A derrota do sujeito

“A morte, as paixões, a sexualidade, a loucura, o inconsciente e a relação com o outro moldam a subjetividade de cada um, e nenhuma ciência digna desse nome jamais conseguirá pôr termo a isso, felizmente. A psicanálise atesta um avanço da civilização sobre a barbárie. Ela restaura a ideia de que o homem é livre por sua fala e de que seu destino não se restringe a seu ser biológico.”

Presente em várias listas de best-sellers da França, o ensaio Por que a psicanálise?, de Elisabeth Roudinesco, faz um balanço dos 100 anos da psicanálise e uma projeção de seu futuro no novo milênio. Publicada no Brasil em 1999, pela editora Zahar, a obra nasceu de um questionamento: “por que, após cem anos de existência e de resultados clínicos incontestáveis, a psicanálise era tão violentamente atacada hoje em dia pelos que pretendem substituí-la por tratamentos químicos, julgados mais eficazes porque atingiriam as chamadas causas cerebrais das dilacerações da alma”, diz a autora. Leia abaixo A derrota do sujeito, texto introdutório de Por que a psicanálise?

Resultado de imagem para A derrota do sujeitoNa contracorrente do fascínio pela neurociência, fustiga uma sociedade em que o homem é levado a tratar suas neuroses a golpes de receitas médicas, atacando tanto as correntes cientificistas quanto as obscurantistas e charlatanescas.

O sofrimento psíquico manifesta-se atualmente sob a forma da depressão. Atingido no corpo e na alma por essa estranha síndrome em que se misturam a tristeza e a apatia, a busca da identidade e o culto de si mesmo, o homem deprimido não acredita mais na validade de nenhuma terapia. No entanto, antes de rejeitar todos os tratamentos, ele busca desesperadamente vencer o vazio de seu desejo. Por isso, passa da psicanálise para a psicofarmacologia e da psicoterapia para a homeopatia, sem se dar tempo de refletir sobre a origem de sua infelicidade. Aliás, ele já não tem tempo para nada, à medida que se alongam o tempo de vida e o do lazer, o tempo do desemprego e o tempo do tédio. O indivíduo depressivo sofre ainda mais com as liberdades conquistadas por já não saber como utilizá-las.

Quanto mais a sociedade apregoa a emancipação, sublinhando a igualdade de todos perante a lei, mais ela acentua as diferenças. No cerne desse dispositivo, cada um reivindica sua singularidade, recusando-se a se identificar com as imagens da universalidade, julgadas caducas. Assim, a era da individualidade substituiu a da subjetividade: dando a si mesmo a ilusão de uma liberdade irrestrita, de uma independência sem desejo e de uma historicidade sem história, o homem de hoje transformou-se no contrário de um sujeito. Longe de construir seu ser a partir da consciência das determinações inconscientes que o perpassam à sua revelia, longe de ser uma individualidade biológica, longe de pretender-se um sujeito livre, desvinculado de suas raízes e de sua coletividade, ele se toma por senhor de um destino cuja significação reduz a uma reivindicação normativa. Por isso, liga-se a redes, a grupos, a coletivos e a comunidades, sem conseguir afirmar sua verdadeira diferença.

É justamente a existência do sujeito que determina não somente as prescrições psicofarmacológicas atuais, mas também os comportamentos ligados ao sofrimento psíquico. Cada paciente é tratado como um ser anônimo, pertencente a uma totalidade orgânica. Imerso numa massa em que todos são criados à imagem de um clone, ele vê ser-lhe receitada a mesma gama de medicamentos, seja qual for o seu sintoma. Ao mesmo tempo, no entanto, busca outra saída para seu infortúnio. De um lado, entrega-se à medicina científica, e de outro, aspira a uma terapia que julga mais apropriada para o reconhecimento de sua identidade. Assim, perde-se no labirinto das medicinas paralelas.

É por isso que assistimos, nas sociedades ocidentais, a um crescimento inacreditável do mundinho dos curandeiros, dos feiticeiros, dos videntes e dos magnetizadores. Frente ao cientificismo erigido em religião e diante das ciências cognitivas, que valorizam o homem-máquina em detrimento do homem desejante, vemos florescer, em contrapartida, toda sorte de práticas, ora surgidas da pré-história do freudismo, ora de uma concepção ocultista do corpo e da mente: magnetismo, sofrologia, naturopatia, iridologia, auriculoterapia, energética transpessoal, sugestologia, mediunidade etc. Ao contrário do que se poderia supor, essas práticas seduzem mais a classe média funcionários, profissionais liberais e executivos — do que os meios populares, ainda apegados, apesar da precariedade da vida social, a uma concepção republicana da medicina científica.

Essas práticas têm como denominador comum o oferecimento de uma crença e portanto, de uma ilusão de cura — a pessoas mais abastadas, mais desestabilizadas pela crise econômica, e que ora se sentem vítimas de uma tecnologia médica demasiadamente distanciada de seu sofrimento, ora vítimas da impotência real da medicina para curar certos distúrbios funcionais. Assim é que L’Expres? publicou uma pesquisa que revela que 25% dos franceses passaram a buscar na reencarnação e na crença em vidas anteriores uma solução para seus problemas existenciais.

A sociedade democrática moderna quer banir de seu horizonte a realidade do infortúnio, da morte e da violência, ao mesmo tempo procurando integrar num sistema único as diferenças e as resistências. Em nome da globalização e do sucesso econômico, ela tem tentado abolir a ideia de conflito social. Do mesmo modo, tende a criminalizar as revoluções e a retirar o heroísmo da guerra, a fim de substituir a política pela ética e o julgamento histórico pela sanção judicial. Assim, ela passou da era do confronto para a era da evitação, e do culto da glória para a revalorização dos covardes. Hoje em dia, não é chocante preferir Vichy à Resistência ou transformar os heróis em traidores, como se fez recentemente a propósito de Jean Moulin ou de Lucie e Raymond Aubrac. Nunca se celebrou tanto o dever da memória, nunca houve tanta preocupação com a Shoah e o extermínio dos judeus e, no entanto, nunca a revisão da história foi tão longe.

Daí uma concepção da norma e da patologia que repousa num princípio intangível: todo indivíduo tem o direito e, portanto, o dever de não mais manifestar seu sofrimento, de não mais se entusiasmar com o menor ideal que não seja o do pacifismo ou o da moral humanitária. Em consequência disso, o ódio ao outro tornou-se sub-reptício, perverso e ainda mais temível, por assumir a máscara da dedicação à vítima. Se o ódio pelo outro é, inicialmente, o ódio a si mesmo, ele repousa, como todo masoquismo, na negação imaginária da alteridade. O outro passa então a ser sempre uma vítima, e é por isso que se gera a intolerância, pela vontade de instaurar no outro a coerência soberana de um eu narcísico, cujo ideal seria destruí-lo antes mesmo que ele pudesse existir.

Posto que a neurobiologia parece afirmar que todos os distúrbios psíquicos estão ligados a uma anomalia do funcionamento das células nervosas, e já que existe o medicamento adequado, por que haveríamos de nos preocupar? Agora já não se trata de entrar em luta com o mundo, mas de evitar o litígio, aplicando uma estratégia de normalização. Não surpreende, portanto, que a infelicidade que fingimos exorcizar retorne de maneira fulminante no campo das relações sociais e afetivas: recurso ao irracional, culto das pequenas diferenças, valorização do vazio e da estupidez etc. A violência da calmaria, às vezes, é mais terrível do que a travessia das tempestades.

Forma atenuada da antiga melancolia, a depressão domina a subjetividade contemporânea, tal como a histeria do fim do século XIX imperava em Viena através de Anna O., a famosa paciente de Joseph Breuer, ou em Paris com Augustine, a célebre louca de Charcot na Salpêtrière. Às vésperas do terceiro milênio, a depressão tornou-se a epidemia psíquica das sociedades democráticas, ao mesmo tempo que se multiplicam os tratamentos para oferecer a cada consumidor uma solução honrosa. É claro que a histeria não desapareceu, porém ela é cada vez mais vivida e tratada como uma depressão. Ora, essa substituição de um paradigma por outro não é inocente.

A substituição é acompanhada, com efeito, por uma valorização dos processos psicológicos de normalização, em detrimento das diferentes formas de exploração do inconsciente. Tratado como uma depressão, o conflito neurótico contemporâneo parece já não decorrer de nenhuma causalidade psíquica oriunda do inconsciente.

No entanto, o inconsciente ressurge através do corpo, opondo uma forte resistência às disciplinas e às práticas que visam repeli-lo. Daí o relativo fracasso das terapias que proliferam. Por mais que estas se debrucem com compaixão sobre a cabeceira do sujeito depressivo, não conseguem curá-lo nem apreender as verdadeiras causas de seu tormento.

Só fazem melhorar seu estado, deixando-o esperar por dias melhores: “Os deprimidos sofrem por todos os lados”, escreve o reumatologista Marcel Francis Kahn, “isso é sabido. Mas o que não se sabe tão bem é que também vemos síndromes de conversão tão espetaculares quanto as observadas por Charcot e Freud. A histeria sempre pôs em primeiro plano o aparelho locomotor. Ficamos impressionados ao ver como se pode esquecê-la. E também o quanto o fato de evocá-la desperta, no pessoal médico e não médico, inquietação, recusa ou mesmo agressividade em relação ao paciente, assim como por parte daquele ou daquela que recebe esse diagnóstico.”

Sabemos que a invenção freudiana de uma nova imagem da psique pressupôs a existência de um sujeito capaz de internalizar as proibições. Imerso no inconsciente e dilacerado por uma consciência pesada, esse sujeito, entregue a suas pulsões pela morte de Deus, está sempre em guerra consigo mesmo. Daí decorre a concepção freudiana da neurose, centrada na discórdia, na angústia, na culpa Kuhn, La Structure des révolutions scientiflques (Chicago, 1962), Paris, Flammarion, 1970.

Ora, é essa ideia da subjetividade, tão característica do advento das sociedades democráticas, elas próprias baseadas no confronto permanente entre o mesmo e o outro, que tende a se apagar da organização mental contemporânea, em prol da noção psicológica de personalidade depressiva.

Saída da neurastenia, noção abandonada por Freud, e da psicastenia descrita por Janet, a depressão não é uma neurose nem uma psicose nem uma melancolia, mas uma entidade nova, que remete a um “estado” pensado em termos de “fadiga”, “déficit” ou “enfraquecimento da personalidade”. O crescente sucesso dessa designação deixa bem claro que as sociedades democráticas do fim do século XX deixaram de privilegiar o conflito como núcleo normativo da formação subjetiva. Em outras palavras, a concepção freudiana de um sujeito do inconsciente, consciente de sua liberdade, mas atormentado pelo sexo, pela morte e pela proibição, foi substituída pela concepção mais psicológica de um indivíduo depressivo, que foge de seu inconsciente e está preocupado em retirar de si a essência de todo conflito.

Emancipado das proibições pela igualdade de direitos e pelo nivelamento de condições, o deprimido deste fim de século é herdeiro de uma dependência viciada do mundo. Condenado ao esgotamento pela falta de uma perspectiva revolucionária, ele busca na droga ou na religiosidade, no higienismo ou no culto de um corpo perfeito o ideal de uma felicidade impossível: “Por essa razão”, constata Alain Ehrenberg, “o drogado é hoje a figura simbólica empregada para definir as feições do anti-sujeito. Antigamente, era o louco que ocupava esse lugar. Se a depressão é a história de um sujeito inencontrável, a drogadição é a nostalgia de um sujeito perdido.”

Em vez de combater esse fechamento, que leva à abolição da subjetividade, a sociedade liberal depressiva compraz-se em desenvolver sua lógica. É assim que, atualmente, os consumidores de tabaco, álcool e psicotrópicos são assemelhados a toxicômanos, considerados perigosos para eles mesmos e para a coletividade. Ora, dentre esses novos “doentes”, os tabagistas e os alcoólatras são tratados como deprimidos a quem se receitam psicotrópicos. Mas, que medicamentos do espírito será preciso inventar, no futuro, para tratar da dependência dos que se houverem “curado” de seu alcoolismo, seu tabagismo ou algum outro vício (o sexo, a comida, o esporte etc.), substituindo um abuso por outro?

A subjetividade como essência da experiência humana

“Quanto mais o mundo unifica-se por uma economia de mercado e as ilusões de uma universalidade enganosa, mais a afirmação narcísica cresce como uma manifestação de uma pretensão do eu a se diferenciar da massa para melhor se adaptar: movimento estranhamente paradoxal.”

Em artigo exclusivo ao Fronteiras do Pensamento, Ana Maria Gageiro* explora as transformações contemporâneas e seus reflexos no indivíduo e na subjetividade humana. À luz do pensamento do pensamento de Elisabeth Roudinesco, Gageiro expõe a fragmentação dos laços sociais, a ilusão do poder individual e da liberdade irrestrita e, assim, das fronteiras que compõem a própria coletividade.

Na busca pela diferenciação em meio à cultura massificada, diz Gageiro, “cada um reivindica sua singularidade recusando-se a se identificar com as imagens da universalidade.” Assim, conclui a psicanalista: O homem de hoje transformou-se no contrário de um sujeito.”

Resultado de imagem para Sigmund FreudSigmund Freud, em 1929, ao encerrar seu livro O mal-estar na cultura, nos adverte com esta frase premonitória: “Os homens de hoje levaram tão longe o domínio das forças da natureza que, com a ajuda delas, tornou-se–lhes fácil exterminar uns aos outros, até o último. Eles o sabem muito bem, e é isso que explica boa parte de sua atual agitação, de sua infelicidade e de sua angústia”.

Nossa civilização tem experimentado a vivência de laços sociais fragmentados nas novas formas de retirantes espremidos por mudanças de fronteiras produzidas por guerras, catástrofes, terrorismo e tiranias Na falta de referentes simbólicos na fratria, somos lançados radicalmente na experiência de um narcisismo extremo. No cerne deste dispositivo, cada um reivindica sua singularidade recusando-se a se identificar com as imagens da universalidade. Assim, vem-se abandonando a subjetividade pela individualidade dando a si mesmo uma ilusão de liberdade irrestrita, de uma independência sem desejo e de uma historicidade sem história. O homem de hoje transformou-se no contrário de um sujeito.

Elisabeth Roudinesco, ao longo de sua obra, vem nos proporcionando um olhar crítico para a subjetividade contemporânea e os desafios decorrentes dessa realidade lançados aos psicanalistas e pensadores do sofrimento psíquico.

A sociedade democrática moderna quer banir de seu horizonte a realidade do infortúnio, da morte e da violência, ao mesmo tempo procurando integrar num sistema único as diferenças e as resistências. Em nome da globalização e do sucesso econômico, ela tem tentado abolir a ideia de conflito social.

Daí uma concepção da norma e da patologia que repousa num princípio intangível: todo o indivíduo tem o direito e, portanto, o dever de não mais manifestar seu sofrimento, de não mais se entusiasmar com o menor ideal que não seja o do pacifismo ou o da moral humanitária.

Roudinesco ressalta que a consequência disso – o ódio ao outro – tornou-se sub-reptício, perverso e ainda mais temível, por assumir a máscara da dedicação à vítima.

Se o ódio pelo outro é, inicialmente, o ódio a si mesmo, ele repousa, como todo masoquismo, na negação imaginária da alteridade. O outro passa a ser sempre uma vítima, e é por isso que se gera a intolerância, pela vontade de instaurar no outro a coerência soberana de um eu narcísico, cujo ideal seria destruí-lo antes mesmo que ele pudesse existir.

Mais pontualmente no livro Por que a Psicanálise?, Roudinesco aponta que, ao longo de 20 anos, o culto de si e o cuidado terapêutico se tornaram os grandes modelos de uma organização da sociedade ocidental que os sociólogos e psicanalistas caracterizaram como narcísica.

Passamos a falar de uma “cultura do narcisismo” ou da necessidade moderna da “estima de si”, como de uma injunção ao mesmo tempo negativa e positiva. Esse culto foi acompanhado por uma explosão de terapias as mais diversas, todas como modalidades de uma afirmação de si.

Observamos que, quanto mais o mundo unifica-se por uma economia de mercado e as ilusões de uma universalidade enganosa, mais a afirmação narcísica cresce como uma manifestação de uma pretensão do eu a se diferenciar da massa para melhor se adaptar: movimento estranhamente paradoxal.

Esse mergulho na cultura do narcisismo foi estudado pelos sociólogos e filósofos norte-americanos, de Herbert Marcuse a Christopher Lasch, passando por Heinz Kohut.

Se o século XIX foi o da “afirmação de si” da burguesia, e, simultaneamente, o do enclausuramento psiquiátrico que permitiu claramente definir uma “raça” de excluídos, o século XX foi o da Psicanálise que contribuiu para reintegrar, no psiquismo, a causalidade do distúrbio neurótico e, portanto, de não excluir os desviantes de sua cidade. Se o mal psíquico é interno ao sujeito, como sublinha Freud, os estigmas da norma e da patologia se modificam no sentido de uma mudança de posição causada pelas fronteiras antes perfeitamente definidas.

Resultado de imagem para Sigmund FreudA psicanálise introduz assim uma subversão na sociedade burguesa, pois ela indica que o mal do qual sofre o sujeito moderno vem do interior dele mesmo. As duas disciplinas, psiquiatria e psicanálise, tem como ponto comum serem fundadas sobre uma nosografia que alia uma classificação estrutural dos males da alma a uma descrição de sua experiência existencial.

O século seguinte é de ouro e também do esgotamento desse sistema de pensamento: rapidamente se anunciou como o século das psicoterapias que não propõem nem classificação nem descrição de uma experiência existencial, mas respondem à afirmação de si por um reforço narcísico da soberania do eu.

A afirmação de si da burguesia e de seu elitismo hierarquizado, caracterizado por sua devoção à família e ao seu patrimônio transmitido, a esse culto da raça que seguiu ao culto feudal do sangue, sucedeu uma sociedade de massa organizada em redes, transformando os sujeitos em individualidades múltiplas, em personalidades atomizadas ou dissociadas, em mercadorias, em corpos fatiados, breves, em sujeitos capturados pela imago do duplo no espelho. De onde emergem as novas formas de sofrimento psíquico e de novas maneiras de classificá-las, caracterizadas pela valorização narcísica e pelo abandono da ideia de uma subjetividade rebelde.

Isso explica a proliferação de psicoterapias efêmeras ou “à la carte” parecendo adaptadas a cada indivíduo, a cada comunidade, a cada grupo. Essas terapias deixam crer que a vontade individual é mais potente que o peso do passado e da genealogia e que ela determina muito mais o destino do sujeito do que a ancoragem no universo familiar, na memória, enfim, no inconsciente no sentido freudiano.

Os pacientes não parecem mais sofrer de um recalcamento do desejo, mas de uma insatisfação existencial, de um estado amorfo e fútil, de um vazio, de uma desilusão crônica e, sobretudo, de uma incapacidade a toda relação de alteridade.

Essas transformações do psiquismo e da demanda terapêutica têm a ver, em parte, com a evolução social que conduziu à emancipação sexual das mulheres e ao declínio da família autoritária. Mas elas são igualmente a consequência da maneira como a psicanálise implantou-se nos Estados Unidos.

Sabemos que, no início do século, ela foi acolhida com entusiasmo ao ponto de tornar-se um instrumento de adaptação do homem a uma utopia da felicidade higiênica: uma boa saúde mental num corpo são. Ela se impõe menos por seu sistema de pensamento (como na França), e muito menos por seu rigor clínico (como na Inglaterra), que por sua capacidade de trazer uma solução concreta e imediata à moral sexual da sociedade liberal e puritana.

Pensou-se que, graças à psicanálise, o homem não seria mais condenado ao inferno de suas paixões e que ele pudesse curar-se. Em uma palavra, sonhou-se que a psicanálise cumpriria enfim, pelo conjunto da sociedade, o desejo de Narciso de ser liberado do desejo.

Ora, como sabemos, nada é mais estranho ao pensamento freudiano que esse ideal higienista que supõe uma sexualidade doentia repousando sobre o princípio da confissão, da transparência, da condenação de toda forma de dissimulação em se tratando de vida privada. Freud tinha tanta consciência desse desvio que manifestou sempre uma violenta hostilidade à psicanálise dita americana.

Ao final dos anos 1970, situamos um declínio da psicanálise nos Estados Unidos. Ela parecia não conseguir mais responder à multiplicidade das demandas clínicas de tipo narcísico.

Tudo se passava como se a irrupção das massas no movimento social chegasse a uma espécie de desencanto em relação ao ideal de uma sociedade conquistadora, em que os sujeitos pudessem se identificar aos grandes heróis do cinema hollywoodiano.

Apesar de sua potência institucional e de sua expansão em todos os setores da psiquiatria, apesar mesmo da evolução clínica impulsionada pela terceira geração de psicanalistas, a psicanálise foi atacada com a mesma força com que ela foi adulada em outros tempos.

Assim, os participantes do antifreudismo dos anos 1980-2000 utilizaram os argumentos empíricos idênticos aos argumentos já utilizados para criticar os pioneiros do freudismo: recusar a cura freudiana alegando sua ineficácia terapêutica, propondo, em oposição, as terapias biológicas, farmacológicas ou cognitivas fundadas numa concepção experimental do homem e reduzindo o psiquismo a neurônios, e a subjetividade a comportamentos instintivos.

Essas múltiplas terapias fazem um bom casamento entre si, pois têm como denominador comum o ideal de uma afirmação narcísica do eu.

Dito de outra maneira, se a psicanálise se implantou no solo americano adotando um ideal que Freud sempre rejeitou, um ideal que prometia liberar o homem do peso de sua culpa, do sexo, de seu desejo ou de sua obsessão pela morte, a psicanálise foi rejeitada, pois não tinha nenhuma das promessas em nome das quais ela tinha sido transformada em uma utopia da felicidade.

O paradoxo dessa situação é que a psicanálise, em sua versão americana, contribuiu para sua própria derrota servindo a um ideal que não era o seu.

Segundo Roudinesco, o culto de si foi contemporâneo a uma crise de confiança nas virtudes do sistema adaptativo nos Estados Unidos. A um florescimento do engajamento político (revolta do campo, guerra do Vietnã), sucedeu-se um sentimento de fracasso e a procura de novas formas de construção de si.

Anos mais tarde (1985-1990), assistimos a uma generalização do cuidado terapêutico como solução de dobrar-se ao desengajamento político e à crença num fim da história, conduzindo ao desejo de aniquilamento de si.

Essa busca do novo, próprio a uma geração engajada na política, depois decepcionada com a política e desengajada por fim de suas próprias esperanças de mudar o mundo, é magnificamente contada no livro de Philip Roth, Pastoral americana (1998).

Inscrita no movimento de uma globalização econômica que transforma os homens em objetos, a sociedade depressiva não quer mais ouvir falar de culpa nem de sentido íntimo, nem de consciência nem de desejo nem de inconsciente. Quanto mais ela se encerra na lógica narcísica, mais foge da ideia de subjetividade.

Só se interessa pelo indivíduo, portanto, para contabilizar seus sucessos, e só se interessa pelo sujeito sofredor para encará-lo como uma vítima. E, se procura incessantemente codificar o déficit, medir a deficiência ou quantificar o trauma, é para nunca mais ter que se interrogar sobre a origem deles.

Assim, como salienta Roudinesco, o homem doente da sociedade depressiva é literalmente “possuído” por um sistema biopolítico que rege seu pensamento à maneira de um grande feiticeiro. Não apenas ele não é responsável por coisa alguma em sua vida, como também já não tem o direito de imaginar que sua morte possa ser um ato decorrente de sua consciência ou de seu inconsciente.

Entretanto, deve-se constatar que somente a psicanálise foi capaz, desde suas origens, de realizar a síntese dos quatro grandes modelos da psiquiatria dinâmica que são necessários a uma apreensão racional da loucura e da doença psíquica. Com efeito, ela tomou emprestado da psiquiatria o modelo nosográfico, da psicoterapia o modelo de tratamento psíquico, da filosofia uma teoria do sujeito, e da antropologia uma concepção de cultura fundamentada na ideia de uma universalidade do gênero humano que respeita as diferenças.

A psicanálise, portanto, não se alinha à ideia hoje dominante, de uma redução da organização psíquica a comportamentos.

Se o termo “sujeito” tem algum sentido, a subjetividade não é mensurável nem quantificável: ela é a prova, ao mesmo tempo visível e invisível, consciente e inconsciente, pela qual se afirma a essência da experiência humana.


MAIS VISTOS: assista à Elisabeth Roudinesco no Fronteiras do Pensamento 2015: a historiadora e psicanalista francesa reflete sobre o excesso de drogas psicotrópicas na sociedade contemporânea e sobre o risco de se pretender tratar o sofrimento e a angústia inerentes à espécie humana.

“Dois Irmãos” e a libertação na literatura

Capa da edição francesa da graphic novel Dois Irmãos, uma adaptação de Fábio Moon e Gabriel Bá ao livro de Hatoum

Segundo romance de Milton Hatoum, Dois Irmãos foi lançado em 2000 e premiado com o Jabuti no ano seguinte. Na época, Hatoum já tinha 48 anos e estava superando momentos pessoais bastante conturbados.

Deixando sua cidade natal, Manaus, um casamento e um emprego como professor universitário, foi para São Paulo iniciar a longa trajetória de Dois Irmãos, obra que levou três anos para ser escrita e muitos outros para ser pensada.

Neste longo período, foram muitas as transformações na vida do autor. A obra, que se tornou a mais lida de Hatoum, também se tornaria um símbolo de sua libertação, como explicou o próprio escritor quando subiu ao palco do Fronteiras do Pensamento, em 2008.

MILTON HATOUM | Dois Irmãos e a libertação na literatura

Quando comecei a fazer análise, eu não sabia o que podia escrever, tinha, mais ou menos, a consciência que eu não queria ser as duas coisas: professor e escritor. Pelo menos naquela minha universidade eu não teria tempo.

Deitado no divã, eu comecei a falar de literatura, dos meus planos, do que eu queria escrever e a psicanalista disse: “Faz o seguinte: vai escrever, porque é isso que você deve fazer. A psicanálise não vai te ajudar nesse sentido. Você tem que colocar para fora todas essas coisas, todos esses fantasmas”.

No fundo, o que a gente escreve é uma espécie de biografia de fantasmas, uma biografia de espectros. Por isso, a literatura e a psicanálise têm tantas coisas em comum. E eu passei muito tempo tentando escrever um segundo romance, mas, infelizmente, não tenho facilidade para escrever. Tentei, durante muitos anos, escrever outro romance que, de fato, não saía.

Em 1997, depois de vários acontecimentos em Manaus – acontecimentos negativos, perdi pessoas queridas, minha relação com a academia foi se deteriorando, eu não tinha mais tempo para ler e escrever – eu saí de novo da cidade, deixei os confins – e agora para sempre, pois eu não volto mais a morar em Manaus – e fui para são Paulo. Larguei a universidade e tudo o que foi possível largar, só não larguei a memória do tempo em que eu morei lá.

Escrevi Dois Irmãos em pouco mais de três anos. Comecei a pensar no livro quando li Esaú e Jacó, que considero um dos grandes romances de Machado de Assis. Para mim, Dois Irmãos foi uma coisa decisiva: ou eu terminava esse romance, ou, de fato, ficaria encalhado como autor de um romance, de Relato de um Certo Oriente, o que não teria problema.

relato de um certo oriente - milton hatoumHá escritores como Rulfo, um dos grandes escritores da América Latina, mas que escreveu só um romance. Só que eu não queria ser um grande escritor nem o autor de um único romance e me enveredei pelo segundo.

Assim, foi com Dois Irmãos que comecei a viver de literatura. Eu escrevia todos os dias. Achava que, de alguma forma, esses Dois Irmãos me libertariam de alguma coisa. E as coisas foram voltando aos poucos. Aos 40 anos, o passado não é só a infância, é, também, a vida aos 20 anos, 25. Você vai envelhecendo e o passado também vai se aproximando, aos poucos, como uma espécie de sombra que te acompanha nessa vida.

Leia entrevista com Milton Hatoum: “Falta formação educacional consistente”

Por isso que, para mim, os momentos seminais da vida de um escritor são a infância e a juventude, pois nessas aconteceram as coisas mais decisivas.

Talvez um psicanalista diga a mesma coisa, Freud falava isso, falava da importância da infância, porque é lá que a gente convive com a família, com outras pessoas. A gente dialoga com o mundo, dialoga com o outro, e a literatura é isso: é um diálogo com o outro, uma reflexão sobre si mesmo e sobre o outro.

Então, a distância é importante até para inventar essas lembranças. Quando você está muito perto do objeto, não o enxerga. E a literatura é a transfiguração dos objetos, é a transcendência dos fatos, da vida.


>> Além da adaptação veiculada pela televisão em janeiro de 2017, Dois Irmãos também virou graphic novel pelas mãos dos premiadíssimos ilustradores Fábio Moon e Gabriel Bá que, por coincidência ou não, são irmãos gêmeos. Com direitos já vendidos para França e EUA, obra é o primeiro livro dos quadrinistas paulistas desde o premiado Daytripper (série vencedora do prêmio Eisner).

No Brasil, a graphic novel e o livro original de Hatoum são editados pela Companhia das Letras.

Jacques Lacan

Em seus últimos dias de vida, Jacques Lacan era um homem triste, frágil e cansado. Era um velho. Mas a morte jogou-o novamente no primeiro plano, obrigando a uma reapreciação do uso que fez da linguística para a decifração de Freud. Gilles Lapouge refaz a trajetória desse intelectual e recorda a curta, porém marcante, convivência que teve com LACAN.

Ele não realizava mais seminários. Depois de tanto barulho, tudo em torno dele era silêncio. Não era mais visto nas ruas de Sant Germain des Près. Ou, quando se aventurava fora de casa, nestes últimos meses, não mais era aque¬le personagem suntuoso, o “magnífico”, envolvido em peles, mas sim um homem triste, frágil, cansado, que caminhava lentamente arrastando os pés. Um velho.

Em torno dele os rumores ferviam: discípulos, inimigos e aduladores davam as notícias mais desencontradas sobre Lacan, como um telégrafo que assinalas¬se a posição de um navio perdido no Ártico ou, ao contrário, anunciasse que esse navio descobrira novas terras: “Ele está empenhado em um último combate, o mais perigoso de sua vida, está procu¬rando formalizar a teoria psicanalítica através da matemática, e precisa de solidão”, diziam uns — a que respon¬diam outros: “Ele está liquidado, não pode mais nem falar. Ficou louco, vai ser internado.” E comentavam: “Belo símbolo, o mais célebre dos psicanalistas acabando sua vida em um hospício…”. Ou ainda: “O clown, o bufão, o histrião chegou ao fim. Representou todos os seus números, fez-nos rir durante muito tempo, apaixonou-nos — mas era tudo vento. Seus bolsos agora estão vazios, não há mais pó, dentro deles, para que ele o atire nos nossos olhos. Hoje ele é apenas um acrobata que não consegue mais fazer seu número”.

Eis que de repente o gênio, ou o liquidado, ou o acrobata, morre. E todo mundo se espanta. Sua morte surpreen¬de. E, no entanto, Lacan era um homem muito velho, nascido em 1901, partícipe dos mais ativos do grupo surrealista, com Breton e Aragon, desde 1918. Mas a celebridade só chegou muito tarde, mais precisamente em 1966, quando ele já estava com 65 anos e decidiu-se a publicar seu primeiro livro, composto pelas aulas que dava em seu seminário, o Écrits, editado pelas Editions du Seuil. (Vale um parêntese: este homem que seus inimigos denunciavam como vaido¬so, esperou chegar aos 65 anos para se colocar finalmente sob os refletores da publicidade).

É verdade que, antes de 1966, não é que Lacan fosse um ninguém: ele era conhecido, reverenciado e adulado, em¬bora apenas por um restrito círculo de psicanalistas e filósofos. Os outros, o grande público culto sabia que existia e oficiava em Paris, há 30 anos, um perso¬nagem enigmático, fascinante, uma es¬pécie de xamã — Jacques Lacan — que distribuía o seu saber, um pouco à maneira de Sócrates, apenas por meio da palavra: um saber devastador, cortante, temível, graças ao qual a psicanálise, edulcorada pelas modificações da escola anglo-saxônica, pôde finalmente se transformar naquilo que Freud queria que ela fosse, “uma peste”.

Foi durante esse longo período de segredos, sussurros e inconfidências que se forjou a lenda de Lacan, lenda que, a seguir, a partir de 1966, quando virou moda, transformou-se num verdadeiro câncer. Diga-se, aliás, que o próprio Lacan nada fez, jamais, para impedir sua proliferação. Estranhamente, desse homem, que se tornara uma vedette mundial há 15 anos, a rigor nada se sabia. Enquanto se conhecia tudo sobre Freud, sua família, sua infância, no que dizia respeito a Lacan estava-se na mais completa escuridão. Sabia-se apenas que ele nascera em Paris, de família rica, em 1901. Nos anos 20, jovem psiquiatra brilhante, interessava-se tanto pela poe¬sia como pelas doenças mentais, convi¬vendo ora com os loucos ora com os escritores surrealistas. Loucos ou, de preferência, loucas, já que Lacan tinha uma acentuada predileção pelo discurso delirante das mulheres, fossem elas místicas ou assassinas.

Sua tese inspira Salvador Dali e Genet

Sua tese em medicina, publicada em 1932, era sobre o “caso Aimée” — história das irmãs Papin, que inspirou Genet a escrever As Criadas (Les Bonnes). Uma tese sobre a “paranóia críti¬ca” — e foi Lacan quem forneceu a Salvador Dali sua teoria da paranóia crítica.

Mas, com o correr dos anos, ele se afastou dos surrealistas e mergulhou no trabalho. Em 1936, em Rône, fez um discurso que se tornou célebre nos círcu¬los especializados sobre o Stade du Miroir — o “estágio do espelho” —, no qual já se reconhecem todos os funda¬mentos do imenso edifício que erguerá mais tarde.

Ao mesmo tempo, trabalha muito, seja na prática clínica, seja através de encontros (Lacan conhece bem Georges Bataille, escritor maldito por excelência, reconhecido hoje, com quase meio sécu¬lo de atraso, como o espírito mais vio¬lento da literatura francesa de antes da guerra), seja, enfim, por seguir certos ensinamentos. A partir de 1936, e até 1939, ele assiste aos seminários dados em Paris por um homem igualmente desconhecido do grande público — e, ainda assim, segundo Heidegger, um dos mais poderosos filósofos do seu tempo, Alexandre Kojève.

Kojève, que morreu em maio de 1968, é, sozinho, já toda uma aventura. De origem russa, mas muito atraído pela filosofia alemã, chega a Berlim por volta de 1930. Lá, frequenta os cursos de alguns mestres como Husserl, mas cansa-se rapidamente e ei-lo, então, apátrida, em Paris, em 1936. Propõe a realiza¬ção de um curso sobre Hegel, à época totalmente desconhecido em França. Dará esse curso durante três anos. E seus alunos serão Raymond Aron, Raymond Queneau, Georges Bataille, Maurice Merleau — Ponty, Alexandre Koyré — às vezes até André Breton — e Jacques Lacan. Depois da guerra Kojève aban¬donará a filosofia, tornando-se um dos melhores peritos franceses em economia e finanças, a eminência parda de todos os que tomam decisões em matéria fi¬nanceira, inclusive os administradores de de Gaulle.

Mas voltemos a Lacan. Depois da guerra ele prossegue em seu trabalho, prático e teórico ao mesmo tempo. Rea¬liza um seminário por semana, em Sainte Anne, um hospital psiquiátrico pari¬siense, assistido por médicos, psiquia¬tras, psicanalistas. Só que, com o tempo, sua personalidade torna-se pesada de¬mais para as sapientérrimas instituições psicanalíticas francesas, e em 1964 dá-se a ruptura: Lacan deixa a instituição e funda sua própria escola, a Escola Freu¬diana de Paris.

Seus seminários são assistidos por uma multidão

A partir de 1966, inaugura-se um novo período. Primeiro com a publica¬ção dos Écrits, fazendo com que Lacan seja louvado não só na França como nos meios cultos do mundo inteiro. Segun¬do, seu seminário muda de sede: do hospital de Sainte Anne vai para a Escola Normal Superior — o templo da cultura francesa — local de formação dos mais brilhantes intelectuais pari¬sienses.

Os seminários de Lacan tornam-se, a partir daí, um acontecimento ao mes¬mo tempo intelectual e mundano. São frequentados por uma multidão: jovens filósofos, psicanalistas — e senhoras do tipo chic, as dames cultivées.

Para conseguir lugar sentado é pre¬ciso chegar uma ou duas horas antes. Na assistência reconhecem-se com frequên¬cia nomes como Michel Foucault, Philippe Solers, escritores de vanguarda.

O mestre chega: entra caminhando devagar, instala-se cuidadosamente à sua mesa. Olha a sala vagamente, respi¬ra, suspira — como um atleta se concen¬trando — e começa a falar. Em uma voz inicialmente quase inaudível, aos arran¬cos, aos sussurros, faz paradas súbitas, hesita, gagueja. Com frases subitamente invertidas, leves, aéreas, uma rápida incursão pela filosofia de Hegel mais um jogo de palavras, uma grosseria inomi¬nável e um silêncio interminável — ele dá a impressão de que não conseguirá continuar nunca mais, calou-se para sempre, a platéia aguarda fascinada, corações batendo, respiração presa — e ele recomeça a falar, com doçura, fluência, o discurso sobe, sobe alto, e plana finalmente.

Nem há dúvida que tudo isso era composto, montado, como no teatro. Tudo improvisado, mas nada ao acaso. Tudo artifício — mas qual o orador que não é um homem de artifícios?

E somos forçados a reconhecer que Lacan foi o mais extraordinário mágico da palavra que já nos foi dado escutar.

Ao mesmo tempo, ele continuava a dirigir a Escola Freudiana de Paris, reu¬nindo, agora, tudo o que havia de mais brilhante entre os psicanalistas france¬ses. Mas — e como em toda instituição psicanalítica — os dramas são constan¬tes. Há expulsões, tempestades, brigas, e Lacan provoca, desafia, detestando e desprezando tanto os que o adulam da mais beatífica das maneiras como os que não se lhe submetem.

Aos poucos, em pequenos grupos, os psicanalistas vão saindo da Escola Freudiana, e outros os substituem — mas Lacan vai ficando amargo. Tem o sentimento, cada vez maior, de que sua palavra não é ouvida, que os seus ensinamentos terminam em malogro, e num belo dia de 1980, aos 79 anos de idade, estoura a novidade, chocante: Lacan resolveu dissolver a Escola Freudiana de Paris, o edifício mais importante de sua vida.

Pânico. Agitação. Insultos e denún¬cias. Há quem o ataque, há quem cerre fileiras em torno do mestre. Ele fundará outra instituição, sem dúvida — mas a partir desse mo¬mento começa como que a apagar-se, deixa de ser visto, fala pouco, não reina mais, no interior da psicanálise, a não ser como uma ausência devorante, um vazio em torno do qual o ar turbilhona alucinadamente.

Depois, a morte.

Esta é a carreira visível de um homem que faz parte da lenda parisiense desde 1968. Uma lenda, diríamos, histérica. Em que ele é vítima dos piores rumores. Lacan teria dado de presente um chicote de ouro à atriz Jeanne Moureau. Teria insultado o embaixador francês em Roma. Teria… teria… Só que nenhum dos rumores se confirma.

A única coisa certa que ele tem, realmente, caprichos de grande coquette, de “diva”. Gosta, realmente, do perfume de escândalo, de provocação, que o acompanha sempre. É certo tam¬bém que ele exige que os seus pacientes, seus analisandos, lhe paguem regiamen¬te, preços exorbitantes, por sessões que, dizem, são cada vez mais curtas — às vezes de apenas alguns minutos — em que, com frequência, ele não diz uma só palavra.

Circulam em Paris histórias sobre seu mau caráter, sua fatuidade, vaidade, orgulho, estranhas maneiras. Eu o co¬nheci: e nele vi, apenas, sempre um homem muito simples, um homem que lutava, com uma coragem assombrosa, contra o enigma da psicanálise, um trabalhador encarniçado.

Conheci-o em 1966, quando publi¬cou seus Écrits. Pedira-lhe uma entrevis¬ta para uma publicação semanal, Le Figaro Littéraire. Inicialmente ele me submeteu, por telefone, a uma espécie de pequeno exame, para ver se eu tinha algumas noções, ainda que vagas, sobre psicanálise. Ao que parece passei no exame, e ele me marcou encontro para uma das noites seguintes, às dez horas — estranha hora.

Chego, e encontro um personagem muito amável, muito cortês. Oferece-me charutos e whisky, e pede-me que lhe faça minhas perguntas. Ouve atenta¬mente, a cabeça inclinada. Suspira pro¬fundamente, e começa a responder. Uti¬lizando a linguagem mais simples, mais clara do mundo, nada tendo em comum com a prosa preciosa, à Ia Mallarmé, erudita, dos Écrits.

Fala durante muito tempo. Já são quatro horas da manhã quando ele me acompanha até a porta do seu prédio. Revi-o oito dias mais tarde, para alguns esclarecimentos. De noite, novamente, e por volta da meia-noite ele me propôs que fôssemos a um restaurante, para jantar.

Encontrei-o mais duas vezes, e ja¬mais sua gentileza, seu respeito pelo outro foram desmentidos. Mas ele tinha realmente manias, destinadas sem dúvi¬da a alimentar a lenda. Uma manhã, por exemplo, às seis horas, meu telefone tocou. E era o doutor Lacan, me contan¬do uma história sem grande interesse, e absolutamente não urgente.

Quanto às suas teorias, seria uma impertinência tentar resumi-las.

A teoria lacaniana foi elaborada ao longo de 30 ou 40 anos de prática clínica e de reflexão teórica sobre essa prática, complicada ao máximo, sofisti¬cada ao último grau, fazendo referência a toda a cultura do mundo, desde a História e a mitologia, a poesia e a pintura, até Hegel, Kant ou Sade e às formas mais áridas da matemática mo¬derna, sem esquecer a etnologia, a lin¬guística, e todos os recursos daquilo a que chamamos retórica.

Assim, vamos nos limitar a indicar, de um lado, o que essa teoria não é, e, de outro, qual o eixo, a espinha dorsal dessa teoria. Primeiro poderíamos ser levados a acreditar que um homem tão cheio de som e fúria, provocador, icono¬clasta, tivesse virado as costas ao “pai” fundador, a Freud. Pois nada disso: Lacan nunca mudou. O que ele preten¬deu foi um “retorno a Freud”. Empenhou-se em sua leitura, com cuidados ciumentos, meticulosos, sem em mo¬mento algum traí-lo — ou, pelo menos, sem ter o sentimento de traí-lo.

Poderíamos compará-lo, se quisés¬semos, a Lutero, o fundador do protestantismo, que quis efetuar um “retorno aos Evangelhos”, libertando-os da ferru¬gem que lhes fora acrescentada pela Igreja de Roma. Assim fazendo, Lacan visava especialmente dois desvios do discurso freudiano: de uma parte, o desvio pela hermenêutica religiosa, efe¬tuado por Jung e seus discípulos, e, de outra, o esmaecimento sofrido pela psi¬canálise, ao atravessar o Atlântico, reduzindo-se de ano em ano, cada vez mais a uma simples psicoterapia, e ao esforço de meramente “normalizar” os doentes, tornando-os aptos a ocupar seu lugar na sociedade, a funcionar, a produzir.

Lacan estava tão longe dessas práti¬cas que sequer ousava dizer que o tratamento psicanalítico destinava-se a curar. O tratamento, para ele, destinava-se muito mais a fazer com que o paciente “reentrasse em sua própria casa”, ou seja, restabelecesse as comunicações cor¬tadas entre o consciente e o inconscien¬te, sem nem por isso ser obrigado a descobrir, forçosamente, a “serenidade” ou a “felicidade”, palavras que não faziam parte do seu vocabulário.

A palavra-chave para ele era “ver¬dade”, ainda que essa verdade fosse devastadora, cáustica, impiedosa.

Segundo erro a não cometer: fazer de Lacan um filósofo. Em 1966 e nos anos seguintes, no auge da glória, ele tornou-se um mago, um mestre-pensador — e houve quem quisesse içá-lo às alturas dos antigos mestres, particularmente ao lugar de Sartre, exigindo-lhe portanto uma filosofia, uma metafísica. Tentação de que ele se defendeu com horror. Clínico e teórico, sim. Filósofo nunca.

Ele é um homem de ciência, dessa ciência que é, segundo ele, a psicanálise de Freud — e é precisamente o estatuto científico dessa psicanálise que ele quer estabelecer em sua obra. Não há dú¬vida que o seu discurso é sobrecar¬regado de filosofia, e que inspira os filósofos — mas este é um efeito secundário, indireto, pelo qual Lacan se recusa definitivamente a se interessar.

Portanto, a idéia é conferir à psicanálise o estatuto de ciência. E é aqui que intervém o uso da linguística — que também passou a ser ciência, desde os trabalhos de Saussure — uma ciência-serva, se assim quisermos, fiadora e tela de fundo da ciência psicanalítica. E como é que a linguística entra nisso?

Lacan volta a Freud, mas lê-o com óculos que não existiam no seu tempo, os óculos da linguística, fundada por Saussure precisamente com base em Freud. Para Lacan, Freud não descobriu o inconsciente: os homens já o haviam reconhecido há centenas de anos. Basta pensar nas pítias, na mitologia, em Hamlet, Leonardo da Vinci, Sófocles. Os homens sabiam que por baixo do pensamento coerente, “acordado”, es¬tendem-se imensos arquipélagos sub¬mersos, censurados, que formam o in¬consciente. Donde, Freud não descobriu o inconsciente: aprendeu somente a escutá-lo, a decifrá-lo.

Lacan costumava fazer uma bela comparação: antes que Champollion, no começo do século XIX, decifrasse os hieróglifos egípcios, os hieróglifos já estavam lá há muito tempo. E falavam — só que ninguém entendia o que eles diziam. Champollion encontrou a cha¬ve, e, de súbito, toda a antiguidade egípcia nos foi devolvida.

Freud fez o mesmo, e a comparação vai ain¬da mais longe, já que o seu golpe de gênio segue exatamente o mesmo método do golpe de gênio de Champollion. Antiga¬mente, quando se captu¬rava uma palavra do in¬consciente, uma ima¬gem de um sonho, por exemplo, procurava-se compreender o sentido daquela palavra, da-quela imagem. Da mesma forma, antes de Champollion, procurava-se compreender o sentido isolado de cada desenho de uma tábula egípcia— um íbis, por exemplo, ou uma balança — e não se chegava a parte alguma. Champollion teve a ideia de interpretar a série dos símbolos, sua sequência, seu inter-relacionamento, sua ordem, por ter compreendi¬do que um símbolo nada quer dizer se retirado da cadeia significante. Para traduzir uma língua desconhecida ele usou não um di¬cionário, mas uma gramática e uma sintaxe. Freud fez o mesmo: e trabalhou sobre todo o sonho, ou todo o discurso do incons¬ciente, observando como ca¬da uma das suas diferen¬tes secções, suas imagens sucessivas, se organizam umas em relação às outras, se entrecruzam. Em suma: ele examina não mais o discurso palavra por palavra, mas em sua estrutura completa. E tra¬duz esse discurso como se traduz um texto do grego ou do latim, reencon¬trando sua sintaxe e sua gramática.

Assim fazendo, Freud descobriu que esse discurso do inconsciente, longe de ser desorganizado, incoerente, anár¬quico, obedecia a leis rigorosas, estáveis, permanentes — leis precisamente iguais às da linguagem consciente, só que “disfarçadas” pela censura. O que nos leva a pensar na censura no domínio político.

Um regime tirânico decreta a censura. Que se passa então?

Todo o discurso do país é cortado, proibido. Ainda assim, não se interromperá, não parará. O país continua a falar, mas clandestinamente, como o inconsciente, apesar da tirania do cons¬ciente, que continua a falar “sob” o discurso oficial (o discurso consciente, no caso do indivíduo, o discurso do senhor, no caso da ditadura). E fala de modo que o tirano não o entenda, disfarçando-o.

Um jornalista, por exemplo, em lugar de denunciar claramente esta ou aquela prática, vai fazê-lo por meio de um símbolo complexo. O mesmo para o indivíduo: um desejo sexual me ator¬menta, por exemplo, mas minha forma¬ção, minha educação, impedem-me de falar nele, e até de reconhecê-lo. Assim, o desejo não desaparece, mas vai expres¬sar-se em linguagem camuflada, clan¬destina, incompreensível.

A psicanálise é portanto a arte de descobrir as leis que esse desejo utiliza para se manifestar sem se trair — leis que são as mesmas que as da nossa linguagem quando acordados, com sua gramática e sua sintaxe, mas torcidas, disfarçadas.

Lacan dá muitos exemplos desse decifrar-se, mostrando, por exemplo, que formações bem conhecidas do so¬nho, a que chamamos “condensação”, seguem exatamente as mesmas regras das formas de retórica, a metonímia, a metáfora, etc. Assim, pela primeira vez, com Freud, os hieróglifos do inconscien¬te podem ser lidos. Pela primeira vez, o formidável Egito antigo que cada um de nós guarda no inconsciente torna-se per¬ceptível, pode ser ouvido, e conseguimos pôr-nos em comunicação com esse terri¬tório submerso.

A tudo isso faz-se uma objeção: isto é Lacan. Não pode ser Freud, já que as leis da linguística que Lacan aplica para decifrar o inconsciente eram ignoradas na época de Freud. “Prova — retruca Lacan — da genialidade de Freud. A linguística ainda nem existia e ele já forjara um instrumento de decodificação que só podia funcionar com a lin¬guística! Profético, Freud estava muito à frente de todos os outros — mas foi preciso a linguística para que pudésse¬mos apreciar e utilizar plenamente a revolução copérnica que ele realizou.” E Lacan costumava acrescentar ainda que todos os textos de Freud, se lidos com atenção, mostrariam um combate áspe¬ro, violento, com a linguagem.

O que é rigorosamente verdade. Basta citar, por exemplo, a importância dada por Freud ao calembur (refúgio privilegiado do discurso do inconscien¬te), ao trocadilho, ao lapso, ao ato falho, etc. E, enfim, o que é realmente a cura psicanalítica de Freud? Uma cura da linguagem pela linguagem. O paciente fala. O psicanalista escuta, decifra esta ou aquela palavra. Decifra o discurso. Do começo ao fim, a psicanálise é ques¬tão de linguagem.

Claro que esse nosso resumo é indigente. Reduz e empobrece terrivel¬mente o texto de Lacan — mas não nos é possível ir além disso. Teríamos de in¬troduzir aqui muitas outras noções: o estágio do espelho, as três instâncias do real, do simbólico e do imaginário, o objeto pequeno, o outro. Mas tudo isso é de um tal refinamento, de uma com¬plexidade tão vertiginosa, que não é possível incluí-lo em um artigo de jor-nal. Falta só afirmar que tudo se deriva dessa constatação original: “O inconsciente é estruturado como uma lin¬guagem”.

A psicanálise permite traduzir o discurso do inconsciente, para rearticular o indivíduo sobre essa radical dele mesmo que é inconsciente, a fim de reintegrar sua própria verdade.

Esta palavra — “verdade” — retor¬na de maneira obsessiva, em Lacan. O que até surpreende. Como se houvesse uma verdade, como se, admitindo que a verdade existe, o espírito do homem pudesse capturá-la, subjugá-la. Mas a força de Lacan consiste exatamente em fazer, de uma impossibilidade, um for¬midável trampolim teórico para ir mais longe. Assim com a noção de “verdade”, com a qual ele se exibe “como um pavão”, segundo os seus inimigos, ou “como um homem em busca do Santo Graal”, segundo os admiradores.

0 homem é um ser fabricado pela linguagem

Há três anos, aproximadamente, a televisão francesa, não sem coragem, emprestou suas câmeras a Lacan. E vimo-lo, então, na pequena tela. Suas primeiras palavras foram: “Eu digo sem¬pre a verdade”. Os espectadores prende¬ram a respiração. Quem era, afinal, aquele pretensioso, aquele homem que avançava, tocha flamante na mão, usan¬do a linguagem de um profeta, ou de um deus?

“Eu sou a verdade.” E, depois de um silêncio, “mas não toda a verdade, porque não é possível dizê-la toda. Faltam-nos as palavras. E é exatamente por causa dessa impossibilidade que a verda¬de se torna verdadeira”.

Perfeito: em três frases cintilantes, ele disse tudo: que o homem é um ser da linguagem, um ser fabricado pela lin¬guagem e fabricante de linguagem, mas que a linguagem é impotente para reve¬lar a totalidade do mundo, e que é desta falha, deste abismo que separa as pala¬vras e as coisas, que o real emerge. A isso acrescentaremos que essa tentativa sacode os fundamentos de toda a filoso¬fia, portanto do ser, do Ocidente.

Formalizar o inconsciente segundo a matemática

Freud, repetido ou explicado por Lacan, opera um putsch filosófico, um golpe de Estado. “Descentraliza” o “eu” cartesiano. Abole a fórmula real, funda¬dora do Ocidente, o “Penso, logo exis¬to”, de Descartes. Com Descartes o homem só é pensando, e pensa a partir do centro de si mesmo. Com Lacan e Freud tudo isso é dilapidado, tudo é jogado para o alto. Não podemos mais dizer hoje em dia “Penso, logo existo”, mas, mais dramaticamente — e aqui deixamos o texto em francês —, “Je pense où je ne suis pas, je suis où je ne pense pas”, frase em que a palavra où, com seu acento grave, passa a significar advérbio de lugar — onde — e não a alternativa ou, do famoso “Ser ou não ser”. O que traduz, em outros termos, a ruptura, o corte, a separação que corta cada um de nós entre essas duas instân¬cias, radicalmente estrangeiras uma a outra, mas influenciando-se mutuamen¬te, que são o “consciente” e o “incons¬ciente”.

E percebemos assim as convergên¬cias, os encontros passíveis de serem anotados entre o pensamento de Freud, Lacan e o de outros mestres das ciên¬cias humanas, Lévi-Strauss ou Michel Foucault, que também anunciam o fim do homem, a morte do homem — pelo menos no mundo ocidental —, do “eu” cartesiano.

Mas não prolonguemos demasiada¬mente as considerações filosóficas que o próprio Lacan negligencia, ainda que elas alimentem há dez anos as mais vivas reflexões francesas. Voltemos, antes, a essa existência em parte clownesca e infatuada, de outra. E é a única que nos interessa reter, genial, patética e heróica. Pois que, se a genialidade de Lacan é desde já irreversível, se ele já pertence à história da cultura, ainda que só por causa das rupturas, das descobertas que o seu discurso obscuro e soberbo causou nas gerações de homens de 20 a 40 anos, foi ao preço de um trabalho desespera¬do, de um combate mortal que Lacan o fez.

Já quase no fim da vida, esse incorrigível viajante quis ir ainda mais longe em sua formalização. O modelo linguís¬tico não mais lhe parecia suficientemen¬te sutil ou rigoroso para dar conta dos meandros do discurso do inconsciente, e ele passou a formalizar o inconsciente segundo o modelo matemático. Lacan já estava velho, e sobretudo cansado. Seus seminários eram dados cada vez com mais dificuldade. Continuavam sendo seguidos por um núcleo de fiéis, mas nada que se comparasse às multidões extasiadas dos anos 70.

Não assisti a nenhum deles, mas ouvi repercussões. Agora, Lacan subia ao estrado, desenhava em um quadro-negro gráficos, fórmulas matemáticas de uma aridez cada vez mais austera. Já não falava quase, ficava por muito tem¬po parado diante dos seus gráficos como que paralisado ou fulminado, tentando avançar, compreender as suas próprias fórmulas, e às vezes — nem sempre — o discurso renascia, soberbo como antes — e depois ele tornava a se calar.

Às vezes, segundo me disseram, durante toda uma longa sessão sequer uma pala-vra era dita.

Além disso, ele levava sempre nos bolsos cordões de cores diferentes, com os quais montava modelos matemáticos que deveriam reproduzir a topologia do discurso do inconsciente. Mas também com os cordões ele se embaraçava — e uma vez, até, segundo me contou um dos seus mais fiéis adeptos, em um dos últimos seminários que realizou, até com os gráficos ele se atrapalhou, não sabia mais o que pretendia, e lá ficou, mudo, vencido, desfeito. A reação dos seus alunos, espontânea, comovida, foi assegurar-lhe: “Nós o amamos, o ama¬mos muito”.

Lacan: talvez, realmente, um ho¬mem cheio de traços contestáveis. De um orgulho provavelmente exagerado, como sua violência e seu gosto pelas disputas — mas o gênio é sempre exi¬gente, o gênio é um devorador. E, de qualquer modo, o que desejaríamos guardar disso tudo, no momento em que a sua imensa voz, às vezes balbuciante, se calou para sempre, é a imagem de um velho frágil, que perdeu toda a soberba, parado diante de um quadro-negro com seus cordões coloridos, como uma crian¬ça que esqueceu a resposta. Um velho imperador, não decaído, porque ninguém foi mais longe do que ele — mas vencido pelo seu próprio gênio, a quem tudo o que os alunos encontraram para dizer, no fim, foi que o amavam.

O trabalho terapêutico e clínico da psicanálise

Para que serve a análise pessoal ou psicanálise? A pratica da análise pessoal, surge da necessidade do ser humano em ser ajudado em seus aspectos emocionais, anímicos e intelectuais em conflito. Os conflitos são desestruturações do aparelho psíquico que se manifestam como sintomas : fobias, medos, desinteresse, falta de ânimo, a partir de neuroses: repetição de atos, que percebemos em nós ( ou que não percebemos ) mas que nos aprisionam por exemplo em relacionamentos destrutivos, empregos inadequados, atitudes auto-sabotantes, incapacidade para sentir-se espontâneo” Mas não me sinto doente, somente sinto que não me relaciono bem com a vida e comigo mesmo, a análise é indicada no meu caso?  A psicanálise clínica não é um processo somente para quem é diagnosticado com alguma doença mental. Ela é um processo de autoconhecimento que leva a compreendermos melhor a si mesmo, e assim, amadurecermos emocionalmente e vivermos melhor.

Como se dá a análise, e como ela funciona? Na relação entre analista (psicanalista) e analisado (paciente) forma-se uma relação subjetiva de onde pode-se interpretar o inconsciente do analisado, e assim fornecer compreensão e integração do Self do paciente ( Eu como um todo).  No modelo médico, busca-se a eliminação de sintomas, já na psicanálise, a eliminação do sintoma é consequência da modificação na estrutura psíquica que deu origem ao sintoma. Ou em outras palavras, uma modificação na dinâmica psíquica na qual o paciente se envolveu, e que o faz sentir-se e viver infeliz consigo mesmo e com os outros ( no sintoma).

O que é o processo psicanalítico? O trabalho psicanalítico clínico é um método profundo de trabalho que visa compreender o “sentido” do nosso inconsciente, nossas motivações mais profundas, inconscientes, e assim chegar à compreensão (paciente junto com terapeuta) do sintoma no analisado. Na integração entre consciente e inconsciente, ( ou o lado objetivo e subjetivo) adquire-se o alivio dos sintomas.   Todos nós temos uma história de vida, o palco da nossa constituição enquanto sujeitos que somos hoje. Neste palco, tivemos nossos coadjuvantes, a família, o ambiente proporcionado por estas relações com as quais convivemos e aprendemos a ser e estar no mundo, entre eles: pais, irmãos, professores, familiares, amigos,enfim…  O meio social é importante na análise, como também o é a cultura na qual estamos inseridos, e a história a qual construímos desde quando nascemos (e inclusive antes disso).

Como são as sessões ? No trabalho clínico contemporâneo, as sessões tem duração de 50 minutos, e a periodicidade vai depender de cada paciente, de cada caso.  Também o trabalho clinico hoje, não segue rigidamente os estereótipos encenados em Hollywood, através do qual, do analista que ficaria fora do campo de visão do paciente, que deita-se num divã e que fica falando quase sem ter uma interação. Hoje, a sessão é construída junto com o paciente, de acordo com as necessidades, podendo inclusive seguir este padrão clássico. De um modo geral, a sessão segue, de um lado,as expectativas do analisado (paciente), e de outro, as linhas de trabalho do analista (terapeuta), além dos objetivos e fase do trabalho. Aspectos como religião, fatores culturais e sociais são respeitados individualmente.

Sobre a duração do tratamento? A duração do trabalho também é um ponto importante.  Na análise, diferente de técnicas de aconselhamento, leva o paciente a tomar suas próprias decisões, a estar mais consciente de suas escolhas, e a agir com maior liberdade, espontaneidade e responsabilidade consigo mesmo.  Mas cada vez, nossa cultura nos leva a sentimos necessidade de resultados cada vez mais rápidos. No caso do mundo subjetivo, interno, o tempo é relativo. Mas de qualquer forma, para se conseguir resultados mais profundos e sustentados, é preciso tempo, e por isso, o trabalho analítico é um compromisso de longa duração.

Preciso de resultados rápidos, a análise pode me ajudar? Mudar interna e profundamente, com resultados mais efetivos, como se propõe a psicanálise, demanda tempo e muito trabalho, de ambas as partes: terapeuta e paciente. É preciso ter em mente que um compromisso com sua análise, é um “contrato” consigo mesmo, com seu amadurecimento emocional e psíquico, e que isso não tem tempo ou momento pra se começar, e pela pespectiva que se oferece, deveria ser o quanto antes.   Também, deve-se ter em mente que não se pode mudar tão rápido uma coisa que “criamos” e sobre a qual vivemos sustentando desde nossa infância.  Por isso, a duração de um tratamento em psicanálise é indeterminado, varia de pessoa pra pessoa, depende do andamento do processo e das necessidades de cada um, até onde se queira ir, ou o que se queira alcançar.

posso saber se poderei pagar minha análise? Em todos os aspectos de nossa vida, os investimentos que fazemos são proporcionais ao ganho que pretendemos. E na terapia não e diferente. O valor a ser pago na análise é um aspecto importante tanto para o analista quanto para o paciente. O analista deve cobrar um valor que simbolize não só o valor de seu trabalho, de sua formação, de seu tempo de trabalho, mas também o custo do consultório, materiais, tempo fora das consultas em que ele estuda o caso e escreve relatórios, supervisão de casos, etc.  O paciente, deve ter em mente, no dinheiro a ser pago, um investimento pessoal em si mesmo. Além disso, seu compromisso consigo mesmo, como um investimento em sua evolução pessoal, somado á sua dedicação, seriedade, perseverança e sobretudo coragem em iniciar a análise. A importância que dá a si mesmo no tratamento analítico, é refletida no dinheiro e em como se lida com o valor do investimento na terapia. O retorno é proporcional, como já disse acima, ao investimento: no autoconhecimento, no desenvolvimento de recursos internos para lidar com as situações da vida, com maior clareza e consciência de si, na aquisição de espontaneidade, coisas que não se pagam por dinheiro algum, e que vão acompanha-lo em toda a sua vida.

Vale a pena investir na minha análise? Mensurar o custo ou a valorização de um trabalho analítico é muito complexo. Na primeira sessão, analista e paciente assumem um “contrato”, ou seja, as regras sobre as quais se seguirá o compromisso da dupla analista-paciente, no trabalho psicanalítico deste último.  Definir o valor a ser cobrado ou investido, envolve aspectos encobertos de culpa, vergonha, entre outros. Mensurar o valor de algo, e principalmente do trabalho analítico, envolve simbolicamente a mostrar o valor que se dá a si mesmo, ou o compromisso que se pretende assumir em favor de si, de querer ou não a análise, da sua resistência em não mudar.

O valor é sempre determinado pela dupla psicanalista e psicanalisado, (em conjunto) tendo como base um equilíbrio entre as possibilidades tanto do paciente como do analista em manter o tratamento pelo período que for necessário.

Afeto, Lei e Família

familia pais filhos afetoSempre gosto de começar agradecendo o convite que desde o ano passado já havia sido realizado para que participasse da 1ª jornada de Psicologia Jurídica, porém, em virtude das atribuições cotidianas de trabalho, não pude estar aqui. Este ano, o convite me foi feito com bastante antecedência, não havendo nenhuma possibilidade de ser negado.

Começo com esse agradecimento e acredito ser pertinente assinalar a pergunta inicial que fiz a pessoa que se dirigia a mim para compor essa mesa: Você sabe que sou Psicanalista e falo desse lugar?

Sim, me senti na obrigação de fazer essa pergunta, porque, uma vez falando do lugar da Psicanálise, acredito trazer muito mais dúvidas do que certezas. E para ser sincera, acho que tenho muito mais a aprender com vocês no debate posterior.

Por falar desse lugar, algumas considerações tornam-se pertinentes: a primeira delas, “herdei” um vício fruto das jornadas de Psicanálise: apresento-me fazendo uma leitura de um texto que produzi especialmente para esse encontro, e também por acreditar na possibilidade de ser mais elegante com tempo, sinalizado em 20 minutos.

O segundo ponto a ser esclarecido, é que me permiti inverter os significantes que aparecem na “chamada” da mesa de: Família, Afeto e Lei, para: Afeto, Lei e Família.

Portanto, comecemos com o significante Afeto: a concepção de afeto para a psicanálise é referente ao registro psicológico determinado por Freud (Kaufmann 1996) que, com sua originalidade, desloca a concepção de afeto do registro neurológico para o registro propriamente psicológico, devido aos progressos ocorridos na elaboração do conceito fundamental de pulsão¹ e da noção de “representação pulsional”. Segundo Freud:

(…) ou a pulsão é inteiramente reprimida, de tal modo que dela não se encontre nenhum vestígio; ou se manifesta sob a forma de um afeto dotado de uma coloração qualitativa qualquer; ou, finalmente, é transformada em angústia. Estas duas últimas possibilidades nos induzem a levar em consideração um novo destino pulsional: a transmutação das energias psíquicas das pulsões em afetos, e muito particularmente em angustia. (Freud, apud Kaufmann, 1996,P.14)

freud psicanaliseLogo, visto nesta perspectiva, a mim não interessa, neste momento, o sujeito epistêmico de Piaget, o sujeito “normativo” educacional, ou até mesmo o sujeito jurídico. Esse, o jurídico, deixo para as outras palestrantes da mesa que com certeza, falarão dele com maior propriedade. O sujeito, que destino a minha a fala, é o sujeito do desejo. Sujeito das formações dos desejos inconscientes que não podem ser simplesmente costurados e pensados numa ordem cronologicamente correta.

O afeto para a psicanálise é originário na formação do inconsciente sendo este definido como uma invenção e só acontece em ato. Por isso, não há como fazer uma prevenção, uma vez que na própria evitação, está posto o Desejo.

Sendo assim, concordo com Groeninga (2003) quando nos assinala que a questão dos afetos merece atenção especial, pois talvez pele resistência que tenhamos em reconhecer as qualidades agressivas, que todos nós possuímos, tendemos, no senso comum, a equipar o amor ao afeto, muitas vezes idealizando a família como reduto só de amor. Quando na verdade, a função da família, está para além disto.

Os afetos são o equivalente da energia psíquica, dos impulsos que afetam o organismo e se ligam a representações, a pessoas, objetos significativos. Transformam-se em sentimentos e dão um sentido às relações, e ainda influenciam nossa forma de interpretar o mundo.

Assim, a par dos afetos, sabemos que por Freud, esses vão se impondo e sendo vivenciados no decorrer do desenvolvimento do sujeito e é por eles que passamos então a falar o L (maiúsculo) o sentido de Lei e consequentemente a função da paterna.

Guyomard (2007) diferencia o L maiúsculo, do l minúsculo, no sentindo que: as leis (com l minúsculo) são uma maneira mais ou menos imposta de viver juntos. Logo são as leis sociais, morais, culturais ou até mesmo as jurídicas. Enquanto que a Lei (com L maiúsculo) é aquela que se refere a algo que define o humano. E ao apontar para isso, definir o humano, o autor concorda com Freud e posteriormente com Lacan, que para o individuo se tornar sujeito é necessário prioritariamente ter vivenciado e “resolvido” a sua conflitiva edípica, bem como a questão da metáfora paterna.

Para o individuo se constituir como sujeito, ele precisa dar conta da sua travessia do complexo de Édipo e ter estruturado o L maiúsculo em sua realidade psíquica.

É a partir do simbólico, portanto, que se pode fazer o diagnóstico diferencial estrutural por meio dos três modos de negação do Édipo – negação da Castração do Outro – correspondentes às três estruturas clínicas: Neurose, perversão e psicose.²

Das três estruturas clínicas, nesse momento, pensaremos naquela que consegue dar conta da saída do Édipo, no caso a Neurose, tendo bem estruturado o L (maiúsculo) em sua dimensão psíquica.

Assim, veremos como acontece inicialmente essa estruturação de uma Lei, em Freud, e posteriormente em Lacan, que ao reler Freud, nos aponta o pai enquanto função, nos afirmando que essa noção de pai em psicanálise não remete exclusivamente à existência de algum pai encarnado. De fato, nada pode garantir antecipadamente que esta encarnação corresponda seguramente à consistência de um pai investido de seu legítimo poder intervenção do ponto de vista do inconsciente. DOR (1991) concordando com Lacan (1957–1959) nos afirma que nesse sentido, “trata-se menos de um ser encarnado do que de uma entidade essencialmente simbólica que ordena uma função” (DOR, 1991, p.14).

Para podermos entender esse acréscimo que Lacan faz a obra de Freud, comecemos pelo próprio Freud e seu texto A Dissolução do Complexo de Édipo (1925), o autor descreve que naquela época ainda não havia se tornado muito claro o que acarretava a dissolução do complexo. Umas das vertentes teóricas afirmava que a própria condição da falta de realização de determinada paixão, acabava por dissolver o complexo de Édipo. A outra vertente propunha o fato da própria condição filogenética do homem estruturar, via morte biológica, a morte psíquica do complexo de Édipo, ou seja: que tudo na vida chega um dia ao seu fim.

Considerações a parte, o que inevitavelmente ocorre, é que na vida de todo ser humano há uma imposição de limites que são dirigidos tendo, desta forma, este homem que conviver com sua própria condição de ser castrado. Ao afirmar isto, Freud (1925) pontuava: mesmo que um homem deseje todas as mulheres da terra, ao menos uma, talvez a mais desejada, ele não terá: A sua mãe. Para livrar logo desta impossibilidade, normalmente é a própria mãe quem primeiro edita a castração nesse filho, ou seja, o menino, com a descoberta do pênis e o seu profundo interesse pelo mesmo, logo é ameaçado da castração. Imediatamente a mãe lhe impõe uma norma, de que não deve manipulá-lo, caso o faça, será punido.

Há um fato interessante nesta passagem do texto de Freud (1925). O foco da angústia da mãe que castra o filho está na própria manipulação do pênis em si, que para ela também não deixa de ser uma ameaça, afinal de contas é com o mesmo que o incesto pode ser praticado, mas manifestamente ela culpa a mão que manipula o pênis e coloca nela toda a culpa da castração. Freud (1925) ainda chama atenção para o fato das próprias mães saberem da sua condição “inferior feminina”, no século XIX. Afinal, desde de pequenas já fizeram as comparações com seu companheiro do sexo oposto e viram que se saíram “mal”³, assim buscam reforçar a sua autoridade por uma referência ao pai, ou ao médico, posteriormente ao marido, os quais, como dizem, levarão ao cabo a punição.

Freud (1925) acreditava que era essa ameaça de castração que ocasiona a destruição da organização genital fálica da criança. Também acredito nessa possibilidade. Embora para os meninos a ameaça de castração não seja algo que, inicialmente, deem muita importância, eles começam realmente a pensar nesta possibilidade ao fazer comparações com o sexo oposto. Desta forma, questionam como pode a menina, uma criatura tão semelhante a ele, não ter um pênis igual ao seu. É nesse momento que começa e elaboração de que a punição é algo verdadeiro, as meninas por bem já são castradas, fruto de algum erro que cometeram no passado, sendo assim eles começam a pensar nesta possibilidade. “Com isso, a perda de seu próprio pênis fica imaginável e a ameaça da castração ganha efeito adiado”. (Freud, 1925, p. 195)

É, pois, pela ameaça da perda de algo por ele tão amado que a fase fálica dá sua vez ao período de latência. Sabemos que, na fase fálica, a masturbação jamais representa a totalidade da sua vida sexual, porém está na atitude edipiana para com os pais. Sua masturbação constitui apenas uma descarga genital da excitação sexual pertinente ao complexo, e, durante todos os seus anos posteriores, deverá sua importância a esse relacionamento. (Freud, 1925, p. 196)

O interesse narcísico pela parte do seu corpo nada mais é que uma forma de sublimar a intenção da libido objetal. O narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo alvo ideal (Freud, 1914, p.100). Por ser ideal, contem toda a perfeição de valor. Na verdade, o ser humano não quer perder o que de ideal e perfeição simbólica construiu em sua infância, daí a necessidade de substituir os objetos, já que ele não pode ter a mãe (ou o pai). O indivíduo se vê fadado a gastar toda a sua libido em direção a si próprio como algo compensatório. O ego, desta forma, entra em cena e as catexias abandonadas, sendo substituídas por identificações. O ego, sendo construído neste contexto ideal, está fadado a ser “vigiado” por ele mesmo a todo momento, e este estado de vigilância e censura é uma personificação da consciência por tudo aquilo que a criança vive socialmente, primeiro em sua família pois esta normalmente é símbolo da primeira representação social, segundo pela própria sociedade.

A autoridade do pai é introjetada no ego formando o superego, assumindo assim a severidade do pai, configurando a proibição do incesto. O superego então dita uma Lei e é nessa condição que o sujeito se constitui como o sujeito barrado, ou seja, há nele uma incompletude que lhe é inerente para a sua constituição enquanto sujeito, sendo necessária a presença do Outro.

Quando sinalizo a presença do Outro (escrito com O maiúsculo), este já nos aponta ao Grande Outro que Lacan acrescentou com a sua releitura de Freud e consequentemente com as complementações que este nos traz em sua releitura ao Édipo freudiano.

Lacan psicanaliseEste Outro, nos remete a pensar no Grande Outro Lacaniano, que habita o universo da linguagem onde em alguns momentos, nos depara com o Simbólico, em outros com o Imaginário e em outras vezes com o Real. A estrutura Real – Simbólica – Imaginária (RSI), proposta por Lacan, nos permite afirmar, que a criança, antes de falar, ele já foi falada, uma vez que esta já habitava o desejo dos pais.

Desta forma, todo filho é proveniente de um desejo, a criança já existe, desde o momento em que ela esteja presente no discurso dos pais. Ela é proveniente do desejo de um Outro. É justamente por ser proveniente do desejo de um Outro, que em um certo momento da sua vida, essa criança precisa sair do discurso alienado dos pais, para assim, se constituir como sujeito e dar conta do seu próprio desejo. É por essa explicação, que Guymomard (2007) nos afirma:

o que se chama de lei do pai, na verdade, não é de modo algum a lei do pai, é a lei dos filhos. São os filhos, enquanto filhos, que instauram uma lei. A lei do pai é a lei do gozo, que não tem somente a lei do pai, enquanto exterior aos filhos, mas é a lei que os próprios filhos teriam o desejo de seguir. (GUYMOMARD, 2007, p.8)

Para fundamentar determinada afirmação, Lacan retoma a teoria freudiana dos complexos de castração e de Édipo para articulá-la com a metáfora paterna, conceito que elaborou em seus seminários, com finalidade de estabelecer as funções do pai no processo de simbolização. Para Lacan a interdição do incesto é estrutural e não algo meramente histórico. O autor prefere chamar o complexo de Édipo de Nome – do – Pai, porque isso “não é tão complexo assim”. Sem dúvida, a elaboração do Complexo de Édipo por Freud corresponde precisamente o ponto de partida que Lacan utiliza para a construção da metáfora paterna.

Esse processo de simbolização se realiza em três tempos: frustração, castração e privação. Cada um desses três tempos é marcado pela falta do objeto. Justamente por isso, os três tempos do Complexo de Édipo correspondem também às três modalidades de falta da estrutura.

1° tempo: Frustração – ser ou não ser o falo. Esse tempo remete para as primeiras experiências do recém nascido. Neste ponto, está a originalidade da obra de Lacan, uma vez que para ele o Édipo acontece antes dos 5 anos. Desta forma o autor introduz um terceiro elemento na relação mãe e filho: o falo. É preciso que a criança ocupe o lugar de falo, isto é, o lugar de objeto do desejo da mãe, para ser introduzido no universo simbólico (campo do Outro), da Lei (Nome – do – Pai). Isto é o que Lacan nomeia de processo de humanização do ser falante, que tem como agente a mãe no registro no simbólico (desejo–da–mãe).

Lacan (1956-1967) em seu seminário 4: A relação de objeto, descreve a frustração como sendo momento em que o seio, como objeto de necessidade, se desloca do real para o simbólico, adquirindo dessa forma valor de dom. A partir daí, não só a oferta e a recusa do seio se tornam sinônimos de amor e de desamor, mas também as satisfações da fome implicam a frustração da satisfação da boca.

A primeira experiência de amor, marcada pela fantasia de que se é o falo, estrutura, modela e organiza todos os conflitos a serem vividos nos próximos tempos.

O 2° tempo: Castração – ter ou não ter o falo. Se na frustração o jogo com o falo se passava ao nível simbólico, agora ele se realiza no nível imaginário. A passagem de um tempo para outro é marcada pela introdução de um elemento na tríade da criança, mãe e falo: o pai. O papel a ser exercido por esse pai é interditar a mãe. Essa função de proibição situa o pai no registro do real, o que faz com ele seja apreendido pela criança, ao nível imaginário, como uma figura terrível e tirânica. É nesse sentido que se deve compreender o pai real como agente da castração.

É preciso não esquecer que a paternidade para a psicanálise é uma função simbólica e não real. Nesse sentido, o pai real como agente da castração não tem nenhuma relação com o biológico. O pai real é um operador estrutural como função de colocar em cena o impossível sob forma de proibição. No nível do enunciado, a proibição vela o que está no cerne da enunciação: o real como impossível. Essa função de mascarar o impossível faz com que o pai real seja apreendido, no nível imaginário, como aquele que tem o falo. A onipotência, que a mãe tinha na frustração, se desloca para o pai na castração, fazendo com que ele seja apreendido no nível imaginário como uma figura ameaçadora. A função precisa do pai real como operador estrutural é confirmar, ratificar e reforçar a função simbólica do pai (Nome–do–Pai) inscrita na frustração.

familia afeto leiA função do pai real só se realiza se for mediada pela palavra da mãe. É fundamental que a mãe reconheça que está submetida à Lei do pai. Não é preciso a presença do pai como personagem. Uma mãe viúva ou uma mãe “solteira”, por exemplo, pode perfeitamente exercer a função do pai real. Basta que ela diga e dê provas de que o objeto de seu desejo não é o filho, pois, por detrás dela existe uma mulher que não tem o falo e, justamente por isto, vai buscar em um homem, e não no filho, o que ela não tem.

3° tempo: Privação – ter ou ter o dom. O agente da privação é o pai imaginário: aquele com que lidamos o tempo todo e com quem estabelecemos rivalidade. Trata-se, portanto, do pai idealizado, que tornar-se o para raio dos ciúmes, do amor e do ódio. A falta se inscreve no registro do real porque aponta para o impossível. O objeto se situa no nível simbólico porque a privação se caracteriza pela conversão do falo imaginário em falo simbólico.

Se na castração o pai tinha o falo, trata-se agora do reconhecimento da castração do pai, o que implica a transformação do pai onipotente em pai potente: o pai não tem o falo, mas tem alguma coisa com o valor de dom.

Toda a privação real exige uma simbolização. Na castração, é preciso que a criança aceite a privação materna do falo. Se a mãe não tem o falo, quem tem o falo é o pai. Já na privação, trata-se do reconhecimento da castração do pai. Ou seja: o pai também não tem o falo. É preciso então a simbolização da castração paterna: o pai não tem o falo, mas tem alguma coisa com valor de dom. Lacan (1957 – 1958) no seminário 5: As formações do inconsciente, define essa dádiva paterna como o “título de propriedade virtual” com o qual o menino se identifica.

A privação corresponde ao que Freud denomina de saída ou solução do drama edipiano, momento em que se produz a escolha do sexo pela via de identificação. Nesse momento, retomo ao que apontava, no início dessa palestra: É a partir do simbólico, portanto, que se pode fazer o diagnóstico diferencial estrutural por meio dos três modos de negação do Édipo – negação da Castração do Outro – correspondentes às três estruturas clínicas: Neurose, perversão e psicose. E conseguir solucionar o drama edipiano da forma como foi relatada aqui hoje, correspondendo a estruturação neurótica.

É nesse sentido que se deve entender a famosa expressão freudiana de declínio do Édipo: a identificação do filho com o pai. Ou seja, o menino com o direito de ser homem. Quanto à tese freudiana sobre o desenlace do complexo de Édipo na menina, Lacan afirma que as mulheres sabem exatamente onde devem procurar as insígnias que dão direito ao título de virilidade.

Diante do exposto, algo, nos possibilita refletir: é preciso renunciar ao que nunca se foi e ao que nunca se teve, mas que um dia se acreditou ser (frustração) e ter (castração) para que seja possível a simbolização do falo como objeto de dom (privação).

Dessa forma, concordo com Pereira (2003) que nos afirma que a primeira lei é uma lei do Direito de família.

Ainda Pereira (2003) nos acrescenta que A investigação antropológica de Freud, permitiu-o concluir que “o começo da religião, da moral, da sociedade e da arte convergem para o Complexo de Édipo”. E o Complexo de Édipo nada mais é que a Lei do – Pai (Lacan), ou seja, a primeira lei do indivíduo e que o estrutura enquanto sujeito, e lhe proporciona o acesso à linguagem. E o possibilita o acesso à cultura.

É então a primeira LEI. É a Lei fundante e estruturante do sujeito, e consequentemente da sociedade e obviamente do ordenamento jurídico. É somente a partir desta primeira lei, quando o indivíduo teve acesso à linguagem, que pôde perceber, com a proibição, que existiam outros totens é que pôde existir a cultura. E talvez a explicação de sua origem seja mesmo a do vinculante inconsciente que se refere Freud.

Assim, podemos dizer, que é exatamente porque o homem é marcado pela ‘Lei – do Pai’ que se torna possível e necessário fazer as leis da sociedade onde ele vive, estabelecendo um ordenamento jurídico.

Apontar para essa questão, é algo polêmico e árduo nos dias atuais, onde nós psicanalistas estamos a todo momento discutindo a questão da falência da função paterna. Forbes (2005) afirma que estamos na era pós edípica. A globalização desloca a verticalidade do pai. Por isso, necessitamos agora de novas representações do mundo. O autor nos acrescenta, a dificuldade de se psicanalisar, hoje em dia, apenas pela chave do Édipo, que se mostra limitada diante novos problemas, sendo preciso ser criado um novo “programa de computador”.

Quando escutava essas afirmações de Forbes (2005), pensava em várias questões que escuto na clínica, nas escolas ou nas universidades nos dias atuais. Para além da vida cotidiana, também vejo e escuto nas novelas (pelo menos as globais) essas novas configurações de famílias e com muitas delas a falência da função.

Escuto professores que trazem em sua queixa, um esgotamento físico muito grande, por não suportarem mais estar naquele lugar, como representante de uma Lei que os adolescentes da atualidade não respeitam mais. Essa professora com mais 20 anos de docência dizia que os jovens de hoje em dia, não são mais os mesmos de 20 anos atrás. Ao passo que escutava isso, à noite quando chego em casa, vejo cenas da novela das 9h na Rede Globo de televisão, onde uma professora do ensino médio de uma escola estava completamente desestruturada em sua função, sem conseguir dar conta do seu exercício do magistério, uma vez que na sua sala, havia um menino chamado Zeca (personagem vivido pelo ator Duda Nagle), líder de um grupo que proporcionava atitudes “vândalas” na escola. zeca duda nagle e antonio caloni caminho das indias globoEm cenas sequentes da novela, nos é apresentado a família do garoto. E então conseguimos entender o porquê daquele sintoma sendo manifesto na escola. Na família daquele menino, tudo se pode, tudo se compra, e a Lei (com L maiúsculo) não existe.

Esse exemplo da novela, torna-se bastante pertinente para ilustrar toda a fala dessa conferência exposta hoje. Observem que na novela, o garoto possui um pai (personagem vivido pelo ator Antônio Caloni) e uma mãe (personagem vivido pela atriz Ana Beatriz Nogueira) real, no sentido de figuras encarnadas, porém o pai enquanto função paterna, em nenhum momento aparece nas cenas.

Dessa forma retomo a pontuação de Lacan, que afirma não ser preciso haver um pai encarnado para que exista a função a paterna. A função paterna deve vir enunciada.

Quando nós psicanalistas falamos que há declínio da função paterna, estamos falando do lugar da função. Essa Lei que deveria ser posta que a com as mudanças da pós modernidade, não está conseguindo ser operacionalizada.

Com a pós-modernidade, Bauman em seus livros já nos clarificou que o tempo é líquido, o amor é líquido, as vidas são desperdiçadas, o sujeito virou coisa e nessa coisa a subjetividade, o sentido e o próprio sujeito foram postos de lado.

Pensar na família pós moderna, nos novos en (laços) sociais, é algo de uma ordem muito complexa. O que poderíamos chamar de novos en (laços) sociais? Novas configurações familiares?

Para que haja uma família, faz necessário primeiro haver o sujeito. O sujeito em questão, por ora exposto, com as suas próprias questões, os seus próprios sintomas e com as suas respectivas faltas.

Para haver desejo, é preciso haver falta. É essa falta, que nos dias atuais as pessoas não conseguem suportar.

Para se constituir uma família, seja lá em que modelo for, é preciso que haja o sujeito do desejo. Um modelo de família perfeito? Não sei se existe.

Apenas concordo com a afirmativa Lacaniana apresentada no seminário 8 “A transferência” (1960-1961): se amar é dar o que não se tem, para quem não é penso que ao escolher um companheiro para assim constituir uma família, antes de mais nada é preciso que cada um conheça bem a si mesmo e se suporte como sujeito.

Por outro lado, observo casamentos que aparentemente dão certo, não são os dos contos de fadas, até porque nos contos de fadas, depois do casamento, normalmente a história acaba com frase do final: “e viveram felizes para sempre” sem nos revelar o que acontece após a cerimônia do casamento.

E o que é viver feliz para sempre? Penso que companheiros dão certos, uma vez que um sabe suportar o sintoma o do outro. O companheiro dito ideal é aquele, que em uma relação é capaz de suportar com paciência e tolerância o sintoma do outro. Coisa nada fácil, para quem não possui as suas questões parcialmente resolvidas.serie globo tudo novo de novo artigo clarissa lago

Por isso que ainda acredito na Psicanálise, e serei Psicanalista até o fim. Na minha profissão o sujeito está em questão. Como Psicanalista escuto e permito que as pessoas se escutem, e ao se escutarem sei que são capazes se re- inventarem a cada dia, descobrindo algo que talvez antes nunca havia pensado, surpreendendo-se. E talvez nessa surpresa, sejam capazes de encontrar o outro amado, assim como nos afirma Nasio (1993) “o outro amado é a imagem que amo de mim mesmo. O outro amado é um corpo que prolonga o meu. O outro amado é um traço repetitivo com o qual me identifico” (Nasio, 1993, p.94).

Portanto, tentando concluir, o que não se conclui, deixo a ressalva: Na nova série de Globo que ontem a noite assistia (a série passa toda sexta depois do Globo repórter) os significantes, título que se apresentam aponta para essa questão: É tudo novo, mas a chamada não para nesses dois significantes e prossegue: DE NOVO! Denunciando a repetição.

Por hoje, paramos aqui.

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¹ A pulsão é radicalmente inconsciente, por definição ela habita no inconsciente freudiano. A pulsão não é nem um instinto, nem uma espécie de apêndice de algum órgão, como se costuma pensar; ela é em si mesma a montagem desses quatros termos. Os quatros termos que compõem a pulsão: o impulso, a fonte, o objeto e o fim. Ou seja: sua fonte é uma zona erógena; o objeto é totalmente contingente já que, como se diz, “o fim justifica os meios”; o fim (o alvo) é a satisfação entendida como uma diminuição da tensão que disparou. (Lajonquière, 2000, p.159)

² Das três estruturas clínicas, não cabe no momento aqui desvendar, ficando como desejo de escrita para outros trabalhos, mas sabemos que nos referimos a Neurose, Perversão e Psicose. Quinet (2005) nesse mesmo texto que trago como referencia, distingue claramente a Neurose, tendo como forma de negação o recalque, o local de retorno o simbólico e o fenômeno: sintoma; enquanto que na Perversão, a forma de negação apresenta-se como o desmentido, tendo como local de retorno o simbólico, apresentando o fetiche como fenômeno. E por fim, a psicose, onde a foraclusão apresenta-se como forma de negação, tendo como local de retorno o real e a manifestação do fenômeno é alucinação.

³ Em a Dissolução do Complexo de Édipo (1925), Freud expõe algo que faz parte do universo feminino. A anatomia do destino, a distinção morfológica está fadada a encontrar a expressão em diferenças no desenvolvimento psíquico. O clitóris na menina inicialmente se comporta exatamente como um pênis, porém quando ele efetua uma comparação com o menino, percebe que “se saiu mal” e sente isso como uma injustiça feita a ela e como fundamento para a inferioridade. 

Referências:   
BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004 
_______________. Vidas Desperdiçadas. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005 
_______________.Vida Líquida. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007 
_______________.Tempos Líquidos. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007 
DOR, Joel. O pai e sua função em Psicanálise. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1991. 
FORBES, Jorge. Uma aprendizagem de desaprender – o entusiasmo da invenção. In: MRECH, Leny Magalhães (org). O impacto da Psicanálise na Educação. – São Paulo: Editora Avercamp, 2005. 
FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: Uma introdução (1914). In FREUD Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standart brasileira.Volume XIV – Rio de Janeiro: Imago, 1996. 
_______________.A Dissolução do Complexo de Édipo (1925). In FREUD Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standart brasileira.Volume II – Rio de Janeiro: Imago, 1996. 
GROENINGA, Giselle Câmara: Família: Um caleidoscópio de relações. In: GROENINGA, Giselle Câmara & PEREIRA, Rodrigo da Cunha (org). Direito de Família e Psicanálise – Rumo a uma nova epistemologia. – Rio de Janeiro: Imago, 2003. 
GUYOMARD, Patrick. A Lei e as leis. In: ALTOÉ, Sônia. A Lei e as leis: Direito e Psicanálise. Rio de Janeiro: Editora Revinter Ltda, 2007. 
KAUFMANN, Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o legado de Freud e Lacan. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1996. 
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 4: A Relação de objeto (1956-1957). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995. 
_____________. O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente (1957-1958). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. 
____________. O Seminário, livro 8: A Transferência (1960-1961). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. 
___________. O Seminário, livro 17:O avesso da Psicanálise (1969-1970). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. 
LAJONQUIÈRE, Leandro de. De Piaget a Freud: para repensar as aprendizagens. 9ª Ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1992. 
NASIO, Juan – David. Cinco Lições sobre a teoria de Jacques Lacan. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993. 
PEREIRA, Rodrigo da Cunha. A primeira lei é uma lei do Direito de Família: A lei do pai e o fundamento da lei. In: GROENINGA, Giselle Câmara & PEREIRA, Rodrigo da Cunha (org). Direito de Família e Psicanálise – Rumo a uma nova epistemologia. – Rio de Janeiro: Imago, 2003. 
QUINET, Antônio. As 4 + 1 condições da análise. 10 ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed., 2005.

O impulso, a fonte, o objeto e o fim que justifica os meios: pulsões.

O texto a seguir – adaptado ao blog – é fruto de um produto final do cartel “As Pulsões” do qual Clarissa Lago participou como membro numa instituição Psicanalítica entre os anos de 2013-2015. Boa leitura, reflexão e ação!

Pulsões: Um percurso da morte à vida…

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Um encontro marcado, com data prevista, um término? Não é um fim…!! Confortável? Nada! Mas, toda escrita, qualquer que seja ela necessita de um ponto final; ainda que esse ponto possa ser momentâneo.

Penso ser o cartel, o dispositivo capaz de proporcionar esse trabalho da escritura, ou seja, o espaço privilegiado para a experiência do desejo de saber e para a travessia da teoria (Lacan, 1980; p.85).

Como alguns sabem, de todos os lugares da transmissão da Psicanálise, sou daquelas que ainda acredito; a Psicanálise é uma pratica solitária e a transmissão acontece nos pequenos grupos, por isso insisto tanto em uma prática de cartéis.

Ao longo desses dois anos, alguns trabalhos parciais pude escrever fruto das pesquisas bem como das discussões que tínhamos no cartel. Claro, o mais legal do cartel é o respeito ao estilo e o tempo de cada um.

Entretanto, desde do início dos anos 2000, já estavam presentes em minha atividade de escrita; fragmentos originários desse desejo de saber sobre as pulsões, haja vista o artigo: Família, Afeto e Lei – datado de julho de 2009.

A concepção de afeto para a psicanálise é referente ao registro psicológico determinado por Freud (Kaufmann, 1996) que, com sua originalidade, desloca a concepção de afeto do registro neurológico para o registro psicológico, devido aos progressos ocorridos na elaboração do conceito fundamental de pulsão.

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A pulsão é radicalmente inconsciente, por definição ela habita no inconsciente freudiano. A pulsão não é nem um instinto, nem uma espécie de apêndice de algum órgão; ela é em si mesma a montagem de quatros termos. Os quatros termos que compõem a pulsão: o impulso, a fonte, o objeto e o fim. Ou seja: sua fonte é uma zona erógena; o objeto é totalmente contingente já que, como se diz, “o fim justifica os meios”; o fim (o alvo) é a satisfação entendida como uma diminuição da tensão que disparou. (Lajonquière, 2000, p.159)

A noção de “representação pulsional”, segundo a proposta Freudiana segue:

(…) a pulsão é inteiramente reprimida, de tal modo que dela não se encontre nenhum vestígio; ou se manifesta sob a forma de um afeto dotado de uma coloração qualitativa qualquer; ou, finalmente, é transformada em angústia. Estas duas últimas possibilidades nos induzem a levar em consideração um novo destino pulsional: a transmutação das energias psíquicas das pulsões em afetos, e muito particularmente em angustia. (Freud, 1915[2010]p.60)

A teoria das pulsões, desenvolvida por Freud em 1915, até os dias atuais ao relermos e estudarmos, alguns autores do século XXI, chegam ao ponto de afirmar: “que a teoria das pulsões, bem como a teoria do inconsciente ‘está para a Psicanálise assim como a Anatomia e a Fisiologia estão para a Medicina’.” (DUNKER, 2013, p.155).

Segundo Iannini e Tavares (2013) o modo como Freud descreveu a gramática de nossas escolhas e nossos desejos, a lógica de nossas fantasias inconscientes e os processos de transformação envolvida nelas são processos que presidem a eleição por um sujeito de seus objetos de desejo. Para esses autores, Freud apresenta o conceito de pulsão, que está na base dos processos que determinam o modo como os sujeitos amam, desejam e sofrem.

Em a pulsão e seus destinos, percebemos um esforço obstinado de sistematização deste que, não por acaso recebeu o estatuto de conceito fundamental tão ou mais fundamental do que o próprio inconsciente, a pulsão é um conceito fronteiriço, situado entre o corpo e o aparelho psíquico.

Ainda segundo Iannini e Tavares (2013) apesar da relativa obscuridade admitida pelo próprio Freud, o conceito de pulsão ilumina a metapsicologia e demarca a especificidade da clínica psicanalítica. Ao discutir os fundamentos da economia libidinal, Freud também desenha um quadro sinóptico dos destinos das pulsões. Uma pulsão pode, ainda que parcialmente, satisfazer-se num objeto, provocando prazer, pode ser revestida em seu oposto; pode retornar ao próprio “Eu”; pode ser recalcada, sublimada, etc.

Para Dunker (2013) a gramática dessas transformações é apresentada de modo claro e sucinto. Os destinos das pulsões dependem de fatores os mais diversos, ligados às possibilidades de que algo se realize ou não, dos encontros e desencontros da vida de um sujeito.

Entre a pulsão de morte e a pulsão de vida, embora Freud, em Os Instintos e seus Destinos ([1915]2010) defina que a pulsão morte é responsável pela tendência ao retorno a um estado anterior, e a vida tende a retornar à morte.

Torna-se valido pontuar que a repetição não é uma representação, não representa uma coisa. E sim, significa algo, a repetição é em essência, de natureza simbólica.

Concordo com Garcia-Roza (2003); “Aquilo que a psicanálise nos fala é dessa repetição interminável, desse jogo amoroso que constitui a ligação de Eros com um passado reencontrado. ” (p.44). O que se repete é o sexual, esclarecendo: a repetição é constituinte do sexual.

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Ainda Garcia-Roza (2003) acrescentou, repete-se em um encontro amoroso que, em si mesmo, já é máscara. E após essa afirmação o autor pontuou: “a repetição alimenta a pulsão de morte”. (p.45).

Desse modo, o polo inicial do gozo absoluto revela seu aspecto mortífero e sua relação indissociável com a pulsão de morte, pois a ilusão de seu atingimento e sua perda se ilustra pelo assassinato passional.

O que ao seu modo, no seminário Livro 11 “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”; capítulo XV Do Amor à Libido, Lacan (1964) pontuou:

(…) Freud, de um lado põe as pulsões parciais, e do outro, o amor. Ele diz – não é a mesma coisa.

As pulsões nos necessitam na ordem sexual – isso, vem do coração. Para nossa maior surpresa, ele nos ensina que o amor, do outro lado, ele vem do ventre, é o que é o rom- rom. (…) a pulsão sexual genital, se ela existe, não é de modo algum articulada como outras pulsões. E isto, malgrado a ambivalência amor – ódio. Em suas premissas, e em seu próprio texto, Freud se contradiz propriamente quando ele nos diz que a ambivalência pode passar por uma das características de reversão da Verkehrung da pulsão. Mas quando ele a examina, ele nos diz mesmo que NÃO são de modo algum a mesma coisa, a ambivalência e a reversão. (p.179).

Na aula supracitada Lacan (1964), disse: “Se então a pulsão genital não existe, ele só pode se f… afeiçoar alhures, do outro lado e não do lado onde há pulsão”, (p.179)

Vocês mataram a charada do que é esse f… (com reticências) que aparece no seminário? Não?!? Nós “matamos a charada no Cartel” …é o se fuder!!!!

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Portanto, ainda que existam as paixões do ser: amor, ódio e ignorância. – Para se caminhar com a pulsão de vida, torna-se necessário fazer suplência; assim sou levada a acreditar na metáfora do amor onde produz como efeito o sujeito dividido, afastando do seu resto o objeto causa do desejo. Temos então um sujeito barrado, que implica a relação de dependência fundamental do sujeito com o significante.

A constituição do sujeito do desejo pela via simbólica é correlativa da produção do amor como metáfora.

E ainda que a partir do objeto a talvez se situa a vertente terminável da análise, de um cartel ou de uma escrita; prevalece a função disjuntora da pulsão de morte. Neste ponto, temos então, um espaço compreendido entre duas mortes.

Mortes, simbólicas, que nos permite como tantas vezes já pontuei lembrar o poema de Paulo Mendes Campos:

“O amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. ”

Entretanto, diante de tantos “nós” e “tranças” que o sujeito em um percurso de análise faz, ao fim de uma análise é possível se fazer novos enlaces e produzir um novo laço. Cabe ao amor, a tarefa de fazer suplência…se as pulsões podem vir a dilacerar… há de existir o amor… para possibilitar novos enlaces… ainda que na falta tenhamos que viver resta talvez acreditar nas palavras de Ferreira Gullar, ao dizer:

O amor é uma doença como qualquer outra. E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém, meta na cabeça que só existe fulano, ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas…. Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!… (GULLAR, 2005; p.279)

…, mas não morreu… e foi capaz de dizer isso… um dia… comendo um bife com batatas fritas e de paz com a vida … está vivo! Viva a pulsão de vida!!!

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REFERÊNCIAS:

CAMPOS, Paulo Mendes. Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, p. 21;
DUNKER, C. I.L. Uma Gramática para clínica psicanalítica. In: FREUD, Sigmund. As pulsões e seus destinos. In: Obras Incompletas de Sigmund Freud; tradução Pedro Heliodoro Tavares. – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.p.135 – 157;
FREUD, Sigmund. Os Instintos e seus Destinos (1915). In: Obras completas, volume 12: Introdução ao Narcisismo: ensaios sobre a metapsicologia e outros textos (1914 – 1916) / Sigmund Freud; tradução e notas de Paulo César de Souza – 1ª ed. - São Paulo: Companhia das, 2010, p.51 – 81;
GARCIA – ROZA. A Repetição e as Máscaras. In: GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Acaso e Repetição. – 7ª Ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003, p.44 – 52;
GULLAR; Ferreira. “A estranha vida banal”. Editora. Objetiva; Rio de Janeiro. 2005. p. 279;
Jorge, Marco Antonio Coutinho. O Objeto perdido do Desejo. In. Jorge, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan v.1: as bases conceituais – 4ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005; p.139 – 158;
KAUFMANN, Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o legado de Freud e Lacan. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1996;
LACAN, Jacques. A verdade surge da equivocação. In: LACAN, Jacques. Seminário livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-1943). O Seminário Livro 1: Os escritos técnicos de Freud. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1981, p.297 – 310;
_____________. Do Amor à Libido. In LACAN, Jacques. Seminário Livro 11: Os quatro conceitos cruciais da psicanálise (1964). - 2ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998; p.177 – 189; 
LACAN, Jacques: A metáfora do amor: Fedro. In: LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. p. 43-56;
LAJONQUIÈRE, Leandro de. De Piaget a Freud: para repensar as aprendizagens. 9ª Ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1992;
SAMPAIO, Adilson. Do amor à morte: Transferência. In: Amor e morte: anais. / Org. por Urânia Tourinho Peres e Maria Thereza Ávila Dantas [et.al] _Salvador: EGBA, 1998.

Mulher e sexo. A pergunta que nunca cala: a mulher existe?

Freud, Lacan, Melman, Zalcberg, Soler, Mannoni, Simone de Beauvoir e Medeiros sexualmente citados na psicanálise de mulher e sexo, por Clarissa Lago.

Contrariando a clínica de Freud, que começou com as mulheres e se debruçou em seus estudos sobre a histeria, no início da minha atividade clínica como analista, deparei-me com uma surpresa. Meus primeiros analisantes eram homens e neuróticos obsessivos.

Enfim….passaram-se mais de 15 anos da minha prática clínica como psicanalista, os quatro, são fiéis analisantes até hoje. Porém meses depois da chegada deles há mais de uma década anos atrás, chegaram as histéricas!!!!!

E quando estas chegaram….aí sim…na função analista, descobri o que era Psicanálise, a linguisteria, a voz pulsante e vibrante de uma histérica, os choros desesperados, os risos, as gargalhadas soltas e o sofrimento estruturado no desejo insatisfeito.

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Naquele momento, acabei por me deparar com o livro de Maud Mannoni (1999): “Elas não sabem o que dizem”.

Hoje, sabemos, a clínica é diversa: há lugar para todos os tipos de sujeitos e suas respectivas estruturas e demandas. E com isso todas as mulheres.

Na verdade, é para elas a quem dedico esta escrita, não muito preocupada em saber se são histéricas, obsessivas, psicóticas, psicóticas ordinárias. Enfim… são mulheres, e com isso afirmo que estou recortando a minha atividade de escrita, a posição feminina que cabe a uma mulher.

Sem dúvida, não é muito simples ser uma mulher. Simone de Beauvoir, já nos afirmou “Ninguém nasce mulher, torna-se”. E é essa questão que norteará a minha escrita.

simone-de-beauvoirA questão do tornar-se mulher era enigmática para Freud: “Como a mulher se desenvolve a partir da criança com disposições bissexuais? ” Sabemos que Freud achava a Psicologia das mulheres mais complicadas que a dos homens. Segundo Mannoni (1999), Freud um dia confessou a Marie Bonaparte. “A grande pergunta que ficou sem resposta, e à qual eu mesmo nunca pude responder, apesar dos meus trinta anos de estudo da alma feminina, é a seguinte: o que quer a mulher? ”

A esta pergunta Freudiana, Lacan responde: ela deseja, muito “simplesmente” (sabemos que não é tão simples assim), acrescento Lacan e afirmo: ela deseja, ardentemente deseja. Nessa perspectiva o falo se situa como faltoso do desejo, no nível da divisão sexual.

Para Mannoni (1999), Freud está à procura do que falta à mulher, observando que a “tensão sexual” desta deve ser mantida em nível relativamente baixo. O destino feminino se situaria, assim, entre o déficit de excitação e a superexcitação. Se a mulher não pode encontrar no homem um sedutor, só lhe resta identificar-se com ele, seduzindo outra mulher – eventualidade que Freud não entendeu no tratamento de adolescentes.

Mas hoje na clínica nós analistas estamos atentos. As adolescentes que chegam aos nossos consultórios e se declaram homossexuais; escute-as direito. Ainda são adolescentes, falta-lhes um bom caminho a percorrer nesse endereçamento ao ser uma mulher.

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Jamais nos esqueçamos de Dora e Sra. K, revisitado por Lacan a nos esclarecer, que Dora, apenas queria saber com Sra. K, o que era ser uma mulher.

Mannoni (1999) retoma a pergunta feita por Freud: As mulheres podem amar? Para Freud essa pergunta é entendida da seguinte forma: é a si mesma que a mulher ama. Seu primeiro objeto de amor foi sua mãe. Somente trabalhando o luto é que o “desvio” desse amor para o pai, e depois para o homem amado, torna-se possível. O primeiro amor (a mãe) sempre deixa uma cicatriz indelével, constituindo o leito dos amores impossíveis.

O que quer a mulher? A pergunta nunca deixou de perseguir Freud. No início, ele sabia: elas desejam o que lhes falta, o pênis; essa teoria falocêntrica persegue Freud até 1923, quando ele nos afirmou, não saber mais.

Se Freud perguntou o quer A mulher, Lacan em 1956 retomou essa pergunta Freudiana, retirando o artigo definido A e então nos perguntou: O que é uma mulher.

Lacan (1956) nos disse:

Para a mulher, a realização do seu sexo não se faz no complexo de Édipo de uma forma simétrica à do homem, não pela identificação com a mãe, mas ao contrário pela identificação com o objeto paterno, o que lhe destina um desvio suplementar. Freud jamais largou essa concepção, o que quer que se tenha feito desde então, especialmente das mulheres, para estabelecer a simetria. Mas a desvantagem em que se acha a mulher quanto ao acesso a sua identidade seu próprio sexo quanto à sexualização como tal, na histeria transforma-se numa vantagem, graças à sua identificação imaginária com o pai, que lhe é perfeitamente acessível, em virtude especialmente de sua posição na composição do Édipo. (LACAN, 1956, p.202)

Por isso a histérica sempre é fiel ao pai e se identifica com ele. Ela fica cheia de si quando lhe dizem: “é a cara do pai”, “é outra vez o pai”, “possui o temperamento idêntico ao do pai”. A histérica fiel ao pai segue seus passos, e não adianta a mãe tentar impedir. Ela será fiel – é ela quem estará ao lado dele em seu leito de morte. E se um dia esse pai vier a falecer, ela se sentirá uma viuvinha.

Pais e mães que estão a ler esse texto, penso ser válido pontuar a vocês: Se algum dia vocês tiverem de se separar, por mais que vocês tentem esclarecer às suas filhas que vocês estão se separando da mãe e não delas, só lamento antecipar a vocês e lhes revelar uma péssima notícia: as meninas jamais entenderão. Inconscientemente, vocês estão se separando delas também.

O recado que se permite posso também pontuar às mães: não joguem jamais suas filhas contra os pais, nem muito menos tentem afasta-las dele, pois, pai é insubstituível. Não tentem ser pai e mãe ao mesmo tempo, por mais que vocês se esforcem não conseguirão.

Observem o Caso Dora, Lacan (1956) nos perguntou: Que diz Dora através da sua neurose? Que diz a histérica – mulher? Sua questão é a seguinte: o que é ser uma mulher?

Quando Dora se vê interrogar a si mesma sobre o que é uma mulher? Ela tenta simbolizar o órgão feminino como tal. Sua identificação com o homem, portador de pênis, é para ela, nessa ocasião, um meio de aproximar-se dessa definição que lhe escapa. O pênis lhe serve literalmente de instrumento imaginário para apreender o que ela não consegue simbolizar.

Tornar-se mulher e interrogar-se sobre o que é uma mulher para Lacan (1956) são duas coisas essencialmente diferentes e nos afirmou:

É porque não nos tornamos assim que nos interrogamos, e até certo ponto, interrogar-se é o contrário de tornar-se. A metafísica de sua posição é o subterfúgio imposto à realização subjetiva na mulher. Sua posição é essencialmente problemática, e até um certo ponto inassimilável. Mas, uma vez que a mulher é introduzida na histeria, é preciso dizer também que sua posição apresenta uma estabilidade particular, em virtude de sua simplicidade estrutural – quanto mais simples é uma estrutura, menos ela revela pontos de ruptura. Quando sua questão adquire forma sob o aspecto da histeria, é facílimo para a mulher colocá-la pela via mais curta, a saber: a da identificação com o pai. (LACAN, 1956, p.209)

As afirmativas polêmicas de Lacan da década de setenta: A mulher não existe e não há relação sexual, Melman (2004) muito claramente nos afirmou: Para um homem, a imagem de uma mulher é o suporte desse objeto pequeno a, quer dizer, objeto de sua fantasia.

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Ou seja, mais uma vez é a parte do corpo da mulher, aqui parte imaginária, que vai ser o suporte do desejo. O que significa portanto, dizer que a relação sexual se estabelece não entre dois parceiros, que vão reciprocamente gozar de seus corpos, mas entre dois objetos que não são os mesmos nem para um e muito menos para o outro.

Não há relação sexual, pois não é o corpo da mulher enquanto tal que interessa a um homem, mas esse objeto pequeno a, objeto de sua fantasia que lhe empresta. E para uma mulher, da mesma maneira, é um objeto preciso do corpo do homem que lhe interessam e é exatamente por isso que, na relação sexual, cada um dos dois parceiros tem o sentimento de que sua existência enquanto tal, enquanto sujeito, não é reconhecida, que não é isso que interessa ao outro.

Acrescento Melman (2004), na verdade, apenas o re- afirmando: é a fantasia que sustenta uma relação sexual. Caso essa fantasia seja inexistente, serão apenas dois corpos estirados em cima de uma cama. Acredito: na verdade não transamos com corpos…. São simples corpos. Transamos com as idéias e é por elas que somos loucamente apaixonadas e é com essas ideias que fazemos amor.

sexo-e-mulher-blog-psicanaliseTalvez nessa perspectiva, as mulheres do século XXI acabaram por se perder em alguns aspectos, como nos afirma Medeiros (2008), penso que talvez o leitor deste texto, já deve ter escutado falar na Mulher Melancia, e a Mulher Jaca. São duas dançarinas do funk que ganharam notoriedade por possuírem quadris avantajados. Essa é toda história do começo ao fim.

Há também aquelas que se intitulam de Mulher – Rodízio, e para elas, é assim que a sua feminilidade se expressa.

No século XXI, existem mulheres que acreditam fielmente que é sendo melancia, jaca ou rodízio que conquistaram sua liberdade sexual. E acreditam gozar disso perfeitamente. Porém, com toda essa liberdade, acabam por esquecer a premissa básica para ser uma mulher: é justamente nesse não ser não toda. É não toda fálica que uma mulher se constitui.

A partir desse exemplo do século XXI, podemos entender quando Lacan (1970) nos afirmou em sua premissa: A mulher não existe. Mulheres existem, isso pode ser mais ou menos verificado, mas “A” mulher, ou seja, aquela que seria definida por um signo específico, como o homem que é especificado na castração, esse signo específico não existe para uma mulher e essa é a razão pela qual as mulheres se queixam de não serem fundadas em sua feminilidade.

Zalcberg (2003) acrescentou que a mulher está se situando numa posição histérica em que ela se crê toda fálica, e, portanto, ela exige que seu parceiro creia nela como A mulher. Nesse caso, evidentemente, isso só pode remetê-la, a ela e remetê-los, ela e a seu parceiro, a uma posição de insuficiência, uma posição sintomática, portanto uma posição sacrificial ao pai.

Por outro lado, ainda Zalcberg (2003) afirmou que, se numa outra posição, uma mulher pode suportar essa relativa insatisfação fálica que lhe é inerente, porque ela é não – toda – fálica, sustentar, então, isso, não faz disso uma queixa, um ressentimento, mas ao contrário, ela pode ir mais além e suportar isso como uma abertura para um gozo Outro, é isso o que lhe daria, o que podemos chamar um estilo próprio.

Lacan (1970) nos afirmou que o estilo é o próprio objeto. É assim que uma mulher se tornaria, então, esse objeto que captura o homem de um modo diferente. Não mais para completá-la, vir a preencher a sua incompletude, mas para mantê-lo numa certa sideração em torno de algo que lhe escapa – e que escapa também a ela – e que decididamente é o que põe, a ambos no caminho do desejo.

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Jamais seremos iguais aos homens, existe uma mulher para um homem, porque então a insistência dessas mulheres no século XXI agirem como homens?

Sim, elas se dizem mulheres, heterossexuais, com vida sexual ativa. Mas a posição sexual que essas mulheres ocupam na dinâmica dos sexos, é muitas vezes masculina.

Gostaria muito de acreditar que elas não sofrem, mas, já nos diz a Psicanálise, o sofrimento é inevitável.

Quando Medeiros (2008) em seu texto jornalístico, também aponta que nesse hortifrúti há espaço para todas, a autora critica a si mesmo, se rotulando de A Mulher Banana. Esta é tolinha, insossa, que não tem corpão, é cultural e intelectualmente sofisticada sendo assim, não inveja as top models.

Confesso, que não acredito ser essa mulher tão banana assim, talvez justamente essa, que mesmo sem saber…sabe, o que é ser uma mulher.

Colette Soler (2005) nos assinalou: Uma mulher não se faz reconhecer como mulher pelo número de seus orgasmos ou pela intensidade de seus êxtases, salvo algumas exceções, é verdade. E, muito longe de exibir-se, sucede a esse gozo esconder-se. Daí a necessidade de um outro recurso e os esforços para se identificar pelo amor. Em outras palavras, na impossibilidade de ser A mulher, resta apenas ser “uma” mulher, a eleita de um homem. Ela toma emprestado do “um” do Outro, para se certificar de que não apenas um sujeito qualquer – o que ela é, a partir do momento em que é um ser falante, sujeito ao falicismo – mas ser, além disso, identificada como uma mulher escolhida. Assim é compreensível que as mulheres, histéricas ou não, mais que os homens, amem o amor.

Assim sendo, Melman (2004) nos faz pensar com o título do seu seminário: Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem?

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Referências:

André, Serge. O que quer uma mulher? – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1999.

Freud, Sigmund. Sexualidade Feminina (1931) in: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: - Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XXI.

Freud, Sigmund. Conferência XXXIII: Feminilidade (1933 [1932]) in: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: - Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XXII.

Lacan, Jacques. O seminário livro 3: as psicoses (1955 – 1956). 2ed. Revista – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.

Lacan, Jacques. Seminário livro 18: de um discurso que não fosse semblante (1971). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 2009.

Lacan, Jacques. Seminário livro 20: mais, ainda. (1972 – 1973) 3ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.
Lacan, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma, 1975 – 1976. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007.

Mannoni, Maud. Elas não sabem o que dizem: Virgínia Wolf, as mulheres e a psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 1999.

Medeiros, Marta. Doidas e Santas. – Porto Alegre, RS: L& PM, 2009.

Melman, Charles. Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem? Ed. Tempo Freudiano, Rio de Janeiro, RJ. 2004.

Soler, Collet. O que Lacan dizia das mulheres. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2005.

Zalcberg, Malvine. A relação mãe e filha. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.

Não se adoece mentalmente por estresse!

Meu objetivo neste texto é problematizar uma concepção recorrente: a de que causas banais e atuais da vida quotidiana provocam o que em psicanálise chamamos de neuroses e outras desordens mentais.

Uma pessoa procura um analista e lhe diz na entrevista, quando indagada sobre o que ela pensa a respeito das motivações que a fizeram produzir determinados sintomas, que é por causa do estresse no trabalho ou por algum trauma vivido recentemente, ou ainda, por um dissabor no trabalho ou no casamento ou a perda de um ente querido.

O que o analista pensa disso?

Ele pensa que esta pessoa está somente parcialmente do lado da verdade. Vejamos o porquê.

Em “A hereditariedade e a etiologia das neuroses” (Freud, data) ele é enfático ao dizer que há três classes de causas que produzem uma neurose: as pré-condições que é a carga hereditária de uma pessoa para desenvolver determinada neurose; as causas concorrentes que são as motivações atuais que levam à eclosão dos sintomas (estresse, dissabor emocional, trauma, etc.) e as causas específicas, que são as únicas que verdadeiramente importam ao psicanalista. Por causas especificas ele compreende a vida sexual infantil que continua a ser reeditada nas relações atuais deste indivíduo.

Acontece que é corrente o pensamento que apregoa que são os males da vida moderna que levam o homem a produzir sintomas. Não é incomum encontrarmos teorias psicológicas que advogam que são as condições sociais que levam o ser humano a adoecer psiquicamente.

A psicanálise não compartilha desta visão! Se assim fosse, como explicar o fato de duas pessoas submetidas à mesma experiência traumática (por exemplo, a morte do pai) em que uma desenvolve neurose e outra não. Como explicar isso sem recorrer à teorias psicologizantes?

Para dar continuidade ao meu raciocínio, peguemos esta mesma pessoa que perdeu o pai. Suponhamos que depois disso ela desenvolveu sintomas obsessivos e fóbicos. Mais especificamente ela não consegue mais sair às ruas, pois teme que algo de mal lhe aconteça. Por exemplo, teme ser assaltada e morta em seguida. Esta cena – a do assalto seguido de morte – não lhe sai mais da mente como um pensamento intrusivo que aparece a qualquer momento do dia ou da noite.

Ora, explicações psicologizantes que expliquem tais sintomas pela via do trauma pela perda ou pelo excesso de violência real na vida quotidiana não seriam suficientes nem tão pouco eficientes para ajudar o paciente a se desvencilhar do seu padecer. Também não seria eficiente a explicação de que esta pessoa tem uma tendência hereditária ao desenvolvimento de neurose.

Que hipótese levantará o analista frente a escuta de tais sintomas?

Seguindo à risca o que nos legou Freud, esta pessoa desenvolveu sintomas neuróticos porque a morte do pai fez reavivar nela conflitivas edípicas infantis que estavam latentes no seu inconsciente. O psicanalista sabe que a morte do pai faz reacender no inconsciente do indivíduo a chama do desejo parricida e incestuoso (matar o pai para finalmente possuir a mãe) que habita o inconsciente de todos nós. Se esta pessoa for homem provavelmente se sentirá culpada por ter concretizado, na realidade, o seu desejo inconsciente de matar o pai e ter sua mãe para si. Estamos, portanto, dentro do drama hamletiano de Shakespeare.

Vale lembrar que o inconsciente não discrimina desejo e realidade. Ou seja, para ele pouco importa que não fui eu quem matou meu pai, mas sim o câncer ou um acidente de carro.

Além disso, a culpa pelo desejo parricida realizado é sempre atuante no psiquismo e deriva dos imperativos supernegócios, o que explica por exemplo a necessidade de leis religiosas também imperativas como “honrarás pai e mãe e não desejará a mulher do próximo (do pai)”.

Ainda no nosso exemplo hipotético, o pensamento obsessivo de ser assaltado e morto na rua pode ser explicado pelo viés da culpa e da necessidade de expiação pelo desejo parricida. Assim diz o inconsciente do pobre paciente: “Se você matou seu pai e agora finalmente pode deitar-se com sua mãe, nada mais justo que você seja punido por estes seus desejos abjetos pagando com sua própria vida”.

Escrevendo agora sobre isso acabo de me lembrar que no filme Amadeus (1984) que retrata a vida e obra de Amadeus Mozart fica bastante claro que após a morte de seu pai, por quem nutria uma profunda admiração e rivalidade edipiana, Mozart encontrou dificuldade em manter sua produção criativa, envolvendo-se cada vez mais com bebidas e situações bizarras; situação que o levou prematuramente à doença e à morte.

A figura aterrorizadora do pai castrador e assassinado é, inclusive, o mote da ópera Don Giovanni ou o Libertino Punido, criada logo após a sua perda.  Resumidamente a trama se centra nas peripécias amorosas do libertino Don Giovanni, um nobre que seduz donzelas prometendo-lhes casamento, ainda que no final às abandone. Don Giovanni se engraça com Donna Anna, cujo pai era o Comendador. Por fim, este é assassinado por Don Giovani em uma situação em que ele tentava proteger a filha das investidas amorosas do sedutor incorrigível. Ao final da peça, Don Giovanni é arrastado para o inferno pelas mãos do Comendador que volta do mundo dos mortos para exigir vingança.

Nota-se como a presença da temática da triangulação edipiana está presente na peça. Nela Mozart revela seus anseios parricidas com relação ao pai – Comendador e seu desejo sexual desmedido com relação à mãe – Donna Anna. Levando-se em conta que a peça foi escrita logo após a morte do pai de Mozart podemos hipotetizar que nela o compositor realiza sua necessidade de expiação para sua culpa inconsciente pela morte do pai e pelos desejos libertinos dirigidos à mulher. É a vingança do pai pela libertinagem do filho que Mozart realiza em sua obra magistral.

Espero ter conseguido demonstrar que para a psicanálise o evento traumático e atual – a morte do pai, por exemplo – não tem qualquer importância pelo fato em si. Sua importância para o psicanalista reside na significação fantasmática que ele evoca, ou melhor, no desejo inconsciente ao qual ele responde ou faz reavivar.

Explicações psicologizantes, nesses casos, apesar de oferecerem algum conforto momentâneo ao ego do indivíduo não têm qualquer eficácia real. Diz-se, por exemplo, ao nosso sujeito hipotético: “Não fique assim. É natural você estar deprimido. Afinal seu pai morreu!” Mas o próprio sujeito sabe, e o psicanalista também, que este tipo de placebo para a alma tem vida curta e nenhuma eficácia real para o seu padecer. É como querer tratar um câncer com água com açúcar ou benzedeiras.

Ainda seguindo Freud a única saída realista para o sujeito que sofre com seus sintomas é que alguém minimamente corajoso (espera-se que o psicanalista o seja) possa ajudá-lo a se confrontar com seus próprios desejos. Estes mesmos desejos sexuais que a humanidade reluta em aceitar em si mesma, por considerá-los abjetos e imundos, mas que são parte inerente da nossa natureza; estes mesmos desejos sexuais que, quando negados, podem tornar a vida humana degradante e miserável, mas que também são motor para as realizações humanas mais sublimes e nobres, como é o caso da arte.

Desde Freud há uma tentativa do discurso médico, disseminado na cultura, de sobrevalorizar os aspectos orgânicos e hereditários e de subestimar os aspectos subjetivos e psíquicos do adoecimento mental. A presença da psicanálise no meio cultural humano há pouco mais de um século tem modificado esta perspectiva, trazendo novo e ricos elementos para o homem interpretar e compreender o seu sofrimento não com base em fatores externos e, portanto, alheios ao seu poder de ingerência, mas voltando-se para si mesmo. Para a psicanálise a máxima socrática Conhece-te a ti mesmo nunca deixará de ser atual.

Referência bibliográfica

 Freud, S. (1996). A hereditariedade e a etiologia das neuroses. In. Freud, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud edição standard brasileira. Vol. III. Pp. 141 – 158. Rio de Janeiro: Imago. (Artigo original publicado em 1896.)