A Criança Que Morde

Geralmente a criança morde quando está enfrentando alguma dificuldade e utiliza a mordida como uma forma de expressar seus sentimentos. Em situações de perdas, medos, dificuldades, a criança morde para sinalizar que algo não está bem com ela.

A mordida não deve ser considerada “normal” é uma reação exagerada dentro de uma fase do desenvolvimento infantil.

É comum que aconteça nas escolas de educação infantil crianças com aproximadamente dois anos de idade apresentarem este comportamento.

Nessa idade a criança encontra-se na fase oral do desenvolvimento da personalidade.

Geralmente os adultos correm e atendem a criança que foi mordida. Ela sentiu dor, chorou e deve ser cuidada e confortada. A criança que mordeu não pode ser deixada de lado, ela precisa ver que seu ato machucou e provocou dor no amiguinho. Aproveitar o momento em que está assustada pelo seu ato agressivo e demonstrar que isso não foi aprovado, mas que poderão ajudá-la dando-lhe atenção e que ela não vai mais precisar fazer isto, mas jamais tratá-la com agressividade.

A falta de atividades lúdicas, de cuidados e atenção por parte dos adultos deixa as crianças ociosas e carentes e podem ser, por vezes a causa das mordidas constantes, tanto na escola como em outros momentos da vida social.

A mordida é sempre uma situação que exige bom senso por parte de todos os envolvidos, tanto os pais da criança que mordeu como os pais da criança que foi mordida. É importante que os adultos conduzam essa situação aproveitando para ensinar regras de convivência, de respeito e limites.

Cabe aos adultos, pais e professores a tarefa de mediar as relações entre as crianças, a fim de amenizar os sentimentos negativos da situação evitando que esse comportamento se repita.

Na maioria das vezes o desejo da criança ao morder um amiguinho não é machucá-lo, mas obter algum brinquedo. As mordidas acontecem nas mais diferentes situações, e a criança vai testando os efeitos de seus atos.

Por exemplo, se ao morder, os adultos atendem seus desejos; se as outras crianças cedem a disputa pelo brinquedo ela aprende que esse meio é eficaz.

Esse é mais um dos momentos do desenvolvimento infantil que exige pais presentes impondo limites.

DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E TECNOLOGIA

Atualmente, com os enormes avanços da tecnologia, as crianças estão cada vez mais expostas a aparelhos eletrônicos como smartphones, tablets, computadores e jogos em geral. Essa realidade – que é inerente ao nosso contexto histórico e cultural – afeta sensivelmente o seu desenvolvimento cognitivo e emocional e o seu debate mostra-se fundamental para reduzir alguns possíveis efeitos colaterais. Sobre o assunto, vale conferir a entrevista abaixo, com a psicanalista Maria Aparecida Quesado Nicoletti*.

1) As crianças são expostas, cada vez mais cedo, a smartphones, iPads, computadores, jogos eletrônicos etc. De que forma isso afeta o desenvolvimento tanto cognitivo quanto emocional?
Depende muito da etapa da infância que se examina. Pela construção da pergunta entendo que a questão se refere a crianças que estão na faixa etária pré-escolar e no início do período de escolarização fundamental.

Nessa etapa do desenvolvimento, por volta dos quatro ou cinco anos, talvez o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança já deixou para trás os estágios primários da formação de sua psique. Seu corpo e sua mente estão ávidos por experiências novas e isso faz com que a criança incorpore rapidamente a linguagem corrente, nomes e atividades motoras variadas. Em geral, se lhe for dado a escolher o que fazer, as escolhas recairão sobre atividades prazerosas, sejam elas participar de jogos nos quais têm que fazer esforços físicos, seja interagir com computadores ou usar as mãos para manusear objetos.

Começam aqui algumas das dúvidas sobre o impacto que instrumentos e brinquedos computadorizados terão sobre o desenvolvimento infantil. Nota-se, em diversos espaços de comunicação, a existência de opiniões a favor e contra a exposição das crianças dessa faixa etária aos computadores.

Do ponto de vista da psicanálise, que busca o desenvolvimento saudável e harmonioso das crianças contemporâneas, inseridas em seu contexto de vida, a exposição aos computadores e às novas formas de vivenciar e de aprender o que tais instrumentos trazem consigo constitui movimento adequado para o desenvolvimento cognitivo e emocional infantil, sendo pouco provável que tais atividades tenham impactos negativos, a menos que entre em cena o excesso.
Em resumo, a interação da criança com os computadores faz parte da cultura de nossa época e como tal, não deve ser evitada. Sua influência só será ruim quando houver excesso ou deslocamento de intenção, quando o computador é oferecido de maneira contínua, para mudar o comportamento imediato da criança, como ocorre quando se quer que ela concentre sua atenção no jogo, enquanto seu comportamento está “dizendo” que ela precisa de interação com seus pais ou professores.

2) Qual o papel dos pais na imposição de limites ou no incentivo do aprendizado do uso de aparelhos tecnológicos?

A informática traz oportunidades de comunicação e de interação social que nunca foram experimentadas pelo Homem e, por isso mesmo, ainda não sabemos como lidar com isso. Certamente, não será impondo limites sem fornecer razões que a criança possa aceitar, ou incentivando a criança a usar computadores para aprender sem cuidar que a aprendizagem se dê a partir de uma base apropriada de compreensão, que os pais exercerão as melhores de suas influências. Em linhas gerais, pode-se aconselhar os pais a criarem espaços de participação das crianças no modo de vida da família, oferecendo oportunidades para que as mesmas usem não apenas computadores, mas brinquedos físicos, ouçam a leitura de livros, participem de jogos que exijam atividade física, evitando a rigidez da imposição. Acredito que a “chave do sucesso” para limite/incentivo seja a moderação do uso da tecnologia nessa fase de desenvolvimento precoce.

3) Em que medida o uso de computadores, iPads etc. pode afetar a socialização das crianças?

A socialização das crianças depende de um conjunto de circunstâncias de natureza cultural, que incluem as origens da família, sua situação socioeconômica, suas crenças e práticas religiosas, bem como a qualidade dos vínculos familiares. Computadores, em geral, não têm o poder de influenciar o processo de socialização, salvo onde ocorram falhas relacionadas com uma das dimensões acima citadas como, por exemplo, quando a família descuida da socialização da criança, não lhe oferecendo as vivências necessárias para seu desenvolvimento pleno.

4) Como a tecnologia pode estar sendo usada para facilitar o processo educacional ou mesmo suplantá-lo? (Por exemplo, em um restaurante, ao invés de ensinar algum comportamento, os pais dão um iPad na mão da criança para ela “não incomodar”).

Em uma determinada época, a família “terceirizou” a educação dos filhos para a escola, que, além da responsabilidade do ensino formal, passou a substituir a tarefa de exercer também a “paternidade”. No momento, será que vemos a “terceirização” para os aparelhos eletrônicos? Nota-se que muitos pais parecem estar abdicando da importante tarefa de educar, porque educação requer trabalho. Será que essas crianças se sentirão atendidas com amor ou sentir-se-ão abandonadas, por não encontrar espaço para interagir com seus genitores? O excesso do uso de aparelhos eletrônicos também pode ser observado em adultos. É comum ouvir queixas de adultos reclamando que o cônjuge não deixa o Ipad de lado e que, por isso é difícil conversar.

*Maria Aparecida Quesado Nicoletti é psicanalista e membro da SBPSP.

Ciúmes dos irmãos

Afinal, o que está em jogo quando uma criança pequena depara-se com a chegada de um irmão mais novo? Quais sentimentos podem surgir? Como é possível compreender esse tipo de situação e eventuais conflitos?
Sobre o tema, vale conferir o artigo abaixo, da psicanalista Luciana Saddi.

Quando os irmãos chegam, ou mesmo quando uma criança se sente ameaçada com a vinda de primos e amigos, o que está em jogo é a disputa pelo amor dos pais.

Imagine o que você sentiria se seu marido voltasse do trabalho trazendo outra mulher e lhe dissesse: – meu bem, te amo tanto que resolvi trazer mais uma esposa para casa!

É assim que muitas crianças se sentem diante da vinda de um novo irmão. Sentimentos de raiva, de menos valia e medo de perder o lugar já conquistado prevalecem. Com o passar do tempo sentimentos de amor podem se fazer presentes.

A chegada dos novos rivais não aguça apenas a forte rivalidade infantil, aguça também a ambivalência entre o amor e o ódio, aumentando ainda mais o sofrimento daquele que se viu ameaçado pela perda do amor dos pais.

Por mais raiva que a criança sinta desse pequeno irmão ou grande rival, ela também o ama e também percebe que seus pais esperam dela um sentimento bom e de cuidado para com o recém-chegado.

Fortes conflitos entre o amor e os impulsos agressivos levam ao sentimento de culpa e ao desejo de oferecer alguma compensação por um dano real ou imaginado.

Na vida adulta encontramos essa mistura de sentimentos não apenas em relação aos nossos irmãos, também em nossas relações sociais e no desejo de compensar e reparar tão forte para algumas pessoas. Muitos dos nossos comportamentos são moldados nos padrões infantis, nascidos de conflitos poderosos quando os sentimentos eram vividos de forma absoluta e sem disfarce algum.

*Luciana Saddi é psicanalista e membro da SBPSP.

Considerações sobre o luto e a morte na perspectiva infantil

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O homem costuma apresentar medo diante de situações desconhecidas, e a morte apesar de sabidamente inevitável é um evento que desperta angústia Em nossa sociedade não são poucas as tentativas de afasta-la e esquece-la.

O desconforto quando se trata de morte é bem visível, a busca pela “eterna juventude” e a crença em nossa imortalidade pessoal nos afasta ainda mais de qualquer referência a terminalidade ou qualquer coisa que a ela remeta.

Serão demonstradas aqui as mudanças constatadas no enfrentamento da morte desde a Idade Média, denominada por Philippe Áries (1977) de “morte domada” até o morrer contemporâneo: a “morte invertida”. O modo como a criança introjeta as situações a ela relacionadas bem como seu processo de enfrentamento e luto.

A morte tem tido diferentes representações a cada época, sendo assim, os medos e angústias referentes a ela vêm mudando também. Como afirma Kovács ao citar Philippe Áries:

A morte era esperada no leito, numa espécie de cerimônia pública organizada pelo próprio moribundo. Todos podiam entrar no quarto, parentes, amigos, vizinhos, e, inclusive, as crianças. Os rituais de morte eram cumpridos com manifestações de tristeza e dor, que eram aceitas pelos membros daquela comunidade. O maior temor era morrer repentinamente e sem as homenagens cabidas. (1977, p. 67)

Era um evento a ser compartilhado e havia uma familiaridade com a finitude, embora essa mesma ainda fosse acompanhada do medo dos mortos. A “morte domada”, como assim a denominou Ariés era aceita como parte indissociável da vida e eventualmente até desejada. Fazendo um apanhado do “morrer” atual pode-se verificar a inversão de valores que ocorreu desde então. Kovács (1992, p.47) cita Ariés:

O século XX traz a morte que se esconde, a morte vergonhosa, como fora o sexo na era vitoriana. A morte não pertence mais à pessoa, tira-se sua responsabilidade e depois sua consciência. A sociedade atual expulsou a morte para proteger a vida. Não há mais sinais de que uma morte ocorreu. O grande valor do século é o de dar a impressão que “nada mudou”, a morte não deve ser percebida. A morte boa atual é a que era mais temida na Antiguidade, a morte repentina, não percebida. A morte “boa” é aquela que não se sabe se o sujeito morreu ou não.

Dona Morte, a Turma da Mônica de Maurício de Sousa - divulgaçãoO “lugar de morrer” foi transferido para o hospital tirando-o do alcance dos olhos da sociedade, incluindo-se ai as crianças. Dentro dos hospitais o rastro da morte é silenciado de tal forma que tudo o que se quer após uma ocasião a ela ligada é esquecer e fingir que nada aconteceu.

A criança em processo de formação de significações não tem acesso a vivências que permitam uma devida elaboração de seus conceitos de morte, de perda e de dor já que situações referentes a isso são sempre evitadas e disfarçadas. Elas encontram, portanto o pacto de silêncio que a sociedade constitui em torno de assuntos considerados desagradáveis. Como a criança é o reflexo dessa sociedade, a menos que seja trabalhada também terá dificuldades para lidar com a finitude.

Com a “invenção da infância” (ARIÈS, 1977), surgiu uma tendência a separar o mundo dos adultos do mundo das crianças. A infância como a conhecemos tem sua gênese na tomada do poder pela burguesia simbolizada pela revolução francesa.

Os valores burgueses repassados em doutrina ideologicas implícitas pelas escolas, a diminuição do número de filhos e a nuclearização da família em torno dos mesmos, como conseqüência da urbanização, deu origem a infância como a conhecemos hoje: um templo isolado onde qualquer evidência da realidade considerada dura demais é logo afastada. Áries aponta que

Na Idade Média a educação das crianças era garantida pela aprendizagem junto aos adultos e a partir de sete anos, as crianças viviam com uma outra família que não a sua. Dessa época em diante ao contrário a educação passou a ser fornecida cada vez mais pela escola. A escola deixou de ser reservada aos clérigos para se tornar o instrumento normal da iniciação social. (1981, p. 84)

Apresentou-se nesse novo contexto a necessidade de isolar a juventude do “mundo sujo dos adultos” mantendo-os na inocência primitiva. A concentração da família em torno das crianças ficou em evidência bem como o sentimento de infância. Devido a essa proteção da qual se passou a fazer uso, as crianças tornam-se ainda mais suscetíveis ao sofrimento e medo diante da morte visto que são resguardadas de qualquer contato prévio com assuntos que a ela fazem referencias, que são “assunto de gente grande”.

Antes ela adquiria seu conhecimento para lidar com o mundo bem como seus valores morais pelo contato direto com os adultos, do cotidiano com a família e dos espaços coletivos da sociedade, tinha consciência do “morrer” e ao longo do seu desenvolvimento cognitivo elaborava esse conceitos com base em experiências concretas.

Para a sociedade moderna contemporânea, a morte está sendo transformada numa representação externa a nosso eu (e pouco importa aqui que esta seja uma representação banalizada ou não). Nas sociedades pré-modernas, as pessoas sofriam, sentiam e refletiam sobre a própria morte, na ocasião da morte dos outros; então todo mundo tinha intimidade com a morte, ninguém precisava de uma representação simbólica para saber de que se tratava. (LEIS, 1999)

Sendo assim, a partir do contato direto com a experiência alheia podia-se vir a elaborar a sua própria. Não era muito difícil, por exemplo, que crianças fossem levadas ao leito de morte ou fossem a enterros, situações que atualmente não são muito comuns. Hoje apesar de ter contato com ela em desenhos, filmes violentos ou noticiários de jornal não realiza essa realidade como próxima, ela se limita à fantasia televisiva.

As crianças constroem seu conceito de morte juntamente com o desenvolvimento cognitivo. Ao longo desse processo vão introjetam características que parecem ser inerentes à morte. São três dimensões indissociáveis: Irreversibilidade, não-funcionalidade e universalidade (TORRES, 1999).

A irreversibilidade segundo Torres (1999) diz respeito à compreensão de que o corpo físico não pode viver depois da morte, ou seja, uma vez que se morre não se pode voltar a viver. A não-funcionalidade corresponderia ao entendimento de que todas as funções definidoras da vida cessam com a morte. A universalidade refere-se à compreensão de que tudo o que é vivo morre.

Torres (1980) apud Nagy (1948), defende que a criança de até cinco anos não entende a irreversibilidade da morte e a tem como temporária. Não possui a noção de não-funcionalidade também atribuindo vida e consciência ao morto. Nessa fase o animismo infantil (que dá vida ao sol, aos brinquedos, etc…) acaba por impossibilitar a compreensão da morte de fato.

A Morte de Clotilde de VauxNo período que vai de três a cinco anos, segundo Vendruscolo (2005), quando frente à situações de morte já ocorrem questionamentos e devido a seu egocentrismo podem inclusive associar algum ato seu como causador da morte da qual teriam sido responsáveis de alguma forma. Nesse período a diferenciação entre vivos e mortos se dá basicamente pelo padrão de mobilidade. O que “se move” está vivo, o que “não se move” está morto.

Existe muita correlação entre o sono e morte nessa fase, tanto que alguns eufemismos utilizados para comunicar a morte de alguém para a criança como “vovô está dormindo”, por exemplo, podem confundi-la e eventualmente deixá-la com medo de dormir ou mesmo podem levá-la a querer “dormir” para encontrar quem morreu. Ainda não há a noção de “irreversibilidade”.

Sobre a criança de cinco a nove anos, Nagy (1948) citado por Torres (1999) afirma que ela já a entende como irreversível mas não como inevitável tendo uma forte tendência a personificá-la. Acima de nove anos há o entendimento da morte como cessação das atividades do corpo e como inevitável. Através da compreensão dessa universalidade começa a entender que ela mesma está suscetível.

A perda de algo seja real ou simbolicamente leva sempre a um processo de elaboração dessa perda, processo esse chamado luto, o qual pode dar-se sob diferentes formas e intensidade.

Ao se falar de morte, inevitavelmente, o tema nos conduz ao processo do luto, que se refere ao conjunto de reações diante de uma perda. Lembramos que existem mortes e processos de luto por ausências, separações e vivência de desamparo. O processo de luto se dará diferentemente. Quanto maior o investimento afetivo, tanto maior a energia necessária para o desligamento. (TEIXEIRA,2003)

Observa-se que o impacto mediante situações que envolvam perdas como morte ou doença dos pais e mesmo a criança que se encontra doente é maior, embora dependendo do estágio cognitivo e histórico de vida possa manifestar-se de diferentes formas.
Mesmo diante da reação específica que pode vir a ser apresentada notam-se certos padrões comuns de reação descritas por Torres (1999) quando cita Bowlby (1984) se refere à três fases principais do luto infantil.

A primeira fase do “protesto” quando a criança não acredita que a pessoa esteja morta e tenta reavê-la. Ela chora, se agita e a procura nos lugares onde normalmente estaria. Há a fase do desespero e desorganização da personalidade, quando ela começa a aceitar a perda. Embora não tenha sua angustia diminuída a esperança de recuperar o que perdeu se dispersa. De agressiva pode vir a ficar apática e retraída. Na terceira fase, fase da esperança, ela começa a buscar novas relações reorganizando sua vida sem a presença da pessoa morta.

Mentir para a criança ou ocultar-lhe fatos importantes podem, portanto, atrapalhar o seu processo de luto e re-elaboração da afetividade que outrora investia naquela pessoa. Nos casos da criança doente o luto é pelo “corpo” bem como seu cotidiano até então. Sem saber com a clareza adequada ao seu estágio de desenvolvimento o que está acontecendo, o processo de desligamento pelo qual todos nós temos que passar ao perder algo importante fica prejudicado bem como nossa qualidade de vida.

Morrer, envelhecer, ficar doente não são metas de vida, mas tudo o que é vivo está sujeito a perecer. Esse aspecto indissociável de nossa existência é negligenciado e contato com a morte se dá de forma velada e distanciada tanto quanto possível, colocando essa “fatalidade” como uma realidade muito distante e nos dando uma ilusão de imortalidade.

Toda criança absorve os valores que sua cultura pelo contato com as pessoas que a cercam, porém, em relação aos temas que são tabus em nossa sociedade, como a morte e o sexo, por exemplo, ela não encontra esclarecimento suficientes para suas dúvidas. Ela passa por perdas simbólicas, sente frustrações, mas essa perda permanente da qual até os adultos, suas figuras de referência demonstram incômodo ainda se mostra uma incógnita que mais tarde irá lhe trazer a mesma aversão.

É importante conversar abertamente e de forma adequada a seu nível cognitivo não apenas em casos onde ela realmente perde alguém, a consciência sobre a sua própria finitude e a naturalidade diante da morte, dada a sua inevitabilidade devem fazer parte de sua formação

ARIÉS, P. História social da criança e da família, 2ª edição. Rio de Janeiro: LTC (Livros Técnicos e Científicos Editora S.A.); 1981

KOVÁCKS, MJ. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo; 1992.

TORRES, WC. A criança diante da morte: desafios. São Paulo: Casa do Psicólogo;1999.

LEIS, HR. A sociedade dos vivos. Trabalho apresentado na Mesa Redonda “Temas e Polêmicas da Sociologia Contemporânea”, IX Congresso Brasileiro de Sociologia, SBS. Porto Alegre; 1999.

VENDRUSCOLO, J. Visão da criança sobre a morte. Medicina (Ribeirão Preto) 2005; 38 (1): 26-33.

TEIXEIRA, C. M. F. S. – A criança diante da morte. Revista da UFG, Vol. 5, No. 2, dez 2003 on line.

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Maternidade Responsável: um enfoque psicanalítico

maternidade5Pertence à mulher uma das tarefas mais importantes de uma sociedade: gerar outro ser humano. Segundo a Psicanálise, essa é, porém, apenas uma parte do dever materno, que se inicia na gestação do bebê e se estende à segunda infância da criança – aproximadamente aos 5 anos de idade.

Winnicott (1896–1971) conceitua como maternagem os cuidados dispensados ao bebê pela mãe ou cuidadora deste. Segundo o autor, o bebê não existe sozinho – ele é parte de uma relação, que, além de abrangê-lo, engloba sua cuidadora. Esta deverá criar um ambiente facilitador para que o desenvolvimento psíquico da criança seja saudável.

Todos os fatos que ocorrem no período de vida intra-uterina e também o trauma do nascimento são registrados inconscientemente pelo sujeito que está sendo gerado. Por exemplo, o feto pode vir a sofrer frente à angústia ou ansiedade da mãe e tentar, como mecanismo de defesa, diminuir esse sofrimento através de movimentações hiperativas de seu corpo ou de diminuição de suas atividades motoras. Essas vivências intra-uterinas influenciarão sua personalidade e seus comportamentos na vida pós-natal.

Após o nascimento, a relação mãe-bebê é de dependência absoluta: o recém-nascido precisa de sua cuidadora para alimentá-lo, para vesti-lo, para nomear suas sensações e os objetos de seu mundo externo. Esse vínculo forma o alicerce para o seu desenvolvimento psíquico, fazendo com que seu frágil ego seja amparado pelo ego materno e se fortaleça.

É a partir da organização psíquica desenvolvida nessa relação, que o bebê conquistará sua capacidade de se relacionar. A qualidade do amor materno– e não a quantidade – determinará, portanto, a qualidade de todas as relações do indivíduo quando ele se desligar da mãe: amor em excesso e possessivo pode gerar dependência, insegurança e incapacidade desse sujeito em lidar com frustrações. Negligência e rejeição podem, por outro lado, provocar sérias angústias, necessidade exagerada de amor e sentimentos de agressividade, culpa e depressão.

Segundo Neumann, “Existem mães cuja genuína capacidade de amar é subdesenvolvida, atrofiada ou envenenada e que, como compensação de sua anti-realização, arremessam-se sobre seus filhos não para lhes dar excesso de amor, mas para preencher seu próprio vazio através do filho”. A mãe que vê o filho como única saída para dar vazão a seus sentimentos pode, por exemplo, mimá-lo excessivamente e, muitas vezes, impedir seu crescimento, por medo de que se torne independente dela. Em contrapartida, a gravidez na adolescência, a gravidez indesejada ou a visão de que os cuidados com os filhos são uma árdua tarefa e cerceiam sua liberdade são algumas das possíveis razões para a negligência materna.

A maternidade responsável, portanto, deve proporcionar ao feto e, posteriormente, ao bebê um vínculo afetivo sadio, garantindo a satisfação de suas necessidades fisiológicas e afetivas. Deve também evoluir para um processo gradual de independência emocional, que gerará confiança na criança e facilitará seu crescimento psíquico, para que possa, posteriormente, suportar-se sozinha e evoluir para a maturidade e autonomia.

Fernanda A. Linhares Guimarães – Psicóloga – CRP:06/90599

Rua Arnaldo Ricardo Monteiro, 71 – São José dos Campos-SP

tel:12-39414392 – fernanda.algs@hotmail.com

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Psicanálise Infantil: nuances do atendimento à criança com necessidades especiais

sindrome[1]A prática clínica infantil constitui-se em grandes desafios para o psicanalista. Embora a Psicanálise seja a clínica do sujeito, a clínica com crianças nos coloca frente a algumas questões relevantes. Receber uma criança para tratamento já nos coloca diante da interrogação: de quem se trata, quando se trata de uma criança?

Há que se considerar a relação de transferência, fundamental num processo analítico, atravessada por algumas especificidades que são diferentes para o sujeito adulto. A demanda, comumente, não nos chega enquanto demanda da criança, mas do casal parental, de um técnico ou de uma Instituição. Sendo necessário que haja um desdobramento transferencial para possibilitar o surgimento da demanda da criança.

É preciso lembrar que estamos diante de um corpo-sujeito em processo de formação biológico e psico-estrutural (necessariamente não correspondentes), atravessado por uma multiplicidade de saberes a ele destinado, quais sejam: a Pediatria, a Pedagogia, a Psicologia, entre tantos outros das áreas de Saúde e de Educação; existe uma demanda social estabelecida. Os clichês de normalidade já estão montados quanto aos ideais de desenvolvimento, enquadrando como patologias ou desvios os indivíduos fora dessa ordem preestabelecida, obturando exatamente a possibilidade de subjetivação desse corpo sujeito em formação.

Considerando esse contexto social e de desenvolvimento humano, peculiar a condição e de ser da criança, o desafio é ainda maior em se identificar e sustentar a demanda quando o atendimento é solicitado para um portador de necessidades especiais. É recorrente que os pais tragam a criança, em seu discurso, como um objeto real, excluída de sua subjetividade.  Também é frequente buscarem o atendimento infantil, ainda, tomados pelo lamento ou angústia sobre a perda do filho “ideal”, aderidos à marca real no corpo de seu filho; perdidos em sua função tutelar, buscando orientações em como proceder.

Nesse sentido, já fica explicita uma demanda do par parental, e a existência implícita ao atendimento infantil, de que há um luto a ser trabalhado e elaborado pelo grupo familiar. Há uma tentativa de recobrir a falta, há um pedido de algo seja curado, retirado. Como manejar com o pedido dos pais de homogeneizar a heterogeneidade do pequeno sujeito em formação?

O bebê humano nasce em condições precoces, inscreve-se na cultura sempre pela via do desejo de “um” outro, é Desejo de Desejo; a linguagem incide sobre o corpo engendrando as pulsões. A criança não traz inscrito no corpo nenhum sistema ou código que lhe defina com o que acalmar seu mal estar. A priori é um feixe pulsional fragmentado e é uma ação psíquica de fora, ou seja, os significantes da mãe, ou de quem ocupe esse lugar, que age sobre ela na tentativa de responder às suas insatisfações (JERUSALINSKY, 1989).

 No plano imaginário, um bebê é engendrado para obturar a falta, ser o falo da mãe. O investimento narcísico de uma mãe faz de sua criança o resumo de suas idealizações, mesmo não o sendo. O nome do pai precisa fazer-se presente, operando enquanto barra ao gozo da simbiose mãe e filho. A função paterna em alguma medida vai ser falha, visto que, a demanda imaginária que ela engendra é total e a resposta possível é sempre parcial.

O filho desejado, idealizado, é incompleto.  Qualquer humano ao nascer o que traz em termos constitucionais é a atividade reflexa com expressões do tônus muscular; existindo assim no nascimento a dimensão de um luto, o filho, obturador da falta é faltante. Essa dimensão de luto se agrava, quando essa criança traz no corpo algum impedimento de conferir aos pais a ilusão de resposta esperada; devolver ao retorno do investimento libidinal feito sobre o mesmo.

Acolher ao discurso dos pais é a abertura para que um processo possa ser constituir. Sustentar a relação transferencial com esses é a condição de assegurar, pelo menos um espaço para que a criança possa advir. É a possibilidade de fazer emergir o lugar desse filho no mito familiar. “O sintoma da criança se encontra no lugar de responder àquilo que há de sintomático na estrutura familiar” (Lacan 1998).

Um filho ao ser desejado e idealizado vem com a “missão” impossível de preencher um lugar, atender a suposição de que há um objeto apaziguador que recobre a falta. Visto que, o objeto adequado não existe e é como faltante que um sujeito se constitui, é preciso que haja uma queda desse lugar idealizado viabilizando o pequeno ser a construir as próprias respostas, escapando do lugar a ele destinado no desejo do mito familiar.

O casal parental procura tratamento para seu filho com uma demanda recoberta pela prevalência do imaginário. Eles vêem queixar-se de alguma coisa. “O sintoma, eis o fato fundamental da experiência analítica, se define nesse contexto como representante da verdade” (Lacan, 1998). Há que se possibilitar de que possam se utilizar da linguagem e depositar, pela via da transferência, seu “mal estar” no sujeito suposto saber, eleito por eles para o tratamento de seu filho.

O desdobramento da fala dos pais constitui-se em campo aberto para o deciframento da verdade desse par no projeto a que foi destinado esse filho. “O sintoma pode representar a verdade do casal. Aí está o caso mais complexo, mas também o mais aberto às intervenções” (Lacan, 1998). Qual a verdade do casal que o sintoma da criança oculta?

Quando a criança nasce com qualquer indicativo orgânico que a impede de responder as expectativas imaginárias dos pais, o embotamento da verdade da estrutura familiar torna-se mais mistificado ainda e com maior resistência a sua decifração. Uma vez que há dificuldade de um reconhecimento narcísico e, conseqüentemente de investimento libidinal.

É inevitável que haja certo impasse nesse contexto, não se trata de negar a realidade dos fatos. Porém, é preciso que o analista atente para esse embotamento e que não se coloque também aderido a essa demanda imaginária da impossibilidade orgânica da criança. “O sintoma somático dá a máxima garantia a esse desconhecimento; ele é o recurso inesgotável conforme os casos, a testemunhar culpabilidade, a servir de feitiço, a encarnar uma primordial recusa” (Lacan, 1998).

Outra questão peculiar nesses casos, testemunha da recusa, e da vacilação da parceria, é um dos pares se ausentar da cena e deixar a cargo apenas de um, a procura incessante por diversos profissionais “da infância” na busca da cura do incurável. É importante intervir acolhendo a quem vier fazer-se cargo dessa função e convocar o genitor ausente a vir depor sua queixa, falar de seu luto e colocar-se a trabalhar a sua própria decifração.

Muitas são as nuances que se apresentam na clínica infantil. O mito da estrutura familiar se reedita não apenas no casal que representa a criança, mas ainda pertinente ao mito das gerações passadas na família de cada genitor em particular.  No infantil que repercute na estruturação desses sujeitos que agora respondem pela continuidade do romance familiar.

Sustentar a demanda dos pais é importante, tem sua função, mas segue até o limite que viabilize a escuta da criança. Faz-se necessário preservar o espaço próprio para a análise da criança, na medida em que ela suporte o corte e a ausência dos pais da cena. Atentando para a singularidade de cada situação, às vezes, para que a escuta continue profícua, é preciso encaminhar os pais para o próprio tratamento, fato que favorece a separação e a análise da criança.

Refletir a clínica psicanalítica com crianças é aprender e produzir na singularidade de cada caso. Nessa medida é recorrer à experiência própria que fundamenta a psicanálise, a experiência do inconsciente do sujeito aprisionado em sua verdade, uma verdade da qual ele nada quer saber e menos ainda se haver com ela. Em se tratando da criança, é sempre ameaçador o encontro desse pequeno sujeito com sua verdade diluída no mito familiar.

Cito a poeta Lya Luft:

Fruto de enganos ou de amor,
Nasço de minha própria contradição.
O contorno da boca,
A forma da mão, o jeito de andar
(sonhos e temores incluídos)
Virão desses que me formaram.
Mas o que eu traçar no espelho
Há que se armar também
Segundo o meu desejo.
Terei meu par de asas
Cujo vôo se levanta desses
Que me dão a sombra onde eu cresço
– como, debaixo da árvore,
Um caule
E sua flor.

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2. Ed. Rio de janeiro: LTC, 2006.

CAZENAVE, Liliana. “O que cura o psicanalista nas crianças” in: A criança no discurso Analítico. Rio e Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1991.

FERNANDEZ, Alícia. A inteligência aprisionada, abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. Tradução: Iara Rodrigues. 2ed. Porto Alegre: Artes médicas, 1991.

JERUSALINSKY, Alfredo. Psicanálise e desenvolvimento infantil. Porto Alegre: Artes médicas, 1989.

LACAN Jacques. Duas notas sobre a criança. In: Opção Lacaniana, nº 21/ Abril 1998.

MILLER, Jacques-Alan. A criança entre a mulher e a mãe. In: Opção Lacaniana, nº 21/ Abril 1998.

RODOLFO, Ricardo. O brincar e o significante: um estudo psicanalítico sobre a constituição precoce. Tradução de Francisco Franke Settineri. Porto Alegre: Artes médicas, 1990.

O Lado Obscuro da Paternidade: Pais que Intencionalmente Matam seus Filhos

386-500x359O amor paternal é um dado inquestionável em nossa sociedade. Acredita-se que os pais amam e veneram seus filhos acima de qualquer coisa, evitando, assim, muitas vezes pensar na violência familiar, que é parte inerente de nossas vidas e esteve presente desde os tempos mais remotos. Por mais que temos a certeza de que a violência é comum com crianças, negamos falar sobre estes assuntos, e evitamos ainda mais falar ou pensar na morte de um filho. E quando esta morte é praticada pelo próprio pai é como se todos os sonhos e perspectivas futuras fossem esvaídos. Desta forma, este artigo tem o objetivo de investigar e analisar os aspectos envolvidos em pais que intencionalmente mataram seus filhos. A pesquisa foi realizada por meio da entrevista psicanalítica na modalidade de estudo de caso, com um pai que ateou fogo em sua própria casa, matando três de seus filhos. O método utilizado para a interpretação dos dados foi o psicanalítico, no qual o objeto de pesquisa e o pesquisador são formados no próprio ato de pesquisa, e não se considera hipóteses prévias ou etapas predefinidas. Com esta pesquisa se pode perceber que, apesar do pai estar envolvido no assassinato dos filhos, este nega o crime, mesmo havendo evidências e condenação para tal. Constatou-se nessa pesquisa que apesar do pai considerar o filho como tudo em sua vida, ele coloca fim a esse tudo e as expectativas e desejos futuros em relação ao filho. Nesta perspectiva, torna-se fundamental o estudo sobre o filicídio e os aspectos envolvidos na relação parental.

Palavras-chaves: Filicídio, Assassinato de um filho, Morte.

1. Introdução

Desde os primórdios, formar uma família era fundamental para a perpetuação da espécie. Assim como no reino animal, o principal intuito consistia no equilíbrio da natureza e, na passagem geracional de pais para filhos, o núcleo familiar era visto como o primeiro local no qual a criança era inserida, onde seria amada e cuidada incondicionalmente. Isso se torna comum também em nossa sociedade atual, visto que se tornar pai é um papel produzido socialmente, já que existe uma crença de que as pessoas devem ter filhos e passar os ensinamentos de geração para geração. Nesta perspectiva, tudo o que nos é dado é herdado, e deve ser passado adiante.

A ideia de família ideal nos é dada desde o nascimento, em que, segundo as leis e normas estabelecidas social e religiosamente, esta deveria ser formada por duas pessoas, e que de seu amor surgisse um novo ser, para que mais tarde este possa dar continuidade ao ciclo geracional. Observam-se estes fatos como uma forma de organização social, sobretudo como uma forma para a manutenção dos valores instituídos moralmente. O ciclo geracional é estabelecido e idealizado como um elemento de organização social, como uma forma de dar continuidade à transmissão de culturas, costumes, formas de como se relacionar, de criar os filhos, de mensagens preestabelecidas.

Roudinesco (2003) enfatiza que, apesar de observarmos mudanças importantes na estrutura familiar, a família contemporânea, em sua dimensão e em redes, não se mantém apenas como estrutura organizadora e segura para seus membros, mas também se constitui em um espaço fundamental para a troca afetiva e a transmissão simbólica. “A família é único valor seguro ao qual ninguém quer renunciar.” (ROUDINESCO, 2003, p. 198).

A família não é um grupo apenas natural, mas também cultural. Dolto (1996) afirma que ela constitui antes uma estruturação psíquica, na qual cada um de seus membros ocupa um lugar, uma função. Ser pai e ser mãe na ótica psicanalítica não implica apenas paternidade biológica, demanda, também, sentimentos e atitudes de adoção que decorrem do desejo pelo filho. A forma que se organizam as funções maternas e paternas são um conjunto de fatores conscientes e inconscientes, e estas funções vão além do cumprimento de tarefas, são estabelecidas culturalmente e devem ser exercidas pelo casal, como cuidados, educação, amor incondicional.

Conforme Eizirik (2001), tornar-se pai e mãe é um dos acontecimentos mais marcantes no ciclo de vida de qualquer indivíduo, já que ocorrem profundas alterações na personalidade do sujeito. Segundo Lebovici (1987), o processo de filiação se inicia antes do nascimento do bebê, a partir da transmissão consciente e inconsciente da história infantil dos pais, de seus conflitos inconscientes, da relação com seus próprios pais, que colorem sua própria representação sobre a parentalidade. O desejo de ter um filho reatualiza às fantasias de sua própria infância e do tipo de cuidado parental que puderam ter, assim como as representações parentais sobre o bebê se iniciam muito antes do seu nascimento.

O pai, que segundo a psicanálise desempenha um papel estruturante, é visto como a possibilidade da criança investir no mundo real. A necessidade da figura paterna ganha contornos no processo de desenvolvimento, de acordo com a etapa da infância. Apesar da fundamental importância em relação ao tornar-se pai, o homem tende a ficar tênue frente à responsabilidade, pois esta implica a mudança entre a infância e a vida adulta, o filho transforma a vida do pai, fazendo com que este se torne objeto de identificação para o filho, carecendo a ele razões para tal identificação, enquanto a mãe responsabiliza-se pelos cuidados maternais (ABERASTURY, 1991).

Bornholdt e Wagner (2005) apontam que o pai desde o início da gestação desempenha um papel diferenciado se comparado ao papel materno; a gravidez acarreta para o pai uma gama de processos psicológicos. Estes por sua vez influenciam desde sua relação conjugal até o vínculo que o pai estabelecerá com seu filho. Sendo assim, tornar-se pai é algo além do procriar, é implicar-se de forma significativa no processo da paternidade.

A concepção de filhos caracteriza-se como um momento marcante da vida das pessoas. No entanto, junto com ela instaura-se o desejo e a ideia de que os filhos não devem morrer antes dos pais; nesta perspectiva, a morte de um filho causa uma ruptura na continuidade da linha geracional. Como afirmam Carter e McGoldrick (1995), perder alguém que amamos causa muita dor, mas perder um filho é inexplicável, uma vez que a maioria dos pais vê os filhos como extensões de suas esperanças e sonhos de vida.

Klaus e Kennel (1992, p. 21) relatam que “[…] na vida de cada pessoa, grande parte da alegria e da tristeza gira em torno de ligações de relacionamentos afetivos – estabelecendo-os, rompendo-os, preparando-se para eles e ajustando-se à sua perda pela morte.”

E o que dizer quando esta ruptura é causada pelo próprio pai que mata intencionalmente seu filho? Qual o significado da paternidade nesses casos? Quais os aspectos emocionais envolvidos?

Pensar no rompimento de uma vida causado pelo próprio pai é incabível. A negação sobre o filicídio é mostrada, segundo Rascovsky (1973, p. 30), no próprio uso do termo, que não é utilizado pela legislação penal brasileira, pois aparece como homicídio ou infanticídio, explicando que isto “[…] conota a intensidade da defesa universal diante da revelação linguística de um fato, e decreta o desterro da palavra filicídio como se fosse um tabu.”

Não existe uma palavra que nomeie a quem tenha matado intencionalmente seu próprio filho, pois este comportamento vai contra as leis e normas estabelecidas moral e socialmente. O tema se trata de um tabu, que se relaciona com comportamentos inaceitáveis, proibidos e impensáveis, talvez não possui termo específico para afastar a ideia de que é um fato presente em nossa sociedade, evitando-se, assim, que ocorra o que é temido.

Sófocles (2005), em sua obra Édipo Rei, escrita em 427 a.C., relata que antes do desejo de parricídio a tentativa de filicídio estava presente. Nesta obra podemos compreender de forma clara e cruel o que um pai insatisfeito com a ideia de conceber um filho é capaz de realizar: Laio, o rei de Tebas, não acreditou que teria um filho com Jocasta, logo se arrependeu do que havia feito e abandonou a criança em uma montanha com os tornozelos furados para que morresse. No entanto, o menino não morreu, e foi encontrado por pastores que o criaram; já adulto, Édipo procurou o oráculo para saber seu destino, e este consistia em matar o pai e se casar com a mãe.

O assassinato dos filhos é um comportamento menos raro do que se deseja imaginar, é encontrado nos diversos grupos, mas é negado, pois faz parte do asco social, porém a datar da mitologia estas práticas de assassinato aos filhos eram perpetradas e fundaram a cultura, pois descrevem a maneira de se relacionar com a deidade. Na mitologia grega, por exemplo, Medeia mata seus dois filhos como forma de retaliação a Jasão, seu cônjuge traidor. Atualmente, é muito complexo e inadmissível compreender que a grande deusa fosse venerada não apenas como a mãe que ama, protege e alimenta, mas também como a destruidora dessa vida, como um poder mórbido que age com destruição. No entanto, na antiguidade defendiam a ideia de que como a mãe que da vida, ela é também capaz de tirar. Eurípedes (1991, p. 63) coloca estes termos nas palavras de Medeia. “Seja como for, perecerão! Ora: se a morte é inevitável, eu mesma, que lhes dei a vida, os matarei!”

Este ato escrupuloso é também identificado na narrativa em que se apresenta o mito de Cronos. Este era filho de Urano e Geia, e cada vez que Geia dava a luz a um filho o pai devolvia-o ao seu ventre. Cansada disto, Geia tramou com seu filho Cronos a morte de Urano por meio da castração, atirando a genitália ao mar, de onde brotou Afrodite. Ocupando o lugar do pai, Cronos casou-se com sua irmã, tornando-se o primeiro rei e tendo seis filhos. Temendo que futuramente seus filhos o destronassem, como o fizera com o pai, Cronos devorava-os ao nascer. Escapando da morte e crescendo, Zeus, filho de Cronos, forçou o pai a vomitar a pedra e seus irmãos, e o destronou (GRIMAL, 1992).

No mito proposto por Freud (1913), o pai totêmico, por seu poder, parecia-se com um deus; este tudo podia, possuía todas as mulheres, enquanto por outro lado seus filhos sentiam-se oprimidos e privados, não tinham acesso a nada, viviam em completa escuridão se comparados ao pai visto como o poderoso. Alimentados por estes sentimentos, os filhos sentiam ódio pela supressão do pai, mas, ao mesmo tempo, manifestavam profundo amor e admiração além do desejo de ocupar o lugar exercido pelo pai totêmico. Tomados pelo ódio, os filhos assassinam o pai e o devoram, buscando absorver seu poder. O pai que tanto amavam fora morto por eles, então surge à culpa, originando o complexo de Édipo, onde os filhos perceberam o que haviam cometido, e iniciaram a briga entre si para decidir quem ficaria no poder. Uma nova lei foi necessária, já que o totêmico fora morto. Enriquez (1990, p. 34) escreve: “[…] a civilização não somente se inicia com o crime, mas se mantém através dele. Mesmo quando o crime real é suspenso, ele permanece admissível.”

Em Totem e tabu (1913), Freud caracteriza a horda primitiva como constituída por um pai todo-poderoso e submetedor, da mesma forma que as histórias mitológicas e as diversas fontes encontradas nos mostram os sentimentos hostis presentes atual ou antigamente, e a violência que todo pai exerce sobre seu filho.

Para Freud (1913), esse ato criminoso seria o exórdio da organização social, em função do ocorrido: a ambivalência emocional dos filhos com o pai satisfaz um de seus polos ao assassiná-lo o ódio, e o amor advém sob a forma de remorso e culpa. Para aplacar este sentimento que os filhos interditam a morte do substituto do totem e renunciam às mulheres, instituem o incesto, salvaguardam a organização que os fortaleceu. Freud (1913) afirma que a lei do pai se tornou mais forte e eficaz após seu assassinato, pois foi internalizada por cada membro da horda. O pai morto se torna símbolo de uma proibição, restrição, e abre o sujeito para o desejo do objeto.

Corroborando, Winnicott (1975) afirma que criamos um filho para ser suplantado por ele, para invejá-lo na sua juventude, força e potencialidades, para que demonstre definitivamente a inexorável marca da passagem do tempo. Winnicott (1998) aponta, ao examinar o ódio inconsciente reprimido dos pais em relação às crianças, que os pais amam e odeiam naturalmente seus filhos, e as razões para que o ódio exista são muitas, afirmando ainda ser inerente a inclusão de um bebê dentro de uma família. O ódio inconsciente e reprimido dos pais refere-se a chegada de um bebê (um terceiro) na matriz preexistente do casal, criando, assim, um novo triângulo, ou signo de relações edípicas. Este novo arranjo desperta dificuldades até então adormecidas, e ativa forças de amor e ódio (SEEWALD et al., 2004).

Nesta perspectiva, Freud (1920), sobre as pulsões de vida e de morte[01], afirma que o homem seria alguém dotado constitucionalmente da capacidade de amar e de odiar. O ódio é ainda mais antigo que o amor, postula o autor. Montgomery (1992) cita que no psiquismo dos pais estão em jogo conflitos relacionados a sensações de vida e de morte na medida em que filhos têm vários significados na vida dos pais:

[…] vida na medida em que filho significa: situações de perpetuação, renascimento, encontro, movimento, aprendizado, energia, aventura e sentimentos de beleza, poesia, esperança, coragem, prazer, confiança, alegria, ousadia, transcendência, amor […] Morte na medida em que filho representa situações de perda de liberdade, comodidade, posição infantil, irresponsabilidade e sentimentos de ambivalência, insegurança, dúvida, medo, frustração, ódio (MONTGOMERY, 1992, p. 23).

Existe em diversos animais – e não somos exceção nesse aspecto – uma prontidão para agredir e destruir, para remover qualquer tipo de obstáculo desde que a relação custo/benefício compense. Mezan (1982) comenta esse destaque dado à agressividade,

[…] a violência. Este é o referencial para pensar todos os conceitos desta quarta fase da obra de Freud […] A pulsão de morte é violência contra o sujeito e o outro, sob a forma de agressividade; o superego é violência introjetada pela violência da cultura; o id é violência pela sua índole passional; o conflito defensivo é violência pelo controle do ego; a castração é violência pela mutilação psíquica, quando não física, que acarreta […]. (MEZAN, 1982, p. 326)

Freud (1930, p. 134) afirma que “[…] chega à hora em que cada um de nós tem de abandonar, como sendo ilusões, as esperanças que, na juventude, depositou em seus semelhantes, e aprende quanta dificuldade e sofrimento foram acrescentados à sua vida pela má vontade deles.”

Em seu livro O mal-estar da civilização, Freud (1930) argumenta que a explicação para isto adviria da existência de uma pulsão de morte nos seres humanos, que poderia ser “[…] desviada no sentido do mundo externo e vem à luz como um instinto de agressividade e destrutividade [e] qualquer restrição dessa agressividade dirigida para fora estaria fadada a aumentar a autodestruição.” (FREUD, 1930, p. 141). Ele relata na mesma obra a existência de resistências a esta teoria e as explica dizendo que “[…] as criancinhas não gostam quando se fala na inata inclinação humana para a ‘ruindade’, a agressividade e a destrutividade, e também para a crueldade.” (FREUD, 1930, p. 142). Freud, no capítulo V de sua obra, diz que dotes instintivos se deve levar em conta uma poderosa quota de agressividade.

Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. Homo homini lúpus.[02](FREUD, 1930, p. 133).

Na perspectiva materna à filiação é dada como certeza, pois o filho sai de seu interior. No entanto, para o pai, a paternidade sempre tem um espaço de dúvida. Corneau (1991) ressalta que o pai é o primeiro outro que a criança encontra fora do ventre de sua mãe, ele é indistinto ao recém-nascido, mas ao bloquear o desejo incestuoso sua figura vai se diferenciando, permitindo o nascimento da interioridade do filho; “o pai encarna inicialmente a não mãe e dá forma a tudo que não seja ela”.

O pai sente-se, de acordo com Pincus e Dare (1987), excluído porque terá de lutar com o sentimento de perda até que a família possa encontrar um lugar para ele, criando um novo relacionamento a três. Isso ocorre porque, para o homem, o medo maior de perder sua mulher pode ser, de fato, o temor de perder a exclusividade do amor. Ao mesmo tempo que o nascimento de uma criança traz consigo expectativas de que possa reparar falhas da história parental, provoca também uma ruptura no equilíbrio do casal, pois é comum que o pai se sinta excluído da relação entre mãe-bebê e veja este como rival, reativando a própria vivência infantil de se sentir excluído da relação dos pais.

Freud (1914), em Sobre o narcisismo[03], afirma que a consciência emergente do bebê quanto à dependência física dos pais acarreta seu primeiro amor, que é dirigido à mulher que o alimenta e ao homem que o protege. O reconhecimento que a criança desenvolve a respeito do controle dos pais sobre suas necessidades e desejos também transforma a possível perda do amor parental em uma perspectiva assustadora. Ele nos fala ainda que o amor dos pais pelos filhos é o narcisismo destes renascido e transformado em amor objetal. Ainda segundo Freud (1914), o narcisismo primário representaria, de certa forma, uma espécie de onipotência que se cria no encontro entre o narcisismo do bebê e o narcisismo dos pais. “Se prestarmos atenção à atitude de pais afetuosos para com os filhos, temos de reconhecer que ela é uma revivência e reprodução de seu próprio narcisismo, que há muito abandonaram.” (FREUD, 1914, p. 97).

O nascimento do filho desperta no homem desejos inconscientes e fantasias relacionadas à morte e a situações ligadas a resolução de conflitos parentais. “É por isso que, ainda que desejado pelo homem, feliz em ser pai, o nascimento se anuncia e é vivido num clima emocional que varia segundo o tempo e os indivíduos; cada homem reage a sua maneira.” (THIS, 1987, p. 96).

Conforme Dor (1991), o pai tem um papel muito importante no processo edipiano, pois é portador da lei de interdição do incesto, é que este personagem vai articular uma história onde todos os outros personagens entrarão em ação, como também haverá aí um ponto de extrema delicadeza em função da constituição do sujeito. Lacan (1999, p. 171) afirma que “[…] não existe a questão do Édipo quando não existe o pai, e, inversamente, falar do Édipo é introduzir como essencial a função do pai.”

Barros (2001, p. 95) pontua: “[…] o Nome-do-Pai[04] não é o patronímico, isto deve estar claro, sua dimensão é da ordem do significante, uma ordenação capaz de produzir um esvaziamento do gozo.” Nesta perspectiva, é por meio do complexo de Édipo que o psíquico irá se organizando, o sujeito se constituindo, deparando-se com o Outro e se inserindo na cultura, mediado pela função desse significante. O pai, como diz Lacan (1999, p. 174), “[…] antes de mais nada, interdita a mãe. Esse é o fundamento, o princípio do complexo de Édipo, é aí que o pai se liga à lei primordial da proibição do incesto […]”, fazendo com que o desejo da mãe seja submetido ao Nome-do-Pai e desta forma a criança deixa de ser assujeitada à mãe.

O amor parental é um dado inquestionável na nossa cultura, pelo fato que a possibilidade de um pai fazer mal ao seu filho não é geralmente considerada. Para a maioria dos indivíduos, pensar no fato de um pai tirar a vida do próprio filho evoca profundos sentimentos de repulsa, bem como faz com que a ideia de amor materno e paterno instaurada em nossa sociedade seja reavaliada, pois custamos a acreditar na premissa de que o homem é capaz de tal ato de crueldade e que o amor incondicional não se configura da forma como concebemos.

2. Método

Para pesquisar acerca do significado da paternidade e os aspectos emocionais envolvidos no assassinato de um filho pelo próprio pai, realizou-se uma pesquisa classificada como psicanalítica, no qual o objeto de pesquisa e o pesquisador são formados no próprio ato de pesquisa, não constatando hipóteses prévias ou etapas predefinidas na modalidade de estudo de caso.

Garcia-Roza (1991) pontua que na pesquisa psicanalítica se deve tratar o material deixando que o texto fale, deixando que ele nos imponha suas questões, seus furos, suas falhas, da mesma forma como fazemos com um paciente, deixando que ele diga a verdade, não impomos de forma alguma. Os dados de uma pesquisa psicanalítica que construirão seus conceitos, ou na modificação destes, “[…] não são retirados da realidade a partir da observação, mas criados com a finalidade de construir uma nova inteligibilidade […] Mais do que taparem os furos do saber existente, eles evidenciam esses furos ou criam novos.” (GARCIA-ROZA, 2000, p. 80). Segundo Corrêa e Hausen (2007): “Para a psicanálise, o pesquisador não é uma variável a ser controlada, mas, ao contrário, deve ter uma participação ativa no processo justamente para a emergência do material.”

Lo Bianco (2003) ressalta que o pesquisador deve ter uma atitude especial em relação ao material trabalhado, visto que na pesquisa psicanalítica o pesquisador não deve se manter neutro, deve-se deixar seduzir pelo texto, e ser seduzido por ele. Cabe ao pesquisador a não intrusão de seus preconceitos e aversões ao material estudado, pois desvirtuariam a pesquisa.

Este trabalho irá se desenvolver na modalidade de estudo de caso, que, segundo Ponte (1994), é caracterizado como um estudo de uma entidade bem-definida, com o objetivo de conhecer em profundidade o seu “como” e os seus “porquês”, evidenciando a sua unidade e identidade próprias.

As entrevistas foram gravadas mediante a assinatura de um termo de consentimento livre e esclarecido, que objetiva a fidedignidade dos dados e o sigilo, e posteriormente foram transcritas com integridade para a análise.

3. Apresentação e Discussão dos Resultados

Para este estudo, foram realizadas duas entrevistas com um homem que nesta pesquisa será chamado de Ravi, assim como teve-se acesso ao processo dele. Ravi foi condenado a 134 anos de prisão por atear fogo em sua residência, em que assassinou quatro crianças, e pela tentativa de assassinato de outras três. Entre as que morreram, três eram seus filhos, com as idades de um ano, dois anos e meio e três anos, a outra criança morta era seu sobrinho. No momento do crime, as crianças estavam sozinhas na residência e a mãe da família havia saído para fazer uma visita no mesmo bairro. Ravi trabalhava em uma cidade vizinha e só ia ao encontro da família nos finais de semana; no entanto, neste dia, o casal havia discutido durante o dia e o pai prometeu que colocaria fogo na casa e matar todos que ali estavam, e foi o que fez no final deste mesmo dia.

A forma como o incêndio aconteceu traz muitas dúvidas ao pai, e também à entrevistadora. Ravi, por muitas vezes na entrevista, diz ser inocente e não saber o porquê estava preso, sendo que no ato do crime houve testemunhas que o viram ateando fogo na casa e saindo em seguida. Um dos filhos que estava na casa pediu ao pai que não cometesse tal ato, e como foi um dos sobreviventes do acontecimento testemunhou contra seu pai.

[…] o crime ocorreu em uma sexta-feira, e eu estava em uma cidade vizinha, as perícias não indicaram as causas do incêndio, se foram criminosas ou não, não entendo o porquê da condenação, eu estava em outra cidade quando tudo aconteceu […].

Pensador de importância mundial, Rascovsky (1995) afirma: “Os atos de agressão e destruição total ou parcial promovidos pelos pais contra seus próprios filhos são universais e podem ser encontrados em todos os grupos sociais, tanto primitivos quanto modernos.” Ainda acrescenta: “A punição mental ou corporal, o desprezo ou abandono, a mutilação ou assassinato dos filhos, crianças ou jovens dos quais a guerra é o maior exemplo são praticados em todas as regiões do mundo.” (RASCOVSKY, 1995, p. 275).

A violência doméstica e/ou intrafamiliar contra crianças e adolescentes não é um fenômeno da contemporaneidade. Relatos de filicídios, de maus-tratos, de negligências, de abandonos, de abusos sexuais, são encontrados na mitologia ocidental, em passagens bíblicas, em rituais de iniciação ou de passagem para a idade adulta, fazendo parte da história cultural da humanidade.

Desde a origem mais remota, a nossa civilização está marcada por um conflito dramático entre pais e filhos. Esses conflitos são contados hoje em forma de mitos, como citados anteriormente[05], que formam a base da cultura ocidental e se baseiam no conflito em duas esferas: o filicídio (quando os pais matam ou maltratam os filhos); e o parricídio (quando os filhos matam ou maltratam os pais). O mito mais famoso conhecido é o de Édipo, que constitui a base da Psicanálise. Neste mito não é apenas o filho que deseja matar seu pai para tomar seu lugar, antes disso o pai deseja matar seu filho. No entanto, em nossa sociedade atual, o amor incondicional aos filhos é tido como lei universal e instintiva, assim como nos tempos primitivos, o que faz com que o ato de assassinato ao próprio filho seja, muitas vezes, ignorado, pois existe um desejo de que isso não seja real ou de que não venha a acontecer, o que faz com que tal ato seja negado e inadmissível para a sociedade, influenciando também no pensamento de quem o comete. É ignorado ao ponto dos próprios assassinos negar, como é o caso de Ravi:

“[…] ninguém iria matar seus próprios filhos, isso não é aceito.”“[…] nunca um homem ia matar seus filhos, nem os animais fazem isso.”

No mundo animal, há muitas espécies que matam suas crias como ato de seleção natural da espécie, mas este fato fere os preceitos sociais estabelecidos desde o exórdio da civilização; são poucos grupos que admitem tal fato, e quando isso ocorre trata-se de uma questão cultural. Então, por que negamos um fato existente desde o início da civilização? Por que negamos o fato no mundo animal com seres que não possuem consciência de tal ato? Negamos para afastar a ideia de existência? Ou para não negar o amor incondicional entre pais e filhos? A resposta para estas questões é justamente nossa entrada no mundo simbólico, uma concepção para além dos estudos psicanalíticos, até mesmo na antropologia a proibição ao incesto e parricídio existia, e isso é a base do mundo em que vivemos hoje, ou seja, o mundo humano, o mundo simbólico. Lévi-Strauss (1976, p. 55) afirma: “Mas não há nada mais duvidoso que esta suposta repugnância instintiva.” Lévi-Strauss considerava esta afirmação baseado no incesto, que, embora proibido pela lei e pelos costumes, existe, sendo mais frequente do que se imagina, assim como o assassinato de um filho, que, apesar de ser negado, está presente em nosso mundo simbólico. Logo, “[…] explicar a universalidade teórica da regra pela universalidade do sentimento ou da tendência é abrir um novo problema, porque o fato admitido como universal não é tal de modo algum […]” (LÉVI-STRAUSS, 1976, p. 55), pois não existe nenhuma razão para proibir aquilo que, sem proibição, não correria o risco de ser executado.

A lei natural, a lei da vida, é a de que os filhos devem enterrar os pais e sucedê-los. Nesta perspectiva, a morte de um filho rompe a ideia de continuidade geracional e imortalidade do ego, sobrevive-se a quem teria de ter nos sucedido, a linha do tempo se desvia da sua ordem habitual e, de certa forma, é como se tivéssemos superando nossa própria morte e entrando na eternidade. Nada mais pode acontecer, rompemos o limite da finitude, de transcendência sobre a morte (SEEWALD et al., 2004).

“[…] um filho é tudo na vida da gente, mas quando um filho morre a gente fica assim como eu, sem nada.”

Afirmações como esta, escutada pela entrevistadora, tomam esse sentido de quebra de linha geracional, de finitude de um ciclo de maneira não natural. Assim, podemos nos questionar: se uma criança é tudo na vida de um pai, este queria ficar sem nada a matando?

Walsh e McGoldrick (1998, p. 63) afirmam que: “Quando seus pais morrem você perde seu passado; quando os filhos morrem você perde seu futuro.” Nesta perspectiva, podemos compreender que se as crianças são o símbolo do nosso futuro, são a continuação da linha geracional, matá-las ou maltratá-las seria uma forma de destruir o amanhã, quebra-se o universo simbólico, como aconteceu no exórdio da civilização em Totem e Tabu, onde o pai que era tão amado pelos filhos foi morto por eles. Justamente por isso, com a criação da proibição, a cultura foi criada. Ou seja, fica explícito a pulsão de morte, neste caso dos pais assassinarem os próprios filhos evidencia-se a pulsão de morte voltada para o exterior, na forma de autodestruição, agressividade, destrutividade. Desta forma, questionamo-nos o que esse pai queria matando seus filhos? Ficar sem futuro? Promover a quebra da linha geracional? Superar a própria morte e eternizar-se? Estes fatos fogem dos padrões e talvez só possam ser “explicados” pela quebra do universo simbólico que permitiria este assassinato, da mesma forma como, por não viverem no simbólico, os outros animais podem fazer isso sem contrariedade.

A partir disto, cabe-nos indagar se essa forma de considerar o filho como tudo na vida de um pai é uma forma de afastar de si a culpa, ou de querer mostrar aos outros e a si mesmos a importância de ter um filho, pois, apesar de cometer o ato, o pai afirma ser inocente e amar os filhos acima de tudo, demonstrando uma grande preocupação com o que a sociedade pensa a seu respeito.

Brandão (2009) afirma que a morte de um filho é considerada a perda mais difícil, por ser um evento não normativo, porque a ordem esperada do ciclo vital é invertida: espera-se que os pais morram primeiro que os filhos, e que estes suplantem a linha geracional. Falar sobre a morte de crianças é chocante para toda a sociedade, talvez porque nos remete a pensar em nosso passado, na nossa infância, mais difícil e chocante ainda se torna falar do assassinato de uma criança cometido pelo próprio pai, o que pode ser observado quando Ravi afirma:

“[…] porque eu estou preso né, devem pensa tipo mato os filhos porque teve vontade, saber que as pessoas pensam isso de ti é complicado, os pais devem morrer antes dos filhos.”

Essa negação pelo assassinato dos filhos pode estar relacionada aos conceitos estabelecidos socialmente, em que um pai deve amar seus filhos acima de tudo, e a dor que estes assuntos causam, mas sabemos que, apesar da ideia de amor incondicional que possuímos entre pais e filhos, não nos faltam fundamentações mitológicas e religiosas, como já citado anteriormente, para incluir sentimentos menos amorosos e incondicionais em relação aos filhos. O que ocorre é a negação e a aversão/asco cultural no sentido de que um pai pode e comete, em alguns casos, a destruição física, mental ou psíquica de um filho. Como já decorrido anteriormente neste estudo, sabemos da existência do ódio inconsciente e inerente dos pais em relação a criança, que se configura como um novo ser que adentra na vida do casal e traz consigo uma nova configuração familiar, causando, muitas vezes, sentimentos não tão amorosos aos filhos (WINNICOTT, 1998).

O novo contexto familiar que surgiu com a entrada de um bebê na vida do casal, a gravidez não foi planejada, e a matriz preexistente foi alterada, como indaga Ravi:

“[…] eu tinha dezoito anos né, a gente não planejou né, mas já que tava ali… eu trabalhava né…”

Nesta fala de Ravi, fica claro que o casal não esperava um filho para fazer parte da família, e que o momento em que aconteceu não seria o apropriado. Entretanto, supomos que a mãe falhou no processo de inserção do pai na vida dos filhos, pois o amor incondicional com o qual a sociedade vê a relação entre mães e filhos não se dá da forma desejada e sonhada socialmente neste caso. O papel dos pais é dar proteção aos filhos e nesse caso não ocorreu desta forma, pois a construção da família de Ravi deu-se de forma rápida e precoce. Ele teve o primeiro filho ainda adolescente, e desde então assumiu os outros filhos de sua esposa. Os filhos nesta família, diferente da maioria das demais, não aparecem como o centro das atenções, nem mesmo os pais projetam neles seus desejos e expectativas de vida, ou será que projetam desejos e expectativas de morte?

Podemos afirmar que um dos principais fatores a se considerar na constituição da função materna e paterna é o lugar que o filho tem ocupado no desejo dos pais. Para a psicanálise, este lugar ocupado pelo filho pode fornecer informações de como a função materna e paterna se estabelecem. No entanto, também é necessário considerar as vivências transgeracionais que os pais trazem para a constituição de uma nova família; a parentalidade não consiste apenas no fator biológico, mas também nas experiências transmitidas transgeracionalmente. Winnicott (1975) explana que as interações com o bebê começam antes do seu nascimento, em que a mãe é suficiente boa para o bebê e projeta nele desejos inconscientes. Parkes (1999) afirma que a relação entre pais e filhos é muito mais complexa, mais íntima do que qualquer outra relação que estabelecemos, e quando nos referimos a essa relação não falamos apenas de impulsos amorosos, mas também de impulsos agressivos.

Na etapa inicial, a função do pai é também tolerar uma exclusão temporária desta relação dual e aguardar a hora de participar de forma ativa nesta relação. No caso de Ravi, podemos perceber que as vivências e experiências trazidas de sua infância são parecidas com as que aconteceram em sua vida, até mesmo se torna compreensível à constituição de sua família:

“[…] eu fui criado sem pai né, ele me abandonou né, mas até que não senti muita falta dele, meu padrasto ficou meu pai dai né, o homem que casou com minha mãe, ele me dava tudo o que eu queria.”

Para Freud (1914, p. 150), “[…] o paciente não se lembra de nada do que ele esqueceu e reprimiu, mas ele o atua. Ele o reproduz não como memória, mas como uma ação; ele repete, sem saber, é claro, que está repetindo.” Para a psicanálise, nossa energia libidinal está na infância ligada à mãe quando esta cria um elo entre mãe e filho. Na fase adulta, essa energia será investida na busca do nosso parceiro amoroso, já que inconscientemente retornaremos a fase infantil em que ganhávamos todo aquele amor e cuidado da nossa mãe, gerando uma procura por alguém que se assemelha a esta que deu tanto cuidado e carinho (FREUD, 1910). Isso fica evidente quando Ravi indaga:

“[…] eu tenho quatro irmãos né, e só dois é do mesmo pai, o resto é tudo de pai diferente, minha mulher também, três filhos que morreu era meu os outros três era de outros pais.”

Ravi escolheu, para constituir uma família, uma mulher com traços parecidos com os da sua mãe. A maneira com que foi criado deixou marcas em sua vida, e seu relacionamento baseado em relações infantis com aqueles pais que não desempenharam todo o carinho e atenção, criando uma estrutura psicológica frágil. Conforme Olds e Papalia (2000), as pessoas tentam buscar uma repetição na sua vida adulta, buscando a mesma felicidade e união de seus pais se assim o tiveram. Na entrevista de Ravi, podemos perceber que a felicidade e a união de seus pais não são as mais aceitas e desejáveis socialmente, mas fica evidente que a constituição de sua família e a forma de tratamento com seus filhos foram em grande parte parecidas com a que teve em sua infância. Inconscientemente, Ravi pode ter tentado reconstruir seu contexto familiar original, estes são muitas vezes frutos de identificação, no qual idealiza-se o futuro com base em um sentimento considerado amoroso. Mas agora sabemos que a sua essência já é bem mais complexa, pois assassinar um filho não pode ser visto como um sentimento amoroso. Esse sentimento é desenvolvido por uma pessoa geralmente membro da família; neste caso, Ravi pode ter tomado como norte modelos antigos de vivências para construir sua vida, fazendo uma transferência da vida de seus pais e experiências passadas para sua própria vida atual, de uma forma considerada não amorosa, e até mesmo perversa (FREUD, 1912). Aqui é o exemplo de uma reimpressão. Ou seja, é uma ideia de que passado e presente ficam misturados: se o passado não é visto como passado, nada se aprende e apenas se repete. Pode-se até dizer que esta repetição é própria da pulsão de morte (ETCHEGOYEN, 1989).

“[…] fui criado pelo meu padrasto, que não era meu pai, como eu que era padrasto dos outros filhos da minha mulher, era como se fossem meu, mas não era, mas gostava dele assim como dos outros.”

Segundo Ferrari (1999), “[…] a presença de ambos os pais é que permite à criança viver de forma mais natural os processos de identificação e diferenciação […]”. Quando um falta, ocorre sobrecarga no papel do outro, gerando um desequilíbrio que pode causar prejuízo na personalidade do filho. Comentando o complexo de Édipo no menino, Ferrari diz que, “[…] para o menino, a ausência do pai significa que nada se interpõe entre ele e sua mãe, o objeto desejado, que é toda sua. Mas esta mãe tão amada também começa a dar limites, e se inicia a guerra.” (FERRARI, 1999, p. 91-117). Com a falta da presença do pai, Ravi pode ter sobrecarregado o papel da mãe, e como nada se impôs entre mãe e filho, ele pode ter desenvolvido a ideia de que pode obter tudo o que deseja, e satisfazer a qualquer modo.

Corroborando ainda, Ferrari (1999) aborda também a questão dos pais substitutos, afirmando que estes também podem se afastar, deixando a criança novamente com a sensação de abandono. A situação se torna mais complicada neste aspecto quando a mãe tem relacionamentos instáveis e rápidos, o que conota a história de Ravi, que foi criado sem pai, e pela mãe que teve diversos relacionamentos e filhos. Podemos pensar desta forma que a função paterna falhou na vida de Ravi, pois o pai o abandonou antes mesmo dele nascer, e a mãe não mantinha relacionamentos estáveis e duradouros. A função materna também não ocorreu conforme o desejado ou esperado, pois a maternidade deve proporcionar e criar um vínculo afetivo com o bebê, garantindo a ele as necessidades precisas, além de garantir ao filho confiança e independência. Mas sabemos que neste caso, no qual havia negligências principalmente afetivas entre pais e filhos, Ravi pode ter impresso uma ideia distorcida de família ideal, pois sugere-se que este não recebia atenção e afeto da forma como deveria para se desenvolver positivamente. Esta negligência por parte dos pais resultou em sentimentos negativos sentidos por Ravi em relação aos seus filhos e enteados e ao seu pai, que o abandonou antes mesmo de conhecê-lo. Em um momento da entrevista, Ravi afirma:

“[…] porque estou preso devem pensar tipo, nem o pai quis quando era pequeno, e meu pai sempre foi meu padrasto né que me dava tudo o que eu queria e precisava.”

Quando questionado pela entrevistadora sobre o significado de “tudo o que queria”, Ravi diz:

“[…] tudo as coisas, presentes, brinquedos, dinheiro, mas eu sempre trabalhei né, desde os dezoito anos…”

Desta forma, pode-se sugerir que Ravi considerava os objetos que ganhava importantes para a relação pai e filho, pois ele mesmo afirma que seu padrasto era bom, pois lhe dava tudo o que queria e precisava, para substituir o afeto. Esta relação com objetos e dinheiro é encontrada por diversas vezes nas falas do entrevistado, imprimindo em suas vivências atuais a falta de afeto sentida por ele e substituindo o afeto com bens materiais:

“[…] ser pai é uma coisa que todo mundo quer, que as pessoas pedem quando vai vir o bebê, pra mim veio com 18 o primeiro, eu não queria, mas trabalhava e tudo… e depois dali veio um atrás do outro, nenhum planejado, mas a gente podia cuida né, trabalhava.”

Ravi afirma diversas vezes que a gravidez não foi desejada e sempre se justifica pela questão de ter um trabalho, de poder prover os filhos de bens materiais. E o afeto onde está? Podemos compreender que o afeto se inicia desde a concepção da gestação, o que no caso de Ravi tanto como filho quanto como pai não foi planejada, e vista como algo pelo que o casal esperasse. Podemos sugerir que Ravi repete os comportamentos de seu padrasto, que lhe presentava com bens materiais, mas o afeto era esquecido, e em nenhum momento das entrevistas foi citado. Não é preciso grandes estudos para reconhecermos que o afeto faz parte da construção do caráter de qualquer indivíduo, é só olharmos para nosso lado que encontraremos vários traços que sem o afeto ou a falta de afeto não existiriam.

As trocas afetivas na família imprimem marcas que as pessoas carregam a vida toda, definindo direções no modo de ser com os outros afetivamente e no modo de agir com as pessoas. Esse ser com os outros, aprendidos com as pessoas significativas, prolonga-se por muitos anos e frequentemente projeta-se nas famílias, que se formam posteriormente. (SCHREIBER, 2001).

A forma de criação adotada pela família influencia a conduta social dos membros. Ravi vivenciou situações de falta de afeto e preenchimento com objetos, reflexo este de uma desestrutura no âmbito familiar. Desta forma, podemos compreender os comportamentos de Ravi com seus filhos, e enteados, que são reflexos de experiências passadas. Bowlby (1981, p. 13) refere que “[…] a qualidade dos cuidados parentais que uma criança recebe em seus primeiros anos de vida é de importância vital para a sua saúde mental futura.” Sendo assim, percebe-se que a qualidade das relações afetivas contribui de modo significativo na manutenção da saúde dos indivíduos e na entrada destes no mundo simbólico.

Quando indagado pela entrevistadora sobre a importância que ele parece ter sobre trabalho e criação de filhos, Ravi afirma:

“[…] é se tu trabalha, tu tem dinheiro, tu pode ter um filho, ter dinheiro é o mais importante pra ter um filho.”

Isso nos faz refletir sobre a infância e construção psíquica que Ravi estabeleceu desde cedo. Mesmo depois de adulto, repete comportamentos que causam não apenas prazer, mas também desprazer em algumas situações. Não podemos lidar com estes fatos apenas como meros acontecimentos do acaso, mas temos de refletir sobre o que leva Ravi a colocar-se e colocar os próprios filhos de forma repetida em situações dolorosas como as vividas em suas experiências dolorosas. Corroborando com tais constatações, podemos citar Freud (1920), que em seu texto Além do princípio do prazer estabelece o dualismo de pulsão de vida e pulsão de morte. É através da compulsão a repetição que o autor teoriza a pulsão de morte como a força que leva o indivíduo a se colocar repetidamente em situações dolorosas e reviver experiências antigas que nunca provocaram prazer. Por isso estão além do princípio de prazer, ou seja, estão além de qualquer mecanismo psíquico, que devem ser capturadas pelo aparelho psíquico para poderem ser processadas. Se capturadas pelo aparato psíquico, poderemos ter uma descarga mais saudável; no entanto, quando ficam soltas no aparelho psíquico, coisas mais graves podem acontecer. No caso de Ravi, podemos sugerir que tenha acontecido a quebra do universo simbólico, a compulsão, a repetição está intimamente ligada com o tipo de repetição que nos referimos neste estudo, como fica explícito na afirmação de Ravi:

“[…] minha mulher era bem parecida com minha mãe, tinha vários filhos de pais diferentes…”“[…] minha mulher tinha outros filhos, não eram meus, mas eu gostava assim como se fosse, mas não era, como eu e meu padrasto…”

Como Freud propôs em 1920, em uma de suas obras, os indivíduos são seres complexos e, segundo sua teoria, possuímos um impulso destrutivo sempre presente em todos nós, da mesma forma que existe um impulso para a vida. Esses impulsos vivem em permanente conflito no íntimo de todos nós, em todos os dias de nossas vidas.

No entanto, o que fazemos é negar estes fatos. Desta forma, neste estudo podemos pensar que impulsos agressivos e destrutivos estavam presentes, pois, apesar do pai atear fogo na casa, a mãe agiu de forma conivente ao assassinato. Durante as entrevistas, teve-se evidências de que o casal havia discutido pela manhã quando Ravi descobriu que estava sendo traído por sua esposa, e reiterou que colocaria fogo em sua casa no final do dia, com o intuito de matar todos que ali estavam. Porém, no final do mesmo dia em que Ravi prometeu isso, sua mulher deixou os filhos em casa e dirigiu-se a casa de um vizinho em seu bairro, que, segundo Ravi, era a casa de seu amante. Desta forma, podemos afirmar que a mãe, apesar de ter ouvido as promessas de realização do crime declaradas por Ravi, deixou seus filhos sozinhos, esperando que a hora de atear fogo na casa chegasse, e ela estivesse a salvo. No entanto, a mãe não foi condenada ao crime, mas podemos considerar que ela não fez nada para evitar que tal ato ocorresse, e ainda porque não afirmar que a mãe se livrou da morte deixando a casa, e abandonou os filhos deixando que estes ficassem no local que mais tarde seria incendiado. Nesta perspectiva, podemos pensar que esta mãe quebrou todos os paradigmas e colocou os filhos para a morte, não cometeu o ato, mas guiou-os para a morte, ou seja, o inconsciente não comete o ato, mas o deseja. E isso, para a realidade psíquica, é a realidade que importa. Compreende-se, assim, que esta mãe possuía sentimentos ambivalentes pelos filhos, ou seja, nesse caso sentimentos perversos e negligentes.

Para Benhaim (2008, p. 11-13), a popular crença de que o “amor materno é único e verdadeiro” é mito de um amor inteiramente devotado ao objeto. A ambivalência materna é, entretanto, uma necessidade estruturante; de acordo com a ambivalência, pode ser positiva ou negativa, ou ainda, o ódio pode ser estruturante ou destruidor ao bebê. No caso em questão, essa ambivalência foi negativa ao ponto da mãe ser conivente com a morte de três de seus filhos, e tentativa de assassinato de outras crianças.

Não nos faltam, como sabemos e citamos anteriormente, comprovações mitológicas, religiosas e sociais para afirmar que nas raízes humanas existem sentimentos menos amoroso em relação aos filhos. Mesmo o filicídio sendo negado, a sociedade está abarrotada de formas de negligência com crianças: a mídia, os pais, os castigos. Está em nosso cotidiano, cada momento da história foi marcado por momentos trágicos, e atualmente vivemos em um mundo onde a falta de empatia cresce cada vez mais – abandonam-se filhos, matam-se mais, faltam respeito com os outros, criam-se as próprias leis e vive-se como se não existisse leis –, ou seja, o mundo está sendo habitado por pessoas que acreditam que “tudo é possível, que tudo podem”. Atualmente, são necessárias campanhas para proibir e orientar, sendo muitas vezes inúteis e desconsideradas, e a lei não está internalizada e não está sendo respeitada.

“Entender e considerar estes movimentos é diferente do que perder de vista o papel da castração como ocorre com muitos pais na atualidade, este sintoma não pode ser atribuído apenas a cultura, a perda de controle não o autoritário, mas o da autoridade.” (CORRÊA; 1991). A psicanálise é agente de mudanças, seja onde ela for inserida. Desta forma, cabe a esta linha de estudo questionar e influenciar os acontecimentos marcantes em nossa sociedade atual, buscando uma compreensão para a falta de repressão no mecanismo psíquico (NASIO, 1989).

Todas as pessoas foram vítimas ou presenciaram algum tipo de violência na vida, pois é o que está estampado em jornais, revistas, televisões, o consumismo se torna o centro das relações familiares, a falta de tempo e os meios tecnológicos adentram na vida das famílias de forma descontrolada, o afeto muitas vezes se torna esquecido, ou substituído por objetos, e bens materiais, a essência da família está se perdendo, cada vez menos famílias se formando. Estamos na era em que cada um deve agir e pensar em si mesmo, visando lucros e interesses. Será que vivemos um egocentrismo/narcisismo descontrolado? Ou isto já nos é inato, e se tornou parte de nossos dias?

4. Considerações Finais

Falar sobre morte implica em sentimentos negativos. Por mais que seja esse o destino de todos nós, quando se trata da perda de uma pessoa importante em nossas vidas se torna ainda mais difícil falar sobre. E quando essa morte é de um filho causado pelo próprio pai a revolta, dor, tristeza e indignação são ainda maiores.

Detivemo-nos neste trabalho ao estudo de um pai que intencionalmente matou seus filhos. A partir das entrevistas realizadas, pode-se sentir um pouco do que isso significa para o pai, além de compreender como este lida com esses sentimentos atualmente. Talvez por isto tenha sido por momentos difíceis de realizar tal pesquisa, já que a falta de sentimentos afetivos pelos filhos e a forma apática com que falava de sua família despertavam sentimentos de vazio, isolamento, e até mesmo resistência em continuar escrevendo, além de questionamentos sobre o amor paternal que nos cerca.

O acesso ao processo e as entrevistas tiveram grande produtividade e riqueza de informações. O primeiro contato foi realizado apenas para criar vínculo com o entrevistado, a fim de, posteriormente, adentrar-se nos objetivos da pesquisa. Foi possível perceber o quão difícil é para o pai admitir ter cometido tal ato, apesar deste não apresentar culpa em nenhum momento das entrevistas, assim como se notou a dificuldade de falar sobre o assunto, pois o entrevistado afirma que “nem os animais matam seus filhos”. Ou seja, existe uma resistência e negação dos fatos talvez pelo motivo de ser aceito socialmente, além de ser visto como algo fora da realidade, mesmo sabendo que esses crimes existiram desde o início da civilização, como foram citados no decorrer do trabalho.

A partir deste estudo foi possível compreender o porquê falar sobre o assassinato de um filho cometido pelo próprio pai, e de morte de crianças em geral, se torna tão difícil. Não existe uma forma de descrever tais situações, nem mesmo nomenclatura possui para tal ato, o que, de certa forma, dificulta a produção de um trabalho científico sobre o tema. Pode-se perceber que esse tipo de crime é visto como inconcebível, inaceitável, e um sentimento carregado para a vida toda. Desta forma, também devemos questionar a sociedade em geral, que se isenta muitas vezes de sua responsabilidade e oferece às crianças formas negligentes de vida cotidiana, tornando-as vítimas de descaso.

Mesmo salientando e considerando que existem pais que se dedicam incondicionalmente aos seus filhos, e os desejaram e os amam de forma intensa, existem outros que não são capazes de deixar de lado suas motivações e necessidades internas para oferecê-las a outro ser.

Em virtude da riqueza de material que emergiu, optou-se por deixar alguns pontos de ser explorado devido ao espaço disponível para a análise destes. Desta forma, torna-se importante dar continuidade a este estudo, pensando também em englobar mais casos deste tipo, assim como as mães que também cometem tal ato.

No momento em que se decidiu pela realização deste trabalho houve resistência de muitas pessoas, as quais comentavam de diversas formas a impossibilidade de isso acontecer, e de qual a necessidade de estudar “esse tipo de pessoas”. E foi isso que despertou ainda mais o interesse pelo desenvolvimento do trabalho: abordar questões que se evitam ser tocadas, e dedicar meu tempo a estar com essas pessoas vistas como o asco da sociedade. Durante a realização desta pesquisa, observou-se a escassez de materiais que abordam e estudam pais que intencionalmente mataram seus filhos, afinal falar sobre estes assuntos se torna difícil.

Realizar este trabalho foi muito gratificante, apesar de intenso e triste. Da mesma forma, fiquei grata ao entrevistado por ter compartilhado comigo sua história, e confiar em mim na realização deste trabalho de grande valia, que sempre será lembrado, pois estive com o entrevistado no momento da pesquisa sem preconceitos, acusações ou ideia preconcebidas. Assim, considero um desafio a realização deste trabalho, pois foi necessário chegar a questões obscuras e doloridas de um pai, que de forma intencional assassinou seus filhos, e como este afirma: “fiquei sem nada eles eram tudo para mim”, e desfazer-se de prejulgamentos pessoais e sociais para falar sobre morte que consiste em uma tarefa exaustiva e chocante.

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A Psicanálise com Crianças

Criancas-Diva_ACRIMA20110626_0036_23A visão sobre a infância tem passado por diversas transformações ao longo da história, de “pecadora ou anjo” a “esperança da sociedade”. E embora a experiência analítica com crianças não seja um campo a parte do referencial teórico da psicanálise, possui algumas especificidades. Tais particularidades variam de acordo com cada criança e devem estar em conformidade com o momento estrutural no qual esta se encontra. O objetivo final deste artigo é que os leitores tenham uma primeira aproximação com as teorizações referentes à clínica psicanalítica com crianças.

Palavras-chave: Psicanálise com crianças, Clínica psicanalítica, Infância.

1. Introdução

No decorrer dos séculos, o conceito de criança tem sido visto de diversas maneiras. Nota-se que o significante “educação” trouxe consigo a concepção de criança – tal como concebemos atualmente – além de contribuir para a constituição da ordem familiar contemporânea. Foi à psicanálise que subverteu o mito da infância ingênua e bondosa apontando para o fato de que a criança – como os adultos – sentia excitações sexuais (ÁRIES, citado por Rosa, 2009).

Sigmund Freud (1909, citado por Rosa, 2009)  foi o responsável por sinalizar que a clínica psicanalítica com crianças era possível. Segundo o autor, é porque tem suas produções inconscientes que a psicanálise com crianças é possível. E, embora não tenha aprofundado essa discussão, tê-la iniciado propiciou debates dos mais diversos entre os psicanalistas (Freud, citado por Petri, 2008).  Nomes como Anna Freud, Melanie Klein, Françoise Dolto, Maud Mannoni e Rosine e Robert Lefort são referência a todos que desejam se aprofundar nessa temática.  As formulações teóricas realizadas por esses psicanalistas serão, brevemente, apresentados a seguir.

Não é possível falar de clínica com crianças sem contextualizar a importância e o lugar do lúdico no tratamento. O brincar é inevitável para a criança, uma vez que corresponde ao próprio movimento de sua estruturação psíquica: quando uma criança não brinca é sinal que existe algum impedimento em seu processo de subjetivação (PETRI, 2008).

A procura por atendimento clínico de crianças e adolescentes costuma partir da família. Nas entrevistas, ao relatarem a história da criança, frequentemente, nota-se que os pais têm algo a dizer que a criança não pode ouvir, e mesmo longe dela, alteram ou omitem fatos ou partes de eventos ocorridos com a criança ou familiares – sobre os quais, segundo eles, o filho supostamente não sabe. As vivências na clínica demonstram as sequelas do que deveria ter sido falado e não foi. Comprova-se como a decisão de deixar a criança na ignorância tem um preço, pois, sem a verbalização, as chances de elaborar diminuem ou faltam por completo; então, é bem provável que o que não foi falado retorne, gerando inibições, sintomas ou angústia à criança (ROSA, 2009). Vale lembrar: as histórias que não são contadas, as palavras censuradas, as verdades caladas, estas e outras espécies de não-dito acarretam consequências, nunca saudáveis e quase sempre patológicas a criança (ROSA, 2009).

Cabe perguntarmo-nos, o que será que há na criança (de) tão insuportável? Visto que muitos analistas recusam-se a trabalhar com crianças, pois, tomam tempo, exigem cuidados exclusivos e podem vir a causar incômodos dos mais diversos (PETRI, 2008). Como por exemplo, em relação à conduta: escondem-se atrás das cadeiras ou põem a cadeira na frente da porta quando não querem sair, fogem da sala dizendo ‘Você não me pega!’, dão pontapés, cospem, atiram objetos, levam comida, entre outros. Relatado ou expresso, o comportamento é uma questão a ser enfrentada pelo analista (ROSA, 2009).

Nota-se que os pais têm um papel fundamental no tratamento, pois, o discurso da criança é atravessado pelo discurso de seus pais. Um dos objetivos da análise seria, então, o de permitir a criança separar-se do sintoma familiar(VORCARO, 1999). Cabe alertar que, embora a participação dos pais seja essencial ao tratamento, o tratamento é da criança e é com ela que, fundamentalmente, o analista deve trabalhar.  Ao incluí-los na sessão, pensa-se em produzir um efeito analítico que permita a continuação da análise da criança (ROSENBERG, citado por Rosa, 2009).

2. A Clínica Psicanalítica com Crianças

Recorreu-se, inicialmente, a um apanhado histórico a fim de ilustrar as primeiras abordagens da psicanálise neste contexto.  Posteriormente, pretende-se desenvolver as ultimas argumentações teóricas sobre a temática proposta.

As argumentações de Freud (1909, citado por Rosa, 2009) a respeito da psicanálise no contexto infantil se deram em seu texto Análise de uma fobia em um menino de cinco anos – ‘O Pequeno Hans’.  Caso clínico construído em grande parte por intermédio do pai do paciente, o que sinalizou a importância do discurso dos pais na análise com crianças. Fica a questão, que perdurará até os dias atuais, da criança poder ser Sujeito do próprio discurso. Ou seja, é porque a criança tem suas produções inconscientes que a psicanálise com crianças é possível.

Na Conferência 34, das Novas conferências introdutórias em psicanálise (1932), o mesmo autor traz considerações sobre as condições para o exercício da psicanálise com crianças. Averiguou-se que a criança é muito propícia para o tratamento analítico; os resultados são seguros e duradouros  (Freud, citado por Petri, 2008). Recorrendo às palavras do próprio Freud (citado por Petri, 2008, p. 20):

Uma criança é um sujeito psicologicamente diferente do adulto. De vez que não possui superego (…). As resistências internas contra as quais lutamos, no caso dos adultos, são na sua maior parte substituídas, nas crianças, pelas dificuldades externas. Se os pais são aqueles que propriamente se constituem em veículo de resistência, o objetivo da análise – e a análise como tal – muitas vezes corre perigo. Aí se deduz que muitas vezes é necessária determinada dose de influência analítica junto aos pais.

Freud (citado por Petri, 2008) mostrou a possibilidade de realização da psicanálise com crianças, e embora não tenha aprofundado essa discussão, tê-la iniciado propiciou debates dos mais diversos entre os psicanalistas. Vejamos alguns destes.

Duas percussoras foram Anna Freud – filha de Freud – e Melanie Klein ambas trazendo olhares e teorizações bem diferentes do texto Freudiano.

Anna Freud (citado por Petri, 2008), em O tratamento psicanalítico de crianças, não acreditava ser possível – nem desejável – o estabelecimento de uma relação puramente analítica com uma criança. Utilizando de um viés pedagógico-educativo fez um esforço para conduzir a criança ao aprendizado da importância e dos fundamentos da análise a ser empreendida, a fim de driblar as dificuldades iniciais no estabelecimento das condições para a análise, como por exemplo, a não adesão ao tratamento. Coerentemente, deu importância central à colaboração dos pais na análise, responsabilizando-os muitas vezes pelo andamento ou impedimento do tratamento.

Anna Freud (1926, citado por Petri, 2008) argumenta que o analista deveria assumir uma “ação dirigida” – justificada por sua idéia de que a associação livre da criança seria bastante limitada – e combinar em sua própria pessoa duas funções difíceis e absolutamente opostas: analisar e educar. A conseqüência básica dessa posição do analista seria fazer com que a busca do final do tratamento coincidisse com a procura de uma identificação da criança com o ideal de eu – isto é, com quem a criança deseja parecer, ou, que ‘modelo’ deseja seguir – lugar esse ocupado pelo analista.

As formulações teórico-clínicas de Anna Freud representam uma das primeiras tentativas de se pensar à psicanálise com crianças, requerendo do analista um posicionamento diferente do ocupado em relação ao adulto, especialmente no que se refere às condições necessárias para o tratamento. É provável que o maior equívoco de Anna Freud tenha sido legar ao analista, a posição de ideal de eu, forjando a noção de uma “identificação saudável” que acaba por impor à criança ideais alheiros, contradizendo, enfim, os próprios fundamentos da psicanálise, no que concerne sua ética (PETRI, 2008).

Melanie Klein vai desenvolver um novo método de Psicanálise infantil através do jogo, do brinquedo, do desenho e do recorte. Afirmando que a análise através do brincar leva os mesmos resultados que a técnica de adultos, com uma única diferença, a saber, que o procedimento técnico é adaptado à mente da criança (KLEIN, 1997). Opondo-se radicalmente as argumentações de Anna Freud, no livro, A psicanálise de Crianças, Klein (1997), faz um resumo do que chamou de os fundamentos psicológicos da análise de crianças:

A natureza mais primitiva da mente da criança torna necessário encontrar uma técnica analítica especialmente adaptada a ela, e isso nós encontramos na análise através do brincar. Por meio da análise do brincar, ganhamos acesso às fixações e experiências mais profundamente reprimidas da criança e tornamo-nos assim capazes de exercer uma influência radical sobre o seu desenvolvimento (p.35).

Surge neste cenário, Françoise Dolto, dedicando-se à elaboração teórica de sua prática clínica a partir do referencial lacaniano, estabelecendo noções próprias sobre a psicanálise com crianças (PETRI, 2008). O trabalho de Dolto – diferente de Anna Freud e Melanie Klein – buscou identificar na estrutura qual seria a situação problemática (ROSA, 2009).

Dolto (citado por Rosa, 2009) em Seminário de psicanálise de crianças, adverte que, como os pais da realidade praticam uma relação de objeto falseada pela repetição de seu passado sobre o filho, é necessário que o psicanalista escute  – a história de cada um dos pais, assim como a do casal – para saber a que projeções a criança deverá fazer face no dia-a-dia em sua educação. Dolto também permitia que qualquer um que tivesse algo a dizer sobre a criança e sua sintomática entrasse na sessão. E adverte: a situação da chegada da criança em análise auxilia a perceber a questão. Dolto (1985, p.32, citado por Rosa, 2009) conclui:

Quando se trata verdadeiramente de uma criança-sintoma esse fato se esclarecerá por si só. Ou a criança não se interessará por estas entrevistas e sairá da sala, permitindo que seus pais tomem consciência de suas próprias dificuldades, ou expulsará os pais e estes, confusos, precisarão ser ajudados para suportarem esse desmame súbito e a independência manifestada pelo filho diante deles.

Nota-se assim que, as intervenções feitas por Dolto iam em direção aos pais e a criança. Forma de trabalho continuada por Maud Mannoni, que foi outra figura importante no cenário da psicanálise com criança com referencial lacaniano (ROSA, 2009).

Mannoni (1971) deve sua formação como psicanalista de crianças a Dolto e a elaboração teórica de sua experiência, ao ensino de Lacan. Para ela, o campo em que o analista opera é o da linguagem  – mesmo se a criança ainda não fala. O discurso que se processa engloba os pais, a criança, o analista: é um discurso coletivo que se constitui em torno do sintoma apresentado pela criança (MANNONI, citado por PRISZKULNIK, 1995).

Utilizando das palavras da própria autora: “O sintoma da criança vem cobrir no discurso familiar, o vazio criado por uma verdade que não é dita” (MANNONI, citado por Rosa, 2009, p.102).  Isto é, o que faz mal a uma criança não é a situação real que ela vivencia, mas o que nesta situação não foi verbalizado (ROSA, 2009).

Nesse contexto, o sintoma teria valor de comunicação. Considera, então, imprescindível escutar os pais na medida em que eles estão implicados nos sintomas do filho, o que não significa fazer o tratamento psicanalítico deles, mas ajudá-los a se situarem em relação à sua própria história (ROSA, 2009).

Com relação à prática clínica propriamente dita, a autora ressalta que “as reações dos pais são parte integrante do sintoma da criança e da direção do tratamento” (MANNONI, citado por PETRI, 2008, p.31). E, ainda, afirma que “não se pode tratar de uma criança sem tocar em problemas fundamentais dos pais, como suas posições em relação à morte e ao sexo – por exemplo, já que estão profundamente implicados no sintoma do filho” (MANNONI, citado por Petri, 2008, p.31). Em linhas gerais, o importante não é quem tratar – já que as intervenções vão em direção da criança e também dos pais, mas como está estruturado o discurso familiar (ROSA, 2006).

Ressalta-se nesse cenário o trabalho de Rosine e Robert Lefort. Os autores defendem em, A criança do discurso analítico, a unidade da psicanálise, não havendo, uma especificidade na psicanálise com crianças.  Em sua concepção “a estrutura, o significante e a relação com o Outro não concernem de maneira diferente à criança e ao adulto” (LEFORT,  citado por PETRI, 2008, p.31). Sendo, o analista o encarregado a criar condições para a criança encontrar seu próprio discurso na análise (LEFORT, citado por PETRI, 2008).

Portanto, podemos considerar que a psicanálise com crianças não é nem uma especialidade, o que demandaria do analista uma formação técnica determinada, tampouco uma clínica equivalente à realizada com adultos, sem qualquer atenção às singularidades da infância (PETRI, 2008).

A criança é um analisante de pleno direito, e justamente por isso, impõe certas especificidades à clínica que, norteada pelos mesmos eixos teóricos, difere apenas quanto às condições para sua realização (PETRI, 2008). Algumas especificidades, por exemplo, são relacionadas à conduta da criança: trás brinquedos, comida, pessoas à sessão, fecha a porta da sala com o analista para fora, quer pegar um objeto na sala ao lado, pede para levar objetos para casa, cria inúmeras situações, enfim; para as quais o analista precisa inventar uma resposta e/ou construir uma intervenção [01] (PETRI, 2008).

3. A Criança Como Analisante

No decorrer dos séculos, a criança tem sido vista ora como pecadora, ora como boa, sem sexo, anjo e até como vítima da sociedade (ROSA, 2009). Ariès (citado por Rosa, 2009), demonstra em seu livro História Social da Criança e da Família, que o aumento da burguesia dos séculos XVI e XVII acarretaram a preocupação educativa, ideal da nova classe social. Nota-se que o significante “educação” trouxe consigo a concepção de criança, tal como concebemos atualmente, além de contribuir para a constituição da ordem familiar contemporânea (ÁRIES, citado por Rosa, 2009).

Esse novo lugar possibilitou que a criança pudesse ser pensada como objeto de conhecimento e práticas específicas. É no século XX, afirma Volnovich (citado por Rosa, 2009), que a criança torna-se objeto da pediatria. Aqui,  a criança passa a ter corpo, mas não discurso, é dita como boa, mas sem razão ou sentidos próprios. Foi à psicanálise do início do século que subverteu o mito da infância ingênua e bondosa retornando à imagem de criança perversa polimorfa. Em outras palavras: os estudos psicanalíticos iniciados por Sigmund Freud apontaram para o fato de que a criança – como os adultos – sentia excitações sexuais. Chegando a manifestar pulsões agressivas e hostis ao longo de sua constituição (Rosa, 2009). Entretanto, este retorno se deu com algumas diferenças, uma vez que se trata de uma criança que constrói um saber sobre o real e que tem a possibilidade de formular teorias sobre suas relações com os outros e o mundo. Essas teorias – as teorias sexuais infantis –  demarcam toda a experiência do indivíduo, inclusive quando adulto (ROSA, 2009).

Há dois aspectos a serem considerados quanto à criança contemporânea. De um lado, ela adquire no imaginário social o status de esperança da humanidade, refletindo a autoestima e as frustrações do adulto. De outro lado, não tem valor social produtivo, tomando o lugar de objeto de gozo e fascínio do adulto. Examinando melhor: à criança é dado o lugar de tentar preencher as necessidades dos adultos (ROSA, 2009).

4. A Atividade Lúdica na Psicanálise

Freud (citado por Castro, 2010) faz referência pela primeira vez ao ludismo em seu artigo, Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade, acerca da hipótese da origem da satisfação sexual na ação motora, seja de forma passiva – agitação ritmada do corpo, o que explicaria a insistência infantil na repetição de atividades, como balançar, ser jogada para cima, etc. Ou ainda, no exercício muscular ativo – lutas físicas, rodopios, brincadeiras que envolvem movimento em geral. Fazem-se necessárias algumas considerações importantes sobre o brincar na concepção freudiana. De acordo com Castro (2010), o argumento de Freud “se fundamenta no depoimento de pessoas que relataram a percepção dos primeiros sinais de excitação sexual quando, na infância, brincavam de maneira ruidosa com seus pares” (p.71). Nota-se, que neste trabalho de Freud, a compreensão do lúdico está sustentada na motivação pulsional.

Em Escritores criativos e devaneios, Freud (citado por Castro, 2010) faz a comparação do fantasiar, indispensável à criação literária e artística em geral, ao brincar e ao jogar, característicos da vida infantil. Afirmando ainda que, o oposto da brincadeira é a realidade. Freud compreende a atividade lúdica como ficção; deste modo, a atividade lúdica seria ‘transitiva’ à realidade: a criança pega elementos da realidade, utiliza-os na brincadeira transformando-os, sem ignorar que aquela transformação é ‘um faz de conta’ temporário. Sendo assim, a ficção não perde a realidade como referência, pelo contrário, nela se inspira para transformá-la (CASTRO, 2010). O brincar da criança é determinado por desejos: de fato, por um único desejo – que auxilia o seu desenvolvimento, o desejo de ser grande e adulto. A criança está sempre brincando ‘de adulto’, imitando em seus jogos aquilo que conhece da vida dos mais velhos (FREUD, citado por CASTRO, 2010).

A partir do exposto cabe perguntarmo-nos: Porque haveria a criança de ‘simular’ situações de adulto nas brincadeiras? Pelo fato de que a criança busca poder exercer a liberdade atribuída ao adulto, atuar sem as imposições e limitações que a educação dos adultos lhe inculca, executar aquilo que lhe é refreado e da maneira que mais lhe agrada (CASTRO, 2010). Nessa concepção, o brincar então funcionaria como mediador entre o desejo do sujeito e uma realidade que restringe sua realização, mas o aceita sob o apoio do lúdico ou de expressões fantasiosas (CASTRO, 2010).

Em complemento ao enunciado acima, faz-se necessário recorrer às palavras de Melo e Silva (2012) como suporte para destacar o brincar na concepção psicanalítica:

É característica do comportamento infantil, o brincar, por isso a psicanálise tem a proposta de deixar a criança livre para se expressar da maneira que lhe convém, e provavelmente a criança irá brincar. Mesmo que o consultório não tenha brinquedos, ela faz de tudo um brinquedo. Dessa forma, começa a se expressar brincando. Através do brincar a criança irá expressar suas fantasias reprimidas, seu inconsciente. Quando o brincar se dá de forma bizarra ou ele não aparece é sinal de que pode haver alguma psicopatologia grave (s/p).

Como foi mencionado a alguns parágrafos atrás, Melanie Klein desenvolveu um novo método de Psicanálise infantil por meio do jogo, do brinquedo, do desenho e do recorte. Afirmando que a análise por meio do brincar leva os mesmos resultados que a técnica de adultos, com uma única diferença, a saber, que o procedimento técnico é adaptado à mente da criança (KLEIN, citado por ROSA, 2006).

E foi, juntamente com Winnicott (s/d) que Klein (1997) propôs a troca da associação livre pelo brincar, que constitui – segundo eles – uma linguagem pré-verbal. Sendo assim, o jogo por si só fala e não necessário falar sobre o jogo, que tem sentido próprio. Essa postura tem como alicerce a ideia de que quando a criança brinca, a elaboração acontece por si mesma, sem a interferência do adulto. O problemático, que exige interpretação, seria a inibição do brincar, pois, indicaria por si mesma, sinal de patologia (ROSA, 2006).

Cabe ressaltar que, por meio da brincadeira, “a criança põe em jogo suas próprias interpretações, buscando dar um sentido diante da angústia” (PETRI, 2008, p.123). E,  embora faça a diferença entre brincadeira e realidade, a criança ‘brinca a sério’, seu trabalho é o brincar, atividade que consome seu tempo, demandando investimento psíquico (PETRI, 2008). Vale dizer que  – quando brinca em análise – a criança põe em jogo, os significantes que a marcaram, porém, agora, em uma nova combinatória, inédita, criada exclusivamente por ela, de sua própria autoria (CORIAT, citado por PETRI 2008).

Conclui-se que, o brincar é inevitável para a criança, uma vez que corresponde ao próprio movimento de sua estruturação psíquica: quando uma criança não brinca é sinal que existe algum impedimento em seu processo de subjetivação (PETRI, 2008).

5. O Não-Dito na Psicanálise com Crianças

Em geral, a procura por atendimento clínico de crianças e adolescentes costuma partir da família. Nas entrevistas, os responsáveis pela criança apresentam suas preocupações e queixas, a história da criança, os dados de seu desenvolvimento, os fatos – considerados por eles – mais marcantes da vida da criança, e possíveis sinais anteriores da problemática corrente. Frequentemente, nota-se que os pais não conseguem falar da criança em sua presença. Tem algo a dizer que a criança não pode ouvir, e mesmo longe dela, muitas vezes os pais alteram ou omitem fatos ou partes de eventos ocorridos com a criança ou familiares – sobre os quais, segundo eles, o filho supostamente não sabe (ROSA, 2009).

Há pais que afirmam que “as crianças não sabem, ou que algo não as preocupa, quando elas não falam no assunto” (ROSA, 2009, p.86). Estes a imaginam como ingênua e livre de inibições ou preocupações, vivendo um mundo de brincadeiras, indiferentes ao mundo que as cerca. Não é raro os pais ‘pintarem o mundo de cor-de-rosa’ e o apresentá-lo à criança. Por acreditarem que a criança só sabe aquilo que lhes é dito por eles. E, pelo bem da criança, a realidade – às vezes algo que a criança vivenciou – é adulterada ou omitida (ROSA, 2009).

Em cada caso, a criança sofre e, em razão de tais mordaças, produz sintomas. As vivências na clínica demonstram as sequelas do que deveria ter sido falado e não foi menos por que seria impossível de verbalizar, e mais por haver uma proibição de enunciá-lo em voz alta. Comprova-se como a decisão de deixar a criança na ignorância tem um preço, pois, a falta de significantes costuma induzir todo tipo de sentidos alienados.  Sem a verbalização, as chances de elaborar diminuem ou faltam por completo; então, é bem provável que o não simbolizado retorne, gerando inibições, sintomas ou angústia à criança (ROSA, 2009).

6. A Criança como Analisante e o ‘Lugar’ dos Pais no Tratamento

A análise com crianças exige um analista de “pleno’ direito, mas que tem que se regrar pela especificidade das particularidades do encontro com a criança (PETRI, 2008). Como já foi dito anteriormente no subtema ‘A clínica psicanalítica com crianças’ deste trabalho.

Petri (2008) aponta que “é crucial que o analista não responda à demanda, para que a frustração prevaleça, sobre a gratificação, garantindo que o desejo permaneça na relação transferencial, iluminando assim a direção do tratamento” (p.35).

Enquanto os adultos chegam à análise trazendo suas angústias, questionamentos, relacionamentos mal sucedidos, pensamentos e dúvidas obsessivas, fobias, as crianças são trazidas por seus comportamentos, tanto pelo que fazem, como pelo que deixam de fazer. As queixas são de desobediência, agressividade, hiperatividade, birras… Ou, de distração, não fazer lição, falta de interesse na escola, falta de iniciativa, produção pobre (ROSA, 2009).

Mais do que nas queixas, a questão aparece nos atendimentos. Sem dúvida, as crianças falam. Falam, o mesmo que os pais, em um discurso copiado até nas vírgulas, externo a elas, e falam de suas ideias e opiniões. Contudo, o seu discurso, enfático, muitas vezes aparece na ação. Atiram coisas; escondem-se atrás das cadeiras ou põem a cadeira na frente da porta quando não querem sair; fogem da sala dizendo ‘Você não me pega!’; tiram a roupa; urinam; dão pontapés, cospem, atiram objetos; dormem. Relatado ou expresso, o comportamento é uma questão a ser enfrentada pelo analista (ROSA, 2009).

A condição da análise é que o analista saiba em que lugar a criança o coloca; a dificuldade é que ele aí está remetido à posição estrutural da infância, em que a criança é objeto que divide o Outro, em que sua posição é a da disposição perversa polimorfa. Assim, um dos possíveis objetivos da análise é o de permitir a criança separar-se do sintoma familiar (VORCARO, 1999). Este sintoma, segundo Rosa (2009), pode ser entendido como “uma palavra que não pode ser dita, alguma coisa que não consegue atingir o seu pleno sentido na linguagem e que se manifesta como mensagem. Em síntese, a criança e o adolescente são porta-vozes de seus pais” (p.67).

Retomando o que já foi dito a algumas páginas acima, é fundamental ao analista identificar qual o lugar que a criança ocupa no desejo dos pais; nas palavras de Rosa (2009), “a criança se estrutura em função do desejo dos pais e, por isso, é necessário determinar qual é o seu lugar neste desejo”(p. 67).

Temos conhecimento que o nascimento de uma criança jamais corresponde exatamente ao que os pais esperam dela. Visto que, a criança compartilha da imagem criada pelos pais, como os convencendo da sua consistência. Sendo assim, a criança identifica-se com o personagem criado, tomando-o para si, internalizando-o. E, consequentemente, agindo em função dele. Cabe, ainda, ao analista tentar captar no discurso dos pais, em que momento essa criança foi gerada e a que lugar, exigências e projeções veio atender (ROSA, 2009).

Assim, quando estamos diante de pais que solicitam ajuda para o filho, estamos também diante da problemática própria de cada um deles.  Pais e filho, “constroem” uma história cujo enredo os enreda inevitavelmente (PRISZKULNIK, 1995). Podemos, então, dizer que na análise infantil, quando buscamos o sentido do sintoma, acabamos nos defrontando com:

… À maneira pela qual uma criança é marcada, não somente pela maneira como é esperada antes do seu nascimento, como também pelo que vai ela em seguida representar para um e outro dos pais em função da história de cada um. Sua existência real vai chocar-se, assim, com as projeções paternas inconsistentes donde vêm os equívocos. Se a criança tem a impressão de que todo acesso a uma palavra verdadeira lhe é vedado, pode em certos casos procurar na doença uma possibilidade de expressão (MANNONI, citado por PRISZKULNIK, 1995).

É precisamente a constatação dos liames e dos pactos estabelecidos entre os pais e o filho que impõem a questão de escutar os pais em entrevistas durante a análise da criança. Se os pais estão implicados no sintoma do filho precisamos, também, ajudá-los a começar certo questionamento de suas dificuldades. As entrevistas com os pais podem ser esporádicas e o objetivo delas não é, em hipótese nenhuma, de orientá-los ou fazer sua psicoterapia (PRISZKULNIK, 1995).

Nos casos em que a mãe ou o pai procuram insistentemente o psicanalista com o pretexto de falar do filho, não devemos esquecer que esta insistência pode ser indício de que existe algum problema pessoal “mascarado” pelas dificuldades da criança. Numa situação destas podemos atender ao pedido, pois, com a “escuta” psicanalítica, permitiremos que a pergunta colocada por meio do filho, seja formulada através da angústia que surge quando o “disfarce” se desfaz (PRISZKULNIK , 1995). Um simples exemplo pode esclarecer esse ponto: muitos pais começam queixando-se do filho e pedindo “dicas” de como agir com ele. Se esta demanda não recebe resposta e se os pais começam a falar da vida deles, aos poucos surge a “outra” dificuldade, uma dificuldade deles em relação à própria vida; isso é possível graças  a “escuta” psicanalítica permitindo re-situar a “dificuldade” que começa como sendo com o filho e termina sendo com a própria vida deles (PRISZKULNIK,1995).

Todavia, se a procura dos pais continua a serem feitas com insistência e frequência maiores, cria-se uma situação que precisa ser conduzida com muito cuidado, pois, talvez, a indicação de uma análise torne-se  necessária; porém, esta indicação não deve ser feita tendo como causa as  dificuldades do filho do casal (PRISZKULNIK, 1995).

Vimos que muitos psicanalistas de crianças não concordam em receber os pais, nem mesmo esporadicamente, preferindo encaminhá-los a outro analista. Esta posição, entretanto, pode agora ser questionada na medida em que muitos pais têm a necessidade de falar com o analista do filho e não com um outro qualquer, ou seja, devemos lembrar que os pais estão implicados no sintoma do filho e é esta implicação que os  “conduz” a querer falar com o analista da criança. O encaminhamento para outro “lugar” pode resolver um problema do analista, mas pode trazer problemas para o tratamento do cliente, isto é, os pais podem  interrompê-lo ou “sabotá-lo” de diversas maneiras. Nos casos mais graves, tanto o pai quanto a mãe, podem simplesmente surgir, impetuosamente, na frente do analista e, algumas vezes, no horário reservado ao filho (PRISZKULNIK, 1995). Assim:

…dependendo da angústia que a análise da criança desperta nos pais, negar a possibilidade de recebê-los em nome, muitas vezes, de  uma “pureza” técnica, tanto pode criar obstáculos sérios ao ritmo  do tratamento da criança, se ela entrar num estado de insegurança  em face de continuação do mesmo, como pode até interrompê-lo,  mesmo que a criança expresse sua vontade em prosseguir (PRISZKULNIK  citado por PRISZKULNIK  1995).

Ao receber os pais para uma entrevista, devemos ouvir o que eles têm a dizer, tentando também relacionar com o tratamento do filho. Quanto mais pais e filhos estão implicados entre si, tanto mais perceberemos que um pode estar falando no “lugar” do outro como se não fossem “donos das próprias palavras” apesar de falarem, às vezes, até demais. Deste modo, tanto os pais podem fazer a criança “falar por eles”, como a criança pode fazer a mãe ou o pai “falar por ela”. Esta forma direta de receber a mensagem dos pais facilita colocar as palavras nos seus devidos “lugares”, ou seja, ajudar tanto a criança, como os pais a conseguirem falar em nome próprio (PRISZKULNIK, 1995).

Rosenberg (1994) no texto, O lugar dos pais na psicanálise de crianças, faz algumas considerações importantes. Segundo a autora, embora a participação dos pais seja essencial ao tratamento, o tratamento é da criança e é com ela que, fundamentalmente, o analista deve trabalhar.  No entanto, os pais  – ou um deles – entram no exato momento em que, devido ao peso que o intersubjetivo tem na formação do sintoma ou na estruturação das neuroses, faz-se necessário que algo também se modifique no inconsciente de um ou de ambos os progenitores, ou algo de sua relação (PRISZKULNIK, citado por Rosa, 2009).

 Ao incluí-los na sessão, pensa-se em produzir um efeito analítico que permita a continuação da análise da criança. E prossegue, segundo Rosa (2009), dizendo que, se percebermos que em algum momento não é possível promover novas associações, não há sentido em insistir com a interpretação da criança. Devemos indagar quem esta falando e onde se origina esse discurso que não pode ser processado – pronunciado – com a criança (ROSENBERG, citado por ROSA, 2009).

Quanto ao tipo de intervenção com os pais, Rosemberg (citado por Rosa, 2009) posiciona-se:

Faremos, portanto, intervenções que permitam aos pais confrontarem-se com seus desejos e recalques. Às vezes juntos, às vezes separados, com a criança ou sem ela. Não temos regras, pois, cada caso é um caso. Tampouco sabemos, por antecipação,       quando devemos incluir outro discurso no espaço de cura de uma criança, isto irá surgindo como conseqüência da escuta analítica. Deste modo, a conversa com os pais, no caso a caso, pode colaborar no trabalho com a criança e, muitas vezes, é o que dá condições de se chegar ao término da análise da criança.

7. Considerações Finais

O tratamento psicanalítico com crianças  não é um campo a parte do referencial teórico psicanalítico – embora possua suas especificidades. Tais especificidades variam de acordo com cada sujeito e devem estar em conformidade com o momento estrutural no qual a criança se encontra.

Independentemente de quem parta a demanda, a partir das formulações teóricas aqui apresentadas, observou-se ser possível a análise com crianças. Visto que ela pode demandar, a seu modo, a partir das características de seu discurso – discurso atravessado pelo discurso dos pais – e é justamente devido a esse atravessamento que os pais devem fazer parte do tratamento.

No entanto, é importante reconhecer que se o discurso dos pais funciona como uma matriz simbólica de partida, fundamental para a constituição psíquica da criança, o inconsciente infantil não é um simples reflexo do inconsciente parental. Desta maneira, entendemos que a criança deve ser ouvida como sujeito de seu próprio discurso, em que sua construção sintomática traz a marca da função simbólica dos pais, sem, no entanto, ser redutível a ela. Isto significa reconhecer a ligação fundamental entre a criança e seus cuidadores fundamentais, procurando delimitar um espaço no qual os pais e a criança possam diferenciar suas questões, imprimindo um cunho singular e único às suas narrativas.

O tratamento de crianças parece requerer uma delicadeza especial, devendo o analista atentar-se para uma estrutura não totalmente efetuada, um sujeito ainda em constituição. Com efeito, cabe ao analista a tarefa de ler a realidade psíquica da criança localizando as marcas que balizam sua constituição, para reconhecer as senhas que poderão operar sua leitura.

 

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