PSICANÁLISE E POLÍTICAS PÚBLICAS – ENTREVISTA JORGE BROIDE – OS PSICANALISTAS E SUAS ANÁLISES #49

Nessa terceira parte da entrevista, Jorge Broide compartilha suas experiências em diversos dispositivos de fazer ver e fazer falar – população de rua, egressos do sistema penitenciário, profissionais de diferentes secretarias e prefeituras – bem como os efeitos da escuta clínica e do manejo da transferência para as Políticas Públicas.

Jorge Broide é psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre – APPOA, doutor em Psicologia Social pela PUC-SP, leciona na Faculdade de Psicologia dessa mesma universidade e no Centro de Estudos Psicanalíticos CEP-SP. Jorge Broide é autor de “Psicanálise: nas situações sociais críticas” pela Ed. Juruá e de “A Psicanálise em situações sociais críticas: metodologia clínica e intervenções” em coautoria com a Emília Estivalet Broide, Ed. Escuta.

Confira também a palestra de Jorge Broide, realizada pelo Instituto CPFL, sobre as consequências psíquicas da exclusão social:
https://vimeo.com/183500453

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Direção:
Andrea Tocchio – psicanalista, mestre em psicologia (https://www.facebook.com/PsicologaCli…)

Edição:
André Gomes

Agradecimento:
Corja Filmes – Projeto Vidas Ocultas
http://www.corjafilmes.com.br/vidasocultas/

Assédio Sexual Não É Elogio: É Violência

Muitas moças já tomaram consciência de que aquele “Psiu, oi gata” enquanto caminham não é elogio e muito menos uma abordagem amigável. É um comportamento recorrente que vem causando cada vez mais estranhamento nas meninas e evidencia a insegurança que é andar pelas ruas de qualquer local, a qualquer hora do dia. Os relatos de indignação são muito recorrentes na internet e eles acabam gerando um sentimento de sororidade entre as moças que, infelizmente, passam pela mesma situação todos os dias: o assédio sexual.

“Ah, mas nem foi nada”

Relatar assédio sexual é difícil. Não importa qual a natureza dele, seja verbal ou físico, as moças terão dificuldade em identificar essa situação, problematizá-la e, principalmente, contar aos outros.

No caso do assédio verbal, de tão recorrente ele acaba passando despercebido na maioria dos casos. Enquanto algumas meninas reconhecem esse tipo de ação como violência, outras acreditam ser apenas algo inerente ao sexo masculino. Por isso, o Lado M conversou com a psicóloga Arielle Scarpati, doutoranda em psicologia forense, com foco em assuntos relacionados violência de gênero, para nos explicar um pouco mais como isso acontece..

E quando questionada sobre tal comportamento feminino ela afirma que “Era comum um tipo de pensamento do tipo ‘Se eu sair de casa, passar por uma obra e o cara não mexer comigo, eu volto pra casa e troco de roupa porque tem alguma coisa errada.’”


Ela afirma também que esse tipo de comportamento tem raízes culturais e que a relutância que muitas pessoas (inclusive as mulheres) têm de ver essas provocações como violência – e intitular de “mimimi” a preocupação que temos em relação a isso -, faz parte e um processo de mudança. Ela afirma que essa reação negativa das pessoas em relação ao feminismo não dá pra ser medida, mas podemos tomá-la como parte do processo de desconstrução desse comportamento que infelizmente foi instituído na nossa cultura. A pesquisadora também ressalta que é importantíssimo conscientizarmos meninas e meninos a respeito disso: as futuras mulheres precisam saber o que é e de onde vem a violência, e os homens precisam não praticá-la.

Reagir ou não reagir, eis a questão

Para pensar na reação que as mulheres têm após serem assediadas, precisamos, antes, saber se a moça considera aquela ação como violência ou não.

Algumas moças têm plena consciência de que sofreram com aquela situação ruim. Porém, em muitos casos, não há a consciência de que aquele assédio foi uma forma de violência. Quando a moça enxerga a situação como algo normal e corriqueiro, ela não vê razão para reagir. Entretanto, se ela enxergar o ato como violento, ela poderá ter dificuldade de “digerir” a informação, como se estivesse se protegendo de algo que ela ainda não compreende, como nos explica Arielle: “Se acontece alguma coisa com você que não se encaixa naquilo que você inicialmente pensou que era violência, quando o agressor não se encaixa na figura do ‘monstro’ que você achou que era o agressor comum. Tudo aquilo que você tinha organizado pra deixar sua vida mais simples em termos de estrutura mental precisa ser revista. Às vezes, até o próprio comportamento, mas isso acontece porque admitir a violência pode ser muito doloroso para todo tipo de abuso.”

O risco é real

É muito importante que as moças saibam identificar as situações abusivas em qualquer que seja a circunstância. Ao avaliar se reagir é seguro ou não, sempre haverá um risco.

Ao ser abordada na rua e retrucar o agressor, muitas vezes pode não resultar em nada além de deixar um homem sem graça. Mas não é possível afirmar que isso acontecerá cem por cento das vezes, já que a falta de segurança para as mulheres na rua é real, o desconforto e a indignação também.


“Eu sempre reajo, e a minha mãe fica desesperada. Ela sempre fala que uma hora eu não vou voltar mais pra casa. Mas eu sempre digo a ela que reagir é mais forte do que eu, quando eu percebo eu já reagi. Por exemplo, já teve situação de eu estar voltando pra casa e um cara jogou o carro pra cima de mim e uma amiga. Saiu do carro bêbado e veio pra me agarrar. No que ele veio pra me agarrar eu sentei o tapa, mas nem pensei na hora, só sentei o tapa. Virou uma confusão danada, mas no final ele foi embora. Aí eu contei pra minha mãe e ela disse ‘e se esse cara tá armado ou resolve não ir embora?’”.

Mas é preciso ter muito cuidado, pois, ao mesmo tempo que precisamos nos empoderar e saber que não há nada em nosso comportamento que justifique o assédio verbal, precisamos reconhecer que há um risco em reagir.

Macho que é macho

“Desde os 12 anos, eu já ouvia barbaridades andando na rua. Teve uma vez que eu cheguei a ser agarrada no meio da rua por um cara que se achava o tal. Muita gente viu mas ninguém fez nada. Os homens passavam por mim e falavam cada besteira que dava vontade de dar um tiro no meio da cabeça deles.” Márcia, 43


“Uma vez, quando eu tinha uns 17 anos, mais ou menos, eu tava andando com as minhas amigas. Tava meio frio, eu tava de jaqueta de moletom, calça jeans e tudo mais. Aí um cara passou num carro, e veio vindo gritando com a mão esticada e eu dei um pulo pra trás porque ele ia passar a mão tanto em mim quanto nas minhas amigas”. Bianca, 20 anos

Os dois relatos aconteceram em momentos diferentes e locais diferentes, mas em ambos há uma semelhança: o comportamento masculino que quer oprimir as mulheres apenas por serem mulheres.Os homens moldam seu comportamento de acordo com uma “lista” de tudo que designa sua masculinidade.

No Brasil, ser homem é se afastar o máximo possível do universo feminino e agir feito “macho”, ou seja, contrário à sensibilidade e à emotividade. A cultura designa um papel agressivo e sexualizado ao homem que ele reafirma agindo dessa forma.


Esse tipo de pensamento necessita ser desconstruído urgentemente, pois coloca em risco a segurança de milhares de moças todos os dias. Isso é um fato, mas não é um argumento capaz de justificar nenhuma forma de abuso.

É uma construção social que precisa ser desfeita. E para isso, Arielle ressalta novamente o papel importantíssimo que tem o feminismo em ajudar as mulheres a reconhecer situações de agressão que se repetem, e mostrar a elas que elas têm voz e não precisam se subjugar a esse tipo de coisa. Mas também ressalta que os autores das agressões, os homens, precisam ser educados.

Gratidão É Grátis

Talvez eu já tenha falado de gratidão aqui. Mas esta semana ouvi um depoimento de uma cantora famosa falando justamente disto.

Ela contou que quando ainda era uma artista anônima foi despejada de casa e recebeu o convite de uma amiga para morar com ela.

Foram cinco anos sendo acolhida e vivendo de favor. E foi dali também que surgiram composições de grandes sucessos de sua carreira.

Embora sua vida tivesse mudado com a fama, a cantora enfatizou que ela continuava a mesma de sempre, sem estrelismo, e com total gratidão à amiga. Falou nome, sobrenome, mostrou foto, elogiou. Demonstrou reconhecimento.

Estes gestos me emocionam, porque vivemos nos deparando com gente que mal agradece um atendimento, um presente, um abraço afetuoso, uma mão amiga.

A vida fica sombria assim: não tem luz. Não tem essência daquelas coisas que fervilham por dentro e nos confortam.


A gratidão é grátis; não precisa pagar nada. Mas, para estas pessoas mal agradecidas, ela custa muito. Custa muito a ser reconhecida, porque para esta gente, ela não tem importância.

Para que a gratidão tenha importância para mim, para você, para sua família, aprenda a agradecer. Ensine a agradecer. A gratidão preenche o coração com emoções que nos fortalecem. A gratidão faz bem. E faz muito. Promove o amor. Dentro e fora da gente.

A Autoestima Na Era Do Selfie

As selfies já fazem parte do nosso dia a dia. Registrar a própria imagem em um bom ângulo e postar na rede se tornou tão comum que poucos ainda não se renderam a essa forma de estar presente no seu círculo virtual.

Mas, o que chama a atenção é que de algum tempo para cá as selfies tem crescido excessivamente demonstrando uma fixação em sim mesmo.

Uma pesquisa* da Academia Americana de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva fez um levantamento com 2,7 mil cirurgiões americanos e concluiu que um em cada três profissionais pesquisados registrou “aumento nos pedidos de procedimentos porque os pacientes estão mais preocupados com os olhares nas redes sociais”.

Será que há algo por trás desse comportamento? O que estimula as pessoas a ficarem tão preocupadas com a própria imagem?


De alguma forma receber várias curtidas, chamar a atenção e ser admirado faz com que as pessoas busquem mais e mais por isso, parece haver um desejo pelo olhar constante do outro. E não é só em relação aos bonitos, há espaço para vários estilos: os charmosos, os criativos, os nerds, os cultos..

A questão não é o que, mas a necessidade em parecer alguma coisa, impressionar o outro, chamar a atenção, independente se é adequado ou não. As selfies dos velórios demonstram que mais importante do que estar no velório e mostrar para os outros que está.

Excesso de autoestima?

A autoestima é a confiança no próprio potencial, a certeza da capacidade de enfrentar os desafios da vida, a consciência do próprio valor e do direito ao sucesso e à felicidade. (CERQUEIRA, 2004).

Lendo essa definição de autoestima podemos fazer uma nova reflexão. Será que as pessoas que estão muito preocupadas com o olhar do outro confiam tanto no próprio potencial?


Quando precisamos constantemente da afirmação e da “curtida” do outro para sentir alguma satisfação, algo está equivocado. Estamos olhando cada vez mais para fora, ao invés de olhar para dentro, e isso reforça o sentimento de insegurança em si mesmo.

Isso quer dizer que esse movimento exagerado ao invés de demonstrar que as pessoas estão seguras e felizes consigo mesmas mostram, na verdade, o contrário. Uma auto insatisfação constante e a necessidade de parecer, muito maior do que a necessidade de realmente ser.


O risco é alto quando colocamos todas as fichas na aceitação do outro. Pois as outras pessoas podem não se importar, não curtir, não responder, não gostar. Nessa hora surge o sentimento de rejeição e inadequação.

Para responder a essa inadequação as pessoas buscam novas formas de aparecer e chamar ainda mais a atenção.

E o que fazer?

O caminho para construir a verdadeira autoestima é totalmente inverso. Conhecer a nós mesmos e nos aceitarmos nos fortalece como indivíduos. É preciso coragem para olhar para si mesmo, ver as forças e as fraquezas, e ser generosos com isso, reconhecendo que toda a humanidade tem suas vulnerabilidades.


Por trás da beleza, do dinheiro, do status, da intelectualidade, há uma parte frágil querendo se esconder, as pessoas precisam ter espaço para mostrar sua fragilidade humana. Essa era da perfeição só colabora para mais ansiedade e sentimento de inferioridade.

Só através do autoconhecimento podemos receber quem nós somos, e assim se formos curtidos ou não, seja na rede social ou na vida, podemos seguir leves, pois escolhemos mostrar aquilo que, primeiramente, faz sentido e é coerente para nós mesmos.

Migrações E Resistência – Monja Coen

Acolher as mudanças. Unir esforços. Minimizar dores e sofrimentos. Só há um caminho de libertação.

Migrar é ir de um lugar para outro. Podem ser migrações partidárias (no passado eram chamados de vira-casaca e considerados seres interesseiros e egoístas), podem ser migrações religiosas (eram chamados de hereges e queimados em praça pública) e as migrações de povos a outros continentes (eram consideradas invasões, pois causavam violências econômicas, ambientais e sociais).

Nada jamais permanece o mesmo.

Por que as pessoas não ficam sempre no mesmo lugar? O que nos impele à mudança? Se o partido político a que me afilio deixa de atender a meus princípios, o que devo fazer? Se a empresa em que trabalho não corresponde aos valores éticos e princípios morais aos quais se compromete, o que faço? Se a instituição religiosa à qual pertenço estiver se desviando do caminho espiritual, como devo me comportar? Se o local onde nasci e cresci não atende aos meus anseios, para onde vou?

Muitos japoneses, que emigraram do Japão para outros países, acabaram perdendo o contato com sua ancestralidade nipônica. Quando seus netos e bisnetos retornaram como dekassekis para trabalhar no Japão, que, depois das guerras, se tornara país de Primeiro Mundo, não foram bem recebidos. “Nós ficamos aqui. Nós suportamos as dificuldades, a fome, o frio, a miséria. Trabalhamos muito e reerguemos o país. Vocês abandonaram a pátria que sofria. Foram egoístas. Agora querem receber as benesses de nossos esforços. Lamentável!”


Resistir é se manter firme, suportar, aguentar, não se entregar, não desistir. A resistência francesa foi uma força importantíssima na derrubada do nazismo na Europa. Quem eram aquelas pessoas que, com poucas armas e equipamentos, conseguiram se unir e resistir aos invasores cruéis?

Não é fácil resistir. Não é fácil migrar — quer de partido, de religião, de países. Hoje, multidões fogem do Norte da África — continente abusado e violentado por séculos de colonialismo — e levam consigo valores e crenças, capacidades e incapacidades que podem violentar e transformar civilizações europeias.

Há medo. Medo de quem atravessa em barquinhos frágeis. Medo de quem vê a massa de jovens, crianças, adultos e idosos chegando à procura de comida, casa, médico e trabalho num continente saturado.


Há sofrimento, luto, dor e perda — de ambos os lados. Há o encontro de culturas e diferenças. A Europa está se transformando. Os trens estão lotados. Os que conseguiram chegar estão sendo levados para lá e para cá. Algumas fronteiras se fecham. Cotas para cada país? Quantos refugiados você pode receber? É uma invasão essa migração?

Surpresos observamos. Como observamos de longe as enchentes no Japão, há menos de dez dias. Enchentes fortes em um país rico, bem cuidado, planejado e incapaz de impedir casas grandes e carros caros de serem destroçados. As caixas de mantimentos são colocadas com cuidado no Japão. São semelhantes às caixas que, em todos os países, são dadas aos necessitados. Educação e cultura diferentes — no Japão as pessoas não correm e não gritam pela comida. Agradecem. A fome é a mesma. O sofrimento é o mesmo — crianças desaparecidas nas águas barrentas e mortas nas praias.

Vida-morte é migração e resistência.

Estamos sempre indo e vindo, sem ir nem vir.

Penetrar a essência da mente. Compreender a transitoriedade. Acolher as mudanças. Unir esforços. Minimizar dores e sofrimentos. Só há um caminho de libertação — o caminho da compreensão clara e da compaixão ilimitada.


Somos a vida da Terra. Cuidemos.

Migrando e resistindo criamos um novo mundo e um novo futuro, no presente. Mãos em prece.

Descubra As Mentiras Que O Seu Cérebro Conta Para Você

Você fica cego 4 horas por dia. Já foi enganado por um rótulo nesta semana. Tem preconceitos sobre todos os assuntos (por mais que ache que não). Toma decisões irracionais, que vão contra os seus interesses.

Você não está no controle da própria mente. Mas não se preocupe: você é normal. Não é maluco e possui um cérebro perfeito, como o de qualquer outra pessoa. Só que ele inventa coisas para iludir você. Não é por mal. É só uma maneira de economizar energia.

O cérebro humano é o objeto mais complexo do Universo. Tem 86 bilhões de neurônios, que podem formar 100 trilhões de conexões.

Se fosse possível criar um computador com o mesmo número de circuitos do cérebro, ele consumiria uma quantidade absurda de eletricidade: 60 milhões de watts por hora, segundo uma estimativa de cientistas da Universidade Stanford. É o equivalente a quatro usinas de Itaipu trabalhando simultaneamente. Mas o cérebro humano gasta pouquíssima energia – 20 watts, menos que uma lâmpada. E mesmo assim consegue fazer coisas extremamente sofisticadas, de que nenhum computador é capaz.


Só que isso tem um preço. O seu cérebro não consegue analisar as situações de forma completamente racional, avaliando todas as variáveis envolvidas em cada caso. Para fazer isso, ele precisaria de ainda mais circuitos – e muito mais energia.

Mas, ao longo da evolução, a natureza encontrou uma solução: o cérebro pode mentir para seu dono. Sim, mentir. Descartar informações, manipular raciocínios e até inventar coisas que não existem. Dessa forma, é possível simplificar a realidade – e reduzir drasticamente o nível de processamento exigido dos neurônios. “São efeitos colaterais do funcionamento normal do cérebro”, diz Suzana Herculano-Houzel, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Tudo começa pela visão. Você não percebe, mas o cérebro edita o que você vê. Das 16 horas por dia que uma pessoa passa acordada, em média, 4 horas são preenchidas por imagens “artificiais” – que não foram captadas pelos olhos, e sim criadas pelo cérebro.

O olho humano só capta imagens com clareza em uma pequena parte, a fóvea, que tem 1 milímetro de diâmetro e fica no centro da retina. Então, para compor a linda imagem que você está vendo agora, os seus olhos estão constantemente em movimento. Eles focam determinado ponto e depois pulam para o ponto seguinte. Cada um desses saltos tem duração de 0,2 segundo.

Quer comprovar isso na prática? Na próxima vez em que você estiver conversando com uma pessoa, preste atenção nos olhos dela. Você irá perceber que eles se movimentam o tempo todo para escanear vários pontos do seu rosto.


O problema é que a cada pulo desses, enquanto os olhos estão se movendo para a próxima posição, o cérebro deixa de receber informação visual por 0,1 segundo. Durante esse tempo, você está cego. E, como nossos olhos fazem pelo menos 150 mil pulos todos os dias, o resultado são 4 horas diárias de cegueira involuntária. Você não percebe isso porque o cérebro preenche esses momentos com imagens artificiais, que dão a sensação de movimento contínuo. Mas que, na prática, você não viu.

Tem mais: o que você enxerga não é o que está acontecendo – e sim o que vai acontecer no futuro.

É sério. Isso acontece porque a informação captada pelos olhos não é processada imediatamente. Ela tem de passar pelo nervo óptico e só depois chega ao cérebro. O processo leva frações de segundo, e você não pode esperar – um atraso na visão pode fazer com que você seja atropelado ao atravessar a rua, por exemplo.


Então, o que faz o cérebro?

Inventa. Analisa os movimentos de todas as coisas e fabrica uma imagem que não é real, contendo a posição em que cada coisa deverá estar 0,2 segundo no futuro. Você não vê o que está acontecendo agora, e sim uma estimativa do que irá acontecer daqui a 0,2 segundo.

As mentiras invadem a razão

Com R$ 1,10, você pode comprar um café e uma bala. O café custa R$ 1 a mais do que a bala. Quanto custa a bala? Responda rápido. Dez centavos, certo? Errado. Você acaba de ser enganado pelo próprio cérebro. Mas não está sozinho – mais da metade dos estudantes de universidades prestigiadas como Harvard, MIT e Princeton responderam a essa mesma pergunta e também erraram (entre alunos de instituições menos badaladas, o índice de erro é ainda maior, cerca de 80%).

Essa charada é um dos exemplos citados no livro Thinking, Fast and Slow (Pensando, Rápido e Devagar, ainda sem versão em português), do psicólogo israelense Daniel Kahneman, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia por suas pesquisas sobre o comportamento humano.


Para Kahneman, o cérebro tem dois tipos de pensamento. O primeiro é rápido e intuitivo e confia na experiência, na memória e nos sentimentos para tomar decisões. O segundo é lento e analítico – e serve como uma espécie de guardião do primeiro.

Se estamos decidindo sobre o que comer, podemos ficar em dúvida entre um sanduíche e um prato de feijão. Mas por que essas duas opções, justo elas, surgiram como as alternativas válidas para o momento? Por que você não considerou um bacalhau com batatas? Por que não um sorvete de abacaxi? Porque o seu pensamento intuitivo já estava inclinado para optar pelo sanduba ou pelo feijão e restringiu previamente as escolhas antes mesmo que você se desse conta de que estava chegando a hora de almoçar. Do contrário, passaríamos horas avaliando todas as possíveis opções de refeição – e morreríamos de fome.


Se o pensamento intuitivo não existisse, seria extremamente difícil escolher uma roupa ou responder a perguntas banais, do tipo “como você está?” ou “gostou do filme?”. De certa forma, o pensamento intuitivo é o que nos diferencia dos robôs. E é ele que permite ao cérebro processar informações na velocidade necessária. “Ele é mais influente. É o autor secreto de muitas decisões e julgamentos que você faz”, explica Kahneman no livro. Foi o pensamento intuitivo que apontou os dez centavos como resposta para o enigma do café. Só que ele mentiu para você. A resposta certa é R$ 0,05. Se a bala custasse R$ 0,10, o café custaria R$ 1,10 – e o total daria R$ 1,20.

Esse duelo entre os dois tipos de pensamento, o rápido-intuitivo e o lento-analítico, também tem uma explicação evolutiva. O córtex pré-frontal, região do cérebro responsável pelo processamento lógico, surgiu relativamente tarde na evolução da espécie humana – já as emoções e os instintos estavam com nossos ancestrais há muito mais tempo. Por isso elas são tão fortes e nos influenciam tanto. “A filosofia considera o ser humano um animal racional. Mas o que sabemos é que apenas em certas circunstâncias e à custa de muito esforço conseguimos ser racionais”, afirma Vitor Haase, médico e professor de psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


O pensamento intuitivo está sempre presente, até nas situações em que a racionalidade é supremamente importante. Um estudo de pesquisadores das universidades de Ben Gurion, em Israel, e Columbia, nos EUA, analisou o comportamento de juízes que deveriam decidir sobre a liberdade condicional de presos (um processo rápido, que leva 6 minutos). Em média, somente 35% dos condenados ganhavam a condicional. Mas os cientistas perceberam que os juízes eram muito mais benevolentes depois de comer. Quando eles tinham acabado de fazer uma refeição, a taxa de aprovação subia para 65%. Com o passar do tempo, a fome vinha chegando, e a concessão de liberdade condicional ia caindo. Minutos antes do próximo lanche, o índice de aprovação era quase zero.

Decidir sobre liberdade condicional e julgar a própria felicidade são tarefas complexas. Para avaliar todas as variáveis envolvidas, muitas delas subjetivas, o cérebro tenderia a ficar sobrecarregado. Por isso, ele usa atalhos. “Os nossos problemas são resolvidos no piloto automático, através de soluções que a cultura já embutiu no nosso cérebro”, diz Haase.

Estudos têm revelado outra distorção: toda pessoa sempre tende ao otimismo, mesmo quando não há motivos para isso. A pesquisadora Tali Sharot, da University College London, gravou a atividade cerebral de voluntários enquanto eles imaginavam situações banais – como tirar uma carteira de identidade. Ela também pediu que os voluntários pensassem em coisas do passado. Os testes mostraram que as mesmas estruturas cerebrais são ativadas para recordar o passado e imaginar o futuro. Só que, ao imaginar o futuro, os voluntários criavam cenários magníficos – era o cérebro tentando colorir os eventos sem graça.


“Cerca de 80% das pessoas têm tendência ao otimismo, algumas mais do que outras”, diz ela. Para Tali, autora do livro Optimism Bias (O Viés do Otimismo, ainda sem versão em português), o otimismo é sempre mais comum que o pessimismo – seja qual for a faixa etária ou o grupo socioeconômico da pessoa.

Assim, nunca acreditamos que algo vá dar errado – mesmo quando o mais racional seria pensar que sim. “As taxas de divórcio, por exemplo, chegam a 40%, 50%. Mas as pessoas que estão para casar sempre estimam suas chances de separação em o%”, exemplifica Tali. Segundo ela, a inclinação natural ao otimismo também é um dos fatores que levaram à crise econômica global de 2008. “As pessoas achavam que o mercado continuaria subindo cada vez mais e ignoraram as evidências contrárias”, afirma.

Ele está no controle

As manipulações criadas pelo cérebro afetam até a capacidade mais essencial do ser humano: tomar as próprias decisões. Quando você decide alguma coisa, na verdade o cérebro já decidiu – com uma antecedência que pode chegar a 10 segundos.

Uma experiência feita no Centro Bernstein de Neurociência Computacional, em Berlim, comprovou que as nossas escolhas são resolvidas pelo cérebro antes mesmo de chegarem à consciência. Voluntários foram colocados em frente a uma tela na qual era exibida uma sequência aleatória de letras.


O voluntário tinha que escolher uma das letras e apertar um botão sempre que ela aparecesse. Os cientistas monitoraram o cérebro dos participantes durante o experimento. E chegaram a uma descoberta impressionante: 10 segundos antes de os voluntários escolherem uma letra, sinais elétricos correspondentes a essa decisão já apareciam nos córtices frontopolar e medial, as regiões do cérebro ligadas à tomada de decisões. Cinco segundos antes de o voluntário apertar o botão, o cérebro ativava os córtices motores, que controlam os movimentos do corpo. Isso significa que, 10 segundos antes de você fazer conscientemente uma escolha, o seu cérebro já tomou a decisão para você – e até já começou a mexer a sua mão.


“O indivíduo não é livre para escolher”, afirma Renato Zamora Flores, professor de genética do comportamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O cérebro restringe previamente as suas possíveis opções e, pior ainda, escolhe uma delas antes mesmo que você se dê conta. É possível lutar contra isso. Lembra-se daquele outro tipo de pensamento, o lento-analítico? Basta colocá-lo em ação. E isso você consegue tendo calma, refletindo sobre as coisas e duvidando das suas escolhas e opiniões. Os truques do cérebro são poderosos, mas não invencíveis. Agora que você sabe como funcionam, está muito mais preparado para lidar com eles – e se tornar realmente livre para tomar as próprias decisões.

Os 3 Erros Principais Na Hora De Se Expressar

A comunicação – verbal ou não – faz parte da vida de todos(as).

Para se relacionar bem – seja com a família, com colegas de trabalho, amigos ou parceiros amorosos – é preciso saber se comunicar.

Mas isto nem sempre é uma tarefa fácil e pode exigir mais atenção do que normalmente nós damos.

Leia com atenção os três equívocos principais na hora de se expressar e faça uma reflexão sobre qual é a sua postura.

1. A falta:

Já reparou que algumas pessoas dão informações pela metade? Já conversou com pessoas que parecem estar economizando as palavras? Já se perguntou porque algumas conversas não “rendem” mesmo com muito assunto para ser discutido?

Seja por preguiça/apatia, por achar que não tem necessidade de falar o raciocínio completo, por falta de tempo/impaciência, insegurança ou simplesmente pela falta de consideração ao outro, existem pessoas que pecam pela falta de comunicação. E nada mais desestimulante do que ter um diálogo com alguém monossilábico.


Este tipo de pessoa costuma usar a máxima “para bom entendedor meia palavra basta”. Entretanto, esta frase tão difundida só pode ser usada em contextos muito específicos. Na realidade, ela pode causar muito mal estar e serve de álibi para aqueles que acham que o interlocutor tem a obrigação de entende-los.

Por causa dessa crença equivocada, nos sentimos isentos da responsabilidade em transmitir a mensagem completa e de forma clara. Lembre-se sempre que cada um ouve e interpreta à sua maneira e, se você dificultar esse processo falando/escrevendo menos do que deveria, aí mesmo é que não poderá se queixar se te entenderem errado.

Bolas de cristais funcionam apenas na ficção, portanto, uma dica básica é: ao final de alguma exposição de ideias pergunte ao outro o que ele entendeu exatamente. Essa atitude tão simples pode evitar muitos problemas e melhorar significativamente suas relações.

2. O excesso:

Sabe aquelas pessoas que gostam de contar tudo detalhadamente? Um caso que poderia ser narrado em dois minutos pode levar uma hora, pois elas gostam de florear, repetir, introduzir exemplos e dar voltas pelo mundo até conseguir concluir um pensamento.

Este tipo de pessoa, muitas vezes, nem se importa se os seus interlocutores estão interessados em ouvi-la. Elas não se sentem intimidadas se o ambiente ou o contexto não é favorável às suas ideias. O que elas querem é falar e falar… desenfreadamente.

Mas um alerta: ser comunicativo não tem nada haver com isso. Ser extrovertido não é ser chato ou sem noção.


Os que “pecam pelo excesso” geralmente utilizam de alguns artifícios como: palavras rebuscadas (para dar a impressão que são mais inteligentes) e ideias abstratas (pois se o ouvinte não entender a culpa é dele que não soube associar).

Quem é prolixo tende a não se preocupar com a receptividade da sua fala e acaba afastando as pessoas ao seu redor. A dica neste caso é: perceba a reação das pessoas quando estiver falando; parecem interessadas? Se não, tente novos métodos, inove no seu jeito e seja objetivo.

3. Comunicação confusa, desconexa e desorganizada:

Por vezes o problema não é a quantidade – nem a falta nem o excesso – e sim a qualidade. Você já deve ter tido uma conversa que parecia não se encaixar, como se estivessem falando de temas diferentes e, no fim, perceber que ninguém foi compreendido.

Estes monólogos – que deveriam ser diálogos – acontecem com frequência por vários motivos, dentre os quais o sujeito pode falar algo tão familiar que esquece que o outro nunca ouviu sobre o tema; pode, também, ter dificuldade em formular um raciocínio linear e lógico; além de muitos outros fatores.


É comum também, que neste tipo de comunicação, as pessoas não usem o tom e o ritmo adequado – como por exemplo, pausas muito longas ou o contrário – o que dificulta o receptor acompanhar o pensamento de quem fala. Este tipo de comunicabilidade sem harmonia é desencadeadora de conflitos em qualquer relação.

Essas formas foram separadas a título de explicação, mas é comum que, dependendo da situação, a pessoa mude seu comportamento ao se comunicar. Em outras palavras, no trabalho fulano fala pouco, com amigos fala em excesso e na família falta clareza ao se expressar. O fato é que as três maneiras prejudicam a convivência interpessoal.