O Mal De Muita Gente É Se Achar Insubstituível

Precisamos ter autoestima elevada, para que possamos nos dar o devido valor e para que os outros nos enxerguem em tudo o que somos e podemos oferecer, bem como em tudo o que de fato merecemos.

No entanto, algumas pessoas simplesmente extrapolam o conceito que possuem de si mesmas, achando-se muito mais do que são, querendo receber além do que oferecem, sentindo-se imprescindíveis, alguém cuja ausência seria insuportável. Ledo engano.

Embora sejamos únicos e especiais, ainda que ninguém possa vir a ser igual a nós, sempre haverá quem possa ocupar o nosso lugar em todos os setores da vida, no emprego, nos círculos sociais, ou até mesmo no coração de alguém.

O mundo continua a girar, com ou sem a gente, exatamente porque a vida tem que continuar, as pessoas têm de seguir, tudo deve tomar os rumos adiante, estejamos ou não presentes. Possivelmente, muito não será como antes, mas será.

Por essa razão é que não existe propósito no comportamento de muitos por aí que se preocupam excessivamente com a aparência física, com a aquisição de bens materiais, com a obtenção de destaque social.


Prendem-se tão somente à estética e ao materialismo, juntando dinheiro de forma usurária, negando-se a compartilhar conhecimento, tornando-se seres mesquinhos e fechados. Muitos deles acabam morrendo e levando junto muita coisa que poderia ter sido desfrutada em vida.

Da mesma forma, existem aqueles que não se permitem dividir ninguém com o mundo, como nos casos de ciúmes extremos, clausura forçada aos filhos, sentimento de posse em relação aos amigos.

Não interagem com ninguém mais do que com a família e os poucos e seletos amigos, inclusive cerceando os passos de todos eles, querendo que se confinem ao seu mundinho, como se sua companhia já bastasse a todos. Não percebem que aqueles que sobreviverem a eles certamente buscarão novas amizades, novos companheiros, novas pessoas, enfim.


Não existe vazio que não possa ser preenchido, não existe coração que não possa ser revivido, ninguém mantém buracos abertos por muito tempo sem se sentir incomodado.

Faz parte do movimento da vida ressignificar-se, retomar os passos, preenchendo-se os recantos em que há ausências, reerguendo-se dos abismos à procura de mãos que puxem de volta ao caminho da vida. Bobo de quem se acha a última bolacha do pacote, pois elas costumam quebrar ou murchar. É isso.

Um Amor De Miojo

Nunca foram ouvidas tantas frases feitas como hoje em dia. E existe um clamor, talvez mesmo um modismo, do preciso dizer “te amo”. É tão banal, que nem dá para acreditar que é verdade.

São palavras ao vento, que se dissipam com os sentimentos, outrora tão sublimes. E somos enganados por tudo que criamos.


Aliás, não sei quem criou esta história de “ficar” com alguém. Mas, o negócio pegou tanto que todo mundo “fica” com todo mundo, mas no fim, “fica” sozinho. E pessoas e coisas ficam todas no mesmo saco do descartável. O que mais vamos inventar?

Tem gente que pensa que relacionamento é miojo. Em três minutos está pronto, fumegante, bonitinho. O problema é que não sacia fome alguma. É aquela coisa instantânea, em que sempre fica faltando alguma coisa. Mas, também, o miojo é algo que não dá trabalho. Está ali, é só seguir uma receitinha, porque todo mundo tem pressa e não quer ter dor de cabeça. Pois relacionamentos mais consistentes precisam de mais dedicação. Demoram a apurar. Mas, são muito mais gostosos. Não é só chegar, fazer acontecer e comer. Tudo tão banal!! Não tem graça…

Tenho visto pessoas cada vez mais insatisfeitas pela falta de maturidade com que encaram os relacionamentos e pela falta de discernimento do que é mesmo o amor.


Tudo bem, cada um tem uma noção subjetiva do amor. Mas, de uma coisa eu tenho certeza: amor não dá porrada, não te bota para baixo, não te larga em momento difícil, não te passa a perna, não transforma um sentimento em uma prostituição diária pelo bem estar mútuo.

Amor, aliás, é algo tão bom que nem dá para explicar. É algo que transcende. E é algo que dura mais que pilha alcalina.

Mas, num mundo como o nosso – em que tudo parece dentro de uma garrafa PET pronta para ser esvaziada e ir para a reciclagem – é difícil (re)conhecer o amor. E o que temos é um bando de gente comendo tudo quanto é miojo, mas se sentindo vazio por dentro. Um vazio que não há massa instantânea que resolva. Um vazio que pressiona por mudanças, mas que ninguém quer sair à frente e ser o primeiro, embora seja preciso.

Encaremos a realidade: estamos menos felizes, seja com alguém do lado ou sem ninguém. Enjoamos muito fácil das coisas e das pessoas. Não queremos trabalho. Não queremos um miojo que se transforme numa lasanha. E perdemos ainda mais massa encefálica em relacionamentos fadados ao fracasso. Entretanto, não queremos ficar sozinhos. Como assim?


Façamos um minuto de silêncio. Pelo amor que morreu. Pelo amor que não se conhece. Pelo amor miojo. E enterremos tudo o que não faz bem, para o verdadeiro amor renascer.

Amemo-nos mais. E saibamos amar os outros. Pelo bem dos relacionamentos. Pelo nosso próprio bem.

A Vida É Curta, Viva O Hoje

Eu só queria te dizer pra aproveitar melhor sua vida. Cada pedacinho dela. Dos grandes eventos às coisas pequenas do dia a dia.

Você precisa notar mais os detalhes, viver de verdade o momento. Parar de viver no automático.

Queria te dizer pra não perder tempo com o que não te faz bem. Por que insiste nisso? Por que gasta seu tempo, a coisa mais rara, a única que não volta, com o que te faz mal?

Você não deveria gastar seu tempo assim. Priorize melhor as coisas.

E queria dizer também pra não deixar passar as oportunidades de ser feliz, porque hoje você vive como se fosse viver pra sempre e prova isso em cada momento que você não vive ao máximo, a cada chance que você ignora, a cada vez que adia alguma coisa e a cada vez que você se fecha pra algo ou alguém.

Você tem que parar de viver como se tivesse todo tempo do mundo. Você não tem!


Você pode não estar mais aqui amanhã, as pessoas que você ama podem não estar mais aqui. Então por que você depende tanto assim do amanhã?

Não chegue no final da vida com arrependimentos, não olhe pra trás se lamentando do que não fez, dos momentos que não viveu, das atitudes que não teve, não dê chance a esse gosto amargo na boca.

Viva da forma que seu eu do futuro tenha orgulho de quem você foi e de quem você é. Chegue lá com ótimas histórias pra contar, com as lembranças mais gostosas.

Seja hoje a pessoa que você quer ser, corra atrás hoje do que você quer, planeje logo a viagem que você quer e não faz.
Mande logo a mensagem que você pensa e não manda. Diga o “te amo” que você sente e não diz.


Você tem que dizer (e mostrar!) que ama todos os dias. Dê um abraço forte em quem você tem carinho. Vai chegar o dia que você não vai poder mais fazer essas coisas. E a gente nunca sabe quando é esse dia, pode ser amanhã!

Não perca isso, não deixe isso acontecer. Seja feliz agora. Viva hoje.

A vida pode ser maravilhosa e cabe a você fazer com que seja. Sem desculpas, sem adiamentos, sem justificativas, sem culpar outros.

Você é a única pessoa responsável pela sua felicidade. Não está nos outros, está em você.


Viva mais, ame mais, seja mais. Só depende de você, então vá. Vá ser feliz hoje! A vida é tão curta, a vida é tão rara.

Não deixe seu tempo passar, não deixe a vida te levar.

Não Posso Mais Viver Sem Mim

Nunca fui uma mulher exatamente bonita. Sabe quando a gente se pega olhando para alguém e pensando “nossa, essa pessoa seria maravilhosa se tivesse os olhos um pouco menos caídos”? Sou tipo isso.

Eu seria linda se tivesse os traços um pouco menos assimétricos. O nariz um pouco menor. A mordida um pouco menos cruzada. As sobrancelhas um pouco mais delineadas. Os dentes um pouco menos amarelados – e olha que eu não fumo, não tomo café e não tomo Coca-Cola. O queixo um pouco menos avantajado. A orelha um pouco mais… Não. Na minha orelha ninguém mexe. Ela é perfeita.

Não precisa ser artista nem profundo conhecedor da anatomia humana para propor mil e um retoques que fariam todo o sentido em mim. Eu mesma, naqueles dias mais autocríticos, conseguiria gastar a página inteira só enumerando tudo aquilo que poderia ser mudado na minha aparência.

Acontece que já se foi o tempo em que a gente tinha tempo a perder com elucubrações sobre o que poderia ter sido, mas não foi. A pilha de louça na pia só aumenta. O cesto de roupas sujas cresce em progressão geométrica. O jantar, infelizmente, não se cozinha sozinho. Então, não gastemos energia com isso.

Vamos nos amar. Ao próximo e a nós mesmos. Por mais que não tenhamos nascido com o bocão da Jolie nem com os peitões da Fafá, vamos nos amar.

Por mais que não tenhamos absolutamente nada em comum com a modelo da capa de revista nem com a moça que faz a propaganda de shampoo, vamos nos amar. Por mais que não tenhamos samba no pé nem sensualidade no olhar, vamos nos amar. Apesar do nosso melasma, da nossa orelha de abano e do nosso estrabismo, vamos nos amar, pelo amor.


Lembro que, certa vez, eu devia ter uns nove ou dez anos, precisei fazer uma autobiografia minha. Trabalho de escola. Considerando a minha vastíssima e superinspiradora história de vida – que, até hoje, não tem nada de excepcional a não ser pelo fato de eu ter aprendido a ler e a escrever aos quatro anos de idade e fora da escola – tive que enfiar um zilhão de fotos minhas, porque, vejam bem, um livro chato ilustrado é mais legal do que um livro chato sem figuras.

Então me tranquei no quarto da minha mãe, que é onde ficam guardados todos os álbuns de família, e comecei a seleção. Passei, fácil, umas seis horas ali dentro. E passaria ainda hoje. Porque aquela neném de olhões castanhos era muito bonita. E aquela criança de cabelos quase negros era muito bonita. E aquela adolescente de aparelho, espinhas e óculos de vó não era tão bonita, mas muito espirituosa e inteligente. E essa adulta de um metro e meio, de bocão – a la Jolie, porém assimétrico –, de peitinhos erguidos que dispensam sutiã, de tatuagens em cores gritantes e dos cabelos mais maravilhosos do mundo é tão bonita. E tão espirituosa. E tão inteligente. E tão sensual. E tão profunda.Que não tem como não amar. Por isso, eu me rendi.

Bastou eu chorar para expelir líquido amniótico e aspirar oxigênio e – pronto – tava feito esse lance do amor-próprio. Que, às vezes, bate mais fraco. E às vezes bate mais forte. E outras vezes beira o insuportável. Mas que já me salvou de pés na bunda, de mensagens visualizadas e não respondidas, de ligações não retornadas.


De espinhas bem no meio da testa e bem no dia da festa de formatura, de uma tatuagem bizarramente mal-acabada, da unha sempre mal-feita para eventos sociais. Do bullying na idade escolar, da falta de par no bailinho do colégio, do fim do primeiro namoro.

Porque aqui, o lance é o seguinte: se tu não quer, meu bem, tem quem queira. Sempre vai ter quem queira. Nem que esse alguém seja eu. Apenas eu. E apesar de não gostar de Ultraje a Rigor, tomo-lhes emprestados os versos mais narcísicos – e que melhor me vestem – da música brasileira. Eu me amo, gente. Eu me amo. Não posso mais viver sem mim.

Com Tanta Gente Apontando O Dedo, Quem Estende A Mão É Suspeito

Eu também não sei como, não sei por quê, mas tem dias em que todos os babacas do mundo parecem ter saído de casa juntos, ao mesmo tempo, com a honrosa tarefa de encher o saco dos outros, numa espécie de mobilização coletiva contra a paz e a tranquilidade geral.

Nesses dias, a gente já sai de casa tomando porrada. Encontra de cara o vizinho mais mal encarado bufando como um dragão por você existir e estar ali.

Mas a gente insiste. Diz “bom dia” ao porteiro e ele abaixa a cabeça sem responder. Passamos o dia sofrendo toda sorte de aporrinhações. No trabalho, na rua, no caminho, em qualquer lugar tem sempre alguém querendo briga.


Não é presunção acreditar que uma nuvem negra trovoa sobre nossas cabeças e que o grande propósito dos idiotas é atravancar a nossa vida. É fato! Os patifes estão mais soltos, à vontade para fazer das suas, livres para aborrecer. Não suportam a ideia de serem os únicos aborrecidos na face da Terra, então saem por aí dispostos a aporrinhar. Já os bem intencionados estão em desvantagem, escondidos em suas casas, reprimidos em si mesmos.

Reconheçamos: apontar o dedo é mais fácil que estender a mão. Promover intrigas, escolher culpados, permitir julgamentos imediatos, tudo isso é bem mais simples que refletir, ponderar, conciliar.

Verdade é que dificultar as coisas é o negócio mais fácil do mundo. Não precisa muito, não. É só fechar a cara, acelerar contra quem estiver na sua frente, buzinar para os mais lentos, gritar com os mais fracos, bajular os mais fortes, falar mal dos outros, pelas costas ou pela frente, seja uma verdade ordinária ou uma bruta mentira. Pronto. Você já ajudou a atravancar a vida.


Experimente responder a uma pergunta, qualquer uma, com má vontade e grosseria. Faça corpo mole com os colegas. Posicione-se com frieza e antipatia diante de toda gente. Distribua patadas. Seja um cavalo! Estrague as coisas como puder. Faça o teste. É o que há de mais fácil no mundo.

Coisa mais simples, bagunçar a serenidade alheia não requer prática, habilidade ou carteira de motorista. Basta sair por aí caminhando pesado, pisando os pés dos outros, mal encarando as crianças, chutando cachorro, furando fila, evitando olhar nos olhos de qualquer pessoa.

Sei não. Mas eu tenho a impressão de que tornar a vida mais difícil é assim tão fácil por um motivo banal: viver sempre foi a maior dificuldade. Estar na vida é complexo desde sempre, um gesto da maior gravidade. Portanto, atrapalhar o rumo das coisas é uma indecorosa moleza. Requer o mínimo esforço.

O sujeito faz xixi fora do vaso, depreda o patrimônio público, estaciona seu carro em fila dupla, inventa histórias para prejudicar os outros, distribui grosserias e ofensas, impõe sua verdade na força, prefere o roubo e não o trabalho, a discórdia em lugar da compreensão, o ódio em vantagem sobre o amor. E danifica sem mais o tecido delicado da vida. Porque é muito, mas muito mais simples destruir do que construir.


Dificultar é sopa. Duro é descomplicar, compreender, ajudar a quem precisa, deixar fluir. Ahh… mas é verdade. Eu tinha me esquecido. Com tanta gente apontando o dedo, quem estende a mão vira suspeito e será acusado de pretender alguma coisa em troca.

Pois é. Melhor deixar pra lá. Fazer o que todos fazem é mais fácil, ainda que o “mais fácil” transforme o mundo aos poucos na maior dificuldade. Uma pena. Uma pena.

Liberte-Se

Liberte-se da necessidade de agradar todo mundo: fazer concessões é importante, mas nem todas as pessoas o são – ao menos não a ponto de te fazerem abrir mão de você.

Liberte-se da ânsia de ser compreendido. Nem todos compartilham da sua visão de mundo e das suas prioridades. Nem todos terão disposição de olhar para as suas escolhas sem julgamento.

Liberte-se da obrigação de compreender, incondicionalmente, o lado dos outros: o exercício de empatia é admiravelmente válido, mas identificar os próprios limites é essencial para o seu equilíbrio físico e emocional.


Liberte-se da necessidade de acertar sempre: errar e se propor a lidar com as falhas é mais bonito que ser parâmetro de perfeição. E, depois disso, liberte-se da culpa: aceitar com benevolência os próprios erros é leve e grandioso.

Liberte-se da busca pelo corpo perfeito: seu corpo já é perfeito, tal qual como é – com gordurinhas sobrando (ou faltando), com celulites e estrias à mostra, com rugas se aprofundando, com músculos se escondendo ou com cabelos brancos aparecendo. Cuidar da saúde é primordial, mas a compulsão estética pode comprometer a percepção do tipo de beleza que realmente importa na vida.

Liberte-se da responsabilidade de levar seus relacionamentos adiante sozinho – sejam eles de amizade, familiares ou amorosos. Onde não há reciprocidade e disposição mútua, não há sentido em despender tempo e energia.


Liberte-se de condicionar suas vontades à existência de companhia. Planeje-se para o que gostaria de fazer e, se não tiver com quem ir, vá consigo mesmo. É incrível e altamente libertador conseguir curtir a própria companhia em qualquer lugar.

Liberte-se do que as pessoas pensam sobre você: isso é problema delas. Dê-se ao trabalho de se explicar apenas àqueles que são, de fato, imprescindíveis na sua vida.


Liberte-se da pressão para se adequar a padrões socialmente cristalizados. No trabalho, nas relações sentimentais e em todas as opções que se faz na vida o sucesso se mede com a fita métrica da satisfação pessoal e não com a do retorno financeiro ou da valorização da imagem.

Liberte-se do que te cansa emocionalmente. Se seus investimentos não trazem o retorno que você gostaria e ainda exigem doação irrestrita, mude o foco. Às vezes não é por mal, mas quando as visões de mundo são incompatíveis não adianta insistir pra sempre.

Liberte-se do que te faz perder a espontaneidade. Se você restringe sua natureza por medo de não agradar, está usando um tempo precioso com as situações ou as pessoas erradas.


Liberte-se do sofrimento por situações que não pode controlar. Tente aceitar que algumas coisas são perfeitas como estão – e que essa perfeição não necessariamente vai se equilibrar com os seus modelos, com as suas expectativas ou com as suas vontades. Lidar com as dores irremediáveis sem se desesperar é um dos maiores sinais de sabedoria e maturidade de uma pessoa.

Liberte-se do apego. Ele é essencialmente egoísta e por isso mesmo terá sempre um peso difícil de gerenciar. Deixe fluir. Abra mão da posse. E abra os braços para o que quer entrar espontaneamente: são essas as coisas que têm valor genuíno na vida – e é só com elas que você poderá contar a todo e qualquer momento.

Sobre Toques Sem Consentimento: Nem Sempre Quero Que Encostem Em Mim

Eu estava no trem, indo ao trabalho, quando notei uma gestante sendo surpreendida por uma mulher, que, ao sentar-se ao seu lado, e com um grande sorriso, tocou sua barriga saliente da gravidez.

Era um toque “amigável”, seguido pelo usual questionário sobre a vida e o feto daquela pessoa que acabara de conhecer. A gestante reposicionou-se na poltrona, afastando-se ligeiramente da mulher ao seu lado. Com um sorriso constrangido, respondeu amigavelmente a todas as questões.


Ao responder, acariciava sua barriga, como se estivesse protegendo seu bebê daquele toque que não havia sido convidado ou autorizado; daquele toque que não tinha nenhuma intenção de machucar, mas que invadiu um espaço que não lhe era de direito.

Eu confesso também já ter tocado a barriga de uma amiga grávida sem pensar em pedir-lhe autorização, acreditando ser um gesto de carinho, de interesse, de curiosidade. Contudo, apesar das melhores intenções, nada nos dá o direito de tocar o corpo de outra pessoa sem o seu expresso consentimento, mesmo que sejamos ambas mulheres e mesmo que sejamos amigas.

Em termos jurídicos, podemos dizer que a proteção da nossa integridade física está diretamente ligada ao direito à intimidade e à vida privada, sendo que até pequenas interferências na integridade de alguém podem ser consideradas violações a esses direitos correlacionados.

É comum discutirmos a falta de consentimento referindo-nos a atos de violência, como estupros e outras formas de abuso, normalmente de conotação sexual. Mas a possibilidade de determinar limites em relação ao nosso corpo deve existir em TODOS os momentos, contextos e idades.


Desde crianças, aprendemos que nossa autoridade em impor limites ao nosso corpo é relativa (ou inexistente). Por exemplo, quando nos “obrigam” a dar um abraço no vovô, ou receber um beijo da tia, ou quando não respeitam nossos momentos de intimidade porque somos crianças.

É certo que crianças não têm a capacidade jurídica de consentir, mas é justamente nessa idade que devemos ensinar-lhes que o corpo delas lhes pertence.

Normalmente, a lição que nos é ensinada é que limites só devem ser impostos quando algo nos ameaça notoriamente, e que atos de carinho, de interesse, de pessoas que “realmente” nos amam ou que têm “boas intenções” não nos dão o direito de dizer “não”. No entanto, talvez, naquele momento, eu não queira o abraço da amiga que quer me consolar ou o toque da vizinha que quer sentir o meu bebê…

Às vezes, é difícil dizer não a uma pessoa que amamos e que quer nos agradar, mas nosso corpo é nosso corpo o tempo todo, não só quando está sendo fisicamente ameaçado.


Considero importantíssimo aprender que podemos impor limites que nos protejam daquilo que nos agride, mas vale lembrar que, violento ou não, tudo o que não é bem-vindo naquele momento é uma invasão, uma violação de um espaço que é sagrado, de um espaço que é só seu.

SER SOLTEIRO É UMA OPÇÃO E NÃO FALTA DELA…

A sociedade é cruel com os solteiros.

São tantos aplicativos de relacionamentos, tanta cobrança para encontrar alguém que, atualmente, ficar solteiro é quase uma agressão social.

A questão cultural sobre relacionamentos é muito séria. Enquanto para alguns a solteirice é uma opção de vida, para outros é uma tortura psicológica que quase leva à loucura.

Estar solteiro, atualmente, parece ser tão constrangedor quanto dar gargalhadas em um velório.

Por inconformidade da felicidade individual, as pessoas tentam pares para os solteiros como forma de serem completos (como se já não fossem). Sem entenderem que “estar” solteiro é diferente de “ser” solteiro e que, ambos, correspondem a uma opção. Só isso! (Opção aliás que todos deveriam passar. Intensamente inclusive).

Concordo com Tom ao escrever “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”. Amar é tão bom! Mas, é sempre bom lembrar que existem vários tipos de amores: família, amigos, trabalho,animais…amamos tanta coisa e tão intensamente que seria egoísmo limitar o sentimento apenas aos relacionamentos amorosos.


Amamos nossa própria companhia, amamos telefonar na quinta a noite e combinar a saída do fim de semana, amamos conhecer gente nova, amamos não ter que dar satisfação, amamos ter nossa liberdade com bandeira branca… então, não estamos sozinhos, nem deixamos de amar. Só fizemos nossas escolhas, que podem ser mudadas assim que encontrarmos alguém legal. É só isso!

Não é uma questão de “antes só do que mal acompanhado” ou de “você é o grande amor da sua vida”. Estar solteiro é ser leve, não encontrar problemas em jantar ou ir ao cinema sozinho. É estar bem consigo e melhor se aparecer alguém. A diferença é que se acontecer, ótimo. Se não, tudo bem.

Esse negócio de cobrança sentimental é um saco. Sim, um saco! Acredito que não sejam poucas as vezes em que você ouviu “e os namoradinhos?”, acompanhado de uma cara de misericórdia e de mil conselhos de “como encontrar alguém”, quando respondeu que estava solteiro. E sabe por quê? Porque são raras as pessoas que usam a liberdade a favor dos próprios sonhos. As pessoas parecem não se conformarem com o estado de felicidade dos solteiros e procuram, de toda forma, juntar pares para serem “completos”.

As pessoas parecem não entender que estar solteiro não é não casar ou não ter um companheiro. É simplesmente curtir seu momento e aprender com ele. Estar solteiro não é ir pra balada e festar até amanhecer (é também, claro!), nem sair com todo mundo. É viajar, conhecer pessoas, permitir-se fazer coisas que, talvez, não faria se estivesse casado.

 

Estar solteiro é como viver com o inesperado todos os dias e ter controle sobre a própria vida. É decidir se quer ou não alguém e não suportar um relacionamento tumultuado. “Os solteiros ricos deviam pagar o dobro de impostos. Não é justo que alguns homens sejam mais felizes do que os outros.” (Oscar Wilde)

A solteirice é uma fase necessária para acreditarmos mais em nós mesmos, desenvolver uma autocrítica e melhorar como pessoas. De dentro para fora. Então, respeite nossa solteirice, nosso tempo e nossa forma de ver o mundo. Ser solteiro é apenas uma opção e não falta dela.