Sexualidade e erotismo em Sigmund Freud

* Palestra proferida no dia 28 de março de 2016 no curso de Psicologia da UNAERP (Universidade de Ribeirão Preto), na disciplina Psicologia do Desenvolvimento Humano II, a convite da Profa. Me. Lilian de Almeida Guimarães.

Gostaria de começar minha fala de hoje com um trecho do romance “O homem sem qualidades” do escritor austríaco Robert Musil, escrito em 1931. Este livro foi considerado um dos maiores romances escritos no século XIX e penso que sua grandiosidade se deve ao fato de o autor ter conseguido captar a essência daquilo que viríamos chamar no século XX de “A era da técnica”.

Mais adiante ficará claro para vocês porque decidi iniciar minha fala com um trecho deste belíssimo romance-ensaio. O trecho que escolhi descreve uma situação aparentemente banal dos grandes centros urbanos. Trata-se de um acidente envolvendo um caminhão e um morto como vítima. Os transeuntes se aglomeram em volta do acidente como abelhas e Musil descreve a conduta de um casal aristocrático frente à cena:

Também aquela dama e seu acompanhante tinham chegado perto e, por cima das cabeças e costas baixadas, olhado o homem deitado. Depois recuaram e ficaram por ali, hesitantes. A dama estava com uma sensação ruim no coração e no estômago, que tinha o direito de considerar compaixão; uma sensação vaga, paralisante. Depois de algum tempo, o cavalheiro disse:

Os caminhões pesados que se usam aqui têm um tempo de frenagem longo demais.

A dama sentiu-se mais aliviada, e agradeceu com o olhar. Devia ter ouvido antes aquela expressão, mas não sabia o que era, nem queria saber; bastava-lhe que aquilo explicasse o terrível acidente, reduzindo-o a um problema técnico, que já não a interessava diretamente. Ouviram a sirene estridente da ambulância e todos ficaram satisfeitos com a rapidez de sua chegada. São admiráveis essas instituições sociais. Colocaram o acidentado numa maça e enfiaram-na no carro. Homens com uma espécie de uniforme cuidaram dele, e o interior do veículo, que se divisava rapidamente, parecia limpo e ordenado como um quarto de hospital. Afastaram-se quase com a justa impressão de que acontecera um fato dentro da ordem e legalidade.

Segundo as estatísticas americanas — comentou o senhor —, morrem lá anualmente 190.000 pessoas em acidentes de automóvel, e 450.000 ficam feridas.

— Acha que ele está morto? — perguntou sua acompanhante, ainda com a sensação injustificada de ter visto algo fora do comum.

O que o autor quer nos instigar a pensar com esta cena.

Penso que Musil nos fala da sua perplexidade frente ao fato de que como a era da técnica parece vir ao encontro do anseio humano de amortecer qualquer tipo de reação emocional frente à dura realidade da vida e da morte.  Depois de algo que talvez mereça o nome de compaixão, a dama vê-se aliviada com a explicação técnica do homem de que os caminhões pesados têm um tempo de frenagem longo demais. Esta explicação técnica parece buscar dar conta de todo o mal-estar e perplexidade que qualquer ser humano sente frente à morte. Com esta explicação fria, tecnicista, a dama vê-se aliviada e “aquilo” (o problema insolúvel da morte) não lhe interessa mais. Tudo volta “ao normal”. Em seguida vemos a aplicação exata e precisa das instituições sociais que visam limpar qualquer vestígio da morte, de percepção da fatalidade. Em seguida o casal se afasta com a justa impressão de que tudo se passou dentro da “ordem e da legalidade”. Mais adiante chegam as estatísticas. Mais uma vez a técnica está a serviço do aplacamento do mal-estar inerente à vida. Como se números frios pudessem dar conta da angústia inevitável do viver. A morte, Musil termina brilhantemente, é para aquelas pessoas algo “fora do comum”.

Pois bem, vocês podem estar se perguntando o que isso tudo tem a ver com o erotismo e com a psicanálise? Tem tudo a ver.

O erotismo, assim como a morte, são realidades inextrincáveis ao ser humano. Não podemos nos livrar do frenesi da vida, assim como não podemos destituir a nossa subjetividade do desejo que pulsa e que desacomoda o sujeito de si mesmo, causando-lhe fissuras irreparáveis.

É, portanto, visando o questionamento do domínio nefasto da técnica sobre o desejo, que Freud constrói a sua teorização sobre a sexualidade e o erotismo na psicanálise na aurora do século XX.

Notem que Musil, assim como Freud que escreve seu primeiro texto teórico sobre a sexualidade em 1905 (portanto, 30 anos antes de Musil) anteveem os estragos que a pretensão da onipotência da técnica sobre as emoções humanas nos deixaria como legado no século XXI. Ambos são visionários nesse sentido e dialogam entre si, embora em campos distintos.

Na psicologia e mais especificamente no campo da sexualidade enquanto prática higiênica, a herdeira da “era da técnica” foi a sexologia, que dominou o pensamento médico e jurídico desde a segunda metade do século XIX.

O que foi a Sexologia?  

Sexologia foi o nome que se deu à disciplina que tomou por objeto de estudo a atividade sexual humana e que tinha como objetivo descrever tais atividades e propor para ela fins terapêuticos.  Ou seja, tratava-se de uma pretensão técnica e científica de agenciar o campo do erótico por meio da disciplina do corpo, visando a domesticação dos desejos e a adaptação do sujeito à sua realidade factual.

Para a instauração de tal projeto tecnicista a sexologia partia da premissa de que a sexualidade dita “normal” era aquela que tinha fins reprodutivos e que estava centrada na atividade genital heterossexual, ou seja, o coito praticado entre o pênis e a vagina. Todas as demais práticas sexuais humanas que buscavam o prazer, ou seja, o erotismo mesmo, mas não a reprodução deveria ser localizadas no pólo da perversão e da patologia e deviam ser extintas e controladas por meio de técnicas médicas e jurídicas.

Pois bem, e o que Freud fez frente a este discurso?

Ele não só dialogou com ele, mas propôs uma nova conceituação sobre a sexualidade, não mais fundamentada na biologia organicista da sexologia, mas na concepção do homem como um ser animado e fraturado desde sempre por desejos irreconciliáveis com a realidade. Daí ser mais interessante, para esta perspectiva freudiana, o uso do termo erotismo. Em resumo, o que Freud fez foi subverter a ordem deste pretenso ideal de que o homem, por meio do fazer técnico, iria alcançar a felicidade e o bem-estar pleno, tornando-se um ser plenamente adaptado à sua realidade factual. Freud com sua psicanálise demonstraram que este anseio é da ordem do ideal e que o homem está, desde sempre, imerso em conflitos internos irresolvíveis, com os quais deve aprender a conviver. Neste sentido, o homem da psicanálise deve aprender a abdicar, com resignação e sabedoria, de qualquer ideário de felicidade e de satisfação plena, e aprender a negociar heroicamente com sua condição trágica por excelência.

Mas, vejamos mais detidamente quais foram as revoluções que Freud propôs para o campo do erotismo.

Visando dissociar do corpo biológico a sexualidade reprodutiva e inscrever esta mesma sexualidade no campo do desejo e da ética, Freud postulou que o homem, ao contrário dos outros animais, é dotado de pulsões.

O que são pulsões?

Pulsão é um conceito criado por Freud para dar conta de explicar o excesso energético que acomete o organismo humano desde o seu interior de uma forma perene, constante. Nesta sua postulação Freud parte da premissa básica de que existem dois tipos de estímulos que afetam o organismo humano: os estímulos externos, que chegam de fora. Para estes o organismo desenvolve formas de proteger o seu interior deste excesso de estimulação. Por exemplo, se somos acometidos por um estímulo visual intenso, podemos fechar os olhos. Entretanto, o organismo humano também é constantemente estimulado por estímulos que o acometem a partir de dentro. Tratam-se dos estímulos ligados às necessidades da vida: a fome e o sexo. Ora, como se proteger de algo que vem de dentro? Como a cria humana pode se a ver com esta fonte de estimulação constante que o afeta e diante do qual nada pode fazer, mediante seu despreparo físico e cognitivo, por exemplo, para conseguir se alimentar sozinho? É para dar conta desta situação problemática que Freud cria o conceito de pulsão.

Nesse sentido, a pulsão é este excesso energético do qual o organismo humano precisa dar conta e do qual ele não se livra nunca. Importante frisar que toda satisfação pulsional nunca é plena. Daí o caráter faltante do objeto e do desejo. O desejo, derivado da pulsão, nunca pode ser plenamente satisfeito. No ser humano o desejo só pode ser satisfeito por metáforas, ou seja, por algo que substitui aquilo que se desejava em termos ideais. Toda a engrenagem da produção cultural humana nasce para dar conta desta busca pela satisfação do desejo que, como eu disse, é sempre parcial, metafórica.

À pulsão sexual Freud deu o nome de libido. Este campo energético é móvel, pode estar investido tanto no próprio corpo do sujeito quanto nos objetos (outro) e possui uma variedade de formas e de fontes de satisfação.

Esta pulsão sexual existe desde sempre no sujeito, afetando-o de várias maneiras. Daí que Freud também contraria a ideia da sexologia de que a sexualidade no homem só começa a florescer na puberdade, sendo a criança um ser assexual. Com sua teoria, Freud mostra que a criança é um ser imerso no campo do desejo sexual para os quais ela busca satisfação através do que ele designou por zonas erógenas. A marca fundamental das zonas erógenas é que elas são fendas, orifícios corporais de onde emanam o erotismo e que pedem um complemento vindo do mundo externo (Outro). As zonas erógenas são uma espécie de delimitação entre o interior e o exterior, entre o dentro e o fora, entre o Eu e o Outro.

Original Caption: Sigmund Freud, 1856-1939, Austrian psychiatrist, in the office of his Vienna home looking at a manuscript. B/w photo ca.1930.

Para Freud, o sexo é um efeito distante do sexual, sendo que estas duas palavras deixam de ser equivalentes. O corpo deixa de ser somente o somático e o orgânico. Ele é um caldo explosivo e marcado inelutavelmente pelas pulsões. Só este campo pulsional que atravessa o corpo orgânico pode explicar o quanto o gozo erótico pode se contrapor à ordem da preservação da vida. Pelo gozo erótico, a vida pode ser colocada em risco. George Bataille corrobora esta premissa freudiana aludindo que o orgasmo é uma pequena morte. A sexualidade freudiana é regida pela economia pulsional, marcada por intensidades e afetos. Aqui o sujeito neurótico não é aquele para quem se devem prescrever comportamentos adequados (conforme a sexologia), mas é tido como um sujeito aprisionado em impasses sexuais que o impedem de gozar e ter prazer. Nesta leitura, o neurótico é uma espécie de resultado do discurso da sexologia, para quem ela fez algum efeito.

Freud também pontua que ao contrário do que pensa a sexologia, o sujeito humano tem uma atividade sexual desde sempre, marcada pelo campo da fantasia.

Dito isso, qual a relação que podemos estabelecer entre o discurso científico da sexologia, com seu corpo biológico dotado de necessidades orgânicas e a psicanálise, com seu homem fraturado pelos desejos?

Eu diria que a psicanálise vem responder a uma espécie de resto criado pelo discurso biologizante com sua ilusão de completude corpórea. Ora, o modelo de onde parte o discurso da sexologia é o do corpo-máquina, com suas engrenagens funcionando de modo sincrônico e perfeito. O problema é que este modelo mecânico não se aplica ao humano. Desde o nascimento, o sujeito humano é marcado por fendas, por incompletudes, por uma dependência inelutável do outro.

Destas fendas, destes orifícios que pedem um complemento e que fazem de tudo para animá-los é que surge o desejo, ou melhor, o erotismo. A sexualidade freudiana é uma ética do desejo, pautada no terrível paradoxo humano: dependemos do outro para erotizar a vida, mas não há encontro humano que seja capaz de fazer cessar o desejo. Este é o grande paradoxo com o qual cada um de nós tem de se a ver. E é para responder a este terrível paradoxo que existe a sexualidade: Sou incompleto, logo erotizo.

Vocês já observaram como é um bebê de dois ou três meses? Não podemos dizer que ele é uma engrenagem perfeita. Muito pelo contrário. Um bebê humano nesta idade é a pura personificação de como nós nascemos biológica e psiquicamente despreparados para reagir às necessidades imperiosas da lei da vida. Podemos dizer que um bebê nesta fase se relaciona com o mundo através da boca. Ele conhece o mundo pela boca. Por que faz isso? Não é obviamente só porque tem fome. Esta seria uma perspectiva organicista e simplista de ver as coisas. Ele erotiza o mundo com seu orifício bucal que pede desesperadamente por um complemento para seu buraco. A falta já está inscrita ali, de maneira radical e trágica. O que ele fará com isso? Freud responde: no início, o bebê reagindo pela sua onipotência primária, irá alucinar o seio porque sua relação com a realidade é problemática e precária, o que aliás, sempre será para o ser humano. No caso do bebê, será a marca de incompletude que o fará erotizar o seio, depois as fezes, a pele, os olhos, as palavras e tudo o mais em que o desejo humano puder inscrever sua marca. Ou seja, por meio do erotismo o sujeito humano busca tamponar suas fendas para barrar o abismo que existe entre o dentro e o fora, entre o eu e o outro.

Portanto, de onde Freud parte para falar que o homem é animado por desejos nunca plenamente satisfeitos?

Ele parte de um início mítico do humano: a de que todos nós ansiamos em nossa mitologia individual inconsciente a um retorno à perfeição indiferenciada entre o eu e o outro, entre o dentro e o fora. Esta origem mítica perfeita seria uma espécie de ponto zero ideal da matemática. Lá neste ponto mítico nós seríamos completos, nada nos faltaria, viveríamos um encaixe perfeito com o Outro que nos satisfaria plenamente. Voltaríamos a ser “à imagem e semelhança de Deus”.  A criança humana fantasia que esta completude mítica se encontra na relação com a figura materna, que Lacan designou como sendo o primeiro grande Outro da criança. Este início mítico, se vocês fizerem uma leitura atenta de gênesis, é o que e personifica, por exemplo, na belíssima mítica da queda do paraíso de Adão e Eva.

Se retomarmos o mito veremos que foi o desejo de Eva de ser perfeita e saber desvendar todos os segredos do bem e do mal, exatamente como Deus sabia, que a fez morder a maça oferecida astutamente pela serpente. Vejam o que diz a serpente a ela, instigando-a a comer o fruto da árvore da vida (a única que Deus proibiu Adão e Eva de comer!):

Eva: Deus disse para eu não comer dele, nem tocar nele para que eu não morra.

Serpente: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e serei como Deus, sabendo o bem e o mal.

Então viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e a árvore desejável para dar entendimento.

A partir daí Eva comeu o fruto da árvore da vida e o deu também a Adão. Por ter sido desrespeitado, Deus ordenou que eles fossem expulsos do Éden. A partir daí o homem ingressou, para sempre, na realidade humana com seus paradoxos irresolvíveis. Interessante destacar que a primeira realidade para a qual Adão e Eva se atentam depois de comido o fruto do conhecimento, era para a nudez de seus corpos, o que pode ser interpretado miticamente como sendo a partir do reconhecimento da diferença sexual, inscrita no corpo, que o homem reconhece pela primeira vez sua realidade incompleta. Freud comprova esta teoria individual mítica quando funda sua teoria de que a criança de ambos os sexos até uma determinada idade só reconhece a existência de um sexo: o masculino. É como se o ser humano negasse o quanto pudesse a percepção de que sua incompletude e fissura radical está inscrita desde sempre em seu próprio corpo.

Mas retomando gênesis, a mensagem contida ali é clara: é o anseio humano de um encontro mítico com o Deus-uno, que o levam a querer superar a si mesmo, mas também muitas vezes a sofrer. É partir daquilo que nos falta desde sempre que construímos realizações sublimes, mas que também pode fazer com que nossa existência seja miserável, repetitiva e estéril. Quando isso acontece? Quando o homem nega sua condição de ser faltante. Quando ele não quer se a ver com isso e busca realidades fictícias, ilusórias, em que as falhas, os desencontros e as frustrações estariam pretensamente ausentes de sua mirada. É isso que faz o neurótico: ele se apega a um modo de gozo infantil e repetitivo, que não lhe cabe mais, tudo para não ter que se a ver com sua condição de sujeito castrado, ou seja, não ideal. O neurótico mantém acessa dentro de si a esperança de um dia vir a ser o Tudo do Outro, situação em que acredita poder finalmente vir a ser satisfeito em suas demandas insaciáveis de amor. O neurótico, portanto, não aceita nem que ele nem que os outros possam ser “mais ou menos”, provavelmente a mesma condição que Eva já não engolia.

Vejam que Eva sabia, pela razão, que não devia comer o fruto. Mas ainda assim, movida pela paixão e pelo desejo, comeu. Ora, é disso que se trata a natureza humana. Nós, como humanos, não somos lineares. Nossas ações não são regidas pela racionalidade tão somente, mas também pelos desejos, pelos excessos, pelas paixões. Somos por natureza incongruentes, paradoxais, conflituais. Sabemos que não devemos fazer e ainda assim fazemos. Tomados pelas pulsões, pelas paixões, somos submetidos à um ímpeto que transcende a razão.

Podemos nesse ponto da discussão nos fazer a interessante pergunta: porque Deus castigou Adão e Eva?

Psicanaliticamente nós responderíamos que eles foram castigados porque eles estavam arrogantemente querendo ser Deus. E homens não podem ser Deus. Por causa de sua arrogância, eles não se contentaram em ser homem e mulher. Queriam mais. Assim como quer a criança ultrajada que deseja crescer rápido para ser adulta. Ao serem castigados, eles são obrigados a reconhecer que não podem conhecer todos os mistérios sobre o bem e o mal. Trata-se do ponto de vista psicanalítico de um processo que chamamos de castração, pelo qual toda criança humana deverá passar para que possa vir um dia pertencer à comunidade simbólica humana.

De que se trata exatamente esta castração? Não é simplesmente o medo da perda do pênis como uma leitura simplificante da psicanálise pode dar a entender. Trata-se da percepção dolorosa, a ser vivenciada pela cria humana, de que ela não pode ser o ideal de si mesma. Dito de outro modo: a criança deve perceber, com muito custo, que há um ideal parental e cultural que lhe transcende (a imagem de Deus), ao qual ela deve se curvar e prestar contas. Explicando melhor, para Freud este ideal parental, cultural e simbólico é o ideal civilizatório que já existia e estava instituído antes de a criança chegar ao mundo e do qual ela depende para sobreviver e vir a se tornar humana.

O que Freud considerou com isso é que todos nós quando nascemos carregamos conosco uma dívida simbólica com as gerações que nos antecederam. Dito de um modo mais simples: nós não nos produzimos por nós mesmos. Para existirmos, dependendo do ato generoso de um casal que decide dar à vida a nós e de uma comunidade humana que nos acolhe quando chegamos ao mundo, dando-nos um status humano e simbólico (com um nome, um sobrenome, uma filiação, um pertencimento cultural, etc). Voltando ao mito, Adão e Eva – os primeiros homens criados miticamente – carregam uma dívida com Deus. Se eles decidem competir com o grande criador, a dívida não pode ser reconhecida e muito menos paga. A cria humana deve se curvar e reconhecer sua necessidade inelutável do Outro.

Nesse sentido ético, a sexualidade na psicanálise tem um caráter iminentemente relacional. Não há sexualidade sem que haja uma dupla por onde circulam os desejos. Por isso não há analista sem analisando, não há aluno sem professor, não há crianças sem pais. Precisamos do Outro caso ainda queiramos receber o nome de seres humanos.

Adolescência e Mentira: histórias de pescador ou falta de caráter?

Esta semana estava aguardando (infinitamente!) para ser atendida numa consulta e matava o tempo folheando uma revista feminina quando deparei-me com uma mãe que pedia socorro a um especialista, relatando que tem uma filha pré-adolescente que mente demais, segundo a mãe, a garota é compulsiva, mente por qualquer coisa.

A mãe relatava já ter passado por vários estágios da raiva à piedade, mas a situação só se agravava. Foi dura, bateu, gelou, castigou, privou de tudo que é prazeroso, fez chantagem emocional, elogiou, premiou e… nada, a menina continua mentindo, e mesmo quando é “desmascarada”, age como se tivesse sendo vítima da maior injustiça do mundo, dizendo que faz o que faz para ajudar os outros, para não magoar ninguém e que sofre com as atitudes injustas dos pais ou age como se nada tivesse acontecido, embora fique num monólogo apontando justificativas e injustiças.

Num determinado momento da queixa a mãe diz que a compara com o irmão mais novo que não mente. Os pais estão com medo dela se tornar uma criança de má índole, estão arrasados, não encontram uma solução,não sabem o que fazer. A mãe reforça que a filha é maravilhosa e o que a estraga é a mania de mentir.

Sente que a filha precisa de ajuda, conta que a garota é muito fechada e que por mais que tente, esta não se abre com ela. Termina afirmando que cuidar de filhos não é fácil!

Coincidentemente (Jung não acredita em coincidências, mas sim em sincronicidade, tipo Lei da Atração!) no mesmo dia uma colega me falou sobre o mesmo problema com o filho e sugeriu que eu escrevesse algo sobre o assunto. Bem, vou tentar!

Muitas são as questões que a mãe da revista traz. Podíamos fazer a psicanálise selvagem analisando uma série de coisas, mas vamos nos ater à questão da mentira na adolescência.

Aprendemos desde pequenos que mentir é errado. Informação dada não significa valor introjetado. Deste modo ouvir que mentir é errado e não mentir de modo algum ao longo da vida são ações distintas. Não é porque ouvimos que fazemos.

Para muitos pais perceber que o filho mente compulsivamente pode despertar um sentimento de ter fracassado na educação de valores que a família tentou passar para ele. Nem sempre isso é uma verdade. Nem tampouco é sempre mentira! Há casos e casos e cada um é um!

Nos educamos pelos exemplos, nossos valores são construídos com base nos valores e atitudes de nossa família e nos da sociedade em que vivemos.

A mentira está presente em nossas vidas. Muitas vezes a achamos “necessária”, logo perdoada, muitas vezes a condenamos, logo reprimimos.

Na sociedade moderna a mentira é tão frequente que já se banalizou. Encontramos mentirinhas e mentimos muitas vezes ao dia, em diferentes situações sociais. Fazemos um elogio mentiroso, damos desculpas esfarrapadas ou mentimos descaradamente por mil razões: medo das consequências negativas, insegurança, pressão social, ganhos ou patologicamente.

Quando crianças, mentimos para não sermos punidos. Na infância, até os cinco, seis anos a criança não consegue distinguir claramente a realidade da fantasia, a partir dos sete anos aproximadamente, ela já sabe o que é mentira e a usa em “beneficio próprio”.

Na adolescência mentimos para sermos aceitos e amados, para atender ao desejo de fazer o que queremos e a realidade de atender ao que esperam de nós. Mentir é estratégia comum entre os adolescentes para conseguir fazer coisas que sabem que não serão aprovadas pelos pais.

Crianças/adolescentes com superego rígido (censura) podem se tornar mentirosos compulsivos ao descobrirem que a mentira sacia a curiosidade dos pais ou os ajuda a serem aceitos e valorizados pelas pessoas, em especial por outras crianças/adolescentes.

Na vida adulta mentir é uma forma de se preservar, de não ter que assumir responsabilidades por algo que não deu certo.

Está presente em muitos mecanismos de defesa que usamos cotidianamente: na atuação (quando nos passamos por algo que não somos, mas que os outros (ou nós mesmos) gostariam que fossemos, na idealização (quando nos mostramos de forma idealizada, que não corresponde com a realidade), na intelectualização (quando usamos a inteligência para criar argumentos que justifiquem condutas que sabemos não serem condizentes com nossos valores, mas que lá no fundinho desejamos), na racionalização (quando fazemos “caquinha” e usamos argumentos lógicos para explicar o que fizemos, nos isentando da responsabilidade da escolha), por exemplo.

Ao mentir podemos ser “anjo” – mentir para agradar – ou “demo” mentir para poder receber algo em troca.

A mentira está presente em pessoas normais ou pessoas com problemas sérios como Neuroses e Psicoses. Nos estados neuróticos, a mentira surge devido a incapacidade de enfrentarmos desejos recalcados e que se encontram no inconsciente ou por problemas de baixa autoestima

Nos estados limite, chamados Borderline, a mentira revela a falta de barreiras externas que regulem o comportamento do indivíduo. Esta situação decorre geralmente de uma educação feitas por pais muito repressivos ou demasiadamente permissivos. Na Psicose a mentira está presente nos delírios.

O psicótico acredita piamente nos delírios por ele criados para fugir da realidade, do sofrimento que a realidade lhe impõe. O hábito de mentir compulsivamente pode ser também uma patologia conhecida por Mitomania.

Neste caso a mentira é como um vício, o mentiroso é dependente emocional da mentira, ele é incapaz de se controlar, quando vê a mentira já foi contada e para mantê-la mente mais e mais. Esta patologia causa muito sofrimento e a terapia é uma saída para enfrentar o problema.

Dentro de padrões de comportamento não patológicos a mentira pode ser considerada uma falha de caráter, entendendo caráter como “um conjunto de características e traços relativos à maneira de agir e de reagir de um indivíduo ou de um grupo”.

Se seu filho mente descaradamente e esta mentira prejudica a ele ou a outras pessoas você deve ficar atento(a). Mentir para sair com o namorado ou fazer um passeio em um lugar perigoso é diferente de roubar dinheiro da sua carteira. Uma coisa é testar limites, outra é transgredir lesando o outro.

Ao perceber esta situação os pais devem chamar o jovem à realidade, devem passar a acompanhá-lo bem de perto, se fazendo presentes de forma educadora e carinhosa, intervindo e orientando sempre. Mas cuidado com a manipulações e dissimulações, por isso confie, desconfiando! Mentir faz parte da adolescência, caracterizam uma necessidade de distanciamento e diferenciação na busca do encontro consigo mesmo.

Diante das mentirinhas recorrentes, avalie as relações interpessoais que há no seu âmbito familiar. Estabeleça o diálogo, mostrando ao adolescente que a mentira pode trazer consequências negativas, mas cuidado com o monólogo, pratica comum dos pais que dissertam sobre algo com seus filhos.

Observe se o que você ensina está coerente com o que você pratica. Você tem pedido a cumplicidade de seu filho para “pequenas mentirinhas”? Tem valorizado as espertezas de seu filho no hábito de inventar “mentirinhas brandas”? Você é um(a) educador(a) observador(a) ou um(a) intrometido(a), que suspeita e invade a privacidade do adolescente, minando o clima de confiança entre vocês?

Ai, meu Deus… Como identificar uma mentira?

Somos programados para dizer a verdade. Quando mentimos nosso corpo nos delata! Especialistas afirmam que ao mentir emitimos sinais não verbais da mentira que podem ser captados por um interlocutor mais atento.

Os sinais mais comuns em crianças, adolescentes e adultos pode estar no choro sem lágrimas ou que para de repente ao ser atendido, na colocação da mão na boca, no morder ou coçar a região labial, no desvio dos olhos, na dilatação das pupilas, nas pausas longas e frequentes no discurso, marcado por repetir a pergunta antes de responder, no sorriso curto, nervoso e inexpressivo, que some com rapidez, na falta de gesticulação ou nos gestos dissociados das palavras.

Há ainda uma outra faculdade que não deve ser esquecida nunca pelos pais: a intuição.

Ouça a sua sempre. E investigue e dialogue sempre.

Voltando à mãe da revista, ela está certa. Educar é trabalhoso! Requer orientação, limites e verdade. Acima de tudo seja coerente. Como dizem por aí, “palavras movem, exemplos arrastam!”

Minha vida (não) é um tédio

A sensação de vazio entediante que faz a existência parecer uma sequência estéril de dias sem qualquer sentido tem a ver com a falta de “criatividade psíquica”, que destrói a imaginação e o interesse real pelas coisas da vida.

Minha vida (não) é um tédio

Por Marion Minerbo*

Todos nós nos entediamos em situações específicas como passar horas no trânsito, num aeroporto, ou em uma festa em que não conhecemos ninguém. Mas o tédio que interessa ao psicanalista é aquele ligado à sensação crônica de vazio existencial: a pessoa sente que a vida não tem sentido, nada é vivido como significativo nem parece valer a pena. A vida é uma sequência estéril de dias e a pessoa não sabe o que fazer consigo mesma. Há um sentimento penoso e estranho de que o eu é construído artificialmente “de fora para dentro”, e não “de dentro para fora” com experiências genuínas, verdadeiras, com lastro.

O tédio costuma ser confundido com a depressão, mas são vivências diferentes. Na depressão o sentimento é de perda e de tristeza: havia algo que iluminava a existência, e este algo foi perdido. O deprimido não se sente vazio, mas “cheio de tristeza”, o que pode ser uma reação muito saudável diante de uma perda. Ele continua sonhando em recuperar aquilo que perdeu, enquanto o problema do entediado é que ele não sonha com nada. O mesmo afeto também costuma ser confundido com uma insatisfação com a vida. Até certo ponto, ela é positiva porque pode ajudar o insatisfeito a mudar de vida. Já a pessoa entediada vive um simulacro de vida. Ela ainda não conseguiu criar uma vida própria “de verdade”. Se “mudar de vida”, provavelmente em pouco tempo voltará a se sentir entediada.

Para não sofrer de tédio, muitas pessoas se lançam em atividades frenéticas, ou ao contrário, desligam-se dormindo muito. Podem usar drogas, ou então parasitar a vida dos outros. Celulares e redes sociais podem ser usados para disfarçar a sensação de vida vazia e sem sentido. (Note, porém, que esses mesmos estímulos podem ser usados de modo muito criativo). Quando, por qualquer motivo, esses recursos não estão disponíveis, o tédio se agudiza. Isso porque eles funcionam como “acompanhantes” que dão uma sustentação psíquica no tempo e no espaço. Quando faltam, a pessoa se sente largada de repente: ela cai e se esborracha brutalmente no vazio.

É a falta radical de criatividade psíquica que mata a imaginação e o interesse pelas coisas da vida, originando o vazio e o tédio. Criatividade, aqui, não tem nada a ver com ser artista ou descobrir soluções criativas para problemas. Trata-se da capacidade de criar algum sentido para a vida, de acreditar em um motivo para sair da cama cada manhã. Uma criança com um desenvolvimento psíquico normal não se entedia, pois é capaz de pegar qualquer coisa, uma tampinha de garrafa, e imaginar uma brincadeira com aquilo. A criatividade é a função psíquica mais importante porque “ilumina” nossas vidas. E então qualquer coisa pode se tornar interessante, envolvente e valiosa.

* Marion Minerbo é psicanalista, analista didata e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Autora dos livros Neurose e Não-Neurose (Ed. Casa do Psicólogo), Transferência e Contratransferência (Ed. Casa do Psicólogo) e Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Ed. Blucher), que será publicado no início do segundo semestre.

Desaparecidos: uma história de dor

Nossos olhos recebem a luz de estrelas mortas. Atravessando distâncias abissais, o brilho de corpos celestes que já desapareceram continua a chegar até nós. Assim é a figura de Homero, cujas palavras, inscritas na memória da humanidade, guardam o substrato do que no século IV a. C. culminaria na cultura grega clássica, na qual se desenvolveriam a poesia, o teatro, a filosofia, a ética, enfim, os valores e as práticas que ainda hoje alicerçam as narrativas com as quais desenhamos os trajetos de nossa vida.

Devo dizer que hoje, assombrado pela extensa lista de desaparecidos que as ditaduras latino-americanas impingiram a pais, mães, filhos, irmãos e companheiros, descubro na Ilíada uma beleza peculiar que se apresenta como enigma: por que, como relata Homero, gregos e troianos lutam furiosamente para reaver o corpo de seus mortos? Por que todos os guerreiros se dispõem a morrer pela matéria apodrecida de uma anatomia?

Heitor, príncipe de Troia, mata em combate Pátroclo, companheiro do herói primordial grego, Aquiles. Este, tomado de ira, vinga-se matando Heitor, mas não sem antes disputar com ferocidade a posse do cadáver de Pátroclo – suprema desonra seria abandoná-lo à sanha dos inimigos, aos “cachorros e abutres de Troia”. Cego de dor pela perda do amigo, Aquiles leva o cadáver de Heitor para o acampamento grego e por nove dias exercita-se em humilhá-lo, arrastando-o repetidamente em volta do túmulo de Pátroclo.

Os deuses a tudo observam e se indignam. É por intervenção deles que, embora ultrajado, o corpo do troiano permanece incólume, e é também por ação divina que Príamo, pai enlutado, consegue se aproximar de Aquiles para lhe suplicar de joelhos que o corpo do filho lhe seja devolvido. Aquiles assente e vai além: oferece a Príamo doze dias de trégua, de modo que as exéquias de Heitor sigam o cerimonial devido. Troia pode então chorar seu filho e lhe render homenagem, costume que constitui sintoma de civilização, não importa o grau de violência com que se pratique a guerra.

E assim termina a Ilíada, não no triunfo do célebre e inexistente cavalo de Troia (essa passagem não consta de nenhuma narrativa homérica, como se descobriu), mas no êxito dos rituais de reverência e dor que acompanham o exercício do luto.

Um ensaio de Freud, “Luto e melancolia”, nos ajuda a compreender por que razão, tal como nossos antepassados remotos, precisamos reaver o corpo dos nossos mortos. A premissa é que não, existindo representação da morte no inconsciente, o medo da morte se desloca para outros territórios. Manifesta-se, por exemplo, como sentimento de desamparo, solidão e abandono – lembremos o costume de nos agruparmos como família nos cemitérios, próximos dos que amamos, ou as concepções de vida eterna e reencarnação, tão variadas quanto são as culturas e as religiões.

Contudo, se a ideia da morte nos é insuportável, como se dá o luto? Freud o confronta com o fenômeno da melancolia. Nesta, há uma recusa a abandonar o objeto amado que perdemos; por meio de rememoração contínua, insistimos em mantê-lo presente. A melancolia é essa disfunção do luto que torna o objeto uma presença eterna. Já no processo de luto o objeto que se perdeu no mundo exterior torna-se uma presença no espírito de quem sofreu a perda. O ódio iniciado com a perda se acomoda, desenvolvemos uma identificação com o que perdemos.

Nesse percurso, um paradoxo: o espírito se enriquece, e o faz por via de trajetos trágicos. Necessitamos do corpo para apoiar essa quase impossível tarefa do luto. Como que damos vida ao corpo presente para poder repetir a experiência da perda e nos conformarmos com ela. Para que, libertos da sombra daquele que se foi, a vida possa prosseguir seu trajeto.

Quando o que temos não é o morto, mas o desaparecido, nem sequer a melancolia pode se instaurar. Cria-se um vazio em nós, um buraco negro que, como parasita, atrai para si o pensamento e os afetos, introduz deformações nos caminhos da alma. No plano da cultura e da história ocorrerá a mesma deformação que se abate sobre os destinos individuais. A cultura como que se paralisa, empobrece, pode mesmo gerar monstruosidades.

Hoje, na América Latina, familiares e companheiros dedicam a vida a buscar os restos de um ser cuja existência é recusada no mesmo momento em que se recusa sua morte. Nessa busca, tornam-se testemunhas não só da verdade de um sujeito singular, mas também de um momento trágico da história coletiva.

Não é outro o âmbito desta reflexão, suscitada também por conversas informais com entrevistadores da Comissão da Verdade. Uma das perguntas que afloraram ali foi esta: por que até agora não se produziram no Brasil obras literárias ou cinematográficas relevantes sobre o período da ditadura militar? A nosso juízo, a maioria das obras que já veio a público teria caráter jornalístico ou catártico, o que se explicaria sobretudo por não ter ocorrido uma ruptura real com a ditadura; um acomodamento ignorou os elementos potencialmente traumáticos daquela transição.

Aqueles que a ditadura representou recusaram a dor e a perda. Não quiseram a ruptura e conseguiram escamoteá-la dos que necessitavam dela. Os que se opunham não tiveram força para se fazer valer ou cederam à acomodação – e os nossos desaparecidos ficaram impossibilitados de existir até mesmo como desaparecidos. Tornaram-se sintoma exemplar de um acordo político que se fez impedindo o luto ou mesmo uma possível melancolia. Não se registraram perdas. A história teve de continuar calada. Como não pensar que esses restos autoritários, retrógrados, tingiram os pactos de silêncio que se seguiram e estão na raiz de deformidades que hoje explodem como distopias em nossa sociedade?

Os buracos de pensamento, as maquiagens, as recusas da verdade afetam o conjunto da sociedade. Pode bem ser que essa crise se encaminhe para outras figuras e setores sociais, à espera apenas de uma falência para entrar em cena. Teremos outros movimentos históricos, é certo, mas nossos desaparecidos continuarão a nos assombrar. De modo semelhante, nosso passado escravagista é um fantasma cotidiano que nos assola no mais íntimo dos nossos lares. Recusar a narrativa do trágico da história alimenta inevitavelmente os fantasmas. Aproveitando-se das nossas obscuridades, eles não perderão a oportunidade de reaparecer.

*Leopold Nosek é médico, psicanalista, membro e ex-presidente da SBPSP.

A política no divã

Embora a psicanálise seja um poderoso instrumento clínico e contribua para a investigação das motivações humanas, a gênese do processo civilizatório, a instituição das normas e o reconhecimento das poderosas forças que levam à transgressão e ao esgarçamento do pacto social encontra limites face à complexidade dos fenômenos globais (políticos, econômicos, sócias…), que só podem ser abordados com base em um pensamento complexo, como nos diz Edgar Morin. No entanto pode auxiliar na compreensão de por que, em certos contextos, assistimos hoje ao fracasso da virtude e ao apagamento da distinção entre o público e o privado; pode facilitar o entendimento dos motivos pelos quais a razão é colocada a serviço de interesses pessoais e corporativos e a fé é utilizada para justificar as maiores violências contra o indivíduo identificado como diferente.

O comportamento ético que era para Aristóteles o comando das paixões por meio da razão, com o estabelecimento de normas e regras para a vontade, de modo que esta pudesse deliberar corretamente, parece apagado nos nossos dias. O que deveria ser a defesa do cidadão na esfera pública (virtude) e o combate ao crime, é corrompido pela lógica desenfreada de interesses particulares e de corporações; sem ser, de modo algum, prerrogativa exclusiva de um determinado grupo político. O crime é cometido sob o domínio da hybris, uma arrogância que se considera inatacável, invulnerável, blindada.

No contexto global e também no nosso país não é menos gritante o aumento das diferenças entre os mais ricos e os mais pobres. Assistimos também ao ressurgimento de movimentos discriminatórios, xenófobos, contrários à aceitação de migrações; concomitantemente, proliferam atos terroristas que, além de acabar com a vida de centenas de indivíduos, criam um clima de insegurança, reforçando o desenvolvimento de Estados policiais, do estado de exceção (Agamben). Nesse cenário, o outro, o estrangeiro, o diferente, é objeto de tamanha hostilidade e transformado num ser tão estranho e odiado que sua exclusão/aniquilamento parece justificado.

A falta de sensibilidade ao sofrimento do outro, a vazão da agressão através do ato que ultrapassa o limite da lei dos homens, é metonímia do abuso, do estupro, dos maus-tratos, da fome, do desemprego, do domínio sádico do outro, da pedofilia, da humilhação perversa, do racismo e da discriminação.

Em “O mal-estar na civilização” Freud fala-nos da intensidade das pulsões e da necessária renúncia à sua satisfação plena na cultura, o preço que todos pagamos pela vida em sociedade. Fala também da agressividade humana e do modo como ela se entrelaça com o narcisismo. Propõe a ideia de narcisismo das pequenas diferenças que alude à forma como os integrantes de uma comunidade podem se unir mascarando ou disfarçando inconscientemente seus conflitos e projetando no outro, no vizinho, sua agressividade. Amamos nossos irmãos e repudiamos os outros a quem tratamos com intolerância. A diferença encontra os mais variados discursos para ser transformada em ameaça. Essa relação imanente entre o indivíduo e a cultura é um operador fundamental do pensamento freudiano para a construção dos modelos de pensamento sobre a subjetividade humana. Freud dedica uma vasta e profunda reflexão aos vínculos entre o indivíduo e o poder, o indivíduo e a massa, assim como entre o narcisismo/sexualidade e a formação de nossos ideais, a moral e a ética.

Se retornamos ao termo corrupção, na sua etimologia grega alude a estragar, decompor, perverter, depravar, e guarda sua vinculação com o prefixo co, que alude à necessidade de dois participantes para que esse ato possa acontecer. Mas o que se esgarça, o que se decompõe? A ideia de justiça, a lei, o homem, a representação simbólica de um laço social que se sustenta num pacto simbólico, mas que se degrada e se transforma numa relação de compadrio. O poder se corrompe.

Classicamente a noção de poder remetia ao domínio exercido pelo Estado ou pelo soberano sobre seus súditos, associado ao autoritarismo, à violência praticada contra o outro, à censura. O poder visa exercer um domínio. Para nós, psicanalistas, a ideia de domínio é polissêmica e fundamental na compreensão das forças que movimentam o psiquismo. Comporta dois grandes grupos de sentidos: (a) um voltado para si, para o próprio aparelho psíquico: domínio da força pulsional, dos estímulos que nos invadem – domínio através do recurso ao processo transformativo do sonho, à sublimação, à representação, ao símbolo, à criatividade; (b) outro voltado para o exterior: domínio a partir da descarga e do livre exercício da sexualidade na busca do prazer, mas também exercício de domínio sobre o outro mediante diferentes formas de controle, de sedução, do ato e do sadismo.

Ambos fazem parte do potencial humano e operam em permanente tensão. Na atualidade as formas de poder e de domínio parecem mais difusas, penetram e se infiltram no cotidiano, menos identificado com uma instância, no entanto mais onipresente como meio de controle da subjetividade e das ações dos indivíduos. Até que ponto determinadas formas de poder não chegaram a mutilar subjetividades de modo que o ato emerja como única resposta possível para certos indivíduos ou grupos? Alguns analistas já se debruçaram com muita propriedade sobre esses temas.

Sintetizando os extremos: a ideia do cidadão acima de qualquer suspeita apregoa a noção narcísica do indivíduo que não estaria sujeito aos ditames do coletivo e estaria acima da lei, a corrupção revelando de modo contundente os intrincados jogos de forças entre o Estado, o poder e as paixões humanas; por outro lado, a condição de submissão, opressão e impotência na qual indivíduos, grupos ou nações se encontram conduz sujeitos movidos pela falta de alternativa à utilização consciente ou inconsciente do recurso ao ato muitas vezes devastador.

Pensar e agir eticamente ultrapassa a esfera do eu para nos lançar ao encontro do outro. Nesse contexto, a política cobra seu sentido original à serviço da comunidade, da vida em sociedade e não na sua redutora e corrupta perspectiva do compadrio e obtenção de privilégios. Talvez a psicanálise possa contribuir para reconhecer e desconstruir, na medida do possível, as formas de poder internas e sociais que alienam o cidadão e a subjetividade.

Novos desafios nos interpelam se nos deixamos atingir pela diferença, pela alteridade e o respeito à lei e ao laço social que nos constituem. O imperativo ético da psicanálise, através do reconhecimento da estranheza do desejo inconsciente em nós, nos convoca a reconhecer a estrangeiridade do outro e suas singulares demandas. Sua irremediável estranheza nos estimula à invenção de uma prática e de um discurso coerentes que nos possibilitem conviver melhor com nós mesmos e com o diferente. Seremos capazes?

*Bernardo Tanis é psicanalista, membro efetivo da SBPSP e doutor em Psicologia Clínica.

Sobre a vergonha

Quem nunca sentiu vergonha na vida? Com intensidade que varia desde o mais leve rubor até um forte sentimento de vexame, a experiência da vergonha é a vivência de uma emoção que pode ser profunda, dolorosa e universal, com efeitos duradouros.

Sentimento eminentemente humano, a vergonha tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nosso mundo.

A vergonha nem sempre aparece de forma direta e é preciso identificar seus diferentes disfarces para que se possa lidar com ela. A arrogância, a solicitude extrema e o isolamento podem ser maneiras de lidar com esse sentimento, formas que escondem a vergonha por trás de uma máscara e que dificultam o processo de enfrentá-la.

O problema com a vergonha é o comportamento quase instintivo de ocultá-la. Mas e se procurarmos fazer o inverso? O aparecimento da vergonha é uma oportunidade para nos conhecermos melhor. Prestar atenção a seus sinais e não simplesmente se render a eles, poder receber a vergonha sem imediatamente tentar escondê-la, considerar a vergonha e procurar entender a que ela se refere, pode ser um caminho para entrar em contato consigo e perceber o próprio funcionamento.  Ao conhecer as forças que nos dominam, podemos modificar as condições em que vivemos.

*Membro da SBPSP, Marina Kon Bilenky é autora do livro “Vergonha” (Blucher), da série “O que fazer?”, coordenada por Luciana Saddi, Sonia Soicher Terepins, Susana Muszkat e Thais Blucher. O texto acima está no livro lançado recentemente e disponível nas livrarias

O INQUIETANTE ESTRANHO EM NÓS

Resultado de imagem para INQUIETANTE ESTRANHOQuem nunca foi tomado por uma sensação de estranheza diante dos próprios atos e das circunstâncias da vida? Algo que atrai e seduz, mas ao mesmo tempo também choca, provocando repulsa. Essa sensação inquietante está presente massivamente em filmes, na literatura fantástica, nas artes plásticas sombrias e também está em nosso cotidiano. Trata-se daquela sensação que surge quando, por exemplo, em um curto intervalo de tempo deparamo-nos com situações ligadas a um mesmo número ou a um mesmo nome de pessoa – algo que, principalmente para os indivíduos mais supersticiosos, pode adquirir um ar secreto de sina ou maldição. Em diferente grau, é a mesma sensação despertada pelo dito “mau-olhado”, agouro, em que tudo parece dar errado.  Ou ainda esse sinistro que aparece quando temos dúvida se um ser animado está realmente vivo ou, ao contrário, se um objeto aparentemente inerte não seria, na verdade, portador de vida. Essa sensação foi estudada por Freud (1919) e nomeada de Das Unheimliche, que foi traduzida em português como O Inquietante / O Estranho, em espanhol Lo Siniestro / Lo ominoso.

No artigo O Inquietante (1919), Freud faz uma análise psicanalítica no terreno da estética, pelo conto “O Homem de Areia” e também do romance “Os elixires do diabo”, ambos do escritor de E.T.A. Hoffmann. No primeiro conto, Hoffmann constrói a personagem Olímpia, que é destaque por sua graça, beleza e aparente vivacidade, o que a torna objeto de paixão do personagem principal, Nathaniel. Com o desenrolar da história o personagem descobre que Olímpia não passa de uma boneca, um autômato, fato que provoca certa estranheza no leitor. Não é apenas a personagem Olímpia que causa essa sensação, no conto Nathaniel é um personagem que possui um delírio de associação da morte de seu pai com uma figura mítica de sua infância: O Homem de Areia. Esse por sua vez corresponde a uma espécie de “bicho papão” da cultura alemã, figura que serve para auxiliar as mães a mandarem seus filhos para cama sob ameaça de terem seus olhos primeiramente feridos com areia e depois arrancados e roubados. No conto paira a dúvida sobre a existência real ou não do Homem de Areia.

Freud (1919) faz uma análise etimológica da palavra Unheimlich, bem como suas diferentes expressões em outros idiomas, como o latim, o grego, o inglês, o francês e o espanhol. Interessantemente, ele demonstra que em seus sinônimos essa palavra apresenta paradoxos, sendo que em variadas matizes ela coincide com seu oposto imediato, Heimlich (familiar/conhecido). Assim, Freud (1919) conclui que sempre atrás de algo aparentemente incompreensível ou atemorizante se esconde algo familiar, muito conhecido. Para que algo seja inquietante, não basta que ele seja diferente do convencional, mas que tenha sido algo anteriormente familiar. Ou seja, Freud (1919) conclui que existe sempre uma sombra no aparentemente conhecido, um inominável que foi afastado, deslocado (reprimido) da consciência. Citando Schelling “Unheimlich seria tudo o que deveria permanecer secreto, oculto, mas apareceu”. (Freud, 1919, p.338).

O desassossego causado pela dúvida de seres inanimados terem vida remonta a infância, a fase de desenvolvimento em que de fato a criança não consegue distinguir ser vivo de ser não vivo – em que ela dá vida aos seus brinquedos. A criança para conseguir expressar o que sente, transfere para seus brinquedos e fantasmas seus medos, amores e angústias. Assim como no conto o medo de Nathaniel de perder os olhos representa suas culpas infantis, que fazem com que ele tema sofrer retaliações: perda dos olhos (castração).

No romance “Os elixires do diabo”, de Hoffmann (1815-16), Freud (1919) mostra outra fonte intensa do inquietante. Trata-se do duplo ou sósia, o surgimento de pessoas que, pela aparência igual, devem ser consideradas idênticas, em que pode ocorrer a intensificação desse vínculo entre os sujeitos pela passagem de processos psíquicos de uma para outra (telepatia) – de modo que uma pessoa possui também o saber, e os sentimentos e vivências das outras pessoas. Por vezes a identificação com o duplo de si pode levar a confusão, ocorrendo a duplicação, divisão e permutação do Eu. A compreensão popular de alma imortal também representa o duplo, como uma medida de segurança diante da sempre eminente ameaça de destruição do Eu pela morte. Freud (1919) irá demostrar que esse duplo trata-se da formação de uma instância psíquica que, embora gerada a partir do Eu, dele se apartaria, exercendo sobre si uma atividade de observação e censura: a consciência moral – termo que será um prenúncio do conceito de Supereu, após os trabalhos de Além do Princípio de Prazer (1920) e O eu e o isso (1923).

O inquietante é a sensação causada pela percepção da compulsão à repetição, em diferentes situações. Como quando identificamos traços faciais entre pessoas, vicissitudes, nomes, situações de nossa vida, que se repetem. Trata-se do eterno retorno do mesmo, a aflitiva sensação de que existe uma determinação oculta em nossa vida. Freud (1919) demostra que essa é justamente a natureza própria da pulsão; cujo poder de subjugar nossa busca de realização e prazer confere um caráter demoníaco a certos aspectos de nossa vida anímica.
Nas diversas manifestações do estranho, em maior ou menor grau, paira uma relação íntima com a nossa onipotência de pensamento, pois cremos que o pensamento por si só é capaz de determinar as ocorrências da realidade. Freud (1919) analisa as raízes individuais e sociais dessa onipotência.

 O que é extremamente rico e inovador nesse trabalho de Freud é a forma como ele aborda o estranho (diferente) – que nunca é visto como um exato estrangeiro, mas detecta a estranheza do inconsciente, como aquilo que é inominável de nós mesmos. Desta forma, o estranho só nos choca, porque toca no sinistro que vive em nós. Como na música do Pink Floyd “Brain Damage”, o lunático que identificamos fora, na verdade vive em nossa mente, ele é o próprio Dark side of the moon, o nosso lado obscuro. Essa aflitiva estranheza é também a nossa! Daí o perigo de projetarmos o estrangeiro no outro, que encarnará os próprios conflitos. Assim, a psicanálise demonstra que todos nós somos estrangeiros e ironicamente habitamos o mesmo inquietante lugar: a condição humana de desamparo – que é a condição última de nosso ser conosco e de nosso ser com o outro.

O Unheimlich surge desse entremeio, o Eu e o outro, em que algo não pode ser nomeado e por isso os limites frágeis do nosso eu parecem ser extrapolados, o que é fonte do sobrenatural. Esse algo estranho parece nunca poder ser verbalizado, mas por vezes aparece simbolizado em formas belíssimas, como nos filmes de Alfred Hitchcock ou na literatura magnífica de Edgar Allan Poe.

Que ousadia – a psicanálise se aventura a adentrar esse estranho lugar! Busca dizer o indizível, por isso Freud (1925,1937) escreveu que ela é uma profissão impossível! Aliás, como é inquietante a figura do analista. É ainda mais estranho a existência do desejo do analisando que, a partir do divã ousa (se) perguntar. Por meio desse encontro, o sujeito que pergunta pode vir a se dar conta que esse outro a quem ele destina ódio não passa de um duplo de si mesmo. Por meio da transferência, ele pode vir a ser sujeito consciente de suas próprias diferenças, e sinta-se mais a vontade para conviver com as diferenças alheias. Somente escutando o monstro/louco que há em nós podemos nos implicar com os seus/nossos inquietantes desejos, com nossa agressividade e sexualidade, revivendo (e não só rememorando) esse outro de si mesmo. Nos permitindo assim dar novo estatuto à vida, criando possibilidades diante do impossível que é o inconsciente, readquirindo sua dimensão poética e de potência criativa.

*Samara Megume Rodrigues é psicóloga clínica, mestranda em Psicologia, colaboradora e idealizadora da Roda de Psicanálise.

** Imagem: gravura de Jacques Callot, “Le Deux  Pantalons” , de 1616.

Referências Bibliográficas

Freud, S. (2010) O Inquietante. In: Obras Completas de Sigmund (Paulo Cesar  Soura, Trad. Vol 14) São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Originalmente publicado em 1919)
Freud, S. (1996) Prefácio a Juventude desorientada  de Aichhom. In: Edição Standar Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1925)

Freud, S. (1996) Análise terminável e interminável. Edição Standar Brasileira das Obras Psicológicas Completas     de Sigmund Freud, vol. XXIII. Rio de Janeiro: Imago(Originalmente publicado em 1937)

METAPSICOLOGIA E O MISTERIOSO REINO ENTRE O FÍSICO E O MENTAL

Este texto tem o objetivo de apresentar a metapsicologia como um modo original de articular os processos psicológicos e os fundamentos biológicos para fundar uma nova ciência, a psicanálise. Freud considerava que os conceitos de inconsciente, pulsão, recalque, entre outros, eram indispensáveis para a psicanálise, a despeito das imprecisões e dificuldades que rondavam tais noções. Afinal, para desvendar o enigma das psicopatologias, seria necessário ultrapassar e ampliar simultaneamente: 1) os limites da psicologia clássica – cujo paradigma racionalista a orientava exclusivamente para o estudo das faculdades mentais conscientes “normais”, como a sensação, a percepção, a atenção, a memória, a cognição…, pouco se interessando por fenômenos relacionados à loucura; e 2) os limites da psiquiatria, que se dividia entre hipóteses explicativas orgânicas (impossíveis de serem demonstradas anatomicamente, pois nada se encontrava de anormal nos cérebros dos loucos) e hipóteses explicativas morais (o que deixava a psiquiatria em uma distância constrangedora da cientificidade médica).

Assim, para construir um edifício teórico coerente para as novas experiências psicanalíticas, Freud muitas vezes entregou-se a “especulações”, sem deixar de alertar para a ligação íntima entre suas teorias e a observação dos fenômenos clínicos.

Não gostaria de dar a impressão de que durante esse último período de meu trabalho voltei as costas à observação de pacientes e me entreguei inteiramente à especulação. Ao contrário, sempre fiquei no mais íntimo contato com o material analítico e jamais deixei de trabalhar em pontos detalhados de importância clínica ou técnica. (FREUD, 1925 [1924], p.62).

De forma que, ao longo de toda sua obra, os esforços para compreender a natureza e os processos que regem o funcionamento da vida psíquica, seja normal ou patológica, permaneceram costurados com a prática, e por isso mesmo, eram passíveis de sofrer renovações contínuas.

Assim foi desde que, no final do século XIX, sua tentativa de explicar a histeria levou-o a adotar a hipótese de que processos psíquicos inconscientes estavam na base da formação dos sintomas psicopatológicos. Esta hipótese tornou-se o disparador tanto de uma prática clínica diferenciada, quando da construção de um arcabouço teórico coerente com essa nova proposta.

Ao conjunto de modelos conceituais inferidos da experiência, Freud chamou de metapsicologia. Logo, o modelo de um aparelho psíquico dividido em instâncias, a teoria das pulsões, o processo do recalque, são hipóteses pertencentes ao registro de uma investigação teórica que pretende situar os conceitos básicos do empreendimento psicanalítico. O longo trecho abaixo, escrito em 1914, oferece uma ideia da posição dos conceitos metapsicológicos na psicanálise.

É verdade que noções como a de libido do Eu, energia pulsional do Eu e outras não são nem claramente apreensíveis, nem suficientemente ricas de conteúdo; assim, uma teoria especulativa a respeito das relações em questão teria sobretudo por meta formular conceitos rigorosamente delimitados que lhes servissem de fundamento. Todavia, acredito ser essa a diferença entre uma teoria especulativa e uma ciência construída sobre a interpretação de dados empíricos. Esta última não invejará da especulação o privilégio de uma fundamentação impecável e logicamente inatacável. Ao contrario, a ciência se dará por satisfeita com ideias básicas, nebulosas e ainda difíceis de visualizar, sempre, porém, com a esperança de mais adiante, no decorrer do seu desenvolvimento, vir a apreender tais ideias com mais clareza, mostrando-se ainda disposta a eventualmente trocá-las por outras. Afinal, o fundamento da ciência não são essas ideias, mas sim a observação pura sobre a qual tudo repousa. Elas não são a base, mas o topo do edifício, e podem, sem prejuízo, ser substituídas e removidas. Atualmente, vivemos a mesma situação na física, cujas concepções básicas sobre matéria, centros de força, atração e outros não são menos questionáveis do que as concepções correspondentes na psicanálise. (FREUD, 1914, p.100).

     Em vários momentos, Freud destaca que o caráter indeterminado e provisório de seus conceitos metapsicológicos não os torna menos válido. Pelo contrário, eles são fundamentais e indispensáveis na medida em que se constituem como os próprios instrumentos “científicos” utilizados na análise do material empírico. Mas estes instrumentos não podem ser rígidos e fixos, devendo se transformar toda vez que a experiência o exigir. Afinal, mais do que fornecer bases para as observações clínicas, as teorias são resultados que quando não são aperfeiçoados tornam-se estéreis.

Enquanto elas [as ideias] permanecem nesse estado [de indefinição], podemos concordar sobre seu significado remetendo-nos repetidamente ao material experiencial a partir do qual elas aparentemente foram derivadas; contudo, na realidade, esse material já estava subordinado a elas. (…) o progresso do conhecimento não suporta que tais definições sejam rígidas, e como ilustra de modo admirável o exemplo da física, mesmo os “conceitos básicos” que já foram fixados em definições também sofrem uma constante modificação de conteúdo. (FREUD, 1915, p.145).

      Entendida neste contexto, a metapsicologia tornou-se para Freud um aspecto essencial desta psicanálise que estava a se inventar, com a função não tanto de formular teses, mas de organizar e justificar o que deriva da experiência clínica.

      Freud fez suas primeiras menções ao termo metapsicologia em cartas para Fliess, no ano de 1896: “tenho-me ocupado continuamente com a psicologia – na verdade, com a metapsicologia” (MASSON, 1986, p.173). Um ano antes, Freud havia escrito o seu projeto de uma “psicologia científico-naturalista”, assentado sob princípios biológicos e mecânicos do sistema nervoso. Trata-se de uma psicologia que recusa a identidade entre o psíquico e o consciente e propõe que a explicação para os processos neuronais sejam buscados em “processos psíquicos inconscientes”. Inconsciente, neste caso, é um adjetivo para os processos fisiológicos que não podem ser acessados direta ou imediatamente pelos sentidos. Como esclarece Gabbi Jr (1995, p.123): “o naturalismo de Freud leva-o a conceber processos que, como os físicos, devem ser inferidos, visto que não são imediatamente apreendidos pela consciência”.

        Pois bem, a hipótese destes processos psíquicos inconscientes como determinantes causais dos sintomas patológicos, acompanha-se de outras, ou seja, que o funcionamento neuronal transcende os processos físico-químicos e que obedece a leis diferentes daquelas de seus componentes materiais. Abre-se então uma área inédita de investigação que exige de Freud instrumentos e métodos específicos, para além do físico e do orgânico, o que a neurologia ou a biologia não tinha condições de fornecer. Tampouco a psicologia clássica. A metapsicologia nasce a partir dessa exigência de se dirigir a investigação psicológica, independentemente da biologia, para este novo campo que se situa entre a esfera orgânica e psíquica.

Além disso, a psicanálise passa a ganhar contornos próprios quando abre mão da referência direta à biologia. Mas para Freud, essa independência da biologia não significará uma renúncia aos pressupostos biológicos e esses permanecerão como o fundamento [inacessível] da vida psíquica por toda sua obra.

Senhores, a psicanálise é injustamente acusada de apresentar teorias puramente psicológicas para problemas patológicos. (…) Os psicanalistas nunca se esquecem de que o psíquico se baseia no orgânico, conquanto seu trabalho só os possa conduzir até essa base, e não além. (1910, p.226).

       Embora Freud deixe de se apoiar tão explicitamente em um modelo neuropsicológico, este permaneceu como inspiração para o desenvolvimento de sua metapsicologia. Apesar de seus esforços para que as considerações biológicas não dominassem o campo psicanalítico, um dos conceitos mais fundamentais, a pulsão, sempre foi situada na fronteira entre o psíquico e o somático, “como um conceito fronteiriço entre as esferas da psicologia e da biologia” (FREUD, 1913, p.184).

     A metapsicologia enquanto um sistema teórico-científico para abordar a misteriosa articulação entre o orgânico e o mental permanece um caminho interessante e original para a superação de dicotomias infrutíferas. A despeito de existirem psicanalistas excessivamente técnicos que insistem em questionar: mas na prática, para que isto serve?

REFERÊNCIAS

BIRMAN, J. Freud e a filosofia. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2003

FREUD, S. (1910) A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

______. (1913) O interesse científico da psicanálise. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

______. (1914) À guisa de introdução ao narcisismo. In: ______. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Vol.I Rio de Janeiro, Imago, 2004.

______. (1915) Pulsões e destinos da pulsão.In: ______. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Vol.I Rio de Janeiro, Imago, 2004.

______. (1925[1924]) Um estudo autobiográfico. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

GABBI, O.F. Notas críticas sobre Entwurf Einer Psychologie. Projeto de uma psicologia. Rio de janeiro: Imago, 1995.

MASSON, J.M. (org) A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess. Rio de Janeiro: Imago, 1986.

Por Aline Sanches*

A ESPINHOSA RELAÇÃO ENTRE INDIVÍDUO E CULTURA

*Por Samara Megume Rodrigues

Num dia de frio de inverno um grupo de porcos-espinhos se aconchegou bastante, para se esquentarem mutuamente e não morrerem de frio. Contudo, logo sentiram os espinhos uns dos outros, o que os fez novamente se afastarem. E quando a necessidade de aquecimento os aproximava de novo, repetia-se o segundo mal, de modo que eram impelidos de um sofrimento para o outro, até acharem uma distância média que lhes permitisse suportar o fato da melhor maneira. (Freud, 1921, p.56)

Essa parábola foi escrita originalmente por Schopenhauer e citada na íntegra em nota de rodapé por Freud em Psicologia de Massas e análise do Eu (1921). Em Freud ela é usada como alegoria para afirmar que toda relação sentimental íntima e prolongada entre pessoas contém afetos de aversão e hostilidade, que apenas devido ao recalque não podem ser percebidos.

Entendendo essa passagem como metáfora da relação indivíduo-cultura, temos de início dois impossíveis: o frio e o espinho. Pois o frio aparece como impossibilidade de sobreviver sozinho (uniam-se para não morrer), o espinho representa as dificuldades de se viver junto (separam-se para não furar uns aos outros). Tal como os porcos-espinhos, existiria para o sujeito em sociedade um meio-termo, em que ele possa viver em harmonia com a cultura?

Seguindo o pensamento freudiano, podemos encontrar as duas respostas: sim e não. A compreensão do vínculo incompatível entre sujeito e cultura não é linear e homogênea e a maneira como cada analista lê e responde a essa inicial incompatibilidade leva a diferentes posicionamentos clínicos, que se desdobram em determinada ética, estética e política da sua prática.

Freud(1930) define a cultura como a somas das realizações que distingue homens e animais, cuja finalidade seria proteger o homem da natureza e regular as relações deles entre si. Assim, ela compreende tanto o desenvolvimento material (instrumentos), quanto o simbólico: normas, leis, moral. O sujeito necessita da cultura, para se constituir como humano. Somos seres sociais, porém não sem dor e sacrifícios.

Nossa civilização repousa, falando de modo geral sobre a supressão dos instintos” (Freud, 1908, p.173). Para conseguir viver em sociedade cada indivíduo precisa renunciar uma parte da sua onipotência e da agressividade, sendo que dessa renuncia surgem tanto os sintomas/patologias psíquicas, quanto o acervo cultural de bens materiais e simbólicos.

Primeiramente, Freud revela em “Moral Sexual Civilizada” (1908) que a neurose não é apenas uma formação do inconsciente, mas produto da intersecção deste com a modernidade. O processo civilizatório doma as pulsões em impulsos de meta inibida, ou seja, eles são “anestesiados”, incorporados às grades do decoro social. Mas a repressão não ocorre sem um preço alto – o empobrecimento subjetivo/erótico/de prazer. A neurose acaba sendo a moeda paga para sair da barbárie. Portanto, [..] “se o neurótico possui sintomas, ele é também o sintoma vivo da cultura” (Assoun, 2012, p.15).

Neste período de seu desenvolvimento teórico Freud(1908) ainda se encontra dentro do pensamento iluminista, no paradigma da ciência moderna. Nesse contexto, ele irá enunciar a hipótese de que a psicanálise pode oferecer uma resposta resolutiva para o conflito indivíduo-cultura, podendo assim, aplacar os males gerados pela moral sexual civilizada (Freud, 1908). Essa hipótese será questionada na segunda tópica, sendo quebrada junto com o abandono da crença na racionalidade moderna e no iluminismo.

 Totem e Tabu (1913), Psicologia de Massas e análise do eu (1921), O Futuro de uma ilusão (1927), são trabalhos que problematizam as origens da cultura e da moralidade, a metapsicologia das instâncias ideais (normas, leis), o sentimento de culpa resultante dos laços de aculturamento, bem como o original desamparo do ser humano – Freud aprofundará a compreensão de que o ser humano não concebe a própria história isoladamente, necessitando sempre do vínculo afetivo do outro para viver e se desenvolver.

Em o Mal-estar na Cultura (1930), o impasse maior para a constituição de uma ordem social não será mais a oposição simplista entre exigências de trabalho pulsional que afligem o sujeito e as limitações impostas pela cultura, mas o próprio trabalho silencioso da pulsão de morte manifesta na agressividade, na força destrutivo-disjuntiva que existe em todo indivíduo. Inicialmente a vida é dispersão, o aparelho precisa realizar um intenso trabalho para capturar os processos psíquicos, ligando-os (pulsão de vida/princípio de prazer). A vida precisa ser conquistada, pois inicialmente ela tenderia ao inorgânico, exigindo do sujeito grande esforço para se manter e se desenvolver. Desta forma, a crença na cura do sofrimento em sociedade se mostrará insustentável. Pois dentro do sujeito existe uma força originária que o impele a destruição. Freud (1930) então quebra com as pretensões de uma harmonia possível entre indivíduo e sociedade, pois nada nos curará do desamparo e de nossa agressividade. Não existem fórmulas para aplacar os conflitos humanos. A ciência não pode curá-los. Cada um precisa construir as próprias saídas, cuidar dos espinhos, pois o ser humano é singular: “Não há conselhos que sirva a todos, cada um precisa experimentar a maneira particular pela qual pode se tornar feliz” (Freud, 1930).

Em Considerações atuais sobre a Guerra e a Morte (1915) Freud abandona a pretensão de colocar a psicanálise como salvadora dos conflitos da humanidade. Aliás, ele faz críticas ao próprio saber científico, entendido como promessa ilusória. Todo saber é falho. É justamente nesse ponto que subjaz a verdade do sujeito: onde ele se perde, tropeça na linguagem, onde o sujeito não pensa, ele é. O campo dos lapsos é o espaço da verdade do inconsciente, para além da razão.

Se existe estabilidade na situação dos porcos-espinhos ela é provisória e instável. Onde há vida, há conflito. Viver é se movimentar, insistir e resistir no e diante do desamparo. A morte e a doença, ao contrário, são paralisia. Nessa compreensão, o objetivo da psicanálise não seria de adaptar o sujeito, resolver suas desordens, abafando seus desejos.  Entre indivíduo e cultura não há distância intermediária pré-fixada que sirva de modelo.

Na alegoria de Schopenhauer a existência dos espinhos pode ser vista como uma barreira contra a simbiose – a fusão completa com o outro – mas ela também diz fundamentalmente do mais áspero que há em nós: a sexualidade e agressividade, bem como os caminhos pelos quais foram construídos seus destinos. Daí a complicação: como propor um modelo de harmonia sendo que tudo irá depender dos espinhos e do seu poder de incomodar os outros?

A psicanálise não pode ser um código para aplacar as incertezas humanas. Mas sim, um instrumento de crítica aos códigos. Guiado por essa compreensão, o ofício da interpretação é mover o sujeito, no sintoma ou na transferência, do lugar daquele que repete para o lugar daquele que cria. Para isso, o sujeito tem que renunciar à tendência, demasiada humana, de buscar amparo em substitutos do pai (moralidade), movimento que gera vínculos espinhosos, calcados em um supereu de culpa e mortificações.

Freud iniciou seu percurso com um Projeto e terminou com um Esboço. A Psicanálise para ele não foi uma teoria dogmática, pois a todo o momento problematizava-a. Sabia-a falha, incompleta. Ela não dá a receita para cada sujeito. Ela precisa ser criada e redescoberta a cada sessão. Nessa aventura, só não nos tornamos temerários, se a prática estiver bem fundamentada em uma teoria. O inconsciente permanece como eterna pergunta, onde sobra sempre um impossível de dizer. Esse vazio, pode ser uma ameaça de encontro com o nada, mas também é potência. Ele pode vir a ser (e é) o índice de criação, o que nos move. Do caos pulsional à palavra, do adverso narram-se os versos, ampliamos os lados: con-versamos! A análise abre caminhos, erotiza a vida, movimenta o circuito pulsional. Psicanalisar é inacabar.

*Samara Megume Rodrigues é psicóloga clínica, mestrando em Psicologia (PPI/UEM), idealizadora e colaboradora da Roda de Psicanálise

Referências Bibliográficas:

ASSOUN, P, L. Freud e as Ciências Sociais: Psicanálise e Teoria da Cultura. São Paulo: Edições Loypla, 2012.

FREUD, S. (1908). Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna. In:____Obras Psicologicas Completas de Sigmund Freud. Vol.IX. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

FREUD, S. (1913) Totem e Tabu. In___Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol.XIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

FREUD, S.(1915) Considerações atuais sobre a Guerra e a Morte. In:___Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e Outros textos. (P.C, de Souza, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, S. (1921). Psicologia de massas e análise do eu. In:_______. Psicologia de massas e análise do eu e outros textos. (P.C, de Souza, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, S. (1927) O Futuro de uma IlusãoIn:___Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol.XXI. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

FREUD, S. (1930). O mal-estar na cultura. (R. Zwick, Trad.). Porto Alegre: L&PM, 2011.

A DESPEDIDA DA INFÂNCIA, SUAS DORES E SEUS LUTOS

por Aline Sanches*

No final da infância, a personalidade encontra-se relativamente estável: há autonomia em certas funções, as capacidades intelectuais e cognitivas desenvolvem-se progressivamente; a criança constrói crenças sobre o mundo onde os pais são as principais referências e a relação de dependência com estes é uma condição natural altamente satisfatória. Com a puberdade, modificações corporais se manifestam incontrolavelmente, acompanhadas de impulsos sexuais e agressivos que irrompem no mínimo contato com o outro. O recém-adolescente passa a estranhar a si mesmo, assim como estranhar as sensações que dele se apossam. Os imperativos do mundo externos também começam a se modificar e a exigir novos modos de convivência. Inicia-se uma fase de confusão, instabilidade e conflitos devido às perdas infantis. Lenta e dolorosamente, o adolescente caminha em direção à maturidade, oscilando entre progressos e regressões, ora responsável, ora totalmente dependente, ora carinhoso, ora agressivo. Seu corpo assemelha-se cada vez mais ao de um adulto, mas seu comportamento permanece infantil. Por não controlar e não conseguir produzir sentidos sobre as mudanças que ocorrem em seu corpo, o adolescente sente-se impotente e ansioso e defende-se através da intelectualização, que se expressa por meio de desejos de reformas políticas, sociais ou religiosas. Assim, compensa a insegurança relacionada ao corpo através de ideais de transformações do mundo, sem que necessariamente suas ações caminhem neste sentido e sem sentir-se agindo de forma contraditória quanto ao seu discurso e prática. Isto é possível porque sua imagem corporal está confusa, como se corpo e mente estivessem em diferentes ritmos de desenvolvimento. No entanto, estas experimentações intelectuais aos poucos vão se confrontando com a realidade e integrando-se, permitindo a aceitação do novo esquema corporal e a elaboração do luto pelo corpo infantil.

Apesar das expectativas e desejos de crescimento, é com tristeza que o adolescente despede-se dos tempos da infância. Há muito mais pesar pelo que está se perdendo do que alegria pelo advir, misterioso e incerto. Segundo Aberastury e Knobel (1981, 1983), as transformações corporais e psíquicas em que o adolescente encontra-se imerso se assemelham ao estado de luto: luto pelo corpo, pelos papéis e identidade infantil e pelos pais da infância.

A turma tem uma importância fundamental nesta fase: é um alívio descobrir no outro as mesmas estranhas transformações; os sentimentos de vergonha, medo, culpa e inferioridade diluem-se, ao mesmo tempo em que há uma discriminação dos adultos e a afirmação de uma identidade adolescente. A família e a turma tornam-se instâncias sociais rigidamente separadas, frente às quais o adolescente comporta-se de diferentes maneiras. Assim, enquanto a turma passa a ser um espaço de vazão das fantasias e ideais, dos impulsos amorosos e agressivos, a família continua sendo a maior representante do princípio de realidade, onde as oscilações de humor e de comportamento são incompreendidas e repreendidas. A separação entre estas duas instâncias é positiva, pois permite a experimentação de outros papéis e identificações. No entanto, pode levar a uma busca exagerada pela diferenciação dos pais e a adesão cega a qualquer forma identitária pregada pela turma.

Gradualmente o adolescente desvincula-se da relação de dependência com os pais, inicialmente de forma confusa e contraditória. Exige que seus pais sustentem a sua independência no mundo, o que é uma grande fonte de conflito. Decepcionado, afasta-se e isola-se, para elaborar a perda dos pais da infância. Surgem sentimentos de revolta que interferem ou mesmo interrompem a comunicação com os pais em alguns casos. Também os pais precisam elaborar a perda definitiva de seu filho criança. Muitos não aceitam o crescimento de seus filhos e agem inviabilizando qualquer possibilidade de autonomia do adolescente, “vivendo cada originalidade sua como sinal de dispersão e mesmo de desagregação familiar” (EIGUER, 1989, p.79). Assim como o adolescente inicialmente busca uma desvinculação de forma confusa e contraditória, também os pais podem exigir a independência dos filhos de forma ambivalente.

O desenvolvimento da vida e o crescimento impõe dores incontornáveis… Como sugere Drummond no poema Verbo Ser, difícil mesmo é conciliar CRESCER e SER.

Que vou ser quando crescer?

Sou obrigado a? Posso escolher? 

Não dá para entender. Não vou ser. 

Vou crescer assim mesmo.

Sem ser Esquecer.

*Aline Sanches é Psicóloga (UNESP/Assis), Psicoterapeuta (CRP-08/19679), Doutora em Filosofia (UFSCar) e Psicanálise (Paris 7).