Não se adoece mentalmente por estresse!

Meu objetivo neste texto é problematizar uma concepção recorrente: a de que causas banais e atuais da vida quotidiana provocam o que em psicanálise chamamos de neuroses e outras desordens mentais.

Uma pessoa procura um analista e lhe diz na entrevista, quando indagada sobre o que ela pensa a respeito das motivações que a fizeram produzir determinados sintomas, que é por causa do estresse no trabalho ou por algum trauma vivido recentemente, ou ainda, por um dissabor no trabalho ou no casamento ou a perda de um ente querido.

O que o analista pensa disso?

Ele pensa que esta pessoa está somente parcialmente do lado da verdade. Vejamos o porquê.

Em “A hereditariedade e a etiologia das neuroses” (Freud, data) ele é enfático ao dizer que há três classes de causas que produzem uma neurose: as pré-condições que é a carga hereditária de uma pessoa para desenvolver determinada neurose; as causas concorrentes que são as motivações atuais que levam à eclosão dos sintomas (estresse, dissabor emocional, trauma, etc.) e as causas específicas, que são as únicas que verdadeiramente importam ao psicanalista. Por causas especificas ele compreende a vida sexual infantil que continua a ser reeditada nas relações atuais deste indivíduo.

Acontece que é corrente o pensamento que apregoa que são os males da vida moderna que levam o homem a produzir sintomas. Não é incomum encontrarmos teorias psicológicas que advogam que são as condições sociais que levam o ser humano a adoecer psiquicamente.

A psicanálise não compartilha desta visão! Se assim fosse, como explicar o fato de duas pessoas submetidas à mesma experiência traumática (por exemplo, a morte do pai) em que uma desenvolve neurose e outra não. Como explicar isso sem recorrer à teorias psicologizantes?

Para dar continuidade ao meu raciocínio, peguemos esta mesma pessoa que perdeu o pai. Suponhamos que depois disso ela desenvolveu sintomas obsessivos e fóbicos. Mais especificamente ela não consegue mais sair às ruas, pois teme que algo de mal lhe aconteça. Por exemplo, teme ser assaltada e morta em seguida. Esta cena – a do assalto seguido de morte – não lhe sai mais da mente como um pensamento intrusivo que aparece a qualquer momento do dia ou da noite.

Ora, explicações psicologizantes que expliquem tais sintomas pela via do trauma pela perda ou pelo excesso de violência real na vida quotidiana não seriam suficientes nem tão pouco eficientes para ajudar o paciente a se desvencilhar do seu padecer. Também não seria eficiente a explicação de que esta pessoa tem uma tendência hereditária ao desenvolvimento de neurose.

Que hipótese levantará o analista frente a escuta de tais sintomas?

Seguindo à risca o que nos legou Freud, esta pessoa desenvolveu sintomas neuróticos porque a morte do pai fez reavivar nela conflitivas edípicas infantis que estavam latentes no seu inconsciente. O psicanalista sabe que a morte do pai faz reacender no inconsciente do indivíduo a chama do desejo parricida e incestuoso (matar o pai para finalmente possuir a mãe) que habita o inconsciente de todos nós. Se esta pessoa for homem provavelmente se sentirá culpada por ter concretizado, na realidade, o seu desejo inconsciente de matar o pai e ter sua mãe para si. Estamos, portanto, dentro do drama hamletiano de Shakespeare.

Vale lembrar que o inconsciente não discrimina desejo e realidade. Ou seja, para ele pouco importa que não fui eu quem matou meu pai, mas sim o câncer ou um acidente de carro.

Além disso, a culpa pelo desejo parricida realizado é sempre atuante no psiquismo e deriva dos imperativos supernegócios, o que explica por exemplo a necessidade de leis religiosas também imperativas como “honrarás pai e mãe e não desejará a mulher do próximo (do pai)”.

Ainda no nosso exemplo hipotético, o pensamento obsessivo de ser assaltado e morto na rua pode ser explicado pelo viés da culpa e da necessidade de expiação pelo desejo parricida. Assim diz o inconsciente do pobre paciente: “Se você matou seu pai e agora finalmente pode deitar-se com sua mãe, nada mais justo que você seja punido por estes seus desejos abjetos pagando com sua própria vida”.

Escrevendo agora sobre isso acabo de me lembrar que no filme Amadeus (1984) que retrata a vida e obra de Amadeus Mozart fica bastante claro que após a morte de seu pai, por quem nutria uma profunda admiração e rivalidade edipiana, Mozart encontrou dificuldade em manter sua produção criativa, envolvendo-se cada vez mais com bebidas e situações bizarras; situação que o levou prematuramente à doença e à morte.

A figura aterrorizadora do pai castrador e assassinado é, inclusive, o mote da ópera Don Giovanni ou o Libertino Punido, criada logo após a sua perda.  Resumidamente a trama se centra nas peripécias amorosas do libertino Don Giovanni, um nobre que seduz donzelas prometendo-lhes casamento, ainda que no final às abandone. Don Giovanni se engraça com Donna Anna, cujo pai era o Comendador. Por fim, este é assassinado por Don Giovani em uma situação em que ele tentava proteger a filha das investidas amorosas do sedutor incorrigível. Ao final da peça, Don Giovanni é arrastado para o inferno pelas mãos do Comendador que volta do mundo dos mortos para exigir vingança.

Nota-se como a presença da temática da triangulação edipiana está presente na peça. Nela Mozart revela seus anseios parricidas com relação ao pai – Comendador e seu desejo sexual desmedido com relação à mãe – Donna Anna. Levando-se em conta que a peça foi escrita logo após a morte do pai de Mozart podemos hipotetizar que nela o compositor realiza sua necessidade de expiação para sua culpa inconsciente pela morte do pai e pelos desejos libertinos dirigidos à mulher. É a vingança do pai pela libertinagem do filho que Mozart realiza em sua obra magistral.

Espero ter conseguido demonstrar que para a psicanálise o evento traumático e atual – a morte do pai, por exemplo – não tem qualquer importância pelo fato em si. Sua importância para o psicanalista reside na significação fantasmática que ele evoca, ou melhor, no desejo inconsciente ao qual ele responde ou faz reavivar.

Explicações psicologizantes, nesses casos, apesar de oferecerem algum conforto momentâneo ao ego do indivíduo não têm qualquer eficácia real. Diz-se, por exemplo, ao nosso sujeito hipotético: “Não fique assim. É natural você estar deprimido. Afinal seu pai morreu!” Mas o próprio sujeito sabe, e o psicanalista também, que este tipo de placebo para a alma tem vida curta e nenhuma eficácia real para o seu padecer. É como querer tratar um câncer com água com açúcar ou benzedeiras.

Ainda seguindo Freud a única saída realista para o sujeito que sofre com seus sintomas é que alguém minimamente corajoso (espera-se que o psicanalista o seja) possa ajudá-lo a se confrontar com seus próprios desejos. Estes mesmos desejos sexuais que a humanidade reluta em aceitar em si mesma, por considerá-los abjetos e imundos, mas que são parte inerente da nossa natureza; estes mesmos desejos sexuais que, quando negados, podem tornar a vida humana degradante e miserável, mas que também são motor para as realizações humanas mais sublimes e nobres, como é o caso da arte.

Desde Freud há uma tentativa do discurso médico, disseminado na cultura, de sobrevalorizar os aspectos orgânicos e hereditários e de subestimar os aspectos subjetivos e psíquicos do adoecimento mental. A presença da psicanálise no meio cultural humano há pouco mais de um século tem modificado esta perspectiva, trazendo novo e ricos elementos para o homem interpretar e compreender o seu sofrimento não com base em fatores externos e, portanto, alheios ao seu poder de ingerência, mas voltando-se para si mesmo. Para a psicanálise a máxima socrática Conhece-te a ti mesmo nunca deixará de ser atual.

Referência bibliográfica

 Freud, S. (1996). A hereditariedade e a etiologia das neuroses. In. Freud, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud edição standard brasileira. Vol. III. Pp. 141 – 158. Rio de Janeiro: Imago. (Artigo original publicado em 1896.)

Sexualidade e erotismo em Sigmund Freud

* Palestra proferida no dia 28 de março de 2016 no curso de Psicologia da UNAERP (Universidade de Ribeirão Preto), na disciplina Psicologia do Desenvolvimento Humano II, a convite da Profa. Me. Lilian de Almeida Guimarães.

Gostaria de começar minha fala de hoje com um trecho do romance “O homem sem qualidades” do escritor austríaco Robert Musil, escrito em 1931. Este livro foi considerado um dos maiores romances escritos no século XIX e penso que sua grandiosidade se deve ao fato de o autor ter conseguido captar a essência daquilo que viríamos chamar no século XX de “A era da técnica”.

Mais adiante ficará claro para vocês porque decidi iniciar minha fala com um trecho deste belíssimo romance-ensaio. O trecho que escolhi descreve uma situação aparentemente banal dos grandes centros urbanos. Trata-se de um acidente envolvendo um caminhão e um morto como vítima. Os transeuntes se aglomeram em volta do acidente como abelhas e Musil descreve a conduta de um casal aristocrático frente à cena:

Também aquela dama e seu acompanhante tinham chegado perto e, por cima das cabeças e costas baixadas, olhado o homem deitado. Depois recuaram e ficaram por ali, hesitantes. A dama estava com uma sensação ruim no coração e no estômago, que tinha o direito de considerar compaixão; uma sensação vaga, paralisante. Depois de algum tempo, o cavalheiro disse:

Os caminhões pesados que se usam aqui têm um tempo de frenagem longo demais.

A dama sentiu-se mais aliviada, e agradeceu com o olhar. Devia ter ouvido antes aquela expressão, mas não sabia o que era, nem queria saber; bastava-lhe que aquilo explicasse o terrível acidente, reduzindo-o a um problema técnico, que já não a interessava diretamente. Ouviram a sirene estridente da ambulância e todos ficaram satisfeitos com a rapidez de sua chegada. São admiráveis essas instituições sociais. Colocaram o acidentado numa maça e enfiaram-na no carro. Homens com uma espécie de uniforme cuidaram dele, e o interior do veículo, que se divisava rapidamente, parecia limpo e ordenado como um quarto de hospital. Afastaram-se quase com a justa impressão de que acontecera um fato dentro da ordem e legalidade.

Segundo as estatísticas americanas — comentou o senhor —, morrem lá anualmente 190.000 pessoas em acidentes de automóvel, e 450.000 ficam feridas.

— Acha que ele está morto? — perguntou sua acompanhante, ainda com a sensação injustificada de ter visto algo fora do comum.

O que o autor quer nos instigar a pensar com esta cena.

Penso que Musil nos fala da sua perplexidade frente ao fato de que como a era da técnica parece vir ao encontro do anseio humano de amortecer qualquer tipo de reação emocional frente à dura realidade da vida e da morte.  Depois de algo que talvez mereça o nome de compaixão, a dama vê-se aliviada com a explicação técnica do homem de que os caminhões pesados têm um tempo de frenagem longo demais. Esta explicação técnica parece buscar dar conta de todo o mal-estar e perplexidade que qualquer ser humano sente frente à morte. Com esta explicação fria, tecnicista, a dama vê-se aliviada e “aquilo” (o problema insolúvel da morte) não lhe interessa mais. Tudo volta “ao normal”. Em seguida vemos a aplicação exata e precisa das instituições sociais que visam limpar qualquer vestígio da morte, de percepção da fatalidade. Em seguida o casal se afasta com a justa impressão de que tudo se passou dentro da “ordem e da legalidade”. Mais adiante chegam as estatísticas. Mais uma vez a técnica está a serviço do aplacamento do mal-estar inerente à vida. Como se números frios pudessem dar conta da angústia inevitável do viver. A morte, Musil termina brilhantemente, é para aquelas pessoas algo “fora do comum”.

Pois bem, vocês podem estar se perguntando o que isso tudo tem a ver com o erotismo e com a psicanálise? Tem tudo a ver.

O erotismo, assim como a morte, são realidades inextrincáveis ao ser humano. Não podemos nos livrar do frenesi da vida, assim como não podemos destituir a nossa subjetividade do desejo que pulsa e que desacomoda o sujeito de si mesmo, causando-lhe fissuras irreparáveis.

É, portanto, visando o questionamento do domínio nefasto da técnica sobre o desejo, que Freud constrói a sua teorização sobre a sexualidade e o erotismo na psicanálise na aurora do século XX.

Notem que Musil, assim como Freud que escreve seu primeiro texto teórico sobre a sexualidade em 1905 (portanto, 30 anos antes de Musil) anteveem os estragos que a pretensão da onipotência da técnica sobre as emoções humanas nos deixaria como legado no século XXI. Ambos são visionários nesse sentido e dialogam entre si, embora em campos distintos.

Na psicologia e mais especificamente no campo da sexualidade enquanto prática higiênica, a herdeira da “era da técnica” foi a sexologia, que dominou o pensamento médico e jurídico desde a segunda metade do século XIX.

O que foi a Sexologia?  

Sexologia foi o nome que se deu à disciplina que tomou por objeto de estudo a atividade sexual humana e que tinha como objetivo descrever tais atividades e propor para ela fins terapêuticos.  Ou seja, tratava-se de uma pretensão técnica e científica de agenciar o campo do erótico por meio da disciplina do corpo, visando a domesticação dos desejos e a adaptação do sujeito à sua realidade factual.

Para a instauração de tal projeto tecnicista a sexologia partia da premissa de que a sexualidade dita “normal” era aquela que tinha fins reprodutivos e que estava centrada na atividade genital heterossexual, ou seja, o coito praticado entre o pênis e a vagina. Todas as demais práticas sexuais humanas que buscavam o prazer, ou seja, o erotismo mesmo, mas não a reprodução deveria ser localizadas no pólo da perversão e da patologia e deviam ser extintas e controladas por meio de técnicas médicas e jurídicas.

Pois bem, e o que Freud fez frente a este discurso?

Ele não só dialogou com ele, mas propôs uma nova conceituação sobre a sexualidade, não mais fundamentada na biologia organicista da sexologia, mas na concepção do homem como um ser animado e fraturado desde sempre por desejos irreconciliáveis com a realidade. Daí ser mais interessante, para esta perspectiva freudiana, o uso do termo erotismo. Em resumo, o que Freud fez foi subverter a ordem deste pretenso ideal de que o homem, por meio do fazer técnico, iria alcançar a felicidade e o bem-estar pleno, tornando-se um ser plenamente adaptado à sua realidade factual. Freud com sua psicanálise demonstraram que este anseio é da ordem do ideal e que o homem está, desde sempre, imerso em conflitos internos irresolvíveis, com os quais deve aprender a conviver. Neste sentido, o homem da psicanálise deve aprender a abdicar, com resignação e sabedoria, de qualquer ideário de felicidade e de satisfação plena, e aprender a negociar heroicamente com sua condição trágica por excelência.

Mas, vejamos mais detidamente quais foram as revoluções que Freud propôs para o campo do erotismo.

Visando dissociar do corpo biológico a sexualidade reprodutiva e inscrever esta mesma sexualidade no campo do desejo e da ética, Freud postulou que o homem, ao contrário dos outros animais, é dotado de pulsões.

O que são pulsões?

Pulsão é um conceito criado por Freud para dar conta de explicar o excesso energético que acomete o organismo humano desde o seu interior de uma forma perene, constante. Nesta sua postulação Freud parte da premissa básica de que existem dois tipos de estímulos que afetam o organismo humano: os estímulos externos, que chegam de fora. Para estes o organismo desenvolve formas de proteger o seu interior deste excesso de estimulação. Por exemplo, se somos acometidos por um estímulo visual intenso, podemos fechar os olhos. Entretanto, o organismo humano também é constantemente estimulado por estímulos que o acometem a partir de dentro. Tratam-se dos estímulos ligados às necessidades da vida: a fome e o sexo. Ora, como se proteger de algo que vem de dentro? Como a cria humana pode se a ver com esta fonte de estimulação constante que o afeta e diante do qual nada pode fazer, mediante seu despreparo físico e cognitivo, por exemplo, para conseguir se alimentar sozinho? É para dar conta desta situação problemática que Freud cria o conceito de pulsão.

Nesse sentido, a pulsão é este excesso energético do qual o organismo humano precisa dar conta e do qual ele não se livra nunca. Importante frisar que toda satisfação pulsional nunca é plena. Daí o caráter faltante do objeto e do desejo. O desejo, derivado da pulsão, nunca pode ser plenamente satisfeito. No ser humano o desejo só pode ser satisfeito por metáforas, ou seja, por algo que substitui aquilo que se desejava em termos ideais. Toda a engrenagem da produção cultural humana nasce para dar conta desta busca pela satisfação do desejo que, como eu disse, é sempre parcial, metafórica.

À pulsão sexual Freud deu o nome de libido. Este campo energético é móvel, pode estar investido tanto no próprio corpo do sujeito quanto nos objetos (outro) e possui uma variedade de formas e de fontes de satisfação.

Esta pulsão sexual existe desde sempre no sujeito, afetando-o de várias maneiras. Daí que Freud também contraria a ideia da sexologia de que a sexualidade no homem só começa a florescer na puberdade, sendo a criança um ser assexual. Com sua teoria, Freud mostra que a criança é um ser imerso no campo do desejo sexual para os quais ela busca satisfação através do que ele designou por zonas erógenas. A marca fundamental das zonas erógenas é que elas são fendas, orifícios corporais de onde emanam o erotismo e que pedem um complemento vindo do mundo externo (Outro). As zonas erógenas são uma espécie de delimitação entre o interior e o exterior, entre o dentro e o fora, entre o Eu e o Outro.

Original Caption: Sigmund Freud, 1856-1939, Austrian psychiatrist, in the office of his Vienna home looking at a manuscript. B/w photo ca.1930.

Para Freud, o sexo é um efeito distante do sexual, sendo que estas duas palavras deixam de ser equivalentes. O corpo deixa de ser somente o somático e o orgânico. Ele é um caldo explosivo e marcado inelutavelmente pelas pulsões. Só este campo pulsional que atravessa o corpo orgânico pode explicar o quanto o gozo erótico pode se contrapor à ordem da preservação da vida. Pelo gozo erótico, a vida pode ser colocada em risco. George Bataille corrobora esta premissa freudiana aludindo que o orgasmo é uma pequena morte. A sexualidade freudiana é regida pela economia pulsional, marcada por intensidades e afetos. Aqui o sujeito neurótico não é aquele para quem se devem prescrever comportamentos adequados (conforme a sexologia), mas é tido como um sujeito aprisionado em impasses sexuais que o impedem de gozar e ter prazer. Nesta leitura, o neurótico é uma espécie de resultado do discurso da sexologia, para quem ela fez algum efeito.

Freud também pontua que ao contrário do que pensa a sexologia, o sujeito humano tem uma atividade sexual desde sempre, marcada pelo campo da fantasia.

Dito isso, qual a relação que podemos estabelecer entre o discurso científico da sexologia, com seu corpo biológico dotado de necessidades orgânicas e a psicanálise, com seu homem fraturado pelos desejos?

Eu diria que a psicanálise vem responder a uma espécie de resto criado pelo discurso biologizante com sua ilusão de completude corpórea. Ora, o modelo de onde parte o discurso da sexologia é o do corpo-máquina, com suas engrenagens funcionando de modo sincrônico e perfeito. O problema é que este modelo mecânico não se aplica ao humano. Desde o nascimento, o sujeito humano é marcado por fendas, por incompletudes, por uma dependência inelutável do outro.

Destas fendas, destes orifícios que pedem um complemento e que fazem de tudo para animá-los é que surge o desejo, ou melhor, o erotismo. A sexualidade freudiana é uma ética do desejo, pautada no terrível paradoxo humano: dependemos do outro para erotizar a vida, mas não há encontro humano que seja capaz de fazer cessar o desejo. Este é o grande paradoxo com o qual cada um de nós tem de se a ver. E é para responder a este terrível paradoxo que existe a sexualidade: Sou incompleto, logo erotizo.

Vocês já observaram como é um bebê de dois ou três meses? Não podemos dizer que ele é uma engrenagem perfeita. Muito pelo contrário. Um bebê humano nesta idade é a pura personificação de como nós nascemos biológica e psiquicamente despreparados para reagir às necessidades imperiosas da lei da vida. Podemos dizer que um bebê nesta fase se relaciona com o mundo através da boca. Ele conhece o mundo pela boca. Por que faz isso? Não é obviamente só porque tem fome. Esta seria uma perspectiva organicista e simplista de ver as coisas. Ele erotiza o mundo com seu orifício bucal que pede desesperadamente por um complemento para seu buraco. A falta já está inscrita ali, de maneira radical e trágica. O que ele fará com isso? Freud responde: no início, o bebê reagindo pela sua onipotência primária, irá alucinar o seio porque sua relação com a realidade é problemática e precária, o que aliás, sempre será para o ser humano. No caso do bebê, será a marca de incompletude que o fará erotizar o seio, depois as fezes, a pele, os olhos, as palavras e tudo o mais em que o desejo humano puder inscrever sua marca. Ou seja, por meio do erotismo o sujeito humano busca tamponar suas fendas para barrar o abismo que existe entre o dentro e o fora, entre o eu e o outro.

Portanto, de onde Freud parte para falar que o homem é animado por desejos nunca plenamente satisfeitos?

Ele parte de um início mítico do humano: a de que todos nós ansiamos em nossa mitologia individual inconsciente a um retorno à perfeição indiferenciada entre o eu e o outro, entre o dentro e o fora. Esta origem mítica perfeita seria uma espécie de ponto zero ideal da matemática. Lá neste ponto mítico nós seríamos completos, nada nos faltaria, viveríamos um encaixe perfeito com o Outro que nos satisfaria plenamente. Voltaríamos a ser “à imagem e semelhança de Deus”.  A criança humana fantasia que esta completude mítica se encontra na relação com a figura materna, que Lacan designou como sendo o primeiro grande Outro da criança. Este início mítico, se vocês fizerem uma leitura atenta de gênesis, é o que e personifica, por exemplo, na belíssima mítica da queda do paraíso de Adão e Eva.

Se retomarmos o mito veremos que foi o desejo de Eva de ser perfeita e saber desvendar todos os segredos do bem e do mal, exatamente como Deus sabia, que a fez morder a maça oferecida astutamente pela serpente. Vejam o que diz a serpente a ela, instigando-a a comer o fruto da árvore da vida (a única que Deus proibiu Adão e Eva de comer!):

Eva: Deus disse para eu não comer dele, nem tocar nele para que eu não morra.

Serpente: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e serei como Deus, sabendo o bem e o mal.

Então viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e a árvore desejável para dar entendimento.

A partir daí Eva comeu o fruto da árvore da vida e o deu também a Adão. Por ter sido desrespeitado, Deus ordenou que eles fossem expulsos do Éden. A partir daí o homem ingressou, para sempre, na realidade humana com seus paradoxos irresolvíveis. Interessante destacar que a primeira realidade para a qual Adão e Eva se atentam depois de comido o fruto do conhecimento, era para a nudez de seus corpos, o que pode ser interpretado miticamente como sendo a partir do reconhecimento da diferença sexual, inscrita no corpo, que o homem reconhece pela primeira vez sua realidade incompleta. Freud comprova esta teoria individual mítica quando funda sua teoria de que a criança de ambos os sexos até uma determinada idade só reconhece a existência de um sexo: o masculino. É como se o ser humano negasse o quanto pudesse a percepção de que sua incompletude e fissura radical está inscrita desde sempre em seu próprio corpo.

Mas retomando gênesis, a mensagem contida ali é clara: é o anseio humano de um encontro mítico com o Deus-uno, que o levam a querer superar a si mesmo, mas também muitas vezes a sofrer. É partir daquilo que nos falta desde sempre que construímos realizações sublimes, mas que também pode fazer com que nossa existência seja miserável, repetitiva e estéril. Quando isso acontece? Quando o homem nega sua condição de ser faltante. Quando ele não quer se a ver com isso e busca realidades fictícias, ilusórias, em que as falhas, os desencontros e as frustrações estariam pretensamente ausentes de sua mirada. É isso que faz o neurótico: ele se apega a um modo de gozo infantil e repetitivo, que não lhe cabe mais, tudo para não ter que se a ver com sua condição de sujeito castrado, ou seja, não ideal. O neurótico mantém acessa dentro de si a esperança de um dia vir a ser o Tudo do Outro, situação em que acredita poder finalmente vir a ser satisfeito em suas demandas insaciáveis de amor. O neurótico, portanto, não aceita nem que ele nem que os outros possam ser “mais ou menos”, provavelmente a mesma condição que Eva já não engolia.

Vejam que Eva sabia, pela razão, que não devia comer o fruto. Mas ainda assim, movida pela paixão e pelo desejo, comeu. Ora, é disso que se trata a natureza humana. Nós, como humanos, não somos lineares. Nossas ações não são regidas pela racionalidade tão somente, mas também pelos desejos, pelos excessos, pelas paixões. Somos por natureza incongruentes, paradoxais, conflituais. Sabemos que não devemos fazer e ainda assim fazemos. Tomados pelas pulsões, pelas paixões, somos submetidos à um ímpeto que transcende a razão.

Podemos nesse ponto da discussão nos fazer a interessante pergunta: porque Deus castigou Adão e Eva?

Psicanaliticamente nós responderíamos que eles foram castigados porque eles estavam arrogantemente querendo ser Deus. E homens não podem ser Deus. Por causa de sua arrogância, eles não se contentaram em ser homem e mulher. Queriam mais. Assim como quer a criança ultrajada que deseja crescer rápido para ser adulta. Ao serem castigados, eles são obrigados a reconhecer que não podem conhecer todos os mistérios sobre o bem e o mal. Trata-se do ponto de vista psicanalítico de um processo que chamamos de castração, pelo qual toda criança humana deverá passar para que possa vir um dia pertencer à comunidade simbólica humana.

De que se trata exatamente esta castração? Não é simplesmente o medo da perda do pênis como uma leitura simplificante da psicanálise pode dar a entender. Trata-se da percepção dolorosa, a ser vivenciada pela cria humana, de que ela não pode ser o ideal de si mesma. Dito de outro modo: a criança deve perceber, com muito custo, que há um ideal parental e cultural que lhe transcende (a imagem de Deus), ao qual ela deve se curvar e prestar contas. Explicando melhor, para Freud este ideal parental, cultural e simbólico é o ideal civilizatório que já existia e estava instituído antes de a criança chegar ao mundo e do qual ela depende para sobreviver e vir a se tornar humana.

O que Freud considerou com isso é que todos nós quando nascemos carregamos conosco uma dívida simbólica com as gerações que nos antecederam. Dito de um modo mais simples: nós não nos produzimos por nós mesmos. Para existirmos, dependendo do ato generoso de um casal que decide dar à vida a nós e de uma comunidade humana que nos acolhe quando chegamos ao mundo, dando-nos um status humano e simbólico (com um nome, um sobrenome, uma filiação, um pertencimento cultural, etc). Voltando ao mito, Adão e Eva – os primeiros homens criados miticamente – carregam uma dívida com Deus. Se eles decidem competir com o grande criador, a dívida não pode ser reconhecida e muito menos paga. A cria humana deve se curvar e reconhecer sua necessidade inelutável do Outro.

Nesse sentido ético, a sexualidade na psicanálise tem um caráter iminentemente relacional. Não há sexualidade sem que haja uma dupla por onde circulam os desejos. Por isso não há analista sem analisando, não há aluno sem professor, não há crianças sem pais. Precisamos do Outro caso ainda queiramos receber o nome de seres humanos.