Estou Sentindo Ciúmes… E Agora?

O ciúme é um sentimento poderoso. É um desejo de posse com relação a uma outra pessoa, e que tem a capacidade de inventar histórias, de inspirar planos sinistros, gerar desejo de vingança, músicas, poesias, brigas… e devastar amizades e relacionamentos afetivos.

Mas é algo inevitável. As pessoas o sentem em graus maiores ou menores, mas quem o flagra em si não tem como deixar de sentir. Então fica a questão: e agora?


A saída habitualmente escolhida é a mais hostil – e a que mais desgasta os relacionamentos. A saída da agressividade.

Geralmente, quando uma pessoa sente ciúme, ela mal percebe que uma angústia forte e violenta nasceu dentro dela.

Essa inconsciência faz a pessoa responsabilizar e atacar o outro por isso. “Mas VOCÊ é um idiota mesmo por dar trela pra ela”, “VOCÊ não está nem aí pra mim!”, são alguns de milhares e milhares de frases que podem ser ditas com esse impulso.


É mais fácil atacar o outro e dizer que ele é causador daquilo que estou sentindo. Entretanto, essa saída não gera diálogo e troca entre os membros. Ela apenas gera ressentimento e dor. Quando ataco o outro, este não mais vai querer me ouvir, mas vai revidar ou se defender, afinal está sendo atacado. Nascem então as brigas e muitos rompimentos entre pessoas.

Outra saída adotada por alguns é a do “está tudo bem”. A pessoa sente a mesma angústia violenta no peito, mas prefere se calar. Por algum motivo ela tem claro para si que ciúme é errado, e que faz mal para os relacionamentos.

Sim, até certo ponto é verdade, mas o que se fazer com o ciúme?


Escolher o silêncio, nesse caso, é o famoso “empurrar para debaixo do tapete”. O que acontece com a sujeira acumulada embaixo do tapete? Imagino que o leitor saiba. Evidente que mais tarde ela vai se revelar, acumulada. Aquele ciúme omitido, após alguns episódios vai, INEVITAVELMENTE surgir, devastador. Ao invés de uma briguinha, vai gerar uma grande briga, uma grande reação, a ponto de surpreender os dois (ou mais) envolvidos, inclusive o ciumento. E vai aparecer provavelmente como uma grande acusação agressiva.

Uma terceira saída, mais franca, é a do diálogo. Quando o ciúme aparece, porque não dialogar? Mas dessa vez, diferentemente da primeira saída, a pessoa percebe de alguma forma que isso é algo que nasce nela. Ao invés de tocar no assunto atacando sua companhia, prefere se referir A SI MESMO.

Comparando com as frases exemplificadas anteriormente, ficaria assim agora: “Eu me sinto incomodada quando você dá tanta atenção para ela” e “Sinto falta de sua atenção”. Dessa forma o ciúme, sentimento de posse, geralmente agressivo, pode ser transformado em diálogo.

A companhia, quando realmente gosta de você, certamente vai te dar atenção quanto a isso. Vai esclarecer pontos que vão me ajudar a compreender a situação e amenizar o ciúme, e mesmo que não haja amenização, provavelmente ela vai buscar compensar alguma coisa ou repensar alguma atitude para atender esse anseio.


Quem está com você, seja em um relacionamento afetivo ou amizade, se realmente te dá importância, quer te ver bem, e provavelmente vai buscar uma forma de conciliar interesses.

O ciúme é inevitável. Sua natureza possessiva e agressiva também. No afeto existe muitas vezes oculto o desejo de posse com relação ao outro. Faz parte do ser humano, não há nada de errado em senti-lo. Agora, podemos sempre escolher uma forma melhor de lidar com ele, e até mesmo fazer dele um aliado, ao invés de inimigo dos nossos relacionamentos.

“Amores Livres” ou Paixões do ser?

Como psicanalista, faço minhas as palavras de Lacan em um dos seus seminários, abrimos mão do nosso ser, para poder ocupar essa função analista. Função do “lixo”, dejeto, depositário do horror de um Outro.

Ser praticante da psicanálise, é meu ofício. Chego ao ponto de meus analisantes brincarem comigo dizendo: “a melhor coisa que você fez, foi fazer um consultório de psicanálise em seu próprio apartamento, uma vez que você praticamente morava no consultório”.

amores livresMeus analisantes que comigo convivem diariamente, sabem que não sou psicanalista ortodoxa, tenho minhas críticas inclusive à própria psicanálise em alguns aspectos, critico também algumas relações de analista com seus respectivos analisantes e essa psicanálise clássica, onde o analista nem sequer responde ao chamado de um analisante via WhatsApp porque “infringe” a regra psicanalítica? Bem, essa psicanalista? Não sou!

Pontuo sempre, cabe ao psicanalista o momento de espera, bem como perceber como a relação de transferência, singular para cada analisante se instaura. Salvador – Bahia é uma cidade muito pequena no que tange as fragmentações das classes sociais, é muito comum analistas e analisantes se encontrarem não só pela rua bem como nos “guetos” da psicanálise. A mim? Como analista? Para cada analisante, uma analista, fico à espera de como cada um se comporta na esfera pública.

Alguns analisantes me encontram nas ruas, falam comigo, me apresentam mãe, pai, as vezes filhos. Outros vão às minhas palestras para me escutarem e ao final me cumprimentam, como também tem uns que declaram “se algum dia te encontrar na rua? Eu troco de calçada! Não quero jamais me bater com o meu pior de frente!” Ok, transferência é terra que ninguém passeia.

joão jardimMas toda essa volta foi para tentar esboçar, sobre a nova série documental “Amores Livres” dirigida por João Jardim (foto) que estreou na quarta-feira, 5 de agosto, no canal fechado GNT.

As chamadas da série chamava atenção, de repente questionava: Epa? Meus casos clínicos viraram documentário? Como é que isso vai ser exibido, elaborado, como algo da esfera privada irá para uma esfera pública?

Sim, no privado, tudo aquilo que a série documentário mostrou, ao menos no primeiro episódio, de uns tempos para cá escuto no meu consultório cotidianamente. Mas…com uma grande diferença!

Escuto o que a televisão não mostra e nem pode mostrar, escuto os embaraços, as atuações histéricas e que não há como o sujeito escapar dessas paixões do ser; que são as três paixões fundamentais em relação com os três registros, real, simbólico e imaginário.

No seminário, livro 1 “Os escritos técnicos de Freud” Lacan situa as três paixões fundamentais e as situará enquanto verdadeiras interseções parciais do sujeito: o amor: se situa na junção do simbólico e do imaginário; o ódio, na junção do imaginário e do real; e a ignorância, na junção do real e do simbólico.

amores-livres-3

A primeira pergunta que ao ver aquele documentário fiz foi no que tange ao título desta escrita: “Amores Livres” ou “Paixões do ser”? (Para assistir ao trailer da Série documental dirigida por João Jardim, que estreou em agosto no GNT, clique na imagem abaixo).

amores livres serie gntComo psicanalista, escuto de tudo, na função analista, me cabe pontuar quais as implicações que afeta a vida do sujeito que fala dessas relações abertas. E, ainda que o objeto pequeno “a” seja perdido, algo sempre a ser buscado, o sujeito é sempre faltante, há sempre o desejo, mas foi o próprio Lacan que nos disse: Não devemos ceder ao desejo. Há desejos irrealizáveis pois tudo na vida se paga um preço, às vezes, quando não sempre o preço que se paga é muito alto. Ainda que se divida em suaves prestações, há sempre os juros e a correção monetária!

Faço todo essa análise, do ponto de vista psicanalítico da questão. De forma alguma sou moralista, careta, ou qualquer coisa do tipo; inclusive muitos analisantes me procuram e trazem em seus significantes coisas do tipo: “Te escolhi como psicanalista porque já escutei que você é descolada! É uma psicanalista Up!” Entretanto cabe refletir de forma cuidadosa, as palavras de Marco Antonio Coutinho Jorge, um psicanalista que de forma declarada já disse a ele: Tenho por você uma transferência de trabalho desde a minha época de estudante de psicologia. Amo, quando temos nossos encontros na cidade maravilhosa, mais ainda quando vou a sua bela casa em Santa Thereza, bairro da minha infância “carioca” e para além disso quando logo na primeira sala me identifico quando vejo o piano de cauda.

Marco, no seu livro Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan (Volume I) na página 149, diz:

A paixão amorosa, por sua vez exacerba esse sentimento inerente ao amor, de que se trata de uma complementaridade entre dois sujeitos. Por isso, a paixão não correspondida tem muitas vezes, no seu horizonte, o crime passional – o assassinato – que, para Lacan, é a única maneira de atingir, ilusoriamente, a relação sexual, com a eliminação radical da diferença do desejo do Outro, o qual sempre introduz, naturalmente, em toda relação, alguma forma de castração. Desse modo, o polo inicial do gozo absoluto revela seu aspecto mortífero e sua relação indissociável com a pulsão de morte, pois a ilusão de seu atingimento e sua perda se ilustra pelo assassinato passional.

Por isso que na sexta-feira, ao ler a crônica de Xico Sá no El País, tomei um susto. Uma porque Xico é meu objeto pequeno “a” (risos), acho que meu e de todas as mulheres, curto a escrita dele, muitas vezes bato um papo com ele pelo messenger do Facebook. Claro, li sua crônica, admiro a forma chistosa com que ele escreve. Como Jornalista, não cabe a ele tecer elaborações do conceito de pulsão. Mas, na hora que li? Escrevi para ele de imediato – e olhe que ele sempre responde minhas mensagens, mas…essa ainda não respondeu.

Todo o texto de Xico Sá que está na crônica do El País, quando ele escreve instinto, para a psicanálise, é pulsão. Estamos falando dos “amores livres”….logo, para não me chamarem de piegas ou de qualquer coisa do tipo, recorri ao seminário de Livro 11 de Lacan “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”; e de fato, não estava enganada. Lacan no capítulo XV Do Amor à Libido pontua:

(…)Freud, de um lado põe as pulsões parciais, e do outro, o amor. Ele diz – não é a mesma coisa.

As pulsões nos necessitam na ordem sexual – isso, vem do coração. Para nossa maior surpresa, ele nos ensina que o amor, do outro lado, ele vem do ventre, é o que é o rom- rom. (…) a pulsão sexual genital, se ela existe, não é de modo algum articulada como outras pulsões. E isto, malgrado a ambivalência amor – ódio. Em suas premissas, e em seu próprio texto, Freud se contradiz propriamente quando ele nos diz que a ambivalência pode passar por uma das características de reversão da Verkehrung da pulsão. Mas quando ele a examina, ele nos diz mesmo que NÃO são de modo algum a mesma coisa, a ambivalência e a reversão. (Lacan, 1964, p.179).

amores livres gnt

Então no parágrafo seguinte, descrito dessa aula, tem uma passagem que me faz admirar cada vez mais Lacan, vibrar com ele, escutá-lo e sentir uma dor “retada” porque não consegui assistir nenhum de seus seminários! Ora…no ano que Lacan morria? Eu estava nascendo….Mas, algum de meus leitores já tiveram a curiosidade de assistir um dos seminário dele pelo YouTube? Gente!!! O cara além de muito gato, tinha um jeito histérico de proferir seus seminários….que não era do nada que seus seminários viviam lotados e em sua platéia nada mais, nada menos havia Foucault, dentre tantos outros que fizeram história no século XX.

Pois então, voltemos ao seminário livro 11 de Lacan, na aula supracitada. Assim, vou tentando terminar esse texto, para não receber “bronca” do meu editor (risos) que a todo momento me pontua: “texto de blog é curto Clarissa!”, e respondo: “mas não sou blogueira”….sou uma psicanalista, se duvidar aprendiz de feiticeira!

Mas, vejam essa passagem de Lacan, quando ele diz: “Se então a pulsão genital não existe, ele só pode se f… feiçoar alhures, do outro lado e não do lado onde há pulsão,” (Lacan, 1964, p.179)

E vocês mataram a charada do que é esse f… (com reticências) que aparece no seminário? Não?!? …é o se fuder!!!!

É isso mesmo, afinal….lembram o que escrevi em parágrafos anteriores? As paixões do ser são: amor, ódio e ignorância. – Disso, o sujeito não escapa, e assim, só lamento informar….com a ignorância, não se sabe aonde essas relações irão parar….e então a pergunta que não quer calar é? Você está a fim de bancar isso? Porque tudo pode acontecer….nesses “Amores livres”

__________________
Referencias:

Jorge, Marco Antonio Coutinho. O Objeto perdido do Desejo. In. Jorge, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan v.1: as bases conceituais – 4ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005; p.139 – 158.

LACAN, Jacques. A verdade surge da equivocação. In: LACAN, Jacques. Seminário livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-1943). O Seminário Livro 1: Os escritos técnicos de Freud. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1981, p.297 – 310.

_____________. Do Amor à Libido. In LACAN, Jacques. Seminário Livro 11: Os quatro conceitos cruciais da psicanálise (1964).- 2ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998; p.177 – 189.

Um Sade no divã?

clarissa lago entrevista gil vicente autor de sadeEra quarta-feira, mais ou menos 11h da manhã, quando Valdiky Moura me chama pelo FACETIME: e diz: “olha, estreia SADE amanhã, vamos assistir, não marque nada no feriadão, pois já agendei com GVT uma entrevista para o Blog da Psicanálise, no sábado às 16h, no ICBA!

Respondo: GVT? Quem é GVT? A ficha meio que demorando de cair…

Então VM responde: “GVT = Gil Vicente Tavares!”

Respondo: Ok, mas quinta-feira tenho analisante até tarde da noite aqui no consultório, podemos então assistir à peça no próprio sábado mesmo?

Moura responde: Podemos sim!.

Hoje é madrugada de 7 de setembro, no sábado 16h fomos ao ICBA, Gil nos recebeu super bem, concedeu-nos uma entrevista com mais de 25 minutos gravados, em meio a muitas pausas para várias gargalhadas e brincadeiras alheias, precisava dessa entrevista, material de escrita, e não apenas ficar viajando numa fantasia na minha condição de espectadora ao assistir SADE.

Claro, como psicanalista, sei que a entrevista que Gil concedeu não cabe nem analisar pelo viés da psicanálise! Jamais faria isso! Gil nunca foi meu analisante e me afirma que nunca fez análise. Ele diz, eu acredito!

E meus analisantes sabem, os preservo todos! São meus leitores fiéis, podem até fantasiar que algum dia serão citados em algum texto, ou que determinada matéria escrevi porque os tenho no meu consultório, mas… fantasia é terra que ninguém passeia e é de cada um.

A psicanálise é uma prática que acontece na díade entre um analista (disposto a escutar e operar) e o analisante (disposto a falar), sendo sempre algo de uma esfera privada – isso chamamos de psicanálise em intenção.

Quando saímos dessa esfera do privado para o público estamos então operando com uma psicanálise em extensão, é isso que acontece ao tentar explorar qualquer dramaturgia que seja.

Após assistir SADE, invoco Fleig (2008), ao afirmar que: o desejo, só pode ser perverso.

A etimologia nos ajuda nesse caso: a palavra desejo vem do latim, do desiderium, que, por sua vez, decorre do verbo desiderare, formado do prefixo de mais o verbo siderare. (…) siderar, refere-se ao movimento dos astros, a sua sideração, em rotas imutáveis. Assim, a desideração ocorre quando há ruptura do roteiro fixo e a saída da rota supostamente dada pela natureza. A desideração, ou seja, o desejo, é idêntica à quebra da versão tida como natural, é uma perversão ou inversão. É nesse sentido que o ser humano, pelo fato de estar submetido à linguagem, é um perverso polimorfo, sempre exposto à deriva provocada pela desideração¹ e que somente encontra um frágil amparo nesses meandros das palavras, visto que também essas não se encontram livres da perversão dos sentidos, nas infinitas formas de equivocação. (FLEIG, 2008; p.62).

Mas, todo psicanalista é, sim, um pesquisaDOR inquieto do humano. O nome SADE de fato chama a atenção não só a mim, como talvez a qualquer outro psicanalista.

Poderia escrever um texto libertino? Provocador? Depravado? NÃO!!!!!!!! Até porque não é desse SADE que Gil Vicente trata em sua peça.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Alerto aos voyeuristas que desejam ir assistir SADE, no teatro do ICBA, esperando ver altas cenas de libertinagem e orgias do ato sexual… Optem pelas casas de swing! O Sade que Gil nos apresenta é um SADE, sim, logorreico, um SADE DE LINGUAGEM – uma farsa onde o espectador será preso pela escuta do texto!

A grande sacada de Gil foi prender o espectador pela pulsão invocante! O espectador precisa estar muito mais atento ao texto do que ao “to play” da peça.

Sade está muito bem comportado. Saí com uma sensação esquisita da peça… saí me perguntando: Mas não é teatro? No teatro não cabe encenações mil? Por que Sade e suas respectivas putas estavam tão bem comportados em cena? Não há uma única cena de nudez, só Márcia Andrade que em uma hora mostra um único seio, dispensável. A encenação está classuda, bem construída, ao que se propõe.

Até no figurino, todos estão vestidos! Os atores, o peitoral está coberto com aquele novo tecido que é sucesso em festas de casamentos – parece que estão de peito nu? Não!!!! Essa é uma das chaves de todo o espetáculo.

Ora, ora, ora… embora no texto haja tanto o significante Puta! Puta! Puta! Puta! Todas as putas estão cobertas. Mais parecem freiras! E talvez o “to play” esteja nesse jogo: a mulher desejada? É velada. A sexualidade é velada em todos os momentos da encenação!

O ato sexual não foi posto em cena… Gil foi ao passo que pudico, esperto… porque ele “jogou” o texto e tudo fica a cargo do espectador ter seus devaneios, sejam eles quais forem!

O que o autor e diretor dá ao espectador é a possibilidade deste fantasiar e construir o seu próprio SADE; ou seja: o Sade que cada espectador possui dentro de si.

O autor e diretor da peça é inteligente o bastante para saber que:

O perverso é, portanto, aquele que põe em prática até o fracasso humilhante, a fantasia. Com o fiasco da humilhação, o perverso se angustia, deprime-se, se sente ridículo, o maior idiota do mundo. Sem dúvida, há nos comportamentos perversos algo dolorosamente cômico. (…) ele também se presta ao riso quando vemos desmoronar, como um castelo de cartas, toda a operação que ele instaurou cuidadosamente. É aí que ele goza, por ser rebaixado de maneira aviltante, e encontra sua satisfação na dor masoquista. (NASIO, 2007; p.49).

Foto: Leto Carvalho

Foto: Leto Carvalho

É forçar muito a barra afirmar que a peça SADE, tal como ela está sendo encenada, é uma peça de cunho psicanalítico. Acredito, sim, se entrarmos no terreno das fantasias do espectador… Haverá mil e umas fantasias… mas, escutei muito mais uma peça de cunho político-filosófico do que psicanalítico.

Procurei Freud e Lacan em seus diversos artigos… não encontrei, posso devanear – como ando me dedicando a estudar as pulsões – que localizo “O instinto e suas vicissitudes”, especificamente na página 65, da nova tradução de Paulo César Souza, os seguintes aspectos:

Quanto ao par de opostos sadismo-masoquismo, o processo pode ser apresentado da seguinte forma: a) O sadismo consiste em prática de violência, exercício de poder tendo uma outra pessoa como objeto; b) Esse objeto é abandonado e substituído pela própria pessoa. Com a volta contra a própria pessoa também se realiza a transformação da meta instintual ativa em passiva; c) Novamente se busca uma outra pessoa como objeto, a qual, em virtude da transformação de meta ocorrida, tem de assumir o papel de sujeito. (Freud, 2010[1915], p.65)

Ou seja, especificamente no tópico c, Freud deixa claro que: no par sádico-masoquista; quem está gozando é o masoquista – e mais… se formos para além de Freud sabemos que o sádico, ao final…. Sua tendência é cair no ridículo. Na verdade, só faz … o que o Outro pede!

Lacan, já no Seminário 1, se interessa em discernir o papel da intersubjetividade na perversão e afirma: “Não há uma única forma de manifestação perversa cuja estrutura mesma, a cada instante do seu vivido, não se sustente na relação intersubjetiva.” (p.149). Nesse momento, ele postula que qualquer manifestação perversa se dá na relação intersubjetiva, ao dizer, quanto à relação sádica, que ela “só se sustenta na medida em que o outro está no justo limite em que continua ainda sendo um sujeito”.

marques_de_sadeA relação sádica implica, com efeito, que o consentimento do parceiro seja aprisionado. Sua liberdade, sua humilhação, sua confusão e, em suas formas leves, as manifestações perversas, “em vez de serem levadas até o extremo, permanecem antes na porta de execução, jogando com a espera, o medo do outro, a pressão, a ameaça, observando as formas mais ou menos secretas da participação do parceiro. É o que está assim na base da relação intersubjetiva que alimenta a perversão, é a “anulação, ou o desejo do sujeito”.

O SADE em cartaz no Teatro do ICBA está mais para a descrição que Susine (2006) nos faz quando o chama de autor do crime perverso, Susine (2006) clarifica, que esse criminoso, esse autor de crime perverso, que a mesma se debruça a estudar, não é o perverso no sentindo comum do termo, como maléfico, desviante, manipulador, porque manifestaria uma perversidade, uma malignidade de caráter e de comportamento. Há um mais além, ele é criminoso porque sua relação particular com o Outro, é, antes de mais nada, com o Outro do encontro sexual.

Para Susine (2006), o autor do crime perverso, antes de mais nada, é autor e criador de um espetáculo pouco comum, montado e representado em nossa intenção. Por isso é que no mundo da mídia contemporânea ele prolifera, ao ponto de se tornar vedete de nossa sociedade do espetáculo. Qual o segredo do vedetismo do autor do crime perverso? Qual é, então, a natureza do espetáculo pouco ordinário que ele promove? (p.17).

É ele quem sabe tirar partido da mídia, inaugura com a maestria o divertimento.

A palavra entertainment traduz melhor os componentes de suspense, angústia e horror, aproveitando melhor que qualquer outro a oportunidade de nada esconder, de exibir detalhes mais cruéis de sua sexualidade, o perverso é aquele que tem o trabalho de revelar, tornar pública e difundir esta terrível notícia: existe um crime causado pela busca do prazer, existe um crime em que se acrescenta o gozo.

Foto: Leto Carvalho

Foto: Leto Carvalho

É esse SADE que talvez vocês encontrem no teatro baiano, o SADE que irá cutucar, mexer a sua fantasia… A fantasia inconsciente, isto é, a relação específica do sujeito com seu mundo, pois o espetáculo sustenta a perfeita coerência daquilo que parecia primeiramente aberrante, inexplicável, enigmático.

Se Sade é normalmente colocado do lado do mal, é que por definição a sua condição, a condição de seu gozo, não pode ser um lugar-comum. É necessário que ele seja impensável, fora do senso comum, pelo avesso da comunidade e do laço social.

É desse SADE que Gil Vicente de forma delicada e sutil trata em seu espetáculo. Ele não faz a opção de mostrar SADE pela pulsão escópica! Mas, sim, por uma pulsão invocante o tempo todo. Então… está aí o espetáculo: o primor do texto!

É uma peça para um público antenado, com escuta apurada… talvez seja uma peça para um público especifico…

Gil nunca foi ao DIVÃ. Ok, mas com toda certeza, subverteu a ordem de uma prática psicanalítica; está fazendo os psicanalistas irem assistir à peça dele e o divã está posto em cena!

E bem “perversinho” (risos), Gil coloca o divã no cenário da peça…. dizendo a todos! O DIVÃ É DE FERRO!!!! Ou seja: nada confortável deitar nele… (risos).

Agora, saí com uma sensação esquisita da peça, mas isso já é algo que anda perseguindo minhas escritas; a pergunta que não quer calar é: Será que a sociedade encaretou? Pois já assisti a espetáculos aqui na Bahia lá pelos idos da década de 1990, anos 2000, muito mais “depravados”… “escancarados”…

Ando me fazendo essa pergunta direto… mas não vou me ater a essas questões, por ora! Porque esse texto vai ser jogado na rede e o leitor também terá a meu respeito críticas terríveis.

Mas digo logo! Meu Sade é libertino! Sei, como psicanalista, sei. Eu pago um preço muito alto por isso!

Gil, amigo! Você diz, eu acredito! Você nunca foi a um divã “tradicional” de um analista, mas transpôs o setting psicanalítico para sua peça… o divã de ferro…

Foto: Carlos Barral

Foto: Carlos Barral

Seu divã de ferro! Prova viva do quanto a psicanálise é uma prática cruel e sadiana! Fazer análise dói, mexe, sangra, faz muito barulho mesmo no silêncio.

sade gil vicente icba blog da psicanalise-lagoOs atores quando não estão em cena textual estão sentadinhos com semblan de psicanalista! Sim… tem muito psicanalista careta! Chato! Mesmo em Salvador-Bahia ainda existem aqueles que pregam a psicanálise dos tempos de Freud-Lacan de uma forma totalmente descontextualizada do nosso tempo, quiçá da nossa cidade – baiana e sincrética!

Existem analistas que fazem, sim… aquelas “caras e bocas” de paisagens com seus respectivos analisantes… e pior!!!!! Ficam “mudos”, assim como seus atores em sua peça quando não estão na cena principal.

Escrevo muito tranqüilamente, fiz mais de 30 anos de análise, inclusive troquei umas três vezes, até chegar ao meu terceiro e último analista – com quem convivi longos anos… Ah! E esse último? É um senhor já, mas um cara super up! O tempo passou que nem vi que ele ficou grisalho! Um dia levantei do divã dele e falei: “Nossa, como você já está todo grisalho”! (risos)

Para além desses mais de 30 anos de análise, hoje, como psicanalista, sei que estou longe, aliás, passo muito longe da ortodoxia e de qualquer bíblia sagrada que seja! Ando evitando até as seitas religiosas que também fazem parte do ritual psicanalítico!

Para os ferinos psicanalistas de plantão, que porventura se derem ao trabalho de ler esses humildes escritos, pontuo: minha clínica anda muito bem! Obrigado! Meus analisantes são ótimos! Produtivos, articulados, dispostos a trabalhar! E um vai indicando ao outro… que indica outro… que indica outro… é assim que uma clínica psicanalítica cresce e acontece! Não é somente lendo a bíblia, indo para a igreja toda semana, orando todos os dias as ave-marias não tão cheias de graça e com o mesmo “pai-nosso” que um psicanalista irá avançar em sua clínica!

O psicanalista aprende a operar mesmo é em sua prática clínica e com seus analisantes! É com os nossos analisantes que aprendemos o que é psicanálise, isso Lacan já nos disse!

Talvez seja isto que você esteja fazendo, Gil, ao encenar SADE. Você joga! Ao passo que se veste de analista e escolhe seu público seleto e “cabeção” para assistir a seu espetáculo, você que nunca deitou no divã… entretanto se permite deitar no seu divã de ferro e pede para que o espectador teça com você um diálogo.

Seu espetáculo pede ao espectador, no momento que faz emergir o SADE que cada um tem em si, sair da cadeira do teatro e correr para o divã do analista!

É disso que sua peça trata… sua peça fala… fala! fala! Fala! Fala! FAAALA!!!! Isso é psicanálise.

E é muito justo que se fale de SADE mas não se ponha em ato. É para isso também que as pessoas fazem análise, para falar… falar… falar… e não pôr em ato! O que a análise permite ao sujeito é ter um inconsciente advertido e domar inclusive o Sade que existe em cada um de nós!

sade teatro nu gil vicente tavares icba bahiaPARABÉNS GIL! ESTÁ DANDO UM TAPÃO NA CARA DE TODO MUNDO! Mas de forma tão sutil e delicada, coisa que ainda não sei fazer, mas ao longo da nossa amizade, juro, vou aprender com você! Tem coisas que só o amigo mesmo pode ensinar!

 

__________________

¹(ruptura do roteiro fixo).

REFERÊNCIAS: 
	
DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto, 1997; 
FIRGERMANN, Dominique. Os destinos do Mal: Capitalismo e Perversão. In: FIRGERMANN, Dominique e DIAS, Mendes. Por causa do pior – São Paulo: Iluminare, 2005. p. 73-91;
FEIG, Mario. O desejo só poderá ser perverso. In: O desejo perverso. FLEIG, Mario. O desejo perverso. Porto Alegre: CMC, 2008. p. 59-142;
FREUD, Sigmund. Os Instintos e seus Destinos (1915). In: Obras completas, volume 12: Introdução ao Narcisismo: ensaios sobre a metapsicologia e outros textos (1914-1916)/Sigmund Freud; tradução e notas de Paulo César de Souza – 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.51-81;
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: Obras completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira: Volume XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996 (1925-1926);
FREUD, Sigmund. O problema econômico do masoquismo. In: Obras completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira: Volume XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996 (1924);
FREUD, Sigmund. Bate-se numa criança. In: Obras completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira: Volume XVII. Rio da Janeiro: Imago, 1996 (1927);
GOZO. In: KAUFMANN, Pierre. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1996. p. 221-224;
GUYOMARD, Patrick. A Lei e as leis. In: ALTOÉ, Sônia (org). A Lei e as leis: Direito e Psicanálise. Rio de Janeiro. Ed. Revinter, 2007. p. 3-59; 
JORGE, Marco Antonio Coutinho. Do amor ao gozo: uma leitura de “Uma criança é espancada”. In: JORGE, Marco Antônio Coutinho. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan, vol. 2: A clínica da fantasia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 96-113;
JULIAN, Philippe. Perversão. In: JULIAN, Philippe. Psicose, perversão, neurose: a leitura de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2002. p. 99-131;
LACAN, Jacques. O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud, 1953-1954. Rio Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1986; 
LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise, 1959-1960. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008;
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda, (1972-1973) – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008;
NASIO, Juan David. Primeira Lição: Os dois grandes conceitos: O inconsciente e o Gozo. In: NASIO, Juan David. Cinco Lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 1993. p. 11-46; 
NASIO, Juan David. A Fantasia. In: NASIO, Juan David. A Fantasia: o prazer de ler Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007. p. 25-60;
PERES, Urania Tourinho. Uma ferida a sangrar-lhe a alma. In: FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. São Paulo: Cosac Nanify, 2011;
SUSINE, Marie–Laure. O autor do crime perverso. – Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006;
VALAS, Patrick. A conceituação do gozo no ensino de Lacan. In: As Dimensões do Gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. p. 26-80. 

FAZER CARA DE PAISAGEM NOS LIVRA DE MUITOS PROBLEMAS

Com menor ou maior frequência, sempre haverá aqueles dias em que desejaremos jamais ter saído da cama, em que nada parecerá dar certo, em que nada do que dissermos será entendido como queríamos, em que nada nos fará sorrir.

Muito do que nos acontece é resultado de nossas próprias ações, mas também seremos importunados por todo tipo de gente que não fará outra coisa a não ser perturbar a paz de qualquer um.

Um dos maiores favores que poderemos fazer a nós mesmos, nesses casos em que alguém se encarrega de pesar o ambiente com fofoca e outros tipos de maldade gratuita, sempre será lutarmos contra a nossa vontade de explodir, para que não nos desequilibremos por conta de seres desprezíveis.

Quanto mais esquentarmos a cabeça, quanto mais tentarmos esbravejar e mostrar descontentamento, menos fortalecidos ficaremos, uma vez que o esgotamento emocional acaba por trazer danos também ao nosso físico.

Tentar argumentar com quem não ouve ninguém além de si mesmo sempre será uma tarefa inglória e qualquer batalha que tentarmos travar contra suas maledicências não surtirá resultados dignos, uma vez que essas pessoas só trazem sujeira e inverdade aos ambientes, pois é somente isso que possuem dentro de si, é somente isso que têm a oferecer.

Jamais conseguirão assumir o mal que carregam, simplesmente porque não possuem caráter suficiente para arcar com o que dizem e/ou fazem.


Apesar de se tratar de um esforço sobre-humano, manter a calma, o ar de que não percebemos nada nem nos importamos com as tramoias alheias nos poupará de muitos dissabores e de atitudes inúteis de tentar por em ordem a desordem moral de quem age sem pensar nos sentimentos de ninguém.

Porque quem age de forma vil e antiética tem o coração vazio, sendo incapaz de demonstrar arrependimento e de pedir desculpas a quem quer que seja, afinal, posam como se nunca fossem culpados de nada.

Leva muito tempo para nos acalmarmos, após termos entrado em meio a tempestades que não foram por nós provocadas, ou seja, sabermos nos desviar dos contratempos que envolvem inverdades sobre nós, enquanto mantemos o semblante em estado de serenidade, é a atitude mais adequada a ser tomada.


Não tem outro jeito, aliás, não existe nada melhor do que voltarmos olhos serenos na direção dos redemoinhos em que os próprios infelizes se afogam sozinhos.

O impulso, a fonte, o objeto e o fim que justifica os meios: pulsões.

O texto a seguir – adaptado ao blog – é fruto de um produto final do cartel “As Pulsões” do qual Clarissa Lago participou como membro numa instituição Psicanalítica entre os anos de 2013-2015. Boa leitura, reflexão e ação!

Pulsões: Um percurso da morte à vida…

artigo-pulsoes-vida-morte-clarissa-lago

Um encontro marcado, com data prevista, um término? Não é um fim…!! Confortável? Nada! Mas, toda escrita, qualquer que seja ela necessita de um ponto final; ainda que esse ponto possa ser momentâneo.

Penso ser o cartel, o dispositivo capaz de proporcionar esse trabalho da escritura, ou seja, o espaço privilegiado para a experiência do desejo de saber e para a travessia da teoria (Lacan, 1980; p.85).

Como alguns sabem, de todos os lugares da transmissão da Psicanálise, sou daquelas que ainda acredito; a Psicanálise é uma pratica solitária e a transmissão acontece nos pequenos grupos, por isso insisto tanto em uma prática de cartéis.

Ao longo desses dois anos, alguns trabalhos parciais pude escrever fruto das pesquisas bem como das discussões que tínhamos no cartel. Claro, o mais legal do cartel é o respeito ao estilo e o tempo de cada um.

Entretanto, desde do início dos anos 2000, já estavam presentes em minha atividade de escrita; fragmentos originários desse desejo de saber sobre as pulsões, haja vista o artigo: Família, Afeto e Lei – datado de julho de 2009.

A concepção de afeto para a psicanálise é referente ao registro psicológico determinado por Freud (Kaufmann, 1996) que, com sua originalidade, desloca a concepção de afeto do registro neurológico para o registro psicológico, devido aos progressos ocorridos na elaboração do conceito fundamental de pulsão.

artigo-pulsoes-freud-lacan

A pulsão é radicalmente inconsciente, por definição ela habita no inconsciente freudiano. A pulsão não é nem um instinto, nem uma espécie de apêndice de algum órgão; ela é em si mesma a montagem de quatros termos. Os quatros termos que compõem a pulsão: o impulso, a fonte, o objeto e o fim. Ou seja: sua fonte é uma zona erógena; o objeto é totalmente contingente já que, como se diz, “o fim justifica os meios”; o fim (o alvo) é a satisfação entendida como uma diminuição da tensão que disparou. (Lajonquière, 2000, p.159)

A noção de “representação pulsional”, segundo a proposta Freudiana segue:

(…) a pulsão é inteiramente reprimida, de tal modo que dela não se encontre nenhum vestígio; ou se manifesta sob a forma de um afeto dotado de uma coloração qualitativa qualquer; ou, finalmente, é transformada em angústia. Estas duas últimas possibilidades nos induzem a levar em consideração um novo destino pulsional: a transmutação das energias psíquicas das pulsões em afetos, e muito particularmente em angustia. (Freud, 1915[2010]p.60)

A teoria das pulsões, desenvolvida por Freud em 1915, até os dias atuais ao relermos e estudarmos, alguns autores do século XXI, chegam ao ponto de afirmar: “que a teoria das pulsões, bem como a teoria do inconsciente ‘está para a Psicanálise assim como a Anatomia e a Fisiologia estão para a Medicina’.” (DUNKER, 2013, p.155).

Segundo Iannini e Tavares (2013) o modo como Freud descreveu a gramática de nossas escolhas e nossos desejos, a lógica de nossas fantasias inconscientes e os processos de transformação envolvida nelas são processos que presidem a eleição por um sujeito de seus objetos de desejo. Para esses autores, Freud apresenta o conceito de pulsão, que está na base dos processos que determinam o modo como os sujeitos amam, desejam e sofrem.

Em a pulsão e seus destinos, percebemos um esforço obstinado de sistematização deste que, não por acaso recebeu o estatuto de conceito fundamental tão ou mais fundamental do que o próprio inconsciente, a pulsão é um conceito fronteiriço, situado entre o corpo e o aparelho psíquico.

Ainda segundo Iannini e Tavares (2013) apesar da relativa obscuridade admitida pelo próprio Freud, o conceito de pulsão ilumina a metapsicologia e demarca a especificidade da clínica psicanalítica. Ao discutir os fundamentos da economia libidinal, Freud também desenha um quadro sinóptico dos destinos das pulsões. Uma pulsão pode, ainda que parcialmente, satisfazer-se num objeto, provocando prazer, pode ser revestida em seu oposto; pode retornar ao próprio “Eu”; pode ser recalcada, sublimada, etc.

Para Dunker (2013) a gramática dessas transformações é apresentada de modo claro e sucinto. Os destinos das pulsões dependem de fatores os mais diversos, ligados às possibilidades de que algo se realize ou não, dos encontros e desencontros da vida de um sujeito.

Entre a pulsão de morte e a pulsão de vida, embora Freud, em Os Instintos e seus Destinos ([1915]2010) defina que a pulsão morte é responsável pela tendência ao retorno a um estado anterior, e a vida tende a retornar à morte.

Torna-se valido pontuar que a repetição não é uma representação, não representa uma coisa. E sim, significa algo, a repetição é em essência, de natureza simbólica.

Concordo com Garcia-Roza (2003); “Aquilo que a psicanálise nos fala é dessa repetição interminável, desse jogo amoroso que constitui a ligação de Eros com um passado reencontrado. ” (p.44). O que se repete é o sexual, esclarecendo: a repetição é constituinte do sexual.

psicanalise-pulsoes-freud-lacan-blog

Ainda Garcia-Roza (2003) acrescentou, repete-se em um encontro amoroso que, em si mesmo, já é máscara. E após essa afirmação o autor pontuou: “a repetição alimenta a pulsão de morte”. (p.45).

Desse modo, o polo inicial do gozo absoluto revela seu aspecto mortífero e sua relação indissociável com a pulsão de morte, pois a ilusão de seu atingimento e sua perda se ilustra pelo assassinato passional.

O que ao seu modo, no seminário Livro 11 “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”; capítulo XV Do Amor à Libido, Lacan (1964) pontuou:

(…) Freud, de um lado põe as pulsões parciais, e do outro, o amor. Ele diz – não é a mesma coisa.

As pulsões nos necessitam na ordem sexual – isso, vem do coração. Para nossa maior surpresa, ele nos ensina que o amor, do outro lado, ele vem do ventre, é o que é o rom- rom. (…) a pulsão sexual genital, se ela existe, não é de modo algum articulada como outras pulsões. E isto, malgrado a ambivalência amor – ódio. Em suas premissas, e em seu próprio texto, Freud se contradiz propriamente quando ele nos diz que a ambivalência pode passar por uma das características de reversão da Verkehrung da pulsão. Mas quando ele a examina, ele nos diz mesmo que NÃO são de modo algum a mesma coisa, a ambivalência e a reversão. (p.179).

Na aula supracitada Lacan (1964), disse: “Se então a pulsão genital não existe, ele só pode se f… afeiçoar alhures, do outro lado e não do lado onde há pulsão”, (p.179)

Vocês mataram a charada do que é esse f… (com reticências) que aparece no seminário? Não?!? Nós “matamos a charada no Cartel” …é o se fuder!!!!

artigo-pulsoes-freud-lacan-blog-psicanalise

Portanto, ainda que existam as paixões do ser: amor, ódio e ignorância. – Para se caminhar com a pulsão de vida, torna-se necessário fazer suplência; assim sou levada a acreditar na metáfora do amor onde produz como efeito o sujeito dividido, afastando do seu resto o objeto causa do desejo. Temos então um sujeito barrado, que implica a relação de dependência fundamental do sujeito com o significante.

A constituição do sujeito do desejo pela via simbólica é correlativa da produção do amor como metáfora.

E ainda que a partir do objeto a talvez se situa a vertente terminável da análise, de um cartel ou de uma escrita; prevalece a função disjuntora da pulsão de morte. Neste ponto, temos então, um espaço compreendido entre duas mortes.

Mortes, simbólicas, que nos permite como tantas vezes já pontuei lembrar o poema de Paulo Mendes Campos:

“O amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. ”

Entretanto, diante de tantos “nós” e “tranças” que o sujeito em um percurso de análise faz, ao fim de uma análise é possível se fazer novos enlaces e produzir um novo laço. Cabe ao amor, a tarefa de fazer suplência…se as pulsões podem vir a dilacerar… há de existir o amor… para possibilitar novos enlaces… ainda que na falta tenhamos que viver resta talvez acreditar nas palavras de Ferreira Gullar, ao dizer:

O amor é uma doença como qualquer outra. E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém, meta na cabeça que só existe fulano, ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas…. Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!… (GULLAR, 2005; p.279)

…, mas não morreu… e foi capaz de dizer isso… um dia… comendo um bife com batatas fritas e de paz com a vida … está vivo! Viva a pulsão de vida!!!

__________________
REFERÊNCIAS:

CAMPOS, Paulo Mendes. Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, p. 21;
DUNKER, C. I.L. Uma Gramática para clínica psicanalítica. In: FREUD, Sigmund. As pulsões e seus destinos. In: Obras Incompletas de Sigmund Freud; tradução Pedro Heliodoro Tavares. – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.p.135 – 157;
FREUD, Sigmund. Os Instintos e seus Destinos (1915). In: Obras completas, volume 12: Introdução ao Narcisismo: ensaios sobre a metapsicologia e outros textos (1914 – 1916) / Sigmund Freud; tradução e notas de Paulo César de Souza – 1ª ed. - São Paulo: Companhia das, 2010, p.51 – 81;
GARCIA – ROZA. A Repetição e as Máscaras. In: GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Acaso e Repetição. – 7ª Ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003, p.44 – 52;
GULLAR; Ferreira. “A estranha vida banal”. Editora. Objetiva; Rio de Janeiro. 2005. p. 279;
Jorge, Marco Antonio Coutinho. O Objeto perdido do Desejo. In. Jorge, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan v.1: as bases conceituais – 4ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005; p.139 – 158;
KAUFMANN, Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o legado de Freud e Lacan. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1996;
LACAN, Jacques. A verdade surge da equivocação. In: LACAN, Jacques. Seminário livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-1943). O Seminário Livro 1: Os escritos técnicos de Freud. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1981, p.297 – 310;
_____________. Do Amor à Libido. In LACAN, Jacques. Seminário Livro 11: Os quatro conceitos cruciais da psicanálise (1964). - 2ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998; p.177 – 189; 
LACAN, Jacques: A metáfora do amor: Fedro. In: LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. p. 43-56;
LAJONQUIÈRE, Leandro de. De Piaget a Freud: para repensar as aprendizagens. 9ª Ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1992;
SAMPAIO, Adilson. Do amor à morte: Transferência. In: Amor e morte: anais. / Org. por Urânia Tourinho Peres e Maria Thereza Ávila Dantas [et.al] _Salvador: EGBA, 1998.

ESQUEÇA ESTAS CINCO MENTIRAS PARA TER UM CASAMENTO FELIZ

Se são citações impressas na parte de trás de portas de banheiros suburbanos ou sabedoria transmitida em discursos de pai de noiva, estas cinco frases mais parecem uma lista interminável de “regras” para um casamento feliz.

Mas os psicólogos dizem que há uma abundância delas que são totalmente desatualizadas e, pior, não farão nenhum bem ao seu relacionamento.

Estão aqui cinco mitos que você pode arquivar se você quiser verdadeiramente um casamento longo e feliz.

1 – NÃO VÁ DORMIR BRIGADO COM O PARCEIRO
Esse mantra tem sido repetido por décadas como uma das virtudes testadas e testadas para um casamento feliz, mas Jayne Ferguson, consultor sênior da Relationships Australia Victoria, diz que é uma teoria defeituosa. “Tentar resolver a briga antes de ir dormir pode potencialmente piorar”, diz ela.


“Quando estamos cansados, somos muito menos propensos a estar na ponta dos pés e é menos provável que tenhamos uma ideia clara”. Ferguson diz que se você está evoluindo em resolver a situação, pode valer a pena arquivar para discutir o dia seguinte.

“As pessoas lidam com as coisas de maneiras diferentes – algumas pessoas precisam ser capazes de ir embora e gastar tempo pensando sobre isso e considerando isso, enquanto outras pessoas podem ser mais conflituosas”, diz ela.

“Se isso vai impedi-lo de dormir bem, então você possivelmente precisa dizer: ‘Podemos, pelo menos, agendar isso pela manhã?’ De modo que dá à outra pessoa o tempo para trabalhar com ele ou lidar com ele em sua própria maneira.

2 – CASAIS FELIZES NÃO DISCUTEM

Pode parecer contra-intuitivo, mas Kate James, autor de livros do gênero, diz que um relacionamento sem conflito não é realmente um bom sinal. “Um bom casamento envolve um debate saudável”,  ressalta.

“Se você não se sentir confortável para discordar, então eu iria questionar se você está sendo completamente autêntico e dizendo toda a verdade.”

Na verdade, o eminente especialista em casamento dos EUA, Dr. John Gottman, que pesquisa relacionamentos há 40 anos, propõe que haja uma interação negativa para cada cinco positivas dentro de um relacionamento, desde que as negativas ainda sejam tratadas dentro do “contexto do amor mútuo e paixão.”

“Os desentendimentos são normais em um relacionamento – é se podemos permanecer respeitosos da outra pessoa quando estamos em conflito”, diz Ferguson.

3 – BONS CASAMENTOS EXIGEM TRABALHO DIFÍCIL
Não há como negar que um casamento bem-sucedido exige esforço, priorização e respeito, mas não necessariamente tem que se sentir como uma tarefa para colocar seu parceiro em primeiro lugar.

“Casamento leva um investimento de seu tempo e energia e não há dúvida que isso exige que você priorize-lo”, diz James. “Mas a forma como ele é fraseado como “trabalho” pode ​​soar como uma maneira negativa de colocá-lo.”

Enquanto os conselheiros casais podem prescrever algum “trabalho” para ressuscitar a paixão em casamentos infelizes, aqueles que continuam a fazer uns aos outros uma prioridade desde o início, idealmente passam tempo juntos e cuidam das experiências em comum de forma agradável.


“Nunca fique com a impressão de que seu relacionamento não vai exigir que você faça um esforço grande – você realmente realmente precisa tentar”, diz Ferguson. “Haverá momentos em que você não tem vontade de se envolver com seu parceiro, haverá momentos em que você não quer sair [junto], mas se você fizer isso, então seu relacionamento será mais rico para isso”.

4 – SEU PARCEIRO DEVE SER SEU MELHOR AMIGO

Esta dica de casamento é um pouco turva. Por um lado, os especialistas concordam que seu cônjuge deve ser seu melhor amigo e alguém que você compartilha mais coisas. No entanto, é imperativo que você tem outros relacionamentos próximos fora do seu casamento.

“Você deve sentir seu parceiro como a pessoa que você compartilha as coisas mais íntimas, mas é importante ter outras relações”, diz. “Muitas vezes vemos casais [para aconselhamento] que são completamente dependentes uns dos outros para tudo – eles ficam sobrecarregados e oprimidos e lutam com o conflito porque não têm outra maneira de saltar fora ou saber o que é normal e o que outras pessoas fazem.

5 – CASAIS FELIZES DIZEM TUDO UM AO OUTRO

Enquanto você obviamente não quer estar mentindo para o seu parceiro ou retenção de informações importantes, haverá momentos em que deixar de fora os detalhes que são susceptíveis de irritá-los pode ser benéfico.

Então, se você notou que seu colega parecia particularmente atraente naquele dia ou sua família ensacou a aquisição recente de capacete extra do seu marido por trás das costas – então você pode questionar se eles são detalhes que você realmente precisa repetir.

“Para a maioria de parte você quer ser aberto e transparente mas quando não há nenhum benefício grande a seu relacionamento em dizer seu sócio algo, pensa então sobre a intenção atrás de suas ações”, sugere.

“O mesmo acontece com corrigi-los e dizer-lhes que eles estão errados – às vezes é mais fácil deixar as coisas passarem para o goleiro. Há um provérbio, “você quer ser direito ou você quer ser feliz?” Que vale a pena ter em mente.”

Mulher e sexo. A pergunta que nunca cala: a mulher existe?

Freud, Lacan, Melman, Zalcberg, Soler, Mannoni, Simone de Beauvoir e Medeiros sexualmente citados na psicanálise de mulher e sexo, por Clarissa Lago.

Contrariando a clínica de Freud, que começou com as mulheres e se debruçou em seus estudos sobre a histeria, no início da minha atividade clínica como analista, deparei-me com uma surpresa. Meus primeiros analisantes eram homens e neuróticos obsessivos.

Enfim….passaram-se mais de 15 anos da minha prática clínica como psicanalista, os quatro, são fiéis analisantes até hoje. Porém meses depois da chegada deles há mais de uma década anos atrás, chegaram as histéricas!!!!!

E quando estas chegaram….aí sim…na função analista, descobri o que era Psicanálise, a linguisteria, a voz pulsante e vibrante de uma histérica, os choros desesperados, os risos, as gargalhadas soltas e o sofrimento estruturado no desejo insatisfeito.

blog-da-psicanalise-mulher-sexo-gozo

Naquele momento, acabei por me deparar com o livro de Maud Mannoni (1999): “Elas não sabem o que dizem”.

Hoje, sabemos, a clínica é diversa: há lugar para todos os tipos de sujeitos e suas respectivas estruturas e demandas. E com isso todas as mulheres.

Na verdade, é para elas a quem dedico esta escrita, não muito preocupada em saber se são histéricas, obsessivas, psicóticas, psicóticas ordinárias. Enfim… são mulheres, e com isso afirmo que estou recortando a minha atividade de escrita, a posição feminina que cabe a uma mulher.

Sem dúvida, não é muito simples ser uma mulher. Simone de Beauvoir, já nos afirmou “Ninguém nasce mulher, torna-se”. E é essa questão que norteará a minha escrita.

simone-de-beauvoirA questão do tornar-se mulher era enigmática para Freud: “Como a mulher se desenvolve a partir da criança com disposições bissexuais? ” Sabemos que Freud achava a Psicologia das mulheres mais complicadas que a dos homens. Segundo Mannoni (1999), Freud um dia confessou a Marie Bonaparte. “A grande pergunta que ficou sem resposta, e à qual eu mesmo nunca pude responder, apesar dos meus trinta anos de estudo da alma feminina, é a seguinte: o que quer a mulher? ”

A esta pergunta Freudiana, Lacan responde: ela deseja, muito “simplesmente” (sabemos que não é tão simples assim), acrescento Lacan e afirmo: ela deseja, ardentemente deseja. Nessa perspectiva o falo se situa como faltoso do desejo, no nível da divisão sexual.

Para Mannoni (1999), Freud está à procura do que falta à mulher, observando que a “tensão sexual” desta deve ser mantida em nível relativamente baixo. O destino feminino se situaria, assim, entre o déficit de excitação e a superexcitação. Se a mulher não pode encontrar no homem um sedutor, só lhe resta identificar-se com ele, seduzindo outra mulher – eventualidade que Freud não entendeu no tratamento de adolescentes.

Mas hoje na clínica nós analistas estamos atentos. As adolescentes que chegam aos nossos consultórios e se declaram homossexuais; escute-as direito. Ainda são adolescentes, falta-lhes um bom caminho a percorrer nesse endereçamento ao ser uma mulher.

mulher-sexo-freud-lacan-blog-da-psicanalise-clarissa-lago

Jamais nos esqueçamos de Dora e Sra. K, revisitado por Lacan a nos esclarecer, que Dora, apenas queria saber com Sra. K, o que era ser uma mulher.

Mannoni (1999) retoma a pergunta feita por Freud: As mulheres podem amar? Para Freud essa pergunta é entendida da seguinte forma: é a si mesma que a mulher ama. Seu primeiro objeto de amor foi sua mãe. Somente trabalhando o luto é que o “desvio” desse amor para o pai, e depois para o homem amado, torna-se possível. O primeiro amor (a mãe) sempre deixa uma cicatriz indelével, constituindo o leito dos amores impossíveis.

O que quer a mulher? A pergunta nunca deixou de perseguir Freud. No início, ele sabia: elas desejam o que lhes falta, o pênis; essa teoria falocêntrica persegue Freud até 1923, quando ele nos afirmou, não saber mais.

Se Freud perguntou o quer A mulher, Lacan em 1956 retomou essa pergunta Freudiana, retirando o artigo definido A e então nos perguntou: O que é uma mulher.

Lacan (1956) nos disse:

Para a mulher, a realização do seu sexo não se faz no complexo de Édipo de uma forma simétrica à do homem, não pela identificação com a mãe, mas ao contrário pela identificação com o objeto paterno, o que lhe destina um desvio suplementar. Freud jamais largou essa concepção, o que quer que se tenha feito desde então, especialmente das mulheres, para estabelecer a simetria. Mas a desvantagem em que se acha a mulher quanto ao acesso a sua identidade seu próprio sexo quanto à sexualização como tal, na histeria transforma-se numa vantagem, graças à sua identificação imaginária com o pai, que lhe é perfeitamente acessível, em virtude especialmente de sua posição na composição do Édipo. (LACAN, 1956, p.202)

Por isso a histérica sempre é fiel ao pai e se identifica com ele. Ela fica cheia de si quando lhe dizem: “é a cara do pai”, “é outra vez o pai”, “possui o temperamento idêntico ao do pai”. A histérica fiel ao pai segue seus passos, e não adianta a mãe tentar impedir. Ela será fiel – é ela quem estará ao lado dele em seu leito de morte. E se um dia esse pai vier a falecer, ela se sentirá uma viuvinha.

Pais e mães que estão a ler esse texto, penso ser válido pontuar a vocês: Se algum dia vocês tiverem de se separar, por mais que vocês tentem esclarecer às suas filhas que vocês estão se separando da mãe e não delas, só lamento antecipar a vocês e lhes revelar uma péssima notícia: as meninas jamais entenderão. Inconscientemente, vocês estão se separando delas também.

O recado que se permite posso também pontuar às mães: não joguem jamais suas filhas contra os pais, nem muito menos tentem afasta-las dele, pois, pai é insubstituível. Não tentem ser pai e mãe ao mesmo tempo, por mais que vocês se esforcem não conseguirão.

Observem o Caso Dora, Lacan (1956) nos perguntou: Que diz Dora através da sua neurose? Que diz a histérica – mulher? Sua questão é a seguinte: o que é ser uma mulher?

Quando Dora se vê interrogar a si mesma sobre o que é uma mulher? Ela tenta simbolizar o órgão feminino como tal. Sua identificação com o homem, portador de pênis, é para ela, nessa ocasião, um meio de aproximar-se dessa definição que lhe escapa. O pênis lhe serve literalmente de instrumento imaginário para apreender o que ela não consegue simbolizar.

Tornar-se mulher e interrogar-se sobre o que é uma mulher para Lacan (1956) são duas coisas essencialmente diferentes e nos afirmou:

É porque não nos tornamos assim que nos interrogamos, e até certo ponto, interrogar-se é o contrário de tornar-se. A metafísica de sua posição é o subterfúgio imposto à realização subjetiva na mulher. Sua posição é essencialmente problemática, e até um certo ponto inassimilável. Mas, uma vez que a mulher é introduzida na histeria, é preciso dizer também que sua posição apresenta uma estabilidade particular, em virtude de sua simplicidade estrutural – quanto mais simples é uma estrutura, menos ela revela pontos de ruptura. Quando sua questão adquire forma sob o aspecto da histeria, é facílimo para a mulher colocá-la pela via mais curta, a saber: a da identificação com o pai. (LACAN, 1956, p.209)

As afirmativas polêmicas de Lacan da década de setenta: A mulher não existe e não há relação sexual, Melman (2004) muito claramente nos afirmou: Para um homem, a imagem de uma mulher é o suporte desse objeto pequeno a, quer dizer, objeto de sua fantasia.

mulher-sexo-freud-lacan-blog-da-psicanalise-clarissa

Ou seja, mais uma vez é a parte do corpo da mulher, aqui parte imaginária, que vai ser o suporte do desejo. O que significa portanto, dizer que a relação sexual se estabelece não entre dois parceiros, que vão reciprocamente gozar de seus corpos, mas entre dois objetos que não são os mesmos nem para um e muito menos para o outro.

Não há relação sexual, pois não é o corpo da mulher enquanto tal que interessa a um homem, mas esse objeto pequeno a, objeto de sua fantasia que lhe empresta. E para uma mulher, da mesma maneira, é um objeto preciso do corpo do homem que lhe interessam e é exatamente por isso que, na relação sexual, cada um dos dois parceiros tem o sentimento de que sua existência enquanto tal, enquanto sujeito, não é reconhecida, que não é isso que interessa ao outro.

Acrescento Melman (2004), na verdade, apenas o re- afirmando: é a fantasia que sustenta uma relação sexual. Caso essa fantasia seja inexistente, serão apenas dois corpos estirados em cima de uma cama. Acredito: na verdade não transamos com corpos…. São simples corpos. Transamos com as idéias e é por elas que somos loucamente apaixonadas e é com essas ideias que fazemos amor.

sexo-e-mulher-blog-psicanaliseTalvez nessa perspectiva, as mulheres do século XXI acabaram por se perder em alguns aspectos, como nos afirma Medeiros (2008), penso que talvez o leitor deste texto, já deve ter escutado falar na Mulher Melancia, e a Mulher Jaca. São duas dançarinas do funk que ganharam notoriedade por possuírem quadris avantajados. Essa é toda história do começo ao fim.

Há também aquelas que se intitulam de Mulher – Rodízio, e para elas, é assim que a sua feminilidade se expressa.

No século XXI, existem mulheres que acreditam fielmente que é sendo melancia, jaca ou rodízio que conquistaram sua liberdade sexual. E acreditam gozar disso perfeitamente. Porém, com toda essa liberdade, acabam por esquecer a premissa básica para ser uma mulher: é justamente nesse não ser não toda. É não toda fálica que uma mulher se constitui.

A partir desse exemplo do século XXI, podemos entender quando Lacan (1970) nos afirmou em sua premissa: A mulher não existe. Mulheres existem, isso pode ser mais ou menos verificado, mas “A” mulher, ou seja, aquela que seria definida por um signo específico, como o homem que é especificado na castração, esse signo específico não existe para uma mulher e essa é a razão pela qual as mulheres se queixam de não serem fundadas em sua feminilidade.

Zalcberg (2003) acrescentou que a mulher está se situando numa posição histérica em que ela se crê toda fálica, e, portanto, ela exige que seu parceiro creia nela como A mulher. Nesse caso, evidentemente, isso só pode remetê-la, a ela e remetê-los, ela e a seu parceiro, a uma posição de insuficiência, uma posição sintomática, portanto uma posição sacrificial ao pai.

Por outro lado, ainda Zalcberg (2003) afirmou que, se numa outra posição, uma mulher pode suportar essa relativa insatisfação fálica que lhe é inerente, porque ela é não – toda – fálica, sustentar, então, isso, não faz disso uma queixa, um ressentimento, mas ao contrário, ela pode ir mais além e suportar isso como uma abertura para um gozo Outro, é isso o que lhe daria, o que podemos chamar um estilo próprio.

Lacan (1970) nos afirmou que o estilo é o próprio objeto. É assim que uma mulher se tornaria, então, esse objeto que captura o homem de um modo diferente. Não mais para completá-la, vir a preencher a sua incompletude, mas para mantê-lo numa certa sideração em torno de algo que lhe escapa – e que escapa também a ela – e que decididamente é o que põe, a ambos no caminho do desejo.

mulheres-blog-da-psicanalise

Jamais seremos iguais aos homens, existe uma mulher para um homem, porque então a insistência dessas mulheres no século XXI agirem como homens?

Sim, elas se dizem mulheres, heterossexuais, com vida sexual ativa. Mas a posição sexual que essas mulheres ocupam na dinâmica dos sexos, é muitas vezes masculina.

Gostaria muito de acreditar que elas não sofrem, mas, já nos diz a Psicanálise, o sofrimento é inevitável.

Quando Medeiros (2008) em seu texto jornalístico, também aponta que nesse hortifrúti há espaço para todas, a autora critica a si mesmo, se rotulando de A Mulher Banana. Esta é tolinha, insossa, que não tem corpão, é cultural e intelectualmente sofisticada sendo assim, não inveja as top models.

Confesso, que não acredito ser essa mulher tão banana assim, talvez justamente essa, que mesmo sem saber…sabe, o que é ser uma mulher.

Colette Soler (2005) nos assinalou: Uma mulher não se faz reconhecer como mulher pelo número de seus orgasmos ou pela intensidade de seus êxtases, salvo algumas exceções, é verdade. E, muito longe de exibir-se, sucede a esse gozo esconder-se. Daí a necessidade de um outro recurso e os esforços para se identificar pelo amor. Em outras palavras, na impossibilidade de ser A mulher, resta apenas ser “uma” mulher, a eleita de um homem. Ela toma emprestado do “um” do Outro, para se certificar de que não apenas um sujeito qualquer – o que ela é, a partir do momento em que é um ser falante, sujeito ao falicismo – mas ser, além disso, identificada como uma mulher escolhida. Assim é compreensível que as mulheres, histéricas ou não, mais que os homens, amem o amor.

Assim sendo, Melman (2004) nos faz pensar com o título do seu seminário: Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem?

__________________
Referências:

André, Serge. O que quer uma mulher? – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1999.

Freud, Sigmund. Sexualidade Feminina (1931) in: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: - Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XXI.

Freud, Sigmund. Conferência XXXIII: Feminilidade (1933 [1932]) in: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: - Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XXII.

Lacan, Jacques. O seminário livro 3: as psicoses (1955 – 1956). 2ed. Revista – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.

Lacan, Jacques. Seminário livro 18: de um discurso que não fosse semblante (1971). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 2009.

Lacan, Jacques. Seminário livro 20: mais, ainda. (1972 – 1973) 3ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.
Lacan, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma, 1975 – 1976. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007.

Mannoni, Maud. Elas não sabem o que dizem: Virgínia Wolf, as mulheres e a psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 1999.

Medeiros, Marta. Doidas e Santas. – Porto Alegre, RS: L& PM, 2009.

Melman, Charles. Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem? Ed. Tempo Freudiano, Rio de Janeiro, RJ. 2004.

Soler, Collet. O que Lacan dizia das mulheres. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2005.

Zalcberg, Malvine. A relação mãe e filha. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.

COMO PERDOAR A SI MESMA PELOS ERROS DO PASSADO

Atire a primeira pedra quem não carrega dentro de si pelo menos um arrependimento sobre um erro do passado.

Há arrependimentos que nós lembramos de vez em quando e ficamos atormentados por eles durante algum tempo, e há também aqueles que nós carregamos junto conosco o tempo todo por muitos e muitos anos (em alguns casos, por toda a vida).

Algumas pessoas vivem realmente perturbadas por causa de seus passados e têm suas vidas seriamente prejudicadas por isso.

Se culpam o tempo inteiro, não conseguem confiar em mais ninguém, têm medos e crenças extremamente limitantes, perdem completamente a autoestima, sofrem muito ou carregam algum outro sentimento de impotência que bloqueia o fluir de suas vidas.

Eu também já fui muito atormentada pelo meu passado, mas hoje consigo lidar melhor com ele porque adquiri a seguinte compreensão: Eu não sou meu passado. O erro foi cometido pela pessoa que eu fui e não sou mais.

Inclusive, foi graças a esse erro que eu tive oportunidade de aprender e mudar para melhor. O que importa é quem eu sou hoje e o que estou fazendo agora.

Quando o passado vem tentar encher meus pensamentos de culpa, medo e tristeza, eu sempre procuro me perguntar: o que eu estou fazendo hoje? Estou aproveitando essa segunda chance de ser alguém melhor?

Assim consigo tirar o foco do passado e me preocupar com o que realmente importa: o que estou fazendo no presente.


Se você não foi justo com alguém no passado, mas decidiu ser justo agora, isso é o que importa. Se você disse palavras duras a alguém um dia, mas hoje tem coisas boas para dizer, isso é o que importa. Se você está sendo uma pessoa melhor hoje, isso é o que importa. Perdoe-se e se disponha a ser alguém melhor hoje. Isso é tudo o que importa.

O passado não vai ser apagado, é verdade. Mas ele não é o seu presente. Ele foi uma ponte para que você chegasse ao lugar onde está hoje. Se você se mantém apegado ao arrependimento do passado, pode estar perdendo a chance de ser a pessoa incrível que os seus erros te prepararam para ser hoje!

A única função positiva que você pode dar para o passado é usá-lo como referência. Já o presente é um campo de infinitas possibilidades. Dê para cada tempo a função que lhe cabe.

Se ontem você não fez a coisa certa, perdoe-se e vá se preocupar com o que está fazendo HOJE. Se houver uma forma de consertar o erro, aproveite o momento presente para fazê-lo. Isso é crescer, é evoluir, é aprender. É para isso que estamos vivendo, não?

“Mas e se o meu erro prejudicou outra pessoa e eu também quiser o perdão dela?”

A partir do momento em que você conseguir se perdoar e obtiver a consciência de que o que importa é quem você é e o que faz hoje, será muito mais fácil encontrar confiança e força para conversar com a pessoa que você prejudicou e pedir o perdão dela.

Preocupe-se primeiro em perdoar a si mesmo. O autoperdão vai tornar as coisas mais claras e você conseguirá encontrar as palavras certas e a melhor atitude para lidar com o outro com amor e sinceridade.

O DIA QUE A MINHA SAUDADE GANHOU NOME

Foi quando te vi pela primeira vez, tomando aquele suco de laranja para não precisar olhar em seus olhos, e mantendo dentro de mim aquela incerteza se você gostaria de me ver de novo ou não. Ou talvez tenha sido depois.

Foi em nossa primeira discussão, que já nem lembro mais o motivo, mas me recordo claramente do nosso encontro no meio da madrugada para fazermos as pazes, pois esperar até nos encontrarmos de novo era um tempo muito distante. Ou talvez tenha sido depois.

Foi quando descobri que você era tão compreensivo, como aquela vez que meu carro quebrou, também no meio da madrugada, a noite sempre foi nossa cúmplice não é mesmo? E você ficou comigo até o guincho chegar jogando conversa fora e eu preocupada que você teria de acordar para trabalhar dali poucas horas. Ou talvez tenha sido depois.

Sim, foi quando me contou que não estava aqui para ficar. Que me enganou de maneira tão esperta e esperou eu ser inteiramente sua para me contar que nossos anos juntos eram, na verdade, meses. Ou talvez depois disso.

Quando a saudade era tamanha que os dias que não nos víamos ficavam cada vez mais curtos. Ou talvez depois.

Quando percebi que não tinha resposta para sua pergunta sobre o que faria quando você fosse embora. A vontade era responder que não saberia quem eu seria sem você ali. E se você fosse o pilar que estava me sustentando?

Quando percebi que talvez, só talvez, você fosse o primeiro com que eu realmente tivesse certeza do que eu sentia. Já que fazia anos que não sabia o que era sentir algo tão forte por alguém.


Engraçado, eu que sempre achei que os anos eram imprescindíveis para se amar alguém, descobri que o tempo é simples e facilmente descartado quando estou com você, tão pouco tempo e um sentimento tão sólido.

Foi quando me dei conta do quão tranquila consigo ser ao seu lado e do quão segura me sinto com seus abraços e beijos carinhosos.

Talvez tenha sido naqueles dias em que eu te olhava quando você não percebia e me dava conta de como, se houvesse tempo, eu seria feliz ao seu lado, para sempre.

Talvez tenha sido na última semana juntos.

Ou naqueles últimos dias em que os abraços ficaram mais apertados. E que o tempo, antes simples, se tornou nosso mais valioso vilão.

Foi na despedida, no ar que todo aeroporto exala, entre os cheiros de encontros e despedidas, entre a voz robótica no alto falante soando como alarme para nossos ouvidos, entre as idas e vindas de tantas pessoas e tantos destinos, e entre tudo isso, eu e meu nervosismo, quando não conseguia te olhar nos olhos, expressar qualquer comentário supérfluo ou prestar atenção na sua conversa, pois meu único mantra era não desabar enquanto você estava ali de frente comigo.

Talvez tenha sido depois.

Foi quando dei as costas sem saber quando iria sentir seu rosto perto do meu novamente.

Ou foi ao entrar em casa e abraçar seu travesseiro com seu cheiro e finalmente desabar?

Foi ali? Ao sentir que o mundo estava caindo e que para me salvar precisava abraçar fortemente o cheiro seu que já não estava mais ao meu lado?

Não, não. Foi antes.

Dei seu nome a minha saudade parada em frente ao embarque daquele aeroporto, te segurando forte em nosso último abraço. Sim, foi ali. Bem ali, naquele último abraço.

Naquela despedida desengonçada, sem saber se queríamos nossos beijos apaixonados ou nossos abraços seguros, se queríamos passar a mão em nossos rostos para guardar a textura da pele ou se nos abraçávamos pela cintura como um pedido secreto para não nos deixarmos.

Foi bem ali, abraçada a ti, sentindo teu cheiro pela última vez, olhando teu rosto pela última vez, antes que o buraco do embarque temporal te levasse para longe de mim. Foi naquele gesto de virar as costas enquanto você sumia de vista e sentir o peito afundar contra as costelas e o que chamam de a dor da alma florear por todo o corpo.

Minha saudade ainda tem seu nome, carrega seu cheiro, sua fisionomia, seu sorriso, riso, seu olhar. Ela carrega nossas memórias, dorme ao meu lado como se fosse você, me acorda com a brisa da sua lembrança e me atormenta com a ânsia dos meses que passam tão lentamente. Até o dia que te abraçarei de novo no aeroporto e, enquanto me extasio com sua presença, essa saudade pegue algum voo e vá tirar férias.

SEU CACHORRO ESTÁ CHORANDO MUITO? VEJA O QUE PODE SER

Quem tem um cachorro em casa sabe que ele pode passar boa parte do tempo chorando muito, especialmente quando ainda é filhote.

Nestes casos, o “enigma” é simples: ele está sentindo falta da mãe e do irmão e está intimidado com um ambiente e pessoas desconhecidas.

Certifique-se de que a cama do animal é bem aquecida, não se esqueça dos afagos e, se for o caso, consulte o veterinário para conferir a dieta e as condições gerais. Com estas providências, em pouco tempo o cãozinho estará adaptado à nova família.

Mas os cuidados básicos são necessários tanto para adultos, quanto para filhotes: os animais se ressentem da exposição ao frio, chuva, calor excessivo e vento; o abrigo deve ser adequado para não permitir estes incômodos. Filhotes e raças pequenas devem ser mantidos dentro da casa.

No entanto, um cachorro chorando pode indicar problemas físicos e emocionais – entre eles, a solidão durante boa parte do dia. é preciso estar atento: o sinal pode ser apenas “manha”: ele quer atenção e brincadeiras, mas precisa aprender que existem horários para todas as atividades.

Nestes casos, é preciso resistir à tentação de correr em auxílio sempre que ouvir o cachorro chorando. Evite contato com o animal até que ele pare de chorar; não se aproxime e principalmente não o acaricie. Esta atitude o fará compreender que não é o choro que atrai o dono, mas o bom comportamento. Encontre formas de premiá-lo sempre que o cão apresentar condutas positivas.

Ficar ligado à conduta do cachorro é muito importante para garantir a saúde e qualidade de vida, prevenindo contra problemas mais sérios. O cachorro pode estar simplesmente entediado por passar a maior parte do tempo em um ambiente confinado. Vale lembrar que, depois dos reforços das vacinas, o cãozinho já pode começar a passear, programa que o deixa muito feliz.

Cuidado com os maus tratos: muitas crianças pequenas desenvolvem o costume de “torturar” cachorros. Enfiam os dedos nos olhos e nas orelhas, carregam o animal de forma inadequada, dão sustos. O problema não está na criança, que, bem orientada, abandona estas condutas.

Um fato importante: apesar de alguns cachorros ficarem com os olhos marejados de lágrimas, isto pouco tem a ver com o ato de chorar. São apenas as glândulas lacrimais cumprindo a sua função: lubrificar a região dos olhos.


O choro dos cachorros, na realidade, é seco, e se caracteriza pela vocalização, que emite sons (em alguns casos, os animais uivam) para externar tristeza, fome, dor ou algum tipo de incômodo. Muitos acessórios vendidos em pet shops não são nada confortáveis para eles, pro exemplo.

Em muitas situações, os animais se mostram apáticos, recusando brincadeiras e petiscos. Eles podem estar apenas sinalizando que não gostaram de ficar sozinhos no apartamento, mas, em geral, este é um sintoma de problemas mais sérios.

Seja como for, é necessário conhecer as características da raça e, com o tempo, também a personalidade do cachorro. Muitas raças foram desenvolvidas em climas frios – por isto, em dias quentes, é possível encontrar o animal deitado diretamente sobre o piso frio. Outras raças são mais dengosas, o que não significa que eles não estejam prontos para qualquer atividade divertida em questão de segundos.


Antes de adotar um cachorro, é necessário avaliar sobre a real disponibilidade de horários para passar um período em companhia do novo membro da família. Quem passa o dia fora de casa e, ao chegar, precisa enfrentar a dupla jornada de trabalho (faxina, cozinha, etc.) deve considerar a aquisição de um animal de estimação mais independente.

O problema, em relação à solidão, não é apenas do cachorro. Ele pode desenvolver atitudes destrutivas, como morder tapetes e almofadas, tornar-se agressivo e antissocial com humanos e outros cães e, em alguns casos, desenvolver um quadro de depressão.

Com a caderneta de vacinação em dia e uma avaliação veterinária regular, os cães choram apenas porque não possuem muitas formas de expressão. Da mesma forma que os bebês pequenos, eles choram para chamar atenção ou demonstrar desagrado.

Alguns cães entediados emitem ruídos pelo focinho semelhantes a suspiros. Outra característica representativa do tédio e ficar dando voltas em círculos.


Em alguns momentos, eles querem apenas companhia: muitos animais choram quando fazem festa para a família ou quando querem brincar. A simples aproximação dos donos (algumas raças se apegam a apenas um membro da família) é suficiente para dar início a uma “sinfonia” de latidos, uivos e choramingos.

Certos cachorros apenas emitem sons e enfiam o focinho no chão – nestas ocasiões, eles se parecem com crianças emburradas, que não querem participar da brincadeira por estarem insatisfeitas.

O remédio para corrigir a situação é simples, “não requer prática, nem tampouco habilidade”: brinque e passeie regularmente com o seu cachorro. Afinal, o principal motivo para adotar um animal de estimação é conquistar mais um companheiro para a vida.

Em alguns casos, nós tentamos brincar com o cachorro, mas ele presta atenção às atividades propostas. Se ele continuar chorando e exibindo comportamentos anormais, ofereça inicialmente água limpa (que deve estar disponível 24 horas por dia).

Se ele se recusar, ofereça ração; se ele virar o focinho, pode ser sinal de uma indisposição estomacal. Providencie um punhado de grama – é o suficiente para que ele consiga vomitar e retomar a disposição.


Caso o problema persista, é preciso levá-lo ao veterinário. Problemas de saúde também podem estar sendo sinalizados pelo choro. Uma infecção urinária, por exemplo, causa desconforto no momento da micção; logo em seguida surge o pranto, que pode continuar enquanto o cachorro lambe os genitais.

É preciso ficar atento ao comportamento geral do cachorro. Um animal doente apresenta outros sintomas, tais como letargia, alterações de apetite, otite (ela vem acompanhar por muitos balanços de cabeça), desinteresse por atividades até pouco tempo bastante atrativas, alterações nas fezes, vômitos frequentes e fraqueza acendem o sinal de alerta: cuide bem da saúde do seu animal e terá um amigo fiel por muitos anos.