Relacionamentos Verdadeiros São Para Os Fortes!

É fácil sair na noite, se encantar e se entregar para uma pessoa diferente por semana (quando não por dia)!
É simples se encontrar com alguém de vez em quando, sair para jantar ou fazer um programa especial, falar apenas sobre coisas legais, mostrar o melhor de si, e, depois, voltar para a sua casa, os seus problemas e a sua vida, com todos os desdobramentos que ela tem…

É descomplicado “curtir a vida adoidado”, não se envolver verdadeiramente com ninguém, não criar vínculos, ser “do mundo”… Ou, até mesmo, dar “uma escapadinha”, uma “puladinha de cerca”, uma “arejada na relação” (!)… E, por ser fácil, simples e descomplicado, QUALQUER UM consegue!

O complexo, o difícil, o que exige jogo de cintura, inteligência emocional, planejamento e dedicação, é ter um relacionamento verdadeiro.

Dormir e acordar com a mesma pessoa, todos os dias, ano após ano, enfrentando contas para pagar, problemas no trabalho, crises existenciais, filhos doentes, mudança de entendimentos, de estilos de vida e de aspirações… Isso, sim, é para os fortes!

E uma das grandes verdades no que diz respeito a relacionamentos amorosos, é que “o amor, somente, não basta!” Quem dera ele desse conta do recado, resolvesse todos os contratempos, todos os desafios e desgostos que surgem ao longo da jornada de um casal…

Na adolescência (geralmente), ou na fase inicial da “paixão”, quando percebemos que amamos – e somos amados – “de verdade”, que o sentimento é profundo, sincero e correspondido, achamos que pronto, estamos resolvidos na vida! Tiramos a sorte grande! Acabou-se a procura, as angústias, os conflitos. Só que não…

Cada pessoa, além de única e indecifrável até para ela mesma, é um ser em constante evolução e transformação. Todos vamos nos descobrindo e nos melhorando ao longo da vida. Não permanecemos sempre os mesmos, não tem jeito.

E o amor, nesse contexto, tem que se reconstruir junto com cada um dos envolvidos e com o relacionamento em si, dia após dia. Ele precisa se atualizar, se reinventar, se redescobrir. E esse é um trabalho sem fim…

Aprender a sobreviver sem o frio na barriga, a ansiedade pelo encontro, as borboletas no estômago e os pés nas nuvens que existiam lá no começo…

Aprender a resistir a TPMs, maus-humores (e maus-hálitos) matinais; à falta de grana (ou de vontade) para sair, viajar, mudar os ares; à falta de tempo e ao cansaço do dia-a-dia; às mudanças de sonhos, projetos de vida e ambições que podem surgir…

Sem contar a reviravolta completa na rotina, no tempo, nos planos e na energia que a chegada dos filhos – para quem os tem – certamente traz no pacote…

Relacionamentos verdadeiros – aqueles que não existem apenas para se ter uma “imagem social”, que dispensam válvulas de escape e “escoros”, e que não traduzem apenas conformismo e acomodação de seres descontentes – são, definitivamente, para os fortes!

Mas saber que se tem alguém para te abraçar no fim daquele dia difícil, para te acalentar quando aquele projeto não deu certo e para te fazer rir de si mesmo quando se fez uma besteira…

Alguém que te conhece suficientemente para respeitar suas particularidades, aceitar suas imperfeições e compreender suas incertezas…

Alguém que sempre vai estar ao seu lado, que se preocupa realmente em te cuidar, que compra os teus devaneios e se empenha, sinceramente, para te ver feliz…

Alguém que, enfim, te ama por tudo – e apesar de tudo – o que você é, de fato, sem máscaras, sem estimulantes, o tempo todo, e apesar do tempo…

Isso, definitivamente, não tem preço, não tem definição e faz tudo valer a pena!
Sinceramente, na minha opinião, só não quer um relacionamento verdadeiro quem ainda não o experimentou…

Adolescência e Luto (dos pais!)

Outro dia recebi um e-mail. Era de uma amiga que, sem querer, querendo, viu o “face” da filha e encontrou a seguinte mensagem com uma “curtida” da filha:

“Adolescente é buzinado dia e noite: tem que estudar para o vestibular, aprender inglês, usar camisinha, dizer não às drogas, não beber quando dirigir, dar satisfação aos pais, ler livros que não quer e administrar dezenas de paixões fulminantes e rompimentos. Não tem grana para ter o próprio canto, costuma deprimir-se de segunda a sexta e só se diverte aos sábados, em locais onde sempre tem fila, ou em locais que seus pais consideram “inapropriados”, é o apocalipse? Não, é apenas a adolescência! Então…Dance, beba, se divirta, estude, brigue pelos seus amigos, brigue pelos seus diretos, se aventure, chore, se arrisque, sorria, se decepcione…Mas não sente com a bunda no sofá e reclame que sua vida é um caos, acredite, a de todos os adolescentes é um caos! Adolescência por mais louca, estranha e confusa que seja, é a fase mais linda da vida, então aproveite porra!”…

Minha amiga ficou meio chocada! Não entendi bem o porquê e ao mesmo tempo entendi bem o porquê! Confuso? Eu explico!
Adorei a clareza com que a amiga da filha dela descreveu o que é ser adolescente! Atire a primeira pedra quem, no período, da adolescência nunca se sentiu assim! Nesta fase da vida parece que tudo que fazemos e queremos vai contra os princípios dos nossos pais… já não podemos mais agir como a criança que um dia fomos e não temos ainda permissão do mundo para sermos os adultos que todos desejam que um dia sejamos.

É a adolescência pós moderna. É a adolescência de sempre! Onde os valores culturais de uma geração destoam abertamente dos valores convencionais da geração anterior. David Zimeman ilustra essa contra cultura adolescente quando compara o “namorar” do nosso tempo (quem tem seus 30, 40 anos sabe do que estou falando!) com o “ficar”, sem maiores compromissos vividos pela juventude hoje.

Transgredir, ser “do contra” é a forma como o adolescente busca se diferenciar dos pais. É uma necessidade para aquisição do sentimento de identidade, para deixar de ser o “filho dos pais” e ser um indivíduo único, alguém além dos pais.

Por outro lado ser pai/mãe de um adolescente requer uma busca constante de equilíbrio e uma visão muito clara que nossos filhos não são prolongamentos de nós mesmos. Não cabe a eles viver por nós aquilo que não vivemos, realizar nossas escolhas, tornar realidade os nossos sonhos. E é isso que deve ter chocado minha amiga e que eu entendo tão bem!

Os pais de adolescentes vivem também uma crise! Um luto, aliás vários lutos… luto pela constatação de que o tempo passou, que a criancinha indefesa está crescendo “rápido demais”, pela não realização de seus sonhos e projetos quando estes são frustrados por diferentes escolhas feitas pelos filhos, luto pela eterna e angustiante preocupação que a liberdade de movimentação dos filhos nos causam, luto pela solidão e desamparo quando o “objeto filho”começa a caminhar pelas próprias pernas, pela perda total de controle, que desperta sentimentos intensos e contraditórios em relação ao que fazer e como ser pai/mãe deste “estranho” que agora vive lá em casa!

Uma crise por constatar que aquele ser indefeso cresceu e tem opiniões e pensamentos próprios, muitas vezes divergentes ou diferentes dos nossos. De repente não cabe mais a nós decidir e aprender a respeitar isso é um sofrido aprendizado. Trabalhoso, mas possível.

Projeções, transferências e idealizações são fenômenos comuns na vida de todo pais de adolescente. Mas há luz no fim do túnel! A ajuda de um terapeuta pode facilitar este processo rico de crescimento e redescoberta de nossa nova forma de ser pais!

Autora: Cláudia Pedrozo

A relação entre maconha e escola

Adolescentes que fumam maconha regularmente têm pior desempenho nos exames escolares, revela um estudo feito com estudantes ingleses, divulgado no último mês pelo jornal inglês Daily Mail. A pesquisa, realizada pelo University College of London, foi apresentada na Conferência Europeia de Neuropsicofarmacologia, em Berlim.

O trabalho acompanhou mais de 2 mil crianças, cujos Q.Is. (quociente de inteligência) foram medidos aos 8 anos e, depois, aos 15 anos. Os resultados mostram que os adolescentes que já tinham fumado maconha pelo menos 50 vezes antes dos 15 anos mostraram uma piora importante em suas habilidades educacionais. Nos casos em que houve uso pesado da maconha (todos os dias ou quase diário), a associação com um desempenho mais fraco na sala de aula era evidente.

A metodologia adotada nessa pesquisa não estabeleceu uma associação de causa e efeito. É difícil saber se a maconha levou à piora no desempenho na escola ou se os jovens que já tinham dificuldades emocionais e iam mal na escola passaram a usar mais maconha.

Uma série de outros estudos mostra que a maconha pode ter impacto no desempenho escolar. Uma enquete sobre comportamentos de risco, feita em escolas particulares do Brasil pelo Portal Educacional, em 2006 e em 2013, com cerca de 15 mil alunos, mostrou que jovens que faziam uso mais pesado de maconha tinham quase o triplo de chance de ter sido reprovados.

Outro estudo, feito na Nova Zelândia de 2012 por pesquisadores da Universidade Duke, Estados Unidos, já gerara controvérsia, ao afirmar que jovens que começavam a fumar maconha com mais frequência antes dos 18 anos tinham um prejuízo em seu Q.I. na vida adulta. Isso não mudava nem com o abandono do consumo por muitos anos. O trabalho, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, mostrava que, se o consumo ocorria após os 18 anos, não havia deterioração do Q.I. A fase antes da adolescência é crítica para o desenvolvimento de diversas redes de conexão neuronal, que pode sofrer impacto do consumo intenso da maconha.

Sempre há diferentes fatores em jogo quando se fala em comportamento jovem e desempenho acadêmico. Questões familiares, exclusão social, alterações emocionais significativas, álcool, cigarro e drogas estão entre eles. De qualquer forma, seja causa da piora na escola ou sintoma de outras dificuldades, o uso frequente de maconha pelos adolescentes merece atenção.

(Autor: Jairo Bouer, médico formado pela USP, com residência em psiquiatria. Trabalha com comunicação e saúde)

Estranha é a mãe!

Recentemente assisti ao remake do filme “Carrie, a Estranha”, baseada no livro de mesmo nome do maravilhoso Stephen King.

O filme conta a história de uma adolescente chamada Carrie que é filha de uma mãe religiosa ao extremo, que vê sua vida ficar ainda mais atormentada quando menstrua pela primeira vez no vestiário da escola e é vítima da maldade de algumas garotas da turma.

Carrie é uma adolescente comum, ou melhor, quase comum… ela tem poderes telecinéticos e teria tudo para ser uma adolescente “normal” se não fosse filha da sua mãe neurótica.

A mãe da garota possui uma sexualidade totalmente recalcada e desorganizada, disfarçada por um extremismo religioso cuja finalidade era inibir o desejo que se choca com a defesa. Explicando melhor, a mãe da Carrie usava o extremismo religioso como forma de compensar o desejo sexual que a consumia, mas que era contrário aos seus padrões de valores estabelecidos pelo seu superego.

Carrie nasceu de uma relação com um homem que se deitou com ela e que no meio da noite a assediou… foi egossintônico (prazeroso), mas ela não pode admitir isso, então para se redimir, usando o mecanismo de defesa, se refugiou na religião. Provavelmente também foi filha de uma mãe recalcada.

Enquanto assistia ao filme pensava em todas as jovens com as quais eu convivi no exercício da minha profissão. A garota do filme me fez recordar muitas delas, que eram realmente muito estranhas, pareciam deslocadas do mundo. Algumas, à primeira vista, eram extremamente tímidas, sequer levantavam os olhos ao passarem pelas pessoas; digo à primeira vista porque quando a barreira conseguia ser quebrada e elas permitiam uma aproximação, era possível perceber que por trás da estranheza, havia um ser humano cheio de lixo escondido embaixo do tapete, quase sempre gerado por uma família complicada, responsável pelo surgimento de uma neurose familiar.

Neurose familiar é um tipo de doença emocional na qual os delírios e neuroses dos pais interferem no desenvolvimento normal dos filhos, ou seja, pais neuróticos criam filhos neuróticos!

Pense na sua família, nos seus filhos… Você vê neles algumas manias que são suas? São manias saudáveis? Se não são, cuidado! Comece a se cuidar para evitar reproduzir neles neuras que são suas.

Outro lado desta moeda acontece quando pais e mães que tem uma sexualidade mal resolvida projetam isso sobre seus filhos, querendo e muitas vezes fazendo que eles também reproduzam nos seus relacionamentos e na vida os mesmos comportamentos nocivos dos pais.

Portanto senhores pais, a dica de hoje é a seguinte: cuidem de suas cabeças, de suas emoções, não fujam de quem vocês são, se conheçam e se aceitem e deixem que seus filhos sejam quem eles quiserem e puderem ser. Conversem e orientem seus filhos… Não conseguem falar com eles sobre coisas que são desagradáveis ou difíceis para vocês, busquem ajuda profissional. E se perceberem que seus filhos são estranhos, cuidado, os estranhos podem ser vocês. Eles só refletem a educação e os modelos que vocês, pais, dão. Vocês são os espelhos, seus filhos, os reflexos!

Pensem nisso!

(Autora: Cláudia Pedrozo, trabalha na Educação Pública de São Paulo há 26 anos.

Já foi professora, coordenadora pedagógica, diretora de escola e atualmente está na Supervisão de Ensino.

É Pedagoga de formação, pós graduada em Gestão Escolar pela Unicamp, em Psicopedagogia pelo CEUNSP e é Psicanalista pelo WCCA)

Filho único ou não: o desafio de educar com equilíbrio

Vamos conversar um pouquinho sobre um evento cada vez mais comum nas famílias modernas, a opção por ter apenas um filho.

Nas famílias de nossos avós e até mesmo de nossos pais, a tradição era ter muitos filhos… talvez porque nossas avós, raríssimas exceções, foram educadas para serem “do lar”, para serem esposas e mães somente. Nossas mães, em quantidade significativa, são de uma geração onde as mulheres eram educadas para serem mães e esposas, mas os apelos de uma sociedade de consumo e a revolução feminina acabaram levando-as para o mercado de trabalho. A minha geração pensava em casar, ser mãe, porém sem abrir mão de uma carreira… A geração da minha irmã, que é anos mais nova que eu, queria ter uma produção independente e uma carreira sólida e para conciliar estes dois desejos, somente um filho era o ideal.

Certo, mudanças sociais provocam mudanças na nossa forma de pensar e conceber a vida, ou seja, os tempos mudam e mudam também nossos valores. Mas, apesar de tudo isso, o desafio da maternidade não muda. Ao ter filhos, não importa quantos, toda mãe deseja que eles sejam pessoas de bem, felizes e equilibradas, não é? Então, diante daquele olhar indefeso, algo que não sabemos explicar aflora dentro de nós e tudo que queremos é proteger aquele “serzinho” de tudo e de todos… e é aí que muitas mães se perdem e ao invés de criar filhos fortes e emocionalmente saudáveis, cria verdadeiros monstrinhos, seres que acreditam que o mundo existe para servi-los, com baixa tolerância ao sofrimento e à frustração.

Claro que isto não acontece somente em famílias que optaram por terem apenas um filho, mas é muito mais comum nesta organização familiar, gerando o que os especialistas chamam de “Síndrome do Filho Único”.

Esta síndrome se traduz em crianças que apresentam mau comportamento extremado, apresenta como sintomas mais comuns o egoísmo, a dificuldade de ouvir um não, a timidez excessiva, o apego excessivo aos pais e a crença de que ele é sempre o centro das atenções.

A responsabilidade é totalmente dos pais! A criança, embora tenha como todo ser humano, tendências inatas, se forma e reproduz comportamentos que são aprendidos em seu convívio com os familiares, com a escola, com a sociedade. Se ela for educada de modo a se achar o centro das atenções, acreditando que tem direito a tudo, chantageando se manipulando para conseguir o que quer e não valorizando nada do que tem, provavelmente desenvolverá a Síndrome do Filho único (mesmo que não seja filho único!). Em outras palavras, pais que não colocam limites, não educam pelos exemplos, se projetam em seus filhos, lhes privam de frustrações, não os ensinam a valorizar as pequenas conquistas, nem os ensinam a exercitar a responsabilidade podem gerar um filho desequilibrado emocionalmente.

Nossos filhos precisam entender que a vida não nos dá nada de mão beijada, que é preciso fazer sua parte, ser responsável, buscar conquistar o que se quer e isto precisa ser ensinado desde cedo. Como? Bem, crianças fazem manha, fazem birra, fazem a gente passar vergonha, são manipuladoras quando querem conquistar algo que lhes dê prazer e, geralmente, em nome de não “pagar mico”, cedemos, barganhamos e damos tudo que eles querem… Recebemos visitas, nossos filhos esparramam todas as mil caixas de brinquedos pelo quarto e quando a visita vai embora, você ou seu cônjuge vão guardar tudo sozinho, porque a “pessoinha” está cansada e se recusa a fazer a parte dele(a).

Você com peninha deixa pra lá, afinal ela é tão pequena e indefesa! Você trabalha muito e não tem pique quando chega em casa para brincar, brigar, cobrar, então vê as coisas “erradas” e deixa prá lá… Você se sente em débito com seu filho pois não tem tido muito tempo para conversar e acompanhar seu dia a dia, para minimizar sua culpa você gasta um dinheiro que não tem para dar a ele uma celular de última geração, que muitas vezes ele nem sabe bem como usar.

As pequenas mazelas não param por aí… você deve estar vendo um filme passando na sua cabeça nesse momento!

Quem ama educa, e quem educa diz não, dialoga, reflete com o filho as consequências das atitudes. Mais que sempre ouvir um sim e ter muitos bens materiais que nem sempre sabe valorizar, seu filho, único ou não, quer de você duas coisas que não custam nada e fazem milagres: querem amor e atenção! Se você não tem disposição para dar isso, precisa repensar seu papel como pai/mãe… Filhos não são brinquedos que podemos usar e jogar fora quando enjoamos… Filhos são para a vida toda.

Pensem nisso!

(Autor: Claudia Pedrozo, trabalha na Educação Pública de São Paulo há 26 anos.

Já foi professora, coordenadora pedagógica, diretora de escola e atualmente está na Supervisão de Ensino.

É Pedagoga de formação, pós graduada em Gestão Escolar pela Unicamp, em Psicopedagogia pelo CEUNSP e é Psicanalista.)

Adolescentes postam fotos de automutilação em busca de apoio e seguidores nas redes

Em 1995 não existiam redes sociais. Quando algo se tornava viral, repercutia na TV. Depois no jornal. Repetidas vezes. Foi o que aconteceu nos dias que se seguiram à famosa entrevista que a princesa Diana deu em novembro daquele ano à BBC, com confissões que aceleraram seu divórcio do príncipe Charles.

Entre várias declarações polêmicas, ela assumiu que tinha bulimia e pontuou que os vômitos eram um alerta, um pedido de socorro emocional. Na mesma época, em Hong Kong, um médico chamado Sing Lee identificou uma rápida explosão de casos de distúrbios alimentares na cidade.

Não apenas o número de pacientes aumentou em seu consultório, mas elas tinham um jeito ocidentalizado de se expressar, usavam palavras e termos parecidos com os da entrevista de Diana. Surgiu, então, a pergunta: a confissão da Princesa de Gales estimulou novos casos de bulimia? Ou só deu visibilidade aos que já existiam?
Segundo o psicanalista e escritor Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, a resposta pode ser um pouco dos dois. “Ao escutar essa entrevista, o sujeito diz: isso também está acontecendo comigo. Não é uma identificação com um traço específico da princesa, mas com a causa de seu sofrimento.”

Vinte anos depois, o movimento parece se repetir numa nova geração, com a internet no papel da TV, a automutilação no lugar dos transtornos alimentares. Estimuladas por perfis de jovens depressivas que se machucam e postam as fotos dos cortes nas redes sociais, adolescentes do mundo todo se trancam nos banheiros e repetem a cena: talham a própria pele na tentativa de aplacar uma dor sentimental.

“Para essas meninas, a automutilação funciona como um tipo de ‘automedicação’, uma forma de localizar a angústia difusa em uma parte do corpo sob a forma de dor”, afirma Dunker sobre o cutting, esse fenômeno acentuadamente feminino. “Há também um prazer estético que se obtém pelo olhar do sangue que escorre.”

Quando postam as imagens nas redes sociais, essas jovens recebem comentários carinhosos: conhecidos e desconhecidos escrevem mensagens de apoio para que encerrem a prática. Em geral, são escritas por meninas com as mesmas angústias. Assim um ciclo vicioso de dor e consolo se mantém.

A carioca Aline*, 14 anos, viu pela primeira vez uma dessas imagens em fevereiro de 2014, em um grupo de WhatsApp das amigas. Depois de um desentendimento com a própria Aline, uma das integrantes enviou uma foto do braço recém-perfurado, dizendo que havia se cortado por estar magoada.

“Nunca tinha visto aquilo. Fiquei com medo de ela se matar. À meia-noite, estava sozinha em casa e fiz igual”, lembra. Tinha tanto em comum com a amiga, que gostava de Justin Bieber e funk como ela, que sentiu um impulso incontrolável de imitá-la.

“Estava nervosa com a briga. ‘Se ela fez e a gente é igual, tenho que fazer também’, foi o que pensei. Senão ia ficar com aquilo na cabeça.” Passou, então, a buscar páginas de outras garotas com o hábito de se automutilar no YouTube, no Facebook e no Instagram e a acompanhar suas postagens, tentando entender por que faziam aquilo. “Elas diziam que era um jeito de desabafar.”

Dois meses depois, quando o namorado terminou o relacionamento com ela, Aline não pensou duas vezes. “Me tranquei no quarto, peguei a lâmina que uso para fazer a sobrancelha e passei forte pela parte interna do braço. Aí virou um vício. Comecei a me cortar todos os dias e faço isso até hoje.”

Em julho deste ano, ela viu cicatrizes horizontais no braço de uma prima e perguntou se a menina também se mutilava. “Ela se abriu comigo e eu, com ela.” Cúmplices, as duas criaram uma conta no Instagram com um nome que remete a “pulsos” e “danos”. Nela, publicam imagens de seus braços e barrigas cortados, intercalando-se na autoria. “Acho que a dor vai sair e não sai”, diz uma das legendas escritas por Aline.

Para a psiquiatra Jackeline Giusti, especializada em automutilação e membro do grupo dedicado ao hábito do Instituto de Psiquiatria da USP, em São Paulo, a prática está longe de ser uma modinha adolescente. “Os cortes são sempre a expressão de um outro problema”, afirma. “Normalmente estão associados a depressão, compulsão alimentar ou TOC [transtorno obsessivo compulsivo].”

Como o nível de estresse mascara a dor, explica, cada corte é seguido de uma liberação de endorfina, o hormônio do prazer. É por isso que tantas meninas relatam sentir alívio com a lâmina. Uma vez que provam essa medida desesperada, caem no gatilho da compulsão.

Na noite do dia 27 de julho, a carioca Marcela*, 17 anos, adicionou uma imagem inédita ao seu Instagram. Até então, a página tinha selfies sorridentes exibindo batons coloridos e delineadores estilo gatinho, além de óculos de armação grossa e cabelo afro acima dos ombros.

Com corpo bem torneado e rosto delicado, Marcela diz receber elogios constantes à sua beleza. Mas, nessa madrugada, em vez da menina feliz e atraente de sempre, apenas um braço iluminado pelo flash do celular apareceu na foto. O pulso tinha sete cortes horizontais, o sangue ainda fresco contrastando com as unhas pontiagudas pintadas de nude. “Postei logo depois de cortar. Quis mostrar para todo mundo que não sou bonita por dentro.”

O motivo era a rejeição do namorado, com quem ficou por quase dois anos. A briga se estendeu por dias, sem que Marcela entendesse o porquê do término. Na escola, depois de conversar com o rapaz, ficou tão nervosa que começou a puxar os cabelos com força, até ficar com chumaços de cachos na mão. Dentro do banheiro, cravou as unhas nos antebraços e deixou neles marcas vermelhas de desespero. A coisa evoluiu para arranhões e, então, para os cortes.

epidemia 🙁
A automutilação apareceu pela primeira vez no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Sociedade Americana de Psiquiatria em 2000 e ainda não é vista como um distúrbio isolado. “Esse comportamento é muito influenciado socialmente”, concluiu a psicóloga e pesquisadora canadense Nancy Heath em um estudo de 2009 feito com jovens, a maioria meninas universitárias, que se cortavam em seu país.

Antes do primeiro corte, conclui a pesquisa, quase 60% já conhecia e convivia com alguém que se machucava. A estimativa de adolescentes com esse perfil chega a 20% da população, segundo a Association of Young People’s Health, baseada no Reino Unido e que compila dados de EUA, Canadá e Europa.

Em geral, os pais demoram a tomar conhecimento do problema. “Você nunca acha que vai acontecer na sua família”, diz a pedagoga paulistana Carla*, que trabalha em escolas de São Paulo, cuja filha foi diagnosticada como borderline há dois anos, depois de um episódio grave de cutting.

Até então, ela tinha um quadro depressivo e havia sido uma adolescente com grande facilidade para se machucar acidentalmente, era o que a mãe pensava. Sozinha em casa, enquanto Carla trabalhava, a jovem fez dezenas de cortes nas duas pernas, do peito do pé à altura da coxa, usando uma faca de cozinha.

Resultado de imagem para Adolescentes postam fotos de automutilação“Tivemos de levá-la ao hospital para fazer curativos e, no dia seguinte, ao posto de saúde para tomar uma vacina antitetânica. A psiquiatra me orientou a vigiá-la constantemente, até que a nova medicação agisse para controlar os impulsos. Tirei licença do trabalho, escondi todos os objetos cortantes e proibi que se trancasse no quarto. Passei 15 dias sem dormir. Até hoje, quando vejo uma faca solta sobre a pia da cozinha, meu coração gela.”

Em março deste ano, depois de um ano e meio estável, a filha de Carla teve uma recaída, no dia do aniversário da mãe. “Você se culpa, enfrenta os olhares dos outros e está sempre na linha de fogo. O maior medo de uma mãe é que o filho se machuque. Saber que ele faz isso nele mesmo é dolorido demais”, diz Carla, que visita os grupos de Facebook sobre automutilação e depressão.

“Os relatos me ajudam a entender a linha de raciocínio de quem se corta. Mesmo assim, nunca vi mediação de um profissional clínico nessas comunidades. É como se fosse um grande desabafo coletivo”, afirma. O ponto de encontro aberto e sem controle que a internet proporciona preocupa muitos adultos.

Em abril, o Instagram atualizou suas diretrizes para o uso do site, e avisou: “Qualquer conta que encoraje ou incite usuários […] a se cortarem, se automutilarem ou cometerem suicídio será desabilitada sem aviso prévio”. O site deixa um espaço, no entanto, para perfis de “recuperação”, e eles são muitos.

“Nós encorajamos veementemente as pessoas que buscam ajuda para si mesmas. Essas diretrizes não se aplicam a contas criadas para discutir de maneira construtiva”, diz um posicionamento oficial enviado pelo site à Marie Claire. Na prática, palavras-chave como “automutilação” e “cutting” são suficientes para encontrar centenas de perfis cujo discurso é de autoajuda mas as imagens, explicitamente violentas.

~REDE SOCIAL~
Diferentemente da pornografia, que é identificada com facilidade pelos filtros automáticos do Instagram e do Facebook, o cutting é bem mais difícil de ser localizado. Segundo Jonathan Razen, diretor do Instituto Beta para a Internet e Democracia, as imagens dos ferimentos são publicadas em um volume muito menor que os conteúdos de nudez e sexo.

“Para serem tiradas do ar, elas teriam que ser classificadas na categoria ‘incitação ao suicídio’, o que viola as regras de uso”, explica. “Mas o problema é que a tecnologia que filtra essas fotos ainda não é eficiente ao ponto de encontrar um padrão representativo. Como seios e genitais, que são ‘entendidos’ pelos filtros como pornografia.”

Mesmo assim, as redes sociais não estão livres de serem obrigadas a retirar certas contas do ar. “Os sites podem ser notificados judicialmente por instituições de defesa da criança e do adolescente, como o Ministério Público, por exemplo”, afirma Razen.

Para o desembargador Siro Darlan, conhecido por seus 15 anos de atuação na Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, as empresas de internet têm uma responsabilidade social sobre o que é publicado nelas, mas a atenção nesses casos deve se voltar à família.

“Estamos falando de garotas que estão sofrendo. Se elas usam as redes para chamar atenção, a família deve buscar as causas. Se não o faz, e uma vez que o problema se tornou público pela internet, o Ministério Público pode averiguar se há negligência.” O jurista é contra a censura massiva de conteúdo.

“Imagens de violência podem, sim, ter um impacto sobre adolescentes que gostam de experimentar. Mas essas contas também são um pedido de ajuda. Você vai calar esse pedido? Precisamos acompanhar mais que proibir hoje no Brasil.”

“Não aconselho ninguém a fazer o primeiro corte”, diz Larissa*, uma bissexual de 16 anos que mora em Goianésia, em Goiás, e cuja página de Instagram, onde posta fotos de seus braços cheio de retalhos, tem mais de 3 mil seguidores. O nome da conta faz referência a alguém que sorri quando, na verdade, gostaria de chorar. Nas postagens, frases tristes como “O silêncio também grita” ou “Toc, toc. Quem é? A decepção. Entra, você já é de casa”, além de fotos da automutilação.“

Comecei a me cortar no dia 30 de agosto de 2013. Estava sozinha em casa e me sentia mal, pois sofria bullying no colégio [por causa de seu visual, Larissa era chamada de gótica, emo e vampira]. Além disso, meu pai, que é separado da minha mãe, nunca foi legal comigo. Ele não paga pensão e já ameaçou me bater e me tirar da minha mãe. Depois de uma briga dos meus pais, peguei uma faca e passei pelo braço. Fiz três cortes grandes”, conta.

O hábito se tornou frequente. Em uma foto chocante, Larissa mostra a parte interna do braço, do pulso à dobra, em que se pode contar 34 incisões. “Só o início de uma grande noite…”, diz a legenda.

Em uma mercearia da pequena cidade de 65 mil habitantes, ela compra as lâminas avulsas que usa para se machucar quando sente que está “explodindo”. Por não falar de seus sentimentos a quase ninguém e não rebater os insultos que ouve dos colegas, Larissa diz acumular muita raiva dentro de si. Até que, em alguns momentos, sente um impulso de se cortar para buscar algum alívio.

Os ferimentos são feitos por afiadas placas metálicas, dessas que eram usadas em antigos barbeadores. Elas compõem a estética de suas fotos e das de outras centenas de garotas pela internet. Em meados de agosto, a jovem recebeu pela quarta vez um recado que o Instagram envia depois de receber denúncias de conteúdo inapropriado.

“Um amigo seu está preocupado”, diz a mensagem. Ela se irritou com a intromissão. “O corpo é meu”, reclama, sem saber explicar por que publica as imagens toda vez que se machuca. Na primeira conversa que teve com a reportagem, contou que não se mutilava havia um mês e 23 dias. Essa conta exata é muito comum em meninas que tentam parar. Como os dependentes químicos em recuperação, chamam o tempo sem cortes de “dias limpos” e parabenizam umas às outras por eles.

Já o perfil das cariocas Aline e sua prima, que aparecem no início da matéria, permaneceu inalterado até o fechamento desta edição: “Dias limpos: 00”. Mas, na página delas, é possível ver outro lado dessa comunidade entristecida. Às fotos de braços sangrando, as seguidoras respondem com ofertas de ajuda: “Quer desabafar?”. Algumas convidam para falar direct, usando o serviço de mensagens privadas do Instagram, e outras chamam para um papo no WhatsApp.

Fornecer o próprio celular para conversas particulares, aliás, não é raro e muitas meninas incluem o número na descrição principal de seu perfil. “Garota triste. Quer ajuda? Chama no direct. On 24h”, diz um deles.

demi lovato <3
Alguns perfis que se autointitulam suicidas e depressivos e mostram essas imagens contam com mais de 5 mil seguidores. Um rosto que se repete nessas páginas é o da atriz e cantora teen Demi Lovato, diagnosticada como bipolar e fonte de inspiração para milhares de adolescentes.

Em 2010, no meio de uma grande turnê, a estrela norte-americana se internou em uma clínica de reabilitação para drogados e admitiu sofrer distúrbios alimentares e se cortar. A confissão fez de Demi um símbolo da fragilidade juvenil, uma prova do que as pressões sociais podem causar em mentes em formação. Nos pulsos, uma tatuagem que diz “Stay strong” resume o que Demi repete em entrevistas: as dificuldades não terminam de uma hora para outra.

“A internet tem dois lados”, acredita a psiquiatra Jackeline. “Pode incentivar a automutilação, mas também pode ajudar quem quer parar. Lá você vê muitas meninas lutando contra essas urgências.” Em seu consultório, a médica trata dezenas de adolescentes que sofrem com o problema. Indica psicoterapia e, em determinados casos, alguma droga que controle os impulsos.

Com tempo e acompanhamento, é possível amenizar a angústia que dá origem aos cortes. Um dos sintomas de quem está melhorando, explica Jackeline, é justamente perder a liberação de endorfina. “Aí, quando se corta, a pessoa volta a sentir dor.” Só que desta vez, a dor é física.

*Os nomes foram trocados para proteger a identidades das entrevistadas

(Autora: Letícia González)

(Fonte:revistamarieclaire.globo.com)

Mãe – relação complexa desde o nascimento

A relação entre mães e filhos começa errada logo no nascimento. Geralmente, são separados de uma forma abrupta justamente num momento importante de identificação, dos primeiros contatos, do primeiro cheiro, do primeiro olhar. Quando saem da maternidade, vem o segundo erro: pensar que devem ficar eternamente juntos.

A crença de pensar que mãe é para sempre também é um pecado. Em todas as espécies, as mães cuidam dos filhos enquanto eles precisam de cuidados. No caso dos homens, não. Ninguém está preparado para esta separação. Ao contrário, é cada vez mais comum encontrar marmanjos vivendo dentro da casa da mãe santa e eterna, com tudo à mão. E, o que é pior, ela adora isso.

O terceiro tabu está em querer amar todos os filhos da mesma forma, como se eles não tivessem individualidades que os tornassem diferentes.

     A cisão entre o discurso e a prática
O problema está entre a cisão entre o discurso e a prática. As mães mudaram muito. Estão mais independentes, não exercem mais tanta influência sobre os filhos e estão mais tempo fora de casa. Graças a Deus.

Mesmo assim, ainda afirmo que, juntas, elas constituem o maior partido conservador do mundo. Ensinam o autoritarismo e as chamadas grandes virtudes da família, que são uma balela na sociedade.

No mundo, ninguém consegue ser educado, honesto e dizer sempre a verdade. E o que é ainda mais grave e mais grotesco: elas ainda fazem questão de se manterem sagradas diante dos filhos, como se não tivessem sexo. Com isso, os filhos aprendem que só pode existir amor da cintura para cima.

     O DNA da transmissão social
As mães são o DNA da transmissão social. A função delas é pôr na cabeça das crianças todo o lixo da civilização, que nós criticamos de todos os lados, mas continuamos transmitindo. Então se não houver uma nova mãe não haverá um novo homem.

      Modelo de Mãe
Durante muito tempo eu concordei com todos os psicólogos, dizendo que o problema da criança era a mãe, até que percebi que não são as mães individuais que estão erradas. É o modelo de mãe que está errado. Todas as doutrinas psicoterápicas afirmam que a neurose começa antes dos cinco anos, no lar, quase sempre por influência materna.

(Autor: José Ângelo Gaiarsa, psiquiatra)

Aqui jaz…

Feliz Ano Novo! Embora janeiro já tenha chegado ao fim e o Carnaval seja passado, nunca é tarde para desejar aos leitores tudo de bom em 2016… muita luz, muita força, muita paz, muito sucesso, muito amor… muito tudo de bom e acima de tudo, muuuuita paciência e resignação diante daquilo que não acontecer como se quer ou se espera! Que neste ano possamos entender e exercitar as máximas “Não espere nada de ninguém e, ao mesmo tempo, espere tudo de todo mundo” e “Nesta vida, a dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional!”, assim, não nos magoaremos, não nos frustraremos e vivenciaremos o sofrimento na dose certa!

O primeiro texto do ano traz um assunto urgente e delicado e que serve de alerta a pais e educadores. Vamos conversar um pouquinho sobre suicídio na adolescência.

Segundo pesquisas recentes, a cada ano, 102 adolescentes entre 10 e 14 anos cometem suicídio no Brasil. Estes dados fazem parte das estatísticas oficiais, porém se pensarmos que muitos casos sequer chegam até os hospitais ou autoridades policiais, estes números podem ser muito maiores.

Há dois casos que me chamaram muito atenção ao fazer uma rápida busca na internet.

Um caso é de um adolescente brasileiro de 16 anos e o outro de uma garota canadense de 15 anos.

Ambos tinham tudo que um adolescente pode querer: uma vida familiar estável, pais presentes,  eram bonitos, inteligentes, cultos e ambos foram vítimas de uma ferramenta que é ao mesmo tempo uma benção e uma maldição: a internet.

Vinícius Gageiro Marques morava no Rio Grande do Sul. Era considerado um garoto extremamente inteligente e sensível. Fazia acompanhamento com um analista e estava em internação domiciliar, pois o suicídio era tema recorrente em sua análise. O jovem simulou uma vida normal para os pais para poder ficar sozinho em casa e com a ajuda de internautas que lhe incentivaram e ensinaram algumas técnicas finalizou sua vida no banheiro de sua casa , com milhares de internautas acompanhando o suicídio em tempo real! Uma jovem canadense que algumas vezes cruzava com ele em salas de bate papo sobre música, tentou evitar o pior, ligando para a polícia do Canadá e o policial canadense ligou para a polícia federal brasileira e relatou o que estava acontecendo. Mesmo assim a tragédia não foi evitada.

Amanda Todd foi vítima da internet. Animada pelo pseudoanonimato da internet, ela certa vez mostrou as partes íntimas num grupo de bate papo. Foi o bastante para ter sua vida exposta e julgada nas redes sociais. Mudou de escola, ficou sem amigos, pediu socorro na internet, mas nada aliviou a vergonha causada por um ato cometido aos 12 anos, quando se expos pela primeira vez no cyber espaço. Após três anos e sem saber como retomar auto respeito e o respeito alheio, a jovem pôs fim à própria vida, enforcando-se em sua casa.

Ambos já haviam tentado se matar em outras oportunidades. Ambos buscaram ajuda psicológica. Ambos puseram fim à própria vida.

Passaram por momentos de angústia e depressão. Reclamavam da incompreensão, da solidão e da falta de respeito.

As tragédias destes dois jovens estão na internet e qualquer um que tiver interesse poderá acessá-las, conhecê-las e chocar-se com elas. Assim como estas, há muitas outras histórias de jovens que finalizaram suas vidas num momento de extrema tristeza, solidão e angústia. Eram pessoas que, apesar de ter o conforto material, não sentiam o conforto emocional.

Os especialistas apontam que os principais sintomas que um suicida apresenta são: apatia incomum, letargia, depressão, falta de apetite, insônia persistente, ansiedade ou angústia permanente. Alguns buscam alívio no uso abusivo de álcool, drogas ou remédios. A maioria apresenta grande impulsividade, agressividade, dificuldades de relacionamento e integração na família ou no grupo social, estão presentes o insucesso escolar repentino, o afastamento ou isolamento social e atitudes como despedir-se daqueles que amam, sem que haja qualquer motivo para isso.

As causas podem ser muitas: falta de perspectiva de vida, violência, depressão, bullying, ser portador de transtorno bipolar, por exemplo tornam o jovem mais vulnerável ao suicídio. Porém, acredito que, à exceção de transtornos neuroquímicos de origem genética (como a esquizofrenia ou o transtorno bipolar), a maioria das mortes por suicídio está relacionada à questões de baixa autoestima e de conflitos psíquicos relacionados  a um superego tirano e a um ego frágil, masoquista e com baixa auto estima.

A autoestima caracteriza-se pelo amor que desenvolvemos por nós mesmos. O ideal é que tenhamos uma autoestima estável, entendendo nossas limitações e negociando conosco as formas de superá-las. Autoestima estável está ligada a padrões de comportamento mais empáticos. Assim, quando nossa autoestima está estável, não nos comparamos, não nos magoamos, não nos frustramos e nem queremos agir de forma masoquista nos punindo.

Atentar contra a própria vida é uma forma de punição.

Punição para si mesmo, por estar aquém dos padrões de perfeição estabelecidos para si mesmo; padrões estes que geram uma insistente sensação de inadequação, de menos valia e de culpa.

O suicídio caracteriza a necessidade de auto punir-se por esta imperfeição e por esta culpa, necessidade esta gerada por um superego (juiz, censor) tirano, que cobra condutas do ego baseadas em rígidos padrões de  valores morais (ideal de ego) e de características de personalidade (ego ideal) desenvolvidas pelo indivíduo ao longo do seu processo educacional. Suicidar-se simboliza também uma punição para aqueles que desenvolveram no indivíduo este superego tirano que age por valores morais e idealizações muito rígidos. Ninguém se mata sem querer matar a outrem!

O suicida é alguém extremamente frágil emocionalmente. Sente-se fora de contexto neste mundo e não consegue viver nele, de modo que tirar a própria vida é a solução mais viável.

Não sabemos quem são nossos filhos… muitas vezes achamos que eles são projeções bem sucedidas de nós mesmos e acabamos por educá-los de modo a serem simplesmente o melhor dos melhores e geralmente não percebemos o tamanho da carga que colocamos nos ombros deles.

Este texto não intenciona esgotar o assunto, mas trazê-lo à tona para discutirmos como estamos educando nossos filhos. Nós os educamos para que sejam pessoas de bem, para que tenham valores morais empáticos, para que sejam capazes de fazer escolhas que levem a um padrão mínimo de felicidade e realização, para que tenham tolerância à frustração, para que aprendam a cair e levantar? Ou os educamos para serem a qualquer custo o máximo, o melhor, o mais perfeito, o que ganha sempre… simplesmente o sucesso em forma de ser humano?

Outro ponto importante é o poder de observação de um pai/uma mãe. A intuição… você tem usado estes poderes mágicos que todos os pais dedicados possuem?

Seu filho passa o dia na internet e você dá graças aos céus porque ele está seguro dentro da sua casa e você é um pai/mãe jovem, moderno e respeita a privacidade dele, não fica se intrometendo no que ele faz na net, afinal você não é da geração que nasceu no mundo virtual, nesse aspecto seu filho é seu professor. Além do mais você tem certeza que ele não fará nada errado, certo?

Nota zero para você! Você está pensando de modo ERRADO!!!!

A internet é um mundo onde tudo pode, tudo existe, de bom e de ruim e você como pai/mãe precisa ajudar seu filho a andar por estas terras nunca d’antes navegada.

Dois jovens que podiam ter tudo a ver com o seu filho perderam a vida navegando por este mundo de bênçãos e maldições.

Não seja invasivo, mas seja companheiro, esteja atendo e eduque.

Talvez se os pais de Amanda e Vinícius, tanto quanto os tantos outros pais não tivessem confiado tanto no poder de discernimento dos filhos, eles ainda estivessem por aqui… Ou não. Quem sabe?

Que fique o alerta!

TPVP: Tensão Pré Vestibular dos Pais, você já passou por isso?

Ontem conversando com uma conhecida ela contou sobre a loucura que está sendo para ela a questão dos vestibulares que a filha prestará neste final de ano. Conheço estes bem estes sintomas, são da TPVP: Tensão Pré Vestibular dos Pais!

Esta conhecida é uma mulher super bem resolvida, equilibrada e que entende os conflitos humanos. É psicanalista. Mas ao mesmo tempo é mãe! Sabe aquele ser dotado de complexidades, estranhezas, certezas permeadas por dúvidas, desejos, inseguranças e medos pelas incertezas do futuro dos empréstimos de Deus, aqueles seres que costumamos chamar de filhos? Pois é, eisminha conhecida.

Como mãe ela quer o melhor para a filha, quer que a menina se dê bem, que seja feliz. Como adulta, mulher racional, ela entende que a filha tem capacidade para dar certo e ter um futuro profissional e pessoal de sucesso. Acredita que a vida é inspiração, mas é também suor, esforço, investimento. E parte do problema começa justamente aí.

A filha está tranquila, meio que “deitada em berço esplêndido”, sem muita neura para estudar. Fazendo tudo no seu ritmo, curtindo a vida, acordando tarde e no meio disso tudo, estudando, se preparando para o desafio do vestibular, o desafio de, aos 17 anos, ter que escolher o que fará de seu futuro!

Minha conhecida entende a pressão que esta decisão traz para uma pessoa tão jovem. Ela mesma decidiu há pouco tempo o que a faz feliz profissionalmente. Mas…

Mãe que é mãe é desfocada por natureza. Somo seres emocionais. Por mais racionais que sejamos a maternidade nos amolece, nos faz tirar os pés do chão. Claro que cada mulher é um ser humano único, então isso não acontece com intensidade igual para todas nós, algumas são mais desfocadas que outras! Porém todas as mães que conheço são ansiosas e angustiadas em maior ou menor grau quando o assunto chama-se “filho”.

Na Psicanálise entendemos a angústia e a ansiedade como momentos psicológicos deslocados do presente. A angústia relaciona-se a algo desagradável, que já aconteceu ou pode vir a acontecer, sendo uma reação emocional que decorre das nossas inseguranças e frustrações,  intimamente relacionada à baixa autoestima. A ansiedade por sua vez está ligada ao agradável, a expectativas que temos diante de necessidades não satisfeitas ou decorrentes de vivências de satisfação agradáveis do passado e que desejamos reviver (saudade é o nome poético desta reação emocional!); relaciona-se a estados de autoestima mais elevada. Angústia e ansiedade são sentimentos que se vividos na intensidade certa não causam problemas mais sérios, porém se vividos de forma crônica (sempre e sempre!), causam muito sofrimento emocional aos envolvidos na situação.

Outra parte do problema está na preocupação que minha conhecida tem, e que muitos pais não têm, de saber o limite entre sua preocupação, a invasão exacerbada na vida da filha e os deslocamentos que podem estar interferindo nesse momento.

Vamos tentar entender por partes, embora estas coisas todas estejam super emboladas!

Qual o limite entre preocupação e invasão? É muito tênue! Estar preocupado revela uma ansiedade de futuro grande, ficamos fazendo conjecturas, imaginando tudo que pode dar errado, pensamos que o tempo está passando e que devemos plantar agora para colher depois. Neste caso, a mãe preocupa-se que a filha esteja perdendo um tempo valioso agora, que fará falta ali no frente!

Pais mais desavisados, menos empáticos, transformam a preocupação em invasão. Infernizam a vida dos filhos com cobranças, aumentando ainda mais a pressão do momento.

Muita calma nessa hora, gente boa!

Estes sentimentos fazem parte de um processo natural, mas se você estiver passando por isso de forma exagerada, pise no freio, pois aí pode entrar em cena a Transferência por Deslocamento, que é um mecanismo de defesa ligado à permissividade do ego em relação aos impulsos do id, ou seja, nós o usamos quando aceitamos os impulsos oriundos do inconsciente (nossos recalques!), em termos práticos o deslocamento acontece quando substituímos o principal objeto de satisfação por outro novo objeto. Este processo é inconsciente. Nesta conversa, o deslocamento pode traduzir desejos recalcados dos pais se atualizando sobre os filhos. Na verdade os pais gostariam de viver ou reviver esta fase de suas vidas, refazendo escolhas, revivendo emoções positivas e agradáveis daqueles tempos, evitando erros e situações desagradáveis, entre outras coisinhas.

Se você está vivenciando a TPVP busque entender o que está se passando com você, o motivo que está te fazendo sentir esta fase de modo emocionalmente descontrolado e tente ser mais racional consigo mesma(o), entendendo que seu/sua filho(a) é um ser diferente de você, com direito a escolhas e sofrimentos próprios. Eles precisam de apoio e não de pressão desmedida!

Vestibulares em nossa sociedade significam ritos de passagem para a vida adulta. Trazem consigo inseguranças e medos diante da grandeza do futuro que desponta. Carregam um turbilhão de emoções para os jovens e seus pais. É uma fase que deve ser vivida com a intensidade correta para não se transformar num pesadelo. Acreditem… é um tempo lindo e doloroso, gostoso e trabalhoso. Mas há vida e vida com qualidade após ele, pois novos desafios, descobertas e aprendizados se colocam. Mas esta é uma outra história!

Síndrome do ninho vazio

A síndrome do ninho vazio é um processo natural da vida. Os filhos crescem, deixam a família e vão viver suas vidas. Se tornam independentes e decidem morar sozinhos, seja porque vão casar, cursar uma universidade ou buscar mais autonomia.

O que é a síndrome do ninho vazio?

A solidão física ou mental que atinge os pais ou tutores quando seus filhos/as deixam seus lares é conhecida como a síndrome do ninho vazio. Independentemente de ser homem ou mulher, ter ou não emprego, ou algum outro interesse fora da família, essa etapa evolutiva faz com que os pais se sintam profundamente abatidos, gerando problemas físicos e emocionais.

Tristeza, vazio, sensação de inutilidade, incapacidade de concentração, fadiga, preocupação excessiva, e até sentimento de culpa quando a relação entre pais e filhos é tensa, são os sintomas mais frequentes.Esses sintomas variam de pessoa para pessoa, dependendo de sua personalidade, do estado emocional e até do grau de relacionamento que mantinha com aquele que deixou o lar. É necessário um lento processo de adaptação e mudança diante dessa nova realidade, pois toda a rotina de convivência será modificada, o que poderá causar crises entre os membros familiares envolvidos. É uma fase difícil até mesmo para alguns pais que se sentem satisfeitos por terem cumprido seus papéis para a independência dos filhos.

Desapegar e liberar

É importante ressaltar que toda relação deve ser cultivada, portanto o fato de estarem distantes não significa a perda dos nossos filhos, e sim uma nova forma de convivência com eles. A prevenção é a melhor forma de combatermos a síndrome, evitando o controle excessivo, dando-lhes aos poucos maior autonomia, e mesmo estando presentes, deixando-os tomar suas próprias decisões. Se a sua vida não foi estruturada apenas em torno dos seus filhos, é fácil seguir adiante.

É um processo natural que os filhos saiam de casa. É mais uma etapa de crescimento e evolução, que a princípio pode parecer estranho, causando vazio e solidão. Devemos aceitar como um recomeço, não só para eles que sairão em busca de novos desafios e experiências, mas também para os pais, com um novo conceito de vida e de novas perspectivas. Temos que renovar nossos planos de vida, tanto individuais quanto matrimoniais, enxergar nessa situação que a principio parece negativa, a oportunidade de dedicarmos mais tempo e energia a nós mesmos, em busca de novas experiências e satisfação pessoal.

Nada vai substituir a saída dos filhos, mas é preciso entender que a fase da vida mudou, e se a pessoa não buscar outras fontes de prazer ela pode desenvolver muitas doenças.Não é para ignorar os sintomas, mas sim aceitar a dor, aceitar a saída dos filhos, se adaptar a essa mudança e dar novo sentido para a vida.