DEFENDA O PROFESSOR NA FRENTE DO SEU FILHO E NÃO PRECISARÁ DEFENDER SEU FILHO NA FRENTE DO DELEGADO

Não obstante um sem-número de publicações que se prestem a orientar pais e educadores, no sentido de basicamente lhes permitir uma imposição de limites eficientes aos filhos/educandos, a realidade parece ainda tomar o sentido oposto.

Tendo como base o tipo de relação comumente estabelecido hoje entre os pais e as escolas, seja na rede pública ou particular, evidenciam-se, na maior parte das vezes, dissonâncias entre família e instituição, extremamente lesivas à formação do aluno.

Exceções à parte, a maioria dos pais comporta-se de maneira defensiva ao tratar de assuntos relacionados ao comportamento dos filhos, como se estivesse de antemão sendo acusada de negligência, ausência ou mesmo impotência nos cuidados com a educação filial.

Esse protecionismo inclusive se manifesta na presença dos filhos, o que de imediato já desautoriza a figura docente ao estudante, minando possibilidades de se construir um relacionamento de confiança e respeito entre professor e aluno, bem como entre pais e escola.

Nesses momentos, muitos desses pais desfiam um corolário de clichês desprovidos de fundamentos coerentes, tais como: “Em casa, ele não é assim”; “Ele diz que fulano o atrapalha; muda meu filho de lugar.”; “Ele reclama que tal professor implica com ele.” etc. Nem ao menos percebem o simples fato de que o professor é responsável pelos seus filhos por algumas horas semanais.

Verdade seja dita: a grande maioria dos professores seria incapaz de perseguir seus alunos; muito pelo contrário, hoje os docentes são menos perseguidores do que perseguidos – fato que as notícias que abundam na imprensa o comprovam.

Há muito vem se instalando, nas instituições escolares, gerações de educadores formados a partir de concepções pedagógicas renovadas e dissonantes, em sua totalidade, com práticas lesivas e/ou baseadas em meros juízos de valor.

Além do mais, normas, dispositivos e regulamentações legais – educacionais ou não – seguramente respaldam a manutenção da integridade física e moral dos menores em nossa sociedade.

Nesse sentido, vale uma referência ao desenho “Procurando Nemo”, da Disney, principalmente em razão das ações do pai do peixinho que dá nome à animação. Emblemático desse comportamento é o momento em que, estando no interior de uma baleia com uma companheira, esse pai dirige-se à colega, trocando-lhe o nome com o do filho: “Você não vai conseguir, Nemo!”.

Esse ato falho acaba por revelar o aspecto mais lesivo desse tipo de atitude no contexto educacional familiar e que consiste em seu caráter superprotetor. Ao tentar poupar os filhos do confronto direto com os atos praticados e suas conseqüências, os pais impedem-lhes a construção de uma identidade autônoma que deveria norteá-los seguramente frente às complicações inerentes ao seu processo de amadurecimento.

O mundo nos impõe sucessivas situações-problemas, cujas resoluções dependem de nosso equilíbrio na busca por soluções adequadas. Ora, se nos foi negado, desde sempre, o exercício de optar entre uma ou outra saída, por nossa própria conta e risco, como poderemos ultrapassar barreiras que se acumularão ao longo de nossas vidas?

É com o se pedíssemos a um aluno acostumado a sempre “colar” que resolvesse uma prova sem o gabarito. Nunca tendo errado e, portanto, refletido e reconstruído ideias próprias, evidentemente não teria repertório nem experiências constitutivas de mínima estrutura para enfrentar o novo – como o que vem ocorrendo entre as novas gerações.

Da mesma forma, ressalta-se que essa superproteção fatalmente se desdobra na tendência a anular-se a identidade dos filhos – aspecto contundente no enredo de “Procurando Nemo”.

Em decorrência desse policiamento ostensivo sobre a vida dos filhos, pais e mães impõem seus pontos de vista através de afirmações de caráter perene e indelével: “Você é vagabundo.”; “Você nunca vai gostar de estudar.”; “Você é teimoso.” etc.

Sendo assim, os filhos acabam crendo que são assim mesmo e para sempre o serão; ou seja, acomodam-se às imagens que os pais compulsoriamente lhes determinam, isentando-se de perspectivas de mudanças positivas em suas vidas, consequentemente se tornando passivos diante do mundo circundante.

Relevante e imprescindível, visando-se à neutralização dessa sistemática nociva, torna-se a cumplicidade dos pais ao impor limites, o que implica, sobretudo, unidade no discurso de ambos. Aos filhos devem ser claras as regras de convivência, sustentadas pelas posturas uníssonas de seus pais – mesmo que não estes morem mais juntos.

Isso contribui inegavelmente à formação, nos jovens, de uma personalidade firmada sobre sólidos princípios, que os tornarão menos suscetíveis a seguirem rumos indesejáveis em suas tomadas de decisão vida afora.

SÍNDROME DE AFRODITE: CONHEÇA AS CONQUISTADORAS COMPULSIVAS

Antes de negociar a compra de seu carro, a advogada paulista Maitê Rios, 30 anos, gastou um bom tempo em frente ao espelho. Escolheu um vestido provocante, um salto alto e caprichou na maquiagem.

Toda essa produção ajudaria no flerte com o vendedor para conseguir um desconto generoso. “Deu super certo! Ele abriu mão de parte de sua comissão e me deu um abatimento de quase R$ 10 mil”, conta Maitê.

“Foi simples: joguei um charminho, falei meio sussurrado, fiz a linha ‘donzela desamparada’… Infalível!”, diverte-se a advogada, sacudindo a cabeleira ruiva que encantou o rapaz da concessionária.

No dia a dia, ela costuma recorrer ao mesmo tipo de estratégia: seja para que o fiscal do aeroporto faça vista grossa ao seu excesso de bagagem, seja apenas para rea­firmar a autoestima. Ganhando um drinque do barman gato no balcão, por exemplo. Maitê não esconde: é viciada em seduzir.

“Gosto de conquistar os homens. Quero que pensem que passar um tempo comigo será a coisa mais incrível que já lhes aconteceu”, diz. “Às vezes nem percebo que faço isso. Outro dia, estava apenas conversando com um cara na balada e pensaram que eu estava paquerando. É porque jogo o cabelo demais, olho nos olhos, fico tocando no braço…”

Você certamente conhece uma mulher como Maitê, que entra em estado de alerta quando uma presença masculina se aproxima. Ou talvez até seja uma delas. Segundo o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, para as mulheres com a “síndrome de Afrodite” (a deusa grega do amor, da beleza e da sexualidade), o jogo da conquista se impõe ao resultado.

“Para as sedutoras costumazes, sentir­‑se desejada é o ganho e elas se contentam com isso”, explica. “Muitas vezes, se vão até o fim para concretizar a atração que despertam, seu prazer desaparece. O que querem é retornar ao momento inaugural e único em que o desejo começa.” Por isso é comum iniciarem flertes, com um colega do escritório ou com o caixa do supermercado, e não levarem nada adiante.

Dunker diz que a conduta das “afrodites” lhes traz problemas. Em especial, com amigas, primas, colegas de trabalho e outras figuras femininas com quem convivem. “Para as sedutoras, as outras mulheres estão sempre competindo com elas. Então, precisam garantir ‘seu lugar’ antes que a ‘rival’ o tome.” No caso, o “lugar” é a atenção dos homens.

O psicólogo Thiago de Almeida, autor do livro Enigmas do Amor, vai além: diz que a sedução, em muitos casos, é o único recurso que essas garotas têm para se relacionar. “Essa atitude pode vir de uma necessidade inconsciente de estabelecer laços, de ser notada ou cuidada.”

Almeida afirma ainda que esse comportamento também se dá entre os homens. “Mas eles têm apoio social para agirem assim, sendo galinhas ou machistas.”

A empresária paulista Thaís Ribas, 35, conta que sempre chamou muito a atenção masculina. Não necessariamente pela beleza, mas por causa de seu “jeitinho”. “É espontâneo: mexo no cabelo o tempo todo, tenho um bocão e estou sempre sorrindo ou fazendo bico enquanto falo”, diz ela, que no antigo emprego era conhecida como “a Julia Roberts da seguradora”.

Thaís cita um episódio recente para mostrar como o ritual da conquista a diverte. “Estava em um café com uma amiga e um rapaz pediu que eu passasse o açúcar ao meu lado no balcão. Engatei o maior papo com ele, foi uma paquerinha mesmo”, conta. “Não estava nem um pouco a fim, mas me diverti com o fato de ele pensar que eu estava dando mole.”

Mesmo sendo casada há dez anos e mãe de duas meninas, Thaís “brinca de seduzir”. “Quando era solteira, ficava com medo de cair na boca do povo e ser chamada de galinha. Hoje, como sou comprometida, posso flertar à vontade que os outros sabem que é brincadeira”, afirma. “Meu marido não sente ciú­mes. Já me viu jogando charme para o manobrista e deu risada.”

A publicitária paulista Vanessa Aud, 26, uma mestiça de corpo escultural, estilo Sabrina Sato, é outra que sabe de seu magnetismo com os homens. Conta que sempre viveu cercada de amigos e que, muitas vezes, seduz sem se dar conta. Ela exemplifica com um episódio envolvendo o amigo de um ex-namorado.

“Logo depois do rompimento, encontrei esse rapaz. Conversamos e o convidei para treinar comigo na academia. Ele foi e começou a dar em cima de mim, de um jeito insistente.” Ao dispensar o rapaz, Vanessa se surpreendeu. “Ele me disse: ‘Você sempre me azarou, mesmo enquanto namorava. Por que está fazendo isso agora?’.”

Ao pensar a respeito, a publicitária percebeu que, em algumas ocasiões, não fez lá muita questão de deixar claro se estava ou não paquerando. “Não vejo mal nenhum em olhar, sorrir e bater papo de um jeito sedutor. E não acho que deva mudar”, conta. No entanto, Vanessa, que está namorando há quatro meses, decidiu reavaliar a conduta.

“Meu namorado é um doce, nada ciumento. Mesmo assim, se estou num bar e por acaso meu olhar cruza com o de um cara, desvio na hora. Antes, meu primeiro impulso seria sorrir de volta.” A publicitária lamenta o preconceito que as “afrodites” sofrem. “Quando um homem vê várias garotas bonitas em uma festa, é esperado que ele dê em cima de todas. Por que nós somos condenadas e sofremos críticas até das outras?” Puro machismo.

O EQUILÍBRIO E O RESPEITO SÃO OS CAMINHOS PARA A MUDANÇA E BOAS ESCOLHAS

Para estar em equilíbrio consigo mesmo é preciso enfrentar as oscilações existentes dentro de nós.

Essas oscilações emocionais surgem a partir do momento em que queremos controlar tudo: pensamentos, sentimentos, pessoas, situações. Quando não conseguimos controlar nosso interior, permitimos que o exterior comande e com isso o domínio sobre nossas vontades passa a ser realizado por terceiros mediante nosso consentimento.

As palavras de Paulo de Tarso “todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convêm” (I Coríntios, 6:12), nos mostram que acordar com todas as propostas mesmo quando não queremos e o fazemos apenas para evitar conflitos com o outro significa passar por cima de si mesmo, subestimando-se para ter sua aprovação.

Para sair desta situação é preciso enxergar as próprias qualidades e deixar de lado comparações que nós mesmos fazemos, muitas vezes inconscientemente. Somos quem devemos ser, nem melhores ou piores que os outros.

Aceitar a si mesmo já é o início da jornada que levará à mudança de postura frente ao outro, mas, principalmente, frente a si mesmo. Mude o olhar em relação a si mesmo! Compartilhe suas qualidades com as pessoas que estão a sua volta, aprecie as belezas que te rodeiam.

Entender que a vida é dinâmica e que não precisamos estagnar em comportamentos habituais auxilia na compreensão de quem somos, o que realmente nos faz bem e o porquê.

Sentir-se pleno é de grande valia para saber se algo nos faz bem ou não. Sinta a liberdade de suas escolhas e faça de acordo com aquilo que lhe convêm. Afinal de contas, ninguém melhor do que você mesmo sabe o que é melhor para si.

Portanto, mudanças são bem-vindas desde que respeitem a si mesmo e nos levem pelo caminho da ética, o que significa manter claro os propósitos de nossa existência, sem lamentações, críticas, maledicências ou conflitos desnecessários. Além de manter o entusiasmo como motor de tudo o que fazemos, pensamos e dizemos.

Quanto ao medo que as mudanças podem causar, é preciso encará-los e não os tornar maiores que nossa vontade em mudar, para seguir o caminho escolhido pelo nosso livre arbítrio sem arrependimentos.

VARRENDO A SUJEIRA PARA DEBAIXO DO TAPETE

Ninguém quer estar perto de suas próprias dores e culpas, e assim nós as tiramos de dentro de nós e as colocamos em outra pessoa e depois banimos essa pessoa de nossa vida. E nos separamos dela. Pode ser separação física ou psicológica apenas.

E como isso funciona?

Acontece quando alguma pessoa (qualquer uma) nos diz algo que nos incomoda muito e ficamos com raiva dela e a atacamos!

Você não tem que concordar com o que os outros dizem ou fazem, mas no minuto em que experimenta uma reação pessoal de raiva, julgamento ou crítica, é o momento de se ligar. Geralmente isso acontece porque você viu naquela pessoa alguma coisa que negou em si mesmo.

Noutras palavras, você projeta a própria insegurança, medos ou culpa, naquele ser que te deixou desconfortável e então o ataca.

Mas veja que você não está atacando a sua insegurança, o seu medo e a sua culpa dentro de você, e sim no ser em que você os projetou. E na medida em que ataca o outro você faz com que ele se afaste.

No fundo a sua intenção (na maioria das vezes inconsciente) é a de conseguir que o seu desconforto fique tão longe de si mesmo quanto for possível.

Ou seja, você usa um processo simplificado que todos fazem: tira a sua própria sujeira de dentro de você (negação), coloca do lado de fora em outra pessoa (projeção), e depois se separa daquela pessoa falando mal dela, julgando-a e criticando-a. Pronto! Daí o problema não é mais seu! Não é você quem tem que mudar! É “aquela” pessoa!

Entendeu o mecanismo do EGO? Ele está a serviço da sua mente inconsciente, para você não se ver, não admitir seu lado mais feio e não sentir dor, ou..achar que não sente…

Isso é o mesmo que varrer a sujeira para debaixo do tapete!! E a sujeira vai continuar lá até que você resolva encarar e faxinar.

VOCÊ OUVE VOZES? ESTUDO DETALHA O DRAMA DAS ALUCINAÇÕES AUDITIVAS

Você ouve vozes? Como elas são? Será que está ficando “louco”? Confira um dos maiores e mais detalhados estudos já realizados sobre essas experiências, conhecidas como alucinações auditivas.

Vozes “na cabeça” das pessoas são muito mais variadas e complexas do que se pensa, de acordo com pesquisa realizada pelas universidades de Durham e Stanford, publicada recentemente no The Lancet Psiquiatria.

Descobriu-se que a maioria dos ouvintes relatam múltiplas experiências com inúmeros tipos vozes. Muitos chegam a sofrer efeitos físicos em seus organismos. O estudo também confirmou que tanto pessoas com e sem diagnósticos psiquiátricos relatam experiências do tipo.

Os resultados questionam algumas das suposições atuais sobre a natureza das alucinações e sugerem que há uma variação maior na forma como são experimentadas do que até então se acreditava.

Os investigadores dizem que esta variação remete possivelmente à necessidade de diferentes tipos de terapias, como a terapia comportamental cognitiva (TCC) adaptada voltada para sub-tipos distintos de voz ou padrões de audição.

Atuais abordagens incluem medicação, TCC, técnicas de diálogo de voz e outras formas de terapia e auto-ajuda.

Alucinações auditivas além da esquizofrenia

Alucinações auditivas são uma característica comum de muitos transtornos psiquiátricos, como psicose, esquizofrenia e transtorno bipolar. Mas, como vimos, também são experimentadas por pessoas sem condições psiquiátricas. Estima-se que entre 5 e 15% dos adultos experimentarão alucinações auditivas alguma vez na vida.

Este é um dos primeiros estudos a lançar luz sobre a natureza desse tipo de alucinação dentro e fora do contexto da esquizofrenia, incluindo também muitos outros diagnósticos de saúde mental.

A pesquisadora chefe, Angela Mata, do Centro de Humanidades Médicas da Universidade de Durham, enfatiza: “Nossos resultados têm o potencial de derrubar pressupostos psiquiátricos tradicionais sobre a natureza de ouvir vozes. É crucial para estudar a saúde mental e as experiências humanas, tais como a audição de vozes, utilizar perspectivas diferentes para definir verdadeiramente o que as pessoas estão enfrentando, e não apenas o que pensamos sobre isso (…) Elas têm um diagnóstico particular. Esperamos que tal abordagem possa estimular o desenvolvimento de intervenções clínicas futuras.”

A pesquisa e os resultados

Os pesquisadores colheram respostas por meio de um questionário online focado na descrição das experiências de 153 correspondentes. A maioria dos entrevistados tinham sido diagnosticados com uma condição psiquiátrica, mas 26 não apresentavam histórico de doença mental. Os participantes eram livres para responder com suas próprias palavras.

A grande maioria dos entrevistados assumiram ouvir várias vozes (81%) com grande espectro de qualidades (70%).

Menos da metade dos participantes relataram ter ouvido vozes puramente auditivas (45%). Descreveram também experiências parecidas com pensamentos e experiências mistas, misturando vozes com pensamentos vívidos associados a determinadas qualidades acústicas.

Esta descoberta desafia a ideia de que ouvir vozes é sempre um fenômeno perceptual ou acústico, e pode ter implicações para futuros estudos neurocientíficos sobre o que acontece no cérebro quando as pessoas ouvem vozes.

Outro dado interessante: 66% das pessoas descreveram sensações corporais associadas, como a sensação de calor ou formigamento nas mãos e pés. Vozes com efeitos sobre o corpo eram mais propensas a serem abusivas ou violentas e, em alguns casos, estarem ligadas a experiências traumáticas.

Enquanto o medo, a ansiedade, a depressão e o estresse foram frequentemente associados às vozes, 31% dos participantes disseram que também sentiram emoções positivas.

O Dr. Nev Jones, da Universidade de Stanford e co-autor da pesquisa, disse: “Nossos resultados quanto à prevalência e a fenomenologia de vozes não-acústicas são particularmente notáveis.

Em geral, essas vozes não significavam simplesmente pensamentos invasivos ou indesejados, mas representavam, assim como as vozes “reais”, “entidades” distintas com suas próprias personalidades e conteúdo. Estes dados também sugerem que precisamos distinguir cautelosamente as percepções imaginárias, como os sons referidos, das percepções ditas reais”.

Rachel Waddingham é um instrutor e consultor independente, além de administrador da Rede Nacional de Audiência de Vozes e da Sociedade Internacional de Psicologia e Abordagens Sociais das Psicoses. Rachel ouve vozes, refere visões e tem enfrentado de uma maneira exemplar essas crenças. Confira suas palavras:

“Embora em nossa sociedade as pessoas que ouvem vozes são muitas vezes vistas como “loucas”, eu acredito que as coisas estão mudando. Muitas pessoas estão interessadas em ouvir a voz.

Muitas pessoas têm me contado sobre as experiências que tiveram – quer na sua infância, ou como um adulto. E, falando sobre elas, estão começando a desestigmatizar a experiência, abrindo a porta para que outros possam falar abertamente também.”

“Enquanto acreditamos que as vozes sejam sinais de patologia e doença, não faz realmente muito sentido explorar as experiência vividas por uma pessoa. Em vez disso, tenta-se suprimir ou eliminar as vozes, tanto quanto possível. Ouvi-la parece loucura!”

E finaliza: “Cada um de nós é diferente, e ser curioso sobre minhas experiências foi um dos primeiros passos para lidar com elas. Eu gostaria de viver em um mundo onde estivéssemos realmente curiosos sobre as experiências uns dos outros e procurássemos entender ao invés de patologizar. Todos temos uma história e o mundo seria muito mais amável se começássemos a ouvi-las.”

PORQUE VOCÊ VAI SE CASAR COM A PESSOA ERRADA

É uma das coi­sas que mais teme­mos acon­te­cer com a gente. Nós ten­ta­mos a todo custo evi­tar um acon­te­ci­mento des­ses. Ainda assim, isso vai ocor­rer de qual­quer forma: nós vamos nos casar com a pes­soa errada.

Tal­vez nós tenha­mos uma ten­dên­cia latente para ficar furi­o­sos quando alguém dis­corda de nós; tal­vez nós este­ja­mos tendo com­pli­ca­ções com a inti­mi­dade pós-sexo ou fica­mos quietos sem res­posta à humi­lha­ção — bom, nin­guém é per­feito. O pro­blema é que antes do casa­mento, nós rara­mente mer­gu­lha­mos em com­ple­xi­da­des.

Sem­pre quando rela­ci­o­na­men­tos casu­ais ame­a­çam reve­lar seus defei­tos, nós cul­pa­mos nossos par­cei­ros e pedir­mos “des­canso” por um dia.

Quanto aos nos­sos ami­gos, eles não se impor­tam o sufi­ci­ente para sem­pre nos agra­dar todo o dia. Um dos pri­vi­lé­gios de ser­mos sol­tei­ros e des­co­nhe­ci­dos aos estra­nhos é a impres­são sin­cera de que somos real­mente muito fáceis de se con­vi­ver.

Mas nos­sos par­cei­ros estão aler­tas em rela­ção a isso. Natu­ral­mente, nós damos faca­das ten­tando com­pre­endê-los. Nós visi­ta­mos suas famí­lias. Olha­mos para as suas fotos, encontra­mos seus ami­gos da facul­dade. Tudo isso con­tri­bui para uma sen­sa­ção de que fizemos o nosso tra­ba­lho de casa. Mas nós não fize­mos.

O casa­mento acaba por ser um tipo espe­ran­çoso e gene­roso de aposta infi­nita, feita por duas pes­soas que ainda não sabem quem são, ou quem o outro pode­ria ser, obri­gando-se a terem um futuro que não con­se­guem con­ce­ber e evi­tando, cui­da­do­sa­mente, des­co­bri-lo.

Para a mai­o­ria da his­tó­ria regis­trada, as pes­soas se casa­ram durante muito tempo por poucos moti­vos lógi­cos: por­que esta­vam divi­dindo uma mora­dia, sua famí­lia tinha um negócio flo­res­cente, o pai dela(e) era o magis­trado na cidade, havia um cas­telo para man­ter-se, ou ambos os con­jun­tos de pais subs­cre­ve­ram a mesma inter­pre­ta­ção de um texto sagrado.

E a par­tir de tais casa­men­tos nada razoá­veis, fluiu soli­dão, infidelidade, abuso, infle­xi­bi­li­dade e gri­tos de dis­cus­sões atra­vés das por­tas do quarto. O casa­mento antigo não foi, em retrospec­tiva, razoá­vel em tudo; mui­tas vezes era rígido, arcaico, esnobe e explo­ra­dor. É por isso que o subs­ti­tuí­mos — pelo casa­mento de “sen­ti­mento”, que tem sido ampla­mente poupado da neces­si­dade de pres­tar con­tas por si.

O que importa no casa­mento de sen­ti­mento é que duas pes­soas são atraí­das uma à outra por um ins­tinto esma­ga­dor, e sabem em seus cora­ções o que é certo. Na ver­dade, o quanto mais impru­dente um casa­mento parece ser (tal­vez faça ape­nas seis meses desde que ambos se conhe­ce­ram, um deles não tem emprego ou ambos mal saí­ram de sua adolescência), mais seguro o casal pode se sen­tir.

A impru­dên­cia é tomada como um con­tra­peso para todos os erros lógi­cos, que cata­lisa a misé­ria. O pres­tí­gio de usar o ins­tinto no casa­mento moderno é a rea­ção trau­ma­ti­zada contra mui­tos sécu­los de razão rene­gada aos casa­men­tos.

Mas, ainda que nós acre­di­ta­mos que esta­mos bus­cando a feli­ci­dade no casa­mento, isso não é tão sim­ples assim. O que nós real­mente pro­cu­ra­mos é a fami­li­a­ri­dade — que pode muito bem com­pli­car.

Nós esta­mos bus­cando recriar, den­tro de nos­sos rela­ci­o­na­men­tos adul­tos, os sen­ti­men­tos que conhe­cía­mos tão bem na infân­cia. O amor que a mai­o­ria de nós pro­vou no iní­cio de nossas vidas era mui­tas vezes con­fun­dido com outros fato­res, mais des­tru­ti­vos: sentimentos de que­rer aju­dar a um adulto que estava fora de si, ser pri­vado da com­pa­nhia de um dos pais ou de não se sen­tir seguro o sufi­ci­ente para comu­ni­car os nos­sos dese­jos.

Com razão, aca­ba­mos como adul­tos por rejei­tar deter­mi­na­das pes­soas para o casa­mento, e não por­que elas estão erra­das, mas por­que elas são muito cer­tas — muito equi­li­bra­das, madu­ras, de boa com­pre­en­são e con­fi­ança — dado que, a nós mes­mos, certa exa­ti­dão parece estra­nha. Nós casa­mos com as pes­soas erra­das, por­que não asso­ci­a­mos ser amado a se sen­tir feliz.

Nós come­te­mos erros, tam­bém, por­que esta­mos tão soli­tá­rios. Nin­guém pode estar em um estado men­tal ideal para esco­lher um par­ceiro quando o fato de estar sol­teiro parece ser insu­por­tá­vel.

Temos de estar total­mente em paz com a pers­pec­tiva de mui­tos anos de soli­dão, a fim de ser devi­da­mente exi­gen­tes com nosso rela­ci­o­na­mento; caso con­trá­rio, cor­re­mos o risco de amar nosso par­ceiro pelo o que ele con­se­guiu nos evi­tar — nos pou­par de nosso des­tino soli­tá­rio — e não pelo que ele ver­da­dei­ra­mente nos pro­por­ci­ona.

Na ver­dade, o casa­mento tende deci­si­va­mente a nos mover para outro plano admi­nis­tra­tivo muito dife­rente, o que tal­vez seja uma casa no cen­tro da cidade, com uma longa via­gem e com cri­an­ças enlou­que­ce­do­ras que matam a pai­xão da qual emer­gi­ram. O único ingre­di­ente em comum é o par­ceiro. E que pode­ria ter sido o ingre­di­ente errado nessa rela­ção toda.

De fato, o casa­mento parece tra­zer uma sen­sa­ção agra­dá­vel per­ma­nen­te­mente. Nós imagina­mos que o casa­mento vai nos aju­dar a mate­ri­a­li­zar uma ale­gria que sen­ti­mos quando o assunto de se casar vem até nós: nos ima­gi­na­mos em Veneza, na lagoa, em um barco a motor, com o sol da tarde refle­tindo o bri­lho no mar, con­ver­sando sobre os aspec­tos de nos­sas almas que nin­guém nunca pare­cia ter enten­dido antes, com a pers­pec­tiva de jantar em um lugar exó­tico um pouco mais tarde.

Casa­mos para fazer tais sen­sa­ções perma­nen­tes, mas não con­se­gui­mos ver que não havia cone­xão sólida entre esses sentimen­tos e a ins­ti­tui­ção do casa­mento.

De qual­quer forma, não pode­mos aban­do­nar nosso par­ceiro. Mas pode­mos aban­do­nar a ideia român­tica ori­gi­nal sobre a qual a com­pre­en­são oci­den­tal do casa­mento foi base­ada nos últimos 250 anos: a de que um ser per­feito existe e ele pode satis­fa­zer todas as nos­sas neces­si­da­des e dese­jos.

A boa notí­cia é que não importa se achar­mos que casa­mos com a pes­soa errada.

Pre­ci­sa­mos aca­bar com a visão român­tica de casa­mento, assu­mindo a tra­gé­dia (e, em alguns pon­tos, de uma comé­dia) de que nós mes­mos sere­mos indu­zi­dos por nosso par­ceiro a enfren­tar raiva, irri­ta­ção e decep­ção — e nós (sem malí­cia) fare­mos o mesmo com ele.

Não pode haver um fim para o nosso sen­ti­mento de vazio, de incom­pleto. Mas nada disso é inco­mum, ou é um motivo para o divór­cio. Esco­lhendo com quem nos com­pro­me­te­mos, é mera­mente um caso de iden­ti­fi­ca­ção e esco­lha de qual vari­e­dade par­ti­cu­lar de sofri­mento que mais gos­ta­ría­mos de nos sacri­fi­car.

Essa filo­so­fia de pes­si­mismo ofe­rece uma solu­ção para um monte de angús­tia e agi­ta­ção em torno do casa­mento. Pode soar estra­nho, mas o pes­si­mismo ali­via a pres­são exces­siva que ima­gi­na­mos sobre a cul­tura român­tica do casa­mento. A falha de um deter­mi­nado par­ceiro para nos sal­var de nossa tris­teza e melan­co­lia não é um argu­mento con­tra essa pes­soa e não é nenhum sinal de que uma união é falha ou deve ser melho­rada.

A pes­soa que é a mais ade­quado para nós não é a pes­soa que com­par­ti­lha de todos os nossos gos­tos (ele ou ela não existe), mas a pes­soa que pode nego­ciar as dife­ren­ças de forma inte­li­gente — em outras pala­vras, a pes­soa que é boa em desa­cor­dar. Ao invés de uma ideia de per­feita com­ple­men­ta­ri­dade, é a capa­ci­dade de tole­rar dife­ren­ças com generosi­dade que é o ver­da­deiro aspecto mar­cante da pes­soa. A com­pa­ti­bi­li­dade é uma conquista do amor; não deve ser sua pré-con­di­ção.

O roman­tismo tem sido inú­til para nós; é uma filo­so­fia infle­xí­vel. Ele faz pare­cer que o que ire­mos pas­sar no casa­mento será excep­ci­o­nal. Vamos aca­bar soli­tá­rios con­ven­ci­dos de que a união, com suas imper­fei­ções, não é “nor­mal”. Con­tudo, deve­mos apren­der a nos aco­mo­dar à “injus­tiça”, sem­pre nos esfor­çando para ado­tar uma pers­pec­tiva mais tole­rante, bem-humo­rada e gen­til, em seus múl­ti­plos exem­plos de um rela­ci­o­na­mento.

VOCÊ FOI PARA A SEÇÃO DOS ESQUECIDOS

Não foi uma das tarefas mais fáceis da minha vida, admitir e acreditar que nosso relacionamento havia chegado ao seu desfecho. Eu, francamente, acreditava que subiria ao altar e quem estaria me esperando lá seria você.

Até pressentia que nossa história não estava na sua melhor época, mas não conseguia engolir que precisasse mesmo de um ponto final em vez de uma vírgula ou um novo parágrafo.

Ficava remoendo em minhas lembranças a última vez que te vi, nosso último beijo e a última vez que você disse me amar.

Foram tempos difíceis.

Eu passava a noite e a madrugada inteira ensopando meu travesseiro – mesmo sabendo que no dia seguinte meu despertador me acordaria cedo – tentando entender em qual momento durante o relacionamento foi escrito alguma linha torta o suficiente para apagar toda a nossa narrativa.

Eu simplesmente não aceitava o fim porque te amava, e sabia que conseguiria pular mais um muro pra poder deitar na tua cama ao anoitecer, pra poder ter o teu corpo entrelaçado ao meu nas noites de tormentas, pra poder ter você ao meu lado sem como e nem porquês.

Certo dia, não muito tempo depois, resolvi que era hora de lavar o rosto com água gelada, cortar o cabelo, fazer uma limpa no meu armário e pra minha maior surpresa: fazer uma limpa no meu coração e na minha memória. E foi aí que eu deixei você de lado.

Eu te coloquei dentro de um saquinho, amarrei bem forte e coloquei o saquinho em uma caixa de sapatos. Vedei a caixa de sapatos com fita preta, coloquei dentro de um bauzinho e lacrei com um cadeado – só pra ter certeza que você não tentaria fugir.

Guardei em cima do armário dos sentimentos, justamente pra pegar poeira e por ser o lugar onde eu morro de preguiça de subir por precisar correr atrás de alguma escada.

Costumo deixar as pessoas que me machucaram por lá.

Senti-me livre. Queria sair por aí voando, conhecendo o mundo e pessoas novas. Queria mostrar minha alegria por ter superado uma dor por aí, pelo mundo inteiro. Afinal, foram meses atrás de você. Foram meses tentando reconciliação, escutando que você me amava sim e queria voltar, mas não podia.

Passou algum tempo após minha mudança interior e numa noite dessas que sai com minhas amigas, conheci um moço interessante no bar. Que me chamou a atenção. Era gentil e muito atencioso. Tinha a fala mansa que me envolvia em suas conversas de uma forma até dominadora, possuía um charme que me deixou encantada desde que o avistei a primeira vez.

Mas eu olhei para o lado. Eu olhei para o lado errado. Eu olhei para o lado que você estava no bar e me dei conta que você estava sorrindo e acenando pra mim. Dei de ombros, afinal você já estava na seção dos esquecidos. Meu celular vibrou e eu gelei, pensei em correr ao banheiro porque sentia meu estômago subindo a cada segundo que meu celular vibrava.

Resolvi desligar meu celular mesmo sem ver quem havia chamado e continuar a minha noite tranquila com o Senhor Charmoso. Rimos, bebemos e até comi uma batata-frita, que fazia um bom tempo que não comia frituras.

O Sr. Charmoso se ofereceu para me levar embora, mas eu sabia onde essa noite iria dar – no sentido literal da palavra – e eu ainda não me sentia pronta para levar algum homem para a minha cama. Fui embora com o número dele anotado em um guardanapo.

Ao chegar à minha rua, vejo o seu carro estacionado na frente da minha casa e penso em dar meia volta ou até mesmo ligar pro Senhor Charmoso e perguntar onde ele mora e se poderia passar a noite lá, mas escolho enfrentar a fera.

Você está de braços cruzados encostado no carro. Me aproximo sem dizer nada, com o coração saltitante e com a raiva corroendo meu corpo inteiro.

Você não diz nada por alguns segundos que viram uma eternidade até que você resolve questionar meu sumiço durante esses dois meses, disse que sente minha falta e me pergunta se realmente te amei, pois já estava conversando com outra pessoa no bar. Então você desabafa que precisava ver meu sorriso, que me ama e que não conseguiu me esquecer ainda.

Caí com a boca no chão e simplesmente não aguentei, a raiva tomou conta de mim por inteira e resolvi dizer que passei meses atrás de você e quando finalmente te esqueci, você me julga estar errada? Quando eu resolvi seguir em frente, você não concorda?

Quem terminou foi você, quem quis ir embora foi você e agora você acha que está no seu direito de voltar atrás e estragar tudo o que eu construí? Não. Te contei que passei meses chorando, mas que agora eu não choro mais por você. E por fim, pedi que fosse embora.

Você tentou rebater, mas não permiti. Observei pela janela do meu quarto você indo embora e levando contigo um peso que estava nas minhas costas. Você foi embora deixando a certeza que fiz as escolhas certas.

Ligo para o Senhor Charmoso:

– Você quer dar uma passada aqui na minha casa? Não terminamos o que começamos hoje no bar.

SAIBA COMO É O PROCESSO PARA ASSUMIR OS FIOS BRANCOS

Elegante, Meryl Streep surgiu em O Diabo Veste Prada com suas madeixas curtas e com os fios brancos. Alguns anos depois, Demi Moore, ícone da beleza e jovialidade, apesar de já ter 52 (quem diria!), deixou os primeiros fios acinzentados aparecerem.

Assim como elas, a professora aposentada Isabel Scheid decidiu que era hora de assumir os grisalhos.

Depois de 15 anos pintando a cada três semanas, ela teve uma conversa franca com a cabeleireira e, juntas, iniciaram o processo para que as tinturas não fizessem mais parte do dia a dia de Isabel. Aos 60 anos, depois de um ano se adaptando, ela finalmente desfila por aí com seus fios naturais.

– Não foi fácil, mas meu cabelo estava perdendo a saúde em função de tanta química. Ter uma cabeleireira de confiança foi fundamental para o processo. Ela me ajudou no planejamento do processo. Comecei com luzes para me acostumar com fios mais claros, depois os grisalhos foram conquistando algumas mechas até tomarem conta de toda a cabeça – conta Isabel.

De acordo com o hair stylist Álisson Salles, para quem tem cabelos compridos, o corte pode ser a forma mais rápida de atingir o resultado. Mas quem quer ir diminuindo o cumprimento aos poucos pode ver o resultado final em dois anos – encurtando aos poucos para dar adeus aos fios mais escuros.

– Os grisalhos são fios mais enrijecidos e espessos. Uma boa hidratação mensal pode tornar os cabelos mais saudáveis e maleáveis. Usar um bom living também ajuda na nutrição capilar – explica.

Outro problema que os fios brancos têm que enfrentar é a oxidação causada pelo sol, pelas lâmpadas e pelo suor das mãos e da própria cabeça que podem deixar a cor amarelada. Salles aponta que usar produtos com antioxidantes pode resolver o problema.

– Deixar os cabelos brancos aconteceu num momento em que estou encarando a vida de outra maneira, de uma forma mais natural. Estou curtindo muito o novo visual – diz Isabel.

A DIFERENÇA ENTRE MITOS E CONTOS DE FADAS

Na Psicologia Analítica o estudo dos mitos e dos contos de fadas possui uma importância capital no entendimento dos processos psíquicos que se desenvolvem no inconsciente coletivo.

Ambos apresentam uma realidade sobrenatural, fabulosa e mágica. Contudo, existem diferenças importantes entre eles.

Os mitos mostram como as coisas passaram a existir. Falam do gesto criador.

As forças da natureza – como a noite, a chuva, o sol – eram caracterizadas por um deus ou deusa, que teve sua criação descrita na Mitologia. O mesmo ocorre com coisas mais abstratas como o amor, a guerra, etc.

O mito trata então de uma ação criadora e de como o homem se relaciona com a criação, sendo ele mesmo também uma criação divina. No mito sobre a morte, por exemplo, vemos como nos tornamos mortais.

Eles, portanto, explicam a existência de algo no mundo, explicando fatos que eram desconhecidos da ciência.

Os contos de fadas mostram uma situação em que já há uma condição pré-existente. Neles há um problema que é coletivo, mas que não modifica – apenas afeta- a condição humana no mundo.

Os problemas narrados nos contos de fadas espelham ritos de iniciação e formas de como resolver os conflitos e os problemas. Tudo já existe e não há gesto criador.

Nos contos há um herói ou heroína que vive uma série de conflitos, onde seres mágicos o auxiliam ou o atrapalham.

No entanto, os mitos são freqüentemente misturados aos contos ou, então, aquilo que se reveste do prestígio de mito em uma tribo será apenas um simples conto na tribo vizinha (Eliade, 1972).

Além disso, os grandes mitos decaem com a civilização a que pertencem, mas os temas básicos podem sobreviver como temas de contos de fada, migrando ou então permanecendo no mesmo país (Von Franz, 2005)

Para Von Franz (2005), os contos de fada são como o mar, e as sagas e os mitos são como ondas desse mar; um conto surge como um mito, e depois afunda novamente para ser um conto de fada.

Isso ocorre, pois, dentro da Mitologia temos as narrativas heróicas, que espelham os ritos de passagem e de amadurecimento, assim como os contos de fadas.

As civilizações antigas possuíam seus ritos iniciatórios que tinham como base essas narrativas heróicas.

Por isso, pode-se supor que os mitos possuíam essas duas funções: a de explicar o surgimento de algo no mundo e mostrar ritos de iniciação.

O mito de Eros e Psique é uma prova dessa imagem de rito de passagem, assim como os 12 Trabalhos de Hércules.

O conto seria então uma espécie de “camuflagem” dos motivos e personagens míticos, sem deixar de perder suas características e sem ser menos importante.

Conforme Eliade (1972), se os Deuses não mais intervêm sob seus próprios nomes nos mitos, seus perfis ainda podem ser discernidos nas figuras dos protetores, dos adversários e companheiros do herói. Eles estão camuflados, mas continuam a cumprir sua função.

Outra informação importante é a diferença entre contos, lendas e fábulas.

As fábulas também possuem um aspecto mágico. Geralmente os protagonistas são animais, mas seu um caráter é didático e moralizante. A natureza – na forma de animais – possui características humanas, simbolizando comportamentos morais bons ou ruins.

Já as lendas tratam de uma história também fantástica, mas seu argumento é retirado da tradição do local. Os relatos das lendas misturam fantasia com realidade. Relatam de forma maravilhosa um acontecimento que suscitou estranhamento, surpresa ou até mesmo medo em uma determinada comunidade. Ou seja, um episódio real gerou um acontecimento imaginário.

Para concluir o assunto, vemos nesse vasto material maravilhoso e fantasioso dos mitos, contos de fadas, lendas e fábulas, que a despeito das diferenças entre eles, eles continuam nos encantando, assombrando, trabalhando nossos medos, nos trazendo lições morais e éticas e nos auxiliando em nossas jornadas iniciatórias.

Que nós nunca percamos nossa capacidade de nos encantar e que permaneçamos abertos ao imaginário e ao mítico, para compreendermos que nossas vidas diárias não são insignificantes e que existe um mundo além desse material.

É POSSÍVEL TER 23 PERSONALIDADES. EXPLICAMOS O TRANSTORNO DISSOCIATIVO DE IDENTIDADE

Não é a primeira vez que o cinema utiliza o transtorno de múltiplas personalidades para intrigar o público.

Na década de 60, Psicose, do diretor Alfred Hitchcock, aterrorizava as plateias do mundo ao colocar Anthony Perkins no papel de Norman Bates, rapaz perturbado que, na verdade, tem um transtorno pouco comum, chamado Transtorno Dissociativo de Identidade (ou TDI).

Quase 60 anos depois, o filme Fragmentado (2017), de M. Night Shyamalan, conta de maneira intensa o drama de um homem diagnosticado com esse transtorno.

Kevin (James McAvoy) se divide em 23 personalidades com idades, gêneros e até doenças completamente diferentes.

O TDI é estudado há décadas pela medicina e pela psicologia, mas ainda gera dúvidas em relação a suas origens e o seu poder sobre a mente humana. Esta reportagem, que contém spoilers, busca explicar o que é esse distúrbio e localizá-lo na nossa realidade.

“Não é um transtorno comum. É um fenômeno que cria uma aura de mistério, sempre retratado na literatura e no cinema porque desperta o interesse”, descreve o psiquiatra Marcos Alexandre Gebara, diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

O transtorno começou a ser estudado no final do século 19 por Sigmund Freud dentro dos processos dissociativos englobados na histeria.

“Freud atendia pacientes histéricas e os sintomas mais comuns são os dissociativos, que podem afetar a memória e a paciente ter amnésia, assim como criar uma outra personalidade para lidar com diferentes situações. Naquela época (ele) já observava como a histeria tinha propensão de dividir a consciência”, explica o psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).

Assim como no filme, as pessoas que sofrem desse transtorno podem mudar seu alter (personalidade) em determinadas situações com as quais não conseguem lidar.

A psiquiatria e a psicanálise reconhecem que as múltiplas personalidades são usadas como um mecanismo de defesa para fugir de uma situação de estresse “insuportável”.

A personalidade se fragmenta para lidar com situações adversas. Isso valeria para todos os conflitos que se pode imaginar, como conflitos de natureza sexual. Um personagem é mais libidinosa, mais sedutora, enquanto outra é extremamente tímida, incapaz de olhar para outras pessoas. E as personalidades se revezam conforme a situação. Se precisar ser agressivo, se precisar ser pacífico, e assim vai.

Christian Ingo Lenz Dunker, psicanalista e professor da USP

Diferentemente de pessoas comuns, que têm o controle de si e consciência de seus atos independentemente de situações adversas, uma pessoa com múltiplas personalidades não tem consciência de suas várias consciências.

“Uma personalidade funciona de uma forma em um determinado momento e, quando há uma transposição para outra personalidade, ela não se lembra do que aconteceu”, acrescenta Gebara.

O Transtorno Dissociativo de Identidade é diferente da esquizofrenia. “A esquizofrenia incide na experiência presente do sujeito, não tem uma personalidade sobre a outra. Há uma polifonia, uma confusão de vozes e alucinações”, compara Dunker.

“É como se na esquizofrenia uma pessoa ouve vozes da multidão, enquanto uma pessoa com transtorno de múltiplas personalidades ouve um dueto, uma hora canta um, outra canta outro. Nunca ao mesmo tempo.”

Em Fragmentado, Kevin, primeira identidade do protagonista, teria criado outras identidades ainda na infância, como uma ferramenta de defesa ao abuso e violência que sofria dentro de casa. Assim como no filme, a maioria dos casos de fragmentação da identidade tem relação com traumas na infância.

Uma nova personalidade costuma ser criada para enfrentar uma situação de estresse intolerável, como abuso sexual, psíquico ou físico.

Se um indivíduo tem uma situação de estresse intolerável na fase do desenvolvimento, pode ser que ela deixe uma marca ou mesmo impossibilite o ego de se estruturar de forma una, ou seja, com apenas uma personalidade, uma consciência.

Marcos Alexandre Gebara, diretor da ABP

“Há uma personalidade predominante que, em determinadas situações, foge e passa para outra”, acrescenta o psiquiatra, fazendo referência à personalidade “Dennis” do filme de Shyamalan, que desenvolveu TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) por limpeza depois de sua mãe espancá-lo por ter bagunçado a casa, ainda criança.

A fragmentação das personalidades também pode ocorrer na fase adulta, diante de um grande trauma, como acidentes ou grandes desastres.

Um caso recente que chamou a atenção da psiquiatria foi de uma alemã de 33 anos, cega há mais de 13, em decorrência de um acidente traumático. Ela voltou a enxergar ao mudar de personalidade.

A paciente havia sido diagnosticada com cegueira cortical, dano cerebral ocasionado pelo acidente, e recuperou sua visão durante uma sessão de terapia, ao encarnar a personalidade de um garoto. A mulher cujo nome não foi revelado pelos pesquisadores tinha Transtorno Dissociativo de Identidade.

“Aos poucos, foram identificadas mais de dez personalidades que tinham diferentes nomes, idades, gêneros, atitudes, opiniões, temperamentos. A voz, a postura e as expressões faciais também se diferenciavam.

Em certos momentos, B. T. falava apenas em inglês e, em outros, apenas em alemão ou misturando os dois idiomas”, diz o artigo do psiquiatra alemão Bruno Waldvogel e do professor do Instituto de Medicina Psicológica de Munique, Hans Strasburger, divulgado na revista científica PsyCh Journal, em 2015.

A paciente só conseguia enxergar quando encarnava apenas uma das personalidades, o que provaria que o primeiro diagnóstico havia sido equivocado. A cegueira não era cortical, mas sim uma cegueira “psicológica”.

O caso da alemã , portanto, justifica a hipótese de que os transtornos neuróticos associados ao estresse podem desencadear alterações corporais, como a cegueira, paralisia e diabetes em determinadas personalidades.

“A cegueira histérica é um quadro conhecido, decorrente de estresse. Uma função é tomada por uma estratégia simbólica. Vi uma coisa que não deveria ter visto, então crio uma barreira. Quando falamos ‘psicológico’, não é mentira; a pessoa realmente fica cega, só que por razões psicológicas”, esclarece Christian Dunker, da USP.

Transtornos, gênero e cultura

O transtorno também pode estar relacionado a diferentes culturas. Nos Estados Unidos, por exemplo, há muitos mais casos diagnosticados do que na Europa e na América do Sul. De acordo com Dunker, isso acontece por causa da variação cultural — como cada cultura interpreta o sofrimento psíquico e lida com conflitos e divisões sociais.

Não há números concretos sobre a incidência do transtorno no Brasil e no mundo. Alguns estudos mostram que o TDI pode afetar entre 0,5% e 1% da população.

“Pode ser especulação, mas o Brasil é uma cultura bastante sensível a religiões que têm práticas que narram estados dissociativos, como a umbanda, candomblé, espiritismo.

Essa ideia de estar ‘possuído’ por outro é culturalmente aceitável no País, o que não é o caso da cultura protestante americana”, discute. “Esse tipo de dissociação, portanto, é absorvido pela psiquiatria americana e, portanto, terá mais casos que respondem a certos conflitos com ajuda da medicina e psicanálise.”

Tal teoria, porém, não é unanimidade na medicina. Para o psiquiatra Marcos Gebara, mais diagnósticos poderiam explicar os diferentes números de casos entre os países. “A porcentagem, embora baixa, é constante em todos os países. Não vemos uma prevalência em determinados países, mas um número maior de indivíduos que foram diagnosticados.”

De acordo com Gebara, a prevalência maior do transtorno é entre mulheres. Elas têm de duas a três vezes mais chance de desenvolver múltiplas personalidades.

Uma das possíveis explicações seria o fato de que elas são mais vulneráveis e expostas a abusos físicos e sexuais do que os homens. “É uma hipótese que faz sentido porque elas são mais indefesas nessas situações de estresse intolerável, principalmente na infância”, conta o psiquiatra.

Identificação e tratamento do TDI

“Não é difícil identificar uma pessoa com TDI”, explica o diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria. Segundo ele, já na infância é possível notar os primeiros trejeitos que se modificam em determinadas situações, como mudanças bruscas de voz, no discurso e na postura. “Você conhece a pessoa de um jeito e, de repente, vê de um outro jeito completamente diferente. Até as feições e o tom de voz mudam.”

Geralmente, são os familiares e professores que identificam o transtorno em alguém, uma vez que a pessoa que sofre de TDI não tem conhecimento de seus alters.

Por se tratar de um transtorno mental, o tratamento para TDI passa por consultas psicológicas e medicação para diminuir a ansiedade e angústia. “A psicanálise tenta reconciliar a pessoa com seus conflitos, técnicas que possam fazer a integração dessas personagens. A pessoa precisa reconhecer que aquilo é reprodução dela”, explicou o psicanalista Christian Dunker.

Além de lidar com os próprios conflitos, a pessoa que tem múltiplas personalidades precisa conviver com o preconceito da população, gerado principalmente pelo desconhecimento do transtorno.

“Para muita gente, o psicológico equivale à força de vontade; como se você quiser, você consegue. Mas não. Não dá para fazer isso”, encerra Dunker.