A formação (e/ou produção) do analista e seus inúmeros obstáculos.

Pela produção do nome – próprio.

Clarissa Lago MoebiusPrezados colegas; com uma certa dificuldade, predisponho a escrever, objetivando escutar vocês após esta leitura e, com meus pares, poder pensar algo proveitoso para terminar o texto a ser apresentado no Fórum Institucional, terça-feira, 02 de junho deste ano.

Não sei se vocês observaram o movimento de quando entrei no Espaço Moebius como Membro Inscrito, em 2008, aos dias atuais. Evitando apresentações públicas; ano passado os únicos trabalhados apresentados foram: “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 minutos: 45 + 45 = 90. Entre a Clínica do ato ao ato” que por uma não uma coincidência¹, sou psicanalista e falo sempre deste lugar, o trabalho foi apresentado em uma Jornadinha e acredito que vocês possam imaginar o porquê.

No dispositivo das nossas Jornadinhas temos para além da possibilidade de apresentar trabalhos inacabados, elas acontecem aos sábados pela manhã, sendo assim, é de se pensar: “faz-se necessário muita transferência de trabalho para estarmos aqui! Salvador – Bahia – Brasil – “solzão”, verão o ano inteiro, mas, como somos operários assíduos e decididos em prol de uma causa psicanalítica – estamos presentes!

Além da Jornadinha, como de costume, apresentei o trabalho na Jornada de Final do ano, cujo tema em 2014 foi “O tempo”; meu texto – trabalho: “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, não apenas versava sobre uma análise fílmica do documentário de Marcelo Massagão, bem como tecia articulações entre as pulsões de vida, pulsões de morte e considerações da prática clínica. Uma jornada de fim ano, possibilita ao analista refletir um ano de trabalho clínico e institucional.

Penso, ser dever do analista, praticante da psicanálise, para além das quatro paredes do consultório, ser responsável por um trabalho de transmissão e de forma constante dar depoimentos da sua prática; pensando neste sentindo, defendo: Um dos lugares onde o analista deve estar são nas instituições psicanalíticas, não apenas nas Universidades.

Então, o que pensar, de 2008 aos dias atuais? Por que uma inibição, sintoma e angustia se fez presente?

Claro, vocês como psicanalistas e eu também, estou a me perguntar: Por que será que isto esta acontecendo? Também sabemos que na psicanálise questões simples, não são tão simples assim.

Antes, de explicitar o sintoma da psicanalista que escreve; torna-se válido pontuar: Um analista se faz presente institucionalmente. Uma instituição psicanalítica qualquer que seja comporta os restos de um final de análise. Assim sendo, “desses” restos uma instituição não escapa, produzindo (ou reproduzindo) sintomas.

Leticia Patriota da Fonseca Moebius

Como a psicanálise é uma prática cruel e sempre volta as questões para o sujeito que fala ou escreve; pensar alguns aspectos; deixando os sintomas institucionais para posteriores escritas. Hoje nosso dispositivo são apenas dez minutos para apresentação, mas saliento: Motiva-me avançar nesses estudos, bem como pensar e reescrever novas formas de saber.

No que tange ao meu lado, posso pensar; aos poucos estou saindo da condição da “jovem psicanalista”, no que se refere ao tempo cronológico, já discutimos em fóruns anteriores que cabe ao analista um tempo alógico e atemporal. Este lugar cronológico de uma certa juventude ocupo na instituição, ainda não sei bem o que acontece aqui, ou na psicanálise, mas estou sempre a me perguntar: Por onde anda os psicanalistas nascidos na década de oitenta?

Claro, que após 2008, entraram outros membros inscritos, entretanto, todos cronologicamente com mais tempo de vida, isso não significa, mais tempo de vida = mais tempo de clínica = praticante da psicanálise. Estas coisas são distintas.

logo espaço moebiusEm 2008, quando tornei-me membro inscrito² por uma transferência de trabalho. Era chamada por alguns colegas: “uma psicanalista jovem”! E como todo jovem é destemido, sem muita preocupação em cair no ridículo, logo, qualquer Fórum ou Seminários que me convocassem para falar na instituição, ia sem “muitas restrições” Hoje em dia? Não mais.

Faço minhas as palavras de Olivetto (2014) quando este nos diz a seguinte questão: “o bom de ser precoce e começar a trabalhar cedo, é que na fase em que você cai no ridículo, é possível e até apreciável que se caia no ridículo. Depois de um certo tempo seu senso crítico fica cada vez mais apurado e você acaba por ser tornar mais rígido consigo mesmo.”

Essa frase de Olivetto (2014) tem total sentido na Universidade, mas, em uma instituição psicanalítica? O que se pensar? Uma vez que a psicanálise emerge no ridículo da cena, de um ato, de uma palavra, de um gesto….a psicanálise emerge no ridículo. Na merda ….e quem de nós nunca escutou em nossos consultórios analisantes nos dizerem: “cheirei a merda” …”fui tirar a prova dos 9 e cheirei o ralo”….”caí na merda”…”deu merda”…dentre tanto outros exemplos que aparentemente são significantes qualquer mas para o sujeito que fala, emerge várias outras coisas.

Esta semana aqui no Moebius, tivemos a possibilidade de assistir um documentário, onde 10 anos da Flip era revisitado e autores em suas formas singulares expressavam como a produção da sua escrita acontecia.

Particularidades dos escritores à parte, há algo em comum que promove um elo de identificação com eles. Um escritor, pode nunca ter sido, nem nunca vir a ser um psicanalista, entretanto não raro, um psicanalista acaba por se tornar um escritor, até porque em um percurso de análise na passagem do analisante para o analista, foi capaz de reescrever a sua própria h(y)stória. Escrever, psicanalisar, são ofícios!

Como Hugo Fernandes, um dos escritores em seus depoimentos, detesta trabalhar – faço minhas as palavras dele! E o acrescendo no que se refere ao significante trabalho.

O que no século XX era trabalho, ao fazer uma releitura de ARENDT (2003), quando a autora distingue labor e trabalho, penso que hoje no século XXI talvez não tenhamos mais essa distinção – tudo acaba por virar ao mesmo tempo trabalho e labor, pois se

Laborar significa ser escravizado pela necessidade, escravidão esta inerente às condições de vida humana. Pelo fato de serem sujeitos às necessidades da vida, os homens só podiam conquistar a liberdade subjugando outros que eles, à força, submetiam à necessidade. A degradação do escravo era um rude golpe do destino, um fado pior que a morte, por implicar a transformação do homem em algo semelhante a um animal doméstico (p. 94)

Arendt (2003) ainda distinguia trabalho e labor. Nos dias atuais, devemos ir para além dessa filósofa e acredito, quando escrevemos, pensamos, falamos e praticamos a psicanálise, estamos nos referindo ao ofício – jamais com a visão romântica ou qualquer coisa parecida a sacerdócio, mas sim, em ter um ofício a cumprir, significando um dever a realizar onde devemos sempre insistir e persistir.

Insistimos e persistimos em nosso ofício diário como analistas. E estas questões se fazem presente em diversos aspectos:

1) No primeiro momento – nos longos e árduos período de análise que em quatro paredes de um consultório – “aprendemos” psicanálise com um outro analista que irá lhe formar e/ou produzir psicanalista. Ao meu ver, nunca consegui aceitar uma aprendizagem psicanalítica que aconteça apenas por formação teórica.

2) Depois, passado um horror de uma análise concordo com as palavras de Veigh (1990) – “o final de uma análise não é o sujeito realizado, mas o sujeito advertido daquilo que o impede sua realização” (p.45). Passamos a ter um convívio melhor com o nosso inconsciente, estamos mais advertidos, possamos a conhecer caminhos evitando feridas. Já a ideia do inconsciente alegre? Isso ainda questiono e tenho dúvidas.

Guaciara Coelho Moebius3) Enfim, após esses tópicos anteriores, a pergunta que não quer calar é: Somos psicanalistas???? Calma…muita calma nessa hora. Os analisantes chegarão ao nossos consultório por diversas vias, mas com eles, um detalhe importante. Penso que quem irá promover essa passagem de paciente para analisante é o psicanalista. E nesse aspecto sou obrigada a concordar com Lacan (1998[1958]) quando afirmou: “A clínica é a clínica do analista” e no seminário 8 A transferência, na aula de novembro de 1960, Lacan não só deixa claro que a resistência está do lado do analista bem como é o desejo do analista que sustenta a sua própria clínica.

4) Ser psicanalista teórico, não basta, é dever do psicanalista ser o praticante da psicanálise. A psicanálise acontece em uma prática clínica. Insisto nisso, pois os pares institucionais podem até validar seu trabalho, porém, são com os analisantes que a prática clínica acontece e na verdade são eles que lhe reconhecem como psicanalista.

Assuntos estes que aprofundarei no Fórum Institucional na terça feira, 02 de junho de 2015, cujo título do trabalho é: A metáfora do amor ou o Amor da Metáfora?

Concordo com Menezes (1998) quando disse que o rigor da psicanálise requer uma formulação exigente, precisa e insistente, para melhor dizer e cernir a ambiguidade e a imprecisão inerente à condições da prática clínica, e não para ampliá-las , num discurso típico técnico – científico, necessariamente redutor.

A técnica psicanalítica é algo que se aprende e apreende, não havendo como escapar disso um exercício solitário. Cabendo ao analista, ser um operário insistente, assíduo e decidido.

Penso que: aonde houver um analista disposto a escutar e um analisante disposto a falar – nessa díade analista – analisante; analisante – analista, uma análise pode e deve acontecer. Tendo como o dever do analista um manejo cuidadoso e delicado na transferência com determinado analisante que sempre é da ordem do o singular. Para cada analisante – um analista!

E cabe ao analista – ao longo do seu percurso clínico, se autorizar, responsabilizar – se como opera, com quem opera, para quem opera, tendo o dever de escrever e inscrever o seu próprio nome como analista, bem como ser responsável pela produção de novos analistas.

Até o momento a única pontuação que posso assegurar é: quem lhe reconhece como analista e quem irá lhe encaminhar mais analisantes – são os analisantes com quais se opera e desenvolve um bom trabalho. Ainda que a psicanálise, conduza ao mal, ao terror, ao pior….mesmo no pior, é possível sim extrair o melhor!

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Texto apresentado na Jornada de Outono do Espaço Moebius Psicanálise – Salvador/BA, em 30 de maio de 2015.
Autora: Clarissa Lago - Psicanalista Membro do Espaço Moebius Psicanálise. 
Fotos: Helenita Yolanda Monte de Hollanda. Médica, Escritora, Participante do Espaço Moebius Psicanálise.

¹ Para a psicanálise não acreditamos no “acaso”, muito menos em coincidências. 
² Torna-se válido pontuar que há diferença em ser participante e membro inscrito de uma instituição. O participante não tem devidas obrigações. Algumas instituições psicanalíticas inclusive chamam os participantes de “alunos”. O Membro Inscrito precisa ter uma série de requisitos para entrar em Instituição Psicanalítica (ao menos na minha). No ano em que entrei em 2008, regia o estatuto daquela época que para ser membro inscrito do Espaço Moebius Psicanálise, teria que ter freqüentado por no mínimo dois anos a instituição como participante, ter apresentado trabalhos em Fóruns e Jornadas da Instituição bem como pagar o dízimo regularmente. Além desses requisitos só poderia passar da categoria participante para Membro Inscrito, desde que um psicanalista membro inscrito lhe convidasse para fazer parte daquela comunidade. Seria então a esse psicanalista, que a sua carta de intenção deveria ser dirigida, apresentada em assembleia para os demais psicanalistas institucionalizados decidir (ou não) sua permissão como Membro Inscrito.  – Este tema também motiva-me posteriores escritas! 

Referências:

ARENDT, Hannah. “O Labor nosso corpo e o trabalho de nossas mãos” In: ARENDT, Hannah. A condição Humana. 10 ed. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. (p.90 – 104) 

FLIP 10 ANOS - UMA PALAVRA DEPOIS DA OUTRA: A ARTE DA ESCRITA. Direção: Gustavo Rosa Moura. Produção: Vitrine Filmes. Idioma: Português pais de produção: BRASIL Legenda: Português formato da tela: Widescreen 16X9áudio original: DOLBY DIGITAL 2.0 tempo de duração: 167 MINUTOS

LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios do seu poder. In: Lacan, Jacques. Escritos. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998. (p.591-642).

LACAN, Jacques. O seminário livro 8 – A  transferência. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. 

Olivetto,Washington. Documentário entrevista aberta em 2014. In: http://jornalirismo.com.br/videos/documentario-entrevista-aberta-com-washington-olivetto/ acessado em 27 de maio de 2015.

MENEZES, Luiz Carlos. Prefácio. In: FÉDIDA, Peirre: A Clínica Psicanalítica: estudos. – São Paulo: Editora Escuta, 1998. (p.9-19) 

Vegh, Isidoro. A lógica do ato na experiência da análise. In: Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre/Associação. Psicanalítica de Porto Alegre. - Vol. 1, n. 1 (1990). - Porto Alegre: APPOA, 1990. (p.20-29)

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