Arte e psicanálise: desejo, amor e morte

UM homem – UMA Mulher: Desejo e a/morte.

Trabalho apresentado na Reunião Laconoamericana de Psicanálise de Buenos Aires 2013.

um homem uma mulher 1966Cineastas, poetas, roteiristas, dramaturgos, atores, diretores, músicos, artistas! Todos esses nos ensinam! A arte nos ensina, da DOR, fazer arte! Muitas vezes, de forma poética eles trazem um discurso sobre o desejo, amor, como também a morte. Ousam definir um abismo intransponível que separa o homem da mulher.

São sempre vivos em nossos consultórios. Como alguns filmes são eternos, não importa, se cronologicamente já se passaram quarenta e sete anos, no discurso do analisante, o filme é atual.

Um homem, uma Mulher é um filme francês, de 1966, dirigido por Claude Lelouch. E muito esse filme tem a ensinar, dizer e a tornar claro a teoria. Por quê? Me diz esse analisante em várias sessões e de todas as formas:

“o filme é lindo! É lindo porque o amor é aquilo ali! Nada mais que aquilo! Há uma impossibilidade de nós homens chegarmos até uma mulher! As mulheres são muito complicadas, cultivam os mortos, cultivam o passado e se esquecem de viver!”

Nas sessões que seguem o analisante vai contando a história do filme e se vê na tela projetiva do cinema. Diz, que ele se parece com o piloto de corrida Jean – Louis Duroc (Jean – Louis Trintignant), porque assim como o personagem do filme, é um viúvo que todos dias leva o filho para escola. E na reunião de pais, conheceu uma mulher, mãe de uma criança, colega de escola do filho. Assim começam as semelhanças e os entrelaçamentos da vida desse analisante com os protagonistas do filme de Claude Lelouch. O filme é um clássico, está na qualificação daqueles, que podemos chamar de obra de arte: situa a relação sexual como impossível, preocupado em mostrar o que falta à completude desejada, porém jamais obtida pelos sujeitos. Ganhador do Oscar em 1967, venceu nas categorias de melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original. Indicado nas categorias de melhor atriz (Anouk Aimée) e melhor diretor. Vencedor do Festival de Cannes em 1966 (França) e do Globo de Ouro em 1967 (EUA) nas categorias de melhor filme estrangeiro e melhor atriz de cinema – drama (Anouk Aimée). Indicado nas categorias de melhor diretor de cinema, melhor trilha sonora e melhor canção para cinema. Em 1968, BAFTA, no Reino Unido, venceu na categoria de melhor atriz estrangeira e foi indicado na categoria de melhor filme de qualquer origem. Claude Lelouch, argumentista, produtor e realizador de cinema francês que com maestria e delicadeza dirige e o produz esse filme, se eterniza por todas as gerações. Tem algo de interessante no cinema, que de certa forma captura o espectador, pois ele ousa definir e se impor

como uma linguagem privilegiada para a veiculação de um saber sobre o amor e o sexo. Seja pela duração média de um filme, cujo tempo imprime um ritmo preciso que exige que, tal como uma fantasia onírica, uma história seja contada com rapidez do princípio ao fim; seja pela estrutura envolvente da narrativa cinematográfica, com seu poderoso apelo simultâneo à imagem, à palavra, à música e a tantos outros recurso cênicos; (JORGE, 2012, p. 175)

Foi nesse ritmo que o diretor Lelouch utilizou a cor para localizar os espectadores no tempo, há quem escreva, que por falta de dinheiro na época, o diretor intercala cenas coloridas, com cenas em preto e branco. Efeito esse que em psicanálise, permite ter uma outra leitura e analisar: o colorido representa as lembranças, vivas! Presentes! Enquanto que as cenas em preto e branco, são as cenas cotidianas. O jogo de cores, faz efeito analítico. Pois diversas vezes escutamos em nossos consultórios:

“o passado está vivo! Enquanto minha vida na cena cotidiana…em preto e branco se apresenta.”

As cenas coloridas do filme, são as cenas, que Anne (Anouk Aimée) fala para Jean – Louis (Jean-Louis Trintignant) a respeito do seu esposo. Sim, Anne, conta a sua história para Jean – Louis, pois ambos, antes de se envolverem sexualmente, tornaram-se amigos. Como? um homem uma mulher 1986 O piloto de corridas Jean-Louis Duroc e Anne Gauthier, dois viúvos recentes, encontram-se por acaso quando visitam seus respectivos filhos num colégio interno, e isso se repete todos os finais de semana. Um dia, Anne perde o trem e Jean-Louis oferece-lhe uma carona de volta a Paris, eles acabam por se tornar amigos e depois aparentemente enamorados, mas…. as lembranças do cônjuge falecido ainda são muito fortes para Anne. O que a psicanálise pode nos dizer sobre isso? Não sou roteirista, logo, não tenho roteiro fixo e nada sei. Mas já li em algum lugar da psicanálise, que para uma história de amor acontecer…..é porque duas fantasias se cruzaram! Só isso, nada mais que isso! Até porque, o amor é uma grande fantasia! Duas fantasias se cruzam em determinado momento, e aquilo, que é do sujeito, ele transfere para o Outro. Podemos dizer que isso é amor! O amor, está na capacidade que o sujeito tem de DAR….de dar o DOM, que é do sujeito e nada mais que isto, porque o Outro é sempre uma invenção. O objeto amado é criado, inventado, muitas vezes transformado por quem ama. Por isso que amar, é também muitas vezes morrer. Ir junto com quem se ama, não é ilusório ou impossível. Quantos mortos ainda estão vivos se fazendo presente em suas vidas. Assim acontece com Jean – Louis e Anne, ambos viúvos, Jean Louis, piloto de corridas, viúvo, pois sua esposa suicida-se por acreditar que em um dos seus acidentes de corrida, ele não teria recuperação e assim, a mesma não suportaria, viver sem Jean – Louis. Anne por sua vez viúva, vivendo o luto pela morte do marido, fala dele como se este ainda vivo estivesse. E em uma das cenas descreve a sua admiração:

“ele é dublê de filme, ator, ele me levou ao Brasil e me apresentou o Samba, sem em eu nunca ter ido ao Brasil. Ele se dizia o Francês mais brasileiro que existia, assim como Vinícius de Moraes se dizia o branco mais preto do Brasil.”

Para amar, é preciso antes de mais nada admirar, e não especificamente o Outro, mas o seu mundo. Sim, nos enamorados pelo mundo que o Outro pode nos oferecer. Percebemos a ligação entre Anne e seu esposo falecido: ela roteirista, ele ator, dublê – há uma parceria entre mundos. E nessa cena colorida do filme em que Anne descreve para Jean Louis a sua admiração pelo seu marido, como trilha sonora temos o nosso poeta Vinicius de Moraes juntamente com Baden Powell, em uma das suas parcerias mais lindas, poéticas e viva para descrever uma mulher….

Senão é como amar uma mulher só linda. E daí? Uma mulher tem que ter. Qualquer coisa além de beleza. Qualquer coisa de triste. Qualquer coisa que chora. Qualquer coisa que sente saudade. Um molejo de amor machucado. Uma beleza que vem da tristeza. De se saber mulher. Feita apenas para amar. Para sofrer pelo seu amor. E pra ser só perdão.

(MORAIS, Vinicius & POWELL, Baden. Samba da Benção, 1966.)

jacques lacanSim, uma mulher é não – toda. Há uma porção da mulher que não pode ser tocada pelo homem, permanecendo sempre virgem, intocada. O homem pode até possuir uma mulher falicamente, mas, não – toda! O não – todo é o que a há especifica enquanto mulher – impede que ela seja toda possuída. É o que Lacan (foto) introduziu em seu seminário livro 20: mais, ainda é uma seminário que fala do amor, bem como da sexualidade feminina. As afirmativas polêmicas de Lacan da década de setenta: A mulher não existe e não há relação sexual, Melman (2004) muito claramente nos afirmou: Para um homem, a imagem de uma mulher é o suporte desse objeto pequeno a, quer dizer, objeto de sua fantasia. Ou seja, mais uma vez é a parte do corpo da mulher, aqui parte imaginária, que vai ser o suporte do desejo. O que significa portanto, dizer que a relação sexual se estabelece não entre dois parceiros, que vão reciprocamente gozar de seus corpos, mas entre dois objetos que não são os mesmos para um e nem para o outro. As cenas passam, e entre tantas idas e vindas de Deauville – Paris; os amigos trocam suas confidências, os fins de semanas passam a ser divertidos com (ou sem) seus respectivos filhos. Eis que da amizade, surge o desejo de um homem para uma mulher; e vice-versa. Mas também com o desejo, eis que chega a inquietude e confusão. O desejo é, enquanto tal, irrepreensível e inominável; só há desejo se houver falta. Desejar é manter-se vivo, e talvez seja mais importante desejar do que realizar o desejo. É algo meio “louco” e repetitivo, mas na verdade o desejo almeja sua preservação, ele é desejo de desejo e, assim mantêm distância de sua própria realização. (Jorge, 2012) Nessa esfera do desejo, Anne, quando Jean Louis vence a corrida de carros, o passa um telegrama com os seguintes significantes: “Parabéns! Amo você. Anne”, o mesmo por sua vez, ao receber a mensagem, deixa todas as comemorações e seus amigos numa mesa de bar, enfrenta a noite e uma longa estrada para encontrar sua amada – amiga em Paris. Mas, não há nada de simples no desejo. Ao passo que Anne envia para Jean- Louis um telegrama, a relação é paradoxal. Algo constante entre “o feminino e o masculino: o amor próprio ao campo do feminino barra o gozo sexual inerente ao campo do masculino. Nessa tensão entre ambos, se situa o desejo e a castração”. (Jorge, 2012, p.172) E no ato sexual, as cenas em preto branco entre Anne e Jean-Louis, intercalam com cenas coloridas, recordações vivas que Anne possui do esposo falecido. Jean – Louis estranha o comportamento da parceira, pergunta o motivo e então ela responde: “Por causa do meu marido”; Jean – Louis pontua: “mas ele está morto.” Anne apenas diz que não, mesmo sem palavras…. freudPara Anne, o marido morto, ainda estava vivo. Eram recordações ainda não sepultadas, questões da própria Anne que naquele momento, Jean – Louis não poderia dar conta. Freud em 1910 em Um tipo de escolha de objeto feita pelo homem (Contribuições à Psicologia do Amor I); apontou como primeira condição para o amor a seguinte questão:

A primeira dessas condições para o amor pode ser designada como realmente específica; tão logo é encontrada, deve-se aguardar a presença das outras características desse tipo. É possível chamá-la de condição de um “terceiro prejudicado”; consiste em que o interessado nunca toma por objeto amoroso uma mulher que esteja livre, isto é, solteira ou sozinha, mas apenas uma mulher sobre a qual outro homem possa ter direitos, como noivo, marido ou namorado. Tal condição mostra-se inexorável, em alguns casos, que uma mulher poder ser ignorada ou mesmo desprezada, enquanto não pertence a ninguém, e logo se tornar objeto de paixão, ao estabelecer relação de um daqueles tipos com outro homem. (FREUD [1910] 2013; p.336)

Jean – Louis, seria o preterido em um determinado momento após despedir-se de Anne, ficou a pensar: “Não entendo nada de psicologia feminina. O marido de Anne deve ter sido um grande homem, talvez se fosse vivo…virasse um velho idiota, mas virou um grande cara e sempre será um cara formidável”… devaneia pensando nas mil e umas possibilidades. Quando na verdade podemos imaginar, que nesse momento, entram em cena as questões de Jean – Louis; pois….o amor parece que é afirmado diante da possibilidade do desaparecimento. É a aspiração de um mais além da morte, à perpetuação da vida além da morte. “Trata-se, nesse caso de afirmar o simbólico em toda a sua potência e, com isso, produzir um anteparo para o real”. (Jorge, 2012, p.174). E esse real, que naquele momento Anne não poderia viver com Jean – Louis, porque, Lacan vai um pouco além quando pontuou que não há relação sexual, pois não é o corpo da mulher enquanto tal que interessa a um homem, mas esse objeto pequeno a, objeto de sua fantasia que lhe empresta. E para uma mulher, da mesma maneira, é um objeto preciso do corpo do homem que lhe interessam e é exatamente por isso que, na relação sexual, cada um dos dois parceiros tem o sentimento de que sua existência enquanto tal, enquanto sujeito, não é reconhecida, que não é isso que interessa ao outro. Acrescentou Melman (2004), na verdade, apenas o re- afirmando: é a fantasia que sustenta uma relação sexual. Caso essa fantasia seja inexistente, serão apenas dois corpos estirados em cima de uma cama. Acredito: na verdade não fazemos amor com corpos….. mas sim, com idéias e são por esses mundos e idéias que as pessoas se enamoram e fazem amor. Talvez seja por isso, que não raro, a morte sobrevenha de forma natural após a perda do amor: “sem o amor, Tânatos toma conta de todo território que antes pertencia a Eros”. (Jorge, 2012, p. 172) Mas entre a pulsão de morte e a pulsão de vida, embora Freud, em Os Instintos e seus Destinos ([1915]2010) defina que a pulsão morte é responsável pela tendência ao retorno a um estado anterior, e a vida tende a retornar à morte. Em nossa prática clínica escutamos: quem é da vida? É também da morte. E qual a relação entre AMOR E MORTE? Ainda preciso perguntar a vocês? Quem ama….um dia morre….embora ressuscite em novos amores, mas amar…é dar o que não se tem a alguém que não o é. Amar é a capacidade de dar…de dar o DOM, que DOM? Um DOM, um dó que antecede uma escala simples, sem nenhum sustenido ou bemol, podemos pensar numa pauta, antecedida por uma clave de sol; significante este, que aponta para um vida. Ainda que toquemos seguidamente esta simples escala: dó – ré – mi – fá – sol –lá – si viciosamente há que se terminar no dó. E dó? Dó de quem? Dó do que? Dó de que escala? E o M que está a posterior do D – O + M = DOM. M de morte ou de Melancolia? No século XX, Sigmund Freud retoma a palavra melancolia para garantir–lhe um espaço no campo da sua invenção: a psicanálise. Segundo Peres (2012) invenção que bordeja arte e ciência, lamento e criação, capaz de acolher as “dores da alma”, gravadas na singularidade das marcas que definem a fortuna de cada ser humano. vinicius-por-david-zinggEssa fortuna consequentemente, gera um tormento de difícil tradução, pois não se alcança o enigma de nossa existência, que se trama na vicissitude das perdas e seus respectivos lutos. Mas lutos precisam ser vividos, é preciso sangrar, é preciso sentir dor, porque até para fazer samba, Vinícius de Moraes já nos fez sua chamada:

Porque o samba é a tristeza que balança E a tristeza tem sempre uma esperança A tristeza tem sempre uma esperança De um dia não ser mais triste não Falado Feito essa gente que anda por aí Brincando com a vida Cuidado, companheiro! A vida é pra valer E não se engane não, tem uma só Duas mesmo que é bom Ninguém vai me dizer que tem Sem provar muito bem provado Com certidão passada em cartório do céu E assinado embaixo: Deus E com firma reconhecida! A vida não é brincadeira, amigo A vida é arte do encontro Embora haja tanto desencontro pela vida Há sempre uma mulher à sua espera Com os olhos cheios de carinho E as mãos cheias de perdão Ponha um pouco de amor na sua vida Como no seu samba Cantado Ponha um pouco de amor numa cadência E vai ver que ninguém no mundo vence A beleza que tem um samba, não Porque o samba nasceu lá na Bahia E se hoje ele é branco na poesia Se hoje ele é branco na poesia Ele é negro demais no coração Falado Eu, por exemplo, o capitão do mato Vinicius de Moraes Poeta e diplomata O branco mais preto do Brasil Na linha direta de Xangô, saravá! A bênção, Senhora A maior ialorixá da Bahia Terra de Caymmi e João Gilberto A bênção, Pixinguinha Tu que choraste na flauta Todas as minhas mágoas de amor A bênção, Sinhô, a benção, Cartola A bênção, Ismael Silva Sua bênção, Heitor dos Prazeres A bênção, Nelson Cavaquinho A bênção, Geraldo Pereira A bênção, meu bom Cyro Monteiro Você, sobrinho de Nonô A bênção, Noel, sua bênção, Ary A bênção, todos os grandes Sambistas do Brasil Branco, preto, mulato Lindo como a pele macia de Oxum A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim Parceiro e amigo querido Que já viajaste tantas canções comigo E ainda há tantas por viajar A bênção, Carlinhos Lyra Parceiro cem por cento Você que une a ação ao sentimento E ao pensamento A bênção, a bênção, Baden Powell Amigo novo, parceiro novo Que fizeste este samba comigo A bênção, amigo A bênção, maestro Moacir Santos Não és um só, és tantos como O meu Brasil de todos os santos Inclusive meu São Sebastião Saravá! A bênção, que eu vou partir Eu vou ter que dizer adeus

Para mim, no ano do seu centenário, eis aqui neste trabalho, uma homenagem ao Bacharel em letras, em direito, diplomata, ao branco mais negro do Brasil, ao nosso eterno poeta, quem mais nos ensinou sobre o amor, e a vida. A esse homem, que casou nove vezes e amou muito, a esse homem que entendeu da alma feminina como ninguém. E é o próprio Vinícius de Moraes que em outra canção chamada de “Pra que chorar” nos deixou um legado:

Pra que chorar Se o sol já vai raiar Se o dia vai amanhecer Pra que sofrer Se a lua vai nascer É só o sol se pôr Pra que chorar Se existe amor A questão é só de dar A questão é só de dor Quem não chorou Quem não se lastimou Não pode nunca mais dizer Pra que chorar Pra que sofrer Se há sempre um novo amor Em cada novo amanhecer

um homem uma mulher filmeSerá que depois da voz do poeta, ainda preciso dizer mais alguma coisa? Desejam saber o fim do filme? Para mim, a versão do filme de 1966 é uma obra de arte, e obras de artes no cinema, não estão preocupadas com “final feliz” e sim, em mostrar o que falta à completude desejada; talvez por isso fique a cargo do espectador a dúvida se Anne e Jean – Louis terminam ou não juntos….ainda que Jean Louis vá ao encontro de Anne na estação de metrô em Paris….o filme…acaba…e naquele ano de 1966, não temos como saber se ficaram ou não juntos. Vinte anos depois o mesmo diretor e os mesmo atores reaparecem em cena para contar a história de “Um homem e uma mulher, 20 anos depois” – em 1986, talvez o filme não mais estivesse no estilo das obras de artes. Mas….isso fica para posteriores escritas, por hoje, fico com a obra de arte, com Vinicius de Morais me dizendo que….se a questão é só de dar e dor….há sempre um novo amor…em cada amanhecer!

Referências:
FREUD, Sigmund. Os Institutos e seus Destinos (1915). In: Obras completas, volume 12: Introdução ao Narcisismo: ensaios sobre a metapsicologia e outros textos (1914 – 1916)/ Sigmund Freud; tradução e notas de Paulo César de Souza – 1ª ed. - São Paulo: Companhia das, 2010, p.51 – 81.
FREUD, Sigmund. Um tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem. (Contribuições à Psicologia do Amor I) (1910). In: Obras completas, volume 9: observações sobre um caso de neurose obsessiva [“o homem dos ratos”], uma recordação de infância de Leonardo da Vinci e outros textos (1909 – 1910)/ Sigmund Freud; tradução e notas de Paulo César de Souza – 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.334 – 346.
JORGE, Marco Antonio Coutinho. Amor e Morte. In: JORGE, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da psicanálise de Freud à Lacan, vol. 2: a clínica da fantasia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p . 159 – 179.
LACAN, Jacques. Seminário livro 18: de um discurso que não fosse semblante(1971). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 2009.
LACAN, Jacques. Seminário livro 20: mais, ainda. (1972 – 1973) 3ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.
LELOUCH, Claude. Biografia, filmografia. In: http://www.adorocinema.com Acesso em 21 de outubro de 2013.
MELMAN, Charles. Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem? Ed. Tempo Freudiano, Rio de Janeiro, RJ. 2004.
MORAES, Vinicius e POWELL, Baden. Samba de Benção, 1966. In: http: // www. viniciusdemoaris.com.br Acesso em 21 de outubro de 2013.
PERES, Urania Tourinho. Uma ferida a sangra-lhe a alma. In: FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. São Paulo: Cosac Nanify, 2011, p. 100 – 137.
Filmes:
Um Homem e uma Mulher, 1966, de Claude Lelouch.
Um Homem e uma Mulher, 20 anos depois, 1986, de Claude Lelouch.

ALZHEIMER: O CESSAR LENTO DA MEMÓRIA, NÃO DOS LAÇOS AFETIVOS

“Alzheimer apaga a memória, não os sentimentos” – Pasqual Maragall –

A população mundial está ficando mais velha. Em países desenvolvidos a expectativa de vida ultrapassa os 82 anos.

Contudo, com o envelhecimento da população há uma maior incidência de doenças crônicas degenerativas, entre elas as demências, sendo a Doença de Alzheimer a forma mais comum de demência.

A doença de Alzheimer (DA) é essencialmente uma síndrome neurológica degenerativa, progressiva e irreversível. A DA deteriora as funções cognitivas – memória, orientação, atenção e linguagem – causada pela morte de células cerebrais.

Esta deterioração interfere diretamente na autonomia e na qualidade de vida do indivíduo, impactando significantemente suas atividades cotidianas.

A DA também impacta a vida dos familiares e/ou pessoas que se dispõem a cuidar desse paciente.

Com efeito, cuidar de um ente querido acometido com DA configura uma responsabilidade, um desafio diário diante da vivência do luto antecipatório, e uma constante reafirmação dos laços de afeto e amor para com aquela pessoa.

Silvana Aquino, psicóloga com vasta experiência em cuidados paliativos e uma estudiosa dos assuntos que permeiam a morte e o morrer, conta-nos por meio de um texto belíssimo como foi para ela cuidar de sua mãe que possuía a doença de Alzheimer e sua vivência do luto antecipatório.

“DAME VALENTINA”

“- Não tenho boas notícias para te dar…
– O que a minha mãe tem?
– Sua mãe tem doença de Alzheimer.
– E qual o tratamento?
– Prozac e amor.

Tive esse breve e impactante diálogo com o médico neurologista que acabara de fechar o diagnóstico da doença de minha mãe. O ano era 1994. Os sintomas haviam se intensificado nos últimos meses e era visível o seu desconforto com as alterações que ocorriam em sua mente confusa.

Ali começava também o meu longo processo de luto. Não poderia dimensionar o quão severamente estaria ameaçada a sua marcante presença em minha vida. Ainda não podia prever as inúmeras perdas, simbólicas e concretas, que a doença progressiva e incurável nos traria ao longo dos 26 anos que convivemos com a degeneração gradativa e despersonalizante de suas funções.

Olhei para ela e percebi a tristeza cortante em seus olhos. E, neles, vi o meu próprio reflexo, carregado de pesar, temor e impotência diante de um diagnóstico ainda tão pouco conhecido, mas já presente na história de nossa família, cuja lembrança nos parecia devastadora.

Por muitos anos, encontrei sérias dificuldades para lidar com as mudanças relacionadas às várias etapas que se sucediam e que falavam a respeito da piora inevitável da doença. Vivi um forte sentimento de desamparo, pois ainda sentia uma grande necessidade de receber cuidados e orientações para a minha vida, que ainda florescia.

Era jovem e havia terminado a graduação em Psicologia, ao mesmo tempo em que ingressava no Mestrado e me preparava para casar. Vida nova, cheia de desafios e incertezas. Olhava para ela, e tudo o que eu queria era ouvir seus conselhos e contar com seu apoio, mas tudo o que ela precisava era que eu lhe ajudasse no banho e vestisse as suas roupas, porque ela simplesmente não sabia o que fazer com elas. Dali para a frente era ela quem contava com o meu apoio.

O progresso do Alzheimer desintegrou as experiências mais significativas de nossas vidas. Chorei a cada dia que amanhecia e que percebia uma memória a menos, uma tarefa simples que ela já não era capaz de executar sem a ajuda de terceiros, as bruscas e desesperadoras alterações de humor, tão duramente incompatíveis com sua doçura constante.

Perdemos nossas tardes após o almoço, quando nos deitávamos juntas para folhear as páginas do jornal, perdi seus bolinhos de chuva (os melhores que já comi), e que ela preparava carinhosamente para receber minhas colegas da escola.

Perdi a possibilidade de ouvir sua linda voz, cantando Benito di Paula, enquanto arrumava a nossa casa. Perdi a possibilidade de ser reconhecida quando ela passou a me olhar e a não me ver como sua filha, tão amada. Perdi a experiência de testemunhar sua alegria com o nascimento de seus netos, cujo crescimento ela não acompanhou. Foram eles que acompanharam o seu declínio.

Após o nascimento do meu primeiro filho, ela apresentou um quadro clínico agudo, que a levou ao CTI. Naquele instante, quando percebi a ameaça de perdê-la, fui tomada por um intenso processo de ampliação de consciência, que me fez substituir a revolta e a impaciência pela compreensão de que ela não tinha escolha para fazer diferente. Mas eu tinha.

Conversei com meu pai, também afetado e confuso por todas as transformações que a doença trazia para as nossas vidas, e a partir da data de sua alta hospitalar e de seu retorno para casa, após 10 dias de internação, decidimos que assumiríamos, definitivamente, o lugar do cuidado na medida exata de sua necessidade.

Desenvolvemos um forte sentimento de solidariedade e ajuda mútua, aprofundamos nossa dimensão espiritual e utilizamos os nossos recursos emocionais para fortalecer nossos laços de afeto.

Investidos de uma atitude empática diante das suas dificuldades, decretamos que a partir daquele dia aprenderíamos a usar o bom humor para rirmos de nossas limitações e humanizarmos profundamente nossa relação com ela.

Vivemos intensamente cada dia em que estivemos ao seu lado. Comemoramos cada aniversário, porque sabíamos que era o que ela gostaria que fizéssemos. E me dei conta de que, apesar de a doença ter se manifestado numa fase tão precoce da sua vida e no final da minha adolescência, ela já tinha me deixado uma grande reserva de lições e ensinamentos, que eu não poderia desperdiçar. Além de um amor incomensurável e incondicional.

Numa manhã, em 2004, quando eu já havia sido apresentada aos Cuidados Paliativos como parte de minha formação profissional e o praticava diariamente nos cuidados com ela, recebi o seu último presente. Antes de sair de casa para mais um dia de trabalho, como era de costume, fui ao seu leito para lhe desejar um bom dia e pedir a sua bênção.

Ela estava especialmente desperta naquele dia. Olhou para mim, com olhos alegres e comovidos e disse: “minha filha!” Caí num pranto profundo, o mesmo que me toma agora, quando resgato essa lembrança. Fazia 4 anos que ela não emitia um único som!

Foi a última vez que ela falou. Mas ali tive a certeza de que, se o Alzheimer destrói conexões neurais, ele não é capaz de atingir conexões afetivas.

A última fase da doença durou 15 anos, contrariando as estatísticas que estimam de 1 a 3 anos para a sua fase final. Viveu esse longo período acamada, com alimentação exclusiva pela gastrostomia, cuidada quase que 100% do tempo em domicílio, com ajuda de cuidadoras e serviço de home care, com internações pontuais apenas para o controle de sintomas por intercorrências inevitáveis.

Aos 17 dias do mês de setembro do ano de 2015, no início da noite, minha mãe partiu. Meu pai me telefonou avisando que ela não reagia ao seu toque. Cheguei a casa logo em seguida e pude constatar sua expressão serena, apesar do seu corpo inerte. Também a morte tem a sua expressão.

Chorei copiosamente por alguns instantes, sentindo um misto de tristeza e alívio. Seu longo processo degenerativo chegava ao fim. Agradeci imensamente a Deus por sua partida ter ocorrido exatamente como imaginávamos: sem dor aparente, sem tratamentos fúteis e invasivos, em seu leito, no aconchego de sua casa, perto da gente.

Meu marido, grande parceiro ao longo de todos estes anos, tratou de tomar as providências para resolver as questões práticas para o funeral. Optamos pela cremação e fizemos uma bela despedida, à altura da beleza que foi a sua vida. Depositamos suas cinzas no Alto da Boa Vista, na Floresta da Tijuca, lugar pelo qual ela tinha verdadeira adoração. Foi a forma que encontrei de integrá-la àquela atmosfera de natureza exuberante e significativa para a sua história.

Minha mãe marcou a vida de muitas pessoas, sempre bondosa, conselheira, amante dos estudos e grande incentivadora para que eu chegasse o mais longe possível em minha formação. Lembro-me de seu empenho e de seu investimento quando iniciei a faculdade. Já doente, durante os períodos de lucidez, ela sempre dizia: “Minha filha, se você tiver a vontade de estudar que eu tive e não pude, vou fazer de tudo para te proporcionar condições para que você conquiste o seu lugar. Mulher negra e pobre precisa se dedicar em dobro para conseguir o que deseja”. Nunca me esqueci disso.

O Alzheimer apagou a sua memória, mas jamais nos distanciou. Pelo contrário, nunca estivemos tão ligados uns aos outros, pois entendíamos que a doença era uma grande oportunidade de ampliar o significado que se atribui à vida em família. Somos todos passageiros e companheiros de uma jornada finita, e essa é a nossa única chance de fazermos desta travessia uma experiência transformadora e inesquecível.

Contar a sua história e registrá-la em escritos é a forma que encontro de elaborar o meu luto. Quando a saudade aperta, subo o Alto e inspiro o ar puro que circula entre a vegetação. Ali, o oxigênio tem uma pitada de afeto materno, que renova as minhas forças. Sinto-me muito grata e honrada pela oportunidade de encontrar com essa mulher admirável que minha mãe foi. Sua presença segue comigo todos os dias, porque o seu legado vive dentro de mim”.

Texto escrito por Silvana Aquino filha da dona Valentina

O relato de Silvana reafirma que a doença de Alzheimer jamais será capaz de apagar os laços afetivos entre nós e aqueles que amamos.

Obrigada Silvana!

Este post teve a colaboração de Silvana Maria Aquino da Silva, Psicóloga, Mestre em Sexologia pela Universidade Gama Filho, Especialista em Psicologia Oncológica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), Docente do Curso de Extensão em Psico-Oncologia e Tanatologia da PUC- Rio. Atualmente ela trabalha no Grupo COI – Clínicas Oncológicas Integradas.

Referências:
MARINS, AMF; HANSEL, CG; DA SILVA, J. Mudanças de comportamento em idosos com Doença de Alzheimer e sobrecarga para o cuidador. Esc. Anna Nery, Rio de Janeiro, v. 20, n. 2, p. 352-356, junho 2016. Available from
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-81452016000200352&lng=en&nrm=iso
FERNANDEZ-CALVO, B et al. Resilience in caregivers of persons with Alzheimer’s disease: A human condition to overcome caregiver vulnerability. Estud. psicol. Natal, v. 21, n. 2, p. 125-133, junho 2016. Available from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2016000200125&lng=en&nrm=iso.
Oliveira, KSA, Lucena, MCMD, Alchieri, JC. Estresse em cuidadores de pacientes com Alzheimer: uma revisão de literatura. Estudos e Pesquisas em Psicologia. Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p. 47-64, 2014. http://pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v14n1/v14n1a04.pdf
Organização Mundial da Saúde (OMS). OMS: Expectativa de vida subiu 5 anos desde 2000, mas desigualdades na saúde persistem.19 de maio 2016. Available from
http://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5102:oms-expectativa-de-vida-subiu-5-anos-desde-2000-mas-desigualdades-na-saude-persistem&Itemid=839

DOS MOTIVOS QUE ME FAZEM TE AMAR

Tenho um costume meio sádico de, toda vez em que brigo com ela, pegar as nossas conversas antigas e relê-las.

Fico reparando como a gente alongava as vogais nos “bom dia”, como as palavras “saudade” e “olá” já pareciam ser mandadas com tanto carinho.

Mesmo sendo tudo digital, qualquer um que lesse poderia sentir o tanto de sentimento que havia naqueles bits. E mesmo parecendo um tanto maluco, eu sempre fazia isso pra relembrar os motivos que me fizeram amar essa mulher.

Sempre descubro que me sobram motivos pra isso.

É verdade que a gente, às vezes, briga por nada. Mas qual é o casal que não faz isso? Qual casal que leva a sua relação de forma tão chata que não tem uma briguinha causada por ciúme? Me diz quem é que nunca se desentendeu e fez beicinho?

Somos normais até demais. Eu, inclusive, já a chamei algumas vezes de maluca. Ela, do outro lado, em outras ocasiões também já me deu umas patadas bem dadas. E assim a gente vai se entendendo com esse amor.

Só que da última vez que brigamos, eu segui o mesmo proceder com uma única diferença: mandei pra ela uma conversa que tivemos logo depois do nosso primeiro encontro. A intenção, claro, era das melhores. O resultado é que não foi o esperado.

Primeiro, ela me chamou de chantagista emocional. Segundo, pediu pra eu fosse dormir e pensasse direitinho no que tinha acabado de fazer. E, terceiro, disse com todas as palavras “não quero mais falar com você”.

O que eu fiz de tão grave?, pensei assustado.

Obviamente puto da vida, fui deitar. Aliás, eu estou contando isso tudo aqui, mas não faço ideia do motivo causador da briga. Acho que era alguma coisa relacionada ao fato dela querer viajar pra um lugar, eu não ter dado muita bola pra isso e, por fim, ela dizer que era sempre assim mesmo e não dava ouvidos pra ela.

Se eu estava errado não interessava. Na cabeça dela, eu estava. E isso bastava.

Quando estava quase pegando no sono, decidi voltar àquelas conversas antigas. Achei um outro trechinho e mandei. E desliguei o celular. Fui dormir. Acordei meia hora depois com alguém esmurrando a porta do apartamento e interfonando e ligando pro telefone daqui de casa. Abri a porta e ela pulou no meu pescoço. Caímos os dois, ela por cima de mim, e levei logo um tapa no braço enquanto ela gritava “eu te amo, seu idiota”. E a gente se beijou e fez amor ali mesmo, no meio da sala.

O que dizia a conversa que eu tinha enviado? Era algo simples até demais.

“Vai chegar um dia em que brigaremos por nada e tudo será motivo pra pensarmos em desistir. Pode até ser que, agora, inebriados pelo gosto bom do início, pensemos que isso é impossível. Mas, acredite, acontecerá. Esqueceremos as risadas, os momentos bons e o que construímos. Instalaremos um problema e, eu sei, faremos uma tempestade num copo d’água. Então, será nessa hora, que não poderemos nos esquecer do principal: o Amor que nos uniu.”

E que, pelo visto, nos une até hoje.

(Autor: Gustavo Lacombe)
(Fonte: eoh.com.br)

VIVER GRUDADO É PARA OS SIAMESES. CASAIS FELIZES SE RESPEITAM COMO INDIVÍDUOS

Acho bonito o casal que não se desgruda. Gosto de olhar os amantes que vivem juntos, andam para cima e para baixo agarrados, atados feito gêmeos siameses.

Admiro duplas inseparáveis, pares perfeitos e outras aves raras. Sinto alegria por essa gente e faço votos de que seu amor perdure e frutifique. Mas eu confesso, sem orgulho nem tristeza: isso não é para mim, não.

Respeito quem acredita que pouco consegue fazer na vida sem a presença de sua cara-metade, quem não vai a lugar nenhum desacompanhado, quem liga duzentas vezes ao dia para o ser amado, mesmo sabendo que vai encontrá-lo à noite.

Respeito. Mas não sobrevivo cinco minutos em situação assim. Eu preciso ficar um pouquinho comigo mesmo. Careço estar sozinho, mesmo estando acompanhado.

Compreendo quem esbraveja “então é melhor não estar com ninguém, pô!”. É o que eu ouço quase sempre, quando conto a minha tese. Entendo quem me olha raivoso e decreta: “assim você vai morrer só” e outras sentenças. Mas eu não acredito em nenhuma delas.

Para caminhar ao lado de alguém não é preciso se acorrentar a ele, renunciar ao resto do mundo, repelir tudo o que mais exista e não possa ser vivido em casal. Isso não é respeitar o outro, não. É anular a si mesmo. Abrir mão da individualidade sem a qual o amor não seria possível.

Não, eu não estou defendendo as chamadas “relações abertas”, como um ou outro talvez imagine. Não me interessam triângulos amorosos, orgias emocionais e afins. Nada disso. Eu só acho que a felicidade de um casal reside na preservação dos indivíduos que o formam.

Casais felizes se aceitam como pessoas únicas, indivíduos imperfeitos, seres falhos que não são obrigados a se completar nem a transbordar coisa nenhuma. Apenas se encontram, se admiram, se desejam, se apoiam e seguem adiante como querem.

Juntos, sim. Mas não colados, grudados, presos um ao outro o tempo todo feito irmãos xifópagos atados pelos ossos, dividindo os mesmos rins, vivendo com os movimentos comprometidos e a visão limitada.

Esse tipo de amor não me serve, não. Respeito mas rejeito. Viver grudado é para os siameses.

Casais felizes se querem livres e fortes como aves afins, ora migrando juntos para outro canto, ora voando sós e sãos, unidos como indivíduos em toda a saúde de seu amor.

AMORES QUE NASCEM NO SILÊNCIO

Tá ouvindo? Eu gosto desse barulho que só a gente escuta. Eu gosto dos amores que nascem no silêncio.

Um amor que não nasce em um “te amo”, que o sentimento não vem comprometido de alguma declaração, mas se descobre nas intenções. Afinal, depois de um “te amo” o mundo nunca mais é o mesmo. Gosto dos amores que vêm silenciosos, que nos surpreendem, daqueles que a gente nem percebe e quando vê, já se está amando.

Aliás, eu acredito que, em alguns casos, quando falamos que amamos alguém e demonstramos isso para o mundo, deixamos de amá-lo um pouco. É que às vezes acabamos criando um personagem do nosso amor. Não sou contra demonstrações públicas, mas acredito que o amor precisa ser sentido e depois falado.

Esses amores barulhentos nunca me atraíram. Quando se declara apaixonado, amar já não basta. É preciso demonstrar o amor praticamente o tempo todo. É preciso escrever textos super românticos e desenhar milhões de corações, independente se do outro lado há caos ou insegurança na relação. É preciso manter as aparências.

Por isso eu me apego aos amores tímidos. Gosto dos conflitos de um casal normal, que se resolvem no sofá. Prefiro aquelas decepções que gritamos cara a cara e resolvemos com uma transa com as emoções à flor da pele. Chama-me mais a atenção um pedido de desculpas que vem da alma e não de uma frase copiada.

Gosto desses amores calados que não necessitam de declarações ou promessas, que não precisam reafirmar a sua felicidade nas postagens das redes sociais e não fazem tanto alarde sobre surpresas ou gestos do outro, daqueles amores que são sólidos o suficiente para bastar-se no silêncio.

Alivia-me que, na calmaria da sala, me conte os seus dias e as inquietações da vida que você teima em resolver. Assim como os seus beijos de terça-feira na madrugada que não precisam de check-in. Gosto de simplificar os caminhos do amor, porque talvez o amor seja essa simplicidade toda que insistimos em enfeitar.

Dizem que: o que ninguém sabe, ninguém estraga”. Por isso, eu espero que o nosso amor sempre ecoe baixinho. Talvez o que todos precisam saber é que o pensamento de um vai sempre ao encontro do outro e não precisemos mais do que isso. Tudo bem, se não registramos todos os momentos, mas que os vivamos com toda a sua grandeza.

Porque quando o amor aparece com toda a sua força e pureza, o que importa o mundo?

Além disso, percebi que não devemos nada a ninguém.

Quero esse silêncio prazeroso que é estar ao seu lado e bastar-me de nós dois. Porque eu acredito que o amor seja um pouco disso, esse egoísmo mútuo de ser somente nosso. Deixar algumas coisas entre quatro paredes e outras na profundidade da alma.

Então que o nosso amor seja essa música que nunca acaba, a trilha sonora que nunca enjoa, o violão que nunca desafina. E que o barulho que só você causa aqui dentro, nunca silencie.

A DIFICULDADE DE ME RELACIONAR COM OS HOMENS

Ser uma mulher solteira com certeza tem seu lado bom. Ser independente, livre para ir onde quiser, com quem quiser, a hora que quiser sem ter que dar satisfação nem ouvir reclamações são alguns exemplos disso.

Outra vantagem de não se prender à um compromisso amoroso é poder ter vários parceiros no decorrer da vida, de acordo, única e exclusivamente, com sua vontade (seja ela sexual, afetiva, não importa).

Mas apesar de toda essa liberdade a vida de solteira tem várias dificuldades que a maioria das pessoas desconhece.

Eu achava (ou não havia me dado conta) que isso só acontecia comigo e com minhas amigas, mas ao ver o assunto ser discutido recentemente em redes sociais e ao julgar pelos comentários de outras internautas, acredito se tratar de um caso muito comum que vem acontecendo com a maioria de nós. O problema de ser uma mulher solteira são os homens.

As mulheres estão passando por um processo de empoderamento coletivo. Crescem na internet veículos de comunicação como sites, páginas e canais feitos por mulheres e para mulheres que discutem padrões impostos e socialmente aceitos há anos, denunciam maus tratos que até então eram vistos como “prova de amor” e questionam o verdadeiro papel da mulher na sociedade.

Nunca se falou tanto em relacionamento abusivo, violência contra mulher, estupro, aborto… Obviamente ainda há muito que fazer.

Quando vemos uma menina dizer com orgulho que não precisa do feminismo está claro que estamos longe de vencer uma alienação em massa que nos foi imposta há muito tempo e que continuam nos impondo.

Mas é nítido também um avanço em um número cada vez maior de mulheres que começam a questionar a sociedade patriarcal e a exigir seus direitos como ser humano _ que como tal deveria ter equidade com o sexo oposto.

Diante dessa “nova mulher” em construção (ou em desconstrução), estão os homens. Homens que em sua grande maioria não estão dispostos a mudar, afinal foram criados e vivem em um mundo que o colocam num lugar privilegiado. Estão em sua zona de conforto e não pretendem sair dela (muitos até relutam contra isso e veem a ascensão da mulher como uma ameaça).

Existem também aqueles que fingem ser um homem desconstruído, mas só o fazem para atrair mulheres interessantes, que mais tarde irá chamar de “loucas e radicais”.

Tem também os que realmente se acham desconstruídos mas estão muito longe de ser, porém não aceitam e pensam que qualquer coisa além do que compreendem é “exagero” ou “vitimização”.

A verdade é que vivemos em um país com um dos maiores índices de feminicídio do mundo, onde o simples fato de andar sozinha na rua ou usar roupas curtas é visto como “pedir” para ser estuprada ou no mínimo assediada.

Denunciar isso e lutar por dignidade ainda é visto por muitos como “politicamente correto” ou “chato”.

É extremamente broxante quando você conhece um cara que julga culto, inteligente e ele abre a boca para reproduzir algum senso comum/machismo, como se aquilo fosse a última descoberta do universo. Ou quando ele se diz moderno, à favor do amor livre, mas só o faz para conseguir sexo mais fácil e objetificar a mulher.

Mas uma das piores coisas é o tal de se fazer de sonso no dia seguinte. Trata-se de um fenômeno que tem acontecido com muita frequência ultimamente e ao que tudo indica o motivo é o medo do compromisso.

O homem que age assim supostamente acha que se tratar a mulher exatamente igual tratava antes de o contato físico acontecer (ou seja, tratar bem), irá despertar nela falsas ilusões a respeito de seu interesse em ter um relacionamento sério com ela.

No entanto essa justificativa não é plausível, pois pressupõe que todas as mulheres solteiras do mundo estão doidas correndo atrás de um namorado/marido e que o simples fato de ser bem tratada a fará cair de quatro por qualquer homem. É também uma atitude bem egoísta, porque se educação e atenção são fatores assim tão irresistíveis para uma mulher, por que os mesmos são válidos antes de se encontrarem pessoalmente e terem relações sexuais com elas e depois do ocorrido são evitados/proibidos?

Aí é que está. Voltamos ao ponto do machismo: a mulher é vista como um objeto de desejo, um artigo de luxo, porém descartável. É o prêmio merecido por todo esforço desprendido ao conquistá-la até levá-la para a cama. Fazer sexo com uma mulher ainda é visto por muitos homens como um desafio que depois de superado perde o sentido. Dessa forma, não é mais necessário tratá-la como uma pessoa normal que é, um ser humano digno, mas sim como uma completa estranha. E se a mesma não gostar e arriscar se queixar de alguma coisa basta taxá-la de louca. Afinal essas mulheres são todas histéricas mesmo…

Homens aprendam: nem toda mulher quer um relacionamento, muitas vezes só queremos transar ou ter uma companhia temporária. Pasmem: muitas vezes uma noite agradável de sexo bom pode ser apenas uma noite de sexo bom. Ou no máximo resultar em outras noites de sexo bom. E mesmo que ela queira namorar não significa que seja com você. Caso ocorra dela te cobrar algo, você pode simplesmente dizer que não está interessado e seguir sua vida.

Só porque você não está apaixonado não quer dizer que tenha que ser mal educado, evitar ou tratar friamente a pessoa que até ontem você dava toda atenção do mundo.

O melhor é ser sincero desde o início, deixar claro o que você quer e não ter medo de dizer o que não quer se sentir que ela está criando expectativas. Ficar mais de uma vez com uma mulher interessante, fazer amizade com ela ou simplesmente bater papo no whatsapp, como uma pessoa normal, não é nenhum pedido de casamento. Tentem. Pode ser agradável.

O AMOR NÃO MORRE QUANDO A PRESENÇA ACABA

‘Dorme que passa’,

dizia a amiga, dizia a mãe, dizia a revista, a mulher na televisão, o livro de autoajuda de cabeceira.

E os olhos inchados e não passava nada, nada daquela história passava, nada dele passava. Passavam sim os dias, passavam rios de lágrimas, passavam as falas das pessoas que já não aguentavam mais falar que tudo passa, passavam mais noites mal dormidas e mais dias sem sentido e mais vontades repentinas rompidas por lembranças masoquistas.

Passavam filmes, todos os filmes nossos passavam na minha cabeça, e se repetiam pelos dias em ininterruptas sessões, os dramas, as comédias, os água com açúcarr, os épicos. E vinham doces amargar meus pensamentos.

‘Dorme que passa’

Como passa se no sono é onde ele mais habita? Sonho com tempos bonitos, acordo cega pela cortante luz da realidade. Aqui ele não está mais.

Dormir não faz passar nada, dormir faz tudo permanecer. Então eu não dormia para ver se passava. E nem assim passava, eu conversava comigo mesma, eu tentava diferentes técnicas, aprendi a cantar alto quando seu sorriso surgia na minha cabeça, eu entrei na Yoga, no cross fit, na aula de mandarim, no tinder. Tudo para criar barulhos mentais que pichassem sua imagem, que ensurdecessem a eloquência do seu silêncio, que recolorissem as paredes do meu coração tatuadas com seu nome.

E não passava, porque eu não deixava, porque quer saber, eu não queria que passasse, a gente não tem que morrer na mesma hora que a outra pessoa. Não era só a presença de seu corpo que fazia nossa história.

O amor não se alimenta apenas de contatos, beijos, falas, mãos dadas, cheiros (quase choro de novo ao lembrar do seu cheiro). O amor se alimenta de sonhos, de lembranças, de pensamentos. O amor é planta que sobrevive muito tempo depois de cortada as raízes, as fontes de alimentação.

‘Dorme que passa’

Não passa, mas hoje eu durmo, porque dormindo eu o reencontro, em cada esquina de cada um dos meus sonhos. E eu já não desvio das esquinas, dos sonhos, da saudade, do amor.

Digo a mim mesma:

‘Dorme e deixa o amor crescer, deixa o amor respirar, deixa o amor ser até aonde ele conseguir. Deixa ele ser assim mesmo, triste, entre risos e lágrimas, mas deixa ele estar, sereno, até que se dilua nos dias, no meio de outras coisas boas que surgirem. Devagar, no seu compasso, ele fica um pouco, ele passa um pouco.’

(Autora: Clara Baccarin)
(Fonte: clarabaccarin.com)
*Texto publicado com autorização da autora