O INQUIETANTE ESTRANHO EM NÓS

Resultado de imagem para INQUIETANTE ESTRANHOQuem nunca foi tomado por uma sensação de estranheza diante dos próprios atos e das circunstâncias da vida? Algo que atrai e seduz, mas ao mesmo tempo também choca, provocando repulsa. Essa sensação inquietante está presente massivamente em filmes, na literatura fantástica, nas artes plásticas sombrias e também está em nosso cotidiano. Trata-se daquela sensação que surge quando, por exemplo, em um curto intervalo de tempo deparamo-nos com situações ligadas a um mesmo número ou a um mesmo nome de pessoa – algo que, principalmente para os indivíduos mais supersticiosos, pode adquirir um ar secreto de sina ou maldição. Em diferente grau, é a mesma sensação despertada pelo dito “mau-olhado”, agouro, em que tudo parece dar errado.  Ou ainda esse sinistro que aparece quando temos dúvida se um ser animado está realmente vivo ou, ao contrário, se um objeto aparentemente inerte não seria, na verdade, portador de vida. Essa sensação foi estudada por Freud (1919) e nomeada de Das Unheimliche, que foi traduzida em português como O Inquietante / O Estranho, em espanhol Lo Siniestro / Lo ominoso.

No artigo O Inquietante (1919), Freud faz uma análise psicanalítica no terreno da estética, pelo conto “O Homem de Areia” e também do romance “Os elixires do diabo”, ambos do escritor de E.T.A. Hoffmann. No primeiro conto, Hoffmann constrói a personagem Olímpia, que é destaque por sua graça, beleza e aparente vivacidade, o que a torna objeto de paixão do personagem principal, Nathaniel. Com o desenrolar da história o personagem descobre que Olímpia não passa de uma boneca, um autômato, fato que provoca certa estranheza no leitor. Não é apenas a personagem Olímpia que causa essa sensação, no conto Nathaniel é um personagem que possui um delírio de associação da morte de seu pai com uma figura mítica de sua infância: O Homem de Areia. Esse por sua vez corresponde a uma espécie de “bicho papão” da cultura alemã, figura que serve para auxiliar as mães a mandarem seus filhos para cama sob ameaça de terem seus olhos primeiramente feridos com areia e depois arrancados e roubados. No conto paira a dúvida sobre a existência real ou não do Homem de Areia.

Freud (1919) faz uma análise etimológica da palavra Unheimlich, bem como suas diferentes expressões em outros idiomas, como o latim, o grego, o inglês, o francês e o espanhol. Interessantemente, ele demonstra que em seus sinônimos essa palavra apresenta paradoxos, sendo que em variadas matizes ela coincide com seu oposto imediato, Heimlich (familiar/conhecido). Assim, Freud (1919) conclui que sempre atrás de algo aparentemente incompreensível ou atemorizante se esconde algo familiar, muito conhecido. Para que algo seja inquietante, não basta que ele seja diferente do convencional, mas que tenha sido algo anteriormente familiar. Ou seja, Freud (1919) conclui que existe sempre uma sombra no aparentemente conhecido, um inominável que foi afastado, deslocado (reprimido) da consciência. Citando Schelling “Unheimlich seria tudo o que deveria permanecer secreto, oculto, mas apareceu”. (Freud, 1919, p.338).

O desassossego causado pela dúvida de seres inanimados terem vida remonta a infância, a fase de desenvolvimento em que de fato a criança não consegue distinguir ser vivo de ser não vivo – em que ela dá vida aos seus brinquedos. A criança para conseguir expressar o que sente, transfere para seus brinquedos e fantasmas seus medos, amores e angústias. Assim como no conto o medo de Nathaniel de perder os olhos representa suas culpas infantis, que fazem com que ele tema sofrer retaliações: perda dos olhos (castração).

No romance “Os elixires do diabo”, de Hoffmann (1815-16), Freud (1919) mostra outra fonte intensa do inquietante. Trata-se do duplo ou sósia, o surgimento de pessoas que, pela aparência igual, devem ser consideradas idênticas, em que pode ocorrer a intensificação desse vínculo entre os sujeitos pela passagem de processos psíquicos de uma para outra (telepatia) – de modo que uma pessoa possui também o saber, e os sentimentos e vivências das outras pessoas. Por vezes a identificação com o duplo de si pode levar a confusão, ocorrendo a duplicação, divisão e permutação do Eu. A compreensão popular de alma imortal também representa o duplo, como uma medida de segurança diante da sempre eminente ameaça de destruição do Eu pela morte. Freud (1919) irá demostrar que esse duplo trata-se da formação de uma instância psíquica que, embora gerada a partir do Eu, dele se apartaria, exercendo sobre si uma atividade de observação e censura: a consciência moral – termo que será um prenúncio do conceito de Supereu, após os trabalhos de Além do Princípio de Prazer (1920) e O eu e o isso (1923).

O inquietante é a sensação causada pela percepção da compulsão à repetição, em diferentes situações. Como quando identificamos traços faciais entre pessoas, vicissitudes, nomes, situações de nossa vida, que se repetem. Trata-se do eterno retorno do mesmo, a aflitiva sensação de que existe uma determinação oculta em nossa vida. Freud (1919) demostra que essa é justamente a natureza própria da pulsão; cujo poder de subjugar nossa busca de realização e prazer confere um caráter demoníaco a certos aspectos de nossa vida anímica.
Nas diversas manifestações do estranho, em maior ou menor grau, paira uma relação íntima com a nossa onipotência de pensamento, pois cremos que o pensamento por si só é capaz de determinar as ocorrências da realidade. Freud (1919) analisa as raízes individuais e sociais dessa onipotência.

 O que é extremamente rico e inovador nesse trabalho de Freud é a forma como ele aborda o estranho (diferente) – que nunca é visto como um exato estrangeiro, mas detecta a estranheza do inconsciente, como aquilo que é inominável de nós mesmos. Desta forma, o estranho só nos choca, porque toca no sinistro que vive em nós. Como na música do Pink Floyd “Brain Damage”, o lunático que identificamos fora, na verdade vive em nossa mente, ele é o próprio Dark side of the moon, o nosso lado obscuro. Essa aflitiva estranheza é também a nossa! Daí o perigo de projetarmos o estrangeiro no outro, que encarnará os próprios conflitos. Assim, a psicanálise demonstra que todos nós somos estrangeiros e ironicamente habitamos o mesmo inquietante lugar: a condição humana de desamparo – que é a condição última de nosso ser conosco e de nosso ser com o outro.

O Unheimlich surge desse entremeio, o Eu e o outro, em que algo não pode ser nomeado e por isso os limites frágeis do nosso eu parecem ser extrapolados, o que é fonte do sobrenatural. Esse algo estranho parece nunca poder ser verbalizado, mas por vezes aparece simbolizado em formas belíssimas, como nos filmes de Alfred Hitchcock ou na literatura magnífica de Edgar Allan Poe.

Que ousadia – a psicanálise se aventura a adentrar esse estranho lugar! Busca dizer o indizível, por isso Freud (1925,1937) escreveu que ela é uma profissão impossível! Aliás, como é inquietante a figura do analista. É ainda mais estranho a existência do desejo do analisando que, a partir do divã ousa (se) perguntar. Por meio desse encontro, o sujeito que pergunta pode vir a se dar conta que esse outro a quem ele destina ódio não passa de um duplo de si mesmo. Por meio da transferência, ele pode vir a ser sujeito consciente de suas próprias diferenças, e sinta-se mais a vontade para conviver com as diferenças alheias. Somente escutando o monstro/louco que há em nós podemos nos implicar com os seus/nossos inquietantes desejos, com nossa agressividade e sexualidade, revivendo (e não só rememorando) esse outro de si mesmo. Nos permitindo assim dar novo estatuto à vida, criando possibilidades diante do impossível que é o inconsciente, readquirindo sua dimensão poética e de potência criativa.

*Samara Megume Rodrigues é psicóloga clínica, mestranda em Psicologia, colaboradora e idealizadora da Roda de Psicanálise.

** Imagem: gravura de Jacques Callot, “Le Deux  Pantalons” , de 1616.

Referências Bibliográficas

Freud, S. (2010) O Inquietante. In: Obras Completas de Sigmund (Paulo Cesar  Soura, Trad. Vol 14) São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Originalmente publicado em 1919)
Freud, S. (1996) Prefácio a Juventude desorientada  de Aichhom. In: Edição Standar Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1925)

Freud, S. (1996) Análise terminável e interminável. Edição Standar Brasileira das Obras Psicológicas Completas     de Sigmund Freud, vol. XXIII. Rio de Janeiro: Imago(Originalmente publicado em 1937)

METAPSICOLOGIA E O MISTERIOSO REINO ENTRE O FÍSICO E O MENTAL

Este texto tem o objetivo de apresentar a metapsicologia como um modo original de articular os processos psicológicos e os fundamentos biológicos para fundar uma nova ciência, a psicanálise. Freud considerava que os conceitos de inconsciente, pulsão, recalque, entre outros, eram indispensáveis para a psicanálise, a despeito das imprecisões e dificuldades que rondavam tais noções. Afinal, para desvendar o enigma das psicopatologias, seria necessário ultrapassar e ampliar simultaneamente: 1) os limites da psicologia clássica – cujo paradigma racionalista a orientava exclusivamente para o estudo das faculdades mentais conscientes “normais”, como a sensação, a percepção, a atenção, a memória, a cognição…, pouco se interessando por fenômenos relacionados à loucura; e 2) os limites da psiquiatria, que se dividia entre hipóteses explicativas orgânicas (impossíveis de serem demonstradas anatomicamente, pois nada se encontrava de anormal nos cérebros dos loucos) e hipóteses explicativas morais (o que deixava a psiquiatria em uma distância constrangedora da cientificidade médica).

Assim, para construir um edifício teórico coerente para as novas experiências psicanalíticas, Freud muitas vezes entregou-se a “especulações”, sem deixar de alertar para a ligação íntima entre suas teorias e a observação dos fenômenos clínicos.

Não gostaria de dar a impressão de que durante esse último período de meu trabalho voltei as costas à observação de pacientes e me entreguei inteiramente à especulação. Ao contrário, sempre fiquei no mais íntimo contato com o material analítico e jamais deixei de trabalhar em pontos detalhados de importância clínica ou técnica. (FREUD, 1925 [1924], p.62).

De forma que, ao longo de toda sua obra, os esforços para compreender a natureza e os processos que regem o funcionamento da vida psíquica, seja normal ou patológica, permaneceram costurados com a prática, e por isso mesmo, eram passíveis de sofrer renovações contínuas.

Assim foi desde que, no final do século XIX, sua tentativa de explicar a histeria levou-o a adotar a hipótese de que processos psíquicos inconscientes estavam na base da formação dos sintomas psicopatológicos. Esta hipótese tornou-se o disparador tanto de uma prática clínica diferenciada, quando da construção de um arcabouço teórico coerente com essa nova proposta.

Ao conjunto de modelos conceituais inferidos da experiência, Freud chamou de metapsicologia. Logo, o modelo de um aparelho psíquico dividido em instâncias, a teoria das pulsões, o processo do recalque, são hipóteses pertencentes ao registro de uma investigação teórica que pretende situar os conceitos básicos do empreendimento psicanalítico. O longo trecho abaixo, escrito em 1914, oferece uma ideia da posição dos conceitos metapsicológicos na psicanálise.

É verdade que noções como a de libido do Eu, energia pulsional do Eu e outras não são nem claramente apreensíveis, nem suficientemente ricas de conteúdo; assim, uma teoria especulativa a respeito das relações em questão teria sobretudo por meta formular conceitos rigorosamente delimitados que lhes servissem de fundamento. Todavia, acredito ser essa a diferença entre uma teoria especulativa e uma ciência construída sobre a interpretação de dados empíricos. Esta última não invejará da especulação o privilégio de uma fundamentação impecável e logicamente inatacável. Ao contrario, a ciência se dará por satisfeita com ideias básicas, nebulosas e ainda difíceis de visualizar, sempre, porém, com a esperança de mais adiante, no decorrer do seu desenvolvimento, vir a apreender tais ideias com mais clareza, mostrando-se ainda disposta a eventualmente trocá-las por outras. Afinal, o fundamento da ciência não são essas ideias, mas sim a observação pura sobre a qual tudo repousa. Elas não são a base, mas o topo do edifício, e podem, sem prejuízo, ser substituídas e removidas. Atualmente, vivemos a mesma situação na física, cujas concepções básicas sobre matéria, centros de força, atração e outros não são menos questionáveis do que as concepções correspondentes na psicanálise. (FREUD, 1914, p.100).

     Em vários momentos, Freud destaca que o caráter indeterminado e provisório de seus conceitos metapsicológicos não os torna menos válido. Pelo contrário, eles são fundamentais e indispensáveis na medida em que se constituem como os próprios instrumentos “científicos” utilizados na análise do material empírico. Mas estes instrumentos não podem ser rígidos e fixos, devendo se transformar toda vez que a experiência o exigir. Afinal, mais do que fornecer bases para as observações clínicas, as teorias são resultados que quando não são aperfeiçoados tornam-se estéreis.

Enquanto elas [as ideias] permanecem nesse estado [de indefinição], podemos concordar sobre seu significado remetendo-nos repetidamente ao material experiencial a partir do qual elas aparentemente foram derivadas; contudo, na realidade, esse material já estava subordinado a elas. (…) o progresso do conhecimento não suporta que tais definições sejam rígidas, e como ilustra de modo admirável o exemplo da física, mesmo os “conceitos básicos” que já foram fixados em definições também sofrem uma constante modificação de conteúdo. (FREUD, 1915, p.145).

      Entendida neste contexto, a metapsicologia tornou-se para Freud um aspecto essencial desta psicanálise que estava a se inventar, com a função não tanto de formular teses, mas de organizar e justificar o que deriva da experiência clínica.

      Freud fez suas primeiras menções ao termo metapsicologia em cartas para Fliess, no ano de 1896: “tenho-me ocupado continuamente com a psicologia – na verdade, com a metapsicologia” (MASSON, 1986, p.173). Um ano antes, Freud havia escrito o seu projeto de uma “psicologia científico-naturalista”, assentado sob princípios biológicos e mecânicos do sistema nervoso. Trata-se de uma psicologia que recusa a identidade entre o psíquico e o consciente e propõe que a explicação para os processos neuronais sejam buscados em “processos psíquicos inconscientes”. Inconsciente, neste caso, é um adjetivo para os processos fisiológicos que não podem ser acessados direta ou imediatamente pelos sentidos. Como esclarece Gabbi Jr (1995, p.123): “o naturalismo de Freud leva-o a conceber processos que, como os físicos, devem ser inferidos, visto que não são imediatamente apreendidos pela consciência”.

        Pois bem, a hipótese destes processos psíquicos inconscientes como determinantes causais dos sintomas patológicos, acompanha-se de outras, ou seja, que o funcionamento neuronal transcende os processos físico-químicos e que obedece a leis diferentes daquelas de seus componentes materiais. Abre-se então uma área inédita de investigação que exige de Freud instrumentos e métodos específicos, para além do físico e do orgânico, o que a neurologia ou a biologia não tinha condições de fornecer. Tampouco a psicologia clássica. A metapsicologia nasce a partir dessa exigência de se dirigir a investigação psicológica, independentemente da biologia, para este novo campo que se situa entre a esfera orgânica e psíquica.

Além disso, a psicanálise passa a ganhar contornos próprios quando abre mão da referência direta à biologia. Mas para Freud, essa independência da biologia não significará uma renúncia aos pressupostos biológicos e esses permanecerão como o fundamento [inacessível] da vida psíquica por toda sua obra.

Senhores, a psicanálise é injustamente acusada de apresentar teorias puramente psicológicas para problemas patológicos. (…) Os psicanalistas nunca se esquecem de que o psíquico se baseia no orgânico, conquanto seu trabalho só os possa conduzir até essa base, e não além. (1910, p.226).

       Embora Freud deixe de se apoiar tão explicitamente em um modelo neuropsicológico, este permaneceu como inspiração para o desenvolvimento de sua metapsicologia. Apesar de seus esforços para que as considerações biológicas não dominassem o campo psicanalítico, um dos conceitos mais fundamentais, a pulsão, sempre foi situada na fronteira entre o psíquico e o somático, “como um conceito fronteiriço entre as esferas da psicologia e da biologia” (FREUD, 1913, p.184).

     A metapsicologia enquanto um sistema teórico-científico para abordar a misteriosa articulação entre o orgânico e o mental permanece um caminho interessante e original para a superação de dicotomias infrutíferas. A despeito de existirem psicanalistas excessivamente técnicos que insistem em questionar: mas na prática, para que isto serve?

REFERÊNCIAS

BIRMAN, J. Freud e a filosofia. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2003

FREUD, S. (1910) A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

______. (1913) O interesse científico da psicanálise. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

______. (1914) À guisa de introdução ao narcisismo. In: ______. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Vol.I Rio de Janeiro, Imago, 2004.

______. (1915) Pulsões e destinos da pulsão.In: ______. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Vol.I Rio de Janeiro, Imago, 2004.

______. (1925[1924]) Um estudo autobiográfico. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

GABBI, O.F. Notas críticas sobre Entwurf Einer Psychologie. Projeto de uma psicologia. Rio de janeiro: Imago, 1995.

MASSON, J.M. (org) A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess. Rio de Janeiro: Imago, 1986.

Por Aline Sanches*

A ESPINHOSA RELAÇÃO ENTRE INDIVÍDUO E CULTURA

*Por Samara Megume Rodrigues

Num dia de frio de inverno um grupo de porcos-espinhos se aconchegou bastante, para se esquentarem mutuamente e não morrerem de frio. Contudo, logo sentiram os espinhos uns dos outros, o que os fez novamente se afastarem. E quando a necessidade de aquecimento os aproximava de novo, repetia-se o segundo mal, de modo que eram impelidos de um sofrimento para o outro, até acharem uma distância média que lhes permitisse suportar o fato da melhor maneira. (Freud, 1921, p.56)

Essa parábola foi escrita originalmente por Schopenhauer e citada na íntegra em nota de rodapé por Freud em Psicologia de Massas e análise do Eu (1921). Em Freud ela é usada como alegoria para afirmar que toda relação sentimental íntima e prolongada entre pessoas contém afetos de aversão e hostilidade, que apenas devido ao recalque não podem ser percebidos.

Entendendo essa passagem como metáfora da relação indivíduo-cultura, temos de início dois impossíveis: o frio e o espinho. Pois o frio aparece como impossibilidade de sobreviver sozinho (uniam-se para não morrer), o espinho representa as dificuldades de se viver junto (separam-se para não furar uns aos outros). Tal como os porcos-espinhos, existiria para o sujeito em sociedade um meio-termo, em que ele possa viver em harmonia com a cultura?

Seguindo o pensamento freudiano, podemos encontrar as duas respostas: sim e não. A compreensão do vínculo incompatível entre sujeito e cultura não é linear e homogênea e a maneira como cada analista lê e responde a essa inicial incompatibilidade leva a diferentes posicionamentos clínicos, que se desdobram em determinada ética, estética e política da sua prática.

Freud(1930) define a cultura como a somas das realizações que distingue homens e animais, cuja finalidade seria proteger o homem da natureza e regular as relações deles entre si. Assim, ela compreende tanto o desenvolvimento material (instrumentos), quanto o simbólico: normas, leis, moral. O sujeito necessita da cultura, para se constituir como humano. Somos seres sociais, porém não sem dor e sacrifícios.

Nossa civilização repousa, falando de modo geral sobre a supressão dos instintos” (Freud, 1908, p.173). Para conseguir viver em sociedade cada indivíduo precisa renunciar uma parte da sua onipotência e da agressividade, sendo que dessa renuncia surgem tanto os sintomas/patologias psíquicas, quanto o acervo cultural de bens materiais e simbólicos.

Primeiramente, Freud revela em “Moral Sexual Civilizada” (1908) que a neurose não é apenas uma formação do inconsciente, mas produto da intersecção deste com a modernidade. O processo civilizatório doma as pulsões em impulsos de meta inibida, ou seja, eles são “anestesiados”, incorporados às grades do decoro social. Mas a repressão não ocorre sem um preço alto – o empobrecimento subjetivo/erótico/de prazer. A neurose acaba sendo a moeda paga para sair da barbárie. Portanto, [..] “se o neurótico possui sintomas, ele é também o sintoma vivo da cultura” (Assoun, 2012, p.15).

Neste período de seu desenvolvimento teórico Freud(1908) ainda se encontra dentro do pensamento iluminista, no paradigma da ciência moderna. Nesse contexto, ele irá enunciar a hipótese de que a psicanálise pode oferecer uma resposta resolutiva para o conflito indivíduo-cultura, podendo assim, aplacar os males gerados pela moral sexual civilizada (Freud, 1908). Essa hipótese será questionada na segunda tópica, sendo quebrada junto com o abandono da crença na racionalidade moderna e no iluminismo.

 Totem e Tabu (1913), Psicologia de Massas e análise do eu (1921), O Futuro de uma ilusão (1927), são trabalhos que problematizam as origens da cultura e da moralidade, a metapsicologia das instâncias ideais (normas, leis), o sentimento de culpa resultante dos laços de aculturamento, bem como o original desamparo do ser humano – Freud aprofundará a compreensão de que o ser humano não concebe a própria história isoladamente, necessitando sempre do vínculo afetivo do outro para viver e se desenvolver.

Em o Mal-estar na Cultura (1930), o impasse maior para a constituição de uma ordem social não será mais a oposição simplista entre exigências de trabalho pulsional que afligem o sujeito e as limitações impostas pela cultura, mas o próprio trabalho silencioso da pulsão de morte manifesta na agressividade, na força destrutivo-disjuntiva que existe em todo indivíduo. Inicialmente a vida é dispersão, o aparelho precisa realizar um intenso trabalho para capturar os processos psíquicos, ligando-os (pulsão de vida/princípio de prazer). A vida precisa ser conquistada, pois inicialmente ela tenderia ao inorgânico, exigindo do sujeito grande esforço para se manter e se desenvolver. Desta forma, a crença na cura do sofrimento em sociedade se mostrará insustentável. Pois dentro do sujeito existe uma força originária que o impele a destruição. Freud (1930) então quebra com as pretensões de uma harmonia possível entre indivíduo e sociedade, pois nada nos curará do desamparo e de nossa agressividade. Não existem fórmulas para aplacar os conflitos humanos. A ciência não pode curá-los. Cada um precisa construir as próprias saídas, cuidar dos espinhos, pois o ser humano é singular: “Não há conselhos que sirva a todos, cada um precisa experimentar a maneira particular pela qual pode se tornar feliz” (Freud, 1930).

Em Considerações atuais sobre a Guerra e a Morte (1915) Freud abandona a pretensão de colocar a psicanálise como salvadora dos conflitos da humanidade. Aliás, ele faz críticas ao próprio saber científico, entendido como promessa ilusória. Todo saber é falho. É justamente nesse ponto que subjaz a verdade do sujeito: onde ele se perde, tropeça na linguagem, onde o sujeito não pensa, ele é. O campo dos lapsos é o espaço da verdade do inconsciente, para além da razão.

Se existe estabilidade na situação dos porcos-espinhos ela é provisória e instável. Onde há vida, há conflito. Viver é se movimentar, insistir e resistir no e diante do desamparo. A morte e a doença, ao contrário, são paralisia. Nessa compreensão, o objetivo da psicanálise não seria de adaptar o sujeito, resolver suas desordens, abafando seus desejos.  Entre indivíduo e cultura não há distância intermediária pré-fixada que sirva de modelo.

Na alegoria de Schopenhauer a existência dos espinhos pode ser vista como uma barreira contra a simbiose – a fusão completa com o outro – mas ela também diz fundamentalmente do mais áspero que há em nós: a sexualidade e agressividade, bem como os caminhos pelos quais foram construídos seus destinos. Daí a complicação: como propor um modelo de harmonia sendo que tudo irá depender dos espinhos e do seu poder de incomodar os outros?

A psicanálise não pode ser um código para aplacar as incertezas humanas. Mas sim, um instrumento de crítica aos códigos. Guiado por essa compreensão, o ofício da interpretação é mover o sujeito, no sintoma ou na transferência, do lugar daquele que repete para o lugar daquele que cria. Para isso, o sujeito tem que renunciar à tendência, demasiada humana, de buscar amparo em substitutos do pai (moralidade), movimento que gera vínculos espinhosos, calcados em um supereu de culpa e mortificações.

Freud iniciou seu percurso com um Projeto e terminou com um Esboço. A Psicanálise para ele não foi uma teoria dogmática, pois a todo o momento problematizava-a. Sabia-a falha, incompleta. Ela não dá a receita para cada sujeito. Ela precisa ser criada e redescoberta a cada sessão. Nessa aventura, só não nos tornamos temerários, se a prática estiver bem fundamentada em uma teoria. O inconsciente permanece como eterna pergunta, onde sobra sempre um impossível de dizer. Esse vazio, pode ser uma ameaça de encontro com o nada, mas também é potência. Ele pode vir a ser (e é) o índice de criação, o que nos move. Do caos pulsional à palavra, do adverso narram-se os versos, ampliamos os lados: con-versamos! A análise abre caminhos, erotiza a vida, movimenta o circuito pulsional. Psicanalisar é inacabar.

*Samara Megume Rodrigues é psicóloga clínica, mestrando em Psicologia (PPI/UEM), idealizadora e colaboradora da Roda de Psicanálise

Referências Bibliográficas:

ASSOUN, P, L. Freud e as Ciências Sociais: Psicanálise e Teoria da Cultura. São Paulo: Edições Loypla, 2012.

FREUD, S. (1908). Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna. In:____Obras Psicologicas Completas de Sigmund Freud. Vol.IX. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

FREUD, S. (1913) Totem e Tabu. In___Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol.XIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

FREUD, S.(1915) Considerações atuais sobre a Guerra e a Morte. In:___Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e Outros textos. (P.C, de Souza, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, S. (1921). Psicologia de massas e análise do eu. In:_______. Psicologia de massas e análise do eu e outros textos. (P.C, de Souza, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, S. (1927) O Futuro de uma IlusãoIn:___Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol.XXI. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

FREUD, S. (1930). O mal-estar na cultura. (R. Zwick, Trad.). Porto Alegre: L&PM, 2011.

A DESPEDIDA DA INFÂNCIA, SUAS DORES E SEUS LUTOS

por Aline Sanches*

No final da infância, a personalidade encontra-se relativamente estável: há autonomia em certas funções, as capacidades intelectuais e cognitivas desenvolvem-se progressivamente; a criança constrói crenças sobre o mundo onde os pais são as principais referências e a relação de dependência com estes é uma condição natural altamente satisfatória. Com a puberdade, modificações corporais se manifestam incontrolavelmente, acompanhadas de impulsos sexuais e agressivos que irrompem no mínimo contato com o outro. O recém-adolescente passa a estranhar a si mesmo, assim como estranhar as sensações que dele se apossam. Os imperativos do mundo externos também começam a se modificar e a exigir novos modos de convivência. Inicia-se uma fase de confusão, instabilidade e conflitos devido às perdas infantis. Lenta e dolorosamente, o adolescente caminha em direção à maturidade, oscilando entre progressos e regressões, ora responsável, ora totalmente dependente, ora carinhoso, ora agressivo. Seu corpo assemelha-se cada vez mais ao de um adulto, mas seu comportamento permanece infantil. Por não controlar e não conseguir produzir sentidos sobre as mudanças que ocorrem em seu corpo, o adolescente sente-se impotente e ansioso e defende-se através da intelectualização, que se expressa por meio de desejos de reformas políticas, sociais ou religiosas. Assim, compensa a insegurança relacionada ao corpo através de ideais de transformações do mundo, sem que necessariamente suas ações caminhem neste sentido e sem sentir-se agindo de forma contraditória quanto ao seu discurso e prática. Isto é possível porque sua imagem corporal está confusa, como se corpo e mente estivessem em diferentes ritmos de desenvolvimento. No entanto, estas experimentações intelectuais aos poucos vão se confrontando com a realidade e integrando-se, permitindo a aceitação do novo esquema corporal e a elaboração do luto pelo corpo infantil.

Apesar das expectativas e desejos de crescimento, é com tristeza que o adolescente despede-se dos tempos da infância. Há muito mais pesar pelo que está se perdendo do que alegria pelo advir, misterioso e incerto. Segundo Aberastury e Knobel (1981, 1983), as transformações corporais e psíquicas em que o adolescente encontra-se imerso se assemelham ao estado de luto: luto pelo corpo, pelos papéis e identidade infantil e pelos pais da infância.

A turma tem uma importância fundamental nesta fase: é um alívio descobrir no outro as mesmas estranhas transformações; os sentimentos de vergonha, medo, culpa e inferioridade diluem-se, ao mesmo tempo em que há uma discriminação dos adultos e a afirmação de uma identidade adolescente. A família e a turma tornam-se instâncias sociais rigidamente separadas, frente às quais o adolescente comporta-se de diferentes maneiras. Assim, enquanto a turma passa a ser um espaço de vazão das fantasias e ideais, dos impulsos amorosos e agressivos, a família continua sendo a maior representante do princípio de realidade, onde as oscilações de humor e de comportamento são incompreendidas e repreendidas. A separação entre estas duas instâncias é positiva, pois permite a experimentação de outros papéis e identificações. No entanto, pode levar a uma busca exagerada pela diferenciação dos pais e a adesão cega a qualquer forma identitária pregada pela turma.

Gradualmente o adolescente desvincula-se da relação de dependência com os pais, inicialmente de forma confusa e contraditória. Exige que seus pais sustentem a sua independência no mundo, o que é uma grande fonte de conflito. Decepcionado, afasta-se e isola-se, para elaborar a perda dos pais da infância. Surgem sentimentos de revolta que interferem ou mesmo interrompem a comunicação com os pais em alguns casos. Também os pais precisam elaborar a perda definitiva de seu filho criança. Muitos não aceitam o crescimento de seus filhos e agem inviabilizando qualquer possibilidade de autonomia do adolescente, “vivendo cada originalidade sua como sinal de dispersão e mesmo de desagregação familiar” (EIGUER, 1989, p.79). Assim como o adolescente inicialmente busca uma desvinculação de forma confusa e contraditória, também os pais podem exigir a independência dos filhos de forma ambivalente.

O desenvolvimento da vida e o crescimento impõe dores incontornáveis… Como sugere Drummond no poema Verbo Ser, difícil mesmo é conciliar CRESCER e SER.

Que vou ser quando crescer?

Sou obrigado a? Posso escolher? 

Não dá para entender. Não vou ser. 

Vou crescer assim mesmo.

Sem ser Esquecer.

*Aline Sanches é Psicóloga (UNESP/Assis), Psicoterapeuta (CRP-08/19679), Doutora em Filosofia (UFSCar) e Psicanálise (Paris 7).

Aniversário do Freud

Sigmund Freud nasceu em 6 de maio de 1856, na região da Morávia, atualmente parte da República Tcheca, mas àquela época parte do Império Austríaco. Hoje comemoramos 160 anos de seu nascimento.
Freud não é apenas o pai da psicanálise, mas o fundador de uma forma completamente singular e inédita de produzir ciência e conhecimento. Ele reinventou o que se sabia sobre o ser humano, instaurando uma ruptura com toda a tradição do pensamento ocidental, a partir de uma obra em que o pensamento racional, consciente e cartesiano perde lugar exclusivo e de valor prioritário. Seus estudos sobre a vida inconsciente realizados ao longo de toda sua vasta obra, são hoje referência obrigatória para a ciência e para a filosofia contemporânea. Sua influência no pensamento ocidental não cessa de ampliar seu alcance, dialogando com e influenciando as mais variadas áreas do saber, como a filosofia, as artes, a literatua, a teoria política e as neurociências.
 
 
Filho de Jacob Freud e de sua terceira esposa, Amália Freud, Sigmund teve nove irmãos, dois do primeiro casamento do pai e sete do casamento entre seu pai e sua mãe. Era o filho mais velho de oito irmãos e era sabidamente adorado pela mãe, que o chamada de “meu Sigi de ouro”
 
Em 1860, Jacob Freud, comerciante de lã, mudou-se com a família para Viena, cidade onde Sigmund Freud residiria até perto do fim da vida, quando teria de se exilar em Londres, fugindo da perseguição nazista. De família pobre, formou-se em medicina em 1882. Divido a problemas financeiros, decidiu ingressar imediatamente na clínica médica em vez de se dedicar à pesquisa, uma de suas grandes paixões. à medida que se estabelecia como médico, pôde pensar em propor casamento para Martha Bernays. Casaram-se em 1886 e tiveram seis filhos: Mathilde, Martin, Oliver, Ernest, Shopie e Anna.
Embora o pai tenha lhe transmitido os valores do judaismo, Freud nunca seguiu as tradições e os costumes religiosos; ao mesmo tempo, nunca deixou de se considerar um homem judeu.Em algumas ocasiões, atribuiu à sua origem judaica o fato de resistir aos inúmeros ataques que a psicanálise sofreu desde o início (Freud aproximava a hostilidade sofrida pelo povo judeu ao longo da história às criticas virulentas e repetidas que a clínica e a teoria psicanalítica receberam)  A psicanálise surgiu afirmando que o inconsciente e a sexualidade eram campos inexplorados da alma humana, onde repousava todo o potencial para a ciência ainda adormecida. Freud assumia, assim,  seu propósito de remar contra a maré.
Médico neurologista de formação, foi contra a própria medicina que Freud produziu sua primeira ruptura epistêmica. Isto é: logo percebeu que as pacientes histéricas, afligidas por sintomas físicos sem causa aparente, eram, não raro, tratadas com indiferença médica e negligência no ambiente hospitalar. A histeria pediam, portanto, uma nova inteligibilidade, uma nova ciência.

Escutar os silêncios

*Por Samara Megume Rodrigues 

O silêncio tem uma grande importância para a psicanálise, principalmente na prática clínica. Ele não se refere apenas à ausência de palavras, mas é um estado afetivo que comunica, recusa, insinua. Há sempre um silêncio a ser evitado: no primeiro encontro, no círculo de amigos, no trabalho e na família. Ele é temido. O psicanalista não pode ter medo do silêncio. Porque além de ser um material de trabalho ele é uma técnica de intervenção clínica.

O silêncio é nosso estado primeiro, em torno do qual as palavras gravitam. A figura do vazio. Faz-se vida com o verbo, que passa a dar formas e contornos à existência. O silêncio também é nosso estado último. A morte é aquilo que cessa a produção de novas palavras no sujeito. Talvez seja esse um dos motivos pelos quais hoje as pessoas queiram escutar tudo, menos o silêncio. Esperar em silêncio, comer em silêncio e até ler são situações cada vez mais raras. O vazio é inundado pela tecnologia informatizada, que promete nos preencher plenamente. A televisão ligada na hora de dormir ou o celular que insiste em tocar musicas barulhentas em situações de pausa ou repouso. O consumo desses bens não vai nos livrar de nossa finitude, dos limites frágeis e silenciosos de nossas vidas. Esse barulho extremo é apatia. Esse grito pode ser falta de voz.

O silencio gera medo não apenas por ser esse estado além ou aquém do humano. Mas também porque ele porta as palavras proibidas, censuradas e rejeitadas. O sintoma no corpo é uma forma de dizer o que se calou. Novamente os bens de consumo, principalmente os fármacos, se tornam estratégias para emudecer. Igualmente, usa-se várias palavras para encobrir, ocultar. É preciso muita tagarelice para enterrar os ditos proibidos. Em muitos momentos da análise o silêncio anuncia a entrada em um território no qual o sujeito não quer pisar. “Eu não tenho nada a dizer”: são as portas que tapam o negado, o recalque – o que foi silenciado.

No texto “Tratamento Psíquico (ou anímico)”, Freud (1905a) escreve sua descoberta do poder das palavras, sobre como sua representação se articula ao corpo. O afeto é testemunha dessa articulação. Assim escreve:

O leigo por certo achará difícil compreender que as perturbações patológicas do corpo e da alma possam ser eliminadas através de “meras” palavras. Achará que lhe estão pedindo para acreditar em bruxarias. E não estará tão errado assim: as palavras de nossa fala cotidiana não passam de magia mais atenuada. Mas será preciso tomarmos um caminho indireto para tornar compreensível o modo como a ciência é empregada para restituir às palavras pelo menos parte de seu antigo poder mágico (Freud, 1905, p.271)

O encanto das palavras reside no fato de impactarem no corpo e na cultura. A linguagem enlaça os seres humanos, “[…] por isso já não soa enigmático afirmar que a magia das palavras pode eliminar os sintomas patológicos, sobretudo aqueles que se baseiam justamente nos estados psíquicos” (Freud, 1905, p.279). As palavras nos tiram da animalidade. Por meio delas nos tornamos sujeitos, adentramos a civilização.

A experiência de análise se funda em um trabalho de nomeação.  Ou seja, a entrada na análise é a saída do silêncio. A psicanálise é um saber falar, Talking Cure, mas também é um saber escutar e um saber ver. Não as palavras do analista (isso seria sugestão), mas as próprias palavras, aquelas recusadas. O analista empresta seu corpo para que elas falem, para que falhem: esquecimentos, lapsos, duplos sentidos, chistes, sonhos. As formações do inconsciente são provas de que as palavras silenciadas insistem em serem escutadas.

 Freud (1898) no texto “Sobre o mecanismo de esquecimento psíquico” não encontra palavras para nomear o afresco de Orvietto – o esquecimento de Signorelli. Diante desse vazio mnêmico ele constrói a compreensão da existência de uma outra lógica em nossa vida psíquica, em que imperam leis particulares, diferente das que dominam na consciência. Há algo em nós que tende ao apagamento e nossos saberes nos escapam.

Clarice Lispector (1996) em seu conto chamado “Silêncio” diferencia dois tipos dele: o grande silêncio e o pequeno. Ela nomeia como grande silêncio esse estado último, sem lembranças de palavras. Assim ela diz:

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. (p.73)

É preciso quebrá-lo para que a vida se faça. É o silêncio da impossibilidade dos verbos, do trauma, do luto por fazer, do corpo, da dor que não pode ser simbolizada e se tornar sofrimento. Assim “Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio” (Lispector, 1996, p.76). Ao final do conto ela escreve sobre outro tipo e silêncio, o pequeno. É um silêncio que existe na e pela vida. O pequeno silêncio é necessário, pois é impossível tudo dizer. Ele é a falha, o tropeço e também portador do silenciado. Lispector (1996) continua a falar deste “Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia – ei-lo. E dessa vez ele é fantasma” (p.76).

O silêncio que é o limite, o silêncio que é recalcado é povoado de fantasmas. Como já anunciei, o psicanalista não recua diante da cena muda. Freud, diferentemente de Breuer, decide enfrentá-la – é o que acontece na transferência.

O silêncio é uma atitude técnica, que é usada em muitos momentos para “invocar fantasmas”. Quem sofre dirige suas palavras àquele que o escuta. A não resposta do analista, seu silêncio, remete o sujeito a suas origens inconscientes, aos alicerces arcaicos do amor. Mas é preciso lembrar que essa atitude técnica não é indicada para todos os casos ou em todos os momentos da análise. Há silêncios que são improdutivos. O silêncio é ambíguo e nisso reside saber usá-lo. Há fantasmas mais difíceis de serem suportados. Para isso temos que construir uma base sobre a qual analista e analisando possam pisar antes de enfrentá-los. É preciso enfatizar que as vezes a “interpretação” do analista, seu excesso de explicação nada mais faz do que tentar enjaular os monstros, silenciando novamente o que pulsa.

Freud (1905b) ao estudar os chistes, os ditos espirituosos, que são espécies “brincadeiras verbais” formadas por conteúdo inconsciente, escreve que esses são formados involuntariamente. “Não acontece que saibamos, um momento antes, que chiste vamos fazer, necessitando apenas, vesti-lo em palavras” (Freud, 1905b, p.158). Sobre a relação do inconsciente com as palavras, Freud (1905b) oferece a imagem de que  a palavra é a roupa das coisas. Nesse sentido, em uma análise, precisamos nos despir, deixar que se revele. O silêncio do analista é o que dá suporte às associações. É o que sustenta a figuras projetivas. Como nos lembra Alonso (1988) a psicanálise inaugura o campo da escuta, produzindo uma verdadeira ruptura epistemológica concernente a psiquiatria da época. “Diria então que, do lugar do analista, se escuta tudo, para poder escutar alguma coisa. Coisa essa que é o inconsciente, que no seio da repetição insiste para ser escutado, que na trama dos movimentos imaginários, se disfarça, se fantasia e, no entanto, vai tecendo o fantasma” (p.21-22).

O silêncio modifica as demandas, a cada momento. Nesse sentido ele é uma espécie de morte. Quando silenciamos o disfarce fazemos falar o silenciado, ressignificamos nossas perdas. Morremos várias vezes, para fazer re-viver novos sentidos, novas palavras.

*Samara Megume Rodrigues é psicóloga clínica, analista em formação. Possui mestrando em Psicologia (PPI/UEM). É idealizadora e colaboradora da Roda de Psicanálise

Referências Bibliográficas

ALONSO, S, L. (1988) A escuta psicanalítica. Revista Percurso. N;1 Vol.1. São Paulo

FREUD, S. (1898) O mecanismo psíquico do esquecimento. In:____Obras Psicologicas Completas de Sigmund Freud. Vol.III. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

FREUD, S. (1905a) Tratamento Psíquico (ou anímico). In:____Obras Psicologicas Completas de Sigmund Freud. Vol.VII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

FREUD, S. (1905b). Os Chistes e sua relação com o inconsciente In:____Obras Psicologicas Completas de Sigmund Freud. Vol.VIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

LISPECTOR, C. (1996).  Silêncio. In: Onde estiveres de noite. Rio de Janeiro: Rocco.

Mentira: Um mecanismo de defesa

Um psicoterapeuta tem muita facilidade de reconhecer quando está diante de um mecanismo de defesa de seu paciente. Os mecanismos de defesa foram definidos com muita clareza no livro: O ego e os mecanismos de defesa, de autoria de Anna Freud, filha de Sigmund Freud.

Entre os mais conhecidos, encontram-se: a regressão, a negação, a racionalização, a fixação e a sublimação.

MAS, O QUE VEM A SER UM MECANISMO DE DEFESA, AFINAL?

Grosso modo, um mecanismo de defesa é um “recurso” ou “um álibi” que, de maneira inconsciente, o paciente apresenta, frequentemente de modo extremamente assertivo, quando o terapeuta chega muito próximo, do “núcleo de sua neurose”, uma vez que a neurose (o conflito entre um desejo e uma censura) trabalha contra a cura do indivíduo.

Resultado de imagem para MentiraNo entanto, na vida real, alguns indivíduos utilizam-se de pseudos “mecanismos de defesa”, dentre os quais destacamos, por ser o objetivo deste post, a mentira.

MENTIRA, UM TERRÍVEL “MECANISMO DE DEFESA”

Conheço ( e você também deve conhecer!) um batalhão de pessoas estropiadas por completo na vida, porque, infelizmente, foram impiedosamente enganadas por outras em quem sempre acreditaram leais, e a quem devotavam a mais pura e cega confiança, o mais belo, cuidadoso e devotado amor.

Mas…foram apunhaladas pelas costas.

Pessoas que ferem, sem piedade, como foi dito, e pisoteiam o coração de outras, que as amam, tratando-as como tijolos ou pedras; e não como seres humanos que possuem alma, coração e sentimentos, estão mais perto da animalidade irracional do que da humanidade concedida pelo Criador.

Por isso, o seu “mecanismo de defesa” não merece eufemismos, não.

São, para vergonha delas, hipocrisia e falta de caráter, sim – um câncer que invade e toma conta da alma de seres humanos mesquinhos e rasteiros, movidos pela única força que conhecem: a nojenta força do egoísmo.

Que Deus nos proteja de tais pessoas! E que tenhamos a capacidade de discernimento para reconhecê-las e afastar-mo-nos delas!

Tony Ayres

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