DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E TECNOLOGIA

Atualmente, com os enormes avanços da tecnologia, as crianças estão cada vez mais expostas a aparelhos eletrônicos como smartphones, tablets, computadores e jogos em geral. Essa realidade – que é inerente ao nosso contexto histórico e cultural – afeta sensivelmente o seu desenvolvimento cognitivo e emocional e o seu debate mostra-se fundamental para reduzir alguns possíveis efeitos colaterais. Sobre o assunto, vale conferir a entrevista abaixo, com a psicanalista Maria Aparecida Quesado Nicoletti*.

1) As crianças são expostas, cada vez mais cedo, a smartphones, iPads, computadores, jogos eletrônicos etc. De que forma isso afeta o desenvolvimento tanto cognitivo quanto emocional?
Depende muito da etapa da infância que se examina. Pela construção da pergunta entendo que a questão se refere a crianças que estão na faixa etária pré-escolar e no início do período de escolarização fundamental.

Nessa etapa do desenvolvimento, por volta dos quatro ou cinco anos, talvez o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança já deixou para trás os estágios primários da formação de sua psique. Seu corpo e sua mente estão ávidos por experiências novas e isso faz com que a criança incorpore rapidamente a linguagem corrente, nomes e atividades motoras variadas. Em geral, se lhe for dado a escolher o que fazer, as escolhas recairão sobre atividades prazerosas, sejam elas participar de jogos nos quais têm que fazer esforços físicos, seja interagir com computadores ou usar as mãos para manusear objetos.

Começam aqui algumas das dúvidas sobre o impacto que instrumentos e brinquedos computadorizados terão sobre o desenvolvimento infantil. Nota-se, em diversos espaços de comunicação, a existência de opiniões a favor e contra a exposição das crianças dessa faixa etária aos computadores.

Do ponto de vista da psicanálise, que busca o desenvolvimento saudável e harmonioso das crianças contemporâneas, inseridas em seu contexto de vida, a exposição aos computadores e às novas formas de vivenciar e de aprender o que tais instrumentos trazem consigo constitui movimento adequado para o desenvolvimento cognitivo e emocional infantil, sendo pouco provável que tais atividades tenham impactos negativos, a menos que entre em cena o excesso.
Em resumo, a interação da criança com os computadores faz parte da cultura de nossa época e como tal, não deve ser evitada. Sua influência só será ruim quando houver excesso ou deslocamento de intenção, quando o computador é oferecido de maneira contínua, para mudar o comportamento imediato da criança, como ocorre quando se quer que ela concentre sua atenção no jogo, enquanto seu comportamento está “dizendo” que ela precisa de interação com seus pais ou professores.

2) Qual o papel dos pais na imposição de limites ou no incentivo do aprendizado do uso de aparelhos tecnológicos?

A informática traz oportunidades de comunicação e de interação social que nunca foram experimentadas pelo Homem e, por isso mesmo, ainda não sabemos como lidar com isso. Certamente, não será impondo limites sem fornecer razões que a criança possa aceitar, ou incentivando a criança a usar computadores para aprender sem cuidar que a aprendizagem se dê a partir de uma base apropriada de compreensão, que os pais exercerão as melhores de suas influências. Em linhas gerais, pode-se aconselhar os pais a criarem espaços de participação das crianças no modo de vida da família, oferecendo oportunidades para que as mesmas usem não apenas computadores, mas brinquedos físicos, ouçam a leitura de livros, participem de jogos que exijam atividade física, evitando a rigidez da imposição. Acredito que a “chave do sucesso” para limite/incentivo seja a moderação do uso da tecnologia nessa fase de desenvolvimento precoce.

3) Em que medida o uso de computadores, iPads etc. pode afetar a socialização das crianças?

A socialização das crianças depende de um conjunto de circunstâncias de natureza cultural, que incluem as origens da família, sua situação socioeconômica, suas crenças e práticas religiosas, bem como a qualidade dos vínculos familiares. Computadores, em geral, não têm o poder de influenciar o processo de socialização, salvo onde ocorram falhas relacionadas com uma das dimensões acima citadas como, por exemplo, quando a família descuida da socialização da criança, não lhe oferecendo as vivências necessárias para seu desenvolvimento pleno.

4) Como a tecnologia pode estar sendo usada para facilitar o processo educacional ou mesmo suplantá-lo? (Por exemplo, em um restaurante, ao invés de ensinar algum comportamento, os pais dão um iPad na mão da criança para ela “não incomodar”).

Em uma determinada época, a família “terceirizou” a educação dos filhos para a escola, que, além da responsabilidade do ensino formal, passou a substituir a tarefa de exercer também a “paternidade”. No momento, será que vemos a “terceirização” para os aparelhos eletrônicos? Nota-se que muitos pais parecem estar abdicando da importante tarefa de educar, porque educação requer trabalho. Será que essas crianças se sentirão atendidas com amor ou sentir-se-ão abandonadas, por não encontrar espaço para interagir com seus genitores? O excesso do uso de aparelhos eletrônicos também pode ser observado em adultos. É comum ouvir queixas de adultos reclamando que o cônjuge não deixa o Ipad de lado e que, por isso é difícil conversar.

*Maria Aparecida Quesado Nicoletti é psicanalista e membro da SBPSP.

Por que ler Lacan

Jacques Lacan figura entre os mais importantes psicanalistas do século 20 e sua leitura da obra freudiana – a partir da filosofia hegeliana, da linguística saussuriana e dos trabalhos de Levi-Strauss – deu origem a uma das principais escolas da psicanálise francesa. O artigo abaixo, da psicanalista Sandra Schaffa, percorre alguns dos pontos centrais de seu pensamento e como eles se articulam com a obra freudiana. Vale a leitura!

É possível ler o texto freudiano reconhecendo que o inconsciente está estruturado como uma linguagem, como proposto por Jacques Lacan. Ele criticou a suposição largamente difundida de que a linguagem está a serviço da comunicação. Ao transformar o homem até mesmo em seu corpo, a linguagem não pode ser considerada propriedade humana secundária. O diálogo analítico fundamenta-se na consideração de que somos falados pela linguagem pois é nos momentos de falência do discurso que o desejo inconsciente manifesta uma verdade que o sujeito falante desconhece.

A tese lacaniana de que “O inconsciente está estruturado como uma linguagem” opõe-se à redução do inconsciente a uma reserva de pulsões selvagens que não foram domesticadas pelo Eu. O inconsciente lacaniano é o lugar onde a fala transferencial é mobilizada, onde o sujeito (do desejo) inconsciente se deixa ouvir e pronunciar uma verdade inédita, que escapa à simbolização.

“Wo Es war, soll Ich werden” (“Onde Id era, (ali) devo tornar-me”), Lacan sublinha que na tradução inglesa, que a versão brasileira Standard retomou: “Where the id was, there the ego shall be”, a introdução indevida dos artigos distorce a fórmula de Freud. A interpretação equivocada da sentença freudiana foi base de um modelo de análise, o da Psicologia do Eu. Esse modelo postulava que o processo da análise corresponderia ao desenvolvimento do Eu, “colonizador” das pulsões. Este modelo tem como corolário a suposição de que o Eu (supostamente) mais “desenvolvido” do analista serviria como norteador do processo analítico.

Lacan opõe-se agudamente a essa concepção da análise. Para designar o lugar do analista e o sentido de suas intervenções, propõe a teoria do sujeito suposto saber. O sujeito suposto saber é uma condição intrínseca à experiência da análise, um efeito da estrutura do diálogo analítico. O analista não deve se identificar com essa posição. Nessa concepção, portanto, o Eu do analista não intervém. Ao contrário, o analista deve dispor-se a ser destituído da condição do suposto saber que lhe é atribuído permitindo que, no lugar desse saber, se instaure um vazio. “Wo Es war, soll Ich werden”, a partir de Lacan, significa: “tenho que chegar ao lugar da minha verdade.”

A linguagem está no fundamento da intervenção analítica; entretanto, o texto de Lacan, com suas construções literárias barrocas, contrasta veementemente com a prosa clássica, com a clareza de exposição do pensamento freudiano. “A linguagem de Lacan utiliza-se da seguinte astúcia: a escrita dá sempre mais o que pensar do que achamos ter compreendido – como se cada frase tivesse um resto, que escapa da compreensão unívoca”, observa Alain Badiou. Tal astúcia, contudo, comporta efeitos paradoxais. A dificuldade que coloca aos leitores incita efeitos de imitação e de repetição patéticas do seu estilo.

Lacan chamou certa vez seus leitores da América Latina de lacano-americanos. Supunha que a distância de sua pessoa poderia favorecer a descoberta da significação pura de seu ensino. Que nos seja possível usufruir dessa condição de estranhamento, ler Lacan e ouvir com mais pureza a língua do psicanalista, seu enunciar renovador da descoberta da psicanálise.

*Sandra Lorenzon Schaffa é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Ciúmes dos irmãos

Afinal, o que está em jogo quando uma criança pequena depara-se com a chegada de um irmão mais novo? Quais sentimentos podem surgir? Como é possível compreender esse tipo de situação e eventuais conflitos?
Sobre o tema, vale conferir o artigo abaixo, da psicanalista Luciana Saddi.

Quando os irmãos chegam, ou mesmo quando uma criança se sente ameaçada com a vinda de primos e amigos, o que está em jogo é a disputa pelo amor dos pais.

Imagine o que você sentiria se seu marido voltasse do trabalho trazendo outra mulher e lhe dissesse: – meu bem, te amo tanto que resolvi trazer mais uma esposa para casa!

É assim que muitas crianças se sentem diante da vinda de um novo irmão. Sentimentos de raiva, de menos valia e medo de perder o lugar já conquistado prevalecem. Com o passar do tempo sentimentos de amor podem se fazer presentes.

A chegada dos novos rivais não aguça apenas a forte rivalidade infantil, aguça também a ambivalência entre o amor e o ódio, aumentando ainda mais o sofrimento daquele que se viu ameaçado pela perda do amor dos pais.

Por mais raiva que a criança sinta desse pequeno irmão ou grande rival, ela também o ama e também percebe que seus pais esperam dela um sentimento bom e de cuidado para com o recém-chegado.

Fortes conflitos entre o amor e os impulsos agressivos levam ao sentimento de culpa e ao desejo de oferecer alguma compensação por um dano real ou imaginado.

Na vida adulta encontramos essa mistura de sentimentos não apenas em relação aos nossos irmãos, também em nossas relações sociais e no desejo de compensar e reparar tão forte para algumas pessoas. Muitos dos nossos comportamentos são moldados nos padrões infantis, nascidos de conflitos poderosos quando os sentimentos eram vividos de forma absoluta e sem disfarce algum.

*Luciana Saddi é psicanalista e membro da SBPSP.

Psicanálise da Família

O atendimento psicanalítico de família é uma modalidade bastante importante nas situações em que a criança ou o adolescente sintomáticos expressam, na verdade, algo que não pode ser metabolizado pelo grupo familiar. Há todo um sistema inconsciente de operações exercido pela família e um aparelho psíquico que serve como sustentáculo para os filhos. Nesse processo, há uma comunicação que vai além daquilo que é conscientemente transmitido, com a possibilidade de que os filhos – em algum momento – manifestem algo que se instalou no grupo e que não pode ser elaborado. Sobre esse tema, vale conferir o artigo da psicanalista Vera Lamanno Adamo, especialista no assunto.

Todas as vezes que eles viajavam de perua Deus ia junto. Ele tentava falar, mas todo mundo era surdo.

Isto foi o que disse uma jovem paciente, em meio a um surto psicótico, quando lhe perguntaram sobre a sua família.
Que deus é este que esta jovem criou? O que ele tinha para dizer que ninguém conseguia escutar? O que este deus, ela mesma, tentava dizer que ninguém conseguia ouvir? Estava ela reclamando a presença de um Outro para escutar e dar sentido ao que, ela mesma, mal conseguia ouvir a respeito de si?

A família transmite ao recém-nascido sua maneira de apreender o mundo externo e de organizar o seu espaço interno. Os pais transmitem consciente e inconscientemente a possibilidade de transformar experiências sensoriais e emocionais, em elementos para experimentar o mundo e representa-lo no espaço interior. O funcionamento psíquico dos pais serve de invólucro e de sustentáculo para os filhos, como uma matriz de sentido. Isto é, o funcionamento psíquico dos pais forma uma espécie de aparelho psíquico familiar constituído por um conjunto de recursos psíquicos que oferece à princípio, uma moderação das angustias insuportáveis para evitar uma sobrecarga as quais, posteriormente, podem ser restituídas em elementos utilizados para imaginação, pensamento, sonho.

Há todo um sistema inconsciente de operações exercido pela família para enfrentar ou se evadir do sofrimento mental, de suas histórias de amor e ódio, suas perdas, seus lutos, de suas experiências mais ou menos traumáticas.

As funções do aparelho psíquico familiar, primeiramente tecido pelo casal e que, posteriormente, passam a fazer parte de uma aparelhagem psíquica comum e partilhada por todos, fundamentam-se na capacidade do grupo de receber, conter, ligar e transformar as angustias de cada um, permitindo, assim, uma comunicação entre consciente e inconsciente, realidade interna e realidade externa. Este processamento favorece um trabalho de discriminação entre eu e outro, fantasia e realidade, acontecimentos atuais e acontecimentos passados.

Quando a família busca ajuda através de uma criança ou adolescente sintomáticos compreende-se este fenômeno como a manifestação de uma não metabolização do grupo de vivências muito intensas, experiências esparsas, não representadas, impensáveis.

Quanto mais a família apresenta-se (e muitas vezes por meio de gerações) impossibilitada de viver limitações, privações, doença, dor, sofrimento, morte e luto, mais se instalarão defesas grupais radicais, como por exemplo, recusa de diferenciação entre o que é e o que não é característico do humano, da vida, da morte, da temporalidade, do feminino e do masculino.
Todas as vezes que eles viajavam de perua Deus ia junto. Ele tentava falar, enfatizou a paciente, mas todo mundo era surdo.

Esta não seria a sua forma de dizer que estavam todos mudos e surdos para aquilo que necessitava ser dito, ouvido, contido e transformado em uma linguagem que contivesse sentido e significado ?

Escutar uma família, tarefa essencial de um trabalho analítico, diz respeito à capacidade do profissional de processar como a família efetua a comunicação entre consciente e inconsciente; entre os conflitos atuais e o funcionamento mais arcaico; como manejam a individualidade de cada um; como a família reconhece suas dificuldades enquanto grupo, se tende a projetar os conflitos em um ou mais de seus membros, ou fora dela, se tende a banalizar, minimizar ou anular suas dificuldades. Uma escuta investida de experiência emocional passível de sentido.

*Vera Lamanno Adamo é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas.

Adolescência

A adolescência é um período de transição da vida infantil para a fase adulta. Trata-se de um momento crítico do desenvolvimento, no qual – além das mudanças físicas definitivas – o indivíduo vai construir novos valores e vivenciar experiências afetivas e sociais que necessitam outros e recém adquiridos recursos psíquicos. A formação de uma identidade adulta e o enfrentamento de conflitos gerados pela perda da infância e o ingresso em uma nova etapa são aspectos centrais dessa fase. Também para os pais o momento é crucial. Reconhecer que os filhos cresceram e estão prontos (ou quase prontos) para seguir adiante não é um processo fácil. Sobre o tema, vale ler o ótimo artigo do psicanalista e membro da SBPSP, David Levisky.

Adolescência

Por David Levisky*

A adolescência é um fenômeno universal, presente desde o surgimento do homem simbólico. Trata-se de um período crítico do desenvolvimento humano por ocasião da passagem da vida infantil para a vida adulta. Ela decorre das transformações hormonais revolucionárias responsáveis pelo crescimento e manifestações da sexualidade adulta com o inicio da puberdade, que gera mudanças primárias e secundárias da sexualidade. As primárias, com o surgimento da menstruação – fruto da capacidade de ovulação e seu ciclo na menina e da ejaculação com a produção de espermatozoides no menino. As secundárias se caracterizam pela distribuição dos pelos, gorduras, seios, pênis, mudanças de voz, peso e estatura.

O fenômeno central da adolescência é a busca da identidade adulta. Nesse processo de transição há uma crise oriunda de conflitos gerados pelas perdas da vida infantil, do corpo infantil e dos pais da infância até a aquisição de novos objetos de amor, de múltiplas experiências afetivas, intelectuais e sociais. Renovação de valores, de ideais de si, da autoestima e de recursos para lidar com as realidades internas e externas e maior tolerância às frustrações fazem parte desse porvir. Vivem ambivalências e contradições e tentam integrá-las em um sentimento de si, para serem capazes de conter indecisões, dúvidas, incertezas que requerem tempo e experiência de vida na busca de maior autonomia.

Eles atravessam fases depressivas, impulsivas, explosivas, passivas, hiperativas, momentos de onipotência, de negação da realidade, de inconsequência e baixo teor de responsabilidade até que uma sucessão de experiências exitosas e negativas contribuem para a construção de recursos psíquicos para desenvolver uma percepção mais clara de suas possibilidades e limites. A configuração de uma boa autoestima é fator fundamental na elaboração e evolução da personalidade e da identidade. Necessitam incorporar em seu eu aspectos masculinos e femininos da personalidade; tarefa complexa que depende de fatores intrínsecos dos jovens e de suas relações com os pais e sociedade durante a vida.

O tempo de duração e término da adolescência dependem de fatores múltiplos e implicam requisitos impostos pela sociedade para considerar um indivíduo como adulto. Nas culturas indígenas, por exemplo, era necessário – uma vez atingida a maturidade reprodutora –, ser capaz de enfrentar os ritos de passagem que definiriam as condições de ser adulto para aquela sociedade e cultura como: saber caçar, pescar, cultivar, cozinhar, lutar, defender sua família e território.

Nas sociedades contemporâneas os ritos de passagem estão diluídos entre os múltiplos recursos a serem desenvolvidos para fazer parte da vida adulta. Não é suficiente alcançar a capacidade reprodutora e ter uma profissão. É necessário aprender a dirigir carro ou moto, passar no vestibular, aprender línguas, fazer mestrado e, se possível doutorado e pós-doc. Tudo isso faz com que o período de transição se alargue, podendo chegar tardiamente. Alguns atingirão a plena maturidade somente após os 35 anos, constituindo o que alguns autores chamam de “geração canguru”. São jovens que não querem e não precisam abandonar a casa dos pais para terem uma vida afetiva, social, profissional autônomas. Vivem uma independência relativa às suas conveniências. Conservam os privilégios da vida adolescente e querem usufruir das vantagens da vida adulta. O alargamento do tempo de vida dos pais tende a criar condições facilitadoras para a permanência dos filhos em casa. Pais e filhos podem formar um conluio inconsciente que protela a entrada dos filhos na plenitude da vida adulta.

Pode-se afirmar que o término da adolescência é variável e dependente de fatores psicológicos, sociais, econômicos, culturais, religiosos, políticos e históricos de cada sociedade dentro de sua cultura.

A adolescência é um período de transição sempre turbulento – crise da adolescência – tanto para os jovens quanto para as famílias. A turbulência dos jovens advém não só das transformações orgânicas, mas, também, dos processos de mudanças psicológicos, sociais, econômicos, políticos, religiosos e históricos que interferem na constituição do aparelho psíquico, da vida afetiva e social.

Ao se desvencilharem do corpo infantil, dos pais da infância e do seu próprio modo de funcionamento enquanto crianças necessitam assimilar novas experiências afetivas com a descoberta de novos objetos de gratificação amorosa e sexual, definição da identidade sexual, capacidades intelectuais e da vida em geral. Processos que os capacitam a lidar com recursos criativos para lidar com incertezas, dúvidas, frustrações e decisões ao enfrentarem novos desafios.

Durante essa fase de transição, há um enfraquecimento do ego, isto é, das funções que administram as relação do jovem com ele mesmo e com a vida exterior. Neste período o jovem se torna vulnerável à emergência de quadros comportamentais que lembram desvios (patologias), visto que ficam impulsivos, prepotentes, tendem a negar a realidade, não medem adequadamente as consequências de seus atos e são, por natureza, instáveis, insaciáveis e pouco responsáveis. A intensidade desses fenômenos se agrava quanto mais complexo e sofrido tiverem sido os primeiros anos de vida.

Com o enfraquecimento do ego – das capacidades de administrar os vários elementos psíquicos que o compõe – há uma tendência a que tais conflitos do passado interfiram na organização dos sentimentos, na forma de ser, sentir, pensar e agir. A adolescência é considerada como um segundo nascimento – uma oportunidade para reconfigurar e reordenar valores, formas de lidar com as angústias, projetos e recursos para alcançar formas de realização. A primeira oportunidade para o desenvolvimento adequado da atividade psíquica começa no início da vida e até antes mesmo da criança nascer, no imaginário dos pais.

Na adolescência, o jovem tem condições para adquirir novos valores e desenvolver a capacidade de ser continente de seus afetos, sonhos, desejos, fantasias, frustrações e realizações. São também capazes de reparar, refazer erros cometidos e escolhas inadequadas de caminhos. Para isso é fundamental que sua autoestima seja preservada e revitalizada. Sua inserção social é significativamente diferente quando eles se sentem úteis, valorizados e participativos da vida social.

Há aspectos na adolescência que se modificam tão rapidamente como a moda e o linguajar. Outros, se modificam lentamente como valores, ideais, filosofias de vida, modos de lidar com o sofrimento psíquico e formas de se defender ou de enfrentar situações. Há, ainda, mudanças tão lentas que parecem imutáveis, mas que se transformam no longuíssimo tempo como a elaboração do Édipo. A metabolização das relações triangulares entre filhos, (mãe) funções maternas e (pai) funções paternas tendem a ser muito lentas.

As famílias também passam por um grau de transtorno diante das necessidades de se desvencilharem do filho da infância até que possam reconhecer o desenvolvimento do filho(a) e incorporar que ele(a) não necessita mais dos cuidados dos pais da infância.

A delinquência na adolescência é reflexo de falhas precoces nas relações afetivas do início da vida e que emergem nos comportamentos inconscientes durante a crise da adolescência.

Uma sociedade na qual a desfaçatez e a corrupção são normas de convivência, elas servem de modelo de identificação para jovens em plena reestruturação de sua personalidade. A delinquência pode ser um grito de alerta para aqueles que a escutam como “eu existo, eu quero ser considerado, alguém me tirou esse direito e condição”. Nestes jovens a ferida da autoestima vem de longa data e se transforma em um modo de ser no mundo. Surge uma dose de esperança quando medidas psicosocioeducativas são tomadas com vistas à reinserção psicossocial.

Quando se vive num país carente de pai e mãe simbólicos, onde os elementos internos e externos reguladores da vida social são fracos ou ausentes, autoriza-se as várias formas de violência.

A democracia interna e social dependem da eterna vigilância. Entenda-se, da eterna consciência necessária e desejável para se alcançar o equilíbrio entre os elementos construtivos e destrutivos que estão sempre presentes em todos nós. É na adolescência que se pode ter vivências que facilitam o aprender com as experiências no intuito de simbolizar, sublimar e de modular os impulsos para a inserção no convívio psicossocial.

Onde há um adolescente é necessário que haja um adulto (pai, mãe, professor, tio, padrinho, amigo) mais experiente que o confronte no sentido de refletir e ponderar sobre seus atos impulsivos. É da existência do conflito que o jovem desenvolverá pontos internos de referência para analisar e modular suas ações e valores. O adolescente contribui para o desenvolvimento dos pais e da sociedade adulta por ser a parte mais ativa e renovadora da sociedade. Crescemos com as confrontações dos jovens que nos fazem ver e pensar diferentemente do que estamos acostumados ao introduzirem novas formas de ser, sentir, pensar e agir. Simetrias e assimetrias nas relações, limites entre público e privado, noções de liberdade versus responsabilidades estão presentes e colocam os jovens em confronto consigo mesmos, com seus pais e a sociedade da qual fazem parte. São energias que mobilizam e dão sentido ao viver criativo.

* David Levisky é psicanalista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e tem especialização nas áreas da Infância e da Adolescência. É PhD em História Social (USP).

Psiquiatria e psicanálise: É possível um diálogo?

Em que medida a psiquiatria e a psicanálise – campos de conhecimentos distintos – podem ser utilizados em conjunto no tratamento dos transtornos mentais? É possível um diálogo fecundo entre as duas disciplinas, tendo em vista os métodos próprios de cada uma delas?
Sobre o tema, vale conferir o ótimo e esclarecer artigo da psicanalista Thais Blucher, membro da SBPSP.

Psiquiatria e psicanálise: É possível um diálogo?

Por Thais Blucher*

Recentemente, numa reunião de psicanalistas, um colega foi criticado quando relatou que determinados pacientes em análise necessitavam de um acompanhamento psiquiátrico concomitante. Num outro evento, em conferência num hospital, ouviu de uma colega psiquiatra que ela contraindicava psicanálise para pacientes mais graves que poderiam piorar com o método.

Esse relato parece ilustrar a dificuldade de diálogo que se intensificou nos últimos anos – um confronto entre as correntes biológicas e as correntes psicológicas – no tratamento dos distúrbios mentais.

A psiquiatria e a psicanálise são disciplinas distintas.
A psiquiatria é uma especialidade médica que estuda e trata os transtornos mentais tanto com medicamentos quanto com métodos psicoterápicos. Os psiquiatras, em sua formação, estudam a anatomia, a fisiologia das estruturas neuronais e as patologias da mente. Aprendem a bioquímica do comportamento e toda a farmacologia. Têm durante sua formação um panorama geral das abordagens distintas de psicoterapia, sendo a psicanálise uma delas. Caso o psiquiatra tenha a intenção de se tornar psicanalista deverá fazer uma formação em psicanálise nas diversas instituições reconhecidas.

Já a psicanálise nasce da medicina, com Freud, médico neurologista de Viena que, na escassez de recursos para tratar o sofrimento de seus pacientes, cria uma nova abordagem terapêutica, descolada da anatomia e fisiologia. Já na sua origem, a psicanálise se distancia do modelo médico da época.

Baseado em observações clínicas, Freud elaborou um modelo para elucidar o funcionamento mental e a formação dos sintomas, embora acreditasse que as explicações biológicas pudessem um dia ser alcançadas para explicar as transformações numa análise. Já nos primórdios ele valorizava a filosofia e a literatura como importantes conhecimentos para a prática psicanalítica. Se no início da psicanálise seus interlocutores são médicos, rapidamente ela vai agregando vários interessados de outras áreas. Em 1926 Freud publica um artigo em que defende a prática da psicanálise por não médicos, distanciando ainda mais essa disciplina de uma prática médica.

Durante a primeira metade do século 20, houve um grande domínio da psicanálise nos tratamentos psiquiátricos ambulatoriais, particularmente a psiquiatria Americana.

Na década de 50, surgiram os primeiros medicamentos psicotrópicos e, nas décadas seguintes, ao mesmo tempo em que as drogas progressivamente entravam na prática ambulatorial, também aumentava a polarização da psiquiatria entre os campos “biológico” e “psicológico”. Com o avanço das diretrizes diagnósticas e da metodologia das pesquisas, a medicina cada vez mais passou a ser baseada em evidências, território no qual os estudos com psicofármacos desenvolveram-se imensamente (muito incentivados pelos recursos da indústria farmacêutica).

Desse modo, comparativamente, a psicanálise, apoiada num paradigma muito diferente do tratamento medicamentoso, pouco pode provar sobre o quanto ela conseguia curar, prevenir ou retardar o curso dos transtornos mentais. Como consequência, a psicanálise foi se distanciando da comunidade médica, dando espaço para psicoterapias mais breves, mais simples de serem avaliadas como, por exemplo, o método cognitivo.

Como será que estas disciplinas conversam?

A psicanálise se propõe a compreender os sintomas por meio do método da associação livre, em que o paciente fala o que lhe vem à mente e o psicanalista tenta dar sentido ao relato, supondo que desta forma o sofrimento ganhará uma compreensão e poderá ser elaborado. Um bom modelo seria o de um quebra-cabeça. O paciente traz vários relatos sobre si e juntos, paciente e analista, tentam encontrar a ligação entre as peças e assim dar instrumentos para o analisando lidar com as questões da vida.

Ora, se o paciente encontra-se numa crise intensa seja depressiva, maníaca, de ansiedade, num distúrbio alimentar ou outras, esse sofrimento pode retardar ou até impedir a evolução do processo.

Num texto interessante, dois colegas psiquiatras e psicanalistas Fiks e Santos Jr citam a pesquisadora Kay Redfield Jamison, uma das maiores especialistas no campo dos transtornos bipolares, ela mesma portadora da doença, que relata que quando estava em excitação ou depressão não conseguia produzir nada.

Ao contrário da cultura leiga que acredita que a aceleração produza mais ideias e a depressão mais conteúdo ao sofrimento, Jamison relata que a excitação é muito pueril e que a inibição depressiva traz um sofrimento exagerado. Dentro deste ponto de vista, a medicação psiquiátrica será um instrumento de colaboração ao atendimento psicanalítico, pois alivia o paciente do excesso de sofrimento e permite maior condição para o desenvolvimento da análise.

Por outro lado, as medicações psiquiátricas têm seus mecanismos de ação e sua farmacocinética bastante conhecidas, mas nem todos os sofrimentos são resolvidos com os psicofármacos, sugerindo que existam outros fatores, que não apenas os biológicos, contribuindo para o desencadeamento e manutenção dos sintomas.

A psicanálise poderá trazer outra versão para os acontecimentos da mente e buscar na compreensão dos processos mentais a origem e o desencadeamento dos sintomas. Pode inclusive contribuir na melhor aceitação do analisando para o uso da medicação, compreendendo as fantasias inconscientes que às vezes impedem a aderência ao tratamento.

Finalizarei citando Frey, Mabilde e Eizirik num artigo para Revista Brasileira de Psiquiatria: “acreditamos que, ao abordar os problemas mentais a partir de uma visão exclusivamente biológica ou psicológica, pode-se estar negando um tratamento mais adequado ao indivíduo que sofre. Um dos nossos desafios é reconhecer a complexidade e a multifatoriedade dos transtornos mentais e buscar meios em que se possa integrá-los ou, ao menos, desenvolver e manter um diálogo respeitando as especificidades de cada um. Talvez essa meta precise levar o tempo necessário para a elaboração do luto da perda da onipotência daqueles que (ainda) defendem o reducionismo”.

*Thais Blucher é psiquiatra, psicanalista e membro da SBPSP.

Psicanálise e Direito: Uma Parceria Natural

Das múltiplas interdisciplinaridades da órbita da psicanálise, aquela com o Direito se apresenta como das mais naturais e férteis, seja na esfera conceitua, seja nas produtivas práticas conjuntas possíveis.

Historicamente dá-se que, antes da Medicina, Freud tinha em mente estudar Direito. Dentre outras razões, conta-nos Jones, ele achava que assim poderia impactar a sociedade de sua época. Posteriormente, seu interesse por Darwin, questões humanas e aulas de Filosofia com Carl Bruhle teriam-no influenciado a voltar-se ao campo médico.

Ainda que não tenha se dedicado com maior especificidade à interação entre os campos psicanalítico e legal, há que se notar que é intrínseca ao domínio da Lei a instituição interna que Freud vê e consagra como aquela que atua sobre nossas experiências de amor e ódio, linguagem, cultura, desejo e transgressão.

Para alguns, quando utiliza termos como conflito, defesa, necessidade de punição e institui o superego qual um tribunal interno, ele estaria utilizando um linguajar jurídico procedimentalista.

Foi no trabalho de 1906, “Psicanálise e o Estabelecimento dos Fatos nos Procedimentos Legais”, que Freud arrisca, ainda que sem sucesso, uma sugestão para a utilização de recursos psicanalíticos ao método jurídico.

Aí ele introduz a Psicanálise como novo método a assistir procedimentos legais por meio das associações livres de idéias. Compara o histérico ao criminoso. Ambos tem algo a esconder, o primeiro de si mesmo e o segundo dos outros. As tarefas do terapeuta e do magistrado têm em comum alcançar a revelação do material psíquico oculto, escondido, ainda que o neurótico ajude o terapeuta a encontrar a verdade e o criminoso a boicote. Sugeria que os agentes legais experimentassem o método e após alguns anos de uso julgassem sua validade para si.

Jamais retornou ao tema em sua obra, mas a fertilização interdisciplinar ocorreu, fruto de seus artigos de inserção na cultura, capitaneados por “Totem e Tabu”.

A primeira lei do Direito de Família é tida por alguns como a proibição do incesto. Para Levi Strauss, essa é uma lei ao mesmo tempo natural, por existir em todas as sociedades, e cultural, por se estruturar diferentemente em cada uma delas. Inscreve-se na transição entre natureza e cultura. Do ponto de vista do indivíduo, a repressão instala a origem da lei.

Por seu turno, o importante jurista austríaco Hans Kelsen, que formulou a “Teoria Geral da Norma”, frequentou por um tempo as reuniões das quartas-feiras de Viena, tendo escrito “A noção de Estado e a Psicologia das Massas de Freud”. Ele buscava uma “norma fundamental”, descolada do conceito de justiça.

Quando se vai abstraindo historicamente em direção àquela que seria a primeira lei, iremos nos aproximar, inevitavelmente, da ficção – ou do mito – e aí reencontraremos “Totem e Tabu”.

Há obstáculos a serem transpostos: a Psicanálise busca a radical singularidade de cada um e o Direito é radicado na objetividade. Mas, como dizia Ortega e Gasset , “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Por outro lado, negarmos a ação da subjetividade empobrece qualquer interpretação jurídica. É na relação dialética entre as disciplinas que vamos navegar, se as quisermos fertilizar. É no contato com o outro que plasmamos e reafirmamos nossa identidade.

Judicialização e psicologização da sociedade contemporânea , coexistindo e contrapondo-se entre si, requerem reflexões e práticas em comum. Reflexões conceituais, por exemplo, consideradas as respectivas metodologias , estratégias e hermetismos “idiomáticos”.

Na área de Direito de Família, litígios disfuncionais e divórcios, guarda de filhos, adoção, além das questões ímpares resultantes de novas configurações familiares e biotecnologia de reprodução assistidas requerem estudos e práticas conjuntas. No campo da avaliação de capacidade civil, psiquiatria e psicologia forense agradecem nossos insights. O Direito Criminal é área vasta para a psicanálise contribuir. Direitos da Personalidade são outro exemplo de influência da Psicanálise.

Ética nas práticas psicanalítica e institucional também faz parte da interdisciplina.

Com essas considerações e perspectivas se criou, na IPA, em 2014, o Comitê de Psicanálise e Lei, aberto ao diálogo e a intercâmbios com toda a comunidade psicanalítica internacional. Com essa perspectiva planejamos inclusive uma Jornada na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, provavelmente em junho de 2016.

Vale notar que a SBPSP tem sido, dentre as diversas Sociedades componentes da IPA, instituição pioneira nessa interface, tendo albergado discussões e encontros de relevância incontestável, nos últimos anos.

*Plinio Montagna é analista didata e ex-presidente da SBPSP. Atualmente é Chair do “Committee of Psychoanalysis and Law”, da IPA.

Drogas, solidão e confusões

A dependência química é uma das mais graves formas de adoecimento mental e seus efeitos, geralmente, se alastram para muito além do indivíduo que consome a droga. Trata-se de uma questão de saúde pública, que repercute nas diferentes esferas sociais. Recentemente, o jornalista britânico Johann Hari publicou um segundo trabalho acerca do tema, sugerindo novas hipóteses sobre o vício que, se corretas, transformariam toda a estratégia dos profissionais envolvidos no combate às drogas. O artigo abaixo, da psiquiatra e psicanalista Adriana Rotelli Resende Rapeli, faz uma breve análise sobre o estudo e as suposições de Hari. Para quem se interessa pelo tema, vale a leitura!

Drogas, solidão e confusões.  

Por Adriana Rotelli Resende Rapeli*

Um amigo pediu minha opinião sobre o livro “Chasing the Scream”, do jornalista britânico Johann Hari, tal como vinculado pelas redes sociais há algumas semanas.

Pelo que li na internet, o jornalista entende que há razões sociais e políticas para que as drogas tenham sido proibidas nos EUA, há aproximadamente 100 anos. Os argumentos do artigo se baseiam em entrevistas que ele fez ao redor do mundo com pessoas que foram ou eram dependentes químicos e em resultados de experiências com ratos de laboratório, que mostravam que estes consumiam menos a água que continha substâncias químicas se houvesse mais ratos e opções de atividades em suas gaiolas. Completa citando a diminuição do consumo de heroína quando os soldados que lutaram no Vietnã voltavam para casa. Conclui que a dependência química seria causada pela solidão, pelo estresse e pela falta de opções sociais. E que a guerra às drogas, portanto, estaria usando estratégias equivocadas.

Eu me dispus a refletir sobre o assunto, sabendo que corro o risco de, do mesmo modo que a informação descontextualizada da internet e com objetivos de propaganda, causar efeitos reducionistas e simplificadores.

Na geração atual ou em antecedentes, raro é que alguma família em nosso meio não sofra com problemas mentais, entre eles a dependência química. O discurso de culpa está presente em muitas das famílias de dependentes químicos que atendi. Culpa que sobrepõe à rejeição, mágoas e ressentimentos que o dependente químico provocou ao longo de décadas. As frustrações repetidas tanto em relações familiares quanto na sociedade provocam o pior de nós mesmos, e as reações muitas vezes são de vingança, raiva e crueldade. Há um impasse: ou não conseguimos cuidar e daí somos mal cuidadores, ou a pessoa é má e merece o mau tratamento. Oscilamos entre a culpa e a raiva e desenvolvemos defesas emocionais diante de sofrimento, como a negação.

A situação não é simples. Não dá para equiparar humanos a ratos de laboratório. Embora essas experiências ampliem o entendimento dos mecanismos de ação de drogas, não dá para equiparar humanos a ratos, não somos só pavlovianos. Há que se considerar questões de personalidade e questões psiquiátricas que, juntas, desencadeiam, se somam ou pioram o quadro. Há fóbicos e deprimidos que desenvolvem dependência do álcool. Assim como indivíduos com transtornos de personalidade antissocial podem desenvolver múltiplas dependências. São tantas as variáveis que não se pode restringir a questões sociais mesmo que elas sejam sim importantes fatores que agravam tais condições. A solidão pode ser causa, mas também consequência da dependência química.

Do ponto de vista mais psicodinâmico, mesmo na dependência do cigarro vemos uma condição emocional de regressão, baixa tolerância a frustração, dependência e passividade (ainda que travestidas de hiperatividade). Débil vitalidade, histórias pessoais com retalhos de vivências de perda parcamente elaboradas e um escasso sentido de individualidade estão entre as configurações emocionais que comumente encontramos nos dependentes químicos.

Os casos mais benignos respondem positivamente – como na experiência do ratinho da gaiola –, quando expostos a uma maior diversidade de opções e atividades. Ou como os soldados que voltam da guerra e saem do medo e privações para uma estrutura social mais segura e confiável.

Mas a maioria das pessoas continua em sua guerra implacável, em que não há vencedores. E se restringem a comportamentos de adição de drogas que se tornam irracionais e limitadores, como o rato da gaiola vazia. Seu mundo assim se torna, vazio, nada existe, mesmo que a família, amigos e profissionais de saúde ainda estejam por perto.

Somos seres despreparados para a vida emocional, quando esta requer recursos ainda não desenvolvidos. Usamos drogas. E somos também seres despreparados para cuidar dos que estão sofrendo e adoecendo. Teremos que continuar buscando o grito (chasing the scream), ouvi-lo entendê-lo, traduzi-lo e talvez continuar colhendo mais perguntas do que respostas.

*Adriana Rotelli Resende Rapeli é psiquiatra, psicanalista pela SBPSP e SBPRJ.

Psicanálise em cena

O diálogo da Psicanálise com a arte está na raiz do próprio pensamento freudiano que, ao formular suas teorias, fez uso de mitos e tragédias para costurar conceitos e formular hipóteses de compreensão da psique. No texto a seguir, a psicanalista Silvana Rea fala sobre duas óperas que serão encenadas em São Paulo e aproveita para contextualizar e explicar a tragédia de Édipo Rei e sua importância na teoria freudiana.

Psicanálise em cena

Por Silvana Rea*

Nos últimos dois fins de semana de novembro, o Teatro São Pedro, em São Paulo, apresentará em uma única récita duas óperas poucas vezes encenadas: Oedipus Rex de Igor Stravinsky com libreto de Jean Cocteau e O Homem dos Crocodilos, de Arrigo Barnabé com libreto de Alberto Muñoz.

Oportunidade única para assistir a duas obras primas, mas também oportunidade para assistir a fundamentos e conceitos psicanalíticos em cena.

Vamos começar com Oedipus Rex, ressaltando a importância do mito e da tragédia de Édipo Rei como organizador do pensamento de Freud e que culmina na formulação do complexo de Édipo, o fio que costura a teoria psicanalítica.

Mas antes de pensarmos em termos de complexo, é preciso lembrar que Édipo Rei é um mito grego que foi transportado da tradição oral para a forma de tragédia no teatro de Sófocles. Trata-se de uma narrativa que todos devem conhecer – o filho que, sem o saber, mata o pai e desposa a mãe.

Freud, em seu esforço para construir uma estrutura teórica que desse conta dos fenômenos que observava em sua clínica, apoiou-se neste mito grego para pensar as questões do desejo e da sexualidade humana. Em carta a seu amigo Fliess, em outubro de 1897, ele faz a primeira menção explicita a Édipo, considerando que a paixão pela mãe e os sentimentos hostis pelo pai descobertos em sua autoanálise, pudessem ser comuns a todos. Isto se confirmaria na força avassaladora que a encenação da peça provoca nos espectadores.

Mas Freud só vai pensar no mito como um complexo a partir de 1910. Para aqui chegar, precisou antes elaborar suas ideias sobre a sexualidade infantil e sobre a repressão, ou recalcamento.

Vamos então caminhar um pouco para trás. Em 1895, Freud, juntamente com Breuer, nota que a resistência das pacientes histéricas em lembrar aquilo que as afligia, indicava que certas ideias eram separadas da consciência e era esse desconhecimento (ou não lembrança) que gerava os sintomas. Ele começa a elaborar um tratamento que visa a recuperação e integração à consciência dessas ideias, inicialmente pela hipnose, posteriormente pela sugestão e por fim, pela associação livre.

Ou seja, as pacientes histéricas levam Freud à ideia de que uma força ativa fez com que essas ideias e lembranças fossem retiradas da consciência. Portanto, pensa ele, se há um resistência em lembrar, houve uma pressão que fez esquecer. Conclui, então, pela existência de uma resistência que exerce a força que reprime ou recalca. E mais, que há um mundo reprimido inconsciente.

Postular a existência de um inconsciente ativo dá sustentação à sua tese sobre a sexualidade infantil, formulada a partir de seu trabalho com pacientes histéricas e que provocou escândalo nos meios científicos do fim do século 19.

Sim, porque Freud passa a considerar que a histeria tem uma etiologia sexual, ligada a experiências infantis traumáticas que foram reprimidas. E como nota, contrariando sua hipótese inicial de que seriam vivências factuais, as pacientes fantasiam cenas e situações a partir de seu desejos sexuais; desejos infantis os quais, em última instância tem como objeto um de seus genitores. Isto o leva a postular que no inconsciente não há diferença entre realidade ou fantasia.

Agora sim, podemos começar a falar no Complexo de Édipo.

O que é um complexo? Trata-se de um conjunto de representações parcial ou totalmente inconscientes, relativas a situações infantis e que se organizam em função de desejos amorosos, de ódio e agressividade. O complexo de Édipo portanto, refere a uma rede de desejos que se expressam em fantasias ligadas ao parricídio e ao incesto.

Tomando como metáfora o mito e a tragédia de Sófocles, o Complexo de Édipo tem importância fundamental na teoria freudiana por seu valor estruturante da sexualidade e do psiquismo. Ele introduz a questão da alteridade e é o conceito instaurador do superego, da lei e da civilização. Fundamental na constituição da subjetividade, é o principal eixo de referência a partir do qual os sujeitos encontram suas diferentes formas de ser.

O modo de ser do Édipo de Stravinsky e Cocteau é o de um personagem, em parte buscando a verdade de suas origens a qualquer preço, em parte ocultando-a, desafiando o destino ao qual acaba submetido.

Vamos agora conhecer o modo de ser d’ O Homem dos Crocodilos, uma livre adaptação do caso clínico de Freud “História de uma neurose infantil”, conhecido como o Homem dos Lobos.

Dentro de um consultório psicanalítico, a narrativa da ópera desenvolve-se em uma, ou várias sessões de análise do compositor Antônio da Ponte, atormentado pela ideia de que um piano lhe cortará fora as mãos. A partir deste mote, traça uma viagem onírica pelos sonhos, fantasias e associações do paciente e da analista.

A análise de Serguei Pankejeff, o nobre russo apelidado de Homem dos Lobos, centra-se em um sonho: o sonho dos sete lobos brancos, que Freud relaciona com a cena primária. O que reafirma, para ele, o papel da sexualidade infantil na formação das neuroses. E como Pankejeff, Antônio passa por diversas análises sem sucesso, o que introduz a noção freudiana de compulsão a repetição.

Ou seja, a ideia aqui é a de que fantasias recalcadas infantis e ligadas ao Complexo de Édipo, experiências traumáticas que não podem ser recordadas, ressurgem de maneira disfarçada. Para Freud, aquilo que está reprimido – e portanto não lembrado – é expresso por uma atuação, repetidamente. Cada paciente começará sua análise movido por uma repetição desse tipo, que será vivenciada na relação com o analista naquilo que Freud denominou de transferência. Um fenômeno de atualização de experiências passadas à pessoa do analista, em busca de elaboração e ressignificação. Sem isso, repete-se.

Com a noção de compulsão a repetição, O Homem dos crocodilos também se configura como uma tragédia clássica. Antônio da Ponte sofre por algo que desconhece e contra o qual ele luta, mas que guia o seu destino. Aqui, não são os deuses, mas a força do inconsciente e a tendência do aparelho psíquico a repetir.

Bom espetáculo a todos.

*Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pelo Instituto de Psicologia da USP (IP-USP), editora da Revista Brasileira de Psicanálise.

Renúncia

É frequente os psicanalistas serem procurados para tratar das dores do amor. Amantes impossíveis, paixões descabidas e sonhos frustrados que certamente nos levarão a derrota exigem que tenhamos capacidade para renunciar.

Toda renúncia pede determinação. É preciso capacidade de lidar com a enorme dor provocada pela falta e perda de uma satisfação. A ideia é substituir um prazer imediato por outro, longínquo; mas a recompensa por esse sacrifício, às vezes, demora e não está garantida. Quem renuncia escolhe ter um buraco dentro de si.

A renúncia é um processo. Costuma ser o fim de uma longa jornada – feita de idas e vindas, ponderações e desespero – que leva à conclusão de que nem tudo que é bom faz bem. Não há fórmula para realizá-la, durante o trajeto cada um se descobre e, simultaneamente, inventa um caminho singular.

Quando um amor nefasto surge é preciso que a gente se veja como um dependente químico em tratamento, alguém que precisa se conhecer e se fortalecer para largar a droga. Portanto, é fundamental, investigar os dramas atuais e os amores do passado, bem como o papel que esse vínculo desempenha nesse momento de vida.

A capacidade de se transformar e de aprender com as experiências poderá levar ao desligamento desejado ou a outro lugar ainda desconhecido. O trabalho é árduo porque não se propõe apenas a tirar alguém da nossa vida, deixar tudo como era antes para voltarmos a ser nós mesmos, significa, tirar a gente de nossa própria vida. E ninguém gosta da sensação de ser arrancado de um lugar conhecido para ser atirado na escuridão.

*Luciana Saddi é psicanalista e membro da SBPSP.