de Édipo para a menina.

3. Método

A presente pesquisa será realizada de forma qualitativa, procurando entender, desta forma, questões particulares da busca do indivíduo, buscando identificar como ocorre a busca do parceiro amoroso para se unir e formar uma família. Sendo assim, a pesquisa não pode ser medida ou quantificada (MINAYO, 1994).

Já, para Richardson et al. (1999, p. 90), a pesquisa qualitativa pode ser entendida como “a tentativa de uma compreensão detalhada dos significados e características situacionais apresentadas pelos entrevistados, em lugar da produção de medidas quantitativas de características ou comportamentos.”

Os dados apresentados foram analisados através da análise de conteúdo, que, segundo Richardson et al. (1999), é utilizada para melhor compreensão das discussões. Desta forma pode-se com mais facilidade captar os momentos mais importantes das falas dos entrevistados.

O processo para a criação das categorias para análise final do trabalho foi baseado no objetivo principal da pesquisa. Para as discussões foram encontrados quatro categorias, sendo elas: categoria relação com o pai, categoria relação com a mãe, categoria relação do casal e categoria semelhança pais e cônjuge. Entendemos que através da análise de conteúdo é possível entender todo o contexto de suas escolhas e não apenas o momento feito destas, através deste método conseguimos extrair os momentos mais importantes da fala dos participantes, como também interpretar suas vivências, sua realidade atual sendo contrastado com suas realidades vividas na infância.

O instrumento utilizado para a pesquisa foi a entrevista semi-estruturada, cujas as questões foram elaboradas de acordo com a pesquisa exposta na fundamentação teórica.

A entrevista semi-estruturada é assim denominada por Cunha (2000) como a forma mais apropriada para ser utilizada quando o entrevistador tem um conhecimento apropriado de seus objetivos, também sabe do que é necessário para atingir seu objetivo.

O critério para a seleção dos participantes foi por conveniência, e os escolhidos para as entrevistas foram três homens e três mulheres, todos casados, com idade de 20 a 40 anos. Entendemos que é nesta faixa etária que as pessoas começam a traçar planos para seu futuro próximo. Como diz Olds e Papalia (2000), é nesta fase, que temos definidos nossas escolhas de vida, temos planos concretos do que queremos, principalmente no que se refere a relacionamento amoroso.

 Após o contato feito com os participantes, foi apresentado o TCLE (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido), que continha todas as informações referentes ao trabalho, e após o consentimento dos entrevistados, foi realizado as entrevistas, que foram todas gravadas e logo após transcritas.

4. Apresentação e Discussão dos Resultados

4.1 Categoria Relação com o Pai

Estão agrupadas, nesta categoria, as unidades de análise que constam a relação de pai e filha, seu relacionamento, afetividade na relação do pai com a filha e como o complexo de Édipo se mostra evidente em todas as entrevistas. Elas colocam os pais numa posição de superioridade, não vendo defeitos em seus comportamentos, propriamente sendo ídolos de suas vidas, pois o consideram como sendo seu ideal de homem, seu ideal de amor.

A relação de pai e filha é sempre intensa, principalmente nos anos em que inicia, como já citamos anteriormente, o complexo de Édipo, mas o amor que é desejado pela menina não poderá ser realizado com este homem, deixando-a com raiva, ou seja, ódio deste indivíduo que foi seu objeto de amor, fantasiado até o momento. Com esta revolta e hostilidade, torna a matar internamente aquele a quem ela tanto amou, possibilitando assim tornar-se uma mulher e ser livre internamente para encontrar um amor que seja verdadeiro e não apenas uma fantasia.

No complexo de Édipo feminino, a menina vai ver seu pai como objeto de amor, construindo, ao longo desse processo, fantasias em torno da figura fálica que seu pai representa em seu inconsciente (TYSON; TYSON, 1993).  Segue um trecho da entrevistada C.

– “Ele sempre foi meu ídolo, admiro ele, respeito ele… o pai, ele tem defeitos, ele tem muitas falhas, mas eu não consigo enxergar essas falhas nele sabe, para mim parece a perfeição de pai, eu respeito muito o que ele fala e ele influencia muito minhas decisões… eu confio muito na posição dele.” Mulher C- 33 anos.

Podemos observar no relato da entrevistada C, onde ela expõe o que admira em seu pai, a “posição dele”, sendo isto a lei, a superioridade dele. Observamos que isto pode de alguma maneira ter influenciado algumas escolhas em sua vida. Quando adulta, se tornou uma policial, incorporando ela mesma a ordem e a lei, neste passo, não foi preciso ela encontrar um homem que fizesse a lei, mas sim ela mesma internalizou aquela posição em que o seu pai detinha, ou seja, não precisou mais que ele ditasse as leis, as regras, e sim ela mesma pode agora, enquanto mulher adulta, fazer isso. Em seu relacionamento, o marido também é policial, mas mesmo assim, como ela mesma coloca em sua fala, foi ela que assumiu a relação, a posição de homem dentro da casa, ou seja, podemos chamá-la de mulher fálica, assumiu a posição do homem, o que podemos observar, também, na fala abaixo.

– “O (esposo)…. assim tem uma aura feminina sabe, ele gosta de discutir a relação, gosta de fazer comida, ele gosta de cuidar, e eu já, sabe quando as coisas são ao contrário, eu assumir o papel de homem e ele assumir o papel de mulher.” Mulher C- 33 anos.

Já a entrevistada A conta um pouco de como era sua relação com o pai, como ela sentia a falta do “colo do pai”, do amor perdido daquele que ela tanto amou, tanto que sua voz modificou-se no momento da entrevista, remetendo a uma época distante em que ela ainda era uma menininha e fantasiava sua relação com este que era simplesmente seu pai. Mas, para ela, em sua imaginação, ela detinha uma mulher num corpo de menina, querendo conquistar o amor incondicional deste homem fálico.

– “ […] quando era criança, era aquela coisa da colo né, sabe até os dez anos tive o colo do meu pai, aí depois que termino o colo [fala tipo criança] não tinha aquela coisa de abraço, beijo, era tudo mais distante assim né.” Mulher A- 28 anos.

Foi possível, através dessa entrevistada, observar como era sua relação com o pai e, após um tempo em que não ganhou mais o carinho deste, o vê de uma maneira como se estivesse distante de si, sem abraços ou beijos. O pai desta entrevistada ainda estava presente, ainda lhe dava carinho, mas não da forma que ela queria, desta maneira cessou todo aquele amor que ela achava que ele lhe dava.

4.2 Categoria Relação Com a Mãe

Nesta categoria estão agrupadas as unidades de análise onde consta a relação de mãe e filho.

Para Bee (1997), a criança necessita de uma mãe presente, que sirva de referência, desta forma ela não deve desenvolver um cuidado extremo, exagerado para este indivíduo, que vê nesta pessoa sua própria imagem e necessita dela para crescer e formar seu ego, portanto não pode ser muito sedutora, assim impondo limites no momento certo para a sua formação.

Na entrevista feita com o homem C, perguntei como foi à relação com a mãe na infância, e por um momento ele deixou escapar em sua fala algo que me chamou a atenção, quando ele estava falando de como foi exemplar o cuidado de sua mãe para ele, um ato falho irrompeu, e sua fala retornou para o fato dos cuidados dele com sua mãe e não como deveria ser a resposta de sua mãe para ele.

– “[…] olha acho que o normal de mãe para filho, sem muito exagero, ah dentro do que é, do que se procura, do que se espera de um filho, acho que é um, que ela tenta me transpassar né, olha bem, bem próximo do excelente, entre minha mãe e eu.” Homem C- 40 anos.

  Analisando o dado apresentado na fala do entrevistado acima, podemos perceber que esta foi uma parapraxia ou ato falho, sendo uma manifestação do id, conforme cita Freud (2006, p.18), “elas podem ocorrer em qualquer altura quando, em certas circunstâncias especiais, a vigilância do ego é afrouxada ou desviada e um impulso inconsciente (devido também a circunstâncias especiais) é subitamente reforçado.”

Neste caso, o fato do entrevistado lembrar de momentos tão especiais vividos em sua infância com relação a sua mãe, o ato falho se mostrou presente no momento em que ele fala de como eram os cuidados da mãe com ele. Podemos verificar, neste lapso de memória, que ele, como filho, sempre deu para sua mãe muito prazer, e fez esta se sentir uma mãe realizada por ter um filho exemplar, logo, sendo isso que sua mãe esperava dele como filho e também o que ele esperava em troca de sua mãe.

A ligação da mãe com o filho é sempre forte, principalmente, no início onde está o começo da ligação mãe-filho, os cuidados, carinhos, e ainda, o momento certo de chegar ao filho são passos muito importantes para a criança formar um senso de união com esta mulher e com todas as futuras ligações que ele terá pela vida.

O entrevistado A também mostra uma ligação forte com a mãe, o que podemos observar na fala abaixo, pois como ele mesmo diz, “eu até tinha duas mães”, pois na sua infância ele convivia também com sua tia desde pequeno morando em sua casa. Podemos levantar a hipótese de que isto possa tornar sua ligação com a esposa mais forte ainda.

– “Éh eu até tinha duas mães, uma é uma tia minha que não casou e ela ficou morando sempre junto com meus pais… eu não passo um dia que eu não ligo, falo um pouco com a mãe, com minha tia, final de semana deu uma folga eu to lá.” Homem A- 36 anos.

Até mesmo hoje, depois de casado, sua ligação com a família, as mães, é muito forte, como ele diz, “minha mulher já é mais desmamada”, se tiver que sair, viajar ou morar em outro lugar ela vai, mas ele fica doente se tiver que fazer isso e ficar longe da família.

– “[…] ela é menos ligada né a família do que eu, por exemplo se tem que mora em Florianópolis e ficar três meses sem ver a família dela ela vai, é tranquilo, eu fico doente no terceiro dia… ela é mais desmamada risos…, ela é mais tranquila nesse sentido, eu não sei o que é melhor e o que é pior, porque eu sofro quando eu vou, quando saio de casa assim e tenho que ficar alguns dias, três, quatro dias longe, acabo sofrendo né.” Homem A- 36 anos.

Já em relação ao seu casamento, a sua ligação com a esposa não poderia ser diferente, como citado acima, seguindo os passos ao longo de sua construção na infância, os cuidados que ganhou de duas mulheres, logo a ligação que ele tem com sua esposa é bem forte, como ele mesmo admite que “geralmente é mais a mulher.” Neste caso ele quis se referir ao fato de que a mulher tem mais apego ao homem, essa ligação mais forte com o homem, mas no caso dele é o inverso.

– “Eu [tose] eu sou bem mais, é eu talvez sou muito sei lá sabe, junto a ela, ali grudado esse tipo de coisa, geralmente é mais a mulher [e ela com vc], ela é mais na dela, mais na dela…” Homem A- 36 anos.

A tosse apresentada pelo entrevistado A nos leva a pensar como se isto fosse uma resistência que ele demonstra ao falar sobre o assunto, a “tosse” pode denotar uma dificuldade que ele tem em admitir que é apegado à mulher.  Isso ainda parece ser difícil para o homem, assumir que é ligado ou dependente afetivamente da mulher, mais difícil ainda se o homem for dependente financeiramente, principalmente ocorre isto com aqueles homens que receberam uma educação rígida e machista na infância, quando foram ensinados com barreiras para não demonstrar essa igualdade de sentimento, gostos e de seres humanos iguais.

No que se refere a admitir a relação íntima da sua mãe com o pai, foi mais complicado para este entrevistado, pois, conforme segue abaixo, ele começou a falar o que lembrava da infância e começou a tossir, não conseguia dar continuação a sua fala. Podemos analisar esta reação como uma resistência, pois na infância seu objeto de desejo é a mãe, e quem a possui é o pai, esta resistência demonstra uma forma de defesa para o ego, pois em sua fantasia ele não aceita que o pai possua sua amada, assim cria inconscientemente este mecanismo para defendê-lo desta realidade, ele não conseguirá ter a mãe e a relação da mãe com o pai vai ser inevitável.

[e na intimidade] – “Pouco, eu via muito pouco, até porque eu acho o pai de ser mais tradicional, eu acho que ele tá (tosse, tosse), ele tal, às vezes, talvez na nossa frente (tosse, tosse, tosse), me desculpe, eu to saindo de uma gripe, então eu vejo mais assim, mas assim de, de, de preminho na nossa frente é o beijo, o abraço coisa assim, muito pouco, e confesso que eu não tenho lembrança.” Homem A- 36 anos.

Nesse trecho da entrevista, a forma do entrevistado em falar que seria um “preminho” para ele ver os beijos e abraços que o pai dava em sua mãe, nos impressiona visto identificarmos aí como a fantasia infantil é repleta de momentos marcantes para a criança. Neste caso, as cenas do cotidiano dos pais servia como prêmio para ele (a criança), dando suporte para ele se imaginar como se estivesse dando um beijo em sua amada, a mãe.

Freud (1924), em seu texto sobre A dissolução do complexo de Édipo, diz que a criança utiliza o mecanismo da fantasia para se colocar no lugar do outro e obter a satisfação que tanto almeja através da imaginação, neste caso sendo reforçada pela experiência dos pais na sua frente.

Ressaltamos, ainda, o fato do entrevistado A dizer que não tem lembrança desses momentos, visto ser proveniente do recalque, explicado por Freud (1905, p.164) como uma amnésia infantil:

[…] durante esses anos, dos quais só preservamos na memória algumas lembranças incompreensíveis e fragmentadas, reagiamos com vivacidade frente às impressões, sabíamos expressar dor e alegria de maneira humana, mostrávamos amor, ciúme e outras paixões que então nos agitavam violentamente, e até formulávamos frases que eram registradas pelos adultos como uma boa prova de discernimento e de uma capacidade incipiente de julgamento. E de tudo isso, quando adultos, nada sabemos por nós mesmos.

Portanto, podemos compreender, de uma forma clara, a possível amnésia da criança ocorrida em fase adulta dos eventos de sua infância.

4.3 Categoria Relação do Casal

Aqui estão agrupadas as unidades de análise em que consta a relação do casal.

Conforme Olds e Papalia (2000) é em torno dos 20 a 40 anos que começamos a fazer as ligações pensando no futuro, em ter uma relação duradoura, ter família, se vamos querer ter filhos ou não. É neste período, em que a maturidade pessoal já ocorreu, que o indivíduo, se tiver e desejar ter uma relação, terá a consciência das responsabilidades e de que a troca será mútua entre os dois, visto que cada um saberá o que se quer da relação e saberá dar o que o outro necessita.

Muitos casais, tanto o homem como a mulher, mas em geral, é mais a mulher que tem a fantasia de que o casamento será para sempre, que o amor vai durar eternamente, não que isso não possa ocorrer, até pode, mas deve acontecer uma construção diária para que este processo se desenvolva e não acabe.

No relato da entrevistada C, que segue abaixo, quando perguntada sobre o que mudou na relação depois do casamento, a resposta, com a fala arrastada, sem ânimo, em que ela se referiu de seu casamento, nos dá a impressão que ela esperava algo a mais, alguma mudança após o casamento e que não ocorreu.

– “Depois de assinar o papel e coisa, olha não mudou em naaada, absolutamente em nada, do jeito que nós éramos antes e agora assim, não tem o que dizer de ter mudado alguma coisa a gente continua se dando bem.” Mulher C- 33 anos.

E a entrevistada A demonstra, em sua fala, a monotonia de sua relação, que podemos analisar mais como uma repetição do casamento de seus pais, ou ainda um indício de que pode haver a identificação em sua relação.

“O que tu me pergunto (riso)… depois de um tempo acaba ficando meio morno né…. na verdade, tipo ele tá muito acomodado na parte da mulher sair, eu vou fazer e acaba tudo num canto, as vezes eu mesmo tenho que toma a iniciativa.” Mulher A -28 anos.

Para Olds e Papalia (2000), as pessoas tentam buscar uma repetição na sua vida adulta, buscando a mesma felicidade e união de seus pais se assim o tiveram. Observamos a entrevista feita com o entrevistado C, a possível identificação feita com o relacionamento de seus pais na escolha de sua parceira para a união futura.

[relacionamento esposa] – “A gente se dá bem, a gente tem uma boa conversação, a gente se entende bem né, pensamos de forma parecida na maioria das coisas, é dá para botar um 9,5 aí na relação.” [relacionamento pai e mãe] –“Nunca tiveram muito atrito, sempre se deram bem, eu acho que se gostavam muito, eles eram bem ligados, sempre juntos e isso aí, eu acho que foi uma coisa boa que eles passaram para os filhos, eles na verdade se completavam.”  Homem C- 40 anos.

No caso da entrevistada A, que segue abaixo, também observamos tais aspectos. Ela fala de uma possível repetição com a monotonia da relação de seus pais, pois, com os anos de casamento, seu marido já tinha atitudes que se assemelhavam ao comportamento de seu pai.

– “Éh mais na parte afetiva até acho que é meio, meio que igual, [você observa alguma semelhança com o seu pai no comportamento do esposo], pois é agora que tu falo, é me enganei nem havia me tocado risos… se deixar [o esposo] fica o fim de semana todo deitado no sofá assistindo televisão e meu pai é a mesma coisa, fica em frente a televisão e não sai para fazer nada.” Mulher A -28 anos.

4.4 Categoria Semelhança Pais e Cônjuge

Nesta categoria falaremos da semelhança que os entrevistados encontraram em seus parceiros com relação aos seus pais.

A teoria freudiana nos diz que tendemos a buscar alguém que se assemelhe aos nossos pais ou quem os substituiu para formarmos nossas relações amorosas. No momento que estamos a procura de alguém, não estamos pensando em encontrar alguém com semelhanças do pai ou da mãe, apenas acontece, somos atraídos por um olhar, um sorriso, uma amizade, até que encontramos a pessoa certa e pronto, a ligação foi feita, as semelhanças sempre vão existir e há, também, ligações em que nos identificamos com o oposto de nossos cuidadores. Refletindo esses apontamentos, apresentamos o trecho da entrevistada C.

[tu tinhas colocado em mente conseguir alguém que desse mais afetividade que o pai] – “Não… só queria alguém que me desse carinho, mas não, não fiz essa ligação com meu pai não, mas eu tinha isso na minha cabeça de forma inconsciente sei lá, alguma coisa estava me dizendo, mas não que eu sabia assim conscientemente né.” Mulher C- 33 anos.

Na entrevista feita com o entrevistado B, perguntamos se para ele teve alguma influência a ligação com a sua mãe, na escolha de sua parceira amorosa? Ele começa a falar e leva um susto, já se desculpando dizendo que não tinha entendido a pergunta feita. Podemos analisar este comportamento como sendo outro ato falho, lapsos da memória do entrevistado, como apareceu em algumas das entrevistas acima. O entrevistado B, no primeiro momento, não toma conhecimento do que foi falado, logo após ele responde de forma súbita que sua esposa é praticamente sua mãe.

–  Nenhuma, ah a assim, o oque, que, desculpa eu entendi errado, a semelhança, se tem semelhança, é, é praticamente a mesma coisa que a, a minha mãe…A minha mãe, éée seca e dura e a [esposa] é o mesmo jeito, ela é reta ao ponto, nesse sentido as duas são iguais.” Homem B- 32 anos.

Para Freud (1910), nossa energia libidinal está na infância ligada à mãe quando esta cria um elo entre mãe e filho. Na fase adulta, essa energia será investida na busca do nosso parceiro amoroso, já que inconscientemente retornaremos a fase infantil em que ganhávamos todo aquele amor e cuidado da nossa mãe, gerando uma procura por alguém que se assemelha a esta que deu tanto cuidado e carinho. Já o entrevistado C avalia a união com sua esposa de forma mais consciente, acreditando que as uniões futuras podem vir a ser baseadas em seus cuidadores da infância.

– “Eu acho que tem sim porque na verdade acho que dentro do homem ele sempre busca alguma coisa próximo do que a gente já tem, a gente tem medo do, do que é muito diferente, do que é muito estranho e acho que a minha esposa tem muita coisa da minha mãe sim.” Homem C- 40 anos.

Conforme Bee (1997), antes de iniciarmos um relacionamento, passamos por etapas de escolha, sendo que nesse processo avaliamos as características do indivíduo, idade, se as atitudes em relação à família, ao sexo, aos filhos são compatíveis ou não, se os planos de vida são semelhantes com os seus, até decidirmos se esta é a pessoa certa ou não para nos unirmos a ela. Observamos, então, a importância do papel de nossos pais, tanto para a nossa formação, quanto para nos identificarmos e termos futuramente uma união amorosa.

Encontramos, contudo, como cada um dos entrevistados se identificaram com seus pais, como muitos se encontraram surpresos com a descoberta de que seus parceiros tinham semelhanças com os seus cuidadores da infância. A maneira como eles se relacionaram e foram criados deixaram marcas em suas vidas, e ainda, como estes vínculos tão fortes foram sendo criados ao longo de sua evolução. Puderam analisar que seus relacionamentos possivelmente foram baseados em suas relações infantis com aqueles que disponibilizaram todo cuidado, carinho e atenção, formando sua estrutura psicológica para mais tarde poder se identificar com o outro e ter uma relação amorosa.

5. Considerações Finais

“A identificação é o movimento ativo e inconsciente de um sujeito […]. Essa definição traduz bem, as turbulências e os movimentos muito vivos das forças íntimas que circulam entre dois seres e os aproximam sem que eles saibam.” (NASIO, 1999, p. 83).

Este tema que nos propomos a escrever apresentou algumas dificuldades, pois as teorias freudianas nas quais nos embasamos para escrever são complexas, mas de total importância para chegar a este final, uma vez que foi feito com muita dedicação, em busca de elucidar, se possível, detalhes deste enigma que ocorre na vida de todos os indivíduos humanos e que amam. Assim, este trabalho tentou esclarecer algumas questões referentes a relacionamentos e algumas dúvidas que muitos de nós temos, tais como: “porque ele(a) é tão parecido com meu pai ou mãe.” Vale ressaltar que este trabalho não se encerra aqui, pois todos nós que estamos em constantes transformações e buscamos fazer ligações devemos estar sempre em busca de saber mais sobre como ocorrem as ligações, porque escolhemos este indivíduo ou o porquê escolhemos alguém para formar família, ter filhos, será que não somos tão auto-suficientes que procuramos alguém para estar ao nosso lado, pois sozinhos nem todos conseguem ficar?

O que o trabalho procurou investigar é como acontece o processo de escolha do parceiro amoroso e, diante disso, o que motiva o indivíduo a buscar esse parceiro. Para tentar compreender esta questão, partimos da hipótese da teoria freudiana que explica que todos nós somos movidos por uma força interna e que também, por influência de nossos cuidadores, escolhemos parceiros semelhantes ou opostos aos nossos pais ou substitutos.

Sendo assim, somos movidos por impulsos que fazem com que o parceiro escolhido seja uma substituição de nossos cuidadores, mas o que devemos analisar nesses relacionamentos é como esta identificação é assimilada e desenvolvida pelo indivíduo. Portanto, através de um processo terapêutico e conhecimento de si mesmo, estas pessoas encontram subsídios internos para ver de outra forma suas relações, e assim para que a relação seja construtiva para ambos.

Entretanto, chegando ao final de mais esta etapa prazerosa de nossa formação, observamos que este trabalho tentou elucidar como as identificações nos movem para escolhermos determinada pessoa. Acreditamos, no entanto, que parte de nós, parte da nossa experiência de identificação com nossos pais interferiram nesse processo e tentamos colocar sucintamente nestas páginas, visto que partimos dessa experiência para realizar este estudo. Fica o desejo de que as investigações sobre relacionamentos, sobre o amor, sobre família continuem, pois são estes os sentimentos, atitudes e valores que jamais devem se extinguir.

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar na verdade não há… sou uma gota d’água, sou um grão de areia, você me diz que seus pais não entendem, mas você não entende seus pais…você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo, são crianças como você, o que você vai ser quando você crescer?.” (VILLA-LOBOS; RUSSO; BONFÁ, 2010).

BEE, Hellen. O ciclo vital. Porto Alegre: Artmed, 1997.

COSTA, Gley P. O amor e seus labirintos. Porto Alegre: Artmed, 2007.

CUNHA, Jurema A. Psicodiagnóstico-V. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

FREUD, Anna. O ego e os mecanismos de defesa.  Porto Alegre: Artmed, 2006.

FREUD, Sigmund. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: _______.Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 7.

________. (1910). Contribuições à psicologia do amor. In: _______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 11.

________. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. In: _______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 14.

_______. (1921). Psicologia de grupo e a análise do ego. In: _______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 18.

_______. (1924). A dissolução do complexo de Édipo. In: _______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 19.

_______. (1940). O esboço da psicanálise. In: _______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 23.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean B. Vocabulário de psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

MINAYO, M. C. S. (Org). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

NASIO, Juan-David. O prazer de ler Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

OLDS, Sally Wendkos; PAPALIA, Diane E. Desenvolvimento humano. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

RAPPAPORT, Clara Regina (Coord.). Psicologia do desenvolvimento: teorias do desenvolvimento: conceitos fundamentais. São Paulo: EPU, 1981a. v. 1.

RAPPAPORT, Clara Regina (Coord.). Psicologia do desenvolvimento: a idade escolar e a adolescência. São Paulo: EPU, 1981b. v. 4.

RICHARDSON, Roberto J. et al. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999.

TYSON, Phyllis; TYSON, Robert. Teorias psicanalíticas do desenvolvimento: uma integração. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

VILLA-LOBOS, Dado; RUSSO, Renato, BONFÁ, Marcelo. Pais e filhos. Disponível em: <http://letras.terra.com.br/legiao-urbana/22488/>. Acesso em: 15 out. 2010.

Os Sonhos na Concepção de Freud

Sigmund-Freud-006A teoria dos sonhos proposta por Sigmund Freud em 1900 desperta cada vez mais interesse sobre esse mundo tão incompreensível, rico e cheio de sentimentos, que dá margem a muitas considerações, censuras e novas abordagens. O que antes, era interpretado como símbolos ou premonições agora é visto como particularidades de nosso inconsciente. Destaca-se ainda a importância dos sonhos na vida de qualquer indivíduo, assim como a influência que exerce sobre os mesmos, sua análise em terapia auxiliando o terapeuta durante o tratamento (SILVA & SANCHES, 2011).

Segundo Silva e Sanches (2011), pode-se dizer que o marco da grande história de Sigmund Freud foi “A Interpretação dos Sonhos”, obra na qual antes não tinha grande importância para a ciência, e que logo após tal publicação ganhou de fato seu devido valor. Através destes estudos, foi possível trazer ao consciente os conteúdos inconscientes, onde o sonhar é um fenômeno regressivo; no qual nos devolve aos estados primitivos da infância.

De acordo com Ferza (2009), Freud parte do princípio de que todo sonho tem um significado, embora oculto, da realização de desejos. Os desejos reprimidos na vida de vigília muitas vezes estão relacionados com os nossos desejos mais primitivos vetados fortemente pela moral vigente. Interpretar um sonho significa conferir-lhe um sentido, isto é, ajustá-lo à cadeia de nossas faculdades mentais.

Segundo Martins (2003), a linguagem dos sonhos possui suas particularidades que, ao longo dos séculos, mostrar-se como um grupo de eventos comuns de uma época radicados na vivência dos povos. Possibilitou ainda, um aprofundamento dos níveis mais ocultos da mente, tornando possível a abordagem de variados sintomas, produtos de um ambiente capaz de oprimir e colocar em risco valores naturais de cada ser. Sonhar é mais do que um simples produto do dia-a-dia. É revelar-se diante do enigma invisível, mas possível de compreensão.

1. A História

Os sonhos sempre exerceram fascínio na humanidade desde a antiguidade, inclusive entre os egípcios e, particularmente, entre os judeus do Antigo Testamento.  No livro de Gênesis da biografia do patriarca José vemos também a importância da decifração dos sonhos no contexto bíblico. Em muitas culturas os sonhos eram considerados como uma forma de comunicar-se com o sobrenatural, uma maneira de se prever o futuro das pessoas. Num papiro egípcio datado de 2000 AC discute-se sonhos e suas interpretações. Era crença na Grécia Antiga de que o sonhador estava em contato com os deuses. [2]

Em 1900, Freud publicou sua obra Die Treumdeutung (A Interpretação dos Sonhos). Em seus textos, ele descreveu minuciosamente o trabalho dos sonhos, sua importância e utilização no processo analítico. Ele também afastou essa temática das crenças religiosas e culturais, as quais vinculavam o sonho a uma experiência premonitória e supersticiosa herdada da Antiguidade através do senso comum (OLIVEIRA, 2011).

O livro levou dois anos (1898 e 1899) para ser escrito e nele Freud construiu o pilar da teoria psicanalítica, passando a constituir o ponto de apoio para todo o desenvolvimento posterior da sua obra. Assim Sigmund Freud deu um caráter científico ao assunto. Naquele polêmico livro, Freud aproveita o que já havia sido publicado anteriormente e faz abordagens totalmente novas, definindo o conteúdo do sonho, geralmente como a “realização de um desejo”.

De acordo com Moura (2008), o livro a Interpretação dos Sonhos marca a passagem para um modelo que investiga não apenas as manifestações psicopatológicas, mas capaz de dar conta do psiquismo em geral. No Capitulo VI do livro, Freud elabora o primeiro grande modelo do aparelho psíquico. O psiquismo é composto por dois grandes sistemas: inconsciente e pré-consciente/consciente – que são separados pela censura, que através do mecanismo do recalque, mantêm certas representações inaceitáveis fora do sistema consciente. Mas essas representações exercem uma pressão para tornarem-se conscientes e ativas. Ocorre um jogo de forças, entre os conteúdos reprimidos e os mecanismos repressores. Como resultado desses conflitos há a produção das formações do inconsciente: os sintomas, sonhos, lapsos e chistes.

2. O Sonho e seus Conteúdos

Segundo Freud (1915), sonhos são fenômenos psíquicos onde realizamos desejos inconscientes. O sonho é o resultado de uma conciliação. Dorme-se e, não obstante, vivencia-se a remoção de um desejo. Satisfaz-se um desejo, porém, ao mesmo tempo, continua-se a dormir. Ambas as realizações são em parte concretizadas e em parte abandonadas (SIRONI, s.d.).

Na obra Teoria dos Sonhos, Freud postula que o homem precisa dormir para descansar o corpo e, principalmente, para sonhar: “o sonho é a realização dos desejos reprimidos quando o homem está consciente”. Quando o homem dorme, a consciência “desliga-se” parcialmente para que o inconsciente entre em atividade, produzindo o sonho: através do id, os desejos reprimidos são realizados. Para Freud, as causas dos traumas que geram certos comportamentos tidos como anormais estão escondidas no inconsciente das pessoas, onde estão guardados os desejos reprimidos. [1]

Todo o material que compõe o sonho procede de nossas experiências, daquilo que foi por nós vivenciado na vigília. Este material é recordado no sonho, embora não seja imediatamente reconhecido pelo sonhador como originário de suas próprias experiências. Esta é uma das características do conteúdo onírico manifesto: a de ser experimentado pelo sonhador como algo que lhe é estranho, como se não fosse uma produção sua (SIRONI, s.d.).

A elaboração de um sonho, segundo Freud (1915), ocorre porque “existe algo que não quer conferir paz à mente. Um sonho, pois, é a forma com que a mente reage aos estímulos que a atingem no estado de sono”. Alguns dos estímulos dos quais Freud fala podem ser restos diurnos, sensações fisiológicas. Outros estímulos podem ser os pensamentos ocultos, inconscientes, formados por desejos antigos, recalcados pela censura do Superego – configurando-se como o texto original do sonho (RABUSKE, 2011).

2.1 Os Conteúdos Latente e Manifesto dos Sonhos

Em “A Interpretação dos Sonhos” Freud criou o termo conteúdo manifesto para referir-se à experiência consciente durante o sono, correspondendo ao relato ou descrição verbal do sonho, ou seja, aquilo que o sonhante diz lembrar. Já o conteúdo latente corresponde às idéias, impulsos, sentimentos reprimidos, pensamentos e desejos inconscientes que poderiam ameaçar a interrupção do sono se aflorassem à consciência claramente (REIS, 2009).

O conteúdo latente mostra-nos estruturas recalcadas que tentam emergir. O conteúdo latente é o verdadeiro sonho, o conteúdo manifesto é o que o sujeito conta, sendo um disfarce do verdadeiro sonho. O trabalho de sonho ou elaboração onírica é a passagem do latente ao manifesto. Basicamente podemos dizer que o conteúdo latente é inconsciente e o conteúdo manifesto é consciente. Além disso, o conteúdo latente é algo semelhante a um impulso, enquanto o conteúdo manifesto é uma imagem visual. Finalmente, o conteúdo manifesto é uma fantasia que simboliza o desejo ou impulso latente já satisfeito, isto é, trata-se de uma fantasia que consiste essencialmente na satisfação do desejo ou do impulso latente. [1]

Segundo Silva e Sanches (2011), o conteúdo latente do sonho é a primeira parte do processo de sonhar formado por três componentes: I- impressões sensoriais noturnas; II- pensamentos e idéias relacionadas às atividades do dia (fragmentos do nosso cotidiano, antes de pegamos no sono); III- impulsos do ID. São as impressões sensoriais do indivíduo que se referem ao que os sentidos capturam mesmo durante o período de dormência ( os barulhos ao seu redor; seus desejos, como beber água, calor, frio,etc.) tudo o que podemos adquirir nesse estágio se refere ao conteúdo latente do sonho.

O Sonho manifesto não é senão, portanto, nada mais que o resultado de um conjunto de operações (o trabalho do sonho) que transformam os seus componentes, ou seja, transformam os estímulos corporais, os restos diurnos, os pensamentos do sonho, etc. O produto final resultante de todas essas transformações é, então, a experiência onírica (REIS, 2009).

3. A Distorção e a Elaboração Onírica

Segundo Garcia-Roza (1991), a distorção em que é submetido o conteúdo do sonho é produto do trabalho do sonho de não deixar passar algo proibido, interditado pela censura. A censura deforma os pensamentos latentes no trabalho do sonho. Freud concebe a censura como uma função que se exerce na fronteira entre os sistemas inconsciente e pré-consciente, algo que opera na passagem de um sistema para outro mais elevado. Segundo Garcia-Roza, um fragmento não é distorcido ao acaso, mas imposto por uma exigência da censura, a principal responsável pela deformação onírica, apresentando o conteúdo manifesto condensado, deslocado, simbolizado ou através da elaboração secundária.

Ainda em Garcia-Roza (1991), um fragmento não é distorcido ao acaso, mas imposto por uma exigência da censura, a principal responsável pela deformação onírica, apresentando o conteúdo manifesto condensado, deslocado, simbolizado ou através da elaboração secundária.

O sonho, como todo o funcionamento psíquico é multideterminado. À transformação do conteúdo latente em conteúdo manifesto chamamos “trabalho ou labor do sonho”. Consiste no disfarce que acontece porque determinadas idéias causam ansiedade e, como tal não são admitidas no consciente. Por exemplo, a idéia A ao querer surgir na consciência sofre uma censura e é obrigada a transformar-se em B (BARNABÉ, s.d.).

Segundo Garcia-Roza (1991), o sonhador tem acesso ao conteúdo manifesto, ou seja, ao sonho sonhado e recordado por ele ao despertar. Este é o substituto distorcido de algo inteiramente distinto e inconsciente que são os pensamentos latentes. A distorção a que é submetida o conteúdo do sonho é produto do trabalho do sonho de não deixar passar algo proibido, interditado pela censura. A censura deforma os pensamentos latentes no trabalho do sonho. Um fragmento não é distorcido ao acaso, mas imposto por uma exigência da censura, a principal responsável pela deformação onírica.

De acordo com Jablonski (s.d.), a respeito dos sonhos, em geral, Freud conclui que sua função é a de realização disfarçada dos desejos recalcados. Tamanho é o disfarce nos sonhos que a realização dos desejos nos aparece às vezes sob forma de pesadelos. Tais distorções devem-se ao trabalho da censura interna que funciona mesmo durante o sono. Freud destaca quatro mecanismos deste trabalho: condensação, deslocamento, simbolismo, dramatização e processo de elaboração secundária.

3.1 Condensação

Vários elementos (temas, imagens, idéias, etc.) se combinam num só, de forma que o sonho se torna mais compacto que os pensamentos-sonho. Segundo Castro (2009), na transformação dos pensamentos oníricos em conteúdo onírico ocorre necessariamente uma compressão de volume, uma condensação, em graus variáveis de um sonho para outro. Na condensação, segundo Laplanche e Pontalis (2001), “uma representação única representa por si só várias cadeias associativas e traduz-se no sonho pelo fato de o relato manifesto, comparado com o conteúdo latente, ser lacônico: constitui uma tradução resumida.”

A condensação designa o mecanismo pelo qual o conteúdo manifesto do sonho aparece como uma versão abreviada dos pensamentos latentes. Garcia-Roza (2008)

3.2 Deslocamento

O processo de deslocamento de intensidade psíquica é resultado da ação de uma força psíquica que atuará em dois sentidos: retirando a intensidade de elementos que possuem alto valor psíquico e criando, a partir de elementos com baixo valor psíquico, novos valores que vão penetrar no conteúdo dos sonhos. Juntamente com o processo de condensação, o deslocamento é um dos fatores dominantes que determinam a diferenciação entre o pensamento dos sonhos e o conteúdo dos sonhos. [2]

“O aspecto mais significativo do sonho pode se apresentar de modo a quase passar despercebido, ao passo que os aspectos secundários aparecem, às vezes, ricos em detalhes. Nisto constitui o deslocamento da energia de uma imagem para outra” (JABLONSKI, s.d.).

3.3 Simbolismo

Na função de simbolização, há uma transformação dos pensamentos oníricos em símbolos, fornecendo ao sonho uma série de metáforas e conferindo certa poeticidade ao conteúdo manifesto. É nesse estágio que o sonho assume realmente a sua forma peculiar, com uma racionalidade e inteligibilidade bem distinta do pensamento diurno (ALVARENGA & LUCINDA, s.d.).

Certas imagens dos sonhos têm sempre um mesmo significado. Freud fornece uma grande lista de símbolos inconscientes constituída de objetos que se referem, sobretudo à sexualidade. Continentes em geral, como caixas, malas, cofres e etc. Seriam símbolos do órgão sexual feminino e objetos pontiagudos ou inseridos dentro de caixas, cavidades, etc. são geralmente símbolos do órgão sexual masculino. É claro que os sonhos, sendo tão distorcidos por estes quatro mecanismos da censura, devem ser interpretados para se tornarem inteligíveis. O sonho de que nos lembramos constitui apenas o conteúdo manifesto e nos parece absurdo, louco. Interpretado, ele se transforma num texto linear a que chamamos conteúdo latente, no qual vamos perceber com clareza o desejo realizado pelo sonho (JABLONSKI, s.d.).

3.4 Dramatização ou concretização

Segundo Jablonski, s.d., a dramatização é a representação de imagens em ação. O sonho é como um teatro que, como distingue Freud. A dramatização é também um mecanismo responsável pela economia dos sonhos. As operações mentais inconscientes por meio das quais o conteúdo latente do sonho se transforma em sonho manifesto, damos o nome de elaboração do sonho, também chamada dramatização. O processo responsável por essa transformação, que Freud considerava a parte essencial da atividade onírica, é o funcionamento do sonho.

No processo de dramatização os fragmentos do sonho, condensados e deslocados da racionalidade na vigília, são transformados em cenas. Aí é formado todo um contexto para esses elementos e, na maior parte das vezes, trata-se de uma ambientação bem distinta do que foi vivido no dia anterior (ALVARENGA & LUCINDA, s.d.).

3.5 A Elaboração Secundária

Segundo Laplanche e Pontalis (2001), consiste na operação mental inconsciente por intermédio da qual o conteúdo latente de um sonho se transforma em um sonho manifesto, sendo, também, um efeito da censura. Trata-se, portanto, de uma “remodelação do sonho destinada a apresentá-lo sob a forma de uma história relativamente coerente e compreensível”.

A elaboração secundária, que é essa remodelação, consiste, essencialmente, em tirar a aparência de absurdo e de incongruência do sonho, tapando os seus buracos, remanejando parcial ou totalmente seus elementos. Com esse objetivo é possível observar a elaboração secundária em operação, quando o sonhante se aproxima do estado de vigília (REIS, 2009).

4. Simbologia dos Sonhos

Os sonhos possuem uma linguagem que Freud denominou símbolos. Para entender seus diversos conteúdos, temos que distinguir o que os símbolos representam nesse sonho. A simbologia dos sonhos não só está vinculada ao contato que o criador do sonho teve com o objeto, mas também com a forma que ele se relaciona sentimentalmente com esse objeto. Um exemplo prático, o mar pode apresentar distintas simbologias, variando de pessoa a pessoa. Para alguns o mar pode significar destruição (o mar destruindo estruturas deixadas na praia), mas para outros, invasão (a água avançando e invadindo território) de acordo com Freud o que a pessoa sente quanto a esse objeto ou essa situação é fundamental para a interpretação de sonho. [3]

É necessário ter sempre em mente que os sonhos não se manifestam coordenadamente em termos de palavras, frases, proposições, etc. Esses meios de expressão são, nos sonhos, substituídos por “imagens visuais” que, por outro lado, constituem uma linguagem simbólica representativa de desejos e afetos reprimidos. A interpretação de um sonho requer, pelo menos, que se conheçam as principais significações simbólicas, o que deve ser elaborado através do material derivado das Associações Livres. As imagens simbólicas constituem regressões a longínquas formas elementares do pensamento (REIS, 2009).

Certas imagens dos sonhos têm sempre um mesmo significado. Freud fornece uma grande lista de símbolos inconscientes constituída de objetos que se referem sobretudo à sexualidade. Continentes em geral, como caixas, malas, cofres e etc. Seriam símbolos do órgão sexual feminino e objetos pontiagudos ou inseridos dentro de caixas, cavidades, etc. são geralmente símbolos do órgão sexual masculino (JABLONSKI, s.d.).

“Na literatura se encontram exemplos de símbolos que podem ser utilizados em todos os tipos de cultura. Contudo, há a observação de que o significado de um símbolo dependerá sempre da associação e da cultura do paciente que o sonhou” (OLIVEIRA, 2011).

Oliveira (2011) diz ainda que Freud liste uma série de símbolos que ele considera praticamente universais, detectável em quase todas as culturas. Para a figura humana a representação típica é uma casa. Os pais aparecem como imperador e imperatriz, rei e rainha ou outras pessoas de status. Os filhos, irmãos e irmãs são simbolizados por bichinhos ou pequenos animais. O nascimento é quase sempre representado por algo relacionado à água. Morrer tem relação com partir, viajar de trem e a nudez, por meio de roupas e uniformes.

Conclusão

Os sonhos nos oferecem a principal via para adentrar ao inconsciente.  Sua linguagem caracteristicamente simbólica proporciona um desafio ao psicanalista. Procuramos realizar os nossos mais profundo desejos em nossos sonhos, que se feitos à luz do dia seriam a causa de embaraço e aversão para aqueles que junto conosco formam uma sociedade com valores e conceitos estabelecidos. Os sonhos trazem do nosso inconsciente para a consciência desejos mais reprimidos e “proibidos”, desejos recalcados, no qual sublimamos, ou seja, inibimos nossos objetos de desejo. É através dos sonhos que temos a capacidade de vivenciar esses objetos. Entrando profundamente nesse vasto mundo de desejos reprimidos, fazemos um mergulho ao nosso inconsciente, ou seja, para dentro de nós mesmos, tentando procurar o máximo de realização. Dessa forma, é muito importante que o psicanalista em formação compreenda os mecanismos de elaboração do sonho, bem como os princípios que o regem para sua devida interpretação.

ALVARENGA, N. A.; LUCINDA T. V. Um Cão Andaluz: lógica onírica, surrealismo e critica da cultura. Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/ regionais/sudeste2007/resumos/R0081-1.pdf. Acesso em 25 de fevereiro de 2012.

BARNABÉ, F. Freud e a Interpretação dos Sonhos. Disponível em: http://www.psicoastro. com/artigos/freud-e-a-interpretacao-dos-sonhos-i. Acesso em 29 de fevereiro de 2012.

CASTRO, J. C. O Inconsciente como Linguagem: De Freud a Lacan. Cadernos de Semiótica Aplicada, Vol. 7.n.1, julho de 2009. Disponível em: http://seer.fclar.unesp. br/casa/article/download/1773/1436. Acesso em 25 de fevereiro de 2012.

COSTA, Rosane Muller. Os sonhos continuam sendo a via régia para o inconsciente? Disponível em: http://www.gepfor.org.br/administracao/gerenciador/uploads/artigos/a rtigo11.pdf. Acesso em 13 de fevereiro de 2011.

FERZA, Rodrigo. Interpretação dos sonhos, 2009. Disponível em: http://www.redepsi.c om.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=1602. Acesso em 16 de fevereiro de 2012.

FREUD, S. Conferências introdutórias sobre psicanálise (1915-1916), parte I e II, vol. XV. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. A Interpretação do sonho
(1900), vol. 2. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

JABLONSKI, BERNARDO. A Realidade dos Sonhos. Disponível em: http://www.b ernardojablonski.com/pdfs/graduacao/realidade_sonhos.pdf. Acesso em 25 de fevereiro de 2011.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J-B. Vocabulário da psicanálise. Martins Fontes: São Paulo, 2001.

MARTINS, G. A. A Interpretação dos Sonhos na Compreensão do Universo Mítico do Homem, 2003. Disponível em: http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.ph p?cod=18720&cat=Artigos&vinda=S. Acesso em 26 de fevereiro de 2012.

MOURA, J. Sigmund Freud – Biografia, 2008. Disponível em: http://artigos.psicologado. com/abordagens/psicanalise/sigmund-freud-biografia. Acesso em 26 de fevereiro de 2012.

OLIVEIRA, I. R. O Simbolismo nos Sonhos, 2011. Disponível em: http://www.cbp.org. br/cprs/artigo2.pdf. Acesso em 13 de fevereiro de 2012.

RABUSKE, A. S. Os chistes, o humor e algumas relações com os mecanismos dos sonhos. Jornada de Estudos do Circulo Psicanalítico do RS, 2011. Disponível em: http://www.cbp.org.br/cprs/artigo1.pdf. Acesso em 25 de fevereiro de 2012.

REIS, C. M. Princípios Fundamentais para a Interpretação de Sonhos. Faculdades Integradas Brasil Amazônia. Anais nº 2, 2009. Disponível em: http://www.fibrapara.edu. br/seer/ojs/index.php/anais/article/view/24. Acesso em 25 de fevereiro de 2012.

SIRONI, Sabrina Barbosa. Relação do Devaneio Com O Sonho. Disponível em: http://www.cbp.org.br/cprs/artigo6.pdf. Acesso em 23 de fevereiro de 2012.

SILVA, E. A., SANCHES; J. A. R. Os Sonhos como Manifestação de Desejos Inconscientes, 2011. Disponível em: http://artigos.psicologado.com/abordagens/psica nalise/os-sonhos-como-manifestacao-de-desejos-inconscientes. Acesso em 13 de fevereiro de 2011.

[1] Conteúdo latente e conteúdo manifesto. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. Disponível em http://www.infopedia.pt/$conteudo-latente-e-conteudo-manifesto. Acesso em 23 de fevereiro de 2012.

[2] A Interpretação dos Sonhos. In Wikipédia. Disponível em: http://pt.wikipedia. org/wiki/A_Interpreta%C3%A7%C3%A3o_dos_Sonhos#Condensa.C3.A7.C3.A3o. Acesso em 25 de fevereiro de 2012.

[3] Sonho. In Wikipédia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sonho. Acesso em 25 de fevereiro de 2012.

Depressão e Subjetividade Contemporânea

mulher-deprimida-depressao-tristeza-tormento-1295633368805_300x230O presente trabalho trata de estabelecer algumas relações entre as exigências da sociedade contemporânea e a posição que o depressivo ocupa na estrutura social. Primeiramente, entenderemos como a psiquiatria trata tal sujeito, para depois verificar como a via de tratamento adotada por ela pôde se adequar às demandas da sociedade atual. Após isso, nos deteremos em entender como o depressivo se põe à frente das exigências sociais e dos ideais que lhe aparecem como objeto de satisfação.

Enquanto a psiquiatria está atrelada à farmacologia e possui como paradigma de intervenção o uso de medicamentos, na psicanálise é o uso de um trabalho terapêutico baseado na fala do sujeito que se configura (Daniel e Souza, 2006). A psiquiatria, concebida como o saber-poder médico que visa à saúde do sujeito, concebe o sofrimento, justamente pela ética que visa, como um desvio, como algo fora do padrão de normalidade exigido pelo homem-saudável, como aquilo que deve ser tratado, como doença (Daniel e Souza, 2006). É interessante perceber que aqui há uma espécie de dualidade entre o homem, a princípio saudável, e a “coisa” que causa sofrimento, que o desequilibra, que altera o nível dos neurotransmissores em seu cérebro independentemente do sujeito, abrindo, com isso, o espaço para a possibilidade de tratamento pela via farmacológica.

Essa visão médica e biológica do sofrimento humano é muito criticada por não levar em conta os fatores sociais que agem tanto como produtores de subjetividade, como produtores de sofrimento (e aqui a psicanálise nos ensina que não há uma produção de subjetividade separada da produção do sofrimento, mas sim uma relação dialética entre os termos, concebendo a subjetividade como ela mesma um sintoma da apropriação da linguagem, e o sofrimento como a condição da emergência da subjetividade ela mesma; mas isso é uma outra questão, que não será abordada aqui). Desta forma, o lugar da subjetividade, da história de vida e dos fatores sociais acaba caindo no esquecimento.

Assim, uma terapêutica pela fala só seria possível incluindo-se como determinante da condição subjetiva o contexto sociocultural. E considerar a subjetividade como imersa no universo linguístico de uma determinada sociedade demanda ir além do discurso calcado na pura descrição dos sintomas (Daniel e Souza, 2006). Dentro de nossa sociedade, portanto, temos de considerar o sofrimento como inseparável da ideologia moderna que opera dentro das relações sociais, como a busca incessante pela satisfação, a exaltação do valor da liberdade, a valorização do consumo, e da rapidez, etc.

O importante para se conceber a visão farmacológica da psiquiatria, no que diz respeito ao tratamento, é lembrar que também os médicos fazem parte de uma sociedade regulada pela ordem da produção, da fluidez, e da rapidez (Barbosa, 2008). Desta forma, uma intervenção pontual, baseada na receita de um psicofármaco cai como uma luva para uma sociedade que demanda atendimentos cada vez mais rápidos e eficazes em curto prazo. Como Tavares e Hashimoto (2010) indicam, os discursos predominantes sobre a depressão refletem sempre um ideal de saúde que obedece, por sua vez, a uma lógica consumista e mercadológica, típica da modernidade. Assim, não só os pacientes, invadidos pela mercantilização que infiltrou todas as experiências humanas, querem respostas rápidas para aplacar o sofrimento e voltar à rotina incessante de produção, como o discurso médico também está imerso nesta lógica mercantil e consumista (Homem, 2003). A conclusão lógica disso tudo é a reificação radical do sujeito, sua alienação na figura do ideal do saudável, da alta performance, da felicidade ilimitada, do poderio, da riqueza, da beleza, etc. (idem).

É interessante notar como determinadas formas sociais produzem certas patologias. Na época de Sigmund Freud, por exemplo, o caso mais comum era a histeria, definida como um transtorno puramente psíquico, sem causas orgânicas, cujos sujeitos acometidos, geralmente mulheres, expressavam dores, gritos, pseudoparalisias e outros signos, que não poderiam ser explicados por causa biológica, como afirma Barbosa (2008). A questão que a mesma autora propõe é a seguinte: a histeria cedeu lugar à depressão na sociedade contemporânea? Para ela, o sujeito histérico ainda existe, mas travestido na forma da depressão. Isso significa que a depressão é, hoje, a metáfora da sociedade contemporânea, é aquilo que perpassa seu discurso a todo instante, e que não pode ser concebida separadamente da estrutura que regula as relações sociais.

De acordo com Gonçalves (2000), os sintomas produzidos por uma determinada sociedade são configurados a partir de uma estrutura discursiva que se mantém por conta da satisfação de suas exigências. O autor aponta ainda que estas exigências condicionam o lugar e a posição do sujeito nesta sociedade, configurando um regime de gozo; ou seja, é a estrutura discursiva que detém os meios de gozar. É importante notar que não há um dualismo de discurso e realidade; o discurso não é uma abstração da realidade, mas esta aparece já a partir de uma determinada estrutura discursiva que oferece as significações que irão operar na realidade.

Diante da demanda da sociedade e das relações estabelecidas a partir de tais exigências, o diagnóstico se transformou no refúgio daqueles que sofrem. De acordo com Barbosa (2008), por exemplo, há um estreito vínculo entre o excesso de diagnósticos de depressão, a necessidade de medicamentos, e a identificação do sujeito ao diagnóstico concedido. É muito mais cômodo, por exemplo, me identificar com um diagnóstico de depressão, comum a tantos outros, do que me pôr à frente da complexidade social que está por trás daquilo que me causa sofrimento. Isso faz parte também do esquecimento do sujeito, do esquecimento da singularidade, trazendo à tona uma homogeneização de subjetividades: é mais conveniente silenciar aquilo que em mim causa sofrimento, aceitando uma identidade que não singulariza, mas que compartilho com todos os outros (Barbosa, 2008), como cúmplices de um sofrimento coletivo do qual não me responsabilizo. Como o diagnóstico da psiquiatria está atrelado a uma concepção biologizante do homem, o sujeito contemporâneo não possui mais o direito de se apropriar de outros modos discursivos que poderiam levá-lo a alterar seu estado de sofrimento (Bolguese, 2004): não há mais comprometimento subjetivo com aquilo que me incomoda (Tavares e Hashimoto, 2010).

É importante notar que tal concepção farmacológica, submersa no ideal da modernidade (cuja característica, entre outras, é a exacerbação da individualidade), rompe com a fronteira do público e privado (Tavares e Hashimoto, 2010). Não há mais espaço para pensar as desigualdades sociais quando o que se busca são soluções particulares para problemas individuais. Tanto a psiquiatria como teorias psicológicas que visam a adaptação do sujeito à sociedade excluem de seu campo de vista os determinantes sociais, e se preocupam exclusivamente com a cura dos sintomas. O que não percebem, entretanto, é que tais sintomas fazem parte, eles mesmos, da estrutura discursiva que constitui as relações sociais. Isso significa que os sintomas não são independentes do contexto social, mas produzidos pelas relações que operam dentro da sociedade. Pode-se observar que há, portanto, um paradoxo no que diz respeito à responsabilidade do sujeito por seus sintomas. Ao mesmo tempo em que a exacerbação da individualidade, típica de nossa era, transforma o sujeito no único responsável por seus males, a função de diagnóstico opera transformando-o em mais um, excluindo as particularidades de sua história de vida e do contexto social no qual está inserido, que operaram na formação do sintoma. Entretanto, tal paradoxo é apenas aparente, pois se o indivíduo se identifica com um diagnóstico de depressão, por exemplo, é para justamente se defender da ideia de “covardia subjetiva” que impera em nossos tempos. Ele não está preocupado com as condições sociais que determinaram seu estado subjetivo, e se as considera é para utilizá-las simplesmente como modo de defesa. Uma citação do trabalho de Tavares e Hashimoto (2010) parece ser muito ilustrativa:

“Diante da angústia do desamparo, facilmente as individualidades têm predileção por encontrar um nome que identifique sua fraqueza, e que, de preferência, seja uma dessas ‘patologias da moda’, pois assim é garantia certa de que sua dor e insuficiências podem ser tratadas pelo arsenal medicamentoso disponível. Somado ao alívio imediato e imaginário explícito no pensamento muito comum de que ‘ainda bem que se tem remédio para isso hoje em dia’, tem-se ainda a ‘vantagem’ de se poder evitar o trabalho psicoterápico, pois ‘pega mal’ hoje em dia precisar do outro” (p. 96).

Atualmente, vivemos numa sociedade em que a tristeza não tem mais espaço, em que o sentimento de perda e de dor não tem vez. Como afirma Kehl (2002, p. 81-82), “o sujeito moderno sofre de sua culpa neurótica, acrescida da culpa por estar sofrendo”. Nessa sociedade, não há mais espaço para o humano, demasiadamente humano; há uma fuga constante daquilo que evidencia a fragilidade da natureza humana (Barbosa, 2008). E isso ao mesmo tempo em que os ideais propostos pela sociedade, ou seja, os modos de gozar são cada vez mais inatingíveis.

Ao mesmo tempo em que o sujeito contemporâneo tem uma demanda de felicidade ilimitada, em que o imperativo “Carpe Diem” se presentifica incessantemente, a grande distância do sujeito em relação a esse ideal longínquo se revela como fracasso; ou como falência, se levarmos em conta a mercantilização de todas as relações sociais. Bauman (1997) destaca, por exemplo, como a liberdade individual é extremamente valorizada em nossos tempos. Entretanto, a contrapartida de tal predicado hoje é que os indivíduos não querem ser livres, mas buscam a figura de um ideal que diga-lhes os modos de gozar, os modos de se satisfazerem. Isso porque a liberdade envolve a responsabilidade, e nada é mais pavoroso em nossa era do que poder escolher por sua própria conta como dirigir sua vida. Arrisco-me a dizer que hoje há o imperativo de uma liberdade aparente: o que importa é parecer ao Outro estar tomando livres decisões, quando na verdade sempre há debaixo das mangas a possibilidade de culpá-lo pelas consequências imprevistas. Este é justamente o paradoxo da norma que diz: “seja você mesmo”; “ser eu mesmo” hoje em dia significa apenas parecer ao Outro estar tomando livres decisões.

Diante de todas as demandas e os imperativos de nossa era, Ehrenberg (1998 como citado em Mendlowicz, 2009) afirma que o indivíduo está cansado e incapaz de dar conta destas exigências. Para ele, a depressão é a resposta patológica ao imperativo de busca destes ideais. É por isso que podemos considerar a depressão como a metáfora de nossa sociedade. Entretanto, entendemos que o sujeito depressivo aparece não no reconhecimento do fracasso em atingir o ideal, mas na desistência de ir em sua busca e na ideia de que o único propósito de sua vida é alcançar este ideal. O depressivo é aquele que reconhece as facetas do jogo que a sociedade propõe, e assume sua desistência perante ele. É aquele que diz a todo instante: “me deixe em paz, eu não quero mais jogar isso, sou um fracasso!”. O que se lhe revela, entretanto, é que sua única possibilidade de existência é participar do jogo que lhe propõem, ou seja, se alienar no objeto que a sociedade lhe impõe como objeto de satisfação, e se subordinar ao discurso operante. Ao abandonar o pacto que fez com a estrutura discursiva em ação, o depressivo entende que não possui mais o direito de lutar para mudar suas regras, e o elemento narcísico de tal posição impossibilita-o de se subordinar ao discurso novamente, virando as costas para o mundo e voltando-se para si mesmo. Assim, o depressivo possui um elemento passivo em relação ao mundo, pois não concebe a possibilidade de ser-sujeito estranho ao discurso que o perpassa; ou seja, sua existência aparece para ele como tendo de necessariamente se submeter às exigências sádicas da sociedade contemporânea.

Podemos também entender a posição do sujeito depressivo em relação ao lugar que ele ocupa no Complexo de Édipo. Kehl (2009) nos ensina que tal posição decorre de uma escolha (no sentido de “escolha das neuroses” de Freud) que se dá no momento em que o Pai se apresenta como rival para a criança:

“A escolha precoce do futuro depressivo seria a de se retirar do campo da rivalidade fálica: em vez de disputar o falo com o pai (e perder para ele…), o depressivo teria preferido recuar, permanecendo sob o abrigo da proteção materna. Em consequência desse recuo (…), o depressivo defende-se mal da castração (…). (…) ao invés de enfrentar a rivalidade fálica, na tentativa de reverter os efeitos da perda que já ocorreu, os depressivos “escolhem” permanecer na condição de castrados. Isso não significa que tenham simbolizado a castração. (…) Se eles recuam, é porque não admitem o risco da derrota nem a possibilidade de um segundo lugar. Ao colocar-se ante a exigência de “tudo ou nada”, acabam por instalar-se do lado do nada. O depressivo não enfrenta o pai. Sua estratégia é oferecer-se como objeto inofensivo, ou indefeso, à proteção da mãe. O gozo dessa posição protegida custa ao sujeito o preço da impotência, do abatimento e da inapetência para os desafios que a vida virá lhe apresentar” (p. 15).

Diante do que chamamos de imperativo de gozo e das exigências cada vez mais sádicas da sociedade moderna, não é surpresa o fato de a depressão estar aumentando. “O mundo contemporâneo demonizou a depressão, o que só faz agravar o sofrimento dos depressivos com sentimentos de dívida ou de culpa em relação aos ideais em circulação” (Kehl, 2009, p. 16). Diante da posição passiva que o depressivo assume, e de sua escolha por não enfrentar a castração, podemos entender facilmente como o tratamento farmacológico atendeu às demandas destes sujeitos, uma vez que poderiam se adequar às exigências da sociedade sem ter de lidar com suas questões subjetivas.

Barbosa, S. R. da C. S. (2008). Transformações sócio-culturais contemporâneas e algumas implicações nos diagnósticos na área de saúde mental. Mudanças – Psicologia da Saúde, 16(1), 1-9.

Bauman, Z. (1997). Mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Bolguese, M. S. (2004). Depressão & doença nervosa moderna. São Paulo: Via Lettera/FAPESP.

Daniel, Cristiane; Souza, Mériti de. (2006). Modos de subjetivar e de configurar o sofrimento: depressão e modernidade. Psicologia em Revista, 12(20), 117-130. Belo Horizonte.

Gonçalves, L. H. P. (2000). O discurso do capitalista. Uma montagem em curto-circuito. São Paulo: Via Lettera.

Homem, M. L. (2003). Entre próteses e prozacs. O sujeito contemporâneo imerso na descartabilidade da sociedade de consumo. Estados Gerais da Psicanálise: Segundo Encontro Mundial. Rio de Janeiro.

Kehl, M. R. (2002). Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras.

Kehl, M. R. (2009). O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo.

Mendlowicz, E. (2009) A sociedade contemporânea e a depressão. Recuperado em 03 de Novembro de 2011 em: http://www.uva.br/trivium/edicao1/artigos-tematicos/4-a-sociedade-contemporanea-e-a-depressao.pdf.

Tavares, L. A. T. e Hashimoto F. (2010). A relativa legitimidade da depressão na atualidade: contribuições para uma ética psicanalítica do sujeito. Lat. Am. Journal of Fund. Psychopath. Online, 7(1), 88-100.

O Conceito de Agressividade na Obra de Winnicott

winnicott-imagesEste artigo aborda alguns dos principais aspectos da concepção winnicottiana sobre a agressividade e a destrutividade humana, à luz da teoria do amadurecimento. Salientando ser esse um dos temas em que melhor se pode constatar a mudança paradigmática operada por Winnicott com relação à psicanálise tradicional, Também examina a posição do autor segundo a qual, em vez de manifestação de forças intrapsíquicas ou de afetos, a agressividade e destrutividade humanas estão intrinsecamente relacionadas à questão da constituição do sentido da realidade externa. Atendo-se, sobretudo aos estágios iniciais, em que se mostram as raízes da agressividade. O estudo explicita a natureza múltipla do fenômeno segundo a sua raiz no processo de amadurecimento, descrevendo o caráter das manifestações agressivas no estágio de dependência absoluta do bebê em relação à mãe e nos estágios em que a dependência se torna relativa.

Palavras-chave: Agressividade, Destrutividade, Realidade, Amadurecimento.

Neste artigo apresento um dos conceitos fundamentais na obra do psicanalista Winnicott, tendo como principal foco de discussão algumas vicissitudes do processo de construção da realidade no desenvolvimento infantil. Originando-se do conceito de uso do objeto. O entendimento da agressividade, segundo o psicanalista, isto num sentido diverso do compreendido até então da psicanálise tradicional, como sendo uma simples reação à frustração imposta pelo contato com o meio externo. Examinando alguns dos elementos conceituais que Winnicott oferece para a compreensão dos vários fenômenos de agressividade é importante destacar aspectos da originalidade da sua concepção, restringindo, basicamente, aos estágios iniciais, em que se mostram as raízes da agressividade.

Ao longo da obra, e já no seu primeiro artigo sobre o tema, “A agressão e suas raízes”, escrito em 1939, à concepção de Winnicott diverge das teorias freudiana e kleiniana. Com relação a Freud, o ponto de discordância central reside no fato de este localizar as raízes da agressividade na reação às inevitáveis frustrações, no contato com o princípio de realidade.

Contudo, para Winnicott, a agressividade, que é relativa à frustração, pressupõe um alto grau de amadurecimento, impossível de ser concebido nos momentos iniciais:

Que a frustração provoque raiva durante tais fases, é óbvio; mas, na nossa teoria dos estágios iniciais, precisamos estar preparados para encontrar a agressão que precede a integração do eu, integração esta que tornará possível, num estágio posterior, a raiva pela frustração instintual e que faz com que a experiência erótica seja uma experiência. (1955c, p. 371)

Winnicott dedicou muito de seu esforço teórico para a elucidação da agressividade e destrutividade inerentes à natureza humana. A questão atravessa toda a sua obra e consiste em um dos melhores exemplos de mudança paradigmática com relação à psicanálise tradicional.

Para o psicanalista inglês em suas analises dá muita ênfase ao ambiente, já o filósofo Heidegger, analisou que para “o ser que nunca se manifesta diretamente, imediatamente, em si mesmo, mas sempre como o ser deste ou daquele ente”.

 Em suas conceituações evidencia que “nós antes de sermos pulsões, somos tensões”.Enquanto Heidegger discursa que a “existência é a partir da ocupação das coisas”.  Em outra contraposição do “ser”, Winnicott “fala do ser a partir do uso do objeto” e Heidegger fala “ser é aparecer”.

A concepção de Winnicott diverge das teorias freudiana e kleiniana. Com relação a Freud, o ponto de discordância central reside no fato de este localizar as raízes da agressividade na reação às inevitáveis frustrações, no contato com o princípio de realidade.

A relação com a teoria kleiniana, os motivos são bem conhecidos: nela, a agressividade humana, que se expressa como inveja, ódio ou sadismo, é sempre uma manifestação da pulsão de morte, ou pulsão destrutiva, e esta é um elemento constitucional do indivíduo, variando de intensidade. Para Winnicott, a agressividade que alguns bebês manifestam, desde o início, nunca é uma questão exclusiva da emergência de instintos agressivos primitivos. Com relação a ambas: as duas teorias deixam de considerar a importância do ambiente nos estágios iniciais, ou seja, a dependência do bebê e o fato de que este reage ao tipo de cuidados que recebe.

O humano é um considerado como ser portador tanto de sentimentos bons como ruins e o reconhecimento da agressividade como uma tendência humana, torna importante compreender como essa tendência surge e seu modo de funcionamento no processo de desenvolvimento da criança. Winnicott defende a ideia de que mesmos os bebês experienciam os sentimentos de ódio e amor e desde o princípio de suas vidas devem encontrar formas de lidar com esses sentimentos.

Identificar o surgimento da agressividade durante o exercício da alimentação possibilitando uma primeira conciliação entre a capacidade de destruição e a capacidade de proteção daquilo que ama. Sendo assim a agressividade se manifesta durante a alimentação e se recolhe quando o bebê sente-se saciado. É importante reconhecer que desde essas primeiras experiências a criança luta para exercer um “controle” sobre seu próprio comportamento, procurando tanto sua satisfação pessoal quanto evitar a destruição da fonte de sua saciação.

A tendência utilizada para dramatizar a realidade interior através da capacidade destrutiva, pode também servir como fonte para a realização de atividades concretas. Entretanto para que isso aconteça à criança primeiramente coloca em prova o ambiente em que vive, ou seja, procura garantir que esse ambiente possa suportar sua capacidade de destruição, e, se sente segurança, consegue então converter seus impulsos agressivos em atividades simbólicas e criativas, como o brincar e o trabalho.

A compreensão e identificação da agressividade com as atividades motoras de exploração do mundo já evidenciam a importância desse comportamento na construção da identidade e por consequência no reconhecimento da alteridade. Ao agir de modo agressivo simplesmente para explorar um objeto, a criança começa um processo de diferenciação entre ela e o mundo exterior. Com o início da capacidade simbólica a criança pode prescindir da realização concreta da destruição e sentir aliviada com suas fantasias destrutivas, conseguindo através dos sonhos e das brincadeiras dar vazão a sua agressividade.

Winnicott adverte que o funcionamento psíquico pode ser afetado quando a pessoa não consegue assumir a responsabilidade pelos seus impulsos agressivos. Conforme sua posição, quando alguém acumula forças que possibilitam a tolerância a sua destrutividade essas são objetivadas na reparação. Entretanto, se ocorre, por algum motivo, o bloqueio da reparação, a pessoa torna-se parcialmente incapaz de assumir a responsabilidade por seus impulsos destrutivos, o que clinicamente, configura a depressão, ou então, busca externamente um responsável por sua destrutividade, através do mecanismo de projeção. Para Winnicott uma pessoa será tanto mais saudável quanto menos utilizar esse mecanismo, ou seja, quanto mais se reconhecer de forma integrada, assumindo a responsabilidade por seus impulsos agressivos.

Conclusão

Com essas reflexões de Winnicott sobre a agressividade, vale salientar a importância que nos leva a instigar a questões de vários conceitos relativos à criança, à infância e à educação. Olhar para a expressão da agressividade como um comportamento saudável tem várias implicações práticas na educação das crianças, colocando como exigências posturas que não podem ser descritas objetivamente. Entretanto, podemos nos debruçar sobre os aspectos da dimensão relacional entre as crianças e seus cuidadores para buscar compreender como estes últimos podem ajudá-las a se desenvolver de modo saudável.

Winnicott, D. W. 1953c [1951]: “Objetos transicionais e fenômenos transicionais”, in Winnicott 1971a.

______1964d: “Raízes da agressão”, in Winnicott 1984a.

______1958j: “O primeiro ano de vida”, in Winnicott 1965a.

______1958b [1950]: “Agressão e sua relação com o desenvolvimento emocional” in Winnicott 1958a.

Psicologia & Religião: Caminho Terapêutico para Dependentes Químicos?

1410277113Este trabalho pretende observar a estrutura da dependência química, a configuração da atuação psicológica de ajuda ao dependente químico, bem como a possibilidade da contribuição religiosa, junto a abordagens psicológicas de apoio e orientação ao dependente químico e codependentes. Para isso apresentamos as características da pessoa enquanto ser humano e suas fragilidades. Fazemos um breve comentário acerca da pessoa enquanto Ser Dependente e pontuações sobre o processo de desenvolvimento e instalação da dependência química. Realizamos pontuações sobre a dependência química no que diz respeito a características socioculturais e familiares, além de fatores de risco para o abuso do uso de substâncias químicas. Apresentamos um breve histórico do desenvolvimento e validade do instrumento de avaliação psicológica, MINI, e da entrevista psicológica, acompanhado pelos teóricos mais reconhecidos nesse processo, que auxiliam no diagnóstico e orientação do processo terapêutico. Além da apresentação de características e especificidades de algumas abordagens psicológicas. Devido ao fato do tratamento a dependentes químicos no Brasil (por meio de comunidades terapêuticas) apresentar quase sempre uma perspectiva religiosa, pontuou-se sobre algumas linhas de aconselhamento psicológico, relacionando-os com processos de orientação cristã, na intenção de reconhecer as semelhanças básicas destes processos de ajuda, por meio da apresentação de idéias mais conhecidas da psicanálise, do behaviorismo, da logoterapia e do pessoalismo (ACP), seguidas da apresentação das orientações cristãs de cura do passado, aconselhamento pastoral, aconselhamento bíblico e aconselhamento cristão. Após a breve apresentação de cada orientação relacionada, são realizadas considerações sobre algumas das semelhanças encontradas. Por fim, apresentamos um breve relato sobre o processo terapêutico centrado na família e a compreensão sistêmica do processo terapêutico, bem como seus aspectos e alvos mais conhecidos. E seguimos com considerações sobre a funcionalidade das perspectivas terapêuticas centradas na família, quando relacionadas especificamente no trato de famílias compostas por dependentes químicos.

Palavras chave: Psicologia, Religião, Dependência Química.

Introdução

A proposta deste trabalho é discutir aspectos relacionados à compreensão e estruturação do cuidado ao dependente químico. Pode-se afirmar que o problema referente a este cuidado está relacionado a uma questão básica: “A psicologia pode considerar a religião como contribuinte no processo de recuperação de dependentes químicos?” Acredita-se que a metodologia mais adequada para desenvolver essa análise é a comparação entre algumas das orientações religiosas e psicológicas mais reconhecidas, na tentativa de entender as semelhanças dos processos.

Esse questionamento ocorre devido ao fato de que a dependência química é uma realidade conflituosa da modernidade tardia [01], não apenas em grupos específicos, mas, em toda a sociedade, inclusive na igreja. Assim, por vezes, líderes religiosos acabam por intervir em meio ao processo de apoio a dependentes químicos, através de casas de recuperação mantidas por igrejas.

Por isso, é comum perceber alterações religiosas intensas em dependentes internados em comunidades terapêuticas. Essas alterações merecem atenção especial, porque, o dependente químico, em tratamento, apresenta dificuldades com a ansiedade, depressão, ondas de alegria ou tristeza repentina, sensibilidade às palavras, conflitos de interesses, insegurança, desconfiança, dentre outras situações concernentes, a transição de um mundo ilusório, gerado gradativamente pelas sensações produzidas por drogas a uma realidade de fatos e obstáculos que devem ser enfrentados e vencidos de maneira responsável, ética e racional. O indivíduo parece apresentar dificuldades em manter sua estabilidade em múltiplas situações adversas, ou diante de algum tipo de pressão com a qual não esteja acostumado e, como tentativa momentânea de aliviar a tensão, recorre a drogas que produzam bem estar ou alívio. Lidar com o dependente e ajudá-lo a resolver seus problemas de adequação e sentido para a vida não é tarefa fácil e percebe-se que muitas comunidades eclesiásticas não sabem como trabalhar com a dependência.

Essa pesquisa é justificada por um fato específico. Não é difícil perceber que em alguns grupos religiosos o dependente químico é visto como alguém possesso, que precisa apenas afirmar-se convertido à determinada religião para ser liberto do mal e em consequência ficar livre das drogas.

Muitos fazem esta declaração de fé enquanto experienciadores de um processo catártico em meio a um culto religioso. Essa catarse proporciona prazer e, quando o período de prazer passa e o indivíduo se depara com as dificuldades naturais, sem um acompanhamento ou apoio, ele volta ao uso das drogas com um agravante, a cobrança da comunidade religiosa. O usuário passa a ser visto como alguém que ainda não foi liberto e precisa de oração, ou como uma pessoa que despreza o poder de divino manifestado sobre ela, no entanto, essa maneira de perceber o usuário, não apenas é errada, mas, prejudicial ao verdadeiro processo de ajuda e crescimento que esta pessoa necessita.

Considerando os fatos citados, pode-se dizer que há uma necessidade de um trabalho contínuo, um acompanhamento que produza uma compreensão real da dependência química e das limitações próprias, bem como da busca por crescimento pessoal e autovalorização, identificando e tratando as especificidades humanas de relacionamentos.

São objetivos desse trabalho: pontuar sobre as principais causas para a dependência, identificar as características dos dependentes químicos, analisar os tipos, as reações e os prováveis níveis de dependência gerados por substâncias químicas e reiterar a necessidade de um acompanhamento psicológico que se interesse pelo aconselhamento qualitativo no trato do dependente químico juntamente com possíveis processos de ajuda religioso oriundos de ações psicológicas.

Na tentativa de alcançar o objetivo citado, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, acrescidas de consulta a documentos virtuais, além da utilização de um genograma organizado a partir da família de um dependente químico [02].

O trabalho é composto por um texto organizado em três capítulos, além da introdução e conclusão. Inicialmente são destacadas características acerca da dependência. Nota-se questões referentes às necessidades básicas do ser humano, quanto ao relacionamento com autoridade, busca de orientação e prazer como resposta à orientação, das quais o indivíduo é naturalmente dependente. Esses fatores podem estar relacionados à dinâmica de vida na modernidade, portanto, a mesma é apontada como um dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas. A atualidade é marcada por inconstâncias e múltiplas compreensões de certo ou errado, o que dificulta o estabelecimento de padrões, limites e valores socioculturais e espirituais, e isso gera no indivíduo uma situação de fragilidade e insegurança que o conduz à possibilidade de se tornar usuário de drogas e provável dependente químico.

No primeiro capítulo o dependente é apresentado como ser humano fragilizado em questões psicológicas, sociais, orgânicas e espirituais, fragilidade essa, que conduz a ações de fuga da realidade e de busca de sentido para viver. Nessa fuga da realidade ou busca de sentido, destaca-se a representatividade das drogas na vida do usuário. Contudo, os efeitos de diversas drogas contribuem para que esse indivíduo permaneça preso num círculo vicioso que gira em torno da ausência e busca de prazer e sentido para vida, de modo que essa fuga e/ou busca nunca terminam.

O segundo capítulo destaca as características da avaliação psicológica em meio à dependência química. Isto, a partir da apresentação do instrumento de avaliação MINI – que foi validado no Brasil e é largamente utilizado para mensurar gravidade e intensidade do abuso do uso de substâncias psicoativas – a partir de uma aplicação realizada por Silva. Além disso, a intervenção psicológica é apresenta por meio da informação sobre o processo da entrevista psicológica, acompanhado por orientações de possíveis problemas para a execução do procedimento e as diferenças do processo em psicoterapias breves.

Para concluir, foram trabalhadas diferentes abordagens psicológicas de acompanhamento, seguidas por comparações para com as perspectivas religiosas de orientação mais conhecidas, tendo em vista o aspecto terapêutico dos sistemas. O trabalho é fechado com a explanação mais detalhada sobre o procedimento psicológico humanista de Carl Rogers, denominado ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que considera todas as vivências – inclusive as vivências religiosas – como ferramenta essencial para o desenvolvimento do chamado empoderamento de si. Estado necessário para o crescimento e cura do indivíduo.

A relevância da pesquisa está relacionada às proporções alcançadas pelo abuso do uso de drogas, que reflete diretamente no desenvolvimento e manutenção da situação de dependência química do ser humano na atualidade, e, do aumento numérico desordenado de comunidades terapêuticas religiosas, que desenvolvem trabalhos variados, com resultados incertos; o que pode proporcionar uma situação agravante quanto à identificação adequada da expansão e controle da doença no Brasil.

1 Dependência Química

Ao considerarmos a modernidade como período marcado pela carência de referenciais, o que gera instabilidade, ausência de rumo e de princípios de autoridade para o indivíduo, podemos afirmar que o ser humano é afetado pelas características desse tempo histórico, tanto emocionalmente quanto na maneira de agir, compreender e valorizar as pessoas, situações e coisas (SAFRA, 2005, p.7).

Tal mudança no modo de agir se deve, segundo Frankl, ao vazio existencial que também é proveniente da atualidade e sua falta de referenciais (FRANKL, 1987, p.123). O que dá sentido a vida é entendê-la enquanto missão individual, ou seja, cada pessoa deve considerar que existe um sentido para a vida do indivíduo e não um sentido para a vida de modo geral (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

A busca de sentido específico para a vida do indivíduo o conduz a compreensão de um trabalho pessoal a ser executado, e este trabalho, tarefa ou missão, não apenas traz sentido a vida, mas serve de estímulo para que o ser humano vença as dificuldades advindas dessa tarefa (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

Frankl afirma ainda que, na busca pela conclusão dessa missão específica, o sofrimento é quase inevitável, mas, diante do sofrimento, o ser humano tem a oportunidade de se transformar naquilo que quiser, e que tem, em si, potencial para ser bom ou ruim, precisando apenas escolher no que quer se tornar. O indivíduo apresenta uma perspectiva de autoridade ou poder sobre si mesmo, que atua a partir de valores criadores, vivenciais, e de atitudes (FRANKL, 1987, p.149).

Os valores são criadores quando se referem a habilidades criativas, intelectuais ou artísticas, são vivenciais, porque dizem respeito à relação com a natureza, com o outro e com Deus, e os valores de atitudes, por sua vez, referem-se à decisão pela ação adequada ante um sofrimento que não se pode evitar (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20).

Além disso, percebe-se que o sofrimento apresenta um aspecto positivo referente à avaliação ou descoberta sobre o sentido da vida, pois, “a preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial” (FRANKL, 1987, p.120) e essa angústia conduz o indivíduo à busca de uma razão pela qual viver, ou seja, quem tem sentido para viver, encontra forças para suportar quase toda e qualquer situação ou adversidade, de modo que o ser humano é capaz de viver e até morrer por seus ideais e valores (FRANKL, 1987, p.117).

Notamos que, no sofrimento, o indivíduo tem também a oportunidade de descobrir ou confirmar sua missão específica e colocá-la em prática por meio de habilidades criativas, experiências de vida e atitudes decisivas (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20). Quando isso não ocorre, pode-se dizer que a pessoa desistiu de encontrar o sentido de sua vida, ou se deixou levar pelo racionalismo, cientificismo e ativismo moderno, que não oferecem tempo ou condições para que o ser humano trabalhe a partir do sentido de suas atividades (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p. 26-27).

Libânio amplia a posição de Frankl, quando afirma que só é possível encontrar sentido para vida inserido em um grupo ou contexto social que estabeleça condutas, mesmo que estas sejam questionadas, pois, limites estabelecidos norteiam decisões e auxiliam na formação de identidade biológica, familiar, afetiva e social (LIBÂNIO, 2004, p.22). Ou seja, é a partir do meio social que o indivíduo desenvolve e experimenta conflitos, e é nesse contexto que ele deve aprender a vencê-los.

Assim, podemos entender que o usuário de drogas vive uma situação de vazio existencial, que o induz à busca por um sentido de vida que lhe dê forças para suportar as adversidades.

Essa busca de sentido possibilita que o ser humano encontre e experimente substâncias químicas, que, inicialmente, respondem à busca desorientada por prazer e segurança, porém, posteriormente fragilizam-no emocionalmente, tornando-o mais suscetível à dependência química.

1.1 Pessoa enquanto SER dependente químico

Carmo afirma que alguns dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas, segundo a Organização Mundial de Saúde, são a falta de informação acerca dos efeitos das drogas, enfermidades gerais, insatisfação com a vida, personalidade fraca e fácil acesso às drogas (CARMO, 2000, p. 143).

A relação de dependência enquanto necessidade de prazer inerente ao ser humano, às influências da modernidade para o desenvolvimento da dependência química, devido à crise de identidade, de sentido e valores existenciais, e a ausência de informação ou educação adequadas acerca do uso, abuso e efeitos gerados pelas drogas, favorece a formação de um indivíduo propício ao uso indiscriminado de substâncias, das quais, muitas vezes, não tem controle. O uso dessas substâncias gera dificuldades no desenvolvimento das relações, além de danos fisiológicos no indivíduo.

Giddens afirma que, geralmente, as pessoas se tornam dependentes químicos, devido à ausência de um acompanhamento dentro de padrões de desenvolvimento natural do ser humano, em que um aprende com o outro a aceitar o mundo real como real e adquirir segurança a partir da confiança estabelecida nas primeiras relações humanas (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

Afirma ainda que, as pessoas sofrem influências do meio social em que estão inseridas, e essas influências refletem em suas questões relacionais, sejam no trato da segurança ou insegurança, submissão ou prepotência, satisfação ou insatisfação. E isso, porque a modernidade foge a este padrão de desenvolvimento recusando o relacionamento interpessoal, e, com isso produzem-se a exclusão e a marginalização (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

A marginalização deteriora a estrutura do ser humano, minimiza as possibilidades de que o indivíduo adquira bons referenciais, torna-o acessível ao conhecimento, administração e uso da droga e amplia a necessidade de busca de prazer devido à sensação de abandono causada pela marginalidade (SCHMIDT, 1976, p.25).

No que diz respeito ao ser humano enquanto necessitado de referenciais sociais, a atualidade apresenta duas características negativas: a carência de bons referenciais e o marketingda droga.

Sobre os referenciais, podemos afirmar que há uma desvalorização dos relacionamentos interpessoais e das preocupações com limites e ordem, além de um esforço em busca da liberdade e de relações convenientes e utilitaristas, logo, não há uma preocupação ou desejo no indivíduo de se tornar referencial ou exemplo para o outro, e sim, a expectativa de que esteoutro seja referencial para o indivíduo (ROUANET, 1987, p.233, 236).

Quanto ao marketing da droga, importa ressaltar que as propagandas, sejam a favor ou contra o uso indiscriminado de drogas, aumentam a curiosidade dos que veem e isto funciona como facilitador para que mais pessoas procurem experimentar drogas tornando-se possíveis dependentes químicos (LIBÂNIO, 2004, p.159).

Os indivíduos que se tornam usuários de drogas são, geralmente, pessoas que não conseguem administrar bem circunstâncias de conflito, pressão ou rejeição naturais no processo de ascensão e reconhecimento social. São pessoas que não têm ou não sabem como se manter diante dessas dificuldades e por isso, recorrem a substâncias que lhes proporcionem um período de estabilidade e segurança, que, mesmo sendo ilusória, causa a sensação de alívio que o usuário deseja (LEON, 2003, p. 39).

1.2 Característica dependente

No que diz respeito à dependência química, podemos falar que as perspectivas alcançam várias interpretações. Uma delas está associada à situação de sujeição de uma pessoa em relação à outra, de modo que o dependente ocupe a postura de submissão ou se sinta parte de algo, de alguém ou de uma situação (AULETE, 1964, p. 1090).

Uma segunda visão considera a característica natural de dependência do ser humano, a partir da necessidade de organização temporal, espacial, psicológica e também de personalidade, que é inerente ao indivíduo desde a mais tenra idade, e que, só pode ser constituída a partir de referenciais externos, ou seja, a presença de alguém que se torna referencial junto a esse processo (SAFRA, 2005, p. 7).

Em terceiro lugar, existem afirmativas a favor da ideia de que a modernidade tardia atua como motivador de uma conduta que contribui para com o surgimento e desenvolvimento da dependência química. Conforme Rouanet, a atração ou sedução das coisas sobre as pessoas é uma marca da modernidade que influencia no modo de agir e na construção ou desconstrução de valores do mesmo (ROUANET, 1987, p. 233).

A psicóloga Daniela Bessa reforça a compreensão de Rouanet e afirma que o ser humano deseja conquistar status e reconhecimento, seja social e/ou familiar, através da aquisição de bens, mesmo que por meio disso, aconteçam perdas significativas no desenvolvimento de relações profundas e verdadeiras, seja com as pessoas ou mesmo com Deus (BESSA, 2002, p. 31).

Portanto, podemos compreender a dependência química como relação de sujeição, bem como de referência e de sedução. O dependente é a pessoa que se submete a qualquer coisa que lhe pareça importante ou que lhe cause medo, e, a partir disso, passa a seguir os exemplos ou as referências daquilo que se tornou o alvo das expectativas do indivíduo, de modo que este pode se deixar conduzir pela sensação de sedução de tudo o que lhe afeta os sentidos e as emoções (MOREIRA JR, 2011, p.78).

Logo, podemos entender que a dependência química é desenvolvida de acordo com o lugar que as drogas ocupam na vida das pessoas. Assim, o indivíduo pode: se sujeitar à dominação física gerada pela substância; adquirir comportamentos comuns às pessoas que se tornaram referenciais – como o grupo de amigos; e até mesmo, se abandonar ante a sedução causada pelas ilusões proporcionadas por meio das drogas.

1.3 Fatores de risco

É perceptível que algumas situações favorecem para o desenvolvimento e manutenção de situações de dependência química. Alguns dos fatores que são encontrados nos âmbitos sociais e familiares, são características comuns à modernidade.

Benedicto afirma que existe na modernidade um vício pela busca de soluções rápidas e que uma das provas disso é a utilização excessiva de medicamentos, mesmo sem orientação médica. As pessoas de modo geral, acreditam que as drogas – lícitas – resolvem praticamente tudo: da mais simples dor de cabeça, até dificuldades para com estresse e depressão. Esta crença auxilia na modificação da conduta do indivíduo ante as situações de crise e dor, de modo que, este, passa a entender que pode encontrar respostas para seus problemas em comprimidos. Deste modo, acontece a familiarização e facilidade para administração de drogas gerais, o que favorece para que o indivíduo desenvolva um caráter vicioso e possa vir a se tornar um dependente químico, porque os remédios passam a ser vistos como mais fortes que as pessoas (BENEDICTO, 2007, p. 17).

Um agravante pode ser encontrado ao considerar a visão de Nouwen, pois, este afirma que, a sociedade não tem representante ou líderes de modo geral, que sejam exemplos. Isso dificulta a construção social e o crescimento da individualidade constituída a partir de um referencial positivo. Assim, cada pessoa tende a ser seu próprio referencial tornando-se interiorizada e vazia. Ante a isso, os referenciais de grupo ganham força, e, portanto, a dificuldade de exemplos gerais pode se tornar facilitador para que indivíduo comece a seguir os padrões de comportamento do grupo onde estiver inserido e a utilização de drogas pode ser um destes hábitos (NOUWEN apud BESSA, 2005, p. 43).

A perspectiva do prazer também está relacionada como fator de risco. Conforme Freud, o desejo natural de busca do prazer, pode ser motivador para a utilização de drogas. Isso, porque Freud considera a relação funcional da masturbação com a utilização de drogas, ao entender que ambas as situações de prazer são desenvolvidas e manipuladas pelo usuário, em busca de satisfação pessoal e intensa, sem preocupação para com o outro (FREUD apud MARZANO, 2007).

O psiquiatra Eduardo Kalina reforça esta perspectiva quando afirma que o erotismo oral é constante e intenso, durante toda a vida do ser humano e que está particularmente presente nos casos de drogadicção, mesmo quando a substância não é ingerida pela boca. Assim, é mais fácil entender porque algumas pessoas sentem-se seduzidas ao uso contínuo de drogas, mesmo que o prazer seja momentâneo e ilusório (KALINA, 1983, p. 29).

Além disso, percebemos que alguns fatores de risco estão diretamente relacionados às perspectivas familiares (LEITE, 2005, p.40). Dentre as quais, podemos destacar: o nível do envolvimento afetivo dos pais em relação aos filhos; a estrutura hierárquica constituída no âmbito familiar; e o contexto doméstico, ou seja, o fato de os pais fazerem, ou não, uso abusivo de substâncias químicas (HUTZ, 2007, p. 174, 175).

Isto é importante porque quando se fala em violência familiar, por mais causas que possam existir, geralmente podemos dividir em duas grandes áreas: as questões intrafamiliares, ou seja, os relacionamentos de modo geral; e os sociais, dentre os quais se encontram o abuso do uso de substâncias químicas, comportamento considerado comum atualmente (ZAMPIERI, 2004, p.65).

1.4 Farmacologia da dependência

Drogas são substâncias naturais ou sintéticas, que agem diretamente no organismo, modificando suas funções e proporcionando prazer momentâneo (Cf. BENEDICTO, 2007. p. 17).

Considerando que a variedade de drogas de que se têm informações é muito ampla, serão destacados alguns tipos mais comuns, organizados por classes. As drogas geralmente são classificadas como: narcóticos, depressores do sistema nervoso central, estimulantes e alucinógenos.

Os narcóticos, também chamados de entorpecentes, são muito usados na medicina devido ao caráter anestésico de seu princípio ativo. Nessa classificação destacam-se: a morfina, a codeína, a meperidina, e metadona. O ópio e a heroína fazem parte da família dos narcóticos, porém, não são utilizados com fins medicinais (Cf. SANCHEZ, 1982).

Os depressores do sistema nervoso central apresentam sintomas semelhantes à embriaguez. Dentre eles estão: os barbitúricos, remédios mais conhecidos como Gardenal, Vagostencil e Desbutal; a metaqualona, também conhecida como Mesqualon ou Mandrix; tranquilizantes menores, vendidos como Valium, Diempax, Apraz, Frontal, Psicossedim, Rivoltril, Dorminid, Lexotan, Somalium e antidistônicos; solventes, como aguarrás e colas diversas, vendidas em casas de construção; éter e clorofórmio, usado para amenizar as dores de parto até o início do século XX (Cf. MACHADO, 2004).

Dentre os estimulantes, destacam-se: a cocaína, utilizada na oftalmologia no século XIX e com finalidade terapêutica no século XX, tornando-se proibida nos EUA em 1914 (Cf. MACHADO, 2004); o crack, uma forma impura da cocaína; a efedrina, mais conhecida como Rinosteg, descongestionante nasal; anfetaminas, Hipofagin e Moderex, remédios comumente usados por anoréxicos, comprados como Pervitin, Dexedrina e Desbutal que ajudam a controlar o apetite (Cf. MURAD, 1994, p. 59).

Os alucinógenos também são chamados de psicodislépticos. Os mais conhecidos são: LSD, Mescalina, Trixipheidyl, conhecido como Artane e Akineton, que pode ser utilizado contra mal de Parkinson – para PRZEDKORSKI (2002, p. 596), os efeitos do mal de Parkinson podem ser reduzidos com o uso de depressores – e a cannabis sativa, chamada de “alucinógeno menor”, conhecida como maconha ou marijuana (Cf. MACHADO, 2004).

O uso de cada uma destas substâncias altera o comportamento e o funcionamento do corpo do usuário de modo diferente, dependendo do tipo de droga utilizada.

Inicialmente, os efeitos não são muito aparentes, mas, com o uso contínuo, o indivíduo passa a apresentar sinais sociais, emocionais e orgânicos, que indicam não apenas o uso de drogas, mas instalação da dependência, além da necessidade de um cuidado específico.

As questões orgânicas ou fisiológicas são mais perceptíveis diante do uso contínuo de drogas, mesmo que já existam a partir da primeira dose administrada. Cada tipo de substância apresenta um risco específico, por isso as questões serão abordadas a partir das classes já apresentadas, com um destaque para os efeitos dos inalantes.

As pessoas sob a ação dos narcóticos apresentam uma contração acentuada da pupila que pode ficar tão pequena quanto à cabeça de um alfinete. Pode ocorrer paresia – diferente de paralisia, o termo paresia indica uma parada momentânea de órgãos ou tecidos (Cf. ROWLAND, 2002, p. 34) – estomacal e sensação de estômago cheio, como se não tivesse condição de realizar a digestão. Os intestinos também ficam sujeitos à paresia e, em consequência, a pessoa que abusa destas substâncias geralmente apresenta forte prisão de ventre. Com base neste efeito é que os opiáceos são utilizados para combater as diarreias (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007).

Os depressores aumentam as chances de adquirir lesão cerebral, parkinsonismo, cegueira, disfunção renal, disfunção do fígado e insuficiência respiratória, além de promoverem alterações psicológicas (Cf. MACHADO, 2004).

De modo geral, os estimulantes podem causar psicoses, alucinações, impotência, doenças no pulmão, estômago, bexiga, alterações hormonais, pressão alta e até morte súbita (Cf. MACHADO, 2004).

Os alucinógenos têm maior possibilidade de levar à perda de memória, dificuldade de capacidade produtiva -baixo tônus vital, desânimo, cansaço, etc. -, alterações de ordem motora, aumento do risco de infecções, problemas de infertilidade e potência, maiores possibilidades de câncer e aborto, além de cansaço e alterações psicológicas que podem levar ao pânico e até suicídio (Cf. LEMOS, 2007, p. 22).

No caso da maconha, há alterações da percepção temporal e da memória recente, como também aumento do apetite e diminuição do desempenho para tarefas do cotidiano (Cf. JAFFE, 1981, p. 71-72).

Os inalantes produzem reações orgânicas típicas como tosse, irritação no nariz e nos olhos, náusea, vômito, diarréia, dor no peito, dor nas juntas, visão dupla, sensibilidade à luz e até perda de apetite (Cf. JAFFE, 1981, p. 51).

Parece estranho que, diante de reações orgânicas tão agressivas, uma pessoa possa se tornar um dependente químico. Porém, deve-se destacar que essas reações ocorrem gradativamente, de modo que o usuário experimente inicialmente a euforia, relaxamento e prazer que as drogas proporcionam (Cf. VIANA, 2004).

1.5 Reações e níveis de dependência

Os efeitos de cada uma das substâncias químicas utilizadas pelo dependente podem variar de caso a caso, de acordo com a saúde do indivíduo, o quanto ele utiliza, o tipo de droga escolhida, como é administrada: se pela boca, se inalada ou injetada, e do ambiente sociocultural em que ele se encontra. Logo, os efeitos aqui apresentados são prováveis, e como realizado anteriormente, serão apresentados divididos por classes.

Os narcóticos, de modo geral, causam um nível alto de dependência psíquica e física. Considerando a atuação fisiológica dos narcóticos e observando a conduta de diversos usuários, nota-se que não há um comportamento aparentemente agressivo do indivíduo que utiliza tais substâncias, desde que este não seja provocado ou induzido (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007). Geralmente os derivados do ópio causam sensações de exaltação, aumento de energia ou euforia, porém, o uso frequente gera uma tolerância aos efeitos, o que faz necessário um aumento na quantidade de droga administrada, bem como a redução dos espaços de tempo entre uma dose e outra na tentativa de alcançar a sensação desejada (Cf. JAFFE, 1981, p. 32).

As drogas depressoras do sistema nervoso central são hipnóticas, sedativas e anti-convulsivas. São indicadas no tratamento de pânico, ansiedade, insônia e dor crônica. Agem como relaxante muscular e geralmente diminuem a censura, mas podem provocar angústia e uma dependência de alta a média, tanto psíquica quanto física (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Normalmente, os estimulantes aliviam a fadiga e despertam a pessoa, provocando sensação de alerta. Em geral, criam alta dependência psíquica e uma possibilidade de dependência física. Vários são os efeitos produzidos pelos estimulantes: sensação de melhora do funcionamento cognitivo, ansiedade, infatigabilidade, dentre outros. A utilização excessiva ocorre devido a dois efeitos marcantes dessas drogas: a euforia e a perda de apetite, por isso, boa parte dos usuários são anoréxicos, o que fez alguns desses medicamentos ficarem conhecidos como “remedinhos para emagrecer” (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

No que diz respeito às substâncias alucinógenas, pode-se afirmar que provocam reações semelhantes a psicoses, desde delírios a perda parcial ou total de percepção da realidade. Essas substâncias não causam dependência física e o grau de alcance psicológico é desconhecido. Dentre estas drogas, destaca-se a maconha, que relaxa, produz sensação de bem estar e vermelhidão nos olhos, induz, na maioria das vezes a ações extrovertidas, mas pode gerar o desejo de isolamento e reflexão, bem como ansiedade ou pânico. A maconha gera uma dependência psíquica moderada (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Dentre outros efeitos causados pelos diversos tipos de drogas, podem-se relacionar questões emocionais e situações orgânicas do usuário de drogas.

As características emocionais produzidos pelas drogas também podem variar de indivíduo para indivíduo. Cada substância proporciona uma reação diferente de uma pessoa para outra e o contexto do usuário faz diferença no modo de ação da droga.

Porém, de modo geral, destacam-se alterações no pensamento, perda de memória, ações psicóticas, como suspeita de estar sendo seguido ou de que outros estejam falando e conspirando contra eles, comportamento inconstante e incoerente, irritação, e até excitação sexual persistente (Cf. JAFFE, 1981, p. 32-33).

Outras características que podem ser observadas são a perda da distinção entre o certo e o errado, padrões éticos e morais deturpados, dificuldade em discernir entre o real e o ilusório, sensibilidade extrema a palavras e ações, e baixa autoestima (Cf. VIANA, 2004).

Nota-se que os efeitos das substâncias químicas afetam diretamente a sensação de segurança, de direção e prazer: segurança, porque afetam a estabilidade psicológica e deixam o usuário em expectativa de perseguição; direção, porque deturpam os conceitos e limites sociais; e prazer, porque invadem as experiências naturais do indivíduo, modificando-as até no trato sexual.

Logo, a dependência é apresentada como relação de sujeição, referência e sedução, ou seja, o dependente é aquele que se submete a algo que lhe parece maior, mais significativo, ou que lhe proporcione medo. Desse algo ou alguém, o dependente segue o exemplo, as referências do que lhe chamam mais atenção ou lhe parecem mais importante, ou se deixa levar pela sedução daquilo que lhe afeta e envolve seus sentidos e emoções.

A partir disso, pode-se dizer que a dependência química está relacionada ao lugar que as drogas ocupam na vida do individuo. De modo que este pode sujeitar-se ao domínio orgânico da substância, ter os padrões do grupo como referenciais, ou mesmo se deixar seduzir pela viagem ou pelo mundo apresentado a ele por meio das drogas.  De modo especial, percebe-se que há um diferencial no comportamento desta geração que favorece para que a dependência química seja cada vez mais comum.

1.6 Genograma: família, fator de risco e de proteção para o dependente

O genograma é uma ferramenta essencial para acompanhamento de famílias. A partir da construção e interpretação do genograma é possível avaliar o contexto perceber as melhores formas de intervenção de acordo com o comportamento da família avaliada, para que no momento oportuno, as impressões percebidas por meio do genograma sejam apresentadas ao sistema familiar.

A coleta de informações para a composição do genograma deve alcançar ao menos três gerações. O sistema utiliza regras particulares de simbologia, tanto em relação à estrutura familiar, quanto aos dados demográficos, clínicos e relacionais da família.

É indicado como modelo terapêutico de avaliação, em famílias que apresentem dificuldades com: 1) saúde materna; 2) saúde infantil; 3) problemas de desenvolvimento infantil; 4) dificuldades em relação ao trabalho; 5) doença crônica em algum elemento da família; 6) doença mental em algum indivíduo do sistema familiar; 7) morte de um familiar; 8) consumo de drogas; 9) suspeita de violência; 10) depressão ou ansiedade crônica; e 11) falta de adesão aos planos terapêuticos.

A importância do genograma para a atenção familiar está vinculada ao valor que o sistema familiar apresenta enquanto base de desenvolvimento social para o indivíduo. O modelo terapêutico em questão foi elaborado de modo a contemplar todo o ciclo de vida da família, desde a constituição do sistema, por meio do casamento, até a morte dos cônjuges.

O genograma pode ser desenhado pelo médico, paciente ou por contribuições de ambos, tendo início em uma consulta e deve ser construído a partir da composição e estrutura familiar, considerando o ciclo de vida, os padrões de repetição em gerações, além do equilíbrio e desequilíbrio familiar. Para a constituição deste modelo terapêutico é necessário a utilização de símbolos próprios (REBELO, 2007, p. 314).

A interpretação deve considerar resultados de exames médicos (eletrocardiogramas, por exemplo), existência ou não de padrões de repetição em diferentes gerações, além de observações do ciclo da vida familiar em questão, ou seja, é necessário considerar se a família é composta por recém-casados, se tem filhos adolescentes, etc (REBELO, 2007, p. 314).

Símbolos do genograma

Símbolos do genograma

O genograma surgiu em meio a buscas por compreensões de patologias de filhos em relação à mãe ou pai. Posteriormente a teoria da comunicação humana contribuiu por meio da percepção de incongruências na comunicação, seja verbal ou não verbal, além dos estudos realizados em famílias de esquizofrênicos, que auxiliaram no chamado duplo-vínculo, favorecendo no acompanhamento de filhos esquizofrênicos (PRADO, 2009, p. 233).

Houve um avanço do conhecimento sobre as causas da saúde e da doença psíquica, não apenas do indivíduo, mas, nas relações e interações de membros dos sistemas familiares, em direção diferente à dos modelos até então conhecidos, da perspectiva psicanalítica (PRADO, 2009).

Por um período, houve um destaque no trabalho que considerava a família tri geracional, ou seja, a ênfase da importância dos avôs na família.

A partir disso, a história da família ganha valor e as interações passadas são consideradas como influentes no comportamento dos pais e, portanto, afetam toda a vida familiar. Assim, toda a estrutura histórica da família, tudo o que foi construído no passado, como, abusos sexuais, violências, segredos de paternidade, adoções, mitos e crenças, etc., são avaliados como influenciadores na distorção das interações do tempo presente (PRADO, 2009, p236).

Os anos oitenta também contribuíram para a ampliação da perspectiva do genograma e da terapia sistêmica, pois, o movimento feminista impulsiona o desenvolvimento da terapia familiar feminista, valorizando diferenças de gênero e aspectos particulares do papel da mulher na sociedade, família e casamento (PRADO, 2009).

No entanto, todas as considerações, inclusive sobre as particularidades do papel da mulher, devem ser construídas no genograma em conjunto, terapeuta e família, devem buscar compor a história da família com todas as características e problemas que vierem à tona. (PRADO, 2009, p 237)

As alterações e complementos no processo terapêutico chegam ao ponto de influenciar pioneiros na orientação de família, como, Minuchin, ainda vivo, em sua nona década de vida, autor do livro Dominando a Terapia Familiar, publicado em 2008, considerado estruturalista, reconheceu novas visões pós-modernas e acrescentou ao seu próprio trabalho, a avaliação histórica da família (PRADO, 2009).

Outra alteração histórica que influencia no processo terapêutico de família, está relacionada ao sistema familiar contemporâneo, pois, a configuração de família atual é em maioria, composta por famílias de pais sozinhos em decorrência de divórcios, de nascimentos e adoções por pessoas não casadas, indivíduos criados por avós, grupos familiares de filhos de pais diferentes vivendo no mesmo ambiente devido à  casamentos de divorciados, grupos familiares constituídos por casais homossexuais, famílias que vivem em casas separadas, ou mesmo indivíduos que vivem só (PRADO, 2009).

A estrutura do genograma é constituída por uma imagem gráfica, um tipo de mapa e até desenho da família. Esse recurso é utilizado como ferramenta de apoio para um destravamento do sistema, por meio da observação das dificuldades familiares e dos padrões relacionais (WENDT & CREPALDI, 2008).

A avaliação desse mapa favorece para que o clínico examine as prováveis dificuldades e facilidades do eixo familiar. Assim, um dos trabalhos que se utilizam do genograma é na caracterização e cadastramento de grupos familiares, em órgãos públicos que lidam com auxílio à família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Podemos dizer que o genograma é um “mapeamento gráfico da história e do padrão familiar”, onde podemos perceber: a) estrutura básica; b) demografia; e c) funcionamento e relacionamentos; que formam um gráfico dos dados coletados. O mapeamento expõe as etapas familiares através das gerações, além das estruturas emocionais associadas (WENDT & CREPALDI, 2008).

A função mais importante do genograma é cruzar dados familiares em momentos de avaliação, para acompanhamento adequado em meio aos processos relacionais em meio à terapia (WENDT & CREPALDI, 2008).

Para isso, as informações da família são organizadas em estrutura gráfica, para que se tenha uma visão mais clara da complexidade dos padrões de grupo. Supostamente, os membros do grupo são interdependentes, por mais que sejam idiossincráticos. Portanto, quando uma parte do sistema muda, todos os demais membros são afetados (WENDT & CREPALDI, 2008).

Através desse gráfico é possível identificar mitos e crenças que guiam e formam famílias por gerações, bem como sustentam rupturas de relacionamentos e dificuldades de trato.

Uma das formas de se analisar uma família é pela observação dos subsistemas, fronteiras e demais abstrações que podem ser percebidas entre os membros do grupo ao longo da história de vida. Esta construção abstrata indica uma estrutura familiar e delimita configurações do grupo (WENDT & CREPALDI, 2008).

A dinâmica familiar é a forma de relacionamento estabelecida pelos membros do grupo, ou seja, o modo como desenvolvem vínculos ou tratam seus problemas, os ritos, as regras, definição de ordem e papeis de cada membro da família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Os filhos fazem com que a família amplie ou modifique a estrutura interna vigente, o que favorece para o surgimento de novos subsistemas (WENDT & CREPALDI, 2008, p.305).

Enfim, em meio a tantas alterações nas composições de famílias, o genograma segue como ferramenta de auxílio fundamental na construção de um modelo terapêutico que integre e enriqueça as técnicas de apoio a disfunções relacionais.

Em relação à dependência química, o genograma atua como ferramenta de compreensão, pois, a estrutura gráfica proporcionada pelo genograma auxilia no desenvolvimento da compreensão familiar de como a doença surgiu, retirando o estigma do individuo que se tornou dependente químico, por meio de um esclarecimento sobre a realidade patológica de toda a família.

Para exemplificar, será mostrado aqui o genograma de uma família onde foi percebido um histórico de dependência química, inicialmente considerado como algo comum, devido ao fato de bebidas alcoólicas serem drogas lícitas, mas que, proporcionaram o surgimento de dependentes de drogas ilícitas como cocaína e crack.

O dependente titular desse genograma é descendente da junção das famílias O.M. e P.M.

  • Família O.M. (geração de avós)
Família O.M. (geração de avós)
  • Família O.M. (geração de tios)
Família O.M. (geração de tios)
  • Família O.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma

 

  • Família O.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M. (geração de avós)
Família P.M. (geração de avós)
  • Família P.M. (geração de tios)
Família P.M. (geração de tios)
  • Família P.M.
    • Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma

Observações sobre o genograma

Alergias, diabetes, dificuldades oftalmológicas, doenças cardíacas e problemas gerais de pressão, são características comuns a quase todos os membros da família.

O número de alcoolistas chegou a quase 56 membros da família e nove foram usuários de drogas (cocaína e crack). Atualmente, a maioria afirma ter deixado as drogas e bebidas por questões religiosas.

Três pessoas manifestaram câncer, sendo que, no caso de M.A. houve manifestação da doença em três momentos distintos e recuperação da saúde, de modo que permanece viva.

Dois casos de distúrbio psiquiátrico foram confirmados clinicamente, porém, foram tratados e recuperados totalmente.

Não existe padrão em relação à conduta escolar. É possível perceber pessoas de todos os níveis de estudo e atuando em diversas áreas, com predominância nas seguintes profissões: Motorista, Professor, Ourives, Pedreiro e Pastor Evangélico.

Em relação à constituição familiar podemos observar divórcios, relações extraconjugais constituídas paralelamente e mães solteiras.

De modo geral, foi percebido que a maior marca da família é a falta de relacionamento e de interesse mútuo. Isto foi comprovado pela dificuldade em conseguir informações dos membros da família por meio de entrevistas, de modo que, a maior parte das informações desse relatório foi adquirida por meio de pesquisas em cartórios e documentos diversos.

Três questões para exemplificar o nível do distanciamento das pessoas que compõem este grupo familiar.

  • Mesmo os dados mais simples não são de conhecimento de parentes próximos. Por exemplo: Em meio à pesquisa nos cartórios foi descoberto que I. P. (avô do titular do genograma) era gêmeo com G. P. (comprovado vivo até a juventude em documento de cartório) e este era desconhecido de seus sobrinhos, filhos de I.P. , que se surpreenderam ao saber da existência de um tio gêmeo do pai.
  • Em meio às tentativas de entrevista de familiares, houve discussões sobre o distanciamento dos membros da família e alegações do tipo… “Há dez anos não vejo meu irmão! E moramos a em bairros vizinhos!”
  • Também por meio de pesquisa em cartórios, foi descoberto que, B.O. , filha de M.A. , foi registrada em nome de A.O. e criada como filha de J.A.
    • Após a descoberta, discussões explicaram que a situação foi causada em decorrência de que, a gestação de B.O. ocorreu na adolescência de sua mãe, que, ainda solteira, não seria bem vista na sociedade da época, portanto, a criança nasceu em outra cidade e foi registrada como filha de uma prima de sua mãe, contudo, foi criada como filha da própria avó. Obs. Mãe e filha ainda vivem e se tratam como irmãs, a família não comenta o assunto.

Diante disso, pode-se perceber o quanto as ações familiares influenciam na formação do caráter do indivíduo, bem como, as circunstâncias vivenciais modificam os valores e interesses das pessoas. Pode-se perceber que, o titular do genograma, cresce em meio a alcoolistas, dependentes químicos, familiares distantes, mentiras, omissões, doenças e brigas, que proporcionam um ambiente favorável para que este se torne suscetível ao abuso do uso de substâncias químicas, como tentativa de refúgio, busca de segurança e mesmo por meio dos referenciais de pessoas estimadas que, já fazem uso de substâncias psicoativas.

 A partir do reconhecimento de uma situação de dependência química instalada, é necessário o desenvolvimento de uma avaliação psicológica com vistas à intervenção para possível auxílio no controle da situação de dependência.

2 Avaliação & Intervenção Psicológica

A psicometria é um ramo da estatística que estuda fenômenos psicológicos. Não se trata apenas de métodos, ela se insere na teoria da medida que trata da utilização de números no estudo dos fenômenos naturais. O processo de avaliação psicológica começa a ganhar estrutura a partir da elaboração de instrumentos de medida psicológica. Assim, a avaliação tende inicialmente a ocupar lugar de diagnóstico nos âmbitos clínicos e de trabalho e posteriormente repercute em todas as perspectivas do indivíduo. No entanto, apesar do desenvolvimento da área e da solidificação de análises e instrumentos, ainda existem críticas sobre os testes psicológicos.

Atualmente, pode-se dizer que, os instrumentos foram atualizados e compreende-se que o conhecimento é adquirido pela relação com o outro e a observação desta relação. Tornando o diagnóstico uma questão, por um lado racional, por outro, empático (NASCIMENTO, 2005, p. 217).

No Brasil, a psicometria ganha um grande espaço de discussão, devido ao modo como os testes veem sendo utilizados, sem o rigor necessário e estudos adequados, de forma que descaracteriza o método e sua cientificidade (NORONHA; BALDO; ALMEIDA; FREITAS; BARBIN; & COZOLI, 2004).

O rigor do método se deve à importância do mesmo, pois, a partir da psicometria é possível mensurar questões individuais em perspectivas legais, como quando um teste serve de base para distinguir entre dano moral e dano psicológico.

O dano moral é identificado como parte da percepção subjetiva de prejuízo em questões de honra, finanças ou de liberdade, enquanto que o dano psicológico está vinculado à saúde, possibilitando desenvolvimento de patologias (ROVINSK, 2005, p.178).

A avaliação psicológica é um dos principais campos da atuação do psicólogo. E isso, porque, a partir dos resultados dos testes, é possível se fazer inferências acerca do comportamento humano, de modo a auxiliar o indivíduo a tomar decisões diante de situações específicas (ÁVILA-BATISTA, 2011, p. 11).

Assim, o teste mais utilizado no Brasil para avaliação psicológica, tanto em relação à gravidade quanto à intensidade de danos, em casos de dependência química, é o MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview). Seu questionário foi validado para a realidade brasileira e, por isso, sua eficácia tem sido continuamente constatada a cada aplicação, de modo que, muitos pesquisadores se utilizam com tranqüilidade deste instrumento.

2.1 MINI: Características e validação do instrumento

Dentre os métodos psicológicos reconhecidos estão o DSM IV TR (2002) a nível clínico e de diagnóstico de dependência química e o SADD (1983) como avaliador de gravidade da dependência química (SOUZA; BITENCOURTT & OLIVEIRA, 2006, p. 111).

O Mini International Neuropsychiatric Interview, doravante designado MINI, é um questionário de auxílio para desenvolvimento de diagnóstico padronizado breve (15-30 minutos). É compatível com os critérios do DSM-III-R/IV e do CID-10 e sua utilização é indicada na prática clínica e na pesquisa em atenção primária e em psiquiatria. Pode ser utilizado por clínicos após um treinamento rápido (de 1 a 3 horas). O MINI Plus, versão mais detalhada, pode gerar diagnósticos dos principais transtornos psicóticos e do humor do DSM-IV (SCHEFFER; PASA; & ALMEIDA, 2010, p.535).

O MINI é estruturado em módulos diagnósticos independentes, para otimizar a sensibilidade do instrumento, na tentativa de diminuição de falso-positivos. Como meio de redução de tempo da entrevista, são utilizadas as seguintes estratégias: observação dos transtornos atuais, para facilitar a escolha da terapia mais adequada no momento; as questões são de resposta objetiva entre SIM/NÃO; questões de entrada exploram critérios obrigatórios para excluir diagnósticos de respostas negativas; as características e sintomas ocasionais de transtornos não são sistematicamente exploradas; e os algoritmos são integrados à estrutura do questionário, permitindo estabelecer ou excluir os diagnósticos ao longo da entrevista (AMORIN, 2000, p. 107).

Foram desenvolvidas duas versões do MINI para responder aos diagnósticos específicos de contextos diferentes:

1) voltado para ensaios clínicos e cuidados primários. O MINI abrange 19 módulos que alcançam 17 transtornos do eixo I do DSM-IV, o transtorno da personalidade anti-social e o risco de suicídio. O módulo Síndrome psicótica descobre os indícios do critério da esquizofrenia, com a finalidade de eliminar a possível existência de um transtorno psicótico. Os outros módulos determinam análises positivas.

2) proposto para a avaliação aprofundada das desordens mentais ao longo da vida, na pesquisa e na clínica em psiquiatria. O MINI Plus explora ordenadamente todos os critérios de abrangência e de eliminação, bem como a cronologia de 23 classes diagnósticas do DSM-IV. O módulo Transtornos psicóticos produz a análise positiva de 7 subtipos de psicoses: (1) transtorno psicótico sem especificação, (2) transtorno delirante, (3) transtorno psicótico breve, (4) transtorno esquizoafetivo, (5) transtorno esquizofreniforme, (6) esquizofrenia, e (7) transtorno psicótico decorrente de uma condição médica geral e/ou induzido por substâncias (AMORIN, 2000, p. 108).

O método utilizado para a validação do instrumento MINI foi o teste de confiabilidade entre métodos.  Era necessário provar a concordância entre o diagnóstico gerado pelo MINI e aqueles gerados por métodos já reconhecidos. Foram escolhidas duas estratégias para validar o novo procedimento diagnóstico: “compará-lo a diferentes critérios de referência e compará-lo ao Best Diagnosis ou LEAD Standard” (AMORIN, 2000, p. 108).

O MINI/MINI Plus foi comparado a questionários padronizados com características distintas, empregados em pesquisas internacionais – o CIDI e o SCID-P – e com a apreciação de psiquiatras. Além disso, foram realizadas análises quantitativas e qualitativas, pela metodologia do LEAD Standard.

2.1.1 Aplicação do MINI e os resultados obtidos junto a Dependentes Químicos

A dependência química é o resultado de uma relação doentia entre um indivíduo e uma substância psicoativa (SPA). Inicialmente o consumo pode ter diversos motivos que possivelmente prosseguirão após o desenvolvimento da dependência. O abuso do uso de SPA, frequentemente desenvolve a dependência e esta, traz consigo, comorbidades psiquiátricas, o que é desfavorável ao tratamento da dependência química. O episódio de um transtorno adicional pode comprometer o diagnóstico, tratamento e prognóstico de ambos os problemas (SILVA; KOLLING; CARVALHO; CUNHA; & KRISTENSEN, 2009, p.102).

Estudos afirmam que um terço dos alcoolistas demonstra ansiedade em níveis significativos. Uma média de 50 a 67% dos alcoolistas e 80% dos dependentes de outras drogas apresenta características semelhantes ao transtorno do pânico, dos transtornos fóbicos ou do transtorno de ansiedade generalizada. Conforme Silva, “pacientes com comorbidade psiquiátrica, principalmente aqueles com transtornos psiquiátricos graves, apresentam maiores taxas de suicídio, agressividade, detenção por atos ilegais, recaídas, internações, mais gastos com tratamento…” (SILVA et al, 2009, p.104).

Para a aplicação do instrumento, Silva realizou uma pesquisa, a partir de 31 pessoas, diagnosticados dependentes de álcool ou cocaína / crack a partir do CID-10 e DSM-IV. O trabalho foi realizado em um hospital de Porto Alegre – Hospital Parque Belém – tendo como critérios de exclusão: 1) a idade abaixo de 18 anos; 2) estado de abstinência de duas semanas; 3) experimentadores e ex-usuários; 4) dependência de outra substância; 5) menos de um semestre de uso regular de SPA.

A pesquisa foi realizada predominantemente por:

  • pessoas do sexo masculino (84%)
  • entre 20 a 56 anos de idade
  • sendo que, 19,4% dos participantes tinham ensino fundamental incompleto
  • 16,1% terminaram o ensino fundamental
  • 16,1% afirmavam ter ensino médio incompleto
  • 29% concluíram o ensino médio
  • 12,9% tinham ensino superior incompleto
  • e 6,5% possuem ensino superior completo.

 Em média, os envolvidos apresentaram 25 dias de abstinência. A coleta de dados durou em torno de 60 minutos e os instrumentos utilizados foram: formulário padronizado, elaborado por Silva, e o MINI Plus (SILVA et al, 2009, p.106).

Como resultado da aplicação do instrumento foi observado que: 1) os participantes do sexo masculino apresentavam maior tempo de abstinência; 2) os dependentes de cocaína / crack, são mais jovens que os alcoolistas; 3) 67% dos envolvidos na pesquisa, afirmavam ter parentes próximos que faziam uso abusivo de álcool e/ou drogas; 4) 38,7% tem pais dependentes químicos; 5) 25,8% são sobrinhos de dependentes; 6) 22,6% são primos de dependentes; 7) 19,4% são netos de dependentes; 8) 12,9% tem irmãos dependentes; 9) 6,5% tem mães dependentes de SPA; e 10) 3,2% tem filho dependente químico. Transtornos mentais foram percebidos em 83,9% dos participantes, além da percepção de comorbidades múltiplas em grande parte do grupo estudado (SILVA et al, 2009, p.108).

A partir da observação e avaliação dos resultados da aplicação do MINI, é possível que a intervenção psicológica seja mais adequada. Ou seja, torna-se mais difícil que o terapeuta promova um direcionamento errado, de modo a prejudicar o dependente. Tanto em relação ao desenvolvimento do tratamento, quanto no que diz respeito ao surgimento de novos problemas. A partir da avaliação, o passo seguinte é a intervenção.

2.2 Intervenção: Entrevista psicológica

A entrevista psicológica é uma ação entre duas pessoas – das quais, um deve ser profissional da psicologia – onde ocorre uma troca de informações, por meio de diálogo em uma comunicação informal e por tanto, os nomes e conceitos atribuídos a esse diálogo são muitos, de maneira que os teóricos da área ainda discutem o tema com intensidade (ALMEIDA, 2004, p. 34).

A expressão entrevista psicológica é efetuada por psicólogos no exercício de suas atividades. E levam em conta, perspectivas e fatores psicológicos percebidos anteriormente, com o objetivo de resolver problemas que habitualmente fazem parte do quadro da psicologia, ou seja, seleção e orientação profissional, pesquisas psicológicas, estudos de opinião pública, exame de personalidade, etc. No entanto, a avaliação psicológica não é uma prática independente de amarrações teóricas que a direcionem, é necessário identificar as perspectivas teóricas adequadas, de acordo com o que deve ser avaliado e o modo como deve ser analisado, além de forma de utilização dos resultados obtidos (SPARTA; BARDAGI; &  TEIXEIRA, 2006, p. 19).

De acordo com Sullivan (1970), a entrevista psicológica é uma comunicação vocal a partir de duas pessoas, integradas numa estrutura terapeuta-cliente e que se desenvolve progressivamente com objetivo de clarificar situações de vida dos entrevistados, vividas de modo especialmente penoso ou valioso, com objetivo de que esta clarificação possa gerar algum benefício para o cliente (p. 4).

Assim, nos atemos ao estudo da entrevista psicológica, com a intenção de pontuar sobre regras que auxiliam para que a aplicação da técnica seja mais adequada, de modo a facilitar o desenvolvimento da análise. Isto porque, só o cliente realmente tem condição de expressar sobre o próprio sofrimento e, portanto, se faz necessário que o terapeuta consiga identificar o problema e conduzir o cliente no processo de ajuda, a partir desta identificação (OLIVEIRA, 2005, p.1).

A entrevista psicológica deve ser realizada através de procedimentos e técnicas próprias e empíricas. É o ponto de encontro entre a ciência psicológica e a prática. Por tanto, é a partir da entrevista que se é possível aplicar de modo prático, os conhecimentos elaborados sobre as perspectivas psicológicas, por meio de um processo de interação (BLEGER, 1998, p. 1).

Todo o aparato instrumental do profissional da psicologia consiste no resultado das elucubrações do paciente, que voluntariamente ou impulsionado por facilitações do terapeuta, se dispõe e falar sobre aquilo que lhe é problema, ou motivação que o levou à clínica psicológica. As palavras do paciente são na verdade o material sobre o qual irá trabalhar na tentativa de uma melhor compreensão do caso (AUGRAS, 2002, p. 82).

As técnicas da entrevista são ferramentas de auxílio para que o paciente se sinta mais a vontade para expor suas questões e para que o terapeuta tenha maior acesso às informações essenciais na elaboração do processo de ajuda. Por meio da entrevista, é possível testar limites, contrapor, confrontar e buscar esclarecimentos para as respostas do sujeito. Por isso, a entrevista clínica tem lugar de destaque incomparável entre as demais técnicas de avaliação (TAVARES, 2002, p. 75).

2.2.1 Primeiras Entrevistas

O objetivo das primeiras entrevistas é identificar os aspectos mais relevantes do caso e a partir disso, identificar a melhor maneira de deseenvolver o acompanhamento.

No decurso destas primeiras entrevistas, o analista deve: 1) escutar e tentar peceber na historia de vida do paciente, os problemas e perturbações a serem trabalhados; 2) avaliar o nível de vontade e condição do paciente para o acompanhamento terapêutico; 3) observar as características psiquicas, bem como a habilidade de verbalizar e tolerar a condição de analise.

A partir disto, se a analise for realmente indicada ao caso, deve ser fixado um modo de acompanhamento, ao estabelecer a duração, a frequência das sessões, a postura do analisado (divã, por exemplo) e a postura do analista (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

O trabalho do analista é o de observar, escutar, compreender, saber esperar e calar-se e no momento oportuno e dar a interpretação que convêm. Após isto, o terapeuta deve comunicar ao paciente o conteúdo latente do discurso deste.

Esta comunicação deve ser elaborada a partir da reunião de elementos separados do discurso. É um trabalho de reorganização e de atribuição de sentido à narrativa do paciente.

Essa devolução organizada das informações do sujeito precisa ser realizada em momento adequado, que este tenha condição de ouvir e de assimilar as informações apresentadas pelo terapeuta. É um trabalho de cooperação na construção de questões interenas do individuo  (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

É importante saber que, as primeiras entrevistas podem desencadear alguns fatores psicológicos. É imprescindível estar atento a:

  • Resistências – dificuldades gerais que o paciente possa apresentar em relação ao desenvolvimento do processo terapêutico.
  • Transferência – ação inconsciente de vivência momentânea das questões que afligem o paciente, de modo que as emoções sejam transferidas do evento, para o terapeuta.
  • Contratransferência – ação de deslocamento das emoções do terapeuta para com o paciente, ante alguma vivência comum ou situação específica do momento vivencial do terapeuta.

Estas situações podem ocorrer em meio a qualquer processo terapêutico e precisam ser consideradas com cuidado para que o tratamento não seja prejudicado (NETO, A.C.; DAL-BÓ, M. J.; BREDA, R. L.; & CRESTANA, T. 2003, p. 266)

2.2.2 Entrevista nas psicoterapias breves

A psicanálise influenciou a psicologia tanto em questões teóricas quanto a nível de exemplo. Por outro lado, a psicologia auxiliou na propagação da psicanálise em países que demonstravam indiferença à atuação psicanalítica. Ainda assim, é notória as especificidades de cada uma das disciplinas.

Ferenczi, psicanalista contemporâneo de Freud, é um dos precursores das psicoterapias breves. Decidiu por buscar novas maneiras de ajudar os seus pacientes, e para isso, experimentou um certo número de mudanças técnicas. É assim que ele começa por atuar a partir da técnica activa, fundada na observação atenta e empática, que consiste em intervenções directivas por parte do analista: formular, por exemplo, ordens e interdições (OLIVEIRA, 1999, p.10).

Michael Balint propõe a psicoterapia focal; trata-se de entrevistas face a face, cujo número é limitado no tempo, com uma focalização no problema do paciente (PSICOTERAPIA BREVE, 2003-2011).

Alexander e French propõem modificações técnicas da psicanálise e desenvolvem aexperiência emocional correctiva. Alexander propõe trabalhar com base no método das associações livres, mas associa igualmente entrevistas mais directas e dá directivas ao paciente, ele pensa também que as atitudes do terapeuta devem ser suficientemente flexíveis para se adaptarem caso a caso (OLIVEIRA, 1999, p.11).

De um modo geral, podemos dizer que, por meio da entrevista psicológica, o cliente precisa alcançar o relaxamento suficiente, para que o terapeuta consiga perceber as situações que lhe causam desconforto, ansiedade e outros problemas que o motivaram a procurar ajuda terapêutica e apartir disso, seja possível a elaboração – por parte do profissional da psicologia – de um processo terapeutico adequado, considerando as abordagens psicologicas cabiveis.

O objectivo é, portanto, fazer com que o sujeito tome consciência dos seus pensamentos, reconhecer aqueles que são inexactos e substitui-los por ideias positivas.

Para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta a  compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É impressindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E agora, de posse de sua bagagem técnica tecer suas observações, ponderações e considerações, de modo axiomático, considerado que a utópica da neutralidade sempre deverá ser perseguida.

Os princípios éticos serão avivados em cada encontro, e nenhum instrumento poderá adquirir uma aura de prevalência sobre a pessoa do entrevistado, que é mais importante e assim deve ser respeitado.

É fundamental que o profissional se conheça e que tenha como rotineiras, as reflexões sobre suas próprias atitudes, postura e comportamento. É preciso que tenha também flexibilidade em modificar-se, quando a necessário. Muito do trabalho do psicólogo certamente vem em conseqüência do auto conhecimento, que lhe dará a base na qual se apóiam à sua atuação e intervenção com toda transparência.

2.3 Abordagens

No campo da Psicologia, são muitas as abordagens existentes para tratamentos de conflitos. Há aquelas em que o cunho está mais voltada para o autoconhecimento do sujeito, seus traumas e conflitos internos, existem aquelas que trabalham com as crises e suas repercussões no momento, e, há também as de fundo filosófico que vêem o sujeito não somente como uma psique em crise, e sim como um todo levando em conta seu lado social e seu relacionamento com consigo mesmo e com o mundo.

As abordagens que pontuaremos, devido ao reconhecimento e destaque geral no campo da psicologia são quatro: Abordagem Fenomenológica; Abordagem Humanista; Abordagem Sistêmica; e Abordagem Cognitivo Comportamental.

2.3.1 Abordagem Fenomenológica

A perspectiva fenomenológica surge como reação às teses e à maneira de compreender questões patológicas no início do século XIX.

A abordagem surge a parir da filosofia, em particular da filosofia a alemã. Tendo como precursor Edmund Husserl, que elaborou os fundamentos desta idéia. Ele propõe compreender o homem e a sua psicologia a partir da análise dos estados de consciência, das questões vivenciais, da experiência e dos modos de relação do sujeito com o seu meio. Martin Heidegger, discípulo de E. Husserl, propõe uma filosofia que prioriza o conhecimento do ser humano no mundo, da realidade humana a partir da descrição das coisas na sua essência sem qualquer pressuposto teórico (VILA-CHÃ, 1988, pp.357-365).

A filosofia fenomenologica destaca a necessidade de um retorno à experiência humana como objecto de uma descrição; esta enfoque marcou profundamente a psicologia e a psicopatologia. Karl Jaspers é um dos primeiros a introduzir a dimensão fenomenologica em psicopatologia (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Karl Jaspers desenvolveu uma abordagem descritiva da fenomenologia; o seu método consistia em descrever as vivências psíquicas conscientes dos doentes mentais, classificar esses estados entre si e compara-los com as vivências psíquicas do homem normal (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Os fenomenologistas têm como referencia essencialmente Ludwig Biswanger, que pensa que é preciso ampliar a compreensão do doente tal como ele se encontra, mais do que compreende-lo a partir das teorias pré estabelecidas, que pertencem ao terapeuta e não ao doente; ele propõe uma análise que se baseia mais na relação e na experiência vivencial (CHAMOND, 2011, pp. 3-7).

A abordagem fenomenologica não propõe qualquer técnica psicoterapeutica particular, mas insiste na noção de comunicação, a partir de uma comunicação e uma relação verdadeira entre o clínico e o seu paciente. O ênfase está na relação terapêutica, que é considerada como uma relação inter-humana, portanto uma possibilidade de encontro, um face-a-face e uma troca com o outro. Não está baseado em regras técnicas, mas, uma reflexão teórica sobre a noção de psicoterapia e uma reflexão sobre a prática da entrevista, insistindo na experiência comunicativa entre os dois interlocutores (LESSA &  SÁ, 2006, pp. 393-397).

2.3.2 Abordagem humanista: Carl Rogers

As percepções de C. Rogers tiveram grande influência no que diz respeito à psicoterapia. Elas integram uma abordagem humanista bastante próxima do ponto de vista fenomenologico, assumindo uma posição face às teorias psicanalítica e behavioristas, a partir do interesse pela nosografia e pela estrutura da personalidade.

Conforme Rogers, em todo o ser humano existem potencialidades que podem ser desenvolvidas numa relação interpessoal, a partir da aceitação, compreensão empática, e, não diretividade, por meio de uma relação interpessoal e construtiva.

O processo terapêutico, segundo C. Rogers, envolve uma libertação dos sentimentos a partir da experiência vivencial e a percepção disto durante a terapia, para que o indivíduo tenha como modificar sua prática de atitudes e assim, desenvolver congruência consigo próprio (AMATUZZI, & CARPES, 2010, pp. 11-25).

2.3.3 Abordagem Sistêmica

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

2.3.4 Abordagem Cognitiva e Comportamental

A abordagem cognitiva e comportamental representa um conjunto de técnicas baseadas nas teorias da aprendizagem e nos contributos da psicopatologia cognitiva. Todas elas têm em comum um certo número de características: O estabelecimento de um contrato entre o paciente e o terapeuta; A definição clara e precisa dos objectivos terapêuticos, com uma definição das condutas que vão ser alvo das tentativas de mudança; A duração do tratamento, que é geralmente bastante breve, de três a seis meses; A medida quantitativa e qualitativa da mudança obtida.

Têm por objetivo suprimir o comportamento inapropriado para o substituir por um comportamento adaptado, segundo as leis do condicionamento. Por exemplo, a técnica da dessensibilização, utilizada para tratar as fobias (BAHLS; & NAVOLAR, 2004, pp.1-11).

A Psicologia é uma área muito ampla e as abordagens são diferentes entre si. Elas diferem em filosofia, objeto de estudo, teoria, linguagem, formas de pesquisa, dados científicos e práticas de intervenção. Todas essas características resultam em perspectivas muito particulares de como perceber o homem e como lidar com ele profissionalmente, e resultam em certas expectativas de postura do psicólogo, portanto, é necessário cuidado ao escolher a abordagem mais adequada.

3 Psicologia & Religião: Caminho terapêutico para o dependente químico?

Uma das características do processo terapêutico está relacionada ao valor e lugar que o do processo catártico em meio ao tratamento escolhido. Pode-se dizer que catarse é um processo de liberação de angústias e emoções reprimidas, ou de algum modo contidas, que, a partir de certo ponto podem causar distúrbios psicológicos (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O termo Catarse surge com Aristóteles. Por meio da ação poética, o palco tornava-se lugar de liberação das expressões emocionais por meio do drama e da tragédia. Posteriormente a ação catártica de purificação das emoções passa a ser vivenciada também pelo expectador (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Após o estabelecimento do processo catártico, por anos, esta ação foi vivenciada como ritual de purificação de espíritos malignos e/ou influências negativas externas sobre a vida das pessoas, por meio de ações como exorcismos, hipnose e semelhantes (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O processo foi utilizado a partir de diferentes perspectivas, passando por Freud, Diderot, Lessing, Goethe, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Em cada perspectiva a catarse ganhou um nome diferente como: análise do caráter, Gestalt-terapia, terapia primal, analise bioenergética, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

De modo geral pode-se dizer que a catarse atua claramente em três perspectivas humanas: médica, moral e religiosa (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

No que diz respeito ao aspecto médico, a catarse pode ser compreendida como ação homeopática de purificação do corpo (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A perspectiva moral entende que, ao purgar as malignidades por meio da catarse, a conduta do indivíduo seria equilibrada e não haveria riscos de ações imorais / malignas (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A ênfase religiosa da catarse aparece desde o teatro grego, onde a tragédia era compreendida como excitação religiosa e êxtase báquico. É possível citar também a influência hebréia no que diz respeito às experiências de sofrimento de personagens bíblicos como Ana (1 Sam 1:12-16), que não podia ter filhos e por isso, chorava e sofria diante de Iahwe. A oração sofrida acompanhada por movimentos de lábios que lembravam embriaguês, tiveram como resultado, a resposta do clamor, alívio e cura da alma. Além disso, Inácio de Loyola afirmou que a prática da glossolália (dom de línguas) resulta em paz e crescimento (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

Ainda hoje é possível perceber que, algumas linhas de orientação religiosa são desenvolvidas a partir de processos terapêuticos, que promovem reações com caráter catártico, especialmente em comunidades terapêuticas para recuperação de dependentes químicos (em maioria, apresentam fundação religiosa). Diante disto, torna-se imprescindível a observação da prática terapêutica psicológica, paralela ao sistema de orientação religioso que ocorre em meio à essas comunidades.

É fácil perceber a importância da relação de ajuda, desenvolvida por meio do aconselhamento, ante a necessidade humana de apoio e orientação em situações de crise e conflitos de modo geral.

O aconselhamento psicológico é um trabalho realizado por meio de encontros regulares e de caráter profissional, entre um cliente e um psicoterapeuta, com vistas a proporcionar suporte para que o indivíduo ultrapasse dificuldades relacionais ou pessoais. A compreensão de uma situação em particular, pode levar o indivíduo a aceitação ou a mudança de conduta,  de modo que, a pessoa tenha suas questões internas resolvidas (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.207).

 O aconselhamento religioso é um processo de mediação, realizado por um conselheiro, que neste caso, exerce a função de terapeuta, no sentido do grego antigo, que tem a conotação de cuidar, servir, tratar e também render culto. Ou seja, o terapeuta não é responsável pela cura, mas, é quem facilita o encontro entre àquele que cura e o necessitado, seja por meio de orações, de orientações, de imposição de limites ou simplesmente pelo direcionamento, para que o necessitado caminhe em direção àquele que tem o poder de curar (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.208).

Algumas linhas de aconselhamento relacionam, propositalmente ou não, a bíblia ou princípios morais do cristianismo, com linhas psicológicas específicas, como apresentaremos adiante.

3.1 Psicanálise & Cura do Passado

A psicanálise é uma metodologia desenvolvida por Freud, que considera como essencial, compreender o inconsciente do indivíduo e integrá-lo ao consciente, por meio da interpretação das ações e palavras, bem como de produções imaginárias, sonhos, delírios, associações livres e atos falhos (BOCK, 1999, p.70).

Esta interpretação visa promover um equilíbrio que auxilie no ajuste da conduta humana, de modo que seja possível a eliminação do mal-estar e do sofrimento. A idéia central é de que o autoconhecimento desenvolve a capacidade de lidar com as adversidades e superar as dificuldades (CATALDO NETO; GAUER e; FURTADO, 2003, p. 776).

Desse modo, é possível adquirir autonomia, por meio de uma capacidade criativa de cada indivíduo, grupo e instituição, por meio de um processo onde seja possível desfazer calmamente as barreiras do paciente (BOCK, 1999, p.80).

O princípio da desmontagem das resistências do inconsciente, está relacionado ao fato de que Freud considera que experimentamos a ansiedade já no primeiro momento da vida humana e a causa desta angústia é o parto (MEZAN, 2006, p. 527). Portanto, todo o passado do indivíduo, mesmo as coisas que de modo natural não são lembradas, como a sensação do nascimento, são importantes no trato das doenças desenvolvidas por meios de traumas.

A cura do passado é uma metodologia cristã, que afirma a cura por meio de uma volta ou de um relembrar o passado. É conhecida também como cura interior, cura das memórias, cura da árvore genealógica (SEAMANDS, 2007, p.12) dentre outros.

A metodologia foi desenvolvida por um psicanalista austríaco, Otto Rank, discípulo direto de Freud, que se aproxima da psicanálise ainda na adolescência, após a separação de seus pais (HURDING, 1995, p.411).

O trabalho tem como base a terapia desenvolvida durante a imaginação pela fé e o aconselhamento desenvolvido por meio da oração (SHLEMON, 1986, p.12), que visa conduzir o  indivíduo de modo consciente, à uma situação de crise do passado, e, por meio da conscientização da presença de Jesus – enquanto Deus atemporal – no momento em questão (HURDING, 1995, p.416), curar feridas e suas consequências na vida prática da pessoa que se dispõe a ser acompanhada.

A ênfase da cura interior ganha maior repercussão a partir dos estudos de alguns nomes como Anne White, Francis MacNutt e Ruth Stapleton, sendo que esta, afirma a cura interior como ação de restauração das emoções por meio das orientações do Espírito Santo (HURDING, 1995, p.416).

A partir da década de 1960, influenciado pela metodologia da cura interior, Frank Lake, médico missionário com treinamento em psiquiatria, desenvolve o que posteriormente ganha o nome de Teologia Clínica (EVANS, 2002, p.186).

O trabalho considera o princípio freudiano do trauma no nascimento e por isso, Lake utiliza teorias “reichianas e bioenergéticas de respiração profunda” (HURDING, 1995, p.420) para conduzir o indivíduo a reviver a experiência do nascimento e outras experiências traumáticas, na tentativa de resolver os problemas adquiridos durante a gestação e parto.

Lake, afirma que os sentimentos da mãe, sejam bons ou ruins, são transmitidos à criança durante a gravidez e a angústia da separação do bebê com a mãe por meio do parto, é relacionada a angústia gerada pela separação de Cristo com o Pai no Getsêmani e Gólgota.

Nesta pesrpectiva, pode-se entender que, a cura acontece por meio da realização do ego, mas, não o ego como compreendido por Freud, o ego do indivíduo, e sim, um tipo de ego ideal, que é gerado por meio da realização em Cristo, ou seja, o desenvolvimento de uma nova pessoa ou personalidade, ante ao convívio e comunhão com Deus (HURDING, 1995, pp.426,427).

Relação entre Psicanálise e Cura do Passado

Percebemos de modo claro a influência da psicanálise no desenvolvimento da cura do passado, a partir de um ponto específico: o fundador da teoria de cura do passado é de formação psicanalítica.

Diante disso, fica mais fácil identificar a semelhança na compreensão do ser humano enquanto indivíduo fragilizado desde o nascimento e necessitado de apoio para o autoconhecimento, para que este conhecimento auxilie no desenvolvimento do ego – seja o ego freudiano ou o ego ideal de Lake – e a partir disso, o indivíduo seja capaz de constituir forças para superar as adversidades e frustrações, sejam essas forças do próprio indivíduo ou da presença de Deus neste.

Ambas as linhas de orientação, conduzem o indivíduo a olhar para dentro de si, com dois objetivos: compreender a si mesmo, e buscar forças internas para continuar vivendo.

3.2 Logoterapia & Aconselhamento Pastoral

A logoterapia, desenvolvida por Viktor E. Frankl, é a terceira escola de psicoterapia de Viena, também conhecida como Psicologia do sentido da vida, devido a experiência de Frankl no campo de concentração, onde compreendeu o sentido do sofrimento (EINSFELD, 2000, p.18).

A logoterapia pode ser compreendida em três categorias de valores: criadores, vivenciais e de atitudes. Os valores criadores são referentes a capacidade criativa nas questões intelectuais, artísticas, de trabalho, enfim, de toda a liberdade de ação humana; os valores vivenciais são adquiridos por meio das experiências afetivas, seja por meio do desenvolvimento das relações familiares, seja pela contemplação da natureza, de observação da arte e cultura ou mesmo, pelas vivências místicas; e por fim, os valores de atitude, caracterizados pelo posicionamento adequado ante os sofrimentos inevitáveis e a condição ou capacidade de sofrer (LUNA, 2005, p.26).

Einsfeld afirma ainda que, Frankl descobriu a liberdade de observar a vida – mesmo que em condições precárias – e conseguir encontrar um sentido, que não depende da realização pessoal, mas, da maneira como a pessoa se coloca diante da situação vivenciada. Esse sentido surge quando a pessoa transforma o sofrimento em conquista, quando a culpa é transformada em oportunidade de mudança, ou quando a transitoriedade da vida auxilia no desenvolvimento de ações responsáveis (EINSFELD, 2000, p.21.).

Segundo Clinebell, o aconselhamento pastoral considera três aspectos essenciais com vistas ao crescimento: luta, morte e renascimento. O trabalho de orientação pastoral é desenvolvido a partir de uma compreensão particular da vida cristã, ao entender que esta não é apenas uma maneira de crer, mas, uma maneira de vivenciar ou experienciar todas as coisas, logo, tem como objetivo, modificar a motivação do comportamento e não apenas da crença humana. E isto, ante a experiência de luta, morte e renascimento de Cristo (CLINEBELL, 1987, p.56).

Clinebell afirma que as pessoas devem encontrar sentido para a vida, em todas as suas circunstâncias, tendo no sofrimento, o crescimento, seja humano, seja espiritual. Isto, porque, o ser humano é tido como carente de sustento, apoio e cuidado.

Essa carência gera crise no indivíduo que, torna-se perdido em si mesmo, de modo que passa a ter necessidade de apoio externo, de uma relação de ajuda, de alguém que auxilie no processo poimênico de cura da alma, por meio do apoio na compreensão do propósito da vida e de suas crises fundamentais, que estão diretamente relacionadas às percepções de “pecado e salvação, alienação e reconciliação, culpa e perdão, juizo e graça, morte e renascimento espiritual” (CLINEBELL, 1987, p. 47).

Relação entre a Logoterapia e o Aconselhamento Pastoral

Ambas as estruturas consideram como base de trabalho o sentido da vida e tratam disto em três perspectivas. Enquanto a logoterapia considera os valores criadores, vivenciais e de atitudes, como fundamentais para o desenvolvimento da capacidade do indivíduo de suportar o sofrimento, o aconselhamento pastoral aponta a luta, morte e renascimento como princípios de fé que devem não apenas nortear a vida mas, dar sentido a ela.

Outra característica está associada a ideia de realização pessoal como processo logoterapêutico, motivador para a continuidade da vida, e o propósito de vida apresentado pelo aconselhamento pastoral, como suporte e estímulo da esperança ante o sofrimento.

Ambas as orientações consideram as vivências como determinantes, ou seja, as vivências podem favorecer para o desânimo e enfraquecimento, ou para o fortalecimento e esperança, dependendo de como o indivíduo se posiciona.

3.3 Behaviorismo & Aconselhamento Bíblico

O behaviorismo  também conhecido como  comportamentalismo ou análise do comporta-

mento, considera uma espécie de ação e reação. O organismo responde a um estímulo, ante a ajustes ambientais ou por hábitos desenvolvidos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, p.45).

Duas situações são utilizadas na análise, o comportamento respondente e o comportamento operante. O comportamento respondente é composto pelos atos involuntários, por estímulos antecedentes ao ambiente, como salivação ou contração das pupilas. Já o comportamento operante é tudo aquilo que o indivíduo escolhe fazer, tudo o que a pessoa pode realizar para influenciar ou afetar o meio em que está envolvido (SKINNER, 2006, p.59).

   Em síntese, podemos dizer que, o comportamento respondente ocorre quando o indivíduo sofre um estímulo, enquanto o comportamento operante acontece quando o indivíduo produz o estímulo.

Além disso, considera-se o reforço, o controle de estímulos, extinção, punição, discriminação e generalização, como ferramentas de identificação, orientação e avaliação de casos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, pp. 50-54), sendo cada categoria compreendida da seguinte forma:

  • Reforço é tudo o que pode modificar uma ação futura, seja positiva ou negativamente;
  • Controle de estímulos é relacionado aos controles como placas de trânsito ou sinais indicativos, que delimitam os espaços e orientam ações de modo objetivo;
  • Extinção é o mecanismo que capacita a redução de determinada ação até a completa extinção da mesma;
  • Punição, leva a redução temporária de certo comportamento;
  • Discriminação, auxilia na modificação de comportamento de acordo com o ambiente;
  • Generalização, dificulta as reações ante a estímulos semelhantes.

O aconselhamento bíblico é o método utilizado por Jay Adams, para confrontar pessoas por meio de textos bíblicos, com a intenção de promover mudanças comportamentais, na tentativa de ajustar o indivíduo à uma conduta considerada biblicamente adequada ou justa (ADAMS, 1999, pp. 58-59).

A metodologia é diretiva, com a intensão de moldar os padrões de comportamento, invertendo ações tidas como pecaminosas, em atitudes justas e positivas, tendo como estímulos, os exemplos dos personagens e as situações apresentadas nas histórias bíblicas (CRABB, 2000, pp. 80,81).

Os limites estabelecidos estão relacionados à questões éticas de uma cultura específica, e portanto, limita as possibilidades de discriminação ou generalização em situações sociofamiliares, de modo que esse limite pode gerar punição e em alguns casos, extinção de comportamentos.

Relação entre Behaviorismo e Aconselhamento Bíblico

O behaviorismoe oaconselhamento bíblico seguem padrões indutivos para influenciar ou mesmo determinar comportamentos. E tem como ferramentas básicas: reforço, controle de estímulos, extinção, punição, discriminação, e generalização.

O diferencial consiste na base de direcionamento. Enquanto o aconselhamento bíblico tem como determinantes os escritos, a moral e a tradição cristã, o behaviorismo trabalha a partir das extruturas individuais de cultura.

Ambas as perspectivas não se orientam a partir da capacidade individual de construção ou elaboração de superação, mas, conduzem o aconselhando à uma decisão e uma ação específica e padronizada.

3.4 Pessoalismo (ACP) & Aconselhamento Cristão

O pessoalismo ou terapia centrada na pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, considera que o indivíduo tem em si uma tendência atualizante, ou seja, uma capacidade natural de se curar ou de se ajustar às mais diferentes situações, de modo a aprimorar o self. A importância deste aprimoramento se deve ao fato de que o self é tido como a essência da personalidade humana, de modo que, o autodiscernimento apresenta-se como chave para o desenvolvimento do indivíduo (SCHULTZ, 2002, pp.316-317).

Na perspectiva do pessoalismo, pessoas psicologicamente saudáveis percebem a si mesmas, então, não se sentem ameaçadas em seu autoconceito. Isto ocorre com aqueles que receberam considerações positivas e portanto, não sentem necessidade de “internalizar condições de merecimento” (SCHULTZ, 2002, p.321) para realizar o self e adquirir pleno funcionamento. Este fato indica também que o indivíduo não apresenta incongruência, que seria a dificuldade de perceber e vivenciar o verdadeiro self.

O trabalho de Rogers é auxiliar o cliente, através do aconselhamento centrado na pessoa e não no problema. A intenção é de desenvolver empatia em meio ao processo de acolhimento, criando uma identificação com o indivíduo, o que facilita para que o mesmo se compreenda e permita o processo natural de atualização do self, gradativamente, em meio ao processo terapêutico. Assim, o indivíduo adquire maior facilidade de se aceitar e a partir disso, gerar condições de enfrentar as dificuldades do mundo experiencial (MORATO, 1999, p.109).

O aconselhamento cristão, segundo Collins (2004, p.45-46), tem como objetivo gerar:

  • Autoconhecimento, porque compreende a necessidade do indivíduo de se entender,  para posteriormente alcançar cura;
  • Comunicação, porque reconhece a necessidade de expor os sentimentos, pensamentos e emoções de modo preciso;
  • Aprendizado e mudança de comportamento, pois entende que as pessoas agem de acordo com aquilo que aprenderam;
  • Auto-realização, devido à necessidade humana de desenvolver o próprio potencial;
  • Apoio, que é ferramenta facilitadora ante as dificuldades decorrentes no processo de realização pessoal; e
  • Integridade espiritual, por reconhecer a influência da dimensão espiritual em relação aos problemas humanos.

A idéia principal é de que o conselheiro deve: saber dar at

enção; desenvolver habilidades de bom ouvinte; responder objetivamente àquilo que foi ouvido comprovando o comprometimento com a pessoa; saber como conduzir, comentar, perguntar, confrontar, informar e interpretar a fala do aconselhando, de modo que o mesmo possa aprender durante o processo de aconselhamento (COLLINS, 2004, p.48-51).

Relação entre Pessoalismo e Aconselhamento Cristão

O pessoalismo está alicerçado na construção e manutenção do self, ou seja, da característica individual que torna uma pessoa única. A idéia é de personalidade e de capacidade criativa, bem como de idiossincrasia e que precisa, na perspectiva rogeriana, ser reconhecida, aceita e desenvolvida, para que o indivíduo alcance cura e qualidade de vida em todas as perspectivas.

O aconselhamento cristão segue o padrão de autoconhecimento como base para o reconhecimento da dimensão espiritual e da necessidade da mesma para a constituição humana saudável.

 O conhecimento de si, de todas as mazelas e qualidades individuais formam a esfera de atuação destas linhas de aconselhamento, que consideram a liberdade e capacidade humana de decisão, como essenciais para o processo de formação, cura e saúde, mental e espiritual do ser humano.

Relação geral entre os processos

De modo geral, o acompanhamento religioso se apresenta como aconselhamento pastoral, porque tem como princípio a comunicação da palavra de Deus. Assim, difere-se de perspectivas como a psicanálise ou qualquer outra linha psicológica. No entanto, tem como objetivo, ajudar as pessoas a ajustarem-se melhor consigo mesmas e seus ambientes. E essa ajuda pode ocorrer individualmente, em família, ou em grupos afins, com ambiente estruturado, e programas de autoconhecimento, com vistas a superação de crises (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, pp.208,209).

Esta característica de atuação com ambientes estruturados e trabalhos individuais, familiares ou em grupos, também são adotadas nas orientações psicológicas, com objetivo de fundamentar as relações e constituir, indivíduo e sociedade.

Como se pode perceber é possível realizar o processo terapêutico de diversas maneiras, inclusive, em parceria com estruturas eclesiásticas. Para maior esclarecimento sobre a atuação do terapeuta que trabalha em comunidades terapêuticas confessionais, é importante que se fale mais detalhadamente, ao menos sobre uma, dentre as perspectivas citadas. O trabalho humanista, de Carl Rogers, apresenta duas especificidades que favorecem o acompanhamento ao dependente internado em uma instituição religiosa: 1) ênfase na valorização de Si, dificuldade característica do dependente, citada e explicada no capítulo primeiro deste trabalho; e 2) facilidade de aplicação das técnicas da ACP, devido ao fato de que a abordagem partilha de princípios estruturais semelhantes a características da ética cristã, em aspectos  gerais.

3.5 Abordagem centrada na pessoa ou pessoalismo cristão?

A abordagem centrada na pessoa é uma teoria sustentada pela compreensão de Carl Rogers de que as pessoas têm em si mesmas, a capacidade de resolverem seus conflitos internos, desde que consigam uma oportunidade e um ambiente adequado para isso. Rogers afirma que existe uma tendência, chamada de atualizante, que move o indivíduo em direção ao desenvolvimento de suas potencialidades, em busca da própria conservação e/ou enriquecimento. (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Segundo Rogers, essa tendência atualizante é uma característica humana semelhante a princípios fundamentais das plantas e dos animais, no que diz respeito à constituição biológica, de maneira que, a capacidade de crescimento e desenvolvimento permanece inerente no ser e, portanto, sempre que o ambiente e as condições favoráveis existirem, essa capacidade entrará em funcionamento (MOREIRA, 2007, p.53).

A compreensão de Rogers se relaciona à visão cristã, no sentido de entender a existência humana, como parte da criação. Entender o indivíduo como um ser que compartilha das características de surgimento, manutenção e sustento vital, a partir de uma questão interna (no caso, a presença do Espírito de Deus no homem) que favorece a cura, crescimento, ajustamento, etc. desde que não haja empecilhos externos.

Por isso, o conselheiro deve favorecer para que o cliente alcance a condição de se aceitar, de expressar seus sentimentos e atitudes, identificando diferenças individuais, sem, no entanto, comparar-se a outros. É necessário que o terapeuta desenvolva uma compreensão empática, ou seja, não apenas ouvir, mas, tentar perceber as reações do cliente ante a cada situação compartilhada e transmitir essa percepção ao indivíduo (ROGERS, 1983a, p.33).

Rogers afirma que a importância da empatia no processo de aconselhamento, deve-se ao fato de que as pessoas conseguem apresentar maior consideração por si, quando percebem que outros a aceitam e a compreendem (ROGERS, 1983a, p.39). A compreensão empática reflete as informações apresentadas pelo cliente a ele mesmo. Esse reflexo proporciona o autoconhecimento e por consequência, ajuste vivencial (HIPÓLITO, 2010, p.44).

Em outras palavras, podemos dizer que, a função do conselheiro é de agir como um espelho no qual o cliente deve enxergar a si e suas vivências, de modo mais objetivo. A partir desta compreensão, o indivíduo torna-se capaz de assumir seus problemas de forma mais adequada e responsável, porque se sente em uma situação segura para caminhar em direção à maturidade e se libertar das dificuldades (ROGERS, 2000, p.11-19).

Este aspecto também pode ser percebido em algumas ações de Jesus, que, considerava o indivíduo com todas as suas mazelas, independente do que a sociedade da época considerava pecado ou erro. A aceitação de Cristo para com os outros era incondicional e isso proporcionava confiança na relação estabelecida, de modo que as pessoas sentiam-se livres para falar de suas dores e dificuldades. Sentiam-se acolhidas e consequentemente, curadas.

Schultz afirma que, para Rogers, os processos avaliativos da psicologia tornam o paciente dependente, porque cria uma atmosfera de autoridade em torno do terapeuta. E, a partir do momento em que o terapeuta toma conhecimento dos problemas do cliente, o paciente age como se não fosse mais necessário se preocupar com o problema, pois, o alvo agora é seguir a orientação do especialista com a certeza de que tudo será resolvido (SCHULTZ, 2002, p.325).

Por isso, o princípio de Rogers está sustentado na premissa de não contar com uma estrutura teórica determinada, a partir da qual o problema do cliente seria enquadrado, para o desenvolvimento de algum mecanismo de ajuda. O importante é entender e aceitar o valor da pessoa. Logo, o terapeuta não deve expressar julgamentos nem dar conselhos, apenas concentrar-se no cliente, para que este consiga se perceber no terapeuta, de modo a reavaliar suas relações e possivelmente mudar de comportamento (SCHULTZ, 2002, p.325).

O terapeuta atua como facilitador. A sensação de segurança produzida pela empatia do conselheiro será suporte para que o cliente encontre em si mesmo as condições de superação para os problemas (SCHEEFFER, 1976, p.26).

Rogers abre mão de qualquer tipologia de personalidade ou de conceitos psicológicos específicos sobre o ser. Mas, tinha como objetivo, esclarecer o que é e como se estrutura uma relação psicológica que colabore para que o cliente alcance uma visão adequada de si mesmo, para que este consiga progredir a partir de sua própria compreensão (ROGERS, 1987, p.14).

A personalidade, conforme Rogers é o resultado de experiências vivenciadas pelo indivíduo, sendo que a pessoa é o centro dos eventos e consequentemente, influencia e recebe influências destes.  Logo, estes eventos tornam-se concretos para aqueles que o vivenciam (ROGERS, 1961, p.23).

Porém, a construção deste ser, ou como Rogers afirma, a construção deste Si-Mesmo, não é apenas uma percepção de si, mas, uma relação entre a vivência e compreensão, ou a vivência a partir da compreensão (ROGERS & WOOD, 1978, p.197).

De modo semelhante, a visão geral do cristianismo considera que não se deve preocupar com a personalidade, como se fosse algo imutável, pois, a vivência proporciona mudança de conduta. Assim como o apóstolo Pedro, tornou-se grande homem de fé, a partir dos percalços da negação trina de Jesus e da aceitação que recebeu de Cristo ainda na cruz. Cada indivíduo é considerado único e necessitado de um processo distinto de apoio.

Assim, depois da compreensão da aplicabilidade do método de Rogers junto à instituições confessionais, é preciso pensar as duas vertentes de atuação do terapeuta. Dependente químico e familiares (co-dependentes).

3.5.1 Aconselhamento centrado no dependente químico

Podemos dizer que a empatia (ROGERS, 1983a, p.33), enquanto ferramenta do aconselhamento centrado na pessoa pode proporcionar ao indivíduo dependente químico, a segurança necessária para aceitar o mundo real como real (GIDDENS apud Bessa, 2005, p.44), porém, não a partir das relações humanas, mas, a partir da tendência atualizante, ou seja, a partir de si mesmo (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Ao considerar a capacidade humana de crescimento e enriquecimento intrínseca, desde que se encontre o ambiente favorável (MOREIRA, 2007, p.53), é possível que o dependente consiga a partir do aconselhamento, tudo o que precisa para se estruturar e crescer, sem precisar esperar bons referenciais externos (SCHMIDT, 1976, p.25).

A partir do conhecimento pleno, desenvolvido por meio da ação reflexa do terapeuta, a pessoa dependente pode alcançar a condição de mudança e de reestruturação de vida (HIPÓLITO, 2010, p.44), de modo que não mais aguarda por referenciais, mas, torna-se referencial (ROUANET, 1987, p. 233).

Este conhecimento pleno proporciona também a diminuição da curiosidade (LIBÂNIO, 2004, p. 159), pois a mesma é sensação relacionada ao desconhecido. Portanto, o autoconhecimento promove a prevenção do uso de drogas, no que diz respeito à pessoa que ainda não utiliza, e redução de recaídas para os que estão diminuindo o uso.

Se a condição de dependência pode ser desenvolvida por diversos fatores como insatisfação com a vida, personalidade fraca, necessidade de prazer inerente ao ser humano e influências da modernidade (CARMO, 200, p.143), é imprescindível que seja desenvolvido um acompanhamento centrado na pessoa dependente e não nos problemas decorrentes da utilização de drogas, para que o dependente não redirecione a dependência de drogas para uma dependência do terapeuta (SCHULTZ, 2002, p.325).

3.5.2 Terapia familiar

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

Considerações Finais

Durante o desenvolvimento desse trabalho ficou evidente a complexidade das situações que envolvem o dependente químico, bem como as dificuldades encontradas para propiciar um tratamento que seja apropriado.

Tal compreensão fica cada vez mais imprecisa devido ao fato de que a modernidade, marcada por relações momentâneas e utilitárias, influencia diretamente na fragmentação de conceitos e estruturas sociais.

Essa despreocupação para com o próximo gera uma busca individual que sofre influências do coletivo, pois, enquanto ser social, o indivíduo participa se envolve e responde de modo relacional às estruturas sociais em que está inserido, logo, o pensamento vigente na modernidade faz parte da formação do caráter do indivíduo. Por isso, o ser humano não se preocupa em como buscar aquilo de que necessita, de modo que, se entender que é preciso, abre mão de limites, ética e moral, para alcançar seu desejo.

É a partir do rompimento com esses limites, que o indivíduo geralmente, encontra, conhece, experimenta e se entrega à droga. Desse modo, passa a ser dominado por estímulos e sensações produzidas pelas substâncias químicas utilizadas, e, gradativamente, perde qualidade de vida em todos os aspectos, conforme os efeitos da substância escolhida pelo usuário. Esse abandono de si pode conduzi-lo a uma posição indesejável, pois, em muitos casos o usuário, adquire má aparência, passa a ter cheiro desagradável, modifica a maneira de conversar, torna-se inconveniente, e, por fim, pode chegar ao rompimento com as leis, numa tentativa de manter seu vício.

Pode-se afirmar que um acompanhamento compromissado, individual e relacional, possibilita ao dependente químico a organização pessoal necessária para um desenvolvimento integralizado.

É perceptível que a característica da dependência química, enquanto situação que considera a sujeição do indivíduo a algo ou alguém, bem como a necessidade humana de apoio para a organização temporal, social e psicológica – que deve ser desenvolvida em si, mas, a partir do outro – pode ser trabalhada em um processo terapêutico que leva em conta as necessidades intrafamiliares, a partir da compreensão empática. Isto porque, o terapeuta facilita ao grupo familiar, a interpretação das diferentes vivências e das necessidades de cada um.

Em relação aos referenciais que podem influenciar o indivíduo, podemos afirmar que, o enriquecimento familiar proporcionado pela aceitação dos papeis familiares e do valor de cada pessoa, pode promover condições para que cada membro do grupo torne-se referencial um para o outro, e assim, não haja mais a necessidade de busca de referenciais, mas, a potencialidade de ser referencial.

A compreensão de que as dificuldades devem ser aceitas e trabalhadas pela família – mesmo que num primeiro momento uma única pessoa busque o terapeuta e, posteriormente, o grupo se permita ser auxiliado – funciona como ferramenta de apoio contra a ideia de buscar soluções rápidas para os problemas em comprimidos ou ações emergenciais – ação esta que funciona como fator de risco para o desenvolvimento da dependência e codependência química.

A aplicação do MINI utilizada neste trabalho contribui para que os esforços no sentido de auxilio do tratamento dos dependentes tenham uma base mais concreta, a partir de interpretações gráficas sobre a direção e velocidade com que a dependência química está se desenvolvendo no país.

Além disso, o resultado da aplicação do MINI confirma argumentos apresentados por pesquisadores da área, sobre as características dos usuários e suas relações sócio familiares e isso confirma a necessidade de um apoio terapêutico familiar e não individual. A atenção voltada para com a família possibilita que o grupo desenvolva um ambiente equilibrado entre as múltiplas relações intrafamiliares e diminui o risco de que algum dos integrantes do grupo torne-se dependente químico ou mantenha-se em uso de substâncias químicas, como tentativa de refugiar-se de atritos e colusões.

Assim, a avaliação do genograma e a observância de possíveis farmacologias utilizadas em meio ao processo terapêutico devem ser observadas com cuidado, para que o terapeuta não deixe de perceber o quanto as identificações de família, realizadas por meio do genograma, ou os efeitos dos medicamentos, que por ventura o dependente esteja utilizando, interfiram nas ações do aconselhando, seja positivamente ou negativamente, de modo a afetar as intervenções do terapeuta.

É possível perceber o quanto os instrumentos de avaliação psicológica podem ser úteis para o desenvolvimento de uma intervenção eficaz, a partir da visão mais adequada do problema característico do indivíduo, grupo ou patologia específica.

Mas é importante lembrar que, para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta à compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É imprescindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E assim construir suas observações, ponderações e considerações, de modo mais neutro possível.

Assim, é possível perceber a presença de comorbidades psiquiátricas associadas à dependência de substâncias psicoativas e identificar a frequência em que ocorrem, bem como alguns dos sintomas que aparecem associados de forma especial a estas patologias, como sintomas de ansiedade e depressão.

A presença de transtornos psiquiátricos torna-se um dos fatores que compromete efeito do tratamento com pacientes dependentes químicos. Por isso, o diagnóstico apropriado desses transtornos associados pode proporcionar intervenções terapêuticas mais adequadas na interrupção da conduta de consumo de substâncias, amortecendo a ocorrência de recaídas e proporcionando melhora no funcionamento social e familiar.

Em relação às perspectivas religiosas que atuam como ferramenta de ajuda, notamos que alguns casos, a ligação entre as linhas religiosas e psicológicas de orientação ficam evidentes – como no caso da psicanálise e da cura do passado, onde se percebe a influência da psicanálise na vida do fundador da cura do passado. Em outros, essa ligação não fica tão clara, porém, pode ser percebido ante a semelhança no desenvolvimento de técnicas e mesmo na maneira como compreende o problema e pessoa ou cliente, como no caso do pessoalismo e o aconselhamento cristão.

A semelhança ocorre até mesmo no sentido em que a orientação é desenvolvida, ou seja, diretiva ou não, como no caso do behaviorismo e do aconselhamento bíblico, ambos diretivos, determinantes.

Diante disso, podemos afirmar que as linhas de aconselhamento e orientação relacionadas, podem ser apresentadas como estruturas ou processos da relação de ajuda, que, independente de serem psicologias, ou simplesmente terem influências psicológicas, atuam em direção à necessidade humana de apoio e orientação.

Pode-se dizer que a abordagem centrada na pessoa é uma ferramenta particularmente adequada para o cuidado com o dependente químico, porque considera a questão de maior significado para o indivíduo fragilizado e suscetível ao abuso do uso de drogas: a autoestima construída a partir do autoconhecimento, proporcionado pela compreensão empática do terapeuta.

A postura desenvolvida por Rogers, para auxiliar o ser humano em seu crescimento e enriquecimento, a partir das potencialidades intrínsecas, favorece para que o indivíduo se resolva sem necessitar de referenciais externos ou de condições sociais específicas, mas a partir daquilo que já existe dentro do ser e que, no caso do dependente químico, havia sido fragilizado ou momentaneamente impedido de se desenvolver.

Um diferencial desta abordagem está no fato de que, enquanto a mudança ocasionada por uma motivação externa pode ser revertida de acordo com futuras circunstâncias adversas, as alterações de comportamento, geradas por questões internas de auto compreensão, não ficam sujeitas as intempéries sociais ou crises de ordens familiares.

A segurança advinda dessa nova postura, além de proporcionar capacidade para superar adversidades, gera a motivação necessária para continuar se desenvolvendo e se enriquecendo por meio de novas compreensões, geradas a partir de novas vivências, formando um círculo eterno de compreensão e crescimento.

E esse movimento constante de vivência que leva à compreensão e compreensão que leva à vivência, forma uma estrutura de segurança para que o indivíduo não tenha necessidade futura de buscar refúgio em substâncias que produzem alívio passageiro das sensações sem, contudo, resolver o verdadeiro problema.

Logo, é perceptível que a abordagem centrada na pessoa realmente pode alcançar resultados extremamente positivos no acompanhamento para com dependentes e codependentes químicos, tornando-se um possível caminho de apoio. Seja unicamente pelos trilhos da psicologia, seja acompanhada pelo aconselhamento cristão.

Este trabalho pretende observar a estrutura da dependência química, a configuração da atuação psicológica de ajuda ao dependente químico, bem como a possibilidade da contribuição religiosa, junto a abordagens psicológicas de apoio e orientação ao dependente químico e codependentes. Para isso apresentamos as características da pessoa enquanto ser humano e suas fragilidades. Fazemos um breve comentário acerca da pessoa enquanto Ser Dependente e pontuações sobre o processo de desenvolvimento e instalação da dependência química. Realizamos pontuações sobre a dependência química no que diz respeito a características socioculturais e familiares, além de fatores de risco para o abuso do uso de substâncias químicas. Apresentamos um breve histórico do desenvolvimento e validade do instrumento de avaliação psicológica, MINI, e da entrevista psicológica, acompanhado pelos teóricos mais reconhecidos nesse processo, que auxiliam no diagnóstico e orientação do processo terapêutico. Além da apresentação de características e especificidades de algumas abordagens psicológicas. Devido ao fato do tratamento a dependentes químicos no Brasil (por meio de comunidades terapêuticas) apresentar quase sempre uma perspectiva religiosa, pontuou-se sobre algumas linhas de aconselhamento psicológico, relacionando-os com processos de orientação cristã, na intenção de reconhecer as semelhanças básicas destes processos de ajuda, por meio da apresentação de idéias mais conhecidas da psicanálise, do behaviorismo, da logoterapia e do pessoalismo (ACP), seguidas da apresentação das orientações cristãs de cura do passado, aconselhamento pastoral, aconselhamento bíblico e aconselhamento cristão. Após a breve apresentação de cada orientação relacionada, são realizadas considerações sobre algumas das semelhanças encontradas. Por fim, apresentamos um breve relato sobre o processo terapêutico centrado na família e a compreensão sistêmica do processo terapêutico, bem como seus aspectos e alvos mais conhecidos. E seguimos com considerações sobre a funcionalidade das perspectivas terapêuticas centradas na família, quando relacionadas especificamente no trato de famílias compostas por dependentes químicos.

Palavras chave: Psicologia, Religião, Dependência Química.

Introdução

A proposta deste trabalho é discutir aspectos relacionados à compreensão e estruturação do cuidado ao dependente químico. Pode-se afirmar que o problema referente a este cuidado está relacionado a uma questão básica: “A psicologia pode considerar a religião como contribuinte no processo de recuperação de dependentes químicos?” Acredita-se que a metodologia mais adequada para desenvolver essa análise é a comparação entre algumas das orientações religiosas e psicológicas mais reconhecidas, na tentativa de entender as semelhanças dos processos.

Esse questionamento ocorre devido ao fato de que a dependência química é uma realidade conflituosa da modernidade tardia [01], não apenas em grupos específicos, mas, em toda a sociedade, inclusive na igreja. Assim, por vezes, líderes religiosos acabam por intervir em meio ao processo de apoio a dependentes químicos, através de casas de recuperação mantidas por igrejas.

Por isso, é comum perceber alterações religiosas intensas em dependentes internados em comunidades terapêuticas. Essas alterações merecem atenção especial, porque, o dependente químico, em tratamento, apresenta dificuldades com a ansiedade, depressão, ondas de alegria ou tristeza repentina, sensibilidade às palavras, conflitos de interesses, insegurança, desconfiança, dentre outras situações concernentes, a transição de um mundo ilusório, gerado gradativamente pelas sensações produzidas por drogas a uma realidade de fatos e obstáculos que devem ser enfrentados e vencidos de maneira responsável, ética e racional. O indivíduo parece apresentar dificuldades em manter sua estabilidade em múltiplas situações adversas, ou diante de algum tipo de pressão com a qual não esteja acostumado e, como tentativa momentânea de aliviar a tensão, recorre a drogas que produzam bem estar ou alívio. Lidar com o dependente e ajudá-lo a resolver seus problemas de adequação e sentido para a vida não é tarefa fácil e percebe-se que muitas comunidades eclesiásticas não sabem como trabalhar com a dependência.

Essa pesquisa é justificada por um fato específico. Não é difícil perceber que em alguns grupos religiosos o dependente químico é visto como alguém possesso, que precisa apenas afirmar-se convertido à determinada religião para ser liberto do mal e em consequência ficar livre das drogas.

Muitos fazem esta declaração de fé enquanto experienciadores de um processo catártico em meio a um culto religioso. Essa catarse proporciona prazer e, quando o período de prazer passa e o indivíduo se depara com as dificuldades naturais, sem um acompanhamento ou apoio, ele volta ao uso das drogas com um agravante, a cobrança da comunidade religiosa. O usuário passa a ser visto como alguém que ainda não foi liberto e precisa de oração, ou como uma pessoa que despreza o poder de divino manifestado sobre ela, no entanto, essa maneira de perceber o usuário, não apenas é errada, mas, prejudicial ao verdadeiro processo de ajuda e crescimento que esta pessoa necessita.

Considerando os fatos citados, pode-se dizer que há uma necessidade de um trabalho contínuo, um acompanhamento que produza uma compreensão real da dependência química e das limitações próprias, bem como da busca por crescimento pessoal e autovalorização, identificando e tratando as especificidades humanas de relacionamentos.

São objetivos desse trabalho: pontuar sobre as principais causas para a dependência, identificar as características dos dependentes químicos, analisar os tipos, as reações e os prováveis níveis de dependência gerados por substâncias químicas e reiterar a necessidade de um acompanhamento psicológico que se interesse pelo aconselhamento qualitativo no trato do dependente químico juntamente com possíveis processos de ajuda religioso oriundos de ações psicológicas.

Na tentativa de alcançar o objetivo citado, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, acrescidas de consulta a documentos virtuais, além da utilização de um genograma organizado a partir da família de um dependente químico [02].

O trabalho é composto por um texto organizado em três capítulos, além da introdução e conclusão. Inicialmente são destacadas características acerca da dependência. Nota-se questões referentes às necessidades básicas do ser humano, quanto ao relacionamento com autoridade, busca de orientação e prazer como resposta à orientação, das quais o indivíduo é naturalmente dependente. Esses fatores podem estar relacionados à dinâmica de vida na modernidade, portanto, a mesma é apontada como um dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas. A atualidade é marcada por inconstâncias e múltiplas compreensões de certo ou errado, o que dificulta o estabelecimento de padrões, limites e valores socioculturais e espirituais, e isso gera no indivíduo uma situação de fragilidade e insegurança que o conduz à possibilidade de se tornar usuário de drogas e provável dependente químico.

No primeiro capítulo o dependente é apresentado como ser humano fragilizado em questões psicológicas, sociais, orgânicas e espirituais, fragilidade essa, que conduz a ações de fuga da realidade e de busca de sentido para viver. Nessa fuga da realidade ou busca de sentido, destaca-se a representatividade das drogas na vida do usuário. Contudo, os efeitos de diversas drogas contribuem para que esse indivíduo permaneça preso num círculo vicioso que gira em torno da ausência e busca de prazer e sentido para vida, de modo que essa fuga e/ou busca nunca terminam.

O segundo capítulo destaca as características da avaliação psicológica em meio à dependência química. Isto, a partir da apresentação do instrumento de avaliação MINI – que foi validado no Brasil e é largamente utilizado para mensurar gravidade e intensidade do abuso do uso de substâncias psicoativas – a partir de uma aplicação realizada por Silva. Além disso, a intervenção psicológica é apresenta por meio da informação sobre o processo da entrevista psicológica, acompanhado por orientações de possíveis problemas para a execução do procedimento e as diferenças do processo em psicoterapias breves.

Para concluir, foram trabalhadas diferentes abordagens psicológicas de acompanhamento, seguidas por comparações para com as perspectivas religiosas de orientação mais conhecidas, tendo em vista o aspecto terapêutico dos sistemas. O trabalho é fechado com a explanação mais detalhada sobre o procedimento psicológico humanista de Carl Rogers, denominado ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que considera todas as vivências – inclusive as vivências religiosas – como ferramenta essencial para o desenvolvimento do chamado empoderamento de si. Estado necessário para o crescimento e cura do indivíduo.

A relevância da pesquisa está relacionada às proporções alcançadas pelo abuso do uso de drogas, que reflete diretamente no desenvolvimento e manutenção da situação de dependência química do ser humano na atualidade, e, do aumento numérico desordenado de comunidades terapêuticas religiosas, que desenvolvem trabalhos variados, com resultados incertos; o que pode proporcionar uma situação agravante quanto à identificação adequada da expansão e controle da doença no Brasil.

1 Dependência Química

Ao considerarmos a modernidade como período marcado pela carência de referenciais, o que gera instabilidade, ausência de rumo e de princípios de autoridade para o indivíduo, podemos afirmar que o ser humano é afetado pelas características desse tempo histórico, tanto emocionalmente quanto na maneira de agir, compreender e valorizar as pessoas, situações e coisas (SAFRA, 2005, p.7).

Tal mudança no modo de agir se deve, segundo Frankl, ao vazio existencial que também é proveniente da atualidade e sua falta de referenciais (FRANKL, 1987, p.123). O que dá sentido a vida é entendê-la enquanto missão individual, ou seja, cada pessoa deve considerar que existe um sentido para a vida do indivíduo e não um sentido para a vida de modo geral (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

A busca de sentido específico para a vida do indivíduo o conduz a compreensão de um trabalho pessoal a ser executado, e este trabalho, tarefa ou missão, não apenas traz sentido a vida, mas serve de estímulo para que o ser humano vença as dificuldades advindas dessa tarefa (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

Frankl afirma ainda que, na busca pela conclusão dessa missão específica, o sofrimento é quase inevitável, mas, diante do sofrimento, o ser humano tem a oportunidade de se transformar naquilo que quiser, e que tem, em si, potencial para ser bom ou ruim, precisando apenas escolher no que quer se tornar. O indivíduo apresenta uma perspectiva de autoridade ou poder sobre si mesmo, que atua a partir de valores criadores, vivenciais, e de atitudes (FRANKL, 1987, p.149).

Os valores são criadores quando se referem a habilidades criativas, intelectuais ou artísticas, são vivenciais, porque dizem respeito à relação com a natureza, com o outro e com Deus, e os valores de atitudes, por sua vez, referem-se à decisão pela ação adequada ante um sofrimento que não se pode evitar (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20).

Além disso, percebe-se que o sofrimento apresenta um aspecto positivo referente à avaliação ou descoberta sobre o sentido da vida, pois, “a preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial” (FRANKL, 1987, p.120) e essa angústia conduz o indivíduo à busca de uma razão pela qual viver, ou seja, quem tem sentido para viver, encontra forças para suportar quase toda e qualquer situação ou adversidade, de modo que o ser humano é capaz de viver e até morrer por seus ideais e valores (FRANKL, 1987, p.117).

Notamos que, no sofrimento, o indivíduo tem também a oportunidade de descobrir ou confirmar sua missão específica e colocá-la em prática por meio de habilidades criativas, experiências de vida e atitudes decisivas (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20). Quando isso não ocorre, pode-se dizer que a pessoa desistiu de encontrar o sentido de sua vida, ou se deixou levar pelo racionalismo, cientificismo e ativismo moderno, que não oferecem tempo ou condições para que o ser humano trabalhe a partir do sentido de suas atividades (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p. 26-27).

Libânio amplia a posição de Frankl, quando afirma que só é possível encontrar sentido para vida inserido em um grupo ou contexto social que estabeleça condutas, mesmo que estas sejam questionadas, pois, limites estabelecidos norteiam decisões e auxiliam na formação de identidade biológica, familiar, afetiva e social (LIBÂNIO, 2004, p.22). Ou seja, é a partir do meio social que o indivíduo desenvolve e experimenta conflitos, e é nesse contexto que ele deve aprender a vencê-los.

Assim, podemos entender que o usuário de drogas vive uma situação de vazio existencial, que o induz à busca por um sentido de vida que lhe dê forças para suportar as adversidades.

Essa busca de sentido possibilita que o ser humano encontre e experimente substâncias químicas, que, inicialmente, respondem à busca desorientada por prazer e segurança, porém, posteriormente fragilizam-no emocionalmente, tornando-o mais suscetível à dependência química.

1.1 Pessoa enquanto SER dependente químico

Carmo afirma que alguns dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas, segundo a Organização Mundial de Saúde, são a falta de informação acerca dos efeitos das drogas, enfermidades gerais, insatisfação com a vida, personalidade fraca e fácil acesso às drogas (CARMO, 2000, p. 143).

A relação de dependência enquanto necessidade de prazer inerente ao ser humano, às influências da modernidade para o desenvolvimento da dependência química, devido à crise de identidade, de sentido e valores existenciais, e a ausência de informação ou educação adequadas acerca do uso, abuso e efeitos gerados pelas drogas, favorece a formação de um indivíduo propício ao uso indiscriminado de substâncias, das quais, muitas vezes, não tem controle. O uso dessas substâncias gera dificuldades no desenvolvimento das relações, além de danos fisiológicos no indivíduo.

Giddens afirma que, geralmente, as pessoas se tornam dependentes químicos, devido à ausência de um acompanhamento dentro de padrões de desenvolvimento natural do ser humano, em que um aprende com o outro a aceitar o mundo real como real e adquirir segurança a partir da confiança estabelecida nas primeiras relações humanas (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

Afirma ainda que, as pessoas sofrem influências do meio social em que estão inseridas, e essas influências refletem em suas questões relacionais, sejam no trato da segurança ou insegurança, submissão ou prepotência, satisfação ou insatisfação. E isso, porque a modernidade foge a este padrão de desenvolvimento recusando o relacionamento interpessoal, e, com isso produzem-se a exclusão e a marginalização (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

A marginalização deteriora a estrutura do ser humano, minimiza as possibilidades de que o indivíduo adquira bons referenciais, torna-o acessível ao conhecimento, administração e uso da droga e amplia a necessidade de busca de prazer devido à sensação de abandono causada pela marginalidade (SCHMIDT, 1976, p.25).

No que diz respeito ao ser humano enquanto necessitado de referenciais sociais, a atualidade apresenta duas características negativas: a carência de bons referenciais e o marketingda droga.

Sobre os referenciais, podemos afirmar que há uma desvalorização dos relacionamentos interpessoais e das preocupações com limites e ordem, além de um esforço em busca da liberdade e de relações convenientes e utilitaristas, logo, não há uma preocupação ou desejo no indivíduo de se tornar referencial ou exemplo para o outro, e sim, a expectativa de que esteoutro seja referencial para o indivíduo (ROUANET, 1987, p.233, 236).

Quanto ao marketing da droga, importa ressaltar que as propagandas, sejam a favor ou contra o uso indiscriminado de drogas, aumentam a curiosidade dos que veem e isto funciona como facilitador para que mais pessoas procurem experimentar drogas tornando-se possíveis dependentes químicos (LIBÂNIO, 2004, p.159).

Os indivíduos que se tornam usuários de drogas são, geralmente, pessoas que não conseguem administrar bem circunstâncias de conflito, pressão ou rejeição naturais no processo de ascensão e reconhecimento social. São pessoas que não têm ou não sabem como se manter diante dessas dificuldades e por isso, recorrem a substâncias que lhes proporcionem um período de estabilidade e segurança, que, mesmo sendo ilusória, causa a sensação de alívio que o usuário deseja (LEON, 2003, p. 39).

1.2 Característica dependente

No que diz respeito à dependência química, podemos falar que as perspectivas alcançam várias interpretações. Uma delas está associada à situação de sujeição de uma pessoa em relação à outra, de modo que o dependente ocupe a postura de submissão ou se sinta parte de algo, de alguém ou de uma situação (AULETE, 1964, p. 1090).

Uma segunda visão considera a característica natural de dependência do ser humano, a partir da necessidade de organização temporal, espacial, psicológica e também de personalidade, que é inerente ao indivíduo desde a mais tenra idade, e que, só pode ser constituída a partir de referenciais externos, ou seja, a presença de alguém que se torna referencial junto a esse processo (SAFRA, 2005, p. 7).

Em terceiro lugar, existem afirmativas a favor da ideia de que a modernidade tardia atua como motivador de uma conduta que contribui para com o surgimento e desenvolvimento da dependência química. Conforme Rouanet, a atração ou sedução das coisas sobre as pessoas é uma marca da modernidade que influencia no modo de agir e na construção ou desconstrução de valores do mesmo (ROUANET, 1987, p. 233).

A psicóloga Daniela Bessa reforça a compreensão de Rouanet e afirma que o ser humano deseja conquistar status e reconhecimento, seja social e/ou familiar, através da aquisição de bens, mesmo que por meio disso, aconteçam perdas significativas no desenvolvimento de relações profundas e verdadeiras, seja com as pessoas ou mesmo com Deus (BESSA, 2002, p. 31).

Portanto, podemos compreender a dependência química como relação de sujeição, bem como de referência e de sedução. O dependente é a pessoa que se submete a qualquer coisa que lhe pareça importante ou que lhe cause medo, e, a partir disso, passa a seguir os exemplos ou as referências daquilo que se tornou o alvo das expectativas do indivíduo, de modo que este pode se deixar conduzir pela sensação de sedução de tudo o que lhe afeta os sentidos e as emoções (MOREIRA JR, 2011, p.78).

Logo, podemos entender que a dependência química é desenvolvida de acordo com o lugar que as drogas ocupam na vida das pessoas. Assim, o indivíduo pode: se sujeitar à dominação física gerada pela substância; adquirir comportamentos comuns às pessoas que se tornaram referenciais – como o grupo de amigos; e até mesmo, se abandonar ante a sedução causada pelas ilusões proporcionadas por meio das drogas.

1.3 Fatores de risco

É perceptível que algumas situações favorecem para o desenvolvimento e manutenção de situações de dependência química. Alguns dos fatores que são encontrados nos âmbitos sociais e familiares, são características comuns à modernidade.

Benedicto afirma que existe na modernidade um vício pela busca de soluções rápidas e que uma das provas disso é a utilização excessiva de medicamentos, mesmo sem orientação médica. As pessoas de modo geral, acreditam que as drogas – lícitas – resolvem praticamente tudo: da mais simples dor de cabeça, até dificuldades para com estresse e depressão. Esta crença auxilia na modificação da conduta do indivíduo ante as situações de crise e dor, de modo que, este, passa a entender que pode encontrar respostas para seus problemas em comprimidos. Deste modo, acontece a familiarização e facilidade para administração de drogas gerais, o que favorece para que o indivíduo desenvolva um caráter vicioso e possa vir a se tornar um dependente químico, porque os remédios passam a ser vistos como mais fortes que as pessoas (BENEDICTO, 2007, p. 17).

Um agravante pode ser encontrado ao considerar a visão de Nouwen, pois, este afirma que, a sociedade não tem representante ou líderes de modo geral, que sejam exemplos. Isso dificulta a construção social e o crescimento da individualidade constituída a partir de um referencial positivo. Assim, cada pessoa tende a ser seu próprio referencial tornando-se interiorizada e vazia. Ante a isso, os referenciais de grupo ganham força, e, portanto, a dificuldade de exemplos gerais pode se tornar facilitador para que indivíduo comece a seguir os padrões de comportamento do grupo onde estiver inserido e a utilização de drogas pode ser um destes hábitos (NOUWEN apud BESSA, 2005, p. 43).

A perspectiva do prazer também está relacionada como fator de risco. Conforme Freud, o desejo natural de busca do prazer, pode ser motivador para a utilização de drogas. Isso, porque Freud considera a relação funcional da masturbação com a utilização de drogas, ao entender que ambas as situações de prazer são desenvolvidas e manipuladas pelo usuário, em busca de satisfação pessoal e intensa, sem preocupação para com o outro (FREUD apud MARZANO, 2007).

O psiquiatra Eduardo Kalina reforça esta perspectiva quando afirma que o erotismo oral é constante e intenso, durante toda a vida do ser humano e que está particularmente presente nos casos de drogadicção, mesmo quando a substância não é ingerida pela boca. Assim, é mais fácil entender porque algumas pessoas sentem-se seduzidas ao uso contínuo de drogas, mesmo que o prazer seja momentâneo e ilusório (KALINA, 1983, p. 29).

Além disso, percebemos que alguns fatores de risco estão diretamente relacionados às perspectivas familiares (LEITE, 2005, p.40). Dentre as quais, podemos destacar: o nível do envolvimento afetivo dos pais em relação aos filhos; a estrutura hierárquica constituída no âmbito familiar; e o contexto doméstico, ou seja, o fato de os pais fazerem, ou não, uso abusivo de substâncias químicas (HUTZ, 2007, p. 174, 175).

Isto é importante porque quando se fala em violência familiar, por mais causas que possam existir, geralmente podemos dividir em duas grandes áreas: as questões intrafamiliares, ou seja, os relacionamentos de modo geral; e os sociais, dentre os quais se encontram o abuso do uso de substâncias químicas, comportamento considerado comum atualmente (ZAMPIERI, 2004, p.65).

1.4 Farmacologia da dependência

Drogas são substâncias naturais ou sintéticas, que agem diretamente no organismo, modificando suas funções e proporcionando prazer momentâneo (Cf. BENEDICTO, 2007. p. 17).

Considerando que a variedade de drogas de que se têm informações é muito ampla, serão destacados alguns tipos mais comuns, organizados por classes. As drogas geralmente são classificadas como: narcóticos, depressores do sistema nervoso central, estimulantes e alucinógenos.

Os narcóticos, também chamados de entorpecentes, são muito usados na medicina devido ao caráter anestésico de seu princípio ativo. Nessa classificação destacam-se: a morfina, a codeína, a meperidina, e metadona. O ópio e a heroína fazem parte da família dos narcóticos, porém, não são utilizados com fins medicinais (Cf. SANCHEZ, 1982).

Os depressores do sistema nervoso central apresentam sintomas semelhantes à embriaguez. Dentre eles estão: os barbitúricos, remédios mais conhecidos como Gardenal, Vagostencil e Desbutal; a metaqualona, também conhecida como Mesqualon ou Mandrix; tranquilizantes menores, vendidos como Valium, Diempax, Apraz, Frontal, Psicossedim, Rivoltril, Dorminid, Lexotan, Somalium e antidistônicos; solventes, como aguarrás e colas diversas, vendidas em casas de construção; éter e clorofórmio, usado para amenizar as dores de parto até o início do século XX (Cf. MACHADO, 2004).

Dentre os estimulantes, destacam-se: a cocaína, utilizada na oftalmologia no século XIX e com finalidade terapêutica no século XX, tornando-se proibida nos EUA em 1914 (Cf. MACHADO, 2004); o crack, uma forma impura da cocaína; a efedrina, mais conhecida como Rinosteg, descongestionante nasal; anfetaminas, Hipofagin e Moderex, remédios comumente usados por anoréxicos, comprados como Pervitin, Dexedrina e Desbutal que ajudam a controlar o apetite (Cf. MURAD, 1994, p. 59).

Os alucinógenos também são chamados de psicodislépticos. Os mais conhecidos são: LSD, Mescalina, Trixipheidyl, conhecido como Artane e Akineton, que pode ser utilizado contra mal de Parkinson – para PRZEDKORSKI (2002, p. 596), os efeitos do mal de Parkinson podem ser reduzidos com o uso de depressores – e a cannabis sativa, chamada de “alucinógeno menor”, conhecida como maconha ou marijuana (Cf. MACHADO, 2004).

O uso de cada uma destas substâncias altera o comportamento e o funcionamento do corpo do usuário de modo diferente, dependendo do tipo de droga utilizada.

Inicialmente, os efeitos não são muito aparentes, mas, com o uso contínuo, o indivíduo passa a apresentar sinais sociais, emocionais e orgânicos, que indicam não apenas o uso de drogas, mas instalação da dependência, além da necessidade de um cuidado específico.

As questões orgânicas ou fisiológicas são mais perceptíveis diante do uso contínuo de drogas, mesmo que já existam a partir da primeira dose administrada. Cada tipo de substância apresenta um risco específico, por isso as questões serão abordadas a partir das classes já apresentadas, com um destaque para os efeitos dos inalantes.

As pessoas sob a ação dos narcóticos apresentam uma contração acentuada da pupila que pode ficar tão pequena quanto à cabeça de um alfinete. Pode ocorrer paresia – diferente de paralisia, o termo paresia indica uma parada momentânea de órgãos ou tecidos (Cf. ROWLAND, 2002, p. 34) – estomacal e sensação de estômago cheio, como se não tivesse condição de realizar a digestão. Os intestinos também ficam sujeitos à paresia e, em consequência, a pessoa que abusa destas substâncias geralmente apresenta forte prisão de ventre. Com base neste efeito é que os opiáceos são utilizados para combater as diarreias (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007).

Os depressores aumentam as chances de adquirir lesão cerebral, parkinsonismo, cegueira, disfunção renal, disfunção do fígado e insuficiência respiratória, além de promoverem alterações psicológicas (Cf. MACHADO, 2004).

De modo geral, os estimulantes podem causar psicoses, alucinações, impotência, doenças no pulmão, estômago, bexiga, alterações hormonais, pressão alta e até morte súbita (Cf. MACHADO, 2004).

Os alucinógenos têm maior possibilidade de levar à perda de memória, dificuldade de capacidade produtiva -baixo tônus vital, desânimo, cansaço, etc. -, alterações de ordem motora, aumento do risco de infecções, problemas de infertilidade e potência, maiores possibilidades de câncer e aborto, além de cansaço e alterações psicológicas que podem levar ao pânico e até suicídio (Cf. LEMOS, 2007, p. 22).

No caso da maconha, há alterações da percepção temporal e da memória recente, como também aumento do apetite e diminuição do desempenho para tarefas do cotidiano (Cf. JAFFE, 1981, p. 71-72).

Os inalantes produzem reações orgânicas típicas como tosse, irritação no nariz e nos olhos, náusea, vômito, diarréia, dor no peito, dor nas juntas, visão dupla, sensibilidade à luz e até perda de apetite (Cf. JAFFE, 1981, p. 51).

Parece estranho que, diante de reações orgânicas tão agressivas, uma pessoa possa se tornar um dependente químico. Porém, deve-se destacar que essas reações ocorrem gradativamente, de modo que o usuário experimente inicialmente a euforia, relaxamento e prazer que as drogas proporcionam (Cf. VIANA, 2004).

1.5 Reações e níveis de dependência

Os efeitos de cada uma das substâncias químicas utilizadas pelo dependente podem variar de caso a caso, de acordo com a saúde do indivíduo, o quanto ele utiliza, o tipo de droga escolhida, como é administrada: se pela boca, se inalada ou injetada, e do ambiente sociocultural em que ele se encontra. Logo, os efeitos aqui apresentados são prováveis, e como realizado anteriormente, serão apresentados divididos por classes.

Os narcóticos, de modo geral, causam um nível alto de dependência psíquica e física. Considerando a atuação fisiológica dos narcóticos e observando a conduta de diversos usuários, nota-se que não há um comportamento aparentemente agressivo do indivíduo que utiliza tais substâncias, desde que este não seja provocado ou induzido (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007). Geralmente os derivados do ópio causam sensações de exaltação, aumento de energia ou euforia, porém, o uso frequente gera uma tolerância aos efeitos, o que faz necessário um aumento na quantidade de droga administrada, bem como a redução dos espaços de tempo entre uma dose e outra na tentativa de alcançar a sensação desejada (Cf. JAFFE, 1981, p. 32).

As drogas depressoras do sistema nervoso central são hipnóticas, sedativas e anti-convulsivas. São indicadas no tratamento de pânico, ansiedade, insônia e dor crônica. Agem como relaxante muscular e geralmente diminuem a censura, mas podem provocar angústia e uma dependência de alta a média, tanto psíquica quanto física (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Normalmente, os estimulantes aliviam a fadiga e despertam a pessoa, provocando sensação de alerta. Em geral, criam alta dependência psíquica e uma possibilidade de dependência física. Vários são os efeitos produzidos pelos estimulantes: sensação de melhora do funcionamento cognitivo, ansiedade, infatigabilidade, dentre outros. A utilização excessiva ocorre devido a dois efeitos marcantes dessas drogas: a euforia e a perda de apetite, por isso, boa parte dos usuários são anoréxicos, o que fez alguns desses medicamentos ficarem conhecidos como “remedinhos para emagrecer” (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

No que diz respeito às substâncias alucinógenas, pode-se afirmar que provocam reações semelhantes a psicoses, desde delírios a perda parcial ou total de percepção da realidade. Essas substâncias não causam dependência física e o grau de alcance psicológico é desconhecido. Dentre estas drogas, destaca-se a maconha, que relaxa, produz sensação de bem estar e vermelhidão nos olhos, induz, na maioria das vezes a ações extrovertidas, mas pode gerar o desejo de isolamento e reflexão, bem como ansiedade ou pânico. A maconha gera uma dependência psíquica moderada (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Dentre outros efeitos causados pelos diversos tipos de drogas, podem-se relacionar questões emocionais e situações orgânicas do usuário de drogas.

As características emocionais produzidos pelas drogas também podem variar de indivíduo para indivíduo. Cada substância proporciona uma reação diferente de uma pessoa para outra e o contexto do usuário faz diferença no modo de ação da droga.

Porém, de modo geral, destacam-se alterações no pensamento, perda de memória, ações psicóticas, como suspeita de estar sendo seguido ou de que outros estejam falando e conspirando contra eles, comportamento inconstante e incoerente, irritação, e até excitação sexual persistente (Cf. JAFFE, 1981, p. 32-33).

Outras características que podem ser observadas são a perda da distinção entre o certo e o errado, padrões éticos e morais deturpados, dificuldade em discernir entre o real e o ilusório, sensibilidade extrema a palavras e ações, e baixa autoestima (Cf. VIANA, 2004).

Nota-se que os efeitos das substâncias químicas afetam diretamente a sensação de segurança, de direção e prazer: segurança, porque afetam a estabilidade psicológica e deixam o usuário em expectativa de perseguição; direção, porque deturpam os conceitos e limites sociais; e prazer, porque invadem as experiências naturais do indivíduo, modificando-as até no trato sexual.

Logo, a dependência é apresentada como relação de sujeição, referência e sedução, ou seja, o dependente é aquele que se submete a algo que lhe parece maior, mais significativo, ou que lhe proporcione medo. Desse algo ou alguém, o dependente segue o exemplo, as referências do que lhe chamam mais atenção ou lhe parecem mais importante, ou se deixa levar pela sedução daquilo que lhe afeta e envolve seus sentidos e emoções.

A partir disso, pode-se dizer que a dependência química está relacionada ao lugar que as drogas ocupam na vida do individuo. De modo que este pode sujeitar-se ao domínio orgânico da substância, ter os padrões do grupo como referenciais, ou mesmo se deixar seduzir pela viagem ou pelo mundo apresentado a ele por meio das drogas.  De modo especial, percebe-se que há um diferencial no comportamento desta geração que favorece para que a dependência química seja cada vez mais comum.

1.6 Genograma: família, fator de risco e de proteção para o dependente

O genograma é uma ferramenta essencial para acompanhamento de famílias. A partir da construção e interpretação do genograma é possível avaliar o contexto perceber as melhores formas de intervenção de acordo com o comportamento da família avaliada, para que no momento oportuno, as impressões percebidas por meio do genograma sejam apresentadas ao sistema familiar.

A coleta de informações para a composição do genograma deve alcançar ao menos três gerações. O sistema utiliza regras particulares de simbologia, tanto em relação à estrutura familiar, quanto aos dados demográficos, clínicos e relacionais da família.

É indicado como modelo terapêutico de avaliação, em famílias que apresentem dificuldades com: 1) saúde materna; 2) saúde infantil; 3) problemas de desenvolvimento infantil; 4) dificuldades em relação ao trabalho; 5) doença crônica em algum elemento da família; 6) doença mental em algum indivíduo do sistema familiar; 7) morte de um familiar; 8) consumo de drogas; 9) suspeita de violência; 10) depressão ou ansiedade crônica; e 11) falta de adesão aos planos terapêuticos.

A importância do genograma para a atenção familiar está vinculada ao valor que o sistema familiar apresenta enquanto base de desenvolvimento social para o indivíduo. O modelo terapêutico em questão foi elaborado de modo a contemplar todo o ciclo de vida da família, desde a constituição do sistema, por meio do casamento, até a morte dos cônjuges.

O genograma pode ser desenhado pelo médico, paciente ou por contribuições de ambos, tendo início em uma consulta e deve ser construído a partir da composição e estrutura familiar, considerando o ciclo de vida, os padrões de repetição em gerações, além do equilíbrio e desequilíbrio familiar. Para a constituição deste modelo terapêutico é necessário a utilização de símbolos próprios (REBELO, 2007, p. 314).

A interpretação deve considerar resultados de exames médicos (eletrocardiogramas, por exemplo), existência ou não de padrões de repetição em diferentes gerações, além de observações do ciclo da vida familiar em questão, ou seja, é necessário considerar se a família é composta por recém-casados, se tem filhos adolescentes, etc (REBELO, 2007, p. 314).

Símbolos do genograma

Símbolos do genograma

O genograma surgiu em meio a buscas por compreensões de patologias de filhos em relação à mãe ou pai. Posteriormente a teoria da comunicação humana contribuiu por meio da percepção de incongruências na comunicação, seja verbal ou não verbal, além dos estudos realizados em famílias de esquizofrênicos, que auxiliaram no chamado duplo-vínculo, favorecendo no acompanhamento de filhos esquizofrênicos (PRADO, 2009, p. 233).

Houve um avanço do conhecimento sobre as causas da saúde e da doença psíquica, não apenas do indivíduo, mas, nas relações e interações de membros dos sistemas familiares, em direção diferente à dos modelos até então conhecidos, da perspectiva psicanalítica (PRADO, 2009).

Por um período, houve um destaque no trabalho que considerava a família tri geracional, ou seja, a ênfase da importância dos avôs na família.

A partir disso, a história da família ganha valor e as interações passadas são consideradas como influentes no comportamento dos pais e, portanto, afetam toda a vida familiar. Assim, toda a estrutura histórica da família, tudo o que foi construído no passado, como, abusos sexuais, violências, segredos de paternidade, adoções, mitos e crenças, etc., são avaliados como influenciadores na distorção das interações do tempo presente (PRADO, 2009, p236).

Os anos oitenta também contribuíram para a ampliação da perspectiva do genograma e da terapia sistêmica, pois, o movimento feminista impulsiona o desenvolvimento da terapia familiar feminista, valorizando diferenças de gênero e aspectos particulares do papel da mulher na sociedade, família e casamento (PRADO, 2009).

No entanto, todas as considerações, inclusive sobre as particularidades do papel da mulher, devem ser construídas no genograma em conjunto, terapeuta e família, devem buscar compor a história da família com todas as características e problemas que vierem à tona. (PRADO, 2009, p 237)

As alterações e complementos no processo terapêutico chegam ao ponto de influenciar pioneiros na orientação de família, como, Minuchin, ainda vivo, em sua nona década de vida, autor do livro Dominando a Terapia Familiar, publicado em 2008, considerado estruturalista, reconheceu novas visões pós-modernas e acrescentou ao seu próprio trabalho, a avaliação histórica da família (PRADO, 2009).

Outra alteração histórica que influencia no processo terapêutico de família, está relacionada ao sistema familiar contemporâneo, pois, a configuração de família atual é em maioria, composta por famílias de pais sozinhos em decorrência de divórcios, de nascimentos e adoções por pessoas não casadas, indivíduos criados por avós, grupos familiares de filhos de pais diferentes vivendo no mesmo ambiente devido à  casamentos de divorciados, grupos familiares constituídos por casais homossexuais, famílias que vivem em casas separadas, ou mesmo indivíduos que vivem só (PRADO, 2009).

A estrutura do genograma é constituída por uma imagem gráfica, um tipo de mapa e até desenho da família. Esse recurso é utilizado como ferramenta de apoio para um destravamento do sistema, por meio da observação das dificuldades familiares e dos padrões relacionais (WENDT & CREPALDI, 2008).

A avaliação desse mapa favorece para que o clínico examine as prováveis dificuldades e facilidades do eixo familiar. Assim, um dos trabalhos que se utilizam do genograma é na caracterização e cadastramento de grupos familiares, em órgãos públicos que lidam com auxílio à família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Podemos dizer que o genograma é um “mapeamento gráfico da história e do padrão familiar”, onde podemos perceber: a) estrutura básica; b) demografia; e c) funcionamento e relacionamentos; que formam um gráfico dos dados coletados. O mapeamento expõe as etapas familiares através das gerações, além das estruturas emocionais associadas (WENDT & CREPALDI, 2008).

A função mais importante do genograma é cruzar dados familiares em momentos de avaliação, para acompanhamento adequado em meio aos processos relacionais em meio à terapia (WENDT & CREPALDI, 2008).

Para isso, as informações da família são organizadas em estrutura gráfica, para que se tenha uma visão mais clara da complexidade dos padrões de grupo. Supostamente, os membros do grupo são interdependentes, por mais que sejam idiossincráticos. Portanto, quando uma parte do sistema muda, todos os demais membros são afetados (WENDT & CREPALDI, 2008).

Através desse gráfico é possível identificar mitos e crenças que guiam e formam famílias por gerações, bem como sustentam rupturas de relacionamentos e dificuldades de trato.

Uma das formas de se analisar uma família é pela observação dos subsistemas, fronteiras e demais abstrações que podem ser percebidas entre os membros do grupo ao longo da história de vida. Esta construção abstrata indica uma estrutura familiar e delimita configurações do grupo (WENDT & CREPALDI, 2008).

A dinâmica familiar é a forma de relacionamento estabelecida pelos membros do grupo, ou seja, o modo como desenvolvem vínculos ou tratam seus problemas, os ritos, as regras, definição de ordem e papeis de cada membro da família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Os filhos fazem com que a família amplie ou modifique a estrutura interna vigente, o que favorece para o surgimento de novos subsistemas (WENDT & CREPALDI, 2008, p.305).

Enfim, em meio a tantas alterações nas composições de famílias, o genograma segue como ferramenta de auxílio fundamental na construção de um modelo terapêutico que integre e enriqueça as técnicas de apoio a disfunções relacionais.

Em relação à dependência química, o genograma atua como ferramenta de compreensão, pois, a estrutura gráfica proporcionada pelo genograma auxilia no desenvolvimento da compreensão familiar de como a doença surgiu, retirando o estigma do individuo que se tornou dependente químico, por meio de um esclarecimento sobre a realidade patológica de toda a família.

Para exemplificar, será mostrado aqui o genograma de uma família onde foi percebido um histórico de dependência química, inicialmente considerado como algo comum, devido ao fato de bebidas alcoólicas serem drogas lícitas, mas que, proporcionaram o surgimento de dependentes de drogas ilícitas como cocaína e crack.

O dependente titular desse genograma é descendente da junção das famílias O.M. e P.M.

  • Família O.M. (geração de avós)
Família O.M. (geração de avós)
  • Família O.M. (geração de tios)
Família O.M. (geração de tios)
  • Família O.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma

 

  • Família O.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M. (geração de avós)
Família P.M. (geração de avós)
  • Família P.M. (geração de tios)
Família P.M. (geração de tios)
  • Família P.M.
    • Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma

Observações sobre o genograma

Alergias, diabetes, dificuldades oftalmológicas, doenças cardíacas e problemas gerais de pressão, são características comuns a quase todos os membros da família.

O número de alcoolistas chegou a quase 56 membros da família e nove foram usuários de drogas (cocaína e crack). Atualmente, a maioria afirma ter deixado as drogas e bebidas por questões religiosas.

Três pessoas manifestaram câncer, sendo que, no caso de M.A. houve manifestação da doença em três momentos distintos e recuperação da saúde, de modo que permanece viva.

Dois casos de distúrbio psiquiátrico foram confirmados clinicamente, porém, foram tratados e recuperados totalmente.

Não existe padrão em relação à conduta escolar. É possível perceber pessoas de todos os níveis de estudo e atuando em diversas áreas, com predominância nas seguintes profissões: Motorista, Professor, Ourives, Pedreiro e Pastor Evangélico.

Em relação à constituição familiar podemos observar divórcios, relações extraconjugais constituídas paralelamente e mães solteiras.

De modo geral, foi percebido que a maior marca da família é a falta de relacionamento e de interesse mútuo. Isto foi comprovado pela dificuldade em conseguir informações dos membros da família por meio de entrevistas, de modo que, a maior parte das informações desse relatório foi adquirida por meio de pesquisas em cartórios e documentos diversos.

Três questões para exemplificar o nível do distanciamento das pessoas que compõem este grupo familiar.

  • Mesmo os dados mais simples não são de conhecimento de parentes próximos. Por exemplo: Em meio à pesquisa nos cartórios foi descoberto que I. P. (avô do titular do genograma) era gêmeo com G. P. (comprovado vivo até a juventude em documento de cartório) e este era desconhecido de seus sobrinhos, filhos de I.P. , que se surpreenderam ao saber da existência de um tio gêmeo do pai.
  • Em meio às tentativas de entrevista de familiares, houve discussões sobre o distanciamento dos membros da família e alegações do tipo… “Há dez anos não vejo meu irmão! E moramos a em bairros vizinhos!”
  • Também por meio de pesquisa em cartórios, foi descoberto que, B.O. , filha de M.A. , foi registrada em nome de A.O. e criada como filha de J.A.
    • Após a descoberta, discussões explicaram que a situação foi causada em decorrência de que, a gestação de B.O. ocorreu na adolescência de sua mãe, que, ainda solteira, não seria bem vista na sociedade da época, portanto, a criança nasceu em outra cidade e foi registrada como filha de uma prima de sua mãe, contudo, foi criada como filha da própria avó. Obs. Mãe e filha ainda vivem e se tratam como irmãs, a família não comenta o assunto.

Diante disso, pode-se perceber o quanto as ações familiares influenciam na formação do caráter do indivíduo, bem como, as circunstâncias vivenciais modificam os valores e interesses das pessoas. Pode-se perceber que, o titular do genograma, cresce em meio a alcoolistas, dependentes químicos, familiares distantes, mentiras, omissões, doenças e brigas, que proporcionam um ambiente favorável para que este se torne suscetível ao abuso do uso de substâncias químicas, como tentativa de refúgio, busca de segurança e mesmo por meio dos referenciais de pessoas estimadas que, já fazem uso de substâncias psicoativas.

 A partir do reconhecimento de uma situação de dependência química instalada, é necessário o desenvolvimento de uma avaliação psicológica com vistas à intervenção para possível auxílio no controle da situação de dependência.

2 Avaliação & Intervenção Psicológica

A psicometria é um ramo da estatística que estuda fenômenos psicológicos. Não se trata apenas de métodos, ela se insere na teoria da medida que trata da utilização de números no estudo dos fenômenos naturais. O processo de avaliação psicológica começa a ganhar estrutura a partir da elaboração de instrumentos de medida psicológica. Assim, a avaliação tende inicialmente a ocupar lugar de diagnóstico nos âmbitos clínicos e de trabalho e posteriormente repercute em todas as perspectivas do indivíduo. No entanto, apesar do desenvolvimento da área e da solidificação de análises e instrumentos, ainda existem críticas sobre os testes psicológicos.

Atualmente, pode-se dizer que, os instrumentos foram atualizados e compreende-se que o conhecimento é adquirido pela relação com o outro e a observação desta relação. Tornando o diagnóstico uma questão, por um lado racional, por outro, empático (NASCIMENTO, 2005, p. 217).

No Brasil, a psicometria ganha um grande espaço de discussão, devido ao modo como os testes veem sendo utilizados, sem o rigor necessário e estudos adequados, de forma que descaracteriza o método e sua cientificidade (NORONHA; BALDO; ALMEIDA; FREITAS; BARBIN; & COZOLI, 2004).

O rigor do método se deve à importância do mesmo, pois, a partir da psicometria é possível mensurar questões individuais em perspectivas legais, como quando um teste serve de base para distinguir entre dano moral e dano psicológico.

O dano moral é identificado como parte da percepção subjetiva de prejuízo em questões de honra, finanças ou de liberdade, enquanto que o dano psicológico está vinculado à saúde, possibilitando desenvolvimento de patologias (ROVINSK, 2005, p.178).

A avaliação psicológica é um dos principais campos da atuação do psicólogo. E isso, porque, a partir dos resultados dos testes, é possível se fazer inferências acerca do comportamento humano, de modo a auxiliar o indivíduo a tomar decisões diante de situações específicas (ÁVILA-BATISTA, 2011, p. 11).

Assim, o teste mais utilizado no Brasil para avaliação psicológica, tanto em relação à gravidade quanto à intensidade de danos, em casos de dependência química, é o MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview). Seu questionário foi validado para a realidade brasileira e, por isso, sua eficácia tem sido continuamente constatada a cada aplicação, de modo que, muitos pesquisadores se utilizam com tranqüilidade deste instrumento.

2.1 MINI: Características e validação do instrumento

Dentre os métodos psicológicos reconhecidos estão o DSM IV TR (2002) a nível clínico e de diagnóstico de dependência química e o SADD (1983) como avaliador de gravidade da dependência química (SOUZA; BITENCOURTT & OLIVEIRA, 2006, p. 111).

O Mini International Neuropsychiatric Interview, doravante designado MINI, é um questionário de auxílio para desenvolvimento de diagnóstico padronizado breve (15-30 minutos). É compatível com os critérios do DSM-III-R/IV e do CID-10 e sua utilização é indicada na prática clínica e na pesquisa em atenção primária e em psiquiatria. Pode ser utilizado por clínicos após um treinamento rápido (de 1 a 3 horas). O MINI Plus, versão mais detalhada, pode gerar diagnósticos dos principais transtornos psicóticos e do humor do DSM-IV (SCHEFFER; PASA; & ALMEIDA, 2010, p.535).

O MINI é estruturado em módulos diagnósticos independentes, para otimizar a sensibilidade do instrumento, na tentativa de diminuição de falso-positivos. Como meio de redução de tempo da entrevista, são utilizadas as seguintes estratégias: observação dos transtornos atuais, para facilitar a escolha da terapia mais adequada no momento; as questões são de resposta objetiva entre SIM/NÃO; questões de entrada exploram critérios obrigatórios para excluir diagnósticos de respostas negativas; as características e sintomas ocasionais de transtornos não são sistematicamente exploradas; e os algoritmos são integrados à estrutura do questionário, permitindo estabelecer ou excluir os diagnósticos ao longo da entrevista (AMORIN, 2000, p. 107).

Foram desenvolvidas duas versões do MINI para responder aos diagnósticos específicos de contextos diferentes:

1) voltado para ensaios clínicos e cuidados primários. O MINI abrange 19 módulos que alcançam 17 transtornos do eixo I do DSM-IV, o transtorno da personalidade anti-social e o risco de suicídio. O módulo Síndrome psicótica descobre os indícios do critério da esquizofrenia, com a finalidade de eliminar a possível existência de um transtorno psicótico. Os outros módulos determinam análises positivas.

2) proposto para a avaliação aprofundada das desordens mentais ao longo da vida, na pesquisa e na clínica em psiquiatria. O MINI Plus explora ordenadamente todos os critérios de abrangência e de eliminação, bem como a cronologia de 23 classes diagnósticas do DSM-IV. O módulo Transtornos psicóticos produz a análise positiva de 7 subtipos de psicoses: (1) transtorno psicótico sem especificação, (2) transtorno delirante, (3) transtorno psicótico breve, (4) transtorno esquizoafetivo, (5) transtorno esquizofreniforme, (6) esquizofrenia, e (7) transtorno psicótico decorrente de uma condição médica geral e/ou induzido por substâncias (AMORIN, 2000, p. 108).

O método utilizado para a validação do instrumento MINI foi o teste de confiabilidade entre métodos.  Era necessário provar a concordância entre o diagnóstico gerado pelo MINI e aqueles gerados por métodos já reconhecidos. Foram escolhidas duas estratégias para validar o novo procedimento diagnóstico: “compará-lo a diferentes critérios de referência e compará-lo ao Best Diagnosis ou LEAD Standard” (AMORIN, 2000, p. 108).

O MINI/MINI Plus foi comparado a questionários padronizados com características distintas, empregados em pesquisas internacionais – o CIDI e o SCID-P – e com a apreciação de psiquiatras. Além disso, foram realizadas análises quantitativas e qualitativas, pela metodologia do LEAD Standard.

2.1.1 Aplicação do MINI e os resultados obtidos junto a Dependentes Químicos

A dependência química é o resultado de uma relação doentia entre um indivíduo e uma substância psicoativa (SPA). Inicialmente o consumo pode ter diversos motivos que possivelmente prosseguirão após o desenvolvimento da dependência. O abuso do uso de SPA, frequentemente desenvolve a dependência e esta, traz consigo, comorbidades psiquiátricas, o que é desfavorável ao tratamento da dependência química. O episódio de um transtorno adicional pode comprometer o diagnóstico, tratamento e prognóstico de ambos os problemas (SILVA; KOLLING; CARVALHO; CUNHA; & KRISTENSEN, 2009, p.102).

Estudos afirmam que um terço dos alcoolistas demonstra ansiedade em níveis significativos. Uma média de 50 a 67% dos alcoolistas e 80% dos dependentes de outras drogas apresenta características semelhantes ao transtorno do pânico, dos transtornos fóbicos ou do transtorno de ansiedade generalizada. Conforme Silva, “pacientes com comorbidade psiquiátrica, principalmente aqueles com transtornos psiquiátricos graves, apresentam maiores taxas de suicídio, agressividade, detenção por atos ilegais, recaídas, internações, mais gastos com tratamento…” (SILVA et al, 2009, p.104).

Para a aplicação do instrumento, Silva realizou uma pesquisa, a partir de 31 pessoas, diagnosticados dependentes de álcool ou cocaína / crack a partir do CID-10 e DSM-IV. O trabalho foi realizado em um hospital de Porto Alegre – Hospital Parque Belém – tendo como critérios de exclusão: 1) a idade abaixo de 18 anos; 2) estado de abstinência de duas semanas; 3) experimentadores e ex-usuários; 4) dependência de outra substância; 5) menos de um semestre de uso regular de SPA.

A pesquisa foi realizada predominantemente por:

  • pessoas do sexo masculino (84%)
  • entre 20 a 56 anos de idade
  • sendo que, 19,4% dos participantes tinham ensino fundamental incompleto
  • 16,1% terminaram o ensino fundamental
  • 16,1% afirmavam ter ensino médio incompleto
  • 29% concluíram o ensino médio
  • 12,9% tinham ensino superior incompleto
  • e 6,5% possuem ensino superior completo.

 Em média, os envolvidos apresentaram 25 dias de abstinência. A coleta de dados durou em torno de 60 minutos e os instrumentos utilizados foram: formulário padronizado, elaborado por Silva, e o MINI Plus (SILVA et al, 2009, p.106).

Como resultado da aplicação do instrumento foi observado que: 1) os participantes do sexo masculino apresentavam maior tempo de abstinência; 2) os dependentes de cocaína / crack, são mais jovens que os alcoolistas; 3) 67% dos envolvidos na pesquisa, afirmavam ter parentes próximos que faziam uso abusivo de álcool e/ou drogas; 4) 38,7% tem pais dependentes químicos; 5) 25,8% são sobrinhos de dependentes; 6) 22,6% são primos de dependentes; 7) 19,4% são netos de dependentes; 8) 12,9% tem irmãos dependentes; 9) 6,5% tem mães dependentes de SPA; e 10) 3,2% tem filho dependente químico. Transtornos mentais foram percebidos em 83,9% dos participantes, além da percepção de comorbidades múltiplas em grande parte do grupo estudado (SILVA et al, 2009, p.108).

A partir da observação e avaliação dos resultados da aplicação do MINI, é possível que a intervenção psicológica seja mais adequada. Ou seja, torna-se mais difícil que o terapeuta promova um direcionamento errado, de modo a prejudicar o dependente. Tanto em relação ao desenvolvimento do tratamento, quanto no que diz respeito ao surgimento de novos problemas. A partir da avaliação, o passo seguinte é a intervenção.

2.2 Intervenção: Entrevista psicológica

A entrevista psicológica é uma ação entre duas pessoas – das quais, um deve ser profissional da psicologia – onde ocorre uma troca de informações, por meio de diálogo em uma comunicação informal e por tanto, os nomes e conceitos atribuídos a esse diálogo são muitos, de maneira que os teóricos da área ainda discutem o tema com intensidade (ALMEIDA, 2004, p. 34).

A expressão entrevista psicológica é efetuada por psicólogos no exercício de suas atividades. E levam em conta, perspectivas e fatores psicológicos percebidos anteriormente, com o objetivo de resolver problemas que habitualmente fazem parte do quadro da psicologia, ou seja, seleção e orientação profissional, pesquisas psicológicas, estudos de opinião pública, exame de personalidade, etc. No entanto, a avaliação psicológica não é uma prática independente de amarrações teóricas que a direcionem, é necessário identificar as perspectivas teóricas adequadas, de acordo com o que deve ser avaliado e o modo como deve ser analisado, além de forma de utilização dos resultados obtidos (SPARTA; BARDAGI; &  TEIXEIRA, 2006, p. 19).

De acordo com Sullivan (1970), a entrevista psicológica é uma comunicação vocal a partir de duas pessoas, integradas numa estrutura terapeuta-cliente e que se desenvolve progressivamente com objetivo de clarificar situações de vida dos entrevistados, vividas de modo especialmente penoso ou valioso, com objetivo de que esta clarificação possa gerar algum benefício para o cliente (p. 4).

Assim, nos atemos ao estudo da entrevista psicológica, com a intenção de pontuar sobre regras que auxiliam para que a aplicação da técnica seja mais adequada, de modo a facilitar o desenvolvimento da análise. Isto porque, só o cliente realmente tem condição de expressar sobre o próprio sofrimento e, portanto, se faz necessário que o terapeuta consiga identificar o problema e conduzir o cliente no processo de ajuda, a partir desta identificação (OLIVEIRA, 2005, p.1).

A entrevista psicológica deve ser realizada através de procedimentos e técnicas próprias e empíricas. É o ponto de encontro entre a ciência psicológica e a prática. Por tanto, é a partir da entrevista que se é possível aplicar de modo prático, os conhecimentos elaborados sobre as perspectivas psicológicas, por meio de um processo de interação (BLEGER, 1998, p. 1).

Todo o aparato instrumental do profissional da psicologia consiste no resultado das elucubrações do paciente, que voluntariamente ou impulsionado por facilitações do terapeuta, se dispõe e falar sobre aquilo que lhe é problema, ou motivação que o levou à clínica psicológica. As palavras do paciente são na verdade o material sobre o qual irá trabalhar na tentativa de uma melhor compreensão do caso (AUGRAS, 2002, p. 82).

As técnicas da entrevista são ferramentas de auxílio para que o paciente se sinta mais a vontade para expor suas questões e para que o terapeuta tenha maior acesso às informações essenciais na elaboração do processo de ajuda. Por meio da entrevista, é possível testar limites, contrapor, confrontar e buscar esclarecimentos para as respostas do sujeito. Por isso, a entrevista clínica tem lugar de destaque incomparável entre as demais técnicas de avaliação (TAVARES, 2002, p. 75).

2.2.1 Primeiras Entrevistas

O objetivo das primeiras entrevistas é identificar os aspectos mais relevantes do caso e a partir disso, identificar a melhor maneira de deseenvolver o acompanhamento.

No decurso destas primeiras entrevistas, o analista deve: 1) escutar e tentar peceber na historia de vida do paciente, os problemas e perturbações a serem trabalhados; 2) avaliar o nível de vontade e condição do paciente para o acompanhamento terapêutico; 3) observar as características psiquicas, bem como a habilidade de verbalizar e tolerar a condição de analise.

A partir disto, se a analise for realmente indicada ao caso, deve ser fixado um modo de acompanhamento, ao estabelecer a duração, a frequência das sessões, a postura do analisado (divã, por exemplo) e a postura do analista (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

O trabalho do analista é o de observar, escutar, compreender, saber esperar e calar-se e no momento oportuno e dar a interpretação que convêm. Após isto, o terapeuta deve comunicar ao paciente o conteúdo latente do discurso deste.

Esta comunicação deve ser elaborada a partir da reunião de elementos separados do discurso. É um trabalho de reorganização e de atribuição de sentido à narrativa do paciente.

Essa devolução organizada das informações do sujeito precisa ser realizada em momento adequado, que este tenha condição de ouvir e de assimilar as informações apresentadas pelo terapeuta. É um trabalho de cooperação na construção de questões interenas do individuo  (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

É importante saber que, as primeiras entrevistas podem desencadear alguns fatores psicológicos. É imprescindível estar atento a:

  • Resistências – dificuldades gerais que o paciente possa apresentar em relação ao desenvolvimento do processo terapêutico.
  • Transferência – ação inconsciente de vivência momentânea das questões que afligem o paciente, de modo que as emoções sejam transferidas do evento, para o terapeuta.
  • Contratransferência – ação de deslocamento das emoções do terapeuta para com o paciente, ante alguma vivência comum ou situação específica do momento vivencial do terapeuta.

Estas situações podem ocorrer em meio a qualquer processo terapêutico e precisam ser consideradas com cuidado para que o tratamento não seja prejudicado (NETO, A.C.; DAL-BÓ, M. J.; BREDA, R. L.; & CRESTANA, T. 2003, p. 266)

2.2.2 Entrevista nas psicoterapias breves

A psicanálise influenciou a psicologia tanto em questões teóricas quanto a nível de exemplo. Por outro lado, a psicologia auxiliou na propagação da psicanálise em países que demonstravam indiferença à atuação psicanalítica. Ainda assim, é notória as especificidades de cada uma das disciplinas.

Ferenczi, psicanalista contemporâneo de Freud, é um dos precursores das psicoterapias breves. Decidiu por buscar novas maneiras de ajudar os seus pacientes, e para isso, experimentou um certo número de mudanças técnicas. É assim que ele começa por atuar a partir da técnica activa, fundada na observação atenta e empática, que consiste em intervenções directivas por parte do analista: formular, por exemplo, ordens e interdições (OLIVEIRA, 1999, p.10).

Michael Balint propõe a psicoterapia focal; trata-se de entrevistas face a face, cujo número é limitado no tempo, com uma focalização no problema do paciente (PSICOTERAPIA BREVE, 2003-2011).

Alexander e French propõem modificações técnicas da psicanálise e desenvolvem aexperiência emocional correctiva. Alexander propõe trabalhar com base no método das associações livres, mas associa igualmente entrevistas mais directas e dá directivas ao paciente, ele pensa também que as atitudes do terapeuta devem ser suficientemente flexíveis para se adaptarem caso a caso (OLIVEIRA, 1999, p.11).

De um modo geral, podemos dizer que, por meio da entrevista psicológica, o cliente precisa alcançar o relaxamento suficiente, para que o terapeuta consiga perceber as situações que lhe causam desconforto, ansiedade e outros problemas que o motivaram a procurar ajuda terapêutica e apartir disso, seja possível a elaboração – por parte do profissional da psicologia – de um processo terapeutico adequado, considerando as abordagens psicologicas cabiveis.

O objectivo é, portanto, fazer com que o sujeito tome consciência dos seus pensamentos, reconhecer aqueles que são inexactos e substitui-los por ideias positivas.

Para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta a  compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É impressindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E agora, de posse de sua bagagem técnica tecer suas observações, ponderações e considerações, de modo axiomático, considerado que a utópica da neutralidade sempre deverá ser perseguida.

Os princípios éticos serão avivados em cada encontro, e nenhum instrumento poderá adquirir uma aura de prevalência sobre a pessoa do entrevistado, que é mais importante e assim deve ser respeitado.

É fundamental que o profissional se conheça e que tenha como rotineiras, as reflexões sobre suas próprias atitudes, postura e comportamento. É preciso que tenha também flexibilidade em modificar-se, quando a necessário. Muito do trabalho do psicólogo certamente vem em conseqüência do auto conhecimento, que lhe dará a base na qual se apóiam à sua atuação e intervenção com toda transparência.

2.3 Abordagens

No campo da Psicologia, são muitas as abordagens existentes para tratamentos de conflitos. Há aquelas em que o cunho está mais voltada para o autoconhecimento do sujeito, seus traumas e conflitos internos, existem aquelas que trabalham com as crises e suas repercussões no momento, e, há também as de fundo filosófico que vêem o sujeito não somente como uma psique em crise, e sim como um todo levando em conta seu lado social e seu relacionamento com consigo mesmo e com o mundo.

As abordagens que pontuaremos, devido ao reconhecimento e destaque geral no campo da psicologia são quatro: Abordagem Fenomenológica; Abordagem Humanista; Abordagem Sistêmica; e Abordagem Cognitivo Comportamental.

2.3.1 Abordagem Fenomenológica

A perspectiva fenomenológica surge como reação às teses e à maneira de compreender questões patológicas no início do século XIX.

A abordagem surge a parir da filosofia, em particular da filosofia a alemã. Tendo como precursor Edmund Husserl, que elaborou os fundamentos desta idéia. Ele propõe compreender o homem e a sua psicologia a partir da análise dos estados de consciência, das questões vivenciais, da experiência e dos modos de relação do sujeito com o seu meio. Martin Heidegger, discípulo de E. Husserl, propõe uma filosofia que prioriza o conhecimento do ser humano no mundo, da realidade humana a partir da descrição das coisas na sua essência sem qualquer pressuposto teórico (VILA-CHÃ, 1988, pp.357-365).

A filosofia fenomenologica destaca a necessidade de um retorno à experiência humana como objecto de uma descrição; esta enfoque marcou profundamente a psicologia e a psicopatologia. Karl Jaspers é um dos primeiros a introduzir a dimensão fenomenologica em psicopatologia (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Karl Jaspers desenvolveu uma abordagem descritiva da fenomenologia; o seu método consistia em descrever as vivências psíquicas conscientes dos doentes mentais, classificar esses estados entre si e compara-los com as vivências psíquicas do homem normal (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Os fenomenologistas têm como referencia essencialmente Ludwig Biswanger, que pensa que é preciso ampliar a compreensão do doente tal como ele se encontra, mais do que compreende-lo a partir das teorias pré estabelecidas, que pertencem ao terapeuta e não ao doente; ele propõe uma análise que se baseia mais na relação e na experiência vivencial (CHAMOND, 2011, pp. 3-7).

A abordagem fenomenologica não propõe qualquer técnica psicoterapeutica particular, mas insiste na noção de comunicação, a partir de uma comunicação e uma relação verdadeira entre o clínico e o seu paciente. O ênfase está na relação terapêutica, que é considerada como uma relação inter-humana, portanto uma possibilidade de encontro, um face-a-face e uma troca com o outro. Não está baseado em regras técnicas, mas, uma reflexão teórica sobre a noção de psicoterapia e uma reflexão sobre a prática da entrevista, insistindo na experiência comunicativa entre os dois interlocutores (LESSA &  SÁ, 2006, pp. 393-397).

2.3.2 Abordagem humanista: Carl Rogers

As percepções de C. Rogers tiveram grande influência no que diz respeito à psicoterapia. Elas integram uma abordagem humanista bastante próxima do ponto de vista fenomenologico, assumindo uma posição face às teorias psicanalítica e behavioristas, a partir do interesse pela nosografia e pela estrutura da personalidade.

Conforme Rogers, em todo o ser humano existem potencialidades que podem ser desenvolvidas numa relação interpessoal, a partir da aceitação, compreensão empática, e, não diretividade, por meio de uma relação interpessoal e construtiva.

O processo terapêutico, segundo C. Rogers, envolve uma libertação dos sentimentos a partir da experiência vivencial e a percepção disto durante a terapia, para que o indivíduo tenha como modificar sua prática de atitudes e assim, desenvolver congruência consigo próprio (AMATUZZI, & CARPES, 2010, pp. 11-25).

2.3.3 Abordagem Sistêmica

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

2.3.4 Abordagem Cognitiva e Comportamental

A abordagem cognitiva e comportamental representa um conjunto de técnicas baseadas nas teorias da aprendizagem e nos contributos da psicopatologia cognitiva. Todas elas têm em comum um certo número de características: O estabelecimento de um contrato entre o paciente e o terapeuta; A definição clara e precisa dos objectivos terapêuticos, com uma definição das condutas que vão ser alvo das tentativas de mudança; A duração do tratamento, que é geralmente bastante breve, de três a seis meses; A medida quantitativa e qualitativa da mudança obtida.

Têm por objetivo suprimir o comportamento inapropriado para o substituir por um comportamento adaptado, segundo as leis do condicionamento. Por exemplo, a técnica da dessensibilização, utilizada para tratar as fobias (BAHLS; & NAVOLAR, 2004, pp.1-11).

A Psicologia é uma área muito ampla e as abordagens são diferentes entre si. Elas diferem em filosofia, objeto de estudo, teoria, linguagem, formas de pesquisa, dados científicos e práticas de intervenção. Todas essas características resultam em perspectivas muito particulares de como perceber o homem e como lidar com ele profissionalmente, e resultam em certas expectativas de postura do psicólogo, portanto, é necessário cuidado ao escolher a abordagem mais adequada.

3 Psicologia & Religião: Caminho terapêutico para o dependente químico?

Uma das características do processo terapêutico está relacionada ao valor e lugar que o do processo catártico em meio ao tratamento escolhido. Pode-se dizer que catarse é um processo de liberação de angústias e emoções reprimidas, ou de algum modo contidas, que, a partir de certo ponto podem causar distúrbios psicológicos (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O termo Catarse surge com Aristóteles. Por meio da ação poética, o palco tornava-se lugar de liberação das expressões emocionais por meio do drama e da tragédia. Posteriormente a ação catártica de purificação das emoções passa a ser vivenciada também pelo expectador (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Após o estabelecimento do processo catártico, por anos, esta ação foi vivenciada como ritual de purificação de espíritos malignos e/ou influências negativas externas sobre a vida das pessoas, por meio de ações como exorcismos, hipnose e semelhantes (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O processo foi utilizado a partir de diferentes perspectivas, passando por Freud, Diderot, Lessing, Goethe, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Em cada perspectiva a catarse ganhou um nome diferente como: análise do caráter, Gestalt-terapia, terapia primal, analise bioenergética, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

De modo geral pode-se dizer que a catarse atua claramente em três perspectivas humanas: médica, moral e religiosa (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

No que diz respeito ao aspecto médico, a catarse pode ser compreendida como ação homeopática de purificação do corpo (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A perspectiva moral entende que, ao purgar as malignidades por meio da catarse, a conduta do indivíduo seria equilibrada e não haveria riscos de ações imorais / malignas (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A ênfase religiosa da catarse aparece desde o teatro grego, onde a tragédia era compreendida como excitação religiosa e êxtase báquico. É possível citar também a influência hebréia no que diz respeito às experiências de sofrimento de personagens bíblicos como Ana (1 Sam 1:12-16), que não podia ter filhos e por isso, chorava e sofria diante de Iahwe. A oração sofrida acompanhada por movimentos de lábios que lembravam embriaguês, tiveram como resultado, a resposta do clamor, alívio e cura da alma. Além disso, Inácio de Loyola afirmou que a prática da glossolália (dom de línguas) resulta em paz e crescimento (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

Ainda hoje é possível perceber que, algumas linhas de orientação religiosa são desenvolvidas a partir de processos terapêuticos, que promovem reações com caráter catártico, especialmente em comunidades terapêuticas para recuperação de dependentes químicos (em maioria, apresentam fundação religiosa). Diante disto, torna-se imprescindível a observação da prática terapêutica psicológica, paralela ao sistema de orientação religioso que ocorre em meio à essas comunidades.

É fácil perceber a importância da relação de ajuda, desenvolvida por meio do aconselhamento, ante a necessidade humana de apoio e orientação em situações de crise e conflitos de modo geral.

O aconselhamento psicológico é um trabalho realizado por meio de encontros regulares e de caráter profissional, entre um cliente e um psicoterapeuta, com vistas a proporcionar suporte para que o indivíduo ultrapasse dificuldades relacionais ou pessoais. A compreensão de uma situação em particular, pode levar o indivíduo a aceitação ou a mudança de conduta,  de modo que, a pessoa tenha suas questões internas resolvidas (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.207).

 O aconselhamento religioso é um processo de mediação, realizado por um conselheiro, que neste caso, exerce a função de terapeuta, no sentido do grego antigo, que tem a conotação de cuidar, servir, tratar e também render culto. Ou seja, o terapeuta não é responsável pela cura, mas, é quem facilita o encontro entre àquele que cura e o necessitado, seja por meio de orações, de orientações, de imposição de limites ou simplesmente pelo direcionamento, para que o necessitado caminhe em direção àquele que tem o poder de curar (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.208).

Algumas linhas de aconselhamento relacionam, propositalmente ou não, a bíblia ou princípios morais do cristianismo, com linhas psicológicas específicas, como apresentaremos adiante.

3.1 Psicanálise & Cura do Passado

A psicanálise é uma metodologia desenvolvida por Freud, que considera como essencial, compreender o inconsciente do indivíduo e integrá-lo ao consciente, por meio da interpretação das ações e palavras, bem como de produções imaginárias, sonhos, delírios, associações livres e atos falhos (BOCK, 1999, p.70).

Esta interpretação visa promover um equilíbrio que auxilie no ajuste da conduta humana, de modo que seja possível a eliminação do mal-estar e do sofrimento. A idéia central é de que o autoconhecimento desenvolve a capacidade de lidar com as adversidades e superar as dificuldades (CATALDO NETO; GAUER e; FURTADO, 2003, p. 776).

Desse modo, é possível adquirir autonomia, por meio de uma capacidade criativa de cada indivíduo, grupo e instituição, por meio de um processo onde seja possível desfazer calmamente as barreiras do paciente (BOCK, 1999, p.80).

O princípio da desmontagem das resistências do inconsciente, está relacionado ao fato de que Freud considera que experimentamos a ansiedade já no primeiro momento da vida humana e a causa desta angústia é o parto (MEZAN, 2006, p. 527). Portanto, todo o passado do indivíduo, mesmo as coisas que de modo natural não são lembradas, como a sensação do nascimento, são importantes no trato das doenças desenvolvidas por meios de traumas.

A cura do passado é uma metodologia cristã, que afirma a cura por meio de uma volta ou de um relembrar o passado. É conhecida também como cura interior, cura das memórias, cura da árvore genealógica (SEAMANDS, 2007, p.12) dentre outros.

A metodologia foi desenvolvida por um psicanalista austríaco, Otto Rank, discípulo direto de Freud, que se aproxima da psicanálise ainda na adolescência, após a separação de seus pais (HURDING, 1995, p.411).

O trabalho tem como base a terapia desenvolvida durante a imaginação pela fé e o aconselhamento desenvolvido por meio da oração (SHLEMON, 1986, p.12), que visa conduzir o  indivíduo de modo consciente, à uma situação de crise do passado, e, por meio da conscientização da presença de Jesus – enquanto Deus atemporal – no momento em questão (HURDING, 1995, p.416), curar feridas e suas consequências na vida prática da pessoa que se dispõe a ser acompanhada.

A ênfase da cura interior ganha maior repercussão a partir dos estudos de alguns nomes como Anne White, Francis MacNutt e Ruth Stapleton, sendo que esta, afirma a cura interior como ação de restauração das emoções por meio das orientações do Espírito Santo (HURDING, 1995, p.416).

A partir da década de 1960, influenciado pela metodologia da cura interior, Frank Lake, médico missionário com treinamento em psiquiatria, desenvolve o que posteriormente ganha o nome de Teologia Clínica (EVANS, 2002, p.186).

O trabalho considera o princípio freudiano do trauma no nascimento e por isso, Lake utiliza teorias “reichianas e bioenergéticas de respiração profunda” (HURDING, 1995, p.420) para conduzir o indivíduo a reviver a experiência do nascimento e outras experiências traumáticas, na tentativa de resolver os problemas adquiridos durante a gestação e parto.

Lake, afirma que os sentimentos da mãe, sejam bons ou ruins, são transmitidos à criança durante a gravidez e a angústia da separação do bebê com a mãe por meio do parto, é relacionada a angústia gerada pela separação de Cristo com o Pai no Getsêmani e Gólgota.

Nesta pesrpectiva, pode-se entender que, a cura acontece por meio da realização do ego, mas, não o ego como compreendido por Freud, o ego do indivíduo, e sim, um tipo de ego ideal, que é gerado por meio da realização em Cristo, ou seja, o desenvolvimento de uma nova pessoa ou personalidade, ante ao convívio e comunhão com Deus (HURDING, 1995, pp.426,427).

Relação entre Psicanálise e Cura do Passado

Percebemos de modo claro a influência da psicanálise no desenvolvimento da cura do passado, a partir de um ponto específico: o fundador da teoria de cura do passado é de formação psicanalítica.

Diante disso, fica mais fácil identificar a semelhança na compreensão do ser humano enquanto indivíduo fragilizado desde o nascimento e necessitado de apoio para o autoconhecimento, para que este conhecimento auxilie no desenvolvimento do ego – seja o ego freudiano ou o ego ideal de Lake – e a partir disso, o indivíduo seja capaz de constituir forças para superar as adversidades e frustrações, sejam essas forças do próprio indivíduo ou da presença de Deus neste.

Ambas as linhas de orientação, conduzem o indivíduo a olhar para dentro de si, com dois objetivos: compreender a si mesmo, e buscar forças internas para continuar vivendo.

3.2 Logoterapia & Aconselhamento Pastoral

A logoterapia, desenvolvida por Viktor E. Frankl, é a terceira escola de psicoterapia de Viena, também conhecida como Psicologia do sentido da vida, devido a experiência de Frankl no campo de concentração, onde compreendeu o sentido do sofrimento (EINSFELD, 2000, p.18).

A logoterapia pode ser compreendida em três categorias de valores: criadores, vivenciais e de atitudes. Os valores criadores são referentes a capacidade criativa nas questões intelectuais, artísticas, de trabalho, enfim, de toda a liberdade de ação humana; os valores vivenciais são adquiridos por meio das experiências afetivas, seja por meio do desenvolvimento das relações familiares, seja pela contemplação da natureza, de observação da arte e cultura ou mesmo, pelas vivências místicas; e por fim, os valores de atitude, caracterizados pelo posicionamento adequado ante os sofrimentos inevitáveis e a condição ou capacidade de sofrer (LUNA, 2005, p.26).

Einsfeld afirma ainda que, Frankl descobriu a liberdade de observar a vida – mesmo que em condições precárias – e conseguir encontrar um sentido, que não depende da realização pessoal, mas, da maneira como a pessoa se coloca diante da situação vivenciada. Esse sentido surge quando a pessoa transforma o sofrimento em conquista, quando a culpa é transformada em oportunidade de mudança, ou quando a transitoriedade da vida auxilia no desenvolvimento de ações responsáveis (EINSFELD, 2000, p.21.).

Segundo Clinebell, o aconselhamento pastoral considera três aspectos essenciais com vistas ao crescimento: luta, morte e renascimento. O trabalho de orientação pastoral é desenvolvido a partir de uma compreensão particular da vida cristã, ao entender que esta não é apenas uma maneira de crer, mas, uma maneira de vivenciar ou experienciar todas as coisas, logo, tem como objetivo, modificar a motivação do comportamento e não apenas da crença humana. E isto, ante a experiência de luta, morte e renascimento de Cristo (CLINEBELL, 1987, p.56).

Clinebell afirma que as pessoas devem encontrar sentido para a vida, em todas as suas circunstâncias, tendo no sofrimento, o crescimento, seja humano, seja espiritual. Isto, porque, o ser humano é tido como carente de sustento, apoio e cuidado.

Essa carência gera crise no indivíduo que, torna-se perdido em si mesmo, de modo que passa a ter necessidade de apoio externo, de uma relação de ajuda, de alguém que auxilie no processo poimênico de cura da alma, por meio do apoio na compreensão do propósito da vida e de suas crises fundamentais, que estão diretamente relacionadas às percepções de “pecado e salvação, alienação e reconciliação, culpa e perdão, juizo e graça, morte e renascimento espiritual” (CLINEBELL, 1987, p. 47).

Relação entre a Logoterapia e o Aconselhamento Pastoral

Ambas as estruturas consideram como base de trabalho o sentido da vida e tratam disto em três perspectivas. Enquanto a logoterapia considera os valores criadores, vivenciais e de atitudes, como fundamentais para o desenvolvimento da capacidade do indivíduo de suportar o sofrimento, o aconselhamento pastoral aponta a luta, morte e renascimento como princípios de fé que devem não apenas nortear a vida mas, dar sentido a ela.

Outra característica está associada a ideia de realização pessoal como processo logoterapêutico, motivador para a continuidade da vida, e o propósito de vida apresentado pelo aconselhamento pastoral, como suporte e estímulo da esperança ante o sofrimento.

Ambas as orientações consideram as vivências como determinantes, ou seja, as vivências podem favorecer para o desânimo e enfraquecimento, ou para o fortalecimento e esperança, dependendo de como o indivíduo se posiciona.

3.3 Behaviorismo & Aconselhamento Bíblico

O behaviorismo  também conhecido como  comportamentalismo ou análise do comporta-

mento, considera uma espécie de ação e reação. O organismo responde a um estímulo, ante a ajustes ambientais ou por hábitos desenvolvidos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, p.45).

Duas situações são utilizadas na análise, o comportamento respondente e o comportamento operante. O comportamento respondente é composto pelos atos involuntários, por estímulos antecedentes ao ambiente, como salivação ou contração das pupilas. Já o comportamento operante é tudo aquilo que o indivíduo escolhe fazer, tudo o que a pessoa pode realizar para influenciar ou afetar o meio em que está envolvido (SKINNER, 2006, p.59).

   Em síntese, podemos dizer que, o comportamento respondente ocorre quando o indivíduo sofre um estímulo, enquanto o comportamento operante acontece quando o indivíduo produz o estímulo.

Além disso, considera-se o reforço, o controle de estímulos, extinção, punição, discriminação e generalização, como ferramentas de identificação, orientação e avaliação de casos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, pp. 50-54), sendo cada categoria compreendida da seguinte forma:

  • Reforço é tudo o que pode modificar uma ação futura, seja positiva ou negativamente;
  • Controle de estímulos é relacionado aos controles como placas de trânsito ou sinais indicativos, que delimitam os espaços e orientam ações de modo objetivo;
  • Extinção é o mecanismo que capacita a redução de determinada ação até a completa extinção da mesma;
  • Punição, leva a redução temporária de certo comportamento;
  • Discriminação, auxilia na modificação de comportamento de acordo com o ambiente;
  • Generalização, dificulta as reações ante a estímulos semelhantes.

O aconselhamento bíblico é o método utilizado por Jay Adams, para confrontar pessoas por meio de textos bíblicos, com a intenção de promover mudanças comportamentais, na tentativa de ajustar o indivíduo à uma conduta considerada biblicamente adequada ou justa (ADAMS, 1999, pp. 58-59).

A metodologia é diretiva, com a intensão de moldar os padrões de comportamento, invertendo ações tidas como pecaminosas, em atitudes justas e positivas, tendo como estímulos, os exemplos dos personagens e as situações apresentadas nas histórias bíblicas (CRABB, 2000, pp. 80,81).

Os limites estabelecidos estão relacionados à questões éticas de uma cultura específica, e portanto, limita as possibilidades de discriminação ou generalização em situações sociofamiliares, de modo que esse limite pode gerar punição e em alguns casos, extinção de comportamentos.

Relação entre Behaviorismo e Aconselhamento Bíblico

O behaviorismoe oaconselhamento bíblico seguem padrões indutivos para influenciar ou mesmo determinar comportamentos. E tem como ferramentas básicas: reforço, controle de estímulos, extinção, punição, discriminação, e generalização.

O diferencial consiste na base de direcionamento. Enquanto o aconselhamento bíblico tem como determinantes os escritos, a moral e a tradição cristã, o behaviorismo trabalha a partir das extruturas individuais de cultura.

Ambas as perspectivas não se orientam a partir da capacidade individual de construção ou elaboração de superação, mas, conduzem o aconselhando à uma decisão e uma ação específica e padronizada.

3.4 Pessoalismo (ACP) & Aconselhamento Cristão

O pessoalismo ou terapia centrada na pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, considera que o indivíduo tem em si uma tendência atualizante, ou seja, uma capacidade natural de se curar ou de se ajustar às mais diferentes situações, de modo a aprimorar o self. A importância deste aprimoramento se deve ao fato de que o self é tido como a essência da personalidade humana, de modo que, o autodiscernimento apresenta-se como chave para o desenvolvimento do indivíduo (SCHULTZ, 2002, pp.316-317).

Na perspectiva do pessoalismo, pessoas psicologicamente saudáveis percebem a si mesmas, então, não se sentem ameaçadas em seu autoconceito. Isto ocorre com aqueles que receberam considerações positivas e portanto, não sentem necessidade de “internalizar condições de merecimento” (SCHULTZ, 2002, p.321) para realizar o self e adquirir pleno funcionamento. Este fato indica também que o indivíduo não apresenta incongruência, que seria a dificuldade de perceber e vivenciar o verdadeiro self.

O trabalho de Rogers é auxiliar o cliente, através do aconselhamento centrado na pessoa e não no problema. A intenção é de desenvolver empatia em meio ao processo de acolhimento, criando uma identificação com o indivíduo, o que facilita para que o mesmo se compreenda e permita o processo natural de atualização do self, gradativamente, em meio ao processo terapêutico. Assim, o indivíduo adquire maior facilidade de se aceitar e a partir disso, gerar condições de enfrentar as dificuldades do mundo experiencial (MORATO, 1999, p.109).

O aconselhamento cristão, segundo Collins (2004, p.45-46), tem como objetivo gerar:

  • Autoconhecimento, porque compreende a necessidade do indivíduo de se entender,  para posteriormente alcançar cura;
  • Comunicação, porque reconhece a necessidade de expor os sentimentos, pensamentos e emoções de modo preciso;
  • Aprendizado e mudança de comportamento, pois entende que as pessoas agem de acordo com aquilo que aprenderam;
  • Auto-realização, devido à necessidade humana de desenvolver o próprio potencial;
  • Apoio, que é ferramenta facilitadora ante as dificuldades decorrentes no processo de realização pessoal; e
  • Integridade espiritual, por reconhecer a influência da dimensão espiritual em relação aos problemas humanos.

A idéia principal é de que o conselheiro deve: saber dar atenção; desenvolver habilidades de bom ouvinte; responder objetivamente àquilo que foi ouvido comprovando o comprometimento com a pessoa; saber como conduzir, comentar, perguntar, confrontar, informar e interpretar a fala do aconselhando, de modo que o mesmo possa aprender durante o processo de aconselhamento (COLLINS, 2004, p.48-51).

Relação entre Pessoalismo e Aconselhamento Cristão

O pessoalismo está alicerçado na construção e manutenção do self, ou seja, da característica individual que torna uma pessoa única. A idéia é de personalidade e de capacidade criativa, bem como de idiossincrasia e que precisa, na perspectiva rogeriana, ser reconhecida, aceita e desenvolvida, para que o indivíduo alcance cura e qualidade de vida em todas as perspectivas.

O aconselhamento cristão segue o padrão de autoconhecimento como base para o reconhecimento da dimensão espiritual e da necessidade da mesma para a constituição humana saudável.

 O conhecimento de si, de todas as mazelas e qualidades individuais formam a esfera de atuação destas linhas de aconselhamento, que consideram a liberdade e capacidade humana de decisão, como essenciais para o processo de formação, cura e saúde, mental e espiritual do ser humano.

Relação geral entre os processos

De modo geral, o acompanhamento religioso se apresenta como aconselhamento pastoral, porque tem como princípio a comunicação da palavra de Deus. Assim, difere-se de perspectivas como a psicanálise ou qualquer outra linha psicológica. No entanto, tem como objetivo, ajudar as pessoas a ajustarem-se melhor consigo mesmas e seus ambientes. E essa ajuda pode ocorrer individualmente, em família, ou em grupos afins, com ambiente estruturado, e programas de autoconhecimento, com vistas a superação de crises (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, pp.208,209).

Esta característica de atuação com ambientes estruturados e trabalhos individuais, familiares ou em grupos, também são adotadas nas orientações psicológicas, com objetivo de fundamentar as relações e constituir, indivíduo e sociedade.

Como se pode perceber é possível realizar o processo terapêutico de diversas maneiras, inclusive, em parceria com estruturas eclesiásticas. Para maior esclarecimento sobre a atuação do terapeuta que trabalha em comunidades terapêuticas confessionais, é importante que se fale mais detalhadamente, ao menos sobre uma, dentre as perspectivas citadas. O trabalho humanista, de Carl Rogers, apresenta duas especificidades que favorecem o acompanhamento ao dependente internado em uma instituição religiosa: 1) ênfase na valorização de Si, dificuldade característica do dependente, citada e explicada no capítulo primeiro deste trabalho; e 2) facilidade de aplicação das técnicas da ACP, devido ao fato de que a abordagem partilha de princípios estruturais semelhantes a características da ética cristã, em aspectos  gerais.

3.5 Abordagem centrada na pessoa ou pessoalismo cristão?

A abordagem centrada na pessoa é uma teoria sustentada pela compreensão de Carl Rogers de que as pessoas têm em si mesmas, a capacidade de resolverem seus conflitos internos, desde que consigam uma oportunidade e um ambiente adequado para isso. Rogers afirma que existe uma tendência, chamada de atualizante, que move o indivíduo em direção ao desenvolvimento de suas potencialidades, em busca da própria conservação e/ou enriquecimento. (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Segundo Rogers, essa tendência atualizante é uma característica humana semelhante a princípios fundamentais das plantas e dos animais, no que diz respeito à constituição biológica, de maneira que, a capacidade de crescimento e desenvolvimento permanece inerente no ser e, portanto, sempre que o ambiente e as condições favoráveis existirem, essa capacidade entrará em funcionamento (MOREIRA, 2007, p.53).

A compreensão de Rogers se relaciona à visão cristã, no sentido de entender a existência humana, como parte da criação. Entender o indivíduo como um ser que compartilha das características de surgimento, manutenção e sustento vital, a partir de uma questão interna (no caso, a presença do Espírito de Deus no homem) que favorece a cura, crescimento, ajustamento, etc. desde que não haja empecilhos externos.

Por isso, o conselheiro deve favorecer para que o cliente alcance a condição de se aceitar, de expressar seus sentimentos e atitudes, identificando diferenças individuais, sem, no entanto, comparar-se a outros. É necessário que o terapeuta desenvolva uma compreensão empática, ou seja, não apenas ouvir, mas, tentar perceber as reações do cliente ante a cada situação compartilhada e transmitir essa percepção ao indivíduo (ROGERS, 1983a, p.33).

Rogers afirma que a importância da empatia no processo de aconselhamento, deve-se ao fato de que as pessoas conseguem apresentar maior consideração por si, quando percebem que outros a aceitam e a compreendem (ROGERS, 1983a, p.39). A compreensão empática reflete as informações apresentadas pelo cliente a ele mesmo. Esse reflexo proporciona o autoconhecimento e por consequência, ajuste vivencial (HIPÓLITO, 2010, p.44).

Em outras palavras, podemos dizer que, a função do conselheiro é de agir como um espelho no qual o cliente deve enxergar a si e suas vivências, de modo mais objetivo. A partir desta compreensão, o indivíduo torna-se capaz de assumir seus problemas de forma mais adequada e responsável, porque se sente em uma situação segura para caminhar em direção à maturidade e se libertar das dificuldades (ROGERS, 2000, p.11-19).

Este aspecto também pode ser percebido em algumas ações de Jesus, que, considerava o indivíduo com todas as suas mazelas, independente do que a sociedade da época considerava pecado ou erro. A aceitação de Cristo para com os outros era incondicional e isso proporcionava confiança na relação estabelecida, de modo que as pessoas sentiam-se livres para falar de suas dores e dificuldades. Sentiam-se acolhidas e consequentemente, curadas.

Schultz afirma que, para Rogers, os processos avaliativos da psicologia tornam o paciente dependente, porque cria uma atmosfera de autoridade em torno do terapeuta. E, a partir do momento em que o terapeuta toma conhecimento dos problemas do cliente, o paciente age como se não fosse mais necessário se preocupar com o problema, pois, o alvo agora é seguir a orientação do especialista com a certeza de que tudo será resolvido (SCHULTZ, 2002, p.325).

Por isso, o princípio de Rogers está sustentado na premissa de não contar com uma estrutura teórica determinada, a partir da qual o problema do cliente seria enquadrado, para o desenvolvimento de algum mecanismo de ajuda. O importante é entender e aceitar o valor da pessoa. Logo, o terapeuta não deve expressar julgamentos nem dar conselhos, apenas concentrar-se no cliente, para que este consiga se perceber no terapeuta, de modo a reavaliar suas relações e possivelmente mudar de comportamento (SCHULTZ, 2002, p.325).

O terapeuta atua como facilitador. A sensação de segurança produzida pela empatia do conselheiro será suporte para que o cliente encontre em si mesmo as condições de superação para os problemas (SCHEEFFER, 1976, p.26).

Rogers abre mão de qualquer tipologia de personalidade ou de conceitos psicológicos específicos sobre o ser. Mas, tinha como objetivo, esclarecer o que é e como se estrutura uma relação psicológica que colabore para que o cliente alcance uma visão adequada de si mesmo, para que este consiga progredir a partir de sua própria compreensão (ROGERS, 1987, p.14).

A personalidade, conforme Rogers é o resultado de experiências vivenciadas pelo indivíduo, sendo que a pessoa é o centro dos eventos e consequentemente, influencia e recebe influências destes.  Logo, estes eventos tornam-se concretos para aqueles que o vivenciam (ROGERS, 1961, p.23).

Porém, a construção deste ser, ou como Rogers afirma, a construção deste Si-Mesmo, não é apenas uma percepção de si, mas, uma relação entre a vivência e compreensão, ou a vivência a partir da compreensão (ROGERS & WOOD, 1978, p.197).

De modo semelhante, a visão geral do cristianismo considera que não se deve preocupar com a personalidade, como se fosse algo imutável, pois, a vivência proporciona mudança de conduta. Assim como o apóstolo Pedro, tornou-se grande homem de fé, a partir dos percalços da negação trina de Jesus e da aceitação que recebeu de Cristo ainda na cruz. Cada indivíduo é considerado único e necessitado de um processo distinto de apoio.

Assim, depois da compreensão da aplicabilidade do método de Rogers junto à instituições confessionais, é preciso pensar as duas vertentes de atuação do terapeuta. Dependente químico e familiares (co-dependentes).

3.5.1 Aconselhamento centrado no dependente químico

Podemos dizer que a empatia (ROGERS, 1983a, p.33), enquanto ferramenta do aconselhamento centrado na pessoa pode proporcionar ao indivíduo dependente químico, a segurança necessária para aceitar o mundo real como real (GIDDENS apud Bessa, 2005, p.44), porém, não a partir das relações humanas, mas, a partir da tendência atualizante, ou seja, a partir de si mesmo (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Ao considerar a capacidade humana de crescimento e enriquecimento intrínseca, desde que se encontre o ambiente favorável (MOREIRA, 2007, p.53), é possível que o dependente consiga a partir do aconselhamento, tudo o que precisa para se estruturar e crescer, sem precisar esperar bons referenciais externos (SCHMIDT, 1976, p.25).

A partir do conhecimento pleno, desenvolvido por meio da ação reflexa do terapeuta, a pessoa dependente pode alcançar a condição de mudança e de reestruturação de vida (HIPÓLITO, 2010, p.44), de modo que não mais aguarda por referenciais, mas, torna-se referencial (ROUANET, 1987, p. 233).

Este conhecimento pleno proporciona também a diminuição da curiosidade (LIBÂNIO, 2004, p. 159), pois a mesma é sensação relacionada ao desconhecido. Portanto, o autoconhecimento promove a prevenção do uso de drogas, no que diz respeito à pessoa que ainda não utiliza, e redução de recaídas para os que estão diminuindo o uso.

Se a condição de dependência pode ser desenvolvida por diversos fatores como insatisfação com a vida, personalidade fraca, necessidade de prazer inerente ao ser humano e influências da modernidade (CARMO, 200, p.143), é imprescindível que seja desenvolvido um acompanhamento centrado na pessoa dependente e não nos problemas decorrentes da utilização de drogas, para que o dependente não redirecione a dependência de drogas para uma dependência do terapeuta (SCHULTZ, 2002, p.325).

3.5.2 Terapia familiar

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

Considerações Finais

Durante o desenvolvimento desse trabalho ficou evidente a complexidade das situações que envolvem o dependente químico, bem como as dificuldades encontradas para propiciar um tratamento que seja apropriado.

Tal compreensão fica cada vez mais imprecisa devido ao fato de que a modernidade, marcada por relações momentâneas e utilitárias, influencia diretamente na fragmentação de conceitos e estruturas sociais.

Essa despreocupação para com o próximo gera uma busca individual que sofre influências do coletivo, pois, enquanto ser social, o indivíduo participa se envolve e responde de modo relacional às estruturas sociais em que está inserido, logo, o pensamento vigente na modernidade faz parte da formação do caráter do indivíduo. Por isso, o ser humano não se preocupa em como buscar aquilo de que necessita, de modo que, se entender que é preciso, abre mão de limites, ética e moral, para alcançar seu desejo.

É a partir do rompimento com esses limites, que o indivíduo geralmente, encontra, conhece, experimenta e se entrega à droga. Desse modo, passa a ser dominado por estímulos e sensações produzidas pelas substâncias químicas utilizadas, e, gradativamente, perde qualidade de vida em todos os aspectos, conforme os efeitos da substância escolhida pelo usuário. Esse abandono de si pode conduzi-lo a uma posição indesejável, pois, em muitos casos o usuário, adquire má aparência, passa a ter cheiro desagradável, modifica a maneira de conversar, torna-se inconveniente, e, por fim, pode chegar ao rompimento com as leis, numa tentativa de manter seu vício.

Pode-se afirmar que um acompanhamento compromissado, individual e relacional, possibilita ao dependente químico a organização pessoal necessária para um desenvolvimento integralizado.

É perceptível que a característica da dependência química, enquanto situação que considera a sujeição do indivíduo a algo ou alguém, bem como a necessidade humana de apoio para a organização temporal, social e psicológica – que deve ser desenvolvida em si, mas, a partir do outro – pode ser trabalhada em um processo terapêutico que leva em conta as necessidades intrafamiliares, a partir da compreensão empática. Isto porque, o terapeuta facilita ao grupo familiar, a interpretação das diferentes vivências e das necessidades de cada um.

Em relação aos referenciais que podem influenciar o indivíduo, podemos afirmar que, o enriquecimento familiar proporcionado pela aceitação dos papeis familiares e do valor de cada pessoa, pode promover condições para que cada membro do grupo torne-se referencial um para o outro, e assim, não haja mais a necessidade de busca de referenciais, mas, a potencialidade de ser referencial.

A compreensão de que as dificuldades devem ser aceitas e trabalhadas pela família – mesmo que num primeiro momento uma única pessoa busque o terapeuta e, posteriormente, o grupo se permita ser auxiliado – funciona como ferramenta de apoio contra a ideia de buscar soluções rápidas para os problemas em comprimidos ou ações emergenciais – ação esta que funciona como fator de risco para o desenvolvimento da dependência e codependência química.

A aplicação do MINI utilizada neste trabalho contribui para que os esforços no sentido de auxilio do tratamento dos dependentes tenham uma base mais concreta, a partir de interpretações gráficas sobre a direção e velocidade com que a dependência química está se desenvolvendo no país.

Além disso, o resultado da aplicação do MINI confirma argumentos apresentados por pesquisadores da área, sobre as características dos usuários e suas relações sócio familiares e isso confirma a necessidade de um apoio terapêutico familiar e não individual. A atenção voltada para com a família possibilita que o grupo desenvolva um ambiente equilibrado entre as múltiplas relações intrafamiliares e diminui o risco de que algum dos integrantes do grupo torne-se dependente químico ou mantenha-se em uso de substâncias químicas, como tentativa de refugiar-se de atritos e colusões.

Assim, a avaliação do genograma e a observância de possíveis farmacologias utilizadas em meio ao processo terapêutico devem ser observadas com cuidado, para que o terapeuta não deixe de perceber o quanto as identificações de família, realizadas por meio do genograma, ou os efeitos dos medicamentos, que por ventura o dependente esteja utilizando, interfiram nas ações do aconselhando, seja positivamente ou negativamente, de modo a afetar as intervenções do terapeuta.

É possível perceber o quanto os instrumentos de avaliação psicológica podem ser úteis para o desenvolvimento de uma intervenção eficaz, a partir da visão mais adequada do problema característico do indivíduo, grupo ou patologia específica.

Mas é importante lembrar que, para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta à compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É imprescindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E assim construir suas observações, ponderações e considerações, de modo mais neutro possível.

Assim, é possível perceber a presença de comorbidades psiquiátricas associadas à dependência de substâncias psicoativas e identificar a frequência em que ocorrem, bem como alguns dos sintomas que aparecem associados de forma especial a estas patologias, como sintomas de ansiedade e depressão.

A presença de transtornos psiquiátricos torna-se um dos fatores que compromete efeito do tratamento com pacientes dependentes químicos. Por isso, o diagnóstico apropriado desses transtornos associados pode proporcionar intervenções terapêuticas mais adequadas na interrupção da conduta de consumo de substâncias, amortecendo a ocorrência de recaídas e proporcionando melhora no funcionamento social e familiar.

Em relação às perspectivas religiosas que atuam como ferramenta de ajuda, notamos que alguns casos, a ligação entre as linhas religiosas e psicológicas de orientação ficam evidentes – como no caso da psicanálise e da cura do passado, onde se percebe a influência da psicanálise na vida do fundador da cura do passado. Em outros, essa ligação não fica tão clara, porém, pode ser percebido ante a semelhança no desenvolvimento de técnicas e mesmo na maneira como compreende o problema e pessoa ou cliente, como no caso do pessoalismo e o aconselhamento cristão.

A semelhança ocorre até mesmo no sentido em que a orientação é desenvolvida, ou seja, diretiva ou não, como no caso do behaviorismo e do aconselhamento bíblico, ambos diretivos, determinantes.

Diante disso, podemos afirmar que as linhas de aconselhamento e orientação relacionadas, podem ser apresentadas como estruturas ou processos da relação de ajuda, que, independente de serem psicologias, ou simplesmente terem influências psicológicas, atuam em direção à necessidade humana de apoio e orientação.

Pode-se dizer que a abordagem centrada na pessoa é uma ferramenta particularmente adequada para o cuidado com o dependente químico, porque considera a questão de maior significado para o indivíduo fragilizado e suscetível ao abuso do uso de drogas: a autoestima construída a partir do autoconhecimento, proporcionado pela compreensão empática do terapeuta.

A postura desenvolvida por Rogers, para auxiliar o ser humano em seu crescimento e enriquecimento, a partir das potencialidades intrínsecas, favorece para que o indivíduo se resolva sem necessitar de referenciais externos ou de condições sociais específicas, mas a partir daquilo que já existe dentro do ser e que, no caso do dependente químico, havia sido fragilizado ou momentaneamente impedido de se desenvolver.

Um diferencial desta abordagem está no fato de que, enquanto a mudança ocasionada por uma motivação externa pode ser revertida de acordo com futuras circunstâncias adversas, as alterações de comportamento, geradas por questões internas de auto compreensão, não ficam sujeitas as intempéries sociais ou crises de ordens familiares.

A segurança advinda dessa nova postura, além de proporcionar capacidade para superar adversidades, gera a motivação necessária para continuar se desenvolvendo e se enriquecendo por meio de novas compreensões, geradas a partir de novas vivências, formando um círculo eterno de compreensão e crescimento.

E esse movimento constante de vivência que leva à compreensão e compreensão que leva à vivência, forma uma estrutura de segurança para que o indivíduo não tenha necessidade futura de buscar refúgio em substâncias que produzem alívio passageiro das sensações sem, contudo, resolver o verdadeiro problema.

Logo, é perceptível que a abordagem centrada na pessoa realmente pode alcançar resultados extremamente positivos no acompanhamento para com dependentes e codependentes químicos, tornando-se um possível caminho de apoio. Seja unicamente pelos trilhos da psicologia, seja acompanhada pelo aconselhamento cristão.

Este trabalho pretende observar a estrutura da dependência química, a configuração da atuação psicológica de ajuda ao dependente químico, bem como a possibilidade da contribuição religiosa, junto a abordagens psicológicas de apoio e orientação ao dependente químico e codependentes. Para isso apresentamos as características da pessoa enquanto ser humano e suas fragilidades. Fazemos um breve comentário acerca da pessoa enquanto Ser Dependente e pontuações sobre o processo de desenvolvimento e instalação da dependência química. Realizamos pontuações sobre a dependência química no que diz respeito a características socioculturais e familiares, além de fatores de risco para o abuso do uso de substâncias químicas. Apresentamos um breve histórico do desenvolvimento e validade do instrumento de avaliação psicológica, MINI, e da entrevista psicológica, acompanhado pelos teóricos mais reconhecidos nesse processo, que auxiliam no diagnóstico e orientação do processo terapêutico. Além da apresentação de características e especificidades de algumas abordagens psicológicas. Devido ao fato do tratamento a dependentes químicos no Brasil (por meio de comunidades terapêuticas) apresentar quase sempre uma perspectiva religiosa, pontuou-se sobre algumas linhas de aconselhamento psicológico, relacionando-os com processos de orientação cristã, na intenção de reconhecer as semelhanças básicas destes processos de ajuda, por meio da apresentação de idéias mais conhecidas da psicanálise, do behaviorismo, da logoterapia e do pessoalismo (ACP), seguidas da apresentação das orientações cristãs de cura do passado, aconselhamento pastoral, aconselhamento bíblico e aconselhamento cristão. Após a breve apresentação de cada orientação relacionada, são realizadas considerações sobre algumas das semelhanças encontradas. Por fim, apresentamos um breve relato sobre o processo terapêutico centrado na família e a compreensão sistêmica do processo terapêutico, bem como seus aspectos e alvos mais conhecidos. E seguimos com considerações sobre a funcionalidade das perspectivas terapêuticas centradas na família, quando relacionadas especificamente no trato de famílias compostas por dependentes químicos.

Palavras chave: Psicologia, Religião, Dependência Química.

Introdução

A proposta deste trabalho é discutir aspectos relacionados à compreensão e estruturação do cuidado ao dependente químico. Pode-se afirmar que o problema referente a este cuidado está relacionado a uma questão básica: “A psicologia pode considerar a religião como contribuinte no processo de recuperação de dependentes químicos?” Acredita-se que a metodologia mais adequada para desenvolver essa análise é a comparação entre algumas das orientações religiosas e psicológicas mais reconhecidas, na tentativa de entender as semelhanças dos processos.

Esse questionamento ocorre devido ao fato de que a dependência química é uma realidade conflituosa da modernidade tardia [01], não apenas em grupos específicos, mas, em toda a sociedade, inclusive na igreja. Assim, por vezes, líderes religiosos acabam por intervir em meio ao processo de apoio a dependentes químicos, através de casas de recuperação mantidas por igrejas.

Por isso, é comum perceber alterações religiosas intensas em dependentes internados em comunidades terapêuticas. Essas alterações merecem atenção especial, porque, o dependente químico, em tratamento, apresenta dificuldades com a ansiedade, depressão, ondas de alegria ou tristeza repentina, sensibilidade às palavras, conflitos de interesses, insegurança, desconfiança, dentre outras situações concernentes, a transição de um mundo ilusório, gerado gradativamente pelas sensações produzidas por drogas a uma realidade de fatos e obstáculos que devem ser enfrentados e vencidos de maneira responsável, ética e racional. O indivíduo parece apresentar dificuldades em manter sua estabilidade em múltiplas situações adversas, ou diante de algum tipo de pressão com a qual não esteja acostumado e, como tentativa momentânea de aliviar a tensão, recorre a drogas que produzam bem estar ou alívio. Lidar com o dependente e ajudá-lo a resolver seus problemas de adequação e sentido para a vida não é tarefa fácil e percebe-se que muitas comunidades eclesiásticas não sabem como trabalhar com a dependência.

Essa pesquisa é justificada por um fato específico. Não é difícil perceber que em alguns grupos religiosos o dependente químico é visto como alguém possesso, que precisa apenas afirmar-se convertido à determinada religião para ser liberto do mal e em consequência ficar livre das drogas.

Muitos fazem esta declaração de fé enquanto experienciadores de um processo catártico em meio a um culto religioso. Essa catarse proporciona prazer e, quando o período de prazer passa e o indivíduo se depara com as dificuldades naturais, sem um acompanhamento ou apoio, ele volta ao uso das drogas com um agravante, a cobrança da comunidade religiosa. O usuário passa a ser visto como alguém que ainda não foi liberto e precisa de oração, ou como uma pessoa que despreza o poder de divino manifestado sobre ela, no entanto, essa maneira de perceber o usuário, não apenas é errada, mas, prejudicial ao verdadeiro processo de ajuda e crescimento que esta pessoa necessita.

Considerando os fatos citados, pode-se dizer que há uma necessidade de um trabalho contínuo, um acompanhamento que produza uma compreensão real da dependência química e das limitações próprias, bem como da busca por crescimento pessoal e autovalorização, identificando e tratando as especificidades humanas de relacionamentos.

São objetivos desse trabalho: pontuar sobre as principais causas para a dependência, identificar as características dos dependentes químicos, analisar os tipos, as reações e os prováveis níveis de dependência gerados por substâncias químicas e reiterar a necessidade de um acompanhamento psicológico que se interesse pelo aconselhamento qualitativo no trato do dependente químico juntamente com possíveis processos de ajuda religioso oriundos de ações psicológicas.

Na tentativa de alcançar o objetivo citado, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, acrescidas de consulta a documentos virtuais, além da utilização de um genograma organizado a partir da família de um dependente químico [02].

O trabalho é composto por um texto organizado em três capítulos, além da introdução e conclusão. Inicialmente são destacadas características acerca da dependência. Nota-se questões referentes às necessidades básicas do ser humano, quanto ao relacionamento com autoridade, busca de orientação e prazer como resposta à orientação, das quais o indivíduo é naturalmente dependente. Esses fatores podem estar relacionados à dinâmica de vida na modernidade, portanto, a mesma é apontada como um dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas. A atualidade é marcada por inconstâncias e múltiplas compreensões de certo ou errado, o que dificulta o estabelecimento de padrões, limites e valores socioculturais e espirituais, e isso gera no indivíduo uma situação de fragilidade e insegurança que o conduz à possibilidade de se tornar usuário de drogas e provável dependente químico.

No primeiro capítulo o dependente é apresentado como ser humano fragilizado em questões psicológicas, sociais, orgânicas e espirituais, fragilidade essa, que conduz a ações de fuga da realidade e de busca de sentido para viver. Nessa fuga da realidade ou busca de sentido, destaca-se a representatividade das drogas na vida do usuário. Contudo, os efeitos de diversas drogas contribuem para que esse indivíduo permaneça preso num círculo vicioso que gira em torno da ausência e busca de prazer e sentido para vida, de modo que essa fuga e/ou busca nunca terminam.

O segundo capítulo destaca as características da avaliação psicológica em meio à dependência química. Isto, a partir da apresentação do instrumento de avaliação MINI – que foi validado no Brasil e é largamente utilizado para mensurar gravidade e intensidade do abuso do uso de substâncias psicoativas – a partir de uma aplicação realizada por Silva. Além disso, a intervenção psicológica é apresenta por meio da informação sobre o processo da entrevista psicológica, acompanhado por orientações de possíveis problemas para a execução do procedimento e as diferenças do processo em psicoterapias breves.

Para concluir, foram trabalhadas diferentes abordagens psicológicas de acompanhamento, seguidas por comparações para com as perspectivas religiosas de orientação mais conhecidas, tendo em vista o aspecto terapêutico dos sistemas. O trabalho é fechado com a explanação mais detalhada sobre o procedimento psicológico humanista de Carl Rogers, denominado ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que considera todas as vivências – inclusive as vivências religiosas – como ferramenta essencial para o desenvolvimento do chamado empoderamento de si. Estado necessário para o crescimento e cura do indivíduo.

A relevância da pesquisa está relacionada às proporções alcançadas pelo abuso do uso de drogas, que reflete diretamente no desenvolvimento e manutenção da situação de dependência química do ser humano na atualidade, e, do aumento numérico desordenado de comunidades terapêuticas religiosas, que desenvolvem trabalhos variados, com resultados incertos; o que pode proporcionar uma situação agravante quanto à identificação adequada da expansão e controle da doença no Brasil.

1 Dependência Química

Ao considerarmos a modernidade como período marcado pela carência de referenciais, o que gera instabilidade, ausência de rumo e de princípios de autoridade para o indivíduo, podemos afirmar que o ser humano é afetado pelas características desse tempo histórico, tanto emocionalmente quanto na maneira de agir, compreender e valorizar as pessoas, situações e coisas (SAFRA, 2005, p.7).

Tal mudança no modo de agir se deve, segundo Frankl, ao vazio existencial que também é proveniente da atualidade e sua falta de referenciais (FRANKL, 1987, p.123). O que dá sentido a vida é entendê-la enquanto missão individual, ou seja, cada pessoa deve considerar que existe um sentido para a vida do indivíduo e não um sentido para a vida de modo geral (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

A busca de sentido específico para a vida do indivíduo o conduz a compreensão de um trabalho pessoal a ser executado, e este trabalho, tarefa ou missão, não apenas traz sentido a vida, mas serve de estímulo para que o ser humano vença as dificuldades advindas dessa tarefa (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

Frankl afirma ainda que, na busca pela conclusão dessa missão específica, o sofrimento é quase inevitável, mas, diante do sofrimento, o ser humano tem a oportunidade de se transformar naquilo que quiser, e que tem, em si, potencial para ser bom ou ruim, precisando apenas escolher no que quer se tornar. O indivíduo apresenta uma perspectiva de autoridade ou poder sobre si mesmo, que atua a partir de valores criadores, vivenciais, e de atitudes (FRANKL, 1987, p.149).

Os valores são criadores quando se referem a habilidades criativas, intelectuais ou artísticas, são vivenciais, porque dizem respeito à relação com a natureza, com o outro e com Deus, e os valores de atitudes, por sua vez, referem-se à decisão pela ação adequada ante um sofrimento que não se pode evitar (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20).

Além disso, percebe-se que o sofrimento apresenta um aspecto positivo referente à avaliação ou descoberta sobre o sentido da vida, pois, “a preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial” (FRANKL, 1987, p.120) e essa angústia conduz o indivíduo à busca de uma razão pela qual viver, ou seja, quem tem sentido para viver, encontra forças para suportar quase toda e qualquer situação ou adversidade, de modo que o ser humano é capaz de viver e até morrer por seus ideais e valores (FRANKL, 1987, p.117).

Notamos que, no sofrimento, o indivíduo tem também a oportunidade de descobrir ou confirmar sua missão específica e colocá-la em prática por meio de habilidades criativas, experiências de vida e atitudes decisivas (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20). Quando isso não ocorre, pode-se dizer que a pessoa desistiu de encontrar o sentido de sua vida, ou se deixou levar pelo racionalismo, cientificismo e ativismo moderno, que não oferecem tempo ou condições para que o ser humano trabalhe a partir do sentido de suas atividades (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p. 26-27).

Libânio amplia a posição de Frankl, quando afirma que só é possível encontrar sentido para vida inserido em um grupo ou contexto social que estabeleça condutas, mesmo que estas sejam questionadas, pois, limites estabelecidos norteiam decisões e auxiliam na formação de identidade biológica, familiar, afetiva e social (LIBÂNIO, 2004, p.22). Ou seja, é a partir do meio social que o indivíduo desenvolve e experimenta conflitos, e é nesse contexto que ele deve aprender a vencê-los.

Assim, podemos entender que o usuário de drogas vive uma situação de vazio existencial, que o induz à busca por um sentido de vida que lhe dê forças para suportar as adversidades.

Essa busca de sentido possibilita que o ser humano encontre e experimente substâncias químicas, que, inicialmente, respondem à busca desorientada por prazer e segurança, porém, posteriormente fragilizam-no emocionalmente, tornando-o mais suscetível à dependência química.

1.1 Pessoa enquanto SER dependente químico

Carmo afirma que alguns dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas, segundo a Organização Mundial de Saúde, são a falta de informação acerca dos efeitos das drogas, enfermidades gerais, insatisfação com a vida, personalidade fraca e fácil acesso às drogas (CARMO, 2000, p. 143).

A relação de dependência enquanto necessidade de prazer inerente ao ser humano, às influências da modernidade para o desenvolvimento da dependência química, devido à crise de identidade, de sentido e valores existenciais, e a ausência de informação ou educação adequadas acerca do uso, abuso e efeitos gerados pelas drogas, favorece a formação de um indivíduo propício ao uso indiscriminado de substâncias, das quais, muitas vezes, não tem controle. O uso dessas substâncias gera dificuldades no desenvolvimento das relações, além de danos fisiológicos no indivíduo.

Giddens afirma que, geralmente, as pessoas se tornam dependentes químicos, devido à ausência de um acompanhamento dentro de padrões de desenvolvimento natural do ser humano, em que um aprende com o outro a aceitar o mundo real como real e adquirir segurança a partir da confiança estabelecida nas primeiras relações humanas (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

Afirma ainda que, as pessoas sofrem influências do meio social em que estão inseridas, e essas influências refletem em suas questões relacionais, sejam no trato da segurança ou insegurança, submissão ou prepotência, satisfação ou insatisfação. E isso, porque a modernidade foge a este padrão de desenvolvimento recusando o relacionamento interpessoal, e, com isso produzem-se a exclusão e a marginalização (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

A marginalização deteriora a estrutura do ser humano, minimiza as possibilidades de que o indivíduo adquira bons referenciais, torna-o acessível ao conhecimento, administração e uso da droga e amplia a necessidade de busca de prazer devido à sensação de abandono causada pela marginalidade (SCHMIDT, 1976, p.25).

No que diz respeito ao ser humano enquanto necessitado de referenciais sociais, a atualidade apresenta duas características negativas: a carência de bons referenciais e o marketingda droga.

Sobre os referenciais, podemos afirmar que há uma desvalorização dos relacionamentos interpessoais e das preocupações com limites e ordem, além de um esforço em busca da liberdade e de relações convenientes e utilitaristas, logo, não há uma preocupação ou desejo no indivíduo de se tornar referencial ou exemplo para o outro, e sim, a expectativa de que esteoutro seja referencial para o indivíduo (ROUANET, 1987, p.233, 236).

Quanto ao marketing da droga, importa ressaltar que as propagandas, sejam a favor ou contra o uso indiscriminado de drogas, aumentam a curiosidade dos que veem e isto funciona como facilitador para que mais pessoas procurem experimentar drogas tornando-se possíveis dependentes químicos (LIBÂNIO, 2004, p.159).

Os indivíduos que se tornam usuários de drogas são, geralmente, pessoas que não conseguem administrar bem circunstâncias de conflito, pressão ou rejeição naturais no processo de ascensão e reconhecimento social. São pessoas que não têm ou não sabem como se manter diante dessas dificuldades e por isso, recorrem a substâncias que lhes proporcionem um período de estabilidade e segurança, que, mesmo sendo ilusória, causa a sensação de alívio que o usuário deseja (LEON, 2003, p. 39).

1.2 Característica dependente

No que diz respeito à dependência química, podemos falar que as perspectivas alcançam várias interpretações. Uma delas está associada à situação de sujeição de uma pessoa em relação à outra, de modo que o dependente ocupe a postura de submissão ou se sinta parte de algo, de alguém ou de uma situação (AULETE, 1964, p. 1090).

Uma segunda visão considera a característica natural de dependência do ser humano, a partir da necessidade de organização temporal, espacial, psicológica e também de personalidade, que é inerente ao indivíduo desde a mais tenra idade, e que, só pode ser constituída a partir de referenciais externos, ou seja, a presença de alguém que se torna referencial junto a esse processo (SAFRA, 2005, p. 7).

Em terceiro lugar, existem afirmativas a favor da ideia de que a modernidade tardia atua como motivador de uma conduta que contribui para com o surgimento e desenvolvimento da dependência química. Conforme Rouanet, a atração ou sedução das coisas sobre as pessoas é uma marca da modernidade que influencia no modo de agir e na construção ou desconstrução de valores do mesmo (ROUANET, 1987, p. 233).

A psicóloga Daniela Bessa reforça a compreensão de Rouanet e afirma que o ser humano deseja conquistar status e reconhecimento, seja social e/ou familiar, através da aquisição de bens, mesmo que por meio disso, aconteçam perdas significativas no desenvolvimento de relações profundas e verdadeiras, seja com as pessoas ou mesmo com Deus (BESSA, 2002, p. 31).

Portanto, podemos compreender a dependência química como relação de sujeição, bem como de referência e de sedução. O dependente é a pessoa que se submete a qualquer coisa que lhe pareça importante ou que lhe cause medo, e, a partir disso, passa a seguir os exemplos ou as referências daquilo que se tornou o alvo das expectativas do indivíduo, de modo que este pode se deixar conduzir pela sensação de sedução de tudo o que lhe afeta os sentidos e as emoções (MOREIRA JR, 2011, p.78).

Logo, podemos entender que a dependência química é desenvolvida de acordo com o lugar que as drogas ocupam na vida das pessoas. Assim, o indivíduo pode: se sujeitar à dominação física gerada pela substância; adquirir comportamentos comuns às pessoas que se tornaram referenciais – como o grupo de amigos; e até mesmo, se abandonar ante a sedução causada pelas ilusões proporcionadas por meio das drogas.

1.3 Fatores de risco

É perceptível que algumas situações favorecem para o desenvolvimento e manutenção de situações de dependência química. Alguns dos fatores que são encontrados nos âmbitos sociais e familiares, são características comuns à modernidade.

Benedicto afirma que existe na modernidade um vício pela busca de soluções rápidas e que uma das provas disso é a utilização excessiva de medicamentos, mesmo sem orientação médica. As pessoas de modo geral, acreditam que as drogas – lícitas – resolvem praticamente tudo: da mais simples dor de cabeça, até dificuldades para com estresse e depressão. Esta crença auxilia na modificação da conduta do indivíduo ante as situações de crise e dor, de modo que, este, passa a entender que pode encontrar respostas para seus problemas em comprimidos. Deste modo, acontece a familiarização e facilidade para administração de drogas gerais, o que favorece para que o indivíduo desenvolva um caráter vicioso e possa vir a se tornar um dependente químico, porque os remédios passam a ser vistos como mais fortes que as pessoas (BENEDICTO, 2007, p. 17).

Um agravante pode ser encontrado ao considerar a visão de Nouwen, pois, este afirma que, a sociedade não tem representante ou líderes de modo geral, que sejam exemplos. Isso dificulta a construção social e o crescimento da individualidade constituída a partir de um referencial positivo. Assim, cada pessoa tende a ser seu próprio referencial tornando-se interiorizada e vazia. Ante a isso, os referenciais de grupo ganham força, e, portanto, a dificuldade de exemplos gerais pode se tornar facilitador para que indivíduo comece a seguir os padrões de comportamento do grupo onde estiver inserido e a utilização de drogas pode ser um destes hábitos (NOUWEN apud BESSA, 2005, p. 43).

A perspectiva do prazer também está relacionada como fator de risco. Conforme Freud, o desejo natural de busca do prazer, pode ser motivador para a utilização de drogas. Isso, porque Freud considera a relação funcional da masturbação com a utilização de drogas, ao entender que ambas as situações de prazer são desenvolvidas e manipuladas pelo usuário, em busca de satisfação pessoal e intensa, sem preocupação para com o outro (FREUD apud MARZANO, 2007).

O psiquiatra Eduardo Kalina reforça esta perspectiva quando afirma que o erotismo oral é constante e intenso, durante toda a vida do ser humano e que está particularmente presente nos casos de drogadicção, mesmo quando a substância não é ingerida pela boca. Assim, é mais fácil entender porque algumas pessoas sentem-se seduzidas ao uso contínuo de drogas, mesmo que o prazer seja momentâneo e ilusório (KALINA, 1983, p. 29).

Além disso, percebemos que alguns fatores de risco estão diretamente relacionados às perspectivas familiares (LEITE, 2005, p.40). Dentre as quais, podemos destacar: o nível do envolvimento afetivo dos pais em relação aos filhos; a estrutura hierárquica constituída no âmbito familiar; e o contexto doméstico, ou seja, o fato de os pais fazerem, ou não, uso abusivo de substâncias químicas (HUTZ, 2007, p. 174, 175).

Isto é importante porque quando se fala em violência familiar, por mais causas que possam existir, geralmente podemos dividir em duas grandes áreas: as questões intrafamiliares, ou seja, os relacionamentos de modo geral; e os sociais, dentre os quais se encontram o abuso do uso de substâncias químicas, comportamento considerado comum atualmente (ZAMPIERI, 2004, p.65).

1.4 Farmacologia da dependência

Drogas são substâncias naturais ou sintéticas, que agem diretamente no organismo, modificando suas funções e proporcionando prazer momentâneo (Cf. BENEDICTO, 2007. p. 17).

Considerando que a variedade de drogas de que se têm informações é muito ampla, serão destacados alguns tipos mais comuns, organizados por classes. As drogas geralmente são classificadas como: narcóticos, depressores do sistema nervoso central, estimulantes e alucinógenos.

Os narcóticos, também chamados de entorpecentes, são muito usados na medicina devido ao caráter anestésico de seu princípio ativo. Nessa classificação destacam-se: a morfina, a codeína, a meperidina, e metadona. O ópio e a heroína fazem parte da família dos narcóticos, porém, não são utilizados com fins medicinais (Cf. SANCHEZ, 1982).

Os depressores do sistema nervoso central apresentam sintomas semelhantes à embriaguez. Dentre eles estão: os barbitúricos, remédios mais conhecidos como Gardenal, Vagostencil e Desbutal; a metaqualona, também conhecida como Mesqualon ou Mandrix; tranquilizantes menores, vendidos como Valium, Diempax, Apraz, Frontal, Psicossedim, Rivoltril, Dorminid, Lexotan, Somalium e antidistônicos; solventes, como aguarrás e colas diversas, vendidas em casas de construção; éter e clorofórmio, usado para amenizar as dores de parto até o início do século XX (Cf. MACHADO, 2004).

Dentre os estimulantes, destacam-se: a cocaína, utilizada na oftalmologia no século XIX e com finalidade terapêutica no século XX, tornando-se proibida nos EUA em 1914 (Cf. MACHADO, 2004); o crack, uma forma impura da cocaína; a efedrina, mais conhecida como Rinosteg, descongestionante nasal; anfetaminas, Hipofagin e Moderex, remédios comumente usados por anoréxicos, comprados como Pervitin, Dexedrina e Desbutal que ajudam a controlar o apetite (Cf. MURAD, 1994, p. 59).

Os alucinógenos também são chamados de psicodislépticos. Os mais conhecidos são: LSD, Mescalina, Trixipheidyl, conhecido como Artane e Akineton, que pode ser utilizado contra mal de Parkinson – para PRZEDKORSKI (2002, p. 596), os efeitos do mal de Parkinson podem ser reduzidos com o uso de depressores – e a cannabis sativa, chamada de “alucinógeno menor”, conhecida como maconha ou marijuana (Cf. MACHADO, 2004).

O uso de cada uma destas substâncias altera o comportamento e o funcionamento do corpo do usuário de modo diferente, dependendo do tipo de droga utilizada.

Inicialmente, os efeitos não são muito aparentes, mas, com o uso contínuo, o indivíduo passa a apresentar sinais sociais, emocionais e orgânicos, que indicam não apenas o uso de drogas, mas instalação da dependência, além da necessidade de um cuidado específico.

As questões orgânicas ou fisiológicas são mais perceptíveis diante do uso contínuo de drogas, mesmo que já existam a partir da primeira dose administrada. Cada tipo de substância apresenta um risco específico, por isso as questões serão abordadas a partir das classes já apresentadas, com um destaque para os efeitos dos inalantes.

As pessoas sob a ação dos narcóticos apresentam uma contração acentuada da pupila que pode ficar tão pequena quanto à cabeça de um alfinete. Pode ocorrer paresia – diferente de paralisia, o termo paresia indica uma parada momentânea de órgãos ou tecidos (Cf. ROWLAND, 2002, p. 34) – estomacal e sensação de estômago cheio, como se não tivesse condição de realizar a digestão. Os intestinos também ficam sujeitos à paresia e, em consequência, a pessoa que abusa destas substâncias geralmente apresenta forte prisão de ventre. Com base neste efeito é que os opiáceos são utilizados para combater as diarreias (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007).

Os depressores aumentam as chances de adquirir lesão cerebral, parkinsonismo, cegueira, disfunção renal, disfunção do fígado e insuficiência respiratória, além de promoverem alterações psicológicas (Cf. MACHADO, 2004).

De modo geral, os estimulantes podem causar psicoses, alucinações, impotência, doenças no pulmão, estômago, bexiga, alterações hormonais, pressão alta e até morte súbita (Cf. MACHADO, 2004).

Os alucinógenos têm maior possibilidade de levar à perda de memória, dificuldade de capacidade produtiva -baixo tônus vital, desânimo, cansaço, etc. -, alterações de ordem motora, aumento do risco de infecções, problemas de infertilidade e potência, maiores possibilidades de câncer e aborto, além de cansaço e alterações psicológicas que podem levar ao pânico e até suicídio (Cf. LEMOS, 2007, p. 22).

No caso da maconha, há alterações da percepção temporal e da memória recente, como também aumento do apetite e diminuição do desempenho para tarefas do cotidiano (Cf. JAFFE, 1981, p. 71-72).

Os inalantes produzem reações orgânicas típicas como tosse, irritação no nariz e nos olhos, náusea, vômito, diarréia, dor no peito, dor nas juntas, visão dupla, sensibilidade à luz e até perda de apetite (Cf. JAFFE, 1981, p. 51).

Parece estranho que, diante de reações orgânicas tão agressivas, uma pessoa possa se tornar um dependente químico. Porém, deve-se destacar que essas reações ocorrem gradativamente, de modo que o usuário experimente inicialmente a euforia, relaxamento e prazer que as drogas proporcionam (Cf. VIANA, 2004).

1.5 Reações e níveis de dependência

Os efeitos de cada uma das substâncias químicas utilizadas pelo dependente podem variar de caso a caso, de acordo com a saúde do indivíduo, o quanto ele utiliza, o tipo de droga escolhida, como é administrada: se pela boca, se inalada ou injetada, e do ambiente sociocultural em que ele se encontra. Logo, os efeitos aqui apresentados são prováveis, e como realizado anteriormente, serão apresentados divididos por classes.

Os narcóticos, de modo geral, causam um nível alto de dependência psíquica e física. Considerando a atuação fisiológica dos narcóticos e observando a conduta de diversos usuários, nota-se que não há um comportamento aparentemente agressivo do indivíduo que utiliza tais substâncias, desde que este não seja provocado ou induzido (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007). Geralmente os derivados do ópio causam sensações de exaltação, aumento de energia ou euforia, porém, o uso frequente gera uma tolerância aos efeitos, o que faz necessário um aumento na quantidade de droga administrada, bem como a redução dos espaços de tempo entre uma dose e outra na tentativa de alcançar a sensação desejada (Cf. JAFFE, 1981, p. 32).

As drogas depressoras do sistema nervoso central são hipnóticas, sedativas e anti-convulsivas. São indicadas no tratamento de pânico, ansiedade, insônia e dor crônica. Agem como relaxante muscular e geralmente diminuem a censura, mas podem provocar angústia e uma dependência de alta a média, tanto psíquica quanto física (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Normalmente, os estimulantes aliviam a fadiga e despertam a pessoa, provocando sensação de alerta. Em geral, criam alta dependência psíquica e uma possibilidade de dependência física. Vários são os efeitos produzidos pelos estimulantes: sensação de melhora do funcionamento cognitivo, ansiedade, infatigabilidade, dentre outros. A utilização excessiva ocorre devido a dois efeitos marcantes dessas drogas: a euforia e a perda de apetite, por isso, boa parte dos usuários são anoréxicos, o que fez alguns desses medicamentos ficarem conhecidos como “remedinhos para emagrecer” (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

No que diz respeito às substâncias alucinógenas, pode-se afirmar que provocam reações semelhantes a psicoses, desde delírios a perda parcial ou total de percepção da realidade. Essas substâncias não causam dependência física e o grau de alcance psicológico é desconhecido. Dentre estas drogas, destaca-se a maconha, que relaxa, produz sensação de bem estar e vermelhidão nos olhos, induz, na maioria das vezes a ações extrovertidas, mas pode gerar o desejo de isolamento e reflexão, bem como ansiedade ou pânico. A maconha gera uma dependência psíquica moderada (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Dentre outros efeitos causados pelos diversos tipos de drogas, podem-se relacionar questões emocionais e situações orgânicas do usuário de drogas.

As características emocionais produzidos pelas drogas também podem variar de indivíduo para indivíduo. Cada substância proporciona uma reação diferente de uma pessoa para outra e o contexto do usuário faz diferença no modo de ação da droga.

Porém, de modo geral, destacam-se alterações no pensamento, perda de memória, ações psicóticas, como suspeita de estar sendo seguido ou de que outros estejam falando e conspirando contra eles, comportamento inconstante e incoerente, irritação, e até excitação sexual persistente (Cf. JAFFE, 1981, p. 32-33).

Outras características que podem ser observadas são a perda da distinção entre o certo e o errado, padrões éticos e morais deturpados, dificuldade em discernir entre o real e o ilusório, sensibilidade extrema a palavras e ações, e baixa autoestima (Cf. VIANA, 2004).

Nota-se que os efeitos das substâncias químicas afetam diretamente a sensação de segurança, de direção e prazer: segurança, porque afetam a estabilidade psicológica e deixam o usuário em expectativa de perseguição; direção, porque deturpam os conceitos e limites sociais; e prazer, porque invadem as experiências naturais do indivíduo, modificando-as até no trato sexual.

Logo, a dependência é apresentada como relação de sujeição, referência e sedução, ou seja, o dependente é aquele que se submete a algo que lhe parece maior, mais significativo, ou que lhe proporcione medo. Desse algo ou alguém, o dependente segue o exemplo, as referências do que lhe chamam mais atenção ou lhe parecem mais importante, ou se deixa levar pela sedução daquilo que lhe afeta e envolve seus sentidos e emoções.

A partir disso, pode-se dizer que a dependência química está relacionada ao lugar que as drogas ocupam na vida do individuo. De modo que este pode sujeitar-se ao domínio orgânico da substância, ter os padrões do grupo como referenciais, ou mesmo se deixar seduzir pela viagem ou pelo mundo apresentado a ele por meio das drogas.  De modo especial, percebe-se que há um diferencial no comportamento desta geração que favorece para que a dependência química seja cada vez mais comum.

1.6 Genograma: família, fator de risco e de proteção para o dependente

O genograma é uma ferramenta essencial para acompanhamento de famílias. A partir da construção e interpretação do genograma é possível avaliar o contexto perceber as melhores formas de intervenção de acordo com o comportamento da família avaliada, para que no momento oportuno, as impressões percebidas por meio do genograma sejam apresentadas ao sistema familiar.

A coleta de informações para a composição do genograma deve alcançar ao menos três gerações. O sistema utiliza regras particulares de simbologia, tanto em relação à estrutura familiar, quanto aos dados demográficos, clínicos e relacionais da família.

É indicado como modelo terapêutico de avaliação, em famílias que apresentem dificuldades com: 1) saúde materna; 2) saúde infantil; 3) problemas de desenvolvimento infantil; 4) dificuldades em relação ao trabalho; 5) doença crônica em algum elemento da família; 6) doença mental em algum indivíduo do sistema familiar; 7) morte de um familiar; 8) consumo de drogas; 9) suspeita de violência; 10) depressão ou ansiedade crônica; e 11) falta de adesão aos planos terapêuticos.

A importância do genograma para a atenção familiar está vinculada ao valor que o sistema familiar apresenta enquanto base de desenvolvimento social para o indivíduo. O modelo terapêutico em questão foi elaborado de modo a contemplar todo o ciclo de vida da família, desde a constituição do sistema, por meio do casamento, até a morte dos cônjuges.

O genograma pode ser desenhado pelo médico, paciente ou por contribuições de ambos, tendo início em uma consulta e deve ser construído a partir da composição e estrutura familiar, considerando o ciclo de vida, os padrões de repetição em gerações, além do equilíbrio e desequilíbrio familiar. Para a constituição deste modelo terapêutico é necessário a utilização de símbolos próprios (REBELO, 2007, p. 314).

A interpretação deve considerar resultados de exames médicos (eletrocardiogramas, por exemplo), existência ou não de padrões de repetição em diferentes gerações, além de observações do ciclo da vida familiar em questão, ou seja, é necessário considerar se a família é composta por recém-casados, se tem filhos adolescentes, etc (REBELO, 2007, p. 314).

Símbolos do genograma

Símbolos do genograma

O genograma surgiu em meio a buscas por compreensões de patologias de filhos em relação à mãe ou pai. Posteriormente a teoria da comunicação humana contribuiu por meio da percepção de incongruências na comunicação, seja verbal ou não verbal, além dos estudos realizados em famílias de esquizofrênicos, que auxiliaram no chamado duplo-vínculo, favorecendo no acompanhamento de filhos esquizofrênicos (PRADO, 2009, p. 233).

Houve um avanço do conhecimento sobre as causas da saúde e da doença psíquica, não apenas do indivíduo, mas, nas relações e interações de membros dos sistemas familiares, em direção diferente à dos modelos até então conhecidos, da perspectiva psicanalítica (PRADO, 2009).

Por um período, houve um destaque no trabalho que considerava a família tri geracional, ou seja, a ênfase da importância dos avôs na família.

A partir disso, a história da família ganha valor e as interações passadas são consideradas como influentes no comportamento dos pais e, portanto, afetam toda a vida familiar. Assim, toda a estrutura histórica da família, tudo o que foi construído no passado, como, abusos sexuais, violências, segredos de paternidade, adoções, mitos e crenças, etc., são avaliados como influenciadores na distorção das interações do tempo presente (PRADO, 2009, p236).

Os anos oitenta também contribuíram para a ampliação da perspectiva do genograma e da terapia sistêmica, pois, o movimento feminista impulsiona o desenvolvimento da terapia familiar feminista, valorizando diferenças de gênero e aspectos particulares do papel da mulher na sociedade, família e casamento (PRADO, 2009).

No entanto, todas as considerações, inclusive sobre as particularidades do papel da mulher, devem ser construídas no genograma em conjunto, terapeuta e família, devem buscar compor a história da família com todas as características e problemas que vierem à tona. (PRADO, 2009, p 237)

As alterações e complementos no processo terapêutico chegam ao ponto de influenciar pioneiros na orientação de família, como, Minuchin, ainda vivo, em sua nona década de vida, autor do livro Dominando a Terapia Familiar, publicado em 2008, considerado estruturalista, reconheceu novas visões pós-modernas e acrescentou ao seu próprio trabalho, a avaliação histórica da família (PRADO, 2009).

Outra alteração histórica que influencia no processo terapêutico de família, está relacionada ao sistema familiar contemporâneo, pois, a configuração de família atual é em maioria, composta por famílias de pais sozinhos em decorrência de divórcios, de nascimentos e adoções por pessoas não casadas, indivíduos criados por avós, grupos familiares de filhos de pais diferentes vivendo no mesmo ambiente devido à  casamentos de divorciados, grupos familiares constituídos por casais homossexuais, famílias que vivem em casas separadas, ou mesmo indivíduos que vivem só (PRADO, 2009).

A estrutura do genograma é constituída por uma imagem gráfica, um tipo de mapa e até desenho da família. Esse recurso é utilizado como ferramenta de apoio para um destravamento do sistema, por meio da observação das dificuldades familiares e dos padrões relacionais (WENDT & CREPALDI, 2008).

A avaliação desse mapa favorece para que o clínico examine as prováveis dificuldades e facilidades do eixo familiar. Assim, um dos trabalhos que se utilizam do genograma é na caracterização e cadastramento de grupos familiares, em órgãos públicos que lidam com auxílio à família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Podemos dizer que o genograma é um “mapeamento gráfico da história e do padrão familiar”, onde podemos perceber: a) estrutura básica; b) demografia; e c) funcionamento e relacionamentos; que formam um gráfico dos dados coletados. O mapeamento expõe as etapas familiares através das gerações, além das estruturas emocionais associadas (WENDT & CREPALDI, 2008).

A função mais importante do genograma é cruzar dados familiares em momentos de avaliação, para acompanhamento adequado em meio aos processos relacionais em meio à terapia (WENDT & CREPALDI, 2008).

Para isso, as informações da família são organizadas em estrutura gráfica, para que se tenha uma visão mais clara da complexidade dos padrões de grupo. Supostamente, os membros do grupo são interdependentes, por mais que sejam idiossincráticos. Portanto, quando uma parte do sistema muda, todos os demais membros são afetados (WENDT & CREPALDI, 2008).

Através desse gráfico é possível identificar mitos e crenças que guiam e formam famílias por gerações, bem como sustentam rupturas de relacionamentos e dificuldades de trato.

Uma das formas de se analisar uma família é pela observação dos subsistemas, fronteiras e demais abstrações que podem ser percebidas entre os membros do grupo ao longo da história de vida. Esta construção abstrata indica uma estrutura familiar e delimita configurações do grupo (WENDT & CREPALDI, 2008).

A dinâmica familiar é a forma de relacionamento estabelecida pelos membros do grupo, ou seja, o modo como desenvolvem vínculos ou tratam seus problemas, os ritos, as regras, definição de ordem e papeis de cada membro da família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Os filhos fazem com que a família amplie ou modifique a estrutura interna vigente, o que favorece para o surgimento de novos subsistemas (WENDT & CREPALDI, 2008, p.305).

Enfim, em meio a tantas alterações nas composições de famílias, o genograma segue como ferramenta de auxílio fundamental na construção de um modelo terapêutico que integre e enriqueça as técnicas de apoio a disfunções relacionais.

Em relação à dependência química, o genograma atua como ferramenta de compreensão, pois, a estrutura gráfica proporcionada pelo genograma auxilia no desenvolvimento da compreensão familiar de como a doença surgiu, retirando o estigma do individuo que se tornou dependente químico, por meio de um esclarecimento sobre a realidade patológica de toda a família.

Para exemplificar, será mostrado aqui o genograma de uma família onde foi percebido um histórico de dependência química, inicialmente considerado como algo comum, devido ao fato de bebidas alcoólicas serem drogas lícitas, mas que, proporcionaram o surgimento de dependentes de drogas ilícitas como cocaína e crack.

O dependente titular desse genograma é descendente da junção das famílias O.M. e P.M.

  • Família O.M. (geração de avós)
Família O.M. (geração de avós)
  • Família O.M. (geração de tios)
Família O.M. (geração de tios)
  • Família O.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma

 

  • Família O.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M. (geração de avós)
Família P.M. (geração de avós)
  • Família P.M. (geração de tios)
Família P.M. (geração de tios)
  • Família P.M.
    • Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma

Observações sobre o genograma

Alergias, diabetes, dificuldades oftalmológicas, doenças cardíacas e problemas gerais de pressão, são características comuns a quase todos os membros da família.

O número de alcoolistas chegou a quase 56 membros da família e nove foram usuários de drogas (cocaína e crack). Atualmente, a maioria afirma ter deixado as drogas e bebidas por questões religiosas.

Três pessoas manifestaram câncer, sendo que, no caso de M.A. houve manifestação da doença em três momentos distintos e recuperação da saúde, de modo que permanece viva.

Dois casos de distúrbio psiquiátrico foram confirmados clinicamente, porém, foram tratados e recuperados totalmente.

Não existe padrão em relação à conduta escolar. É possível perceber pessoas de todos os níveis de estudo e atuando em diversas áreas, com predominância nas seguintes profissões: Motorista, Professor, Ourives, Pedreiro e Pastor Evangélico.

Em relação à constituição familiar podemos observar divórcios, relações extraconjugais constituídas paralelamente e mães solteiras.

De modo geral, foi percebido que a maior marca da família é a falta de relacionamento e de interesse mútuo. Isto foi comprovado pela dificuldade em conseguir informações dos membros da família por meio de entrevistas, de modo que, a maior parte das informações desse relatório foi adquirida por meio de pesquisas em cartórios e documentos diversos.

Três questões para exemplificar o nível do distanciamento das pessoas que compõem este grupo familiar.

  • Mesmo os dados mais simples não são de conhecimento de parentes próximos. Por exemplo: Em meio à pesquisa nos cartórios foi descoberto que I. P. (avô do titular do genograma) era gêmeo com G. P. (comprovado vivo até a juventude em documento de cartório) e este era desconhecido de seus sobrinhos, filhos de I.P. , que se surpreenderam ao saber da existência de um tio gêmeo do pai.
  • Em meio às tentativas de entrevista de familiares, houve discussões sobre o distanciamento dos membros da família e alegações do tipo… “Há dez anos não vejo meu irmão! E moramos a em bairros vizinhos!”
  • Também por meio de pesquisa em cartórios, foi descoberto que, B.O. , filha de M.A. , foi registrada em nome de A.O. e criada como filha de J.A.
    • Após a descoberta, discussões explicaram que a situação foi causada em decorrência de que, a gestação de B.O. ocorreu na adolescência de sua mãe, que, ainda solteira, não seria bem vista na sociedade da época, portanto, a criança nasceu em outra cidade e foi registrada como filha de uma prima de sua mãe, contudo, foi criada como filha da própria avó. Obs. Mãe e filha ainda vivem e se tratam como irmãs, a família não comenta o assunto.

Diante disso, pode-se perceber o quanto as ações familiares influenciam na formação do caráter do indivíduo, bem como, as circunstâncias vivenciais modificam os valores e interesses das pessoas. Pode-se perceber que, o titular do genograma, cresce em meio a alcoolistas, dependentes químicos, familiares distantes, mentiras, omissões, doenças e brigas, que proporcionam um ambiente favorável para que este se torne suscetível ao abuso do uso de substâncias químicas, como tentativa de refúgio, busca de segurança e mesmo por meio dos referenciais de pessoas estimadas que, já fazem uso de substâncias psicoativas.

 A partir do reconhecimento de uma situação de dependência química instalada, é necessário o desenvolvimento de uma avaliação psicológica com vistas à intervenção para possível auxílio no controle da situação de dependência.

2 Avaliação & Intervenção Psicológica

A psicometria é um ramo da estatística que estuda fenômenos psicológicos. Não se trata apenas de métodos, ela se insere na teoria da medida que trata da utilização de números no estudo dos fenômenos naturais. O processo de avaliação psicológica começa a ganhar estrutura a partir da elaboração de instrumentos de medida psicológica. Assim, a avaliação tende inicialmente a ocupar lugar de diagnóstico nos âmbitos clínicos e de trabalho e posteriormente repercute em todas as perspectivas do indivíduo. No entanto, apesar do desenvolvimento da área e da solidificação de análises e instrumentos, ainda existem críticas sobre os testes psicológicos.

Atualmente, pode-se dizer que, os instrumentos foram atualizados e compreende-se que o conhecimento é adquirido pela relação com o outro e a observação desta relação. Tornando o diagnóstico uma questão, por um lado racional, por outro, empático (NASCIMENTO, 2005, p. 217).

No Brasil, a psicometria ganha um grande espaço de discussão, devido ao modo como os testes veem sendo utilizados, sem o rigor necessário e estudos adequados, de forma que descaracteriza o método e sua cientificidade (NORONHA; BALDO; ALMEIDA; FREITAS; BARBIN; & COZOLI, 2004).

O rigor do método se deve à importância do mesmo, pois, a partir da psicometria é possível mensurar questões individuais em perspectivas legais, como quando um teste serve de base para distinguir entre dano moral e dano psicológico.

O dano moral é identificado como parte da percepção subjetiva de prejuízo em questões de honra, finanças ou de liberdade, enquanto que o dano psicológico está vinculado à saúde, possibilitando desenvolvimento de patologias (ROVINSK, 2005, p.178).

A avaliação psicológica é um dos principais campos da atuação do psicólogo. E isso, porque, a partir dos resultados dos testes, é possível se fazer inferências acerca do comportamento humano, de modo a auxiliar o indivíduo a tomar decisões diante de situações específicas (ÁVILA-BATISTA, 2011, p. 11).

Assim, o teste mais utilizado no Brasil para avaliação psicológica, tanto em relação à gravidade quanto à intensidade de danos, em casos de dependência química, é o MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview). Seu questionário foi validado para a realidade brasileira e, por isso, sua eficácia tem sido continuamente constatada a cada aplicação, de modo que, muitos pesquisadores se utilizam com tranqüilidade deste instrumento.

2.1 MINI: Características e validação do instrumento

Dentre os métodos psicológicos reconhecidos estão o DSM IV TR (2002) a nível clínico e de diagnóstico de dependência química e o SADD (1983) como avaliador de gravidade da dependência química (SOUZA; BITENCOURTT & OLIVEIRA, 2006, p. 111).

O Mini International Neuropsychiatric Interview, doravante designado MINI, é um questionário de auxílio para desenvolvimento de diagnóstico padronizado breve (15-30 minutos). É compatível com os critérios do DSM-III-R/IV e do CID-10 e sua utilização é indicada na prática clínica e na pesquisa em atenção primária e em psiquiatria. Pode ser utilizado por clínicos após um treinamento rápido (de 1 a 3 horas). O MINI Plus, versão mais detalhada, pode gerar diagnósticos dos principais transtornos psicóticos e do humor do DSM-IV (SCHEFFER; PASA; & ALMEIDA, 2010, p.535).

O MINI é estruturado em módulos diagnósticos independentes, para otimizar a sensibilidade do instrumento, na tentativa de diminuição de falso-positivos. Como meio de redução de tempo da entrevista, são utilizadas as seguintes estratégias: observação dos transtornos atuais, para facilitar a escolha da terapia mais adequada no momento; as questões são de resposta objetiva entre SIM/NÃO; questões de entrada exploram critérios obrigatórios para excluir diagnósticos de respostas negativas; as características e sintomas ocasionais de transtornos não são sistematicamente exploradas; e os algoritmos são integrados à estrutura do questionário, permitindo estabelecer ou excluir os diagnósticos ao longo da entrevista (AMORIN, 2000, p. 107).

Foram desenvolvidas duas versões do MINI para responder aos diagnósticos específicos de contextos diferentes:

1) voltado para ensaios clínicos e cuidados primários. O MINI abrange 19 módulos que alcançam 17 transtornos do eixo I do DSM-IV, o transtorno da personalidade anti-social e o risco de suicídio. O módulo Síndrome psicótica descobre os indícios do critério da esquizofrenia, com a finalidade de eliminar a possível existência de um transtorno psicótico. Os outros módulos determinam análises positivas.

2) proposto para a avaliação aprofundada das desordens mentais ao longo da vida, na pesquisa e na clínica em psiquiatria. O MINI Plus explora ordenadamente todos os critérios de abrangência e de eliminação, bem como a cronologia de 23 classes diagnósticas do DSM-IV. O módulo Transtornos psicóticos produz a análise positiva de 7 subtipos de psicoses: (1) transtorno psicótico sem especificação, (2) transtorno delirante, (3) transtorno psicótico breve, (4) transtorno esquizoafetivo, (5) transtorno esquizofreniforme, (6) esquizofrenia, e (7) transtorno psicótico decorrente de uma condição médica geral e/ou induzido por substâncias (AMORIN, 2000, p. 108).

O método utilizado para a validação do instrumento MINI foi o teste de confiabilidade entre métodos.  Era necessário provar a concordância entre o diagnóstico gerado pelo MINI e aqueles gerados por métodos já reconhecidos. Foram escolhidas duas estratégias para validar o novo procedimento diagnóstico: “compará-lo a diferentes critérios de referência e compará-lo ao Best Diagnosis ou LEAD Standard” (AMORIN, 2000, p. 108).

O MINI/MINI Plus foi comparado a questionários padronizados com características distintas, empregados em pesquisas internacionais – o CIDI e o SCID-P – e com a apreciação de psiquiatras. Além disso, foram realizadas análises quantitativas e qualitativas, pela metodologia do LEAD Standard.

2.1.1 Aplicação do MINI e os resultados obtidos junto a Dependentes Químicos

A dependência química é o resultado de uma relação doentia entre um indivíduo e uma substância psicoativa (SPA). Inicialmente o consumo pode ter diversos motivos que possivelmente prosseguirão após o desenvolvimento da dependência. O abuso do uso de SPA, frequentemente desenvolve a dependência e esta, traz consigo, comorbidades psiquiátricas, o que é desfavorável ao tratamento da dependência química. O episódio de um transtorno adicional pode comprometer o diagnóstico, tratamento e prognóstico de ambos os problemas (SILVA; KOLLING; CARVALHO; CUNHA; & KRISTENSEN, 2009, p.102).

Estudos afirmam que um terço dos alcoolistas demonstra ansiedade em níveis significativos. Uma média de 50 a 67% dos alcoolistas e 80% dos dependentes de outras drogas apresenta características semelhantes ao transtorno do pânico, dos transtornos fóbicos ou do transtorno de ansiedade generalizada. Conforme Silva, “pacientes com comorbidade psiquiátrica, principalmente aqueles com transtornos psiquiátricos graves, apresentam maiores taxas de suicídio, agressividade, detenção por atos ilegais, recaídas, internações, mais gastos com tratamento…” (SILVA et al, 2009, p.104).

Para a aplicação do instrumento, Silva realizou uma pesquisa, a partir de 31 pessoas, diagnosticados dependentes de álcool ou cocaína / crack a partir do CID-10 e DSM-IV. O trabalho foi realizado em um hospital de Porto Alegre – Hospital Parque Belém – tendo como critérios de exclusão: 1) a idade abaixo de 18 anos; 2) estado de abstinência de duas semanas; 3) experimentadores e ex-usuários; 4) dependência de outra substância; 5) menos de um semestre de uso regular de SPA.

A pesquisa foi realizada predominantemente por:

  • pessoas do sexo masculino (84%)
  • entre 20 a 56 anos de idade
  • sendo que, 19,4% dos participantes tinham ensino fundamental incompleto
  • 16,1% terminaram o ensino fundamental
  • 16,1% afirmavam ter ensino médio incompleto
  • 29% concluíram o ensino médio
  • 12,9% tinham ensino superior incompleto
  • e 6,5% possuem ensino superior completo.

 Em média, os envolvidos apresentaram 25 dias de abstinência. A coleta de dados durou em torno de 60 minutos e os instrumentos utilizados foram: formulário padronizado, elaborado por Silva, e o MINI Plus (SILVA et al, 2009, p.106).

Como resultado da aplicação do instrumento foi observado que: 1) os participantes do sexo masculino apresentavam maior tempo de abstinência; 2) os dependentes de cocaína / crack, são mais jovens que os alcoolistas; 3) 67% dos envolvidos na pesquisa, afirmavam ter parentes próximos que faziam uso abusivo de álcool e/ou drogas; 4) 38,7% tem pais dependentes químicos; 5) 25,8% são sobrinhos de dependentes; 6) 22,6% são primos de dependentes; 7) 19,4% são netos de dependentes; 8) 12,9% tem irmãos dependentes; 9) 6,5% tem mães dependentes de SPA; e 10) 3,2% tem filho dependente químico. Transtornos mentais foram percebidos em 83,9% dos participantes, além da percepção de comorbidades múltiplas em grande parte do grupo estudado (SILVA et al, 2009, p.108).

A partir da observação e avaliação dos resultados da aplicação do MINI, é possível que a intervenção psicológica seja mais adequada. Ou seja, torna-se mais difícil que o terapeuta promova um direcionamento errado, de modo a prejudicar o dependente. Tanto em relação ao desenvolvimento do tratamento, quanto no que diz respeito ao surgimento de novos problemas. A partir da avaliação, o passo seguinte é a intervenção.

2.2 Intervenção: Entrevista psicológica

A entrevista psicológica é uma ação entre duas pessoas – das quais, um deve ser profissional da psicologia – onde ocorre uma troca de informações, por meio de diálogo em uma comunicação informal e por tanto, os nomes e conceitos atribuídos a esse diálogo são muitos, de maneira que os teóricos da área ainda discutem o tema com intensidade (ALMEIDA, 2004, p. 34).

A expressão entrevista psicológica é efetuada por psicólogos no exercício de suas atividades. E levam em conta, perspectivas e fatores psicológicos percebidos anteriormente, com o objetivo de resolver problemas que habitualmente fazem parte do quadro da psicologia, ou seja, seleção e orientação profissional, pesquisas psicológicas, estudos de opinião pública, exame de personalidade, etc. No entanto, a avaliação psicológica não é uma prática independente de amarrações teóricas que a direcionem, é necessário identificar as perspectivas teóricas adequadas, de acordo com o que deve ser avaliado e o modo como deve ser analisado, além de forma de utilização dos resultados obtidos (SPARTA; BARDAGI; &  TEIXEIRA, 2006, p. 19).

De acordo com Sullivan (1970), a entrevista psicológica é uma comunicação vocal a partir de duas pessoas, integradas numa estrutura terapeuta-cliente e que se desenvolve progressivamente com objetivo de clarificar situações de vida dos entrevistados, vividas de modo especialmente penoso ou valioso, com objetivo de que esta clarificação possa gerar algum benefício para o cliente (p. 4).

Assim, nos atemos ao estudo da entrevista psicológica, com a intenção de pontuar sobre regras que auxiliam para que a aplicação da técnica seja mais adequada, de modo a facilitar o desenvolvimento da análise. Isto porque, só o cliente realmente tem condição de expressar sobre o próprio sofrimento e, portanto, se faz necessário que o terapeuta consiga identificar o problema e conduzir o cliente no processo de ajuda, a partir desta identificação (OLIVEIRA, 2005, p.1).

A entrevista psicológica deve ser realizada através de procedimentos e técnicas próprias e empíricas. É o ponto de encontro entre a ciência psicológica e a prática. Por tanto, é a partir da entrevista que se é possível aplicar de modo prático, os conhecimentos elaborados sobre as perspectivas psicológicas, por meio de um processo de interação (BLEGER, 1998, p. 1).

Todo o aparato instrumental do profissional da psicologia consiste no resultado das elucubrações do paciente, que voluntariamente ou impulsionado por facilitações do terapeuta, se dispõe e falar sobre aquilo que lhe é problema, ou motivação que o levou à clínica psicológica. As palavras do paciente são na verdade o material sobre o qual irá trabalhar na tentativa de uma melhor compreensão do caso (AUGRAS, 2002, p. 82).

As técnicas da entrevista são ferramentas de auxílio para que o paciente se sinta mais a vontade para expor suas questões e para que o terapeuta tenha maior acesso às informações essenciais na elaboração do processo de ajuda. Por meio da entrevista, é possível testar limites, contrapor, confrontar e buscar esclarecimentos para as respostas do sujeito. Por isso, a entrevista clínica tem lugar de destaque incomparável entre as demais técnicas de avaliação (TAVARES, 2002, p. 75).

2.2.1 Primeiras Entrevistas

O objetivo das primeiras entrevistas é identificar os aspectos mais relevantes do caso e a partir disso, identificar a melhor maneira de deseenvolver o acompanhamento.

No decurso destas primeiras entrevistas, o analista deve: 1) escutar e tentar peceber na historia de vida do paciente, os problemas e perturbações a serem trabalhados; 2) avaliar o nível de vontade e condição do paciente para o acompanhamento terapêutico; 3) observar as características psiquicas, bem como a habilidade de verbalizar e tolerar a condição de analise.

A partir disto, se a analise for realmente indicada ao caso, deve ser fixado um modo de acompanhamento, ao estabelecer a duração, a frequência das sessões, a postura do analisado (divã, por exemplo) e a postura do analista (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

O trabalho do analista é o de observar, escutar, compreender, saber esperar e calar-se e no momento oportuno e dar a interpretação que convêm. Após isto, o terapeuta deve comunicar ao paciente o conteúdo latente do discurso deste.

Esta comunicação deve ser elaborada a partir da reunião de elementos separados do discurso. É um trabalho de reorganização e de atribuição de sentido à narrativa do paciente.

Essa devolução organizada das informações do sujeito precisa ser realizada em momento adequado, que este tenha condição de ouvir e de assimilar as informações apresentadas pelo terapeuta. É um trabalho de cooperação na construção de questões interenas do individuo  (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

É importante saber que, as primeiras entrevistas podem desencadear alguns fatores psicológicos. É imprescindível estar atento a:

  • Resistências – dificuldades gerais que o paciente possa apresentar em relação ao desenvolvimento do processo terapêutico.
  • Transferência – ação inconsciente de vivência momentânea das questões que afligem o paciente, de modo que as emoções sejam transferidas do evento, para o terapeuta.
  • Contratransferência – ação de deslocamento das emoções do terapeuta para com o paciente, ante alguma vivência comum ou situação específica do momento vivencial do terapeuta.

Estas situações podem ocorrer em meio a qualquer processo terapêutico e precisam ser consideradas com cuidado para que o tratamento não seja prejudicado (NETO, A.C.; DAL-BÓ, M. J.; BREDA, R. L.; & CRESTANA, T. 2003, p. 266)

2.2.2 Entrevista nas psicoterapias breves

A psicanálise influenciou a psicologia tanto em questões teóricas quanto a nível de exemplo. Por outro lado, a psicologia auxiliou na propagação da psicanálise em países que demonstravam indiferença à atuação psicanalítica. Ainda assim, é notória as especificidades de cada uma das disciplinas.

Ferenczi, psicanalista contemporâneo de Freud, é um dos precursores das psicoterapias breves. Decidiu por buscar novas maneiras de ajudar os seus pacientes, e para isso, experimentou um certo número de mudanças técnicas. É assim que ele começa por atuar a partir da técnica activa, fundada na observação atenta e empática, que consiste em intervenções directivas por parte do analista: formular, por exemplo, ordens e interdições (OLIVEIRA, 1999, p.10).

Michael Balint propõe a psicoterapia focal; trata-se de entrevistas face a face, cujo número é limitado no tempo, com uma focalização no problema do paciente (PSICOTERAPIA BREVE, 2003-2011).

Alexander e French propõem modificações técnicas da psicanálise e desenvolvem aexperiência emocional correctiva. Alexander propõe trabalhar com base no método das associações livres, mas associa igualmente entrevistas mais directas e dá directivas ao paciente, ele pensa também que as atitudes do terapeuta devem ser suficientemente flexíveis para se adaptarem caso a caso (OLIVEIRA, 1999, p.11).

De um modo geral, podemos dizer que, por meio da entrevista psicológica, o cliente precisa alcançar o relaxamento suficiente, para que o terapeuta consiga perceber as situações que lhe causam desconforto, ansiedade e outros problemas que o motivaram a procurar ajuda terapêutica e apartir disso, seja possível a elaboração – por parte do profissional da psicologia – de um processo terapeutico adequado, considerando as abordagens psicologicas cabiveis.

O objectivo é, portanto, fazer com que o sujeito tome consciência dos seus pensamentos, reconhecer aqueles que são inexactos e substitui-los por ideias positivas.

Para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta a  compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É impressindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E agora, de posse de sua bagagem técnica tecer suas observações, ponderações e considerações, de modo axiomático, considerado que a utópica da neutralidade sempre deverá ser perseguida.

Os princípios éticos serão avivados em cada encontro, e nenhum instrumento poderá adquirir uma aura de prevalência sobre a pessoa do entrevistado, que é mais importante e assim deve ser respeitado.

É fundamental que o profissional se conheça e que tenha como rotineiras, as reflexões sobre suas próprias atitudes, postura e comportamento. É preciso que tenha também flexibilidade em modificar-se, quando a necessário. Muito do trabalho do psicólogo certamente vem em conseqüência do auto conhecimento, que lhe dará a base na qual se apóiam à sua atuação e intervenção com toda transparência.

2.3 Abordagens

No campo da Psicologia, são muitas as abordagens existentes para tratamentos de conflitos. Há aquelas em que o cunho está mais voltada para o autoconhecimento do sujeito, seus traumas e conflitos internos, existem aquelas que trabalham com as crises e suas repercussões no momento, e, há também as de fundo filosófico que vêem o sujeito não somente como uma psique em crise, e sim como um todo levando em conta seu lado social e seu relacionamento com consigo mesmo e com o mundo.

As abordagens que pontuaremos, devido ao reconhecimento e destaque geral no campo da psicologia são quatro: Abordagem Fenomenológica; Abordagem Humanista; Abordagem Sistêmica; e Abordagem Cognitivo Comportamental.

2.3.1 Abordagem Fenomenológica

A perspectiva fenomenológica surge como reação às teses e à maneira de compreender questões patológicas no início do século XIX.

A abordagem surge a parir da filosofia, em particular da filosofia a alemã. Tendo como precursor Edmund Husserl, que elaborou os fundamentos desta idéia. Ele propõe compreender o homem e a sua psicologia a partir da análise dos estados de consciência, das questões vivenciais, da experiência e dos modos de relação do sujeito com o seu meio. Martin Heidegger, discípulo de E. Husserl, propõe uma filosofia que prioriza o conhecimento do ser humano no mundo, da realidade humana a partir da descrição das coisas na sua essência sem qualquer pressuposto teórico (VILA-CHÃ, 1988, pp.357-365).

A filosofia fenomenologica destaca a necessidade de um retorno à experiência humana como objecto de uma descrição; esta enfoque marcou profundamente a psicologia e a psicopatologia. Karl Jaspers é um dos primeiros a introduzir a dimensão fenomenologica em psicopatologia (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Karl Jaspers desenvolveu uma abordagem descritiva da fenomenologia; o seu método consistia em descrever as vivências psíquicas conscientes dos doentes mentais, classificar esses estados entre si e compara-los com as vivências psíquicas do homem normal (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Os fenomenologistas têm como referencia essencialmente Ludwig Biswanger, que pensa que é preciso ampliar a compreensão do doente tal como ele se encontra, mais do que compreende-lo a partir das teorias pré estabelecidas, que pertencem ao terapeuta e não ao doente; ele propõe uma análise que se baseia mais na relação e na experiência vivencial (CHAMOND, 2011, pp. 3-7).

A abordagem fenomenologica não propõe qualquer técnica psicoterapeutica particular, mas insiste na noção de comunicação, a partir de uma comunicação e uma relação verdadeira entre o clínico e o seu paciente. O ênfase está na relação terapêutica, que é considerada como uma relação inter-humana, portanto uma possibilidade de encontro, um face-a-face e uma troca com o outro. Não está baseado em regras técnicas, mas, uma reflexão teórica sobre a noção de psicoterapia e uma reflexão sobre a prática da entrevista, insistindo na experiência comunicativa entre os dois interlocutores (LESSA &  SÁ, 2006, pp. 393-397).

2.3.2 Abordagem humanista: Carl Rogers

As percepções de C. Rogers tiveram grande influência no que diz respeito à psicoterapia. Elas integram uma abordagem humanista bastante próxima do ponto de vista fenomenologico, assumindo uma posição face às teorias psicanalítica e behavioristas, a partir do interesse pela nosografia e pela estrutura da personalidade.

Conforme Rogers, em todo o ser humano existem potencialidades que podem ser desenvolvidas numa relação interpessoal, a partir da aceitação, compreensão empática, e, não diretividade, por meio de uma relação interpessoal e construtiva.

O processo terapêutico, segundo C. Rogers, envolve uma libertação dos sentimentos a partir da experiência vivencial e a percepção disto durante a terapia, para que o indivíduo tenha como modificar sua prática de atitudes e assim, desenvolver congruência consigo próprio (AMATUZZI, & CARPES, 2010, pp. 11-25).

2.3.3 Abordagem Sistêmica

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

2.3.4 Abordagem Cognitiva e Comportamental

A abordagem cognitiva e comportamental representa um conjunto de técnicas baseadas nas teorias da aprendizagem e nos contributos da psicopatologia cognitiva. Todas elas têm em comum um certo número de características: O estabelecimento de um contrato entre o paciente e o terapeuta; A definição clara e precisa dos objectivos terapêuticos, com uma definição das condutas que vão ser alvo das tentativas de mudança; A duração do tratamento, que é geralmente bastante breve, de três a seis meses; A medida quantitativa e qualitativa da mudança obtida.

Têm por objetivo suprimir o comportamento inapropriado para o substituir por um comportamento adaptado, segundo as leis do condicionamento. Por exemplo, a técnica da dessensibilização, utilizada para tratar as fobias (BAHLS; & NAVOLAR, 2004, pp.1-11).

A Psicologia é uma área muito ampla e as abordagens são diferentes entre si. Elas diferem em filosofia, objeto de estudo, teoria, linguagem, formas de pesquisa, dados científicos e práticas de intervenção. Todas essas características resultam em perspectivas muito particulares de como perceber o homem e como lidar com ele profissionalmente, e resultam em certas expectativas de postura do psicólogo, portanto, é necessário cuidado ao escolher a abordagem mais adequada.

3 Psicologia & Religião: Caminho terapêutico para o dependente químico?

Uma das características do processo terapêutico está relacionada ao valor e lugar que o do processo catártico em meio ao tratamento escolhido. Pode-se dizer que catarse é um processo de liberação de angústias e emoções reprimidas, ou de algum modo contidas, que, a partir de certo ponto podem causar distúrbios psicológicos (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O termo Catarse surge com Aristóteles. Por meio da ação poética, o palco tornava-se lugar de liberação das expressões emocionais por meio do drama e da tragédia. Posteriormente a ação catártica de purificação das emoções passa a ser vivenciada também pelo expectador (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Após o estabelecimento do processo catártico, por anos, esta ação foi vivenciada como ritual de purificação de espíritos malignos e/ou influências negativas externas sobre a vida das pessoas, por meio de ações como exorcismos, hipnose e semelhantes (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O processo foi utilizado a partir de diferentes perspectivas, passando por Freud, Diderot, Lessing, Goethe, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Em cada perspectiva a catarse ganhou um nome diferente como: análise do caráter, Gestalt-terapia, terapia primal, analise bioenergética, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

De modo geral pode-se dizer que a catarse atua claramente em três perspectivas humanas: médica, moral e religiosa (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

No que diz respeito ao aspecto médico, a catarse pode ser compreendida como ação homeopática de purificação do corpo (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A perspectiva moral entende que, ao purgar as malignidades por meio da catarse, a conduta do indivíduo seria equilibrada e não haveria riscos de ações imorais / malignas (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A ênfase religiosa da catarse aparece desde o teatro grego, onde a tragédia era compreendida como excitação religiosa e êxtase báquico. É possível citar também a influência hebréia no que diz respeito às experiências de sofrimento de personagens bíblicos como Ana (1 Sam 1:12-16), que não podia ter filhos e por isso, chorava e sofria diante de Iahwe. A oração sofrida acompanhada por movimentos de lábios que lembravam embriaguês, tiveram como resultado, a resposta do clamor, alívio e cura da alma. Além disso, Inácio de Loyola afirmou que a prática da glossolália (dom de línguas) resulta em paz e crescimento (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

Ainda hoje é possível perceber que, algumas linhas de orientação religiosa são desenvolvidas a partir de processos terapêuticos, que promovem reações com caráter catártico, especialmente em comunidades terapêuticas para recuperação de dependentes químicos (em maioria, apresentam fundação religiosa). Diante disto, torna-se imprescindível a observação da prática terapêutica psicológica, paralela ao sistema de orientação religioso que ocorre em meio à essas comunidades.

É fácil perceber a importância da relação de ajuda, desenvolvida por meio do aconselhamento, ante a necessidade humana de apoio e orientação em situações de crise e conflitos de modo geral.

O aconselhamento psicológico é um trabalho realizado por meio de encontros regulares e de caráter profissional, entre um cliente e um psicoterapeuta, com vistas a proporcionar suporte para que o indivíduo ultrapasse dificuldades relacionais ou pessoais. A compreensão de uma situação em particular, pode levar o indivíduo a aceitação ou a mudança de conduta,  de modo que, a pessoa tenha suas questões internas resolvidas (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.207).

 O aconselhamento religioso é um processo de mediação, realizado por um conselheiro, que neste caso, exerce a função de terapeuta, no sentido do grego antigo, que tem a conotação de cuidar, servir, tratar e também render culto. Ou seja, o terapeuta não é responsável pela cura, mas, é quem facilita o encontro entre àquele que cura e o necessitado, seja por meio de orações, de orientações, de imposição de limites ou simplesmente pelo direcionamento, para que o necessitado caminhe em direção àquele que tem o poder de curar (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.208).

Algumas linhas de aconselhamento relacionam, propositalmente ou não, a bíblia ou princípios morais do cristianismo, com linhas psicológicas específicas, como apresentaremos adiante.

3.1 Psicanálise & Cura do Passado

A psicanálise é uma metodologia desenvolvida por Freud, que considera como essencial, compreender o inconsciente do indivíduo e integrá-lo ao consciente, por meio da interpretação das ações e palavras, bem como de produções imaginárias, sonhos, delírios, associações livres e atos falhos (BOCK, 1999, p.70).

Esta interpretação visa promover um equilíbrio que auxilie no ajuste da conduta humana, de modo que seja possível a eliminação do mal-estar e do sofrimento. A idéia central é de que o autoconhecimento desenvolve a capacidade de lidar com as adversidades e superar as dificuldades (CATALDO NETO; GAUER e; FURTADO, 2003, p. 776).

Desse modo, é possível adquirir autonomia, por meio de uma capacidade criativa de cada indivíduo, grupo e instituição, por meio de um processo onde seja possível desfazer calmamente as barreiras do paciente (BOCK, 1999, p.80).

O princípio da desmontagem das resistências do inconsciente, está relacionado ao fato de que Freud considera que experimentamos a ansiedade já no primeiro momento da vida humana e a causa desta angústia é o parto (MEZAN, 2006, p. 527). Portanto, todo o passado do indivíduo, mesmo as coisas que de modo natural não são lembradas, como a sensação do nascimento, são importantes no trato das doenças desenvolvidas por meios de traumas.

A cura do passado é uma metodologia cristã, que afirma a cura por meio de uma volta ou de um relembrar o passado. É conhecida também como cura interior, cura das memórias, cura da árvore genealógica (SEAMANDS, 2007, p.12) dentre outros.

A metodologia foi desenvolvida por um psicanalista austríaco, Otto Rank, discípulo direto de Freud, que se aproxima da psicanálise ainda na adolescência, após a separação de seus pais (HURDING, 1995, p.411).

O trabalho tem como base a terapia desenvolvida durante a imaginação pela fé e o aconselhamento desenvolvido por meio da oração (SHLEMON, 1986, p.12), que visa conduzir o  indivíduo de modo consciente, à uma situação de crise do passado, e, por meio da conscientização da presença de Jesus – enquanto Deus atemporal – no momento em questão (HURDING, 1995, p.416), curar feridas e suas consequências na vida prática da pessoa que se dispõe a ser acompanhada.

A ênfase da cura interior ganha maior repercussão a partir dos estudos de alguns nomes como Anne White, Francis MacNutt e Ruth Stapleton, sendo que esta, afirma a cura interior como ação de restauração das emoções por meio das orientações do Espírito Santo (HURDING, 1995, p.416).

A partir da década de 1960, influenciado pela metodologia da cura interior, Frank Lake, médico missionário com treinamento em psiquiatria, desenvolve o que posteriormente ganha o nome de Teologia Clínica (EVANS, 2002, p.186).

O trabalho considera o princípio freudiano do trauma no nascimento e por isso, Lake utiliza teorias “reichianas e bioenergéticas de respiração profunda” (HURDING, 1995, p.420) para conduzir o indivíduo a reviver a experiência do nascimento e outras experiências traumáticas, na tentativa de resolver os problemas adquiridos durante a gestação e parto.

Lake, afirma que os sentimentos da mãe, sejam bons ou ruins, são transmitidos à criança durante a gravidez e a angústia da separação do bebê com a mãe por meio do parto, é relacionada a angústia gerada pela separação de Cristo com o Pai no Getsêmani e Gólgota.

Nesta pesrpectiva, pode-se entender que, a cura acontece por meio da realização do ego, mas, não o ego como compreendido por Freud, o ego do indivíduo, e sim, um tipo de ego ideal, que é gerado por meio da realização em Cristo, ou seja, o desenvolvimento de uma nova pessoa ou personalidade, ante ao convívio e comunhão com Deus (HURDING, 1995, pp.426,427).

Relação entre Psicanálise e Cura do Passado

Percebemos de modo claro a influência da psicanálise no desenvolvimento da cura do passado, a partir de um ponto específico: o fundador da teoria de cura do passado é de formação psicanalítica.

Diante disso, fica mais fácil identificar a semelhança na compreensão do ser humano enquanto indivíduo fragilizado desde o nascimento e necessitado de apoio para o autoconhecimento, para que este conhecimento auxilie no desenvolvimento do ego – seja o ego freudiano ou o ego ideal de Lake – e a partir disso, o indivíduo seja capaz de constituir forças para superar as adversidades e frustrações, sejam essas forças do próprio indivíduo ou da presença de Deus neste.

Ambas as linhas de orientação, conduzem o indivíduo a olhar para dentro de si, com dois objetivos: compreender a si mesmo, e buscar forças internas para continuar vivendo.

3.2 Logoterapia & Aconselhamento Pastoral

A logoterapia, desenvolvida por Viktor E. Frankl, é a terceira escola de psicoterapia de Viena, também conhecida como Psicologia do sentido da vida, devido a experiência de Frankl no campo de concentração, onde compreendeu o sentido do sofrimento (EINSFELD, 2000, p.18).

A logoterapia pode ser compreendida em três categorias de valores: criadores, vivenciais e de atitudes. Os valores criadores são referentes a capacidade criativa nas questões intelectuais, artísticas, de trabalho, enfim, de toda a liberdade de ação humana; os valores vivenciais são adquiridos por meio das experiências afetivas, seja por meio do desenvolvimento das relações familiares, seja pela contemplação da natureza, de observação da arte e cultura ou mesmo, pelas vivências místicas; e por fim, os valores de atitude, caracterizados pelo posicionamento adequado ante os sofrimentos inevitáveis e a condição ou capacidade de sofrer (LUNA, 2005, p.26).

Einsfeld afirma ainda que, Frankl descobriu a liberdade de observar a vida – mesmo que em condições precárias – e conseguir encontrar um sentido, que não depende da realização pessoal, mas, da maneira como a pessoa se coloca diante da situação vivenciada. Esse sentido surge quando a pessoa transforma o sofrimento em conquista, quando a culpa é transformada em oportunidade de mudança, ou quando a transitoriedade da vida auxilia no desenvolvimento de ações responsáveis (EINSFELD, 2000, p.21.).

Segundo Clinebell, o aconselhamento pastoral considera três aspectos essenciais com vistas ao crescimento: luta, morte e renascimento. O trabalho de orientação pastoral é desenvolvido a partir de uma compreensão particular da vida cristã, ao entender que esta não é apenas uma maneira de crer, mas, uma maneira de vivenciar ou experienciar todas as coisas, logo, tem como objetivo, modificar a motivação do comportamento e não apenas da crença humana. E isto, ante a experiência de luta, morte e renascimento de Cristo (CLINEBELL, 1987, p.56).

Clinebell afirma que as pessoas devem encontrar sentido para a vida, em todas as suas circunstâncias, tendo no sofrimento, o crescimento, seja humano, seja espiritual. Isto, porque, o ser humano é tido como carente de sustento, apoio e cuidado.

Essa carência gera crise no indivíduo que, torna-se perdido em si mesmo, de modo que passa a ter necessidade de apoio externo, de uma relação de ajuda, de alguém que auxilie no processo poimênico de cura da alma, por meio do apoio na compreensão do propósito da vida e de suas crises fundamentais, que estão diretamente relacionadas às percepções de “pecado e salvação, alienação e reconciliação, culpa e perdão, juizo e graça, morte e renascimento espiritual” (CLINEBELL, 1987, p. 47).

Relação entre a Logoterapia e o Aconselhamento Pastoral

Ambas as estruturas consideram como base de trabalho o sentido da vida e tratam disto em três perspectivas. Enquanto a logoterapia considera os valores criadores, vivenciais e de atitudes, como fundamentais para o desenvolvimento da capacidade do indivíduo de suportar o sofrimento, o aconselhamento pastoral aponta a luta, morte e renascimento como princípios de fé que devem não apenas nortear a vida mas, dar sentido a ela.

Outra característica está associada a ideia de realização pessoal como processo logoterapêutico, motivador para a continuidade da vida, e o propósito de vida apresentado pelo aconselhamento pastoral, como suporte e estímulo da esperança ante o sofrimento.

Ambas as orientações consideram as vivências como determinantes, ou seja, as vivências podem favorecer para o desânimo e enfraquecimento, ou para o fortalecimento e esperança, dependendo de como o indivíduo se posiciona.

3.3 Behaviorismo & Aconselhamento Bíblico

O behaviorismo  também conhecido como  comportamentalismo ou análise do comporta-

mento, considera uma espécie de ação e reação. O organismo responde a um estímulo, ante a ajustes ambientais ou por hábitos desenvolvidos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, p.45).

Duas situações são utilizadas na análise, o comportamento respondente e o comportamento operante. O comportamento respondente é composto pelos atos involuntários, por estímulos antecedentes ao ambiente, como salivação ou contração das pupilas. Já o comportamento operante é tudo aquilo que o indivíduo escolhe fazer, tudo o que a pessoa pode realizar para influenciar ou afetar o meio em que está envolvido (SKINNER, 2006, p.59).

   Em síntese, podemos dizer que, o comportamento respondente ocorre quando o indivíduo sofre um estímulo, enquanto o comportamento operante acontece quando o indivíduo produz o estímulo.

Além disso, considera-se o reforço, o controle de estímulos, extinção, punição, discriminação e generalização, como ferramentas de identificação, orientação e avaliação de casos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, pp. 50-54), sendo cada categoria compreendida da seguinte forma:

  • Reforço é tudo o que pode modificar uma ação futura, seja positiva ou negativamente;
  • Controle de estímulos é relacionado aos controles como placas de trânsito ou sinais indicativos, que delimitam os espaços e orientam ações de modo objetivo;
  • Extinção é o mecanismo que capacita a redução de determinada ação até a completa extinção da mesma;
  • Punição, leva a redução temporária de certo comportamento;
  • Discriminação, auxilia na modificação de comportamento de acordo com o ambiente;
  • Generalização, dificulta as reações ante a estímulos semelhantes.

O aconselhamento bíblico é o método utilizado por Jay Adams, para confrontar pessoas por meio de textos bíblicos, com a intenção de promover mudanças comportamentais, na tentativa de ajustar o indivíduo à uma conduta considerada biblicamente adequada ou justa (ADAMS, 1999, pp. 58-59).

A metodologia é diretiva, com a intensão de moldar os padrões de comportamento, invertendo ações tidas como pecaminosas, em atitudes justas e positivas, tendo como estímulos, os exemplos dos personagens e as situações apresentadas nas histórias bíblicas (CRABB, 2000, pp. 80,81).

Os limites estabelecidos estão relacionados à questões éticas de uma cultura específica, e portanto, limita as possibilidades de discriminação ou generalização em situações sociofamiliares, de modo que esse limite pode gerar punição e em alguns casos, extinção de comportamentos.

Relação entre Behaviorismo e Aconselhamento Bíblico

O behaviorismoe oaconselhamento bíblico seguem padrões indutivos para influenciar ou mesmo determinar comportamentos. E tem como ferramentas básicas: reforço, controle de estímulos, extinção, punição, discriminação, e generalização.

O diferencial consiste na base de direcionamento. Enquanto o aconselhamento bíblico tem como determinantes os escritos, a moral e a tradição cristã, o behaviorismo trabalha a partir das extruturas individuais de cultura.

Ambas as perspectivas não se orientam a partir da capacidade individual de construção ou elaboração de superação, mas, conduzem o aconselhando à uma decisão e uma ação específica e padronizada.

3.4 Pessoalismo (ACP) & Aconselhamento Cristão

O pessoalismo ou terapia centrada na pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, considera que o indivíduo tem em si uma tendência atualizante, ou seja, uma capacidade natural de se curar ou de se ajustar às mais diferentes situações, de modo a aprimorar o self. A importância deste aprimoramento se deve ao fato de que o self é tido como a essência da personalidade humana, de modo que, o autodiscernimento apresenta-se como chave para o desenvolvimento do indivíduo (SCHULTZ, 2002, pp.316-317).

Na perspectiva do pessoalismo, pessoas psicologicamente saudáveis percebem a si mesmas, então, não se sentem ameaçadas em seu autoconceito. Isto ocorre com aqueles que receberam considerações positivas e portanto, não sentem necessidade de “internalizar condições de merecimento” (SCHULTZ, 2002, p.321) para realizar o self e adquirir pleno funcionamento. Este fato indica também que o indivíduo não apresenta incongruência, que seria a dificuldade de perceber e vivenciar o verdadeiro self.

O trabalho de Rogers é auxiliar o cliente, através do aconselhamento centrado na pessoa e não no problema. A intenção é de desenvolver empatia em meio ao processo de acolhimento, criando uma identificação com o indivíduo, o que facilita para que o mesmo se compreenda e permita o processo natural de atualização do self, gradativamente, em meio ao processo terapêutico. Assim, o indivíduo adquire maior facilidade de se aceitar e a partir disso, gerar condições de enfrentar as dificuldades do mundo experiencial (MORATO, 1999, p.109).

O aconselhamento cristão, segundo Collins (2004, p.45-46), tem como objetivo gerar:

  • Autoconhecimento, porque compreende a necessidade do indivíduo de se entender,  para posteriormente alcançar cura;
  • Comunicação, porque reconhece a necessidade de expor os sentimentos, pensamentos e emoções de modo preciso;
  • Aprendizado e mudança de comportamento, pois entende que as pessoas agem de acordo com aquilo que aprenderam;
  • Auto-realização, devido à necessidade humana de desenvolver o próprio potencial;
  • Apoio, que é ferramenta facilitadora ante as dificuldades decorrentes no processo de realização pessoal; e
  • Integridade espiritual, por reconhecer a influência da dimensão espiritual em relação aos problemas humanos.

A idéia principal é de que o conselheiro deve: saber dar atenção; desenvolver habilidades de bom ouvinte; responder objetivamente àquilo que foi ouvido comprovando o comprometimento com a pessoa; saber como conduzir, comentar, perguntar, confrontar, informar e interpretar a fala do aconselhando, de modo que o mesmo possa aprender durante o processo de aconselhamento (COLLINS, 2004, p.48-51).

Relação entre Pessoalismo e Aconselhamento Cristão

O pessoalismo está alicerçado na construção e manutenção do self, ou seja, da característica individual que torna uma pessoa única. A idéia é de personalidade e de capacidade criativa, bem como de idiossincrasia e que precisa, na perspectiva rogeriana, ser reconhecida, aceita e desenvolvida, para que o indivíduo alcance cura e qualidade de vida em todas as perspectivas.

O aconselhamento cristão segue o padrão de autoconhecimento como base para o reconhecimento da dimensão espiritual e da necessidade da mesma para a constituição humana saudável.

 O conhecimento de si, de todas as mazelas e qualidades individuais formam a esfera de atuação destas linhas de aconselhamento, que consideram a liberdade e capacidade humana de decisão, como essenciais para o processo de formação, cura e saúde, mental e espiritual do ser humano.

Relação geral entre os processos

De modo geral, o acompanhamento religioso se apresenta como aconselhamento pastoral, porque tem como princípio a comunicação da palavra de Deus. Assim, difere-se de perspectivas como a psicanálise ou qualquer outra linha psicológica. No entanto, tem como objetivo, ajudar as pessoas a ajustarem-se melhor consigo mesmas e seus ambientes. E essa ajuda pode ocorrer individualmente, em família, ou em grupos afins, com ambiente estruturado, e programas de autoconhecimento, com vistas a superação de crises (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, pp.208,209).

Esta característica de atuação com ambientes estruturados e trabalhos individuais, familiares ou em grupos, também são adotadas nas orientações psicológicas, com objetivo de fundamentar as relações e constituir, indivíduo e sociedade.

Como se pode perceber é possível realizar o processo terapêutico de diversas maneiras, inclusive, em parceria com estruturas eclesiásticas. Para maior esclarecimento sobre a atuação do terapeuta que trabalha em comunidades terapêuticas confessionais, é importante que se fale mais detalhadamente, ao menos sobre uma, dentre as perspectivas citadas. O trabalho humanista, de Carl Rogers, apresenta duas especificidades que favorecem o acompanhamento ao dependente internado em uma instituição religiosa: 1) ênfase na valorização de Si, dificuldade característica do dependente, citada e explicada no capítulo primeiro deste trabalho; e 2) facilidade de aplicação das técnicas da ACP, devido ao fato de que a abordagem partilha de princípios estruturais semelhantes a características da ética cristã, em aspectos  gerais.

3.5 Abordagem centrada na pessoa ou pessoalismo cristão?

A abordagem centrada na pessoa é uma teoria sustentada pela compreensão de Carl Rogers de que as pessoas têm em si mesmas, a capacidade de resolverem seus conflitos internos, desde que consigam uma oportunidade e um ambiente adequado para isso. Rogers afirma que existe uma tendência, chamada de atualizante, que move o indivíduo em direção ao desenvolvimento de suas potencialidades, em busca da própria conservação e/ou enriquecimento. (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Segundo Rogers, essa tendência atualizante é uma característica humana semelhante a princípios fundamentais das plantas e dos animais, no que diz respeito à constituição biológica, de maneira que, a capacidade de crescimento e desenvolvimento permanece inerente no ser e, portanto, sempre que o ambiente e as condições favoráveis existirem, essa capacidade entrará em funcionamento (MOREIRA, 2007, p.53).

A compreensão de Rogers se relaciona à visão cristã, no sentido de entender a existência humana, como parte da criação. Entender o indivíduo como um ser que compartilha das características de surgimento, manutenção e sustento vital, a partir de uma questão interna (no caso, a presença do Espírito de Deus no homem) que favorece a cura, crescimento, ajustamento, etc. desde que não haja empecilhos externos.

Por isso, o conselheiro deve favorecer para que o cliente alcance a condição de se aceitar, de expressar seus sentimentos e atitudes, identificando diferenças individuais, sem, no entanto, comparar-se a outros. É necessário que o terapeuta desenvolva uma compreensão empática, ou seja, não apenas ouvir, mas, tentar perceber as reações do cliente ante a cada situação compartilhada e transmitir essa percepção ao indivíduo (ROGERS, 1983a, p.33).

Rogers afirma que a importância da empatia no processo de aconselhamento, deve-se ao fato de que as pessoas conseguem apresentar maior consideração por si, quando percebem que outros a aceitam e a compreendem (ROGERS, 1983a, p.39). A compreensão empática reflete as informações apresentadas pelo cliente a ele mesmo. Esse reflexo proporciona o autoconhecimento e por consequência, ajuste vivencial (HIPÓLITO, 2010, p.44).

Em outras palavras, podemos dizer que, a função do conselheiro é de agir como um espelho no qual o cliente deve enxergar a si e suas vivências, de modo mais objetivo. A partir desta compreensão, o indivíduo torna-se capaz de assumir seus problemas de forma mais adequada e responsável, porque se sente em uma situação segura para caminhar em direção à maturidade e se libertar das dificuldades (ROGERS, 2000, p.11-19).

Este aspecto também pode ser percebido em algumas ações de Jesus, que, considerava o indivíduo com todas as suas mazelas, independente do que a sociedade da época considerava pecado ou erro. A aceitação de Cristo para com os outros era incondicional e isso proporcionava confiança na relação estabelecida, de modo que as pessoas sentiam-se livres para falar de suas dores e dificuldades. Sentiam-se acolhidas e consequentemente, curadas.

Schultz afirma que, para Rogers, os processos avaliativos da psicologia tornam o paciente dependente, porque cria uma atmosfera de autoridade em torno do terapeuta. E, a partir do momento em que o terapeuta toma conhecimento dos problemas do cliente, o paciente age como se não fosse mais necessário se preocupar com o problema, pois, o alvo agora é seguir a orientação do especialista com a certeza de que tudo será resolvido (SCHULTZ, 2002, p.325).

Por isso, o princípio de Rogers está sustentado na premissa de não contar com uma estrutura teórica determinada, a partir da qual o problema do cliente seria enquadrado, para o desenvolvimento de algum mecanismo de ajuda. O importante é entender e aceitar o valor da pessoa. Logo, o terapeuta não deve expressar julgamentos nem dar conselhos, apenas concentrar-se no cliente, para que este consiga se perceber no terapeuta, de modo a reavaliar suas relações e possivelmente mudar de comportamento (SCHULTZ, 2002, p.325).

O terapeuta atua como facilitador. A sensação de segurança produzida pela empatia do conselheiro será suporte para que o cliente encontre em si mesmo as condições de superação para os problemas (SCHEEFFER, 1976, p.26).

Rogers abre mão de qualquer tipologia de personalidade ou de conceitos psicológicos específicos sobre o ser. Mas, tinha como objetivo, esclarecer o que é e como se estrutura uma relação psicológica que colabore para que o cliente alcance uma visão adequada de si mesmo, para que este consiga progredir a partir de sua própria compreensão (ROGERS, 1987, p.14).

A personalidade, conforme Rogers é o resultado de experiências vivenciadas pelo indivíduo, sendo que a pessoa é o centro dos eventos e consequentemente, influencia e recebe influências destes.  Logo, estes eventos tornam-se concretos para aqueles que o vivenciam (ROGERS, 1961, p.23).

Porém, a construção deste ser, ou como Rogers afirma, a construção deste Si-Mesmo, não é apenas uma percepção de si, mas, uma relação entre a vivência e compreensão, ou a vivência a partir da compreensão (ROGERS & WOOD, 1978, p.197).

De modo semelhante, a visão geral do cristianismo considera que não se deve preocupar com a personalidade, como se fosse algo imutável, pois, a vivência proporciona mudança de conduta. Assim como o apóstolo Pedro, tornou-se grande homem de fé, a partir dos percalços da negação trina de Jesus e da aceitação que recebeu de Cristo ainda na cruz. Cada indivíduo é considerado único e necessitado de um processo distinto de apoio.

Assim, depois da compreensão da aplicabilidade do método de Rogers junto à instituições confessionais, é preciso pensar as duas vertentes de atuação do terapeuta. Dependente químico e familiares (co-dependentes).

3.5.1 Aconselhamento centrado no dependente químico

Podemos dizer que a empatia (ROGERS, 1983a, p.33), enquanto ferramenta do aconselhamento centrado na pessoa pode proporcionar ao indivíduo dependente químico, a segurança necessária para aceitar o mundo real como real (GIDDENS apud Bessa, 2005, p.44), porém, não a partir das relações humanas, mas, a partir da tendência atualizante, ou seja, a partir de si mesmo (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Ao considerar a capacidade humana de crescimento e enriquecimento intrínseca, desde que se encontre o ambiente favorável (MOREIRA, 2007, p.53), é possível que o dependente consiga a partir do aconselhamento, tudo o que precisa para se estruturar e crescer, sem precisar esperar bons referenciais externos (SCHMIDT, 1976, p.25).

A partir do conhecimento pleno, desenvolvido por meio da ação reflexa do terapeuta, a pessoa dependente pode alcançar a condição de mudança e de reestruturação de vida (HIPÓLITO, 2010, p.44), de modo que não mais aguarda por referenciais, mas, torna-se referencial (ROUANET, 1987, p. 233).

Este conhecimento pleno proporciona também a diminuição da curiosidade (LIBÂNIO, 2004, p. 159), pois a mesma é sensação relacionada ao desconhecido. Portanto, o autoconhecimento promove a prevenção do uso de drogas, no que diz respeito à pessoa que ainda não utiliza, e redução de recaídas para os que estão diminuindo o uso.

Se a condição de dependência pode ser desenvolvida por diversos fatores como insatisfação com a vida, personalidade fraca, necessidade de prazer inerente ao ser humano e influências da modernidade (CARMO, 200, p.143), é imprescindível que seja desenvolvido um acompanhamento centrado na pessoa dependente e não nos problemas decorrentes da utilização de drogas, para que o dependente não redirecione a dependência de drogas para uma dependência do terapeuta (SCHULTZ, 2002, p.325).

3.5.2 Terapia familiar

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

Considerações Finais

Durante o desenvolvimento desse trabalho ficou evidente a complexidade das situações que envolvem o dependente químico, bem como as dificuldades encontradas para propiciar um tratamento que seja apropriado.

Tal compreensão fica cada vez mais imprecisa devido ao fato de que a modernidade, marcada por relações momentâneas e utilitárias, influencia diretamente na fragmentação de conceitos e estruturas sociais.

Essa despreocupação para com o próximo gera uma busca individual que sofre influências do coletivo, pois, enquanto ser social, o indivíduo participa se envolve e responde de modo relacional às estruturas sociais em que está inserido, logo, o pensamento vigente na modernidade faz parte da formação do caráter do indivíduo. Por isso, o ser humano não se preocupa em como buscar aquilo de que necessita, de modo que, se entender que é preciso, abre mão de limites, ética e moral, para alcançar seu desejo.

É a partir do rompimento com esses limites, que o indivíduo geralmente, encontra, conhece, experimenta e se entrega à droga. Desse modo, passa a ser dominado por estímulos e sensações produzidas pelas substâncias químicas utilizadas, e, gradativamente, perde qualidade de vida em todos os aspectos, conforme os efeitos da substância escolhida pelo usuário. Esse abandono de si pode conduzi-lo a uma posição indesejável, pois, em muitos casos o usuário, adquire má aparência, passa a ter cheiro desagradável, modifica a maneira de conversar, torna-se inconveniente, e, por fim, pode chegar ao rompimento com as leis, numa tentativa de manter seu vício.

Pode-se afirmar que um acompanhamento compromissado, individual e relacional, possibilita ao dependente químico a organização pessoal necessária para um desenvolvimento integralizado.

É perceptível que a característica da dependência química, enquanto situação que considera a sujeição do indivíduo a algo ou alguém, bem como a necessidade humana de apoio para a organização temporal, social e psicológica – que deve ser desenvolvida em si, mas, a partir do outro – pode ser trabalhada em um processo terapêutico que leva em conta as necessidades intrafamiliares, a partir da compreensão empática. Isto porque, o terapeuta facilita ao grupo familiar, a interpretação das diferentes vivências e das necessidades de cada um.

Em relação aos referenciais que podem influenciar o indivíduo, podemos afirmar que, o enriquecimento familiar proporcionado pela aceitação dos papeis familiares e do valor de cada pessoa, pode promover condições para que cada membro do grupo torne-se referencial um para o outro, e assim, não haja mais a necessidade de busca de referenciais, mas, a potencialidade de ser referencial.

A compreensão de que as dificuldades devem ser aceitas e trabalhadas pela família – mesmo que num primeiro momento uma única pessoa busque o terapeuta e, posteriormente, o grupo se permita ser auxiliado – funciona como ferramenta de apoio contra a ideia de buscar soluções rápidas para os problemas em comprimidos ou ações emergenciais – ação esta que funciona como fator de risco para o desenvolvimento da dependência e codependência química.

A aplicação do MINI utilizada neste trabalho contribui para que os esforços no sentido de auxilio do tratamento dos dependentes tenham uma base mais concreta, a partir de interpretações gráficas sobre a direção e velocidade com que a dependência química está se desenvolvendo no país.

Além disso, o resultado da aplicação do MINI confirma argumentos apresentados por pesquisadores da área, sobre as características dos usuários e suas relações sócio familiares e isso confirma a necessidade de um apoio terapêutico familiar e não individual. A atenção voltada para com a família possibilita que o grupo desenvolva um ambiente equilibrado entre as múltiplas relações intrafamiliares e diminui o risco de que algum dos integrantes do grupo torne-se dependente químico ou mantenha-se em uso de substâncias químicas, como tentativa de refugiar-se de atritos e colusões.

Assim, a avaliação do genograma e a observância de possíveis farmacologias utilizadas em meio ao processo terapêutico devem ser observadas com cuidado, para que o terapeuta não deixe de perceber o quanto as identificações de família, realizadas por meio do genograma, ou os efeitos dos medicamentos, que por ventura o dependente esteja utilizando, interfiram nas ações do aconselhando, seja positivamente ou negativamente, de modo a afetar as intervenções do terapeuta.

É possível perceber o quanto os instrumentos de avaliação psicológica podem ser úteis para o desenvolvimento de uma intervenção eficaz, a partir da visão mais adequada do problema característico do indivíduo, grupo ou patologia específica.

Mas é importante lembrar que, para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta à compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É imprescindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E assim construir suas observações, ponderações e considerações, de modo mais neutro possível.

Assim, é possível perceber a presença de comorbidades psiquiátricas associadas à dependência de substâncias psicoativas e identificar a frequência em que ocorrem, bem como alguns dos sintomas que aparecem associados de forma especial a estas patologias, como sintomas de ansiedade e depressão.

A presença de transtornos psiquiátricos torna-se um dos fatores que compromete efeito do tratamento com pacientes dependentes químicos. Por isso, o diagnóstico apropriado desses transtornos associados pode proporcionar intervenções terapêuticas mais adequadas na interrupção da conduta de consumo de substâncias, amortecendo a ocorrência de recaídas e proporcionando melhora no funcionamento social e familiar.

Em relação às perspectivas religiosas que atuam como ferramenta de ajuda, notamos que alguns casos, a ligação entre as linhas religiosas e psicológicas de orientação ficam evidentes – como no caso da psicanálise e da cura do passado, onde se percebe a influência da psicanálise na vida do fundador da cura do passado. Em outros, essa ligação não fica tão clara, porém, pode ser percebido ante a semelhança no desenvolvimento de técnicas e mesmo na maneira como compreende o problema e pessoa ou cliente, como no caso do pessoalismo e o aconselhamento cristão.

A semelhança ocorre até mesmo no sentido em que a orientação é desenvolvida, ou seja, diretiva ou não, como no caso do behaviorismo e do aconselhamento bíblico, ambos diretivos, determinantes.

Diante disso, podemos afirmar que as linhas de aconselhamento e orientação relacionadas, podem ser apresentadas como estruturas ou processos da relação de ajuda, que, independente de serem psicologias, ou simplesmente terem influências psicológicas, atuam em direção à necessidade humana de apoio e orientação.

Pode-se dizer que a abordagem centrada na pessoa é uma ferramenta particularmente adequada para o cuidado com o dependente químico, porque considera a questão de maior significado para o indivíduo fragilizado e suscetível ao abuso do uso de drogas: a autoestima construída a partir do autoconhecimento, proporcionado pela compreensão empática do terapeuta.

A postura desenvolvida por Rogers, para auxiliar o ser humano em seu crescimento e enriquecimento, a partir das potencialidades intrínsecas, favorece para que o indivíduo se resolva sem necessitar de referenciais externos ou de condições sociais específicas, mas a partir daquilo que já existe dentro do ser e que, no caso do dependente químico, havia sido fragilizado ou momentaneamente impedido de se desenvolver.

Um diferencial desta abordagem está no fato de que, enquanto a mudança ocasionada por uma motivação externa pode ser revertida de acordo com futuras circunstâncias adversas, as alterações de comportamento, geradas por questões internas de auto compreensão, não ficam sujeitas as intempéries sociais ou crises de ordens familiares.

A segurança advinda dessa nova postura, além de proporcionar capacidade para superar adversidades, gera a motivação necessária para continuar se desenvolvendo e se enriquecendo por meio de novas compreensões, geradas a partir de novas vivências, formando um círculo eterno de compreensão e crescimento.

E esse movimento constante de vivência que leva à compreensão e compreensão que leva à vivência, forma uma estrutura de segurança para que o indivíduo não tenha necessidade futura de buscar refúgio em substâncias que produzem alívio passageiro das sensações sem, contudo, resolver o verdadeiro problema.

Logo, é perceptível que a abordagem centrada na pessoa realmente pode alcançar resultados extremamente positivos no acompanhamento para com dependentes e codependentes químicos, tornando-se um possível caminho de apoio. Seja unicamente pelos trilhos da psicologia, seja acompanhada pelo aconselhamento cristão.

ADAMS, J. (1999). Conselheiro Capaz. São José dos Campos: Fiel.

ALMEIDA, N. V. (2004). A entrevista psicológica como um processo dinâmico e criativo. PSIC – Revista de Psicologia da Vetor Editora, Vol. 5, nº.1, pp. 34-39.

AMATUZZI, M. M. & CARPES, M (2010). Aspectos fenomenológicos do pensamento de Rogers. Memorandum, 19, pp. 11-25. Retirado em 2011/10/06, da World Wide Web: <http://www.fafich.ufmg.br/memorandum/a19/amatuzzicarpes01>.

AMORIM P. (2000).  Mini International Neuropsychiatric Interview (MINI): validação de entrevista breve para diagnóstico de transtornos mentais. Revista Brasileira de Psiquiatria 22(3):106-15.

AUGRAS, M. (2002). O ser da compreensão. Fenomenologia da situação de psicodiagnóstico (10ª ed.). Petrópolis, RJ:Vozes.

AULETE, C. (1964). Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro: Delta.

ÁVILA-BATISTA, A. C. (2011). Construção e estudos psicométricos de uma escala para avaliação da impulsividade. Dissertação (mestrado) – Programa de Pós-Graduação  Stricto Sensu em Psicologia da Universidade São Francisco, 88 p., Itatiba, SP.

BAHLS, S; & NAVOLAR, A. B. B. (2004). Terapia cgnitivo-comportamentais: conceitos e pressupostos teóricos. In: Psicoutponline: Revista elerônica de psicologia [online]. nº 4, jul. pp. 1-11. Acesso em: 2011/ 10 / 08. Disponível em: <http://www.utp.br/psico.utp. online>.

BENEDICTO, M. (2007). Drogas Viagem Perigosa. Vida e Saúde: boas ideias para você viver bem. Tatuí, número especial sobre fumo, álcool e drogas, p. 16.

BESSA, D. B. (2002). Discurso Religioso em Olhai os Lírios do Campo. Teologia Prática, Belo Horizonte, ano 1, n. 1, p.31, jul – dez.

___________. (2005). A literatura de auto-aconselhamento: Recurso Pós-Moderno.  Teologia Prática, Belo Horizonte, ano 3, n. 5, p. 41, jul – dez.

BLEGER, J. (1998). Temas de psicologia: entrevistas e grupos. São Paulo: Martins Fontes.

BOCK, A. M. B., FURTADO, O. & TEIXEIRA, M. L. T. (1999). Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. 13.ed. São Paulo: Saraiva.

BOWEN, M. (1978).Family therapy in clinical practice. New York: Jason Aronson.

CARMO, D. R. (2000). Prevenção ao abuso de drogas pela educação: Proposta da universidade estadual de Londrina. In: MARGARITA, A. V; SANTOS, Luis A. dos; SANTOS, Manoel A. dos (Org.). Ribeirão Preto: FIERP; EERP.

CATALDO NETO, A; GAUER, G. J. C. e; FURTADO, N. R. (2003) Psiquiatria para estudantes de medicina. Porto Alegre: EDIPUCRS.

CHAMOND, J. (2011). Fenomenologia e psicopatologia do espaço vivido segundo Ludwig Binswanger: uma introdução. In:Rev. abordagem gestalt. [online]. 2011, vol.17, n.1 [citado  2011-10-06], pp. 3-7 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script= sci_arttext&pid=S1809-68672011000100002&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1809-6867.

CLINEBELL, H. J. (1987). Aconselhamento pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento. São Paulo: Paulinas; São Leopoldo, RS: Sinodal.

COLLINS, G. (2004). Aconselhamento Cristão: edição século XXI. São Paulo: Vida Nova.

CRABB JR, L. (1999). Aconselhamento bíblico efetivo. 2ª Ed. Brasília: Refúgio

CRABB, L. (2000). O lugar mais seguro da terra. São Paulo: Mundo Cristão.

DUTRA, Elza. (2004). Considerações sobre as significações da psicologia clínica na contemporaneidade.Estud. psicol. (Natal),  Natal,  v. 9,  n. 2, ago. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2004000200021&lng= pt&nrm=iso>. acessos em  21 abr. 2011. doi:10.1590/S1413- 294X2004000200021.

EINSFELD, P. S. (2000). O Jó bíblico e Viktor E. Frankl: caminhos e atalhos na busca do sentido da vida. Estudos Teológicos, EST, ano 40, n. 3, pp. 16-32. São Leopoldo.

EVANS, A. R. (2002). O ministério terapêutico da Igreja: programas práticos para ministérios de saúde. São Paulo: Loyola.

FERES-CARNEIRO, T. (1994). Diferentes abordagens em terapia de casal: uma articulação possível? Temas psicol. [online]. vol.2, n.2, pp. 53-63 . Acesso em 26/06/2011. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1413-389X1994000200 006&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1413-389X.

GABEL, C. L. M. & SOARES, D. H. P. (2006). Contribuições da terapia familiar sistêmica para a escolha profissional. Rev. bras. orientac. prof [online]. vol.7, n.1 pp. 57-64 . Acesso em: 26/06/2011. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script= sci_arttext&pid=S1679-33902006000100007&lng=pt &nrm=iso. ISSN 1679-3390.

HIPÓLITO, J. (2010). Da complexidade à auto-organização: Evolução e desenvolvimento do pensamento rogeriano. Lisboa: EDIUAL.

HURDING, R. (1995). A cura do passado. In: ____. Árvore de cura. São Paulo: Vida Nova.

HUTZ, C. S. (2007). Prevenção e intervenção em situações de risco e vulnerabilidade. São Paulo: Casa do Psicólogo.

KALINA, E. (1983). Drogadicção: individuo, família e sociedade. Rio de Janeiro: Francisco Alves.

KELLERMANN, Peter Felix & HELLER, Eleny Corina. O Psicodrama Em Foco: e seus aspectos terapêuticos. São Paulo: Ágora, 1998.

KRISTENSEN, C. H. (2009). Comorbidade psiquiátrica em dependentes de cocaína/crack e alcoolistas: um estudoexploratório. In: Aletheia, Jul-Dez, núm. 30, pp. 101-112.

LEITE, E. A. F. (2005). Drogas, concepções, imagens: um comentário sobre a dependência a partir do modelo usual de prevenção. São Paulo: Annhablume; Fapesp.

LEON, G. D. (2003). A comunidade Terapêutica: teoria, modelo e método. São Paulo: Loyola.

LESSA, J. M. &  SÁ, R. N. (2006). A relação psicoterapêutica na abordagem fenomenológico-existencial. In: Análise Psicológica [online]. vol. XXIV, n. 3 [citado  2011-10-06], pp. 393-397. Disponível em: http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/aps/v24n3/ v24n3a13.pdf

LIBÂNIO, J. B. (2004). Jovens em tempo de pós modernidade: considerações socioculturais e pastorais. São Paulo: Loyola.

LUNA, J. A. (2005). Logoterapia: un enfoque humanista existencial. Bogota: San Pablo.

MACEDO, D. S. de; FONSECA, C. M. M. e; HOLANDA, A. F. (2007). Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância. Um estudo comparativo de aconselhamento religioso em três vertentes religiosas brasileiras. Rev. abordagem gestalt.,  Goiânia,  v. 13,  n. 2, dez.    Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672007000200004&lng=pt&nrm=iso>. acesso em  26  maio  2011.

MARZANO, C. (2007). Disfunções sexuais – Mais presentes do que pensamos. Disponível em: <http://www.psicopedagogia.com.br/entrevistas/entrevista.asp?e ntrlD=93> . Acesso em: 11 out. 2007.

MESSIAS, J. C. C.; CURY, V. E. (2006). Psicoterapia centrada na pessoa e o impacto do conceito de experienciação.Psicol. Reflex. Crit.,  Porto Alegre,  v. 19,  n.3. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&p id=S0102-79722006000300003&lng= pt&nrm=iso>. Acesso em  21 abr. 2011.

MEZAN, R. (2006). Freud, pensador da cultura. São Paulo: Companhia das Letras.

MORATO, H. T. P (1999) Aconselhamento psicológico centrado na pessoa. São Paulo: Casa do Psicólogo.

MOREIRA JR, J. (2011). Cultura desumanizante: uma observação da dependência e do dependente químico. Ethnic [online]. n.15, Ano 8, Jun 2011. pp. 74-93. Acesso em: 04/07/2011. Disponível em: <http://www.etnia.org.br/ethnic/ revista15/ethnic15.html?p ageNumber=74>

MOREIRA. V. (2007). De Carl Rogers a Merleau-ponty: a pessoa mundana em psicoterapia. São Paulo: Annablume.

NASCIMENTO R. S. G. F. (2005) A informática e a Avaliação psicológica. In: Psicologia e informática: desenvolvimento e progresso. – São Paulo: Casa do Psicólogo. pp. 215 – 223.

NETO, A.C.; DAL-BÓ, M. J.; BREDA, R. L.; & CRESTANA, T. (2003). Entrevista psiquiátrica. In: Psiquiatria para estudantes de medicina. NETO, A. C.; GAUER, G. J. C.; FURTADO, N. R. (Orgs.) – Porto Alegre: EDIPUCRS

NORONHA, A. P. P.;  BALDO, C. R.; ALMEIDA, M. C.; FREITAS, J. V.; BARBIN, P. F. & COZOLI, J. (2004). Conhecimento de estudantes a respeito de conceitos de avaliação psicológica. In: Psicologia em Estudo, vol.9, no.2, Mai-Ago,  ISSN 1413-7372, Maringá, SP.

OLIVEIRA JUNIOR, Antonio Wellington de. Glossolalia: voz e poesia. São Paulo: Editora PUC-SP (Educ), 2004.

OLIVEIRA, I. T. (1999). Psicoterapia psicodinâmica breve: dos precursores aos modelos atuais. Psicologia: Teoria e Prática, 1(2): 9-19.

OLIVEIRA, M. F. (2005) Entrevista psicológica – o caminho para aceder ao outro. Trabalho de Licenciatura / Monografia. Disponível em: <http://www.psicologia.pt/artigos/textos/ TL0031.PDF>.

PINHEIRO, O. G. Entrevista: uma prática discursiva. In: Práticas discursivas e produção no cotidiano: aproximações teóricas e metodológicas. SPINK, M. J. P. (Org.). 3 ed. São Paulo: Cortez, 2004.

PRADO, L. C. (2009). Terapia Familiar – ontem e hoje. In: Revista Brasileira de Psicoterapia; 11 (2) p. 231-243. – Porto Alegre: CELG. Acessado em: 2011-10-26. Disponível em: http://www.rbp.celg.org.br/attachments/article/79/revista_vol11_2.pdf# page= 103.

PSICOTERAPIA BREVE. (2003-2011). In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora. [Consult. 2011-10-06]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$p sicoterapia- breve>.

REBELO, L. (2007). Genograma familiar: o bisturi do médico. In Rev Port Clin Geral;23:309-17. Acesso em: 2011-10-20. Disponível em: <www.fcm.unl.pt/departamentos/cligeral/docs/5ano/RPCG_Genograma_Familiar.pdf>

RODRIGUES, A. C. T. (2005).Karl Jaspers e a abordagem fenomenológica em psicopatologia. In: Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental. ano VIII, n. 4, dez. pp. 754-768.

ROGERS, C. & KINGET, M. (1977). Relações Humanas e Psicoterapia. (2ª ed.). Belo Horizonte: Interlivros.

ROGERS, C. (1961). Tornar-se Pessoa. São Paulo: Livraria Martins Fontes.

ROGERS, C. (1983a). A Terapia Centrada no Paciente. (2ª ed.) Lisboa: Moraes Editores.

ROGERS, C. (1987). Psicoterapia e consulta psicológica. São Paulo: Martins Fontes.

ROGERS, C. (2000). Manual de Counselling. Fanhões: Encontro. (original publicado em 1946).

ROGERS, C. R. & WOOD, J. K. (1978). Teoria centrada no cliente: Carl R. Rogers. In: BURTON, Arthur. Teorias operacionais da personalidade. Rio de Janeiro: Imago.

ROUANET, S. P. (1987). As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras.

ROVINSK S. L. R. (2005). A avaliação do dano psíquico em mulheres vítimas de violência. In: Avaliação psicológica e lei: adoção, vitimização, separação conjugal, dano psíquico e outros temas / Sidney Shine, (organizador). – São Paulo: Casa do Psicólogo pp. 175 – 179.

SAFRA, G. (2005). A fragmentação do éthos no mundo contemporâneo. In: NOÉ, Sidney Vilmar (Org.). Espiritualidade e saúde: da cura d’almas ao cuidado integral. 2 ed. São Leopoldo: Sinodal, p. 7.

SCHEEFFER, R. (1976). Aconselhamento Psicológico. (6ª ed.). São Paulo: Atlas.

SCHEFFER M.; PASA G. G.; & ALMEIDA R. M. M. (2010). Dependência de Álcool, Cocaína e Crack e Transtornos Psiquiátricos. In: Psicologia: Teoria e Pesquisa. Jul-Set Vol. 26 n. 3, pp. 533-541.

SCHMIDT, I. (1976). A ilusão das drogas: um estudo sobre a maconha, LSD e anfetaminas. Santo André: Casa Publicadora Brasileira.

SCHULTZ, D.P, SCHULTZ, S. E. (2002). Teorias da personalidade. São Paulo: Pioneira Thomsom Learning.

SEAMANDS, D. A. (2007). A cura das memórias. São Paulo: Mundo Cristão.

SHLEMON, B.L. (1986). A cura do eu interior. São Paulo: Loyola.

SILVA, C. R.; KOLLING, N. M.; CARVALHO, J. C. N.; CUNHA, S. M.; & SKINNER, B. F. (2006) Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix.

SOUZA C. C.; BITENCOURTT S. A.; & OLIVEIRA M. S. (2006) Comorbidades em dependência química: transtorno de déficit de atenção / hiperatividade e fobia social. In: Temas em psicologia clínica / Blanca Susana Guevara Werlang, Margareth da Silva Oliveira (orgs.). – São Paulo: Casa do Psicólogo (pp. 107 – 111).

SPARTA, M.; BARDAGI, M. P.; &  TEIXEIRA, M. A. P. (2006). Modelos e instrumentos de avaliação em orientação profissional: perspectiva histórica e situação no Brasil Rev. Brasileira de orientação profissional vol.7, n.2, pp. 19-32.

SULLIVAN, R. S. (1970). The psychiatric interview. New York: The Norton Library.

TAVARES, M. (2002). A entrevista clínica. In: J. A. Cunha, Psicodiagnóstico – V (5ª ed., rev. e ampl.). Porto Alegre, RS: Artmed.

VILA-CHÃ, J. (1988). Edmund Husserl 1859-1938. In: Revista Portuguesa de Filosofia

T. 44, Fasc. 3, Edmund Husserl: no 50.° aniversário da sua morte, Jul. – Sep. – pp. 357-365.

WATERS, I. (1994). Genogramas. Canadian Family Physician; 40:282-7.

WENDT, N. C. & CREPALDI, M. A. (2008). A utilização do genograma como instrumento de coleta de dados na pesquisa qualitativa. In: Psicología Reflexão e Crítica, año/vol. 21, número 002. pp. 302-310. – Puerto Alegre, Brasil.

ZAMPIERI, M. A. J. (2004). Codependência: o transtorno e a intervenção em rede. São Paulo: Ágora.

Amar o Outro em Freud

Neste trabalho a ser apresentado pretendemos fazer uma análise breve a partir do texto escolhido, O Mal-Estar na Civilização, escrito por Sigmund Freud em 1929, obra constituída por textos que marcam uma nova concepção de pensamento centrado na reflexão sobre as relações do homem enquanto indivíduo, pressupondo que, tanto o desenvolvimento individual quanto social, articula o dualismo instintivo numa tentativa de manter o desenvolvimento do individuo e da civilização sob pressão através do controle das energias instintivas. Freud busca tecer sua teoria entre a força de autopreservação e autodestruição, remetendo-a para o dualismo instintivo entre amor e agressão. Para explicar a vida mental do individuo, Freud recorre à psicologia nietzschiana e fundamenta sua psicanálise.

Palavras-chave: instinto, amor, neurose, agressão.

1. Introdução

Para compreender e avaliar a natureza do homem, Freud parte do comportamento mental e suas perturbações ocasionadas pelo impulso instintivo que pode, segundo ele, originar o caráter de sintoma normal ou patológico. Para explicar a vida mental e as causas do mal-estar do indivíduo, Freud analisa a evolução da cultura, religião e dos fenômenos sociais. Por agora, tencionamos estudar sobre o conceito moral do amar o próximo como a si mesmo, para desvelar qual a relação entre amar a si mesmo e amar o outro na mesma intensidade, considerando que o amor é instintivo e remonta à origem da vida, um processo de evolução que molda a personalidade individual.

2. Da Psicologia à Psicanálise

Na psicologia nietzschiana, o valor moral imposto pela cultura, afasta o individuo sempre mais de si mesmo. A falta de reflexão sobre a influência cultural faz o homem agir comorebanho. Freud, equilibrando-se a partir da psicologia nietzschiana, trata de fundamentar sua psicanálise firmando, com outras palavras, o que Nietzsche já havia dito. Freud, escondendo debaixo do orgulho psicanalista questões psicológicas centrais pensadas por Nietzsche, compila as noções da origem do instinto da vida e avança sua análise sobre os instintos primitivos e sua força compulsiva associados ao intenso desejo da realização ligado ao organismo humano de modo amoral. Anotemos este caráter inumerável dos instintos em Nietzsche, pelo menos na origem: há instintos por toda parte, como havia, para Heráclito, deuses por toda parte, pelo menos em toda parte onde sucede algo de certa importância. Também não é por acaso que esta evocação inicial da idéia de instinto esteja ligada a algo misto. Toda a atividade considerada unitária revela-se um mar de instintos mantidos unificados. Nietzsche descobre uma diversidade heterogênea dos instintos, cada qual pressionando de modo egoísta para realizar-se.

Por isso, os instintos, afirma Freud, são amorais e intensamente egoístas, porque não estão subordinados às regras morais da sociedade, mas radicalizados à função fisiológica, pulsando para potencializar e preservar a vida. A causa do penoso dilema neurótico do homem civilizado é o desvio do instinto do seu fim original. O mal-estar, uma espécie de sublimação mistificada, na qual os instintos se adaptam aos fins não instintivos imposto pela realidade, assim, a força cega do instinto faz da cultura sua possibilidade de realização, causando um estado alterado de consciência, a neurose. A teoria da neurose pensada por Freud afirma que, desde sua origem, há certa perturbação mental, o que relativiza a antinomia saúde-doença, mas por um caminha diferente do de Nietzsche. Em Nietzsche, na verdade, os conceitos não deixam de ter uma função valorizadora.

3. Amor, Estado de Prazer Individual

Para Freud, a emoção é o efeito instintivo primitivo e as relações de recordação do início da vida vinculadas ao desenvolvimento sexual. Como um sentimento de impulso, passa por vários estágios psicológicos, iniciando na sexualidade infantil à sexualidade adulta, equivale dizer que, os sentimentos instintivos vinculados à consciência refletem como sinais fisiológicos. O impulso instintivo e a experiência do mundo externo, dois fatores que exercem influência imediata à totalidade psicofísica do individuo, e, desde sua origem, se ajusta ao estado psicológico e orgânico da natureza humana.

A mente do individuo, segundo a teoria freudiana divide-se em Id, Ego e Superego, onde os vários impulsos instintivos movem-se interligados para satisfazer necessidades orgânicas. O Id é o motor do Ego e do foco pulsional, mas é contido na relação com as regras. Por isso, volta-se contra o Ego e limita o Superego.  Por ex., o Id é a representação dos instintos biológicos e se ocupa em satisfazer as pulsões de preservação; o Ego é autônomo e age como extensão interna do homem:

Uma reflexão mais apurada nos diz que o sentimento do ego do adulto não pode ter sido o mesmo desde o inicio. Deve ter passado por um processo de desenvolvimento, que, se não pode ser demonstrado […] uma criança recém-nascida ainda não distingue o seu ego do mundo externo como fonte das sensações que fluem sobre ela. Aprende gradativamente a fazê-lo, reagindo a diversos estímulos […] certas fontes de excitação, que posteriormente identificara como sendo os seus próprios órgãos corporais, poderem provê-la de sensações […] entre as quais se destaca a mais desejada de todas: o seio da mãe (FREUD, 1978, p. 133).

Essa espécie de entidade metal inconsciente (FREUD, 1978, p.133), faz distinção entre consciência e organismo, mantendo em si o Id em um só estado, embora não patológico. Quando o instinto de amor aumenta, a fronteira entre o Ego e o Id desaparece e o instinto do Superego passa a agir como regulador dos desejos de prazer, deixando transparecer no indivíduo, visíveis perturbações psicológicas divididas entre sexualidade orientada pela sensação de prazer e o problema da repressão moral externa.

O amor é um estado de prazer individual e superior ao prazer dos órgãos genitais. Nietzsche distingue o amor como realização do ser e procriação como preservação da espécie. Para ele, o instinto sexual nega a igualdade geral e busca seu devir, a procriação não, ela é essencialmente orgânica e quer perpetuar-se. O paradoxo consiste em que, a pulsão sexual é composta de várias pulsões parciais, sua unificação fornece intensa hesitação caracterizada por uma atividade sexual atribuída a uma zona erógena. A mentira moral faz do prazer um dever, assim, o instinto de sobrevivência orgânica ultrapassa a natureza instintiva, transforma o prazer do amor como realização plena do ser em desejo de perpetuação da espécie. Quando o instinto sexual sofre pressão racional, adquire uma nova valoração. Para superar o paradoxo, Freud distingue a pulsão sexual (amor) da pulsão genital (ato da procriação).

4. Entre o Amor e a Agressão

Embora parecesse remontar bem antes do cristianismo, amar o próximo é uma expressão no mínimo paradoxal e estranha em seu próprio conteúdo. Segundo a concepção freudiana sobre a perplexidade do amar o outro, fica evidente que o amor para o individuo, é algo valioso e não deve ser lançado fora sem reflexão (FREUD, 1978, p.165). A máxima impõe amar o outrocomo um dever. O deve amar o outro, soa como uma regra moral, é como estar na obrigação de restituir ao outro algo que não lhe pertence, é como estar em dívida com o outro, é amar o outro por obrigação. A máxima deixa claro que, amar o outro implica até mesmo sacrificar-se por ele.

Para amarmos o outro, segundo Freud, no mínimo, o outro deve merecer nosso amor. Esse mínimo merecer deve anteceder o deve amar o outro. Examinando de perto o conceito do dever, evidencia-se uma não reciprocidade entre intenção e ação. Amar o dessemelhante é não refletir a diferença entre intenção e ação. Amor é um estado mental, uma energia vital instintiva que não se lança fora simplesmente porque a regra impõe: deve amar o outro. Tanto Nietzsche, quanto Freud pensa tal regra como uma ação vazia de valor moral. Uma ação desvinculada da intenção. Porque o amor é egoísta, individual. É a realização do ser.

Para Freud, a pulsão instintiva orienta o individuo para o amor, uma maneira de realização natural do ser ao encontrar compatibilidade no outro. A partir da expressão: amar o outro, inferimos ver no outro o reflexo do nosso amor e merecê-lo, por ser ele igual ou melhor do que nosso amor, um modo de amar mais perfeito que o nosso, nosso ideal, nosso próprio eu! Como amar o outro, se este não tem nada a ver com o nosso eu? Não havendo compatibilidade ao nosso valor, e por serem estranhos, seus valores não nos atraem, neste sentido, fica claro o paradoxo do amar ao outro:

Na verdade, se aquele impotente mandamento dissesse: ‘Ama a teu próximo como este te ama’, eu não lhe faria objeções. E há um segundo mandamento que me parece mais incompreensível ainda e que desperta em mim uma oposição mais forte ainda. Trata-se do mandamento ‘Ama os teus inimigos’ (FREUD, 1978, p.165)

É difícil amarmos o outro, quando este é tão antagônico e incompatível ao nosso amor. É injusto colocar um estranho valor de amor não sinalizando a harmonia espiritual entre ambos. Negar a vida é não termos liberdade de retermos em nós mesmo o valor supremo, o amor! Compartilharmos com alguém que não demonstra a mínima consideração é frustrar a possibilidade de realização da própria vida. Amar é um compartilhar mútuo, um mesmo nível de sentimento, um ato recíproco, jamais pode ser unilateral. Amarmos o outro como um ser da natureza e não mais do que isto, é a forma mais autêntica do amor ao próximo.

O elemento de agressividade do instinto do homem, lobo do homem, é um bom começo para discutirmos a questão do amor ao próximo. Partindo da questão do outro ser um individuo agressivo, o amor ao próximo, obviamente, ficará em desvantagem, caso o outro, não estiver predisposto ao nosso amor. Conforme Freud, a natureza humana é inclinada mais para a agressão. O fator principal e perturbador nas relações com o outro é exatamente a agressão. Há uma hostilidade, uma ação conflitante e contraditória primitiva na existência humana, ligado à consciência e a constituição orgânica. O ideal de amor ao próximo, em outras palavras, justifica o fato de o homem amar a si mesmo e assim não causar dano ao outro. Aquele que vive em estado consciente de amor, não causa dano à natureza, vive em harmonia consigo mesmo e com o todo.  Assim, o termo correto de amor ao próximo é: ama a teu próximo como este te ama (FREUD, 1978, p.166), porque no instinto de amor, há de certo modo, um instinto de morte. Os fenômenos da vida podem ser explicados, pelo movimento de forças opostas desses dois instintos. Porém, como a atividade do instinto de morte, age como um meio de destruição que, em parte se mantém latente, e em outra, se manifesta no sentido de agressividade. Assim, o instinto de morte, é compelido para o serviço do amor. Ao invés de destruir o eu consciente, destrói parte do organismo. Se tal agressividade mantivesse contida a autodestruição ganharia força. Os dois tipos de instintos estão mutuamente mesclados em oposição.

Neste sentido, o instinto da sensualidade, mantém em si uma tendência para o amor e autodestruição.  A libido, Freud fez dela, enquanto força variável, no campo da excitação sexual, relacionando com tudo que se pode entender como amor e denota as manifestações do amor a fim de distingui-las da energia do instinto da morte. A morte, por se ocultar no instinto de amor é mais difícil apreende-la, sua inclinação para a agressão, constitui uma disposição instintiva original que atravanca a civilização. O instinto de agressão é o representante da morte, e, ao mesmo tempo, o mais próximo do amor e com este divide o domínio da existência. Significando que as evoluções da civilização já não são mais obscuras, pois a luta dos opostos: amor e morte, definem o curso e o fundamento da vida: a luta da espécie humana pela vida (FREUD, 1978, p.176).

5. Conclusão

O medo de perder o amor traz consigo a insegurança de sentir-se só, desprotegido, exposto ao perigo do mais forte. Fica estabelecido que, mal é tudo aquilo que, com a perda do amor ameaça à vida. Quando o homem fracassa e não consegue superar limites e frustrações, esgota a consciência e esta o aflige, pois se sente ameaçada. Os infortúnios do mundo exterior, os sofrimentos, são formas de potencializar a vida. Sempre que o homem os castra, o círculo de evolução da vida é interrompido, impedindo que o fluxo da existência perpetue seu curso natural.

O artifício criado pelo homem de amar o próximo é um mecanismo que inibe a realização da própria vida. Construir a vida a partir de artimanhas que manipulam a própria natureza da existência é construir um método de conhecimento que orienta o homem sempre mais ao vazio obscuro e ilimitado do nada, vazio e nada, que antecede o princípio da geração do mundo. Retornando ao niilismo, o homem retorna a grande confusão e desordem do caos.

O instinto primitivo humano, alterado pela civilização, causa o mal-estar, que em outras palavras, é estar mal em si mesmo por não conhecer sua intrínseca natureza. Nos tempos remotos, o homem primitivo seguia seu curso natural em relação com sua existência. Posterior, a civilização age como reflexo de uma continua severidade externa que coíbe as ações do instinto, daí surge o mal-estar, as neuroses e o desamor, porque organismo e consciência estão ligados entre si. O dever moral, suprimindo o instinto, altera a consciência, e, a consciência por sua vez compromete o organismo. No passado, o homem primitivo, ligado ao seu instinto natural atribuía os infortúnios ao seu fetiche por não cumprir seu dever, mas jamais culpava a si mesmo, assim reprimia seu fetiche, mas nunca punia a si mesmo, porque o homem primitivo não tinha a neurose que tem o homem civilizado.

ALLERS, Rudolf. Freud, estudo crítico da psicanálise. Porto, 1970.

ASSOUN, Paul-Laurent. FREUD & NIETSCHE, semelhanças e dessemelhanças. São Paulo, 1991.

FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização. IN: Os Pensadores. São Paulo, 1978.

NIETZSCHE, F. W. Obras incompletas.  IN: Os Pensadores. São Paulo, 1983.

A Psicodinâmica da Família Como um Possível Sintoma da Contemporaneidade

shutterstock_19509727O objetivo deste trabalho foi abrir um debate sobre o papel das relações familiares como um provável sintoma trazido pela contemporaneidade. Este artigo traz uma revisão literária numa perspectiva psicanalítica onde se articulam conceitos tais como sintoma, recalque, complexo de Édipo e acting out com intuito de explicar o processo de recalque e suas implicações da falha da internalização da lei e suas formas de satisfação. Para tanto, a instituição família é contextualizada historicamente até chegar à contemporânea, onde se discute a dificuldade da transmissão da autoridade. Neste contexto, esse trabalho transporta a experiência clínica para as relações do sujeito em sociedade. Onde o sujeito de desejo, levado pelas descargas pulsionais, não consegue em algumas situações simbolizar algo que foi recalcado, como por exemplo, a falha da internalização da lei, do limite. Na tentativa de recuperação da falha da internalização da lei, o sujeito busca através da ação propriamente dita, ou seja, pela via da agressão física regular o sofrimento sentido pela falha da internalização da lei.

Palavras-chave: Família, Sintoma, Contemporaneidade.

1. Introdução

A psicodinâmica da família contemporânea tem sido uma questão que requer uma compreensão e uma reflexão mais profunda, pois nela pode-se observar a evidência de uma transformação gerada dentro da família. Dentre essas transformações podemos citar o afrouxamento do limite que tem levado de alguma forma a falha da internalização da lei. Como consequência disso pode-se propor em alguns casos como consequência, a impossibilidade da constituição do indivíduo como sujeito sociável, que vem indicando um mal estar tanto para o sujeito, quanto para a sociedade em geral. Por esse motivo se faz necessário a produção e a publicação cada vez mais de trabalhos e pesquisas a respeito do tema, para que haja uma melhor percepção, compreensão e acompanhamento dessa possível metamorfose que abrange família, sujeito e sociedade através de uma arrumação dinâmica e interligada.

Pelo viés da psicanálise e especificamente pela visão freudiana, esse trabalho abre um debate sobre família, sintoma e contemporaneidade, vislumbrando e sinalizando como as relações familiares podem ser um provável sintoma indicativo dessa mutação trazida pela contemporaneidade que se reflete na sociedade e vice versa.

Fazendo assim uma releitura da psicodinâmica familiar contemporânea através da perspectiva psicanalítica freudiana, pode-se observar que a falha da internalização da lei, do limite, tem sido uma problemática do cenário atual, onde se consegue sugerir e visualizar alguns sintomas refletidos pela família contemporânea como a infração e consequentemente, em algumas situações, a agressão, gerando repercussões na vida do sujeito e na ordem social.

É através de um ensaio bibliográfico que este trabalho visa realizar um recorte da família contemporânea e discutir alguns conceitos, tais como o de sintoma, diferenciando os termos sintoma psicanalítico e sintoma médico. Desta forma, far-se-á uma articulação do sintoma infração como substituto do recalcamento da falha da internalização da lei. A falha da internalização da lei será discutida como um possível fruto da relação edipiana, sugerindo assim a infração como um sintoma na tentativa de recuperação da lei, podendo-se chegar a realização da agressão física ou até mesmo o homicídio, pelo intermédio do que Freud chamou de acting out, dependo do contexto de algumas situações. Por fim far-se-á uma discursão, inferindo o impacto que a ausência da lei (autoridade enquanto função paterna) na contemporaneidade vem causando tanto na dinâmica familiar, quanto no âmbito social.

Esse ensaio teórico foi realizado a partir de uma pesquisa literária, feita através de vários livros que constam em acervos espalhados pelas bibliotecas localizadas na cidade do Recife.

Também foi realizada uma busca de artigos científicos, viabilizada por meio eletrônico, através das bases de dados Scielo e Google acadêmico, onde foram utilizadas algumas palavras-chave, como: “sintoma psicanalítico”, “sintoma médico”, “família contemporânea”, “história da família”, ”contemporaneidade”, “lei na visão psicanalítica”, e “limite na visão psicanalítica”.

Para começar, abordaremos o dinamismo da entidade família no decorrer da história, focando nos dias de hoje. Em seguida, o trabalho traz uma visão do sintoma e alguns conceitos psicanalíticos importantes para o entendimento do problema aqui proposto. Para finalizar, a falha da internalização da lei é ressaltada dentro do Complexo de Édipo, onde faz-se uma explanação sobre o mito Édipo Rei e a interpretação psicanalítica sobre o Édipo masculino.

2. A Instituição Família na Contemporaneidade

Segundo Prado (1981), desde os primórdios da história da humanidade não existe uma definição unívoca do que é família, apenas há esclarecimentos através de estudos antropológicos sobre as diversas evoluções sofridas por essa instituição ao longo dos tempos, que por sua vez é marcada pela noção do significado social aos indivíduos que institui laços dentro de uma mesma entidade, revelando assim como existiu e existe a família. Dentre os vários tipos de família existentes na atualidade, a mais conhecida e valorizada em nossos dias é aquela formada por pai, mãe e filhos, a nomeada família nuclear. Em tempo algum iremos encontrar através da narrativa humana uma sociedade que tenha existido fora de qualquer noção de família, ou seja, de alguma ligação institucional entre pessoas de mesmo sangue. Embora no interior das famílias haja transformações ao longo do tempo, ela sempre existirá seja qual for a sua representação ou configuração.

Roudinesco (2003) notabiliza três períodos importantes na evolução da família, onde o primeiro período é marcado pela família tradicional, que se caracterizou pela autoridade patriarcal, pela transmissão de um patrimônio e casamentos arranjados sem que os desejos dos futuros cônjuges fossem levados em consideração. Num segundo período a família foi timbrada como moderna, em que a mesma foi descrita por um modelo do amor romântico consolidado pela lógica imposta entre o final do século XVIII e meados do XX, em que era aprovada a troca mútua entre os cônjuges dos sentimentos e desejos carnais pela mediação do casamento, onde também se consolidou a divisão do trabalho entre os cônjuges. A educação dos filhos era responsabilidade dos pais e dentro desse panorama a autoridade passou a ser atribuída também ao Estado e aos pais, e entre os pais e as mães. A partir de 1960 a família é designada contemporânea, que tem como particularidade dois indivíduos que se juntam através de uma durabilidade relativa em busca de relações íntimas ou realização sexual, de modo que a transmissão da autoridade vai se tornando mais difícil e questionada à medida que os divórcios, a fragmentação e as reorganizações conjugais aumentam, onde a família não é mais garantida pela presença indesatável do divino através da convenção do casamento, tornando-se cada vez mais um acordo livre e outorgado entre os indivíduos enquanto o amor resistir.

Centeno (2001) relata algumas novas configurações familiares assumidas pela família contemporânea, que têm sido influenciadas pelo contexto social atual que atua diretamente nos costumes, evolução e transformação da família. Dentre os novos padrões familiares apresentados na contemporaneidade pode-se destacar: (1) famílias monoparentais, que surge proveniente do divórcio ou separação, onde um dos pais toma para si o cuidado dos filhos e o outro não é eficaz na parentalidade, ou famílias onde um dos pais é viúvo ou solteiro. Alguns dos obstáculos encontrados por essa família é de um genitor assumir as funções que normalmente seriam assumidas por ambos os genitores; (2) famílias reconstituídas, que são oriundas de recasamento e que trazem filhos do primeiro casamento. Umas das possíveis dificuldades encontradas por essa família são os impasses concernente aos direitos e deveres de cada membro, pois a mesma é constituída por filhos do casal atual e filhos dos outros casamentos que podem levar o casal atual a um série conflitos severos; (3) famílias de uniões consensuais é originada na sua maioria por divorciados, separados ou viúvos, casais que preferem morar juntos sem formalizar suas uniões frente ao matrimônio legal, preferindo morar em casas separadas; (4) família constituída por casais sem filhos por opção, procedente de casais que dão preferência ao crescimento profissional, social e a independência financeira, sem optar por filhos; (5) família unipessoais (Meler, apud CENTANO, 2001) é uma designação para aquelas pessoas que escolhem um lugar físico individual. São enumeras as razões dentre elas a oportunidade de trabalho fora do domicílio, independência individual, onde não fazem trocas emocionais compartilhadas; (6) família por associação, que são formadas por amigos sem vínculo de parentesco, onde as pessoas optam por formar uma rede fundamentada na amizade; (7) e por fim a mais polêmica a família formada por casal homoafetivo, formada por uma união estável entre pessoas do mesmo sexo, casal de gays ou lésbicas, com questões complexas de tornar assimilável mediante as coações, mitos e realidades que atingem estes casais.

3. O Sintoma na Perspectiva Psicanalítica e Médica

De acordo com a visão psicanalítica, o sintoma é uma substituição a uma satisfação pulsional, ou seja, indicativo do desejo que foi afastado pelo recalcamento, onde o mesmo indica o retorno do recalcado através de um substituto deformado do desejo não realizado. “Um sintoma é um sinal substituto de uma satisfação instintual que permaneceu em estado jacente” (FREUD, 1925, p.112).

Freud (1925) frisava que diante do conflito entre as exigências do consciente, e das representações recalcadas no inconsciente, surge uma saída, através do ego, a formação de compromisso, ou seja, o sintoma com a função de descaracterizar o que foi recalcado, para que possa ser aceito sem risco na consciência. Poderemos assim afirmar que o ego é o mediador entre o inconsciente e o consciente, fazendo com que haja uma satisfação dos conteúdos recalcados de forma indireta.

Ele não deve ser transformado em ação, pois, como sabemos na repressão o ego está atuando sob a influência da realidade externa e, impede o processo substitutivo exercer qualquer efeito sobre aquela realidade. Do mesmo modo que o ego controla o caminho para a ação, controla o acesso á consciência (FREUD, 1926, vol. xx, p. 116-117).

A partir de todo esse processo dinâmico, não podemos deixar de falar sobre um dos pilares da psicanálise, o recalque, que é a base para a formação do inconsciente.

Para Freud (1915), a essência do recalque consiste simplesmente em afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a á distância. Para que isso aconteça se faz necessário que ocorra uma cisão entre o representante ideativo (vorstellugrepräsentanz) e o afeto (affekt), em que o primeiro é caracterizado por ideias desagradáveis do campo da consciência, que é recalcado, e o segundo como qualidade e a quantidade de energia pulsional, o que não é recalcado, onde o representante ideativo e o afeto são independentes, ou seja, tanto o afeto quanto o representante ideativo têm destinos diferenciados (GARCIA-ROZA, 2008). Ou seja, Freud (1894), na carta 18 que escreveu a Fliess, esclarece que o afeto pode ter três mecanismos de transformação que são eles: transformação do afeto (histeria de conversão), deslocamento do afeto (obsessões) e troca do afeto (neurose de angústia e melancolia).

Freud (1915) nos mostra duas fases do recalque, onde a primeira fase consiste no recalque originário que é fundamental e responsável pela divisão do psiquismo, que se caracteriza pelas representações ideativas ou idéias desagradáveis individuais, que são regidas pelos mecanismos específicos do processo primário, a condensação e deslocamento, que vai atender ao princípio do prazer.

O recalcamento secundário se destaca por sucessões e pensamentos oriundos do pré-consciente/consciente, que é caracterizado pelo processo secundário, que por sua vez entram em contato com as representações recalcadas, que são frutos do recalque originário para satisfazer o princípio de realidade. (FREUD,1915).

No texto o retorno do recalcado, Freud (1939) nos mostra a terceira fase do recalcamento, afirmando que o retorno do recalcado é caracterizado por: “suas características distintivas, contudo é a deformação, de grandes consequências, a que o material que retorna foi submetido, quando comparado com o original.”(FREUD, 1930, p. 150-151). Significa dizer que, o retorno do recalcado é uma saída útil funcional regido pelas leis do inconsciente que se qualifica pelos processos primários de condensação e deslocamento através dos sonhos, fantasias, atos falhos e dos sintomas, que visam a satisfação substitutiva do desejo, satisfazendo tanto o princípio de prazer, quanto o princípio de realidade pela via de satisfação pulsional.

Dentro de uma perspectiva médica, pode-se dizer que o sintoma é da ordem subjetiva descrito pelo paciente que vem acompanhando de manifestações objetivas, ou seja, os sinais que são detectados pelo médico, através de uma anamnese e do método clínico aplicado no organismo, onde o mesmo vai dar uma significação através de um diagnóstico, como sendo ou não uma doença. (PIMENTA; FERREIRA, 2003).

Ainda na linha de pensamento de Pimenta e Ferreira (2003), tanto a psicanálise quanto a medicina partem da conjuntura de que o sintoma é proveniente de sentimentos, mas ao mesmo tempo se distancia no que se diz respeito a interpretação  do sintoma. Na medicina é da competência médica detectar através de um diagnóstico algo no organismo e dar sua significação ao sintoma, decodificando o sinal apresentado como sendo doença ou não. Já em uma perspectiva psicanalítica, o sintoma é visualizado como algo contextualizado dentro da história de cada sujeito, onde indica fragmento do sujeito do inconsciente, que poderá estar passivo de redefinição com a participação do analista, podendo trazer resultado benéfico se o sujeito atribuir algum sentido ao sintoma.

Nasio (1993) indica o sintoma na visão psicanalítica como um mal estar que pode ser descrito de maneira bem singular seja por palavras ou através de maneira metafórica e inopinada, que é revelado de forma involuntária, ou seja, desprovido de qualquer saber consciente, visualizado como uma manifestação do inconsciente ao invés de ser legado a um estado insalubre.

4. Psicodinâmica familiar contemporânea refletindo o sintoma pela ausência da lei

Para que se possa discorrer sobre a lei na visão psicanalítica, se faz necessário citar alguns textos: Totem e Tabu (1913) e A Dissolução do Complexo de Édipo (1925), em que é enfatizada a lei como fator primordial e estruturante do indivíduo como sujeito sociável.

Freud (1913) no texto Totem e Tabu explica o mito da Horda Primeva que consiste em tribos primitivas aborígines da Austrália, em que nessas tribos o predomínio era o totemismo (divinização de esculturas, plantas, animais ou antepassado) e a exogamia, ou seja, proibições sexuais entre os membros do mesmo clã, caracterizada pela proibição do incesto que está ligado diretamente com o desejo de realiza-lo. É também abordada por Freud a questão do tabu, por se tratar de uma palavra polinésia, que por sua vez traz dois sentidos: de sagrado e de proibido, que provoca de uma certa maneira uma ambivalência dos sentimentos de hostilidade e de admiração ao animal totêmico, ou seja, animal esse representado pelo pai.

Por ser um pai tirânico e possuidor de todas as fêmeas do clã, o mesmo expulsava os filhos a medida que cresciam e nutriam desejos incestuosos dentro da horda. Consequentemente os filhos expulsos matariam e tragaria o pai opressor pondo fim a horda patriarcal. Sendo assim é apontado os sentimentos ambivalentes, a medida que os filhos tragavam o pai, ou seja, o odiavam por ele ser o proibidor dos desejos incestuosos, ao mesmo tempo se identificam com o mesmo adquirindo sua força, ou seja, o amavam e admiravam pelo domínio que o mesmo exercia dentro do clã, levantando assim a todos os filhos um sentimento de culpa. Tendo cometido o parricídio, os filhos perceberam que não podiam tomar o lugar do pai, por causa do sentimento de culpa e assim renunciam ao objeto de desejo, que no caso aqui eram as fêmeas do clã.

Nesse texto freudiano, há uma indicação notória da universalidade de um dos conceitos angulares da psicanalise que é o Complexo de Édipo, em que através do mito, Freud abre um debate e faz uma correlação entre a psicologia dos povos primitivos e a psicologia dos neuróticos, ou seja, o homem primitivo e o homem civilizado. Onde ambos são embasados pelos desejos incestuosos e que são marcados por uma proibição, ou seja, uma lei que é representada pelo pai e que são recalcados no inconsciente gerando angustia. Essa interdição constituída contra os desejos incestuosos que é relatada por esse mito, chama a atenção para uma organização social, dando origem à civilização, onde o tabu do incesto surge como a primeira lei que firma uma sociedade, ou seja, viabiliza a passagem do homem da natureza para a cultura, onde o incesto é propagado como sendo de natureza antissocial, evitando assim a destruição do pai real entre os homens civilizados e instituindo novos valores a partir desse interdito.

Freud (1897), na carta 71 dirigida a Fliees, menciona a partir de sua autoanálise pela primeira vez a tragédia grega de Sófocles, Rei Édipo, onde antes do nascimento de Édipo, seu pai Laio casado com Jocasta, resolve consultar o oráculo e recebe a profecia de que iria ter um filho que o mataria e se casaria com a mãe. Quando Édipo nasceu não recebeu nenhum nome e foi condenado a morte por seus pais Laio e Jocasta, sendo assim, Jocasta entregou o filho a um pastor e ordenou que o mesmo matasse o menino. Édipo é levado para o monte Citrão pelo pastor, onde ao invés de ser morto foi lhe furado os pés e amarrado com uma corda e pendurado em uma árvore. Logo em seguida, um outro pastor de Corinto que ao passar por aquele lugar comtemplou a criança dependurada a uma árvore e a salvou, cortando a corda que o amarrava e levando-o para a cidade de Corinto. Chegando em Corinto, Édipo foi amparado por Mérope e Políbio que o criaram como filho legítimo.

Já em sua fase adulta, Édipo é sabedor que não era filho legítimo dos pais que lhe amparou, extremamente desolado procura o oráculo e recebe a profecia que seria assassino de seu pai e casaria com a mãe. Tentando desviar-se de seu destino, Édipo deixa a cidade de Corinto e segue sem destino. Em um determinado ponto de sua jornada, passando por uma encruzilhada, ele se depara com um comboio que fazia a guarnição de um ancião, com quem tem um sério atrito, onde mata o mesmo e alguns do seu comboio. Édipo, nesse momento, acabara de cometer o parricídio, ou seja, mata o próprio pai.

Chegando as proximidades da cidade de Tebas, Édipo é sabedor que na entrada dessa cidade existia uma esfinge, que desafiava com enigmas a quem por ela passasse e devorava aquele que não desvendasse o enigma. Édipo imediatamente aceitou o desafio e se submeteu a decodificar o seguinte enigma feito pela esfinge: “ qual o animal que, pela manhã, anda com quatro pés, ao meio dia com dois e, à tarde, com três pés?” Édipo responde e explica: “ é o homem, que na infância gatinha, na idade adulta anda erguido e, na velhice, se apoia num bastão.” Nesse momento a esfinge de maneira repentina e impulsiva, vira-se para um abismo e se joga resultando em sua morte. Já Édipo, por ter decifrado o enigma e matado a esfinge, recebe como prêmio a mão da rainha de Tebas e viúva de Laio, Jocasta, o qual Édipo matara na encruzilhada. Sendo assim passou a reinar sobre Tebas, cumprindo-se a profecia do oráculo.

Dessa forma, Freud (1925) vem indicar a construção do sujeito desejante, onde o mito ajuda a tornar mais compreensível a dinâmica das relações em que a criança firma mediante as figuras parentais. Desse mito, pode-se dizer que é a partir da fase fálica que o menino apresenta uma grande valorização ao seu órgão genital, que resulta em uma ascensão libidinal, onde o menino deseja a mãe sexualmente e sente ódio do pai representante da lei tomando-o como rival, que vem interditar a satisfação do desejo incestuoso, onde esses sentimentos são demonstrados através de representações dos afetos, amor e ódio, que por sua vez ajudam a fundamentar a construção da subjetividade da criança. Vale a pena salientar que todo esse conflito ocorre de maneira inconsciente.

É na fase fálica que o menino através da representação da castração consegue ultrapassar o complexo de Édipo, que é caracterizada pelo medo que a ameaça da castração provoca, à medida que o menino visualiza a diferença anatômica dos sexos, ou seja, o menino constata de maneira concreta a ausência do pênis tanto na menina quanto na sua mãe. Sendo assim ele fantasia temendo que o mesmo possa lhe acontecer, pelos desejos incestuosos pela mãe e parricidas pelo pai como um castigo. Daí ele automaticamente cria um sentimento de culpa, originando o superego constituindo por uma instância moral. Com o medo de perder o pênis há uma interiorização da renúncia do desejo edipiano, ou seja, a proibição do desejo edipiano é constituída e percebida como a lei, que simboliza o limite, e é representada pelo pai enquanto função.

Quando Freud correlaciona o complexo de Édipo e a castração, percebe-se que há uma identificação do menino com os valores paternos que detém a lei que regula a dinâmica dos desejos edipianos que poderá ser interiorizada. Essa regulação dos desejos é ampliada dentro da construção do sujeito desejante, ou seja, é a lei, o limite que tem a função de barrar de alguma forma o desejo desmedido do menino, destronando-o de sua onipotência e inserindo o indivíduo no âmbito social fazendo-o deslizar da condição de ser para a de ter tornado-o assim um sujeito de desejo e sociável.

Com todo esse processo essencial na vida do menino é possível levantar a premissa de que a lei na visão psicanalítica tem a finalidade de estruturar o desejo, interligando-o com as regras de maneira satisfatória, alinhando assim o indivíduo como sujeito desejante na tentativa de harmonizar o convívio e a ordem social.

Quando este trabalho se refere a falha da internalização ou ao afrouxamento da lei no sentido psicanalítico, se faz necessário retomarmos os textos Totem e Tabu (1913), onde Freud faz com clareza a distinção entre o homem neurótico e o homem primitivo, ou seja, o homem civilizado e o homem selvagem. Sendo assim embasado no pensamento freudiano pode-se sugerir que o neurótico em algumas situações retorna ao seu estado primitivo substituindo e transformando o pensamento pelo ato propriamente dito. No caso do presente trabalho, sugere-se que o recalcamento da falha da internalização da lei, por sua vez pode retornar como o sintoma infração, na tentativa de recuperação dessa lei e ao mesmo tempo sinalizar dizendo que algo não está bem, fazendo, em alguns casos, a substituição pelo ato da agressão física propriamente dita, podendo chegar até a cometer o homicídio, gerando de certa forma uma desordem social que vem dificultar a inserção do sujeito desejante dentro do grupo social.

Mas os neuróticos são, acima de tudo, inibidos em suas ações: neles, o pensamento constitui um substituto completo do ato. Os homens primitivos, por outro lado, são desinibidos: o pensamento transforma-se diretamente em ação. Neles, é antes o ato que constitui um substituto do pensamento, sendo por isso que, sem pretender qualquer finalidade de julgamento, penso que no caso que se apresenta pode-se presumir com segurança que “no princípio foi o Ato” (FREUD, 1913 vol. XIII, p. 190-191).

Freud (1914) vem nos reforçar que o indivíduo em muitas vezes, por não conseguir expressar através de palavras a ideia que foi recalcada expressa pela via da atuação, reproduz como ação o que ele chamou de acting out, agindo sem saber por quê, viabilizando através da transferência o retorno do recalcado pelo caminho da ação, ou seja, não consegue simbolizar a representação que foi recalcada. É essa experiência clínica que Freud relata nos seus escritos técnicos que pode-se ampliar para as vivências do sujeito de  desejo fora da clínica.

Se nos limitarmos a este segundo tipo, a fim de salientar a diferença, podemos dizer que o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem saber que o está repetindo (FREUD, 1914 vol. XII, p.196).

Partindo dessa visão freudiana, esse trabalho transporta essa experiência clínica para as relações do sujeito em sociedade. Onde o sujeito de desejo, levado pelas descargas pulsionais, não consegue em algumas situações relatar através das palavras algo que foi recalcado, como por exemplo, a falha da internalização da lei, na tentativa de recuperar assim essa lei através da ação propriamente dita, pela via da agressão física ou até mesmo o homicídio, com o intuito de regular o sofrimento sentido pela ausência dessa lei que é fundamental na vida do sujeito desejante em sociedade.

Mediante o apontamento teórico que foi descrito, há uma provocação que se leva a refletir acerca do que provavelmente está sendo recalcado através dessa psicodinâmica familiar contemporânea. Diante do cenário que se apresenta, percebe-se que os novos padrões familiares, sugeridos pela contemporaneidade, provocam falhas na institucionalização da lei e do limite, fazendo com que os pais ou cuidadores permitam demais, e assim facilitem a onipotência do desejo exacerbado da criança descaracterizando o referencial de lei dentro do seio da família, que por sua vez é ampliada para as relações sociais. Desta forma a lei passa a ser minimamente reconhecida e em alguns casos não reconhecida, trazendo impactos nas relações familiares e sociais.

O sintoma indicativo e sugerido dessa psicodinâmica é a infração, que se apresenta como um substituto deformado do que foi recalcado, no caso aqui em debate seria a falha da internalização da lei, do limite. Pode-se perceber que o sujeito na maioria das vezes infringe na tentativa de recuperar a lei, o limite, ou seja, uma possibilidade de satisfazer o que foi recalcado. Nessa dinâmica em algumas situações visualiza-se também a recuperação da lei através do acting out, onde o sujeito pode se expressar através da agressão física propriamente dita, podendo chegar até a cometer o homicídio dependo da situação e da estrutura psíquica de cada sujeito.

Esse desejo pela recuperação da lei pode gerar um conflito no âmbito da condição de sujeito faltante e de sujeito desejante, em que, o que ganha notoriedade nesse processo dinâmico é a existência de uma falha, que é demonstrada pela exiguidade da lei, do limite, que estão bem presentes e sugeridos pelos moldes da contemporaneidade.

Diante de todo esse afrouxamento da lei dentro do seio da família, nota-se que o Estado foi constituído de alguma forma como a lei, através de uma figura de autoridade na tentativa de regular a ordem social, que vem sendo atingida pelas consequências das relações familiares, que por sua vez é influenciada e atingida pelos novos padrões familiares estabelecidos pela contemporaneidade.

Por outro lado percebe-se que o Estado, enquanto representante da lei, não tem dado conta de exercer a lei, por estar corrompido e enfraquecido como referencial da lei, sendo assim, o mesmo devolve a responsabilidade da representação da lei e do limite às famílias, onde o sujeito desejante configura-se como um barco a deriva que clama e recorre a outras instâncias sociais como religiões e grupos sociais que são constituídas como lei, na tentativa de que seus desejos sejam regulados.

5. Considerações finais

Chegando ao final desse ensaio bibliográfico e diante do que foi exposto no mesmo, podemos perceber que foi aberto um debate através da perspectiva psicanalítica freudiana sobre a psicodinâmica das relações familiares como um possível sintoma da contemporaneidade. Este artigo aborda a falha da internalização da lei, levando a refletir sobre uma série de transformações impostas pela contemporaneidade, no que se diz padrão familiar, que tem atingido a psicodinâmica das famílias e automaticamente tem afrouxado a lei dentro do seio da mesma.

Sendo assim, para que o debate que foi proposto por esse trabalho atingisse o objetivo esperado, foram explanados alguns conceitos dentro da visão freudiana tais como: sintoma o qual foi articulado como o sintoma infração, como substituto do recalcamento da falha da internalização da lei, que por sua vez foi interligado e sugerido como fruto da relação edípica correlacionada com a castração na tentativa de recuperação da mesma, onde essa recuperação da lei em algumas situações pode chegar ao extremo através da agressão física ou até do homicídio. Tudo isso viabilizado pelo acting out, gerando um mal estar na psicodinâmica da família, na vida do sujeito e na ordem social.

A partir da falha da internalização da lei, do limite dentro da psicodinâmica familiar contemporânea, o sujeito de desejo amplia sua busca pela recuperação da lei para outras instâncias que representa de alguma forma a lei, que no caso podemos citar: o Estado, as religiões e os grupos sociais, na tentativa de suprir a falha dainternalização da lei, que gera de alguma forma um mal estar em todos os aspectos da vida do sujeito desejante.

Diante do que foi exposto, acredita-se que a reflexão levantada é de grande importância para os que se interessam pelo tema família articulado ao contexto social de maneira geral.

Consciente da reflexão que foi proposta nesse trabalho, deixamos um importante debate, e ao mesmo abrimos um caminho para que outros trabalhos venham ampliar essa discursão. A família apresenta relações muito ricas, e ao focar em um tema específico, faz-se um recorte muito pequeno, tirando-se, de certa forma, o foco de sua complexidade.

Outros trabalhos devem ser realizados nessa área para enfocar outros tipos de relações e inferir possíveis explicações dentro da psicanálise. Um exemplo seria ressaltar também o complexo de Édipo na menina, uma vez que o presente artigo abordou o gênero masculino.

Estudos dessa natureza servem para que, cada vez mais, haja uma melhor compreensão e percepção das relações familiares vivenciadas no cenário atual.

HINTZ, H. C. Novos tempos, novas famílias? da modernidade a pós-modernidade.Pensando famílias. v.3. p. 8-19, 2001.

GARCIA – ROZA, L. Freud e o inconsciente. 23. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

FREUD, S. A dissolução do complexo de Édipo. Vol. XIX. 1925. Editora. Standart  Brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Extratos dos documentos dirigidos a Fliees carta 18. Vol. I. 1894. Ed. Standart Brasileira das obras psicológicas completas.  Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Extratos dos documentos dirigidos a Fliees carta 71. Vol. I. 1897. Editora. Standart  Brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Inibição, Sintoma e Ansiedade. Vol. XX. 1925. Editora. Standart Brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. O retorno do reprimido. Vol. XXIII. 1939. Editora. Standart Brasileira das obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Repressão. Vol. XIV. 1915. Editora. Standart Brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Totem e tabu. Vol. XIII 1913. Editora. Standart Brasileira das obras psicologias completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar. Vol. XII 1914. Editora Standart Brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

NASIO, J. Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

PIMENTA, A. C. ; FERREIRA, R. A. O sintoma na medicina e na psicanálise. Revista Minas Gerais, v.13, n. 3. p. 221-228, 2003.

PRADO, D. O que é família? 1. ed. São Paulo: Brasiliense Coleção Primeiros Passos, 1981.

ROUDINESCO, E. A família em desordem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

SÓFOCLES. Rei Édipo. Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint LTDA.

A Psicodinâmica da Família Como um Possível Sintoma da Contemporaneidade

shutterstock_19509727O objetivo deste trabalho foi abrir um debate sobre o papel das relações familiares como um provável sintoma trazido pela contemporaneidade. Este artigo traz uma revisão literária numa perspectiva psicanalítica onde se articulam conceitos tais como sintoma, recalque, complexo de Édipo e acting out com intuito de explicar o processo de recalque e suas implicações da falha da internalização da lei e suas formas de satisfação. Para tanto, a instituição família é contextualizada historicamente até chegar à contemporânea, onde se discute a dificuldade da transmissão da autoridade. Neste contexto, esse trabalho transporta a experiência clínica para as relações do sujeito em sociedade. Onde o sujeito de desejo, levado pelas descargas pulsionais, não consegue em algumas situações simbolizar algo que foi recalcado, como por exemplo, a falha da internalização da lei, do limite. Na tentativa de recuperação da falha da internalização da lei, o sujeito busca através da ação propriamente dita, ou seja, pela via da agressão física regular o sofrimento sentido pela falha da internalização da lei.

Palavras-chave: Família, Sintoma, Contemporaneidade.

1. Introdução

A psicodinâmica da família contemporânea tem sido uma questão que requer uma compreensão e uma reflexão mais profunda, pois nela pode-se observar a evidência de uma transformação gerada dentro da família. Dentre essas transformações podemos citar o afrouxamento do limite que tem levado de alguma forma a falha da internalização da lei. Como consequência disso pode-se propor em alguns casos como consequência, a impossibilidade da constituição do indivíduo como sujeito sociável, que vem indicando um mal estar tanto para o sujeito, quanto para a sociedade em geral. Por esse motivo se faz necessário a produção e a publicação cada vez mais de trabalhos e pesquisas a respeito do tema, para que haja uma melhor percepção, compreensão e acompanhamento dessa possível metamorfose que abrange família, sujeito e sociedade através de uma arrumação dinâmica e interligada.

Pelo viés da psicanálise e especificamente pela visão freudiana, esse trabalho abre um debate sobre família, sintoma e contemporaneidade, vislumbrando e sinalizando como as relações familiares podem ser um provável sintoma indicativo dessa mutação trazida pela contemporaneidade que se reflete na sociedade e vice versa.

Fazendo assim uma releitura da psicodinâmica familiar contemporânea através da perspectiva psicanalítica freudiana, pode-se observar que a falha da internalização da lei, do limite, tem sido uma problemática do cenário atual, onde se consegue sugerir e visualizar alguns sintomas refletidos pela família contemporânea como a infração e consequentemente, em algumas situações, a agressão, gerando repercussões na vida do sujeito e na ordem social.

É através de um ensaio bibliográfico que este trabalho visa realizar um recorte da família contemporânea e discutir alguns conceitos, tais como o de sintoma, diferenciando os termos sintoma psicanalítico e sintoma médico. Desta forma, far-se-á uma articulação do sintoma infração como substituto do recalcamento da falha da internalização da lei. A falha da internalização da lei será discutida como um possível fruto da relação edipiana, sugerindo assim a infração como um sintoma na tentativa de recuperação da lei, podendo-se chegar a realização da agressão física ou até mesmo o homicídio, pelo intermédio do que Freud chamou de acting out, dependo do contexto de algumas situações. Por fim far-se-á uma discursão, inferindo o impacto que a ausência da lei (autoridade enquanto função paterna) na contemporaneidade vem causando tanto na dinâmica familiar, quanto no âmbito social.

Esse ensaio teórico foi realizado a partir de uma pesquisa literária, feita através de vários livros que constam em acervos espalhados pelas bibliotecas localizadas na cidade do Recife.

Também foi realizada uma busca de artigos científicos, viabilizada por meio eletrônico, através das bases de dados Scielo e Google acadêmico, onde foram utilizadas algumas palavras-chave, como: “sintoma psicanalítico”, “sintoma médico”, “família contemporânea”, “história da família”, ”contemporaneidade”, “lei na visão psicanalítica”, e “limite na visão psicanalítica”.

Para começar, abordaremos o dinamismo da entidade família no decorrer da história, focando nos dias de hoje. Em seguida, o trabalho traz uma visão do sintoma e alguns conceitos psicanalíticos importantes para o entendimento do problema aqui proposto. Para finalizar, a falha da internalização da lei é ressaltada dentro do Complexo de Édipo, onde faz-se uma explanação sobre o mito Édipo Rei e a interpretação psicanalítica sobre o Édipo masculino.

2. A Instituição Família na Contemporaneidade

Segundo Prado (1981), desde os primórdios da história da humanidade não existe uma definição unívoca do que é família, apenas há esclarecimentos através de estudos antropológicos sobre as diversas evoluções sofridas por essa instituição ao longo dos tempos, que por sua vez é marcada pela noção do significado social aos indivíduos que institui laços dentro de uma mesma entidade, revelando assim como existiu e existe a família. Dentre os vários tipos de família existentes na atualidade, a mais conhecida e valorizada em nossos dias é aquela formada por pai, mãe e filhos, a nomeada família nuclear. Em tempo algum iremos encontrar através da narrativa humana uma sociedade que tenha existido fora de qualquer noção de família, ou seja, de alguma ligação institucional entre pessoas de mesmo sangue. Embora no interior das famílias haja transformações ao longo do tempo, ela sempre existirá seja qual for a sua representação ou configuração.

Roudinesco (2003) notabiliza três períodos importantes na evolução da família, onde o primeiro período é marcado pela família tradicional, que se caracterizou pela autoridade patriarcal, pela transmissão de um patrimônio e casamentos arranjados sem que os desejos dos futuros cônjuges fossem levados em consideração. Num segundo período a família foi timbrada como moderna, em que a mesma foi descrita por um modelo do amor romântico consolidado pela lógica imposta entre o final do século XVIII e meados do XX, em que era aprovada a troca mútua entre os cônjuges dos sentimentos e desejos carnais pela mediação do casamento, onde também se consolidou a divisão do trabalho entre os cônjuges. A educação dos filhos era responsabilidade dos pais e dentro desse panorama a autoridade passou a ser atribuída também ao Estado e aos pais, e entre os pais e as mães. A partir de 1960 a família é designada contemporânea, que tem como particularidade dois indivíduos que se juntam através de uma durabilidade relativa em busca de relações íntimas ou realização sexual, de modo que a transmissão da autoridade vai se tornando mais difícil e questionada à medida que os divórcios, a fragmentação e as reorganizações conjugais aumentam, onde a família não é mais garantida pela presença indesatável do divino através da convenção do casamento, tornando-se cada vez mais um acordo livre e outorgado entre os indivíduos enquanto o amor resistir.

Centeno (2001) relata algumas novas configurações familiares assumidas pela família contemporânea, que têm sido influenciadas pelo contexto social atual que atua diretamente nos costumes, evolução e transformação da família. Dentre os novos padrões familiares apresentados na contemporaneidade pode-se destacar: (1) famílias monoparentais, que surge proveniente do divórcio ou separação, onde um dos pais toma para si o cuidado dos filhos e o outro não é eficaz na parentalidade, ou famílias onde um dos pais é viúvo ou solteiro. Alguns dos obstáculos encontrados por essa família é de um genitor assumir as funções que normalmente seriam assumidas por ambos os genitores; (2) famílias reconstituídas, que são oriundas de recasamento e que trazem filhos do primeiro casamento. Umas das possíveis dificuldades encontradas por essa família são os impasses concernente aos direitos e deveres de cada membro, pois a mesma é constituída por filhos do casal atual e filhos dos outros casamentos que podem levar o casal atual a um série conflitos severos; (3) famílias de uniões consensuais é originada na sua maioria por divorciados, separados ou viúvos, casais que preferem morar juntos sem formalizar suas uniões frente ao matrimônio legal, preferindo morar em casas separadas; (4) família constituída por casais sem filhos por opção, procedente de casais que dão preferência ao crescimento profissional, social e a independência financeira, sem optar por filhos; (5) família unipessoais (Meler, apud CENTANO, 2001) é uma designação para aquelas pessoas que escolhem um lugar físico individual. São enumeras as razões dentre elas a oportunidade de trabalho fora do domicílio, independência individual, onde não fazem trocas emocionais compartilhadas; (6) família por associação, que são formadas por amigos sem vínculo de parentesco, onde as pessoas optam por formar uma rede fundamentada na amizade; (7) e por fim a mais polêmica a família formada por casal homoafetivo, formada por uma união estável entre pessoas do mesmo sexo, casal de gays ou lésbicas, com questões complexas de tornar assimilável mediante as coações, mitos e realidades que atingem estes casais.

3. O Sintoma na Perspectiva Psicanalítica e Médica

De acordo com a visão psicanalítica, o sintoma é uma substituição a uma satisfação pulsional, ou seja, indicativo do desejo que foi afastado pelo recalcamento, onde o mesmo indica o retorno do recalcado através de um substituto deformado do desejo não realizado. “Um sintoma é um sinal substituto de uma satisfação instintual que permaneceu em estado jacente” (FREUD, 1925, p.112).

Freud (1925) frisava que diante do conflito entre as exigências do consciente, e das representações recalcadas no inconsciente, surge uma saída, através do ego, a formação de compromisso, ou seja, o sintoma com a função de descaracterizar o que foi recalcado, para que possa ser aceito sem risco na consciência. Poderemos assim afirmar que o ego é o mediador entre o inconsciente e o consciente, fazendo com que haja uma satisfação dos conteúdos recalcados de forma indireta.

Ele não deve ser transformado em ação, pois, como sabemos na repressão o ego está atuando sob a influência da realidade externa e, impede o processo substitutivo exercer qualquer efeito sobre aquela realidade. Do mesmo modo que o ego controla o caminho para a ação, controla o acesso á consciência (FREUD, 1926, vol. xx, p. 116-117).

A partir de todo esse processo dinâmico, não podemos deixar de falar sobre um dos pilares da psicanálise, o recalque, que é a base para a formação do inconsciente.

Para Freud (1915), a essência do recalque consiste simplesmente em afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a á distância. Para que isso aconteça se faz necessário que ocorra uma cisão entre o representante ideativo (vorstellugrepräsentanz) e o afeto (affekt), em que o primeiro é caracterizado por ideias desagradáveis do campo da consciência, que é recalcado, e o segundo como qualidade e a quantidade de energia pulsional, o que não é recalcado, onde o representante ideativo e o afeto são independentes, ou seja, tanto o afeto quanto o representante ideativo têm destinos diferenciados (GARCIA-ROZA, 2008). Ou seja, Freud (1894), na carta 18 que escreveu a Fliess, esclarece que o afeto pode ter três mecanismos de transformação que são eles: transformação do afeto (histeria de conversão), deslocamento do afeto (obsessões) e troca do afeto (neurose de angústia e melancolia).

Freud (1915) nos mostra duas fases do recalque, onde a primeira fase consiste no recalque originário que é fundamental e responsável pela divisão do psiquismo, que se caracteriza pelas representações ideativas ou idéias desagradáveis individuais, que são regidas pelos mecanismos específicos do processo primário, a condensação e deslocamento, que vai atender ao princípio do prazer.

O recalcamento secundário se destaca por sucessões e pensamentos oriundos do pré-consciente/consciente, que é caracterizado pelo processo secundário, que por sua vez entram em contato com as representações recalcadas, que são frutos do recalque originário para satisfazer o princípio de realidade. (FREUD,1915).

No texto o retorno do recalcado, Freud (1939) nos mostra a terceira fase do recalcamento, afirmando que o retorno do recalcado é caracterizado por: “suas características distintivas, contudo é a deformação, de grandes consequências, a que o material que retorna foi submetido, quando comparado com o original.”(FREUD, 1930, p. 150-151). Significa dizer que, o retorno do recalcado é uma saída útil funcional regido pelas leis do inconsciente que se qualifica pelos processos primários de condensação e deslocamento através dos sonhos, fantasias, atos falhos e dos sintomas, que visam a satisfação substitutiva do desejo, satisfazendo tanto o princípio de prazer, quanto o princípio de realidade pela via de satisfação pulsional.

Dentro de uma perspectiva médica, pode-se dizer que o sintoma é da ordem subjetiva descrito pelo paciente que vem acompanhando de manifestações objetivas, ou seja, os sinais que são detectados pelo médico, através de uma anamnese e do método clínico aplicado no organismo, onde o mesmo vai dar uma significação através de um diagnóstico, como sendo ou não uma doença. (PIMENTA; FERREIRA, 2003).

Ainda na linha de pensamento de Pimenta e Ferreira (2003), tanto a psicanálise quanto a medicina partem da conjuntura de que o sintoma é proveniente de sentimentos, mas ao mesmo tempo se distancia no que se diz respeito a interpretação  do sintoma. Na medicina é da competência médica detectar através de um diagnóstico algo no organismo e dar sua significação ao sintoma, decodificando o sinal apresentado como sendo doença ou não. Já em uma perspectiva psicanalítica, o sintoma é visualizado como algo contextualizado dentro da história de cada sujeito, onde indica fragmento do sujeito do inconsciente, que poderá estar passivo de redefinição com a participação do analista, podendo trazer resultado benéfico se o sujeito atribuir algum sentido ao sintoma.

Nasio (1993) indica o sintoma na visão psicanalítica como um mal estar que pode ser descrito de maneira bem singular seja por palavras ou através de maneira metafórica e inopinada, que é revelado de forma involuntária, ou seja, desprovido de qualquer saber consciente, visualizado como uma manifestação do inconsciente ao invés de ser legado a um estado insalubre.

4. Psicodinâmica familiar contemporânea refletindo o sintoma pela ausência da lei

Para que se possa discorrer sobre a lei na visão psicanalítica, se faz necessário citar alguns textos: Totem e Tabu (1913) e A Dissolução do Complexo de Édipo (1925), em que é enfatizada a lei como fator primordial e estruturante do indivíduo como sujeito sociável.

Freud (1913) no texto Totem e Tabu explica o mito da Horda Primeva que consiste em tribos primitivas aborígines da Austrália, em que nessas tribos o predomínio era o totemismo (divinização de esculturas, plantas, animais ou antepassado) e a exogamia, ou seja, proibições sexuais entre os membros do mesmo clã, caracterizada pela proibição do incesto que está ligado diretamente com o desejo de realiza-lo. É também abordada por Freud a questão do tabu, por se tratar de uma palavra polinésia, que por sua vez traz dois sentidos: de sagrado e de proibido, que provoca de uma certa maneira uma ambivalência dos sentimentos de hostilidade e de admiração ao animal totêmico, ou seja, animal esse representado pelo pai.

Por ser um pai tirânico e possuidor de todas as fêmeas do clã, o mesmo expulsava os filhos a medida que cresciam e nutriam desejos incestuosos dentro da horda. Consequentemente os filhos expulsos matariam e tragaria o pai opressor pondo fim a horda patriarcal. Sendo assim é apontado os sentimentos ambivalentes, a medida que os filhos tragavam o pai, ou seja, o odiavam por ele ser o proibidor dos desejos incestuosos, ao mesmo tempo se identificam com o mesmo adquirindo sua força, ou seja, o amavam e admiravam pelo domínio que o mesmo exercia dentro do clã, levantando assim a todos os filhos um sentimento de culpa. Tendo cometido o parricídio, os filhos perceberam que não podiam tomar o lugar do pai, por causa do sentimento de culpa e assim renunciam ao objeto de desejo, que no caso aqui eram as fêmeas do clã.

Nesse texto freudiano, há uma indicação notória da universalidade de um dos conceitos angulares da psicanalise que é o Complexo de Édipo, em que através do mito, Freud abre um debate e faz uma correlação entre a psicologia dos povos primitivos e a psicologia dos neuróticos, ou seja, o homem primitivo e o homem civilizado. Onde ambos são embasados pelos desejos incestuosos e que são marcados por uma proibição, ou seja, uma lei que é representada pelo pai e que são recalcados no inconsciente gerando angustia. Essa interdição constituída contra os desejos incestuosos que é relatada por esse mito, chama a atenção para uma organização social, dando origem à civilização, onde o tabu do incesto surge como a primeira lei que firma uma sociedade, ou seja, viabiliza a passagem do homem da natureza para a cultura, onde o incesto é propagado como sendo de natureza antissocial, evitando assim a destruição do pai real entre os homens civilizados e instituindo novos valores a partir desse interdito.

Freud (1897), na carta 71 dirigida a Fliees, menciona a partir de sua autoanálise pela primeira vez a tragédia grega de Sófocles, Rei Édipo, onde antes do nascimento de Édipo, seu pai Laio casado com Jocasta, resolve consultar o oráculo e recebe a profecia de que iria ter um filho que o mataria e se casaria com a mãe. Quando Édipo nasceu não recebeu nenhum nome e foi condenado a morte por seus pais Laio e Jocasta, sendo assim, Jocasta entregou o filho a um pastor e ordenou que o mesmo matasse o menino. Édipo é levado para o monte Citrão pelo pastor, onde ao invés de ser morto foi lhe furado os pés e amarrado com uma corda e pendurado em uma árvore. Logo em seguida, um outro pastor de Corinto que ao passar por aquele lugar comtemplou a criança dependurada a uma árvore e a salvou, cortando a corda que o amarrava e levando-o para a cidade de Corinto. Chegando em Corinto, Édipo foi amparado por Mérope e Políbio que o criaram como filho legítimo.

Já em sua fase adulta, Édipo é sabedor que não era filho legítimo dos pais que lhe amparou, extremamente desolado procura o oráculo e recebe a profecia que seria assassino de seu pai e casaria com a mãe. Tentando desviar-se de seu destino, Édipo deixa a cidade de Corinto e segue sem destino. Em um determinado ponto de sua jornada, passando por uma encruzilhada, ele se depara com um comboio que fazia a guarnição de um ancião, com quem tem um sério atrito, onde mata o mesmo e alguns do seu comboio. Édipo, nesse momento, acabara de cometer o parricídio, ou seja, mata o próprio pai.

Chegando as proximidades da cidade de Tebas, Édipo é sabedor que na entrada dessa cidade existia uma esfinge, que desafiava com enigmas a quem por ela passasse e devorava aquele que não desvendasse o enigma. Édipo imediatamente aceitou o desafio e se submeteu a decodificar o seguinte enigma feito pela esfinge: “ qual o animal que, pela manhã, anda com quatro pés, ao meio dia com dois e, à tarde, com três pés?” Édipo responde e explica: “ é o homem, que na infância gatinha, na idade adulta anda erguido e, na velhice, se apoia num bastão.” Nesse momento a esfinge de maneira repentina e impulsiva, vira-se para um abismo e se joga resultando em sua morte. Já Édipo, por ter decifrado o enigma e matado a esfinge, recebe como prêmio a mão da rainha de Tebas e viúva de Laio, Jocasta, o qual Édipo matara na encruzilhada. Sendo assim passou a reinar sobre Tebas, cumprindo-se a profecia do oráculo.

Dessa forma, Freud (1925) vem indicar a construção do sujeito desejante, onde o mito ajuda a tornar mais compreensível a dinâmica das relações em que a criança firma mediante as figuras parentais. Desse mito, pode-se dizer que é a partir da fase fálica que o menino apresenta uma grande valorização ao seu órgão genital, que resulta em uma ascensão libidinal, onde o menino deseja a mãe sexualmente e sente ódio do pai representante da lei tomando-o como rival, que vem interditar a satisfação do desejo incestuoso, onde esses sentimentos são demonstrados através de representações dos afetos, amor e ódio, que por sua vez ajudam a fundamentar a construção da subjetividade da criança. Vale a pena salientar que todo esse conflito ocorre de maneira inconsciente.

É na fase fálica que o menino através da representação da castração consegue ultrapassar o complexo de Édipo, que é caracterizada pelo medo que a ameaça da castração provoca, à medida que o menino visualiza a diferença anatômica dos sexos, ou seja, o menino constata de maneira concreta a ausência do pênis tanto na menina quanto na sua mãe. Sendo assim ele fantasia temendo que o mesmo possa lhe acontecer, pelos desejos incestuosos pela mãe e parricidas pelo pai como um castigo. Daí ele automaticamente cria um sentimento de culpa, originando o superego constituindo por uma instância moral. Com o medo de perder o pênis há uma interiorização da renúncia do desejo edipiano, ou seja, a proibição do desejo edipiano é constituída e percebida como a lei, que simboliza o limite, e é representada pelo pai enquanto função.

Quando Freud correlaciona o complexo de Édipo e a castração, percebe-se que há uma identificação do menino com os valores paternos que detém a lei que regula a dinâmica dos desejos edipianos que poderá ser interiorizada. Essa regulação dos desejos é ampliada dentro da construção do sujeito desejante, ou seja, é a lei, o limite que tem a função de barrar de alguma forma o desejo desmedido do menino, destronando-o de sua onipotência e inserindo o indivíduo no âmbito social fazendo-o deslizar da condição de ser para a de ter tornado-o assim um sujeito de desejo e sociável.

Com todo esse processo essencial na vida do menino é possível levantar a premissa de que a lei na visão psicanalítica tem a finalidade de estruturar o desejo, interligando-o com as regras de maneira satisfatória, alinhando assim o indivíduo como sujeito desejante na tentativa de harmonizar o convívio e a ordem social.

Quando este trabalho se refere a falha da internalização ou ao afrouxamento da lei no sentido psicanalítico, se faz necessário retomarmos os textos Totem e Tabu (1913), onde Freud faz com clareza a distinção entre o homem neurótico e o homem primitivo, ou seja, o homem civilizado e o homem selvagem. Sendo assim embasado no pensamento freudiano pode-se sugerir que o neurótico em algumas situações retorna ao seu estado primitivo substituindo e transformando o pensamento pelo ato propriamente dito. No caso do presente trabalho, sugere-se que o recalcamento da falha da internalização da lei, por sua vez pode retornar como o sintoma infração, na tentativa de recuperação dessa lei e ao mesmo tempo sinalizar dizendo que algo não está bem, fazendo, em alguns casos, a substituição pelo ato da agressão física propriamente dita, podendo chegar até a cometer o homicídio, gerando de certa forma uma desordem social que vem dificultar a inserção do sujeito desejante dentro do grupo social.

Mas os neuróticos são, acima de tudo, inibidos em suas ações: neles, o pensamento constitui um substituto completo do ato. Os homens primitivos, por outro lado, são desinibidos: o pensamento transforma-se diretamente em ação. Neles, é antes o ato que constitui um substituto do pensamento, sendo por isso que, sem pretender qualquer finalidade de julgamento, penso que no caso que se apresenta pode-se presumir com segurança que “no princípio foi o Ato” (FREUD, 1913 vol. XIII, p. 190-191).

Freud (1914) vem nos reforçar que o indivíduo em muitas vezes, por não conseguir expressar através de palavras a ideia que foi recalcada expressa pela via da atuação, reproduz como ação o que ele chamou de acting out, agindo sem saber por quê, viabilizando através da transferência o retorno do recalcado pelo caminho da ação, ou seja, não consegue simbolizar a representação que foi recalcada. É essa experiência clínica que Freud relata nos seus escritos técnicos que pode-se ampliar para as vivências do sujeito de  desejo fora da clínica.

Se nos limitarmos a este segundo tipo, a fim de salientar a diferença, podemos dizer que o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem saber que o está repetindo (FREUD, 1914 vol. XII, p.196).

Partindo dessa visão freudiana, esse trabalho transporta essa experiência clínica para as relações do sujeito em sociedade. Onde o sujeito de desejo, levado pelas descargas pulsionais, não consegue em algumas situações relatar através das palavras algo que foi recalcado, como por exemplo, a falha da internalização da lei, na tentativa de recuperar assim essa lei através da ação propriamente dita, pela via da agressão física ou até mesmo o homicídio, com o intuito de regular o sofrimento sentido pela ausência dessa lei que é fundamental na vida do sujeito desejante em sociedade.

Mediante o apontamento teórico que foi descrito, há uma provocação que se leva a refletir acerca do que provavelmente está sendo recalcado através dessa psicodinâmica familiar contemporânea. Diante do cenário que se apresenta, percebe-se que os novos padrões familiares, sugeridos pela contemporaneidade, provocam falhas na institucionalização da lei e do limite, fazendo com que os pais ou cuidadores permitam demais, e assim facilitem a onipotência do desejo exacerbado da criança descaracterizando o referencial de lei dentro do seio da família, que por sua vez é ampliada para as relações sociais. Desta forma a lei passa a ser minimamente reconhecida e em alguns casos não reconhecida, trazendo impactos nas relações familiares e sociais.

O sintoma indicativo e sugerido dessa psicodinâmica é a infração, que se apresenta como um substituto deformado do que foi recalcado, no caso aqui em debate seria a falha da internalização da lei, do limite. Pode-se perceber que o sujeito na maioria das vezes infringe na tentativa de recuperar a lei, o limite, ou seja, uma possibilidade de satisfazer o que foi recalcado. Nessa dinâmica em algumas situações visualiza-se também a recuperação da lei através do acting out, onde o sujeito pode se expressar através da agressão física propriamente dita, podendo chegar até a cometer o homicídio dependo da situação e da estrutura psíquica de cada sujeito.

Esse desejo pela recuperação da lei pode gerar um conflito no âmbito da condição de sujeito faltante e de sujeito desejante, em que, o que ganha notoriedade nesse processo dinâmico é a existência de uma falha, que é demonstrada pela exiguidade da lei, do limite, que estão bem presentes e sugeridos pelos moldes da contemporaneidade.

Diante de todo esse afrouxamento da lei dentro do seio da família, nota-se que o Estado foi constituído de alguma forma como a lei, através de uma figura de autoridade na tentativa de regular a ordem social, que vem sendo atingida pelas consequências das relações familiares, que por sua vez é influenciada e atingida pelos novos padrões familiares estabelecidos pela contemporaneidade.

Por outro lado percebe-se que o Estado, enquanto representante da lei, não tem dado conta de exercer a lei, por estar corrompido e enfraquecido como referencial da lei, sendo assim, o mesmo devolve a responsabilidade da representação da lei e do limite às famílias, onde o sujeito desejante configura-se como um barco a deriva que clama e recorre a outras instâncias sociais como religiões e grupos sociais que são constituídas como lei, na tentativa de que seus desejos sejam regulados.

5. Considerações finais

Chegando ao final desse ensaio bibliográfico e diante do que foi exposto no mesmo, podemos perceber que foi aberto um debate através da perspectiva psicanalítica freudiana sobre a psicodinâmica das relações familiares como um possível sintoma da contemporaneidade. Este artigo aborda a falha da internalização da lei, levando a refletir sobre uma série de transformações impostas pela contemporaneidade, no que se diz padrão familiar, que tem atingido a psicodinâmica das famílias e automaticamente tem afrouxado a lei dentro do seio da mesma.

Sendo assim, para que o debate que foi proposto por esse trabalho atingisse o objetivo esperado, foram explanados alguns conceitos dentro da visão freudiana tais como: sintoma o qual foi articulado como o sintoma infração, como substituto do recalcamento da falha da internalização da lei, que por sua vez foi interligado e sugerido como fruto da relação edípica correlacionada com a castração na tentativa de recuperação da mesma, onde essa recuperação da lei em algumas situações pode chegar ao extremo através da agressão física ou até do homicídio. Tudo isso viabilizado pelo acting out, gerando um mal estar na psicodinâmica da família, na vida do sujeito e na ordem social.

A partir da falha da internalização da lei, do limite dentro da psicodinâmica familiar contemporânea, o sujeito de desejo amplia sua busca pela recuperação da lei para outras instâncias que representa de alguma forma a lei, que no caso podemos citar: o Estado, as religiões e os grupos sociais, na tentativa de suprir a falha dainternalização da lei, que gera de alguma forma um mal estar em todos os aspectos da vida do sujeito desejante.

Diante do que foi exposto, acredita-se que a reflexão levantada é de grande importância para os que se interessam pelo tema família articulado ao contexto social de maneira geral.

Consciente da reflexão que foi proposta nesse trabalho, deixamos um importante debate, e ao mesmo abrimos um caminho para que outros trabalhos venham ampliar essa discursão. A família apresenta relações muito ricas, e ao focar em um tema específico, faz-se um recorte muito pequeno, tirando-se, de certa forma, o foco de sua complexidade.

Outros trabalhos devem ser realizados nessa área para enfocar outros tipos de relações e inferir possíveis explicações dentro da psicanálise. Um exemplo seria ressaltar também o complexo de Édipo na menina, uma vez que o presente artigo abordou o gênero masculino.

Estudos dessa natureza servem para que, cada vez mais, haja uma melhor compreensão e percepção das relações familiares vivenciadas no cenário atual.

 HINTZ, H. C. Novos tempos, novas famílias? da modernidade a pós-modernidade.Pensando famílias. v.3. p. 8-19, 2001.

GARCIA – ROZA, L. Freud e o inconsciente. 23. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

FREUD, S. A dissolução do complexo de Édipo. Vol. XIX. 1925. Editora. Standart  Brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Extratos dos documentos dirigidos a Fliees carta 18. Vol. I. 1894. Ed. Standart Brasileira das obras psicológicas completas.  Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Extratos dos documentos dirigidos a Fliees carta 71. Vol. I. 1897. Editora. Standart  Brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Inibição, Sintoma e Ansiedade. Vol. XX. 1925. Editora. Standart Brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. O retorno do reprimido. Vol. XXIII. 1939. Editora. Standart Brasileira das obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Repressão. Vol. XIV. 1915. Editora. Standart Brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Totem e tabu. Vol. XIII 1913. Editora. Standart Brasileira das obras psicologias completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar. Vol. XII 1914. Editora Standart Brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

NASIO, J. Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

PIMENTA, A. C. ; FERREIRA, R. A. O sintoma na medicina e na psicanálise. Revista Minas Gerais, v.13, n. 3. p. 221-228, 2003.

PRADO, D. O que é família? 1. ed. São Paulo: Brasiliense Coleção Primeiros Passos, 1981.

ROUDINESCO, E. A família em desordem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

SÓFOCLES. Rei Édipo. Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint LTDA.