Carnaval e Rolezinho… que país é esse?

roleEstamos a poucos dias de uma das festas mais populares do nosso país. O Carnaval é um evento nacional. Multidões se espremendo, pulando, dançando… se divertindo. Liberando o Superego numa boa, afinal “Carnaval é hoje só “ e para ser “feliz e se dar bem” tudo pode!

Tanto brilho, tanta alegria, tanta liberdade… Quanta gente espremida no mesmo espaço.

Gente espremida, cantando, pulando, se divertindo? Carnaval ou Rolezinho?

Hoje, aproveitando os festejos carnavalescos quero falar um pouquinho dessa situação que assombrou os grandes shoppings paulistas recentemente. Em dezembro de 2013 jovens da periferia de São Paulo invadiram o Shopping Metrô Itaquera e o Shopping Guarulhos, causando medo e uma grande confusão. Lojistas se apavoraram, seguranças se atrapalharam e a repressão comeu solta! Não deu outra, o fenômeno se espalhou com a ajuda da internet e virou um pandemônio que fez até a presidente do país entrar em ação.

Tempos modernos!

Os rolezinhos são o resultado de uma “justiça social injusta”, que faz com que os jovens, tão incentivados ao consumo, queiram também um lugar ao sol!

Certo, os convites que bombaram no facebook foram um convite ao pânico das autoridades e dos preconceituosos do país. Após o susto do primeiro rolezinho,foi possível ver páginas e mais páginas do “face” com dizeres rebeldes que convidavam outros jovens a “subir a escada rolante que desce”, “apertar todos os botões do elevador”, “entrar no cinema pela porta de saída”, fazer “guerra de comida”!

Ir ao shopping e “meter bronca” era o passeio ideal e traduzia a insatisfação dos adolescentes da periferia paulista com a falta de uma política de cultura e lazer de qualidade nos bairros focada nesta faixa etária.

Como sempre São Paulo foi a “locomotiva da história”, mas muito provavelmente não foi, nem é a única unidade federativa a ter este tipo de problema. Se puxarmos mais pela memória, lembraremos de episódios como os arrastões nas praias carioca em anos passados.

Muito bem, somos pela ordem e progresso… não queremos a instauração da desordem! Mas… quando lembro do mundo e de alguns movimentos que marcaram a história da humanidade, vejo que eles, guardadas as devidas transformações sociais e tecnológicas, tiveram a atuação maciça de adolescentes! Muitos dos quais hoje condenam e reprimem os rolezinhos.

Que é isso minha gente? Eu tenho um nome para isso: hipocrisia!

Somos uma sociedade hipócrita que anuncia que o Brasil é o país do futuro (ou já foi), mas que quer que os jovens estranhos da perifeira – como se só adolescentes pobres fossem “estranhos”, como se só jovens da periferia participassem deste fenômeno, como se a capacidade de fazer algo impensado fosse só de jovens advindos das camadas populares – permaneçam longe dos nossos olhos e não invadam “nossa”praia… “nosso” shopping,  nossas vidas!

Como mãe e como adulta também condeno a anarquia e a necessidade de impor medo ao se organizarem para a ida em bandos aos shoppings, mas como ser humano, entendo perfeitamente, porque nos idos anos de adolescência, também já busquei um bando e fiz  besteiras apoiadas por ele! Também já quis ter meu lugar ao sol para poder consumir tudo aquilo que as jovens de famílias mais abastadas tinham! Eu também achava que era tendo que eu seria… vista, amada, reconhecida!

Na minha memória seletiva, tudo que eu fiz de errado não foi errado (será?),  lutei com as armas que minha geração tinha e no meu entendimento não fui desordeira, não estraguei nada e…Meu Deus! Quanto cresci fazendo besteirinhas! Me senti a “mais mais”! Mas se perguntassem aos adultos desta época se o que fazíamos era certo, com certeza eles diriam que era uma verdadeira baderna!

Como foi bom para a minha autoestima oscilante “badernar”, quebrar limites, estabelecer novos limites, ser apoiada por um grupo tão infantil e “perdido” quanto eu! Todas as besteiras que minha mãe jamais poderia saber que eu fazia me ajudaram a ser a pessoa que sou hoje, para o bem e para o mal! Transgredir era o máximo! A gente se sentia grande! E isso nos fez crescer, aprender, escolher.

Ouvindo depoimentos de alguns destes jovens, não vejo muita diferença na motivação que existe entre eles e a que existia em minha geração… e se dermos uma busca no passado, nas grandes “rebeliões da juventude”, que marcaram uma época, veremos que ainda somos os mesmos e buscamos a mesma coisa: todo jovem (todo ser humano!) que ser alguém, quer se amado, valorizado, aceito e testa seus limites para crescer, muitas vezes com dor.

Alguns dirão, mas hoje são mais violentos! Será? Pelo que me lembro na minha juventude também existia violência, talvez com uma divulgação menor.

Portanto, atire a primeira pedra aquele que nunca se juntou a outros iguais para exercitar o poder de ser alguém em construção fazendo “besteira”.

Embora a cultura e a sociedade possam dizer que não… na minha cabecinha, Carnaval bem poderia ser chamado de rolezinho… porém regado a muuuuiiiita luxúria e com a permissão da nossa censura!

Me contem… nestas circunstâncias não liberamos o jovem reacionário que um dia fomos?

Nada errado nessa situação. O que precisamos é parar de dar aos jovens falsas lições de morais. Educação se faz com palavras, mas se constrói com exemplos!

Pense nisso e ótimo feriado para você!

Palavras movem, exemplos arrastam

paz-na-escolaSemana passada fui à uma escola fazer uma visita de rotina. No meu trabalho, acompanho as escolas e busco auxiliar a equipe escolar na resolução/melhoria dos problemas que a escola enfrenta.

A escola em questão fica num bairro periférico, numa região de invasão de uma grande cidade do interior de São Paulo. Logo, tem todas as dificuldades e contradições que o entorno social permite.

No dia da visita eu estava resolvendo algumas pendências com a Direção da Escola quando outro membro da equipe escolar chegou solicitando a intervenção do Diretor, que imediatamente largou tudo e foi atender à ocorrência.

A situação era a seguinte: dois colegas de classe haviam se estapeado e um deles deu um soco no nariz do outro e acabou quebrando-o. A solução foi chamar os responsáveis pelos meninos para analisarem a situação e definirem uma sanção aos dois, afinal quando um não quer, dois não brigam, não é?

Enquanto aguardavam a chegada dos pais, os meninos foram levados à sala onde eu estava. Olhei para eles e resolvi tentar entender o que havia ocorrido. Pedi a eles que se apresentassem e me contassem, cada um a seu tempo, os fatos. E assim eles fizeram.

Relataram que tudo começou quando o jovem “A” chegou à escola e o jovem “B” estava sentando em seu lugar. O jovem “B” afirma que não havia nome no lugar e que os alunos sentam onde querem. “A” argumentou que senta no mesmo lugar desde que as aulas começaram e que pediu com educação para “B” sair e ele ignorou. Então “A” resolveu contar um podre de “B” para o pessoal sentado nas imediações, era uma bobeira, mas deixava claro o quanto “B” era infantil! O grande problema foi que “B” não gostou da atitude de “A” e num acesso raivoso, levantou e empurrou o colega, que na defesa acabou dando um soco no nariz de “B”. Sangue e vergonha por todo lado! Ambos foram levados à Diretoria.

A história que me contaram, cada um na sua vez e sem direito de interromper o colega foi a mesma, construída por dois lados de um mesmo fato. O que fez com que “B” ficasse tão irado com “A”, a ponto de agredi-lo, quando se olharmos bem, “B” começou a confusão ao desrespeitar o colega, tomando-lhe o lugar? A resposta é simples: na frente da carteira “roubada” de “A”, senta-se uma linda rapariga… e “B” está enamorado dela… jogando charminho, na intenção de conquistá-la! E o que fez “A” com a imagem que “B” tentava construir? Jogou-a no lixo! Mostrou para a bonitona que “B”, embora quisesse parecer maduro, eram um meninão!

Ah, meu Deus! Imagem arranhada, auto estima abalada! Eis o motivo da agressão. Ambos não souberam respeitar, ambos não trataram o colega como gostariam de ser tratados! Refleti isso com eles e pedi que contassem um para o outro como se sentiram durante o evento e como estavam se sentindo após ele.

“B” estava tão chateado e envergonhado que até queria mudar de escola! Queria ir para Minas Gerais, cidade onde o pai distante mora. Perguntei porquê, afinal não era para tanto, brigas entre colegas são coisas da vida, acontecem cotidianamente e era desnecessário radicalizar! Era só pedirem desculpas e tentar se colocar no lugar do outro antes de perder a cabeça e estourar novamente.

Foi então que me surpreendi! “B” não estava envergonhado por ter desrespeitado o colega, achava que “A” agiu errado ao lhe cobrar o lugar, afinal não tem nome escrito na carteira, o que o incomodava tanto era o fato que ele teria que conviver com a vergonha de ter o nariz quebrado por “A” , bem no meio da classe e na frente da garota que tentava conquistar!

Falei com ele que logo todos esqueceriam a situação e que se ele ainda queria conquistar a gatinha, era preciso se mostrar um “homem de bem”. Acho que chovi no molhado. Logo as mães chegaram e foram todos para outra sala resolver o conflito.

Fiquei pensando na questão. Na verdade me penalizei com a situação de dureza no coração de “B”. Dureza esta gerada pela vida difícil que leva, onde a bondade e o perdão são palavras vazias e muitas vezes sinônimo de fraqueza.

Observei de longe os meninos irem embora juntos com suas mães. Mulheres cansadas, mulheres batalhadoras e… mulheres duras.

Pensei com meus botões que a vida é uma escola e logo me veio à mente exemplos de mães tão sofridas e tão doces, que conseguiram ensinar a seus filhos o valor do perdão e do auto perdão, tão necessários a uma vida emocional equilibrada.

Diga-me uma coisa, você tem ensinado com palavras e exemplos o valor do respeito e do perdão aos seus filhos desde pequeninos?

Estes são valores universais que devem ser aprendidos no exercício constante… como você pai/mãe tem exercitado o respeitar e o perdoar – aos outros e a si mesmo – no dia a dia? Assim como você é e faz, seu filho também será e fará!

Palavras movem, exemplos arrastam.

Educação afetiva, você sabe dar?

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Olá, pessoas bonitas! Depois de uma breve hibernada estou de volta!

Nesta semana gostaria de conversar sobre um assunto “modernoso” (será?) na educação dos nossos filhos. Vamos falar um pouquinho sobre Educação Afetiva.

Segundo a psicóloga Marilda Lipp, Educação Afetiva “é um conjunto de práticas parentais que objetiva, acima de tudo a valorização do ser humano… (nela) os pais dão liberdade, mas sempre estão presentes para atuar, se for necessário”.

Em outras palavras é a forma como, no cotidiano da vida do adolescente, os pais reconhecem, valorizam e incentivam o florescimento do “lado bom” dos filhos, orientando-os de modo que possam fazer escolhas responsáveis e conscientes e, acima de tudo arcar com os resultados destas escolhas.

Pais que educam os filhos desta forma, não os protegem o tempo todo, não lhes dão tudo que querem, ao contrário, possuem a coragem de dizer “não”; deixam os filhos fazerem escolhas, orientando-os para possíveis consequências, estão vigilantes e alertas para o apoio necessário quando os filhos “erram” e valorização e estímulos quando acertam. Não se projetam nos filhos, não tentam suprir suas lacunas emocionais através da vida deles.

Se observarmos o mundo hoje, veremos que carecemos de educadores que promovam uma Educação Afetiva.

Na luta diária que é educar filhos, percebemos que ceder é geralmente a melhor estratégia, se você, pai/mãe, não quiser ganhar um chapéu pontudo preto, uma vassoura voadora e verrugas no nariz; você é vencido pela incansável capacidade que seu “reizinho mandão” tem de colocar o dedo na sua ferida, indo direto ao point da sua culpa. Ah, filhos são seres altamente sagazes, observadores, manipuladores e cruéis quando querem algo! E sabem muito bem como conquistar o que desejam… aprenderam isso com quem mesmo?

Diante da culpa, todo e qualquer pai/mãe menos avisado e emocionalmente mais instável cede e o resultado disso vemos aos montes na mídia, nas ruas, nos shoppings. Filhos de pais permissivos crescem e se tornam adultos ansiosos e com baixa tolerância à frustração, tornam-se depressivos, desenvolvem síndromes mil e são “pessoas metade” (aquelas que precisam receber provisão de segurança e reconhecimento constantemente e usam os outros para isso), altamente infelizes e sofrem e fazem sofrer.

ed2O contrário disso também é um problema! Pais altamente autoritários, com mania de perfeição, geram adultos que têm medo da própria sombra, são inseguros, ansiosos, depressivos, apáticos diante da vida, também desenvolvem síndromes mil, também são “metades”, que sofrem e fazem sofrer.

Como ser um “pai/mãe afetivo(a) e ajudar seu filho adolescente a ser um adulto mais ajustado, mais equilibrado? Esta é uma tarefa trabalhosa, mas possível.

No livro “Adolescentes e seus dilemas”, cuja organização esteve a cargo da psicóloga Marilda Lipp, ela nos dá algumas dicas:

1)       Entenda que a adolescência e toda sua montanha russa emocional um dia passarão. Embora hoje seus filhos pareçam rejeitar todos os valores familiares que você tenta lhe ensinar (pelos exemplos, mais que por palavras), passada a crise adolescente, eles serão incorporados e passarão a ser vivenciados;

2)       Cuide da sua saúde emocional para não correr o risco de transferir e cobrar de seu adolescente sonhos e atitudes que são suas e não dele. Observe também onde você está descarregando seu stress… Lembre-se, os filhos aprendem pela observação, mais que pela audição;

3)       Estabeleça o diálogo, ouvindo o que seu filho adolescente tem a dizer, mesmo que você não concorde. Ajude-o a olhar a situação por diferentes ângulos, dê a ele liberdade de escolha quando for possível. E não tenha medo de dizer não e impor limites quando for necessário. Faça isso sem julgamentos e condenações, estabeleça um juízo de razão, onde você faz um questionamento que promove a reflexão. Trabalhe em você a sua frustração de ser o “desmancha prazeres” e entenda que seu papel é o de educar e proteger, mesmo quando o filho diz não querer;

4)       Aja com segurança. Converse com você mesmo e entenda seus motivos. Converse com seu filho  e construa acordos e regras com a participação dele. E uma vez fechados os acordos, mantenha-os, independente das “alfinetadas” que você receberá na hora que precisar dizer “não”.

5)       Proteja seu filho e, embora pareça polêmico e invasivo, é sua função com o protetor e educador, supervisionar o uso da internet. Temos sido testemunhas do que este mundo maravilhoso e ao mesmo tempo cruel pode fazer com os desavisados. Prevenir os comportamentos é melhor que puní-los!

6)       Esteja inteiro no diálogo. Ouça com atenção, com respeito e cordialidade. Não julgue, não ofenda, não menospreze, não critique. Apresente argumentos que façam seu filho adolescente pensar nas questões sob outra ótica. Dê abertura, mesmo quando o ponto de vista dele o chocar, algumas vezes é só para testar você;

7)       Pratique as Terapias do Abraço e do Elogio. Não custam nada e agradam muuuuito!;

8)       Incentive seu filho adolescente a praticar esportes ou a ter outras atividades que o integrem a outros jovens. Mas não o force, respeite as escolhas dele.

9)       Conheça quem são os amigos de seu filho adolescente e se não tiverem valores morais iguais aos de sua família, ajude-o a repensar essa amizade;

10)    Mostre a seu filho adolescente o quanto a opinião dele é importante nas decisões familiares, isso fortalecerá o vínculo familiar e o fará sentir-se respeitado e integrado.

Em resumo, procure agir de acordo com a máxima cristã que nos ensina a tratar o outro como gostaríamos de ser tratados. Amor, atenção, proteção e respeito são quesitos fundamentais numa Educação Afetiva. Não custam caro, só dependem do seu querer.

Exercite isso! Seu filho e o mundo agradecerão, tenha certeza.