Quem foi Wilhelm Reich? Conheça o precursor da revolução sexual

Quando estamos buscando nos inteirar sobre o poder e influência da psicanálise, não podemos deixar de falar de Wilhelm Reich, psicanalista austríaco, precursor da “revolução sexual”. Seu trabalho no campo dos efeitos psicossomáticos foi fundamental e suas teorias trazem muitos reflexos até os dias de hoje.

Se você quer entender melhor sobre o assunto e saber como essa abordagem terapêutica pode ajudar seus pacientes, está no lugar certo. Vamos lá?

Quem foi Wilhelm Reich, afinal?

Discípulo de Sigmund Freud, Reich já apareceu no meio da psicanálise com muita visibilidade: foi o grande responsável por criar uma nova abordagem que vai além das tradicionais intervenções verbais, partindo, também, para o corpóreo.

Nascido em 1897, na Ucrânia — à época, território pertencente ao Império Austro-Húngaro —, ele desenvolveu sua sexualidade desde cedo. Sua primeira experiência foi com a cozinheira da família, ainda aos 11 anos. Em seguida, fez muitas visitas a bordéis e, como explicado pelo próprio Freud, isso foi fundamental para o desenvolvimento das suas pesquisas.

Entrou para a Associação Internacional de Psicanálise em 1920, quando ainda era estudante de medicina, e permaneceu vinculado até 1934. Já em 1921, passou a atender pacientes encaminhados por Freud e, em 1922, criou o Seminário Psicanalítico de Viena, focado na pesquisa e aperfeiçoamento desse tipo de abordagem.

Reich foi o responsável por desenvolver a Análise do Caráter, um dos maiores legados deixados para os dias de hoje, e esteva sempre focado em compreender as origens das doenças mentais. Para isso, analisava as origens sociais e se engajava com um trabalho sociopolítico que visava a prevenção dessas doenças.

O grande problema foi a ascensão do nazismo e o cenário pré-guerra, que fez com que ele sofresse grandes perseguições. Suas pesquisas custaram seu desligamento da IPA (já que a instituição poderia acabar com seu envolvimento político) e levaram-no a refugiar-se na Noruega.

Em 1939, Reich se mudou para os Estados Unidos e fundou, em conjunto com Theodore Wolfe, a Sociedade Americana de Medicina Psicossomática. Depois de 1945, suas descobertas se diversificaram e começaram a atingir outros campos, como a puericultura, psicologia de massas e pesquisas experimentais.

Qual é a sua ligação com a revolução sexual?

Como adiantamos acima, Wilhelm Reich foi um dos estudantes mais promissores de Freud. Anos mais tarde, ele foi preso acusado de estar engajado em um “golpe” sexual, também conhecido como a revolução sexual.

Os Estados Unidos eram um país muito fechado para a psicanálise — prova disso foi que a mídia local considerava os trabalhos de Reich não melhores do que a astrologia. Ele foi considerado o líder de algo chamado de “o novo culto do sexo e anarquia”.

Dr. Reich pesquisava a força energética que o organismo tinha, algo que era muito revolucionário para a época — pense que estávamos na década 40. A FDA (Administração de Alimentos e Drogas dos Estados Unidos) acreditava que ele tinha ido longe demais.

Enquanto Freud tratava a repressão sexual e neurose, Reich foi a outro patamar, explorando que a dificuldade de se render ao orgasmo vinha de traumas, gerava a neurose e, por fim, acaba guiando ao autoritarismo. Como você imagina, algo totalmente novo e inovador para a época.

Tudo isso era embasado por uma análise do caráter, ajudando os pacientes a revelar o bloqueio físico que tinham e como isso dificultava na hora de obter prazer. Esse tipo de pensamento fez com que ele precisasse se defender, pois utilizava aparelhos que ajudavam nesse tipo de diagnóstico. O tribunal proibiu o uso desses aparelhos e queimou livros e periódicos.

Quais foram as principais contribuições?

Os discípulos de Reich difundiram a abordagem em vários países, explicando sobre a Psicoterapia Corporal. Além disso, sua pesquisa clínica e com foco no experimento fez com que a relação de soma e psiquismo ficassem mais claras.

Suas pesquisas focadas na energia orgânica foram importantíssimas para fundamentar novas concepções energéticas, relacionando com conceitos de libido e energia psíquica na sexualidade.

Wilhelm Reich é um dos principais nomes dos efeitos psicossomáticos. Suas descobertas são fantásticas e vão além do envolvimento psíquico, trazendo envolvimento nas disfunções corporais. Para continuar se inteirando sobre o assunto, que tal aproveitar e ler sobre como iniciar os estudos sobre psicanálise?

Slavoj Zizek

Slavoj Zizek projeta-se como um dos pensadores mais conhecidos no cenário intelectual mundial contemporâneo: suas obras têm alcançado repercussão em muitos países, despertando atenção por sua visão insólita e peculiar a respeito da política, da filosofia, da psicanálise e de temas culturais como o cinema. Justamente pela sua condição de filósofo pop, tem sido aclamado e odiado. Sua trajetória intelectual é bastante específica. Sua formação se dá próximo da psicanálise lacaniana, abeirando-se, no mundo francês, de uma leitura estrutural da sociedade. A partir de sua base lacaniana, Zizek terá em Hegel um dos elementos centrais de sua visão filosófica.

O marxismo está presente em Zizek como caldo de cultura de sua própria vida na Iugoslávia, embora, com o desmoronamento do país, tenha se candidatado à presidência da Eslovênia com base em uma plataforma liberal, apoiando medidas de choque de capitalismo. Mas, ainda nos anos 90, volta a carregar o marxismo como uma de suas mais importantes ferramentas teóricas e práticas, ainda que de modo próprio.

Desde os tempos de sua formação intelectual, Zizek se põe num diálogo próximo com a corrente que foi denominada “pós-marxismo”, destacadamente com Ernesto Laclau e Chantal Mouffe. Mas é exatamente este diálogo que revela mostras das trilhas próprias construídas por Zizek em sua filosofia política. Enquanto nos últimos tempos Laclau erige uma teoria da razão populista, buscando um diálogo de assimilação da tradição política de Chavez, Morales e Kirchner, Zizek tem persistido pelo campo da crítica mais contundente e da desconstrução das alternativas hoje postas em campo pela política progressista já estabelecida. Pode-se argumentar que a posição de Zizek seja, para o jogo presente, ao mesmo tempo mais exigente teoricamente, porque não se contenta com a reforma, mas conservadora na prática, na medida em que a falta de apoio ao progressismo em marcha pode ser confundido com uma resistência que é, no fundo, um preferência circunstancial pelas políticas de cidadania liberal. Se esse perigo se põe na sua posição política prática, Zizek dele se afasta, no entanto, quando de sua proposição teórica.

Em seus livros recentes, a filosofia de Zizek se encaminha por um cântico de politicidade radical. Em obras como Bem-vindo ao deserto do Real! (São Paulo, Boitempo, 2003) e Às portas da revolução (São Paulo, Boitempo, 2005), Zizek investiga, no evento plenamente revolucionário, a chave para a saída do impasse da própria sociedade capitalista, liberal e democrática, cuja forma é a reprodutora das estruturas da exploração do presente. Por essa razão, é na volta a Lênin que Zizek encontrará meios de retomar a plena caminhada política contemporânea. Suas incursões, nos últimos tempos, sobre o pensamento de Mao e de Robespierre vão pela mesma linha de interesse.

O resultado de sua crescente busca pela forma política radical como elemento de resolução do impasse contemporâneo exponencia-se em seu novo livro, Em defesa das causas perdidas (São Paulo, Boitempo, 2011). Nesta obra, síntese de sua visão filosófica e política atual, Zizek alia a sua formação psicanalítica e sua crítica cultural à construção de caminhos políticos revolucionários concretos. Contra as lutas que se pautam dentro do possível, Zizek aponta ao impossível como forma de superação do presente.

Num cenário no qual o capitalismo se apresenta como único horizonte possível, em que a cidadania e o liberalismo econômico são pilares tidos como alternativas necessárias do bom-senso e da responsabilidade, é preciso dar um passo atrás para ganhar o futuro. Por isso a obra se intitula Em defesa das causas perdidas. O marxismo e as revoluções socialistas foram experiências que eletrizaram a humanidade desde o final do século XIX e durante boa parte do século XX. Hoje, são dadas como causas perdidas. É preciso, no entanto, buscá-las e defendê-las, dirá Zizek.

Das experiências radicais do passado, acusadas pelo presente de nefasto radicalismo, Zizek inverte, neste livro, os termos. Contra a contenção liberal, dirá que é o radicalismo que foi incompleto. A postura leninista, de abrir as portas da revolução mesmo contra o bom-senso, é o mote zizekiano para romper a paralisia do presente. Para tanto, as filosofias da radicalidade, como a de Heidegger, serão revisitadas por Zizek. Em razão desse horizonte de defesa da radicalidade, Zizek atrela a si, além do marxismo, um largo campo de tradições filosóficas e políticas de extrato não-liberal. Heidegger é o caso mais exemplar dessa perspectiva que se afasta dos cânones da reprodução da forma política liberal. O amálgama que Zizek estabelece entre a tradição do marxismo e as visões existenciais e radicais é bastante insólito, porque não se assenta num programa de sistematização interna, mas numa necessidade processual de combate. São as ocasiões presentes que levantam a aliança entre as frentes radicais que buscam causas perdidas.

Zizek aponta para o contraste veemente entre as radicalidades reacionária e marxista. A primeira, fascista, tem por mote a divisão, a segregação, o ódio. O socialismo tem o mote justamente contrário, a luta pela universalidade da classe trabalhadora e pela sua apropriação em comum da riqueza socialmente construída. O socialismo é o único mote radical que olha ao futuro.

Em face desse quadro, Zizek constrói sua reflexão tendo por base dois dos três grandes eixos do pensamento filosófico contemporâneo. O seu não-liberalismo faz de algumas das correntes existenciais-decisionistas e da psicanálise aliadas do marxismo, constituindo o pano de fundo da busca e da defesa das causas perdidas socialistas. O que tem identificado Zizek teoricamente, em suas últimas obras e em especial neste Em defesa das causas perdidas, é um amálgama filosófico forjado sob o esteio comum da ruptura com o liberalismo e as visões da reprodução democrática automática sob forma eleitoral e representativa mergulhadas no contexto capitalista. A dosagem de seu marxismo em face da psicanálise lacaniana ou dos excertos de filosofia não-juspositivista é fluida. Em determinadas horas, toma a frente das causas perdidas uma perspectiva existencial-decisionista. Em outros momentos de seu novo livro, é o marxismo, como crítica inclusive à forma mercantil, que pauta sua leitura de mundo.

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Se nesta sua nova obra, Em defesa das causas perdidas, Slavoj Zizek, retoma o ontem radical, na verdade mira no amanhã: romper com a cínica estabilidade do hoje é sua busca teórica sôfrega, explosiva, original e sempre dinâmica. Construindo-se conforme a intervenção no presente, Zizek exprime uma face de ponta do pensamento crítico hoje, insólito no cenário filosófico porque persiste por apontar a causa socialista como meio de transformação dos impasses do presente. Opondo-se ao pensamento conservador, para o qual a estabilidade liberal decreta o fim da história, conforme o adágio Roma locuta, causa finita (Roma falou, a causa está encerrada), Zizek pauta seu livro pela proposição invertida: Causa locuta, Roma finita. Contra a aparentemente invencível Roma do capitalismo, Zizek entoa para que a causa socialista radicalmente fale.

Aniversário do Freud

Sigmund Freud nasceu em 6 de maio de 1856, na região da Morávia, atualmente parte da República Tcheca, mas àquela época parte do Império Austríaco. Hoje comemoramos 160 anos de seu nascimento.
Freud não é apenas o pai da psicanálise, mas o fundador de uma forma completamente singular e inédita de produzir ciência e conhecimento. Ele reinventou o que se sabia sobre o ser humano, instaurando uma ruptura com toda a tradição do pensamento ocidental, a partir de uma obra em que o pensamento racional, consciente e cartesiano perde lugar exclusivo e de valor prioritário. Seus estudos sobre a vida inconsciente realizados ao longo de toda sua vasta obra, são hoje referência obrigatória para a ciência e para a filosofia contemporânea. Sua influência no pensamento ocidental não cessa de ampliar seu alcance, dialogando com e influenciando as mais variadas áreas do saber, como a filosofia, as artes, a literatua, a teoria política e as neurociências.
 
 
Filho de Jacob Freud e de sua terceira esposa, Amália Freud, Sigmund teve nove irmãos, dois do primeiro casamento do pai e sete do casamento entre seu pai e sua mãe. Era o filho mais velho de oito irmãos e era sabidamente adorado pela mãe, que o chamada de “meu Sigi de ouro”
 
Em 1860, Jacob Freud, comerciante de lã, mudou-se com a família para Viena, cidade onde Sigmund Freud residiria até perto do fim da vida, quando teria de se exilar em Londres, fugindo da perseguição nazista. De família pobre, formou-se em medicina em 1882. Divido a problemas financeiros, decidiu ingressar imediatamente na clínica médica em vez de se dedicar à pesquisa, uma de suas grandes paixões. à medida que se estabelecia como médico, pôde pensar em propor casamento para Martha Bernays. Casaram-se em 1886 e tiveram seis filhos: Mathilde, Martin, Oliver, Ernest, Shopie e Anna.
Embora o pai tenha lhe transmitido os valores do judaismo, Freud nunca seguiu as tradições e os costumes religiosos; ao mesmo tempo, nunca deixou de se considerar um homem judeu.Em algumas ocasiões, atribuiu à sua origem judaica o fato de resistir aos inúmeros ataques que a psicanálise sofreu desde o início (Freud aproximava a hostilidade sofrida pelo povo judeu ao longo da história às criticas virulentas e repetidas que a clínica e a teoria psicanalítica receberam)  A psicanálise surgiu afirmando que o inconsciente e a sexualidade eram campos inexplorados da alma humana, onde repousava todo o potencial para a ciência ainda adormecida. Freud assumia, assim,  seu propósito de remar contra a maré.
Médico neurologista de formação, foi contra a própria medicina que Freud produziu sua primeira ruptura epistêmica. Isto é: logo percebeu que as pacientes histéricas, afligidas por sintomas físicos sem causa aparente, eram, não raro, tratadas com indiferença médica e negligência no ambiente hospitalar. A histeria pediam, portanto, uma nova inteligibilidade, uma nova ciência.

Jacques Derrida

Da infância pobre na Argélia até consagração e polêmicas, vida do filósofo é narrada em livro de Benoît Peeters, que vem ao Brasil para palestras em São Paulo, Rio de Janeiro e Juiz de Fora

 


Na noite de 14 de agosto de 2004, exatamente um ano e três meses após receber o diagnóstico de um câncer no pâncreas, o filósofo franco-argelino Jacques Derrida embarcava em um voo com destino ao Rio de Janeiro. Dois dias depois, para um auditório lotado de brasileiros e estrangeiros, Derrida proferiu a sua última conferência: “O perdão, a verdade, a reconciliação: qual gênero?”. O ponto de partida era a África do Sul pós-apartheid e o estabelecimento da Comissão da Verdade e Reconciliação. A participação no colóquio “Derrida: pensar a desconstrução” foi sua última palestra. Ele morreria apenas dois meses depois.

Debilitado, um mês antes da viagem Derrida confidenciou ao organizador do evento e seu amigo pessoal, Evando Nascimento, que talvez não conseguisse comparecer. Nascimento, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e seu ex-aluno, o deixou à vontade, mas o filósofo decidiu comparecer. É o que conta o escritor e crítico Benoît Peeters na biografia “Derrida” (Civilização Brasileira), publicada na França em 2010 e que será lançada em uma série de eventos em São Paulo (dia 13), no Rio de Janeiro e em Juiz de Fora (dia 16)) a partir de segunda-feira. No Rio, Peeters fará uma palestra na midiateca da Maison de France, no Centro, quarta-feira, dia 15, às 18h.

Para o biógrafo, a viagem foi a forma encontrada pelo maior pensador do desconstrucionismo de se sentir vivo.

— Ele estava muito doente, mas acho que Derrida se sentiria morto quando deixasse de ser ativo. Mesmo muito doente, com um câncer em fase terminal e sofrendo bastante, o fato de vir ao Brasil, participar de um colóquio inteiro, proferir uma longa conferência, responder aos debatedores, tudo isso foi a forma dele de se sentir vivo e esquecer da doença num primeiro momento. Outra coisa foi o respeito pela palavra dada — conta Peeters, em entrevista por telefone.

Arquivador obsessivo

Na biografia, Peeters descreve com riqueza de detalhes todas as etapas da vida de Derrida, desde a infância humilde na família judaica na Argélia, a chegada à França, o bloqueio sofrido na academia francesa, a consagração mundial a partir dos Estados Unidos e sua não menos intensa vida após a descoberta do câncer. Para reconstruir todos esses passos, Peeters entrevistou mais de cem pessoas que conviveram com o filósofo, reuniu todas as suas entrevistas e textos publicados na imprensa e realizou uma minuciosa pesquisa nos arquivos pessoais do pensador, divididos entre a Universidade da Califórnia, em Irvine, e o Instituto Memória das Edições Contemporâneas (IMEC), na França. Além de fazer uma busca obstinada pelas cartas trocadas pelo filósofo com amigos, jornalistas e editores espalhadas pelo mundo.

O trabalho foi recompensador pela própria relação obsessiva que Derrida mantinha com os seus arquivos, segundo o biógrafo, pois guardava até os bilhetes deixados em sua sala na École Normale Supérieure (ENS), em Paris, onde lecionou entre 1964 e 1984. Com o advento dos computadores, ele começou a produzir diversas cópias dos seus arquivos e tinha um medo terrível de perdê-los. Para Peeters, ao guardar esse rico material e mantê-lo aberto ao público, ele antecipou sua futura biografia.

— A biografia era irrepresentável para ele, pois a biografia coloca a morte. É a morte que confere sentido a uma vida e permite que esta seja considerada como um todo. Imaginar a sua biografia seria imaginar o seu próprio fim, imaginar o momento em que os outros entrarão naquilo que é mais íntimo, eventualmente com respeito, mas também com indiscrição e brutalidade.

A biografia permite compreender como a infância e a juventude no norte da África influenciaram toda a sua produção intelectual, mais notadamente a partir do final da década de 1980. O antissemitismo na colônia foi muito mais forte do que na metrópole, e Derrida e os irmãos ficaram anos proibidos de frequentar a escola.

Para Peeters, o que o marca é a falta de uma sensação de pertencimento, principalmente quando ele, aos 19 anos, é enviado a Paris para cursar o preparatório do liceu Louis-le-Grand, conhecido pelo grande índice de aprovação na ENS. No liceu, Derrida dividiu bancos e corredores com Michel Serres, Michel Deguy e Pierre Bourdieu, então jovens aspirantes como ele.

Os retornos durante as férias à Argélia foram duros. Sem se sentir francês, ele também não era mais argelino. Derrida era sempre um estrangeiro. Esse sentimento se reflete em seus trabalhos e é potencializado pelas dificuldades institucionais que enfrentou. De acordo com o biógrafo, seu pensamento radical e seu estilo de fazer filosofia, que beirava a literatura, não foram bem recebidos na academia francesa. A difusão do seu pensamento explode a partir de suas viagens a universidades americanas, onde teve calorosa recepção nos departamentos de Literatura, e depois de Direito e Belas-Artes. Apesar de preterido na sucessão de Paul Ricoeur na Universidade de Paris X-Nanterre e ter a entrada recusada no Collège de France, Derrida alcançou o posto de diretor da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS).

A intensa vida intelectual do filósofo é contada no livro, incluindo as várias polêmicas com Michel Foucault, Claude Lévi-Strauss, Jürgen Habermas, entre outros. Peeters recusa, entretanto, o termo “biografia intelectual”, algo considerado impossível pelo próprio Derrida, notoriamente fascinado pela vida privada dos grandes filósofos. O autor explica que quis contar “a história de um homem inserida no seu contexto e de suas ideias em movimento”, sem mimetizar o peculiar estilo derridiano.

Derrida sempre manteve uma relação tensa com a morte, que sentia como “um espanto incansável diante daquilo que nunca compreenderei ou aceitarei”. No entanto, escreveu homenagens póstumas a amigos como Roland Barthes, Gilles Deleuze, entre vários outros. Os textos foram editados no livro “The work of mourning” (“A obra do luto”, em uma tradução livre), organizado por Pascale-Anne Brault e Michael Naas e lançado nos Estados Unidos em setembro de 2003, quatro meses após a descoberta do câncer. O filósofo cedeu farto material inédito, inclusive o que leu na cremação de Maurice Blanchot, em fevereiro daquele ano. Para amigos, Derrida apontava o dia da cerimônia como a origem simbólica da doença que o mataria.

Jacques Lacan

Biografia – Jacques Lacan (1901-1981)

     Filósofo e psicanalista francês. Suas idéias de fundo estruturalista abalaram o cenário psicanalítico da França a partir da década de 1960.

     A influência de Lacan, tido como intérprete original da obra de Freud, estendeu-se além do campo da psicanálise e fez dele uma das figuras dominantes na vida cultural francesa na década de 1970.

     Jacques Marie Lacan nasceu em Paris, em 13 de abril de 1901, de família burguesa e católica. Formou-se em medicina, especializando-se em psiquiatria, e foi interno de Gaétean de Clérambaut, a quem considerava seu único mestre no campo psiquiátrico. Com a tese de doutorado La Psychose paranoïaque dans ses rapports avec la personnalité (1932; A psicose paranóica em suas relações com a personalidade), mostrou impressionante erudição e simpatia pela psicanálise, numa época em que preconceitos obstavam sua disseminação na França.

     Lacan buscou a companhia dos artistas do surrealismo, atraídos pelo caráter revolucionário das teses freudianas. Acompanhou o famoso seminário de Alexandre Kojève sobre Hegel e se ligou a intelectuais de ponta do pensamento francês, entre eles Raymond Aron, Maurice Merleau-Ponty e Georges Bataille. Em 1934, entrou para a Sociedade Psicanalítica de Paris. Em 1936, apresentou num congresso seu trabalho sobre o “estágio do espelho”. A partir daí, sua história se confunde com a da própria psicanálise.

     Conhecedor profundo da obra de Freud, Lacan empreendeu ao mesmo tempo um retorno e uma revolução em direção a uma psicanálise que para ele havia perdido o sentido original. O retorno visou resgatar os fundamentos psicanalíticos, que para Lacan se encontram no próprio conceito de inconsciente. Para empreender sua grande crítica às vertentes americana e francesa da psicanálise, cujo tema central é a discussão sobre o imaginário, pesquisou a linguagem e deduziu que é ela a condição de existência do inconsciente, que só existe no sujeito falante.

     Numa retomada crítica dos conceitos saussurianos de “significante” e “significado”, Lacan afirmou a autonomia do significante e o inseriu na origem simbólica, constituída pela linguagem. Afirmou que o significante preexiste ao sujeito e sobrevive a ele, faz do sujeito homem ou mulher, traça seu destino e o priva de qualquer relação natural com o mundo.

     Lacan não é um autor simples nem fácil. Seus conceitos demandam, além de uma carga exaustiva de leitura, uma inversão do pensamento racional e linear a que está habituada a cultura ocidental. Em seus Écrits (1966; Escritos) e vinte seminários abordou temas tão complexos quanto polêmicos, como a ética da psicanálise, a transferência, o princípio do prazer e conceitos fundamentais da psicanálise, entre outros.

     Em 1980, dissolveu a Escola Freudiana de Paris, que fundara em 1964, e criou a Escola da Causa Freudiana. Lacan faleceu em Paris, em 9 de setembro de 1981.

©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Outra Biografia

     Nasceu em París em 13 de abril de 1901, sendo um dos quatro filhos de um comerciante de vinagres . Durante a primeira guerra mundial, o colegio a que asistia se transformou em uma especie de hospital de campanha, e é provavel que esta experiencia tenha arraigado nele o desejo futuro de uma carrera médica. No entanto, tambem por aquela época, Jacques-Marie era definido por quem o conheceu como altaneiro e distante, incapaz de organizar seu tempo e de comportar-se como os demais.

     A agitada vida intelectual de sua época, na qual figuras como André Breton, André Gide, Jules Romains, James Joyce atraíam cada vez mais sua atenção, é vivida por ele de forma tal que rechaça os valores familiares e cristãos nos quais havia sido educado. Em 1929, sofre uma profunda decepção pela partida de seu irmão Marc para a Abadia de Hautecombe. Havia decidido ordenar-se sacerdote e Jacques, que sempre havia sido seu protetor, não havia podido evita-lo.

Ao iniciar sua carreira médica, as ideias de Freud estavan ganhando cada vez más espaço dentro do pensamento frances. Havia sido criada a revista “Evolution Psichiatrique” e havia sido fundada, no mesmo dia em que Lacan fazia sua primeira apresentação como médico neurólogo, a SOCIETE PSYCHANALYTIQUE DE PARIS. Por outro lado, a literatura tambem havia acolhido com entusiasmo a nova concepção da sexualidade humana que provinha da psicanálise.

Entre 1927 e 1931 realizou os estudos necesarios para a especialização em psiquiatria. Desta época resaltam seus contatos com Henri Ey, Pierre Mâle e outras figuras daquele tempo. Tres mestres que deixaram sua influência nelel foram Georges Dumas, Henri Claude e G.Clérembault.

     Em junho de 1932 começa sua análise com Rudolph Loewenstein, quem por aqueles tempos era considerado como o melhor analista didático da SPP. Este único passo de Lacan por uma experiencia psicanalítica na qual ocupara o lugar de analizando, finalizaria abrupta e violentamente seis anos mais tarde. Na realidade, se presume que as razões que levaram Lacan a analizar-se com Loewenstein foram mais políticas que científicas, transformando-se assim a cura em algo mais parecido a um requisito que sabía indispensavel se quisesse ocupar posições de maior nivel dentro da SPP. Em alguma ocasião se ocupou de manifestar que, em verdade, Loewenstein não era o suficientemente inteligente para analiza-lo. Por seu lado, tampouco Loewenstein se privou de comentar entre seus achegados que Lacan era inanalizavel.

Logo após algumas relações amorosas vacilantes, em 1934 contrai matrimonio com Marie Louise Blondin, que era irmã de um antigo companheiro de estudos de Lacan, que este admirava profundamente. Da união nasceram tres filhos: Caroline (1936), Thibaut (1938) e Sibylle (1940). A paternidad não afetaria, no entanto, o tempo que dedicava a seus trabalhos e a divulgação dos mesmos.

Em 1941 se divorcia de M.L.Blondin e se une com Sylvia Bataille, ex-esposa de Georges, com quem tem uma filha: Judith Sophie(1941). Curiosamente, o criador do nome do pai, não pôde dar seu nome a esta nova filha, por que a lei francesa lhe proibia por não estar oficialmente divorciado até então de sua primeira esposa, e a criança foi inscrita como Judith Sophie Bataille

Em 1934 passa a ser membro aderente da SPP. Assiste ao congresso da ASOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE PSICANALISE em Marienbad, onde apresenta seu trabalho sobre o estágio do espelho (1936). Lacan consegue, finalmente em 1938, ser nomeado titular da SPP, depois de exercer pressão para que não se tivera em conta algumas opiniões desfavoráveis a sua candidatura, entre elas as de Loewenstein.

     Sob o signo de um retorno a Freud, replantou conceitos psicanalíticos através do estruturalismo e a linguística, o que marca a influência de Saussure e da antropologia de Lévi-Strauss em sua obra. Assim mesmo, foram muito importantes para as conceitualizações teóricas que tenha desenvolvido as leituras de Husserl, Nietzche, Hegel e Heidegger. Poderia dizer-se que Lacan leu Freud desde uma exterioridade: psiquiatria, surrealismo e filosofía.

A partir do interesse comum pela obra de Hegel, começa uma amizade com Georges Bataille, de quem toma seu interesse por Sade, suas reflexões sobre o impossível e sobre a heterología, de onde toma o conceito de “real”, concebido primeiro como “resto” e depois como “imposível”.

A concepção lacaniana de inconsciente como estrutura também esta plena da influencia da obra de Lévi-Strauss. Por outro lado, os laços que Lacan estabelece com Koyré, Kojève, Corbin, Heidegger, Hyppolite, Ricoeur, Althusser e Derrida, mostran que para ele todo questionamento do freudismo devia passar por uma interrogação de tipo filosófico.

A notoriedade que lhe proporcionou a frequentação do meio intelectual parisiense havía aportado a Lacan uma pequena clientela privada, porém até 1947 não recibeu demasiados pedidos de análises didáticas. Foi o médico pessoal de Picasso.

Em 1953 apresenta sua demissão a SPP. As novas formulações que havia introduzido, em particular as relativas a prática da cura, fizeram que os setores mais ortodoxos da SPP o acusaram de semear a discordia na instituição e a rebelião nos que eram seus alunos.

Se une com Lagache para fundar a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP) e durante os dez anos que durou a SFP, encontrará em Francoise Dolto, que também se incorpora a nova instituição, uma interlocutora que valorava em forma notável. 1953 também assinala o começo de seus seminarios públicos.

Em 1963 foi expulso da ASOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE PSICANALISE, e um ano máis tarde fundou a Escola Freudiana de París, junto a Dolto, Leclaire, Octave e Maud Mannoni. Seu objetivo, segundo suas proprias palavras, era a restauração da verdade no campo aberto por Freud, denunciando as desviações que obstaculizavan seu progresso. Para isto, dizia, estavam habilitados de participar unicamente aqueles que se havían formado con ele. O novo grupo esteve composto inicialmente por 134 membros, a maioría dos quais havía pertencido a SFP.

Paradoxalmente, a razão de sua posterior dissolução talvez haja estado em seu éxito: a partir de 1966 começou um processo de massificação incontrolavel, que produziu um grande incremento no número de membros, que para 1979 eram ja 609. Isto não era precisamente o desejavel para uma instituição que se havía proposto ser uma república das elites. Foi neste período que Lacan propôs o passe como nova forma de aceder ao título de didático, sustentando aquilo de que o psicoanalista não se autoriza senão em sí mesmo.

Havendo-se ja iniciado sua declinação física e intelectual, em particular logo depois de um acidente automobilístico que sofre em 1978, dissolve em 1980 a escola e funda a Causa Freudiana, que logo sería a Escola da Causa Freudiana. Nestas últimas dissoluções e fundações ja não atua sozinho, senão que seu genro J.A.Miller é quem toma a frente com seu consentimento.

Nesses tempos todavia dava alguns seminarios, porém sem a desenvoltura que tanto o havia caracterizado e que tão profunda fascinação provocava em seu auditorio. Padecía uma patologia vascular muito lenta em sua evolução, porém de origem claramente cerebral. Além disso, desde 1980 se lhe havia declarado um câncer de cólon.

Faleceu em 9 de setembro de 1981 em París.

Wilhelm Reich

wilhelm_reich_org2foi um discípulo dissidente de Sigmund Freud, propôs a gênese da neurose como consequência dos conflitos de poder que se estabelecem nas relações sociais e suas implicações emocionais e psicológicas.
Reich dava grande ênfase à importância de desenvolver uma livre expressão dos sentimentos sexuais e emocionais dentro do relacionamento amoroso maduro. Reich enfatizou a natureza essencialmente sexual das energias com as quais lidava e descobriu que a bioenergia era bloqueada de forma mais intensa na área pélvica de seus pacientes.
Ele chegou a acreditar que a meta da terapia deveria ser a libertação dos bloqueios do corpo e a obtenção de plena capacidade para o orgasmo sexual, o qual sentia estar bloqueado na maioria dos homens e das mulheres.
Embora divergindo de Freud, Reich deste não se apartou, na compreensão de que toda a psique humana deriva da compreensão das funções sexuais.
E suas opiniões radicais a respeito da sexualidade resultaram em consideráveis equívocos e distorções de seu trabalho por autores futuros e, conseqüentemente, despertaram muitos ataques difamatórios e infundados.

Jacques Lacan Formado em Medicina, passou da neurologia à psiquiatria, tendo sido aluno de Gatian de Clérambault. Teve contato com a psicanálise através do surrealismo e a partir de 1951, afirmando que os pós-freudianos haviam se desviado, propõe um retorno a Freud. Para isso, utiliza-se da lingüística de Saussure (e posteriormente de Jakobson e Benveniste) e da antropologia estrutural de Lévi-Strauss, tornando-se importante figura do Estruturalismo. Posteriormente encaminha-se para a Lógica e para a Topologia. Seu ensino é primordialmente oral, dando-se através de seminários e conferências. Em 1966 foi publicada uma coletânea de 34 artigos e conferências, os Écrits (Escritos). A partir de 1973 inicia-se a publicação de seus 26 seminários, sob o título Le Séminaire . Sua primeira intervenção na psicanálise é para situar o Eu como instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do Estádio do Espelho. [1] O Eu é situado no registro do Imaginário, juntamente com fenômenos como amor, ódio, agressividade. É o lugar das identificações e das relações duais. Distingue-se do Sujeito do Inconsciente, instância simbólica. Lacan reafirma, então, a divisão do sujeito, pois o Inconsciente seria autônomo com relação ao Eu. E é no registro do Inconsciente que deveríamos situar a ação da psicanálise.
É na década de 1970 que Lacan dará cada vez mais prioridade ao registro do Real. Em sua tópica de três registros, Real, Simbólico e Imaginário, RSI, ao Real cabe aquilo que resiste a simbolização, “o real é o impossível”, “não cessa de não se inscrever”. Seu pensamento sobre o Real deriva primeiramente de três fontes: a ciência do real, de Meyerson, da Heterologia, de Bataille, e do conceito de realidade psíquica, de Freud. O Real toca naquilo que no sujeito é o “improdutivo”, resto inassimilável, sua “parte maldita”, o gozo, já que é “aquilo que não serve para nada”. Na tentativa de fazer a psicanálise operar com este registro, Lacan envereda pela Topologia, pelo Nó Borromeano, revalorizando a escrita, constrói uma Lógica da Sexuação (“não há relação sexual”, “A Mulher não existe”). Se grande parte de sua obra foi marcada pelo signo de um retorno a Freud, Lacan considera o Real, junto com o Objeto a (“objeto ausente”), suas criações.

Otto Rank

Otto_rank_sigmund_freud_mareOtto Rank (1884-1939) era um estudante de 21 anos quando encontrou Sigmund Freud. Rank seguiu adiante para fazer um doutorado em psicologia e por fim tornar-se par de Freud. Ele via cada pessoa como um artista cuja tarefa final é a criação de uma personalidade individual. Para Rank, o neurótico é um artiste manque, uma pessoa cujo forte impulso criativo é frustrado pelo uso negativo da vontade.

DIALÉTICA RANKIANA. A base para o seu rompimento com Freud foi a visão de Rank de que o trauma do nascimento é mais importante do que o conflito edípico. Segundo Rank, as experiências físicas e psicológicas do nascimento dão lugar a uma ansiedade primal que é lidada através de repressão primal. O conflito intrapsíquico crucial que ocorre em todas as fases desenvolvimentais é o conflito entre manter a bem-aventurança primal do apego e experimentar a excitação e o medo associados à separação.

A união posiciona-se em contraste à separação; semelhança posiciona-se em contraste com diferença. União-separação e semelhança-diferença são polaridades mantidas em tensão. Na fase adulta, o movimento em direção a uma outra pessoa é possível apenas se a pessoa sabe quem é, o que pode ocorrer apenas através de ter experimentado separação. O movimento em direção à autonomia é possível apenas após a pessoa ter estabelecido o senso de pertencer e autovalor que deriva da experiência de pertencer.

Mover em direção à união ou separação não é um processo biológico inato. Ele é, ao contrário, um ato de vontade. Ao mover-se em direção e engajar-se com um outro, todas as pessoas experimentam sua necessidade de pertencer. Afastar-se de outros permite a pessoa experimentar sua singularidade. A maturidade é, em certo sentido, o triunfo da vontade sobre as forças – culpa, medo da morte e medo da vida – que inibem o movimento tanto em direção como para longe dos outros.

Rank via a culpa como o preço a ser pago por qualquer ato de vontade. Mover-se em direção à união causa culpa sobre estar necessitado; afastar-se causa culpa de abandonar a outra pessoa. Medo de morte é o medo de perder a indentidade fundindo-se com uma outra pessoa. Quanto mais fraca é a identidade pessoal de alguém, mais forte é o medo de morte. Medo de vida, por contraste é o medo de perder todas as ligações no processo de tornar-se separado. Cada pessoa experimenta o ciclo do movimento de união para a separação novamente como parte do processo da vida. O movimento ocorre em diversos níveis: familiar, social, artístico e espiritual. A cada nível, há um ou mais movimentos em direção à união e renascimento. Cada pessoa, por exemplo, em geral cede a uma experiência de amor na qual diferenças pessoais são colocadas de lado para experimentar unidade um com ou outro, para experimentar autovalor e ser aliviado do sentimento de diferença. A submissão para um outro termina quando a vontade afirma sua separação e uma nova afirmação de individualidade ocorre.

Vontade, o motor primário na dialética rankiana, é uma força criativa irredutível. Ela não é somente uma agência para a expressão de impulsos sexuais ou agressivos freudianos; nem ela é uma vontade de poder no sentido adieriano. O começo da vontade está no “não” da criança, uma asserção do que ela não fará. Na maturação, a vontade torna-se uma força positiva. Pessoas neuróticas, no entanto, negam sua vontade devido às culpa em relação ao que elas desejam. Elas lidam com esta culpa usando mecanismos de defesa como projeção e racionalização. Visto desta perspectiva, as pessoas neuróticas têm vontade forte e não podem reconhecer o que elas desejam e sequer que elas desejam. Em decorrência, elas não podem usar sua vontade construtivamente a serviço de suas maiores criações artísticas potências, suas próprias personalidades.

TRATAMENTO. A psicoterapia rankiana é uma interação aqui e agora com o terapeuta que mobiliza a vontade do paciente e resulta em uma experiência de renascimento. O tratamento, que tem tempo limitado, é focalizado no relacionamento com o terapueta. No relacionamento terapeuta-paciente, são reencenadas lutas de vida anteriores, especialmente lutas envolvendo intimidade. Após os pacientes serem fortalecidos através da aceitação do terapeuta, eles iniciam um processo de asserção de vontade negativa que é visto como resistência na análise clássica. Rank considerou a asserção de vontade negativa como indicativa de crescimento e a apoiava. Uma vez capaz de prover auto-afirmação por conta própria, os pacientes liberam-se do terapeuta e começam a individuar-se. Eles superam o medo da vida vivendo à altura do seu potencial total.

A terapia não visa reconstruir história pessoal. Ela é uma luta no aqui e agora entre o terapeuta como um representante de objetos de transferência e da realidade. A meta da terapia é liberar a vontade do paciente.

O processo terapêutico forma um paralelo com o processo do crescimento da personalidade. A princípio, o relacionamento terapêutico recapitula relacionamentos prototípicos iniciais. A primeira experiência de renascimento para pacientes é reivindicar suas próprias personalidades individuais e sua singularidade como seres humanos. A segunda fase é a sua descoberta do universo físico e sua semelhança com ele. Posteriormente, eles reivindicam sua distinção como criadores de si mesmos. Com a emergência do self, os pacientes unem-se com a realidade ideológica, filosófica e espiritual e experimentam o nascimento final da pessoa ideal, uma pessoa autopreenchida que não mais precisa criar para justificar sua existência.

Melanie Klein

        1007837-Melanie_KleinUma analista leiga educada na Alemanha, Melanie Klein (1882-1960) desenvolveu uma escola de psicanálise na Inglaterra. Ela foi uma teórica das relações de objeto, autora da teoria do “desenvolvimento psicossexual e piscopatologia” embasada em eventos intrapsíquicos e interpessoais que supostamente ocorrem durante o primeiro ano de vida. Sua teoria da psicopatologia, baseada na observação de brinquedo livre de crianças, diz que a agressão inata excessiva ou a reação psíquica à agressão era a causa de distúrbios emocionais severos como os transtornos psicóticos. Ela tentou lidar com as forças intrapsíquicas com a técnica analítica clássica e interpretação precoce de impulsos inconscientes. Assim como Anna Freud, ela foi uma pioneira em análise infantil, mas, ao contrário de Anna Freud, ela excluiu os pais do tratamento porque acreditava que o problema fundamental era intrapsíquico. As principais contribuições de Klein estão em sua ênfase sobre a importância das relações de objeto iniciais, a demonstração da função do superego cedo no desenvolvimento psíquico, sua descrição das defesas primitivas características do transtorno de personalidade limítrofe e psicose e seu uso do brinquedo das crianças com um meio para a interpretação.

TEORIA DA PERSONALIDADE. Melanie Klein concordou com Sigmund Freud que a agressão e a libido são os dois instintos básicos. Ela também concordou com Freud que o instinto agressivo é uma extensão do instinto de morte e a libido uma extensão do instinto de vida. Klein divergiu de Freud na suposição de que o ego existe ao nascimento. Ela acreditava que o instinto de morte é traduzido após o nascimento em sadismo oral, o qual, projetado para fora, dá lugar às fantasias de um seio mau, destrutivo, devorador. Tanto agressão como libido são expressas desde o nascimento em diante por fantasias inconscientes. Klein diferenciou inveja, ganância e ciúme como manifestações do instinto agressivo. Inveja é o sentimento raivoso de que alguém mais tem e desfruta de algo desejável; a resposta invejosa é tomar isso ou estragá-lo. Inveja oral, por exemplo, resulta da fantasia de que o seio frustrante retém deliberadamente. Ela conduz a esforços de danificar o seio frustrante e torná-lo menos desejável. Esta inveja primária dá lugar a outras formas de inveja, incluindo a inveja do pênis. Em um nível mais maduro, a inveja é voltada em direção à criatividade dos outros e frustra o desenvolvimento da criatividade pessoal devido ao medo da inveja projetada sobre os outros. Ganância é a manifestação da insaciabilidade humana; sua meta é a absorção destrutiva do objeto desejado. Ciúme é o medo de perder o que se tem. Ela se desenvolve a partir de relacionamentos triangulares, como na situação edípica; a terceira pessoa é odiada porque esta pessoa recebe amor ou atenção e potencialmente diminui a disponibilidade das provisões libidinais. Embora o instinto de morte seja em grande parte projetado como medos paranóides, parte dele funde-se com a libido, dando lugar a tendências masoquistas.

Desde o momento do nascimento, o ego tenta preservar uma visão de si mesmo como apenas uma fonte de prazer e sentimentos positivos; tensão e desprazer são projetados sobre objetos que são então vistos como persecutórios. O bebê fica grato quando é física ou emocionalmente saciado. Esta gratidão, a manifestação mais precoce do instinto de vida é a base do amor e da generosidade. Libido é investida em objetos como o seio. O seio gratificante é então introjetado como a base para um sentimento do self como bom. A projeção do objeto interno bom sobre objetos recém-experimentados é a base da confiança, o que torna a aprendizagem e o acúmulo de conhecimento possíveis.

Teoria do ego. O ego tanto experimenta como se defende contra a ansiedade. Ele desenvolve e mantém relações de objeto e tem funções integrativas e sintéticas. A ansiedade é a resposta do ego ao instinto de morte. Ela é reforçada pela separação do nascimento e por necessidades corporais frustrantes como a fome. A princípio, o medo de objetos persecutórios, a ansiedade posteriormente torna-se o medo de objetos maus introjetados que são a origem da ansiedade de superego primitiva. Medos de ser devorado no estágio oral do desenvolvimento tornam-se medos do estágio anal de ser controlado e envenenado e os medos edípicos de castração.

Os principais meios de crescimento do ego e defesa de ego são projeção e introjeção, os quais integram o ego e neutralizam o instinto de morte. Projeção de tensões internas e percepção de estímulos externos dolorosos resulta em medos paranóides. Sua projeção resulta em objetos persecutórios internalizados. A projeção de estados prazerosos dá lugar à confiança. A introjeção de experiências positivas torna possível desenvolver bons objetos internos que são a base para o crescimento do ego. Anteriormente objetos no ambiente, tais como a mãe, são reconhecidos como tal, determinados aspectos, como o seio, são tratados como objetos. Assim, um estágio transicional nas relações de objeto é relações de objeto parciais.

Experiências desagradáveis e emoções associadas a objetos externos e introjetados são dissociadas de experiências e emoções agradáveis através de um processo de cisão. À medida que a criança amadurece, a cisão diminui, a síntese de bons e maus aspectos de objetos ocorre e relacionamentos ambivalentes tomam-se possíveis. Relações de objeto parciais caracterizam o estágio mais inicial do desenvolvimento,a posição paranóide-esquizóide; as relações de objeto totais caracterizam a posição depressiva. A eventual síntese de bons e maus objetos parciais capacita o crescimento de ego e a integração da realidade. Se a agressão predomina sobre a libido, a idealização ocorre e a cisão é reforçada. O reforço de cisão pode interferir com a percepção acurada e pode resultar na eventual negação da realidade.

Idealização é uma operação defensiva que preserva objetos internos e externos todos bons, deste modo satisfazendo fantasias de gratificação ilimitada, como um seio inexaurível para proteger contra frustração. Objetos externos idealizados também protegem contra objetos persecutórios. Fuga em direção a um objeto interno bom idealizado pode proteger a pessoa da realidade, mas pode fazer isso ao custo de testagem de realidade prejudicada e pode dar lugar a estados psicóticos exaltados ou messiânicos.

Identificação projetiva, o protótipo de todos os mecanismos projetivos, a projeção de partes dissociadas de um objeto interno sobre uma outra pessoa é usada principalmente para expelir maus objetos internos e partes más do self. A pessoa sobre quem a projeção de impulsos sádicos é feita passa a ser vista como um perseguidor que deve ser controlado. Tentativas de controlar o perseguidor percebido então se tornam um veículo para a atuação de sadismo contra o perseguidor imaginado.

Embora Klein concordasse que fatores ambientais podem desempenhar um papel em estimular a agressão excessiva, ela enfatizou como a causa de distúrbio emocional a força inata da agressão, aliada à formação de ansiedade excessiva do ego e baixa tolerância de ansiedade.

Posições esquizo-paranóide e depressiva. O termo “posição foi preferido por Klein em relação a “estágio” porque ele enfatiza o efeito do ponto de vista da criança sobre suas relações de objeto. A posição paranóide-esquizóide e a posição depressiva ocorrem na primeira e segunda metade, respectivamente, do primeiro ano de vida. Elas também podem ocorrer em diversos momentos na vida como constelações defensivas e estão envolvidas em conflitos relacionados a todos os níveis psicossexuias.

A posição paranóide-esquizóide é caracterizada por dissociação, idealização, negação, identificação projetiva, relações de objeto parciais e uma preocupação básica ou ansiedade persecutórias sobre a sobrevivência do self.

Os medos persecutórios são impulsos oral-sádicos e anal-sádicos projetados. Se eles não são superintensos, a posição esquizo-paranóide dá lugar, nos segundos seis meses de vida, à posição depressiva. Se, no entanto, a agressão inata é abertamente forte e se maus introjetos predominam, a dissociação secundária dos maus introjetos pode levar a projeção sobre muitos objetos externos, resultando em muitos perseguidores externos. A dissociação pode persistir e fragmentar experiências afetivas, levando a despersonalização ou superficialidade afetiva. Ela pode também interferir na percepção acurada e conduzir a negação da realidade. Na posição depressiva, a libido predomina sobre a agressão, o bebê reconhece que sua mãe tanto gratifica como frustra e ele se torna ciente de sua própria agressão voltada em direção a ela. O reconhecimento da mãe como uma pessoa integral torna a criança vulnerável à perda, especialmente perda causada pela agressão da criança. O mecanismo da idealização evolui durante o período depressivo na idealização do objeto bom (mãe) como uma defesa contra a agressão da criança em direção a ela e sua culpa acompanhante. Este tipo de idealização conduz a uma superdependência sobre outros. Os maus aspectos de pessoas necessárias são negados, levando a um empobrecimento tanto da experiência de realidade como da testagem de realidade. A posição depressiva também mobiliza defesas maníacas, cuja principal característica é a negação de realidades psíquicas dolorosas. Sentimentos ambivalentes e dependência de outros são negados; objetos são onipotentemente controlados e tratados com desprezo, de modo que a sua perda não dá lugar a dor ou culpa.

TEORIA DO SUPEREGO. O superego kleiniano funciona como o superego freudiano clássico. Ele coloca valor sobre o comportamento e ele pune ou proíbe o comportamento que ele considera ser errado ou mau. Klein sustentou que o desenvolvimento do superego começa durante a posição depressiva; a pressão de superego excessiva causa regressão para a posição esquizo-paranóide. O superego desenvolve-se de maus objetos projetados cindidos experimentados como persecutórios, que são posteriormente introjetados. Culpa é a reação aos impulsos sádicos atribuída a estes introjetos que se tornam parte do self. No período depressivo, os objetos são introjetados tanto no ego como no superego. O ego assimila os objetos com os quais ele pode identificar-se positivamente. O superego assimila os aspectos proibitivos exigentes destes objetos. O predomínio normal de amor sobre ódio na posição depressiva resulta na internalização de objetos principalmente bons no superego. Estes objetos bons neutralizam os objetos internos maus, mas mesmo sob circunstâncias ideais predominantemente bons objetos de superego são contaminados pelos objetos maus. O superego, portanto, tem qualidades persecutórias (derivadas de introjetos persecutórios) e exigentes (derivadas dos aspectos exigentes dos pais bons idealizados).

Através da culpa ou preocupação em relação à perda de amor parental, o superego protege seus objetos bons introjetados. Quanto mais idealizados são os bons objetos contidos no superego, mais perfeccionistas são as exigências do superego. A idealização de objetos internos bons geralmente conduz a bom comportamento e a compensação pelo mau comportamento.

ESTÁGIOS INICIAIS DO COMPLEXO DE ÉDIPO. Os estágios iniciais do complexo de Édipo começam durante a posição depressiva. Klein supôs um conhecimento inato dos genitais de ambos sexos, com fantasias orais e genitais influentes desde o nascimento em diante. O desejo por dependência oral da mãe é deslocado para o pai. Ansiar pelo seio bom torna-se um desejo pelo pênis do pai. O seio mau é também deslocado para o pênis mau. A predominância nos meninos de uma boa imagem do pênis do pai promove o desenvolvimento do complexo de Édipo positivo; confiar em um pai bom e dotar a mãe com um pênis bom inicia um complexo de Édipo positivo em meninas. Quando a agressão predomina, o menino edípico vê o pai como um perigoso castrador potencial. O medo de castração é, de fato, o medo do desejo oral-sádico projetado de destruir o pênis do pai. Este medo torna a identificação com o pai difícil e predispõe à inibição sexual e medo de mulheres. Culpa em relação à agressão em direção ao pai reforça a repressão do complexo de Édipo. Boas experiências orais em meninas resultam na expectativa de um pênis bom; esta expectativa baseia-se na experiência de um seio bom. Agressão excessiva em meninas pode dar lugar a fantasias inconscientes de roubar a mãe do amor, do pênis e dos bebês do pai e pode estimular medos de retaliação materna. Em meninas, os desejos orais e genitais pelo pênis do pai combinam com inveja do pênis desenvolvendo-se como um derivativo da inveja do seio interior. Deste modo, a inveja do pênis deriva de sadismo oral e não é uma inveja primária dos genitais masculinos ou um aspecto primário da sexualidade feminina.

À medida que a cisão decresce durante o primeiro ano de vida, a criança torna-se ciente de que bons e maus objetos externos são em realidade um só. Os bebês então reconhecem sua agressão em direção ao objeto bom e também reconhecem os aspectos bons das pessoas a quem eles atacaram por ser más. Este reconhecimento corta o mecanismo de projeção. Além disso, as crianças tornam-se cientes das suas próprias partes infernais, mas, em contraste com o medo de prejuízo externo encontrado na posição esquizo-paranóide, o medo principal na posição depressiva é de prejudicar os objetos externos e internos bons daí a necessidade para o superego.

A tarefa emocional principal da posição depressiva é lidar com o medo do ego de perder os objetos externos e internos bons. As reações emocionais correspondentes são ansiedade e culpa. A preservação de objetos bons torna-se mais importante do que preservar o próprio ego. Objetos maus internalizados que foram anteriormente projetados compõem o ego primário, o qual ataca o ego com sentimentos de culpa. Os maus objetos dentro do superego, conforme observado acima, podem contaminar os bons objetos internos do superego que se tornaram incorporados no superego devido às suas demandas por determinados tipos de comportamento (eu amarei você se você fizer bem as suas tarefas; eu aceitarei você apenas se você trabalhar duro).

MECANISMOS DE RESOLUÇÃO DO TRABALHAR. Normalmente, os mecanismos de reparação, aumentados pela testagem de realidade, aceitação de ambivalência, gratidão e luto capacitam a criança a resolver o período depressivo. A reparação, o antecedente da sublimação, é um esforço saudável para reduzir culpa em relação a ter atacado o objeto bom tentando reparar o dano, expressando amor e gratidão e assim, preservando-o. A criança chora, corre para a mãe, joga seus braços ao redor dela e diz “desculpa”.

A testagem de realidade aumentada resulta de cisão reduzida e da capacidade crescente de avaliar objetos inteiros e o self total. Os objetos introjetados são vistos como inteiros e vivos, ao invés de como fragmentos autônomos. Através de ser amadas, as crianças vêm a enxergar a si mesmas e a seus objetos internos como bons. A crescente percepção de amar e odiar a mesma pessoa promove a capacidade de experimentar e tolerar ambivalência, idealmente com uma preponderância de amor sobre ódio. Klein acreditou que o luto normalmente reativa a culpa da posição depressiva, a diferença sendo que, durante o desmame na posição depressiva, a mãe boa real ainda está presente e ajuda o bebê a reconstituir e consolidar objetos internos bons.

PSICOPATOLOGIA. Muitos tipos de psicopatologia severa são atribuídos à fixação em uma das duas posições kleinianas. A fixação na posição esquizo-paranóide conduz a alguns transtornos psicóticos. Os transtornos psicóticos em geral negam a realidade, usam projeção extensamente e engajam-se em dissociação. Escape para um objeto interno idealizado conduz a estados exaltados autistas; dissociação generalizada e reintrojeção de objetos fragmentados múltiplos conduz a estados de confusão. Medo predominante de perseguidores externos é a marca registrada do transtorno delirante; projeção de perseguidores sobre o próprio corpo resulta em hipocondríase. As pessoas com transtorno de personalidade esquizóide são emocionalmente superficiais e intolerantes de culpa, tendem a experimentar os outros como hostis e retraem-se de relações de objeto.

A partir da fixação, na posição depressiva vem o luto patológico (depressão) ou o desenvolvimento excessivo de defesas maníacas. O luto patológico resulta da destruição fantasiada por ataque sádico de objetos internos e externos bons. Os objetos internos maus que permanecem funcionam como um superego sádico primitivo evocando culpa excessiva e estimulando o sentimento de que todos os objetos bons estão mortos e que o mundo não tem amor. O superego sádico é cruel, exige perfeição e opõe-se aos instintos. Tentativas são feitas para idealizar objetos externos como um meio de autopreservação; deste modo, quaisquer reprovações são feitas contra o eu, ao invés de aos outros. O suicídio pode incorporar a noção de que o objeto externo bom pode ser preservado apenas através da destruição do self mau.

Síndromes hipomaníacas e maníacas são promovidas por um predomínio de defesas maníacas, incluindo onipotência, identificação com o superego, introjeção, o triunfo maníaco e idealização maníaca. A onipotência resulta da identificação com um objeto bom idealizado e negação do resto da realidade. A identificação com um superego sádico permite que objetos externos sejam tratados com desprezo. A introjeção é manifestada como fome de objeto, com negação de perigo para e dos objetos; triunfo maníaco é manifestado por um senso de ter conquistado o mundo; e idealização maníaca é manifestada por fantasias de fusão com Deus.

TÉCNICA. Klein acreditava que todas as situações produtoras de ansiedade, incluindo a hora analítica, reativam ansiedades das posições paranóide, esquizóide e depressiva. As defesas e medos primitivos são interpretados da primeira sessão em diante tão profundamente quanto possível e envolvem material tanto de transferência (você deseja me aniquilar) como de não transferência (você desejou eliminar o seio mau da sua mãe). A mesma técnica é usada com todos os pacientes, focalizando sobre fantasias inconscientes que representam o conteúdo e as operações defensivas nos níveis mais primitivos da mente. A técnica foi usada até mesmo com crianças com menos de 6 anos de idade, usando seu brinquedo livre como a base para a interpretação em sessões de 50 minutos cinco dias por semana. Para Klein, o brinquedo livre de uma criança era análogo as livre-associações de um adulto. Suas visões opuseram-se às de Anna Freud, a outra analista infantil dominante do dia que sustentava que a análise do complexo de Édipo de crianças pré latência não é possível, já que ela pode interferir com relacionamentos parentais; a análise desta criança é em grande parte uma experiência educacional para a criança; que uma neurose de transferência não pode ser efetuada devido à atividade dos pais na vida diária da criança; e que o analista deveria fazer todo o esforço para obter a confiança da criança. Klein sustentou que uma neurose de transferência pode ser efetuada e então resolvida por interpretação. Ao invés de tentar obter favor com a criança, Klein imediatamente interpretava transferências negativas (você quer se ver livre de mim) e verificou que fazer isso aliviava a ansiedade ao invés de intensificá-la.

Terapeutas kleinianos são interessados em tratar pacientes nos quais conflitos e defesas primitivos predominam. Eles fazem isso assumindo uma posição estritamente interpretativa, interpretando tanto aspectos negativos como positivos da transferência, mas especialmente enfatizando os aspectos negativos.

Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung (1875-1961)

Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung

Jung e Sua Obra

Carl Gustav Jung nasceu a 26 de julho de 1875, em Kresswil, Basiléia, na Suíça, no seio de uma família voltada para a religião. Seu pai e vários outros parentes eram pastores luteranos, o que explica, em parte, desde a mais tenra idade, o interesse do jovem Carl por filosofia e questões espirituais e o pelo papel da religião no processo de maturação psíquica das pessoas, povos e civilizações. Criança bastante sensível e introspectiva, desde cedo o futuro colega de Freud demonstrou uma inteligência e uma sagacidade intelectuais notáveis, o que, mesmo assim, não lhe poupou alguns dissabores, como um lar algumas vezes um pouco desestruturado e a inveja dos colegas e a solidão.

Ao entrar para a universidade, Jung havia decidido estudar Medicina, na tentativa de manter um compromisso entre seus interesses por ciências naturais e humanas. Ele queria, de alguma forma, vivenciar na prática os ideais que adotava usando os meios dados pela ciência. Por essa época, também, passou a se interessar mais intensamente pelos fenômenos psíquicos e investigou várias mensagens hipoteticamente recebidas por uma médium local (na verdade, uma prima sua), o que acabou sendo o material de sua tese de graduação, “Psicologia e Patologia dos Assim Chamados Fenômenos Psíquicos”.

Em 1900, Jung tornou-se interno na Clínica Psiquiátrica Bugholzli, em Zurique, onde estudou com Pierre Janet, em 1902, e onde, em 1904, montou um laboratório experimental em que criou seu célebre teste de associação de palavras para o diagnóstico psiquiátrico. Neste, uma pessoa é convidada a responder a uma lista padronizada de palavras-estímulo; qualquer demora irregular no tempo médio de resposta ou excitação entre o estímulo e a resposta é muito provavelmente um indicador de tensão emocional relacionada, de alguma forma, com o sentido da palavra-estímulo. Mas tarde este teste foi aperfeiçoado e adaptado por inúmeros psiquiatras e psicólogos, para envolver, além de palavras, imagens, sons, objetos e desenhos. É este o princípio básico usado no detector de mentiras, utilizado pela polícia científica. Estes estudos lhe granjearam alguma reputação, o que o levou, em 1905, aos trinta anos, a assumir a cátedra de professor de psiquiatria na Universidade de Zurique.

Neste ínterim, Jung entra em contato com as obras de Sigmund Freud (1856-1939), e, mesmo conhecendo as fortes críticas que a então incipiente Psicanálise sofria por parte dos meio médicos e acadêmicos na ocasião, ele fez questão de defender as descobertas do mestre vienense, convencido que estava da importância e do avanço dos trabalhos de Freud. Estava tão enstusiasmado com as novas perspectivas abertas pela psicanálise, que decidiu conhecer Freud pessoalmente. O primeiro encontro entre eles transformou-se numa conversa que durou treze horas ininterruptas.

A comunhão de idéias e objetivos era tamanha, que eles passaram a se corresponder semanalmente, e Freud chegou a declarar Jung seu mais próximo colaborador e herdeiro lógico, e isso é algo que tem de ser bem frisado, a mútua admiração entre estes dois homens, frequentemente esquecida tanto por freudianos como por junguianos. Porém, tamanha identidade de pensamentos e amizade não conseguia esconder algumas diferenças fundamentais, e nem os confrontos entre os fortes gênios de um e de outro. Jung jamais conseguiu aceitar a insistência de Freud de que as causas dos conflitos psíquicos sempre envolveriam algum trauma de natureza sexual, e Freud não admitia o interesse de Jung pelos fenômenos espirituais como fontes válidas de estudo em si.

O rompimento entre eles foi inevitável, ainda que Jung o tenha, de certa forma, precipitado. Ele iria acontecer mais cedo ou mais tarde. O rompimento foi doloroso para ambos. O rompimento turbulento do trabalho mútuo e da amizade acabou por abrir uma profunda mágoa mútua, nunca inteiramente assimilada pelos dois principais gênios da Psicologia do século XX e que ainda, infelizmente, divide partidários de ambos os teóricos.

Anterior mesmo ao período em que estavam juntos, Jung começou a desenvolver uma sistema teórico que chamou, originalmente, de “Psicologia dos Complexos”, mais tarde chamando-a de “Psicologia Analítica”, como resultado direto de seu contato prático com seus pacientes. O conceito de inconsciente já está bem sedimentado na sólida base psiquiátrica de Jung antes de seu contato pessoal com Freud, mas foi com Freud, real formulador do conceito em termos clínicos, que Jung pôde se basear para aprofundar seus próprios estudos.

O contato entre os dois homens foi extremamente rico para ambos, durante o período de parceria entre eles. Aliás, foi Jung quem cunhou o termo e a noção básica de “complexo”, que foi adotado por Freud. Por complexo, Jung entendia os vários “grupos de conteúdos psíquicos que, desvinculando-se da consciência, passam para o inconsciente, onde continuam, numa existência relativamente autônoma, a influir sobre a conduta” (G. Zunini). E, embora possa ser freqüentemente negativa, essa influência também pode assumir características positivas, quando se torna o estímulo para novas possibilidades criativas.

Jung já havia usado a noção de complexo desde 1904, na diagnose das associações de palavras. A variância no tempo de reação entre palavras demonstrou que as atitudes do sujeito diante de certas palavras-estímulo, quer respondendo de forma hesitante, quer de forma apressada, era diferente do tempo de reação de outras palavras que pareciam ter estimulação neutra. As reações não convencionais poderiam indicar (e indicavam de fato) a presença de complexos, dos quais o sujeito não tinha consciência.

Utilizando-se desta técnica e do estudo dos sonhos e de desenhos, Jung passou a se dedicar profundamente aos meios pelos quais se expressa o inconsciente. Os sonhos pessoais de seus pacientes o intrigavam na medida em que os temas de certos sonhos individuais eram muito semelhantes aos grandes temas culturais ou mitológicos universais, ainda mais quando o sujeito nada conhecia de mitos ou mitologias.

O mesmo ocorria no caso dos desenhos que seus pacientes faziam, geralmente muito parecidos com os símbolos adotados por várias culturas e tradições religiosas do mundo inteiro. Estas similaridades levaram Jung à sua mais importante descoberta: o “inconsciente coletivo”.

Assim, Jung descobrira que além do consciente e inconsciente pessoais, já estudados por Freud, existiria uma zona ou faixa psíquica onde estariam as figuras, símbolos e conteúdos arquetípicos de caráter universal, freqüentemente expressos em temas mitológicos. Por exemplo, o mito bíblico de Adão e Eva comendo do fruto da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e, por isso, sendo expulsos do Paraíso, e o mito grego de Prometeu roubando o fogo do conhecimento dos deuses e dando-o aos homens, pagando com a vida pelo sua presunção são bem parecidos com o moderno mito de Frankenstein, elaborado pela escritora Mary Schelley após um pesadelo, e que toca fundo na mente e nas emoções das pessoas de forma quase “instintiva”, como se uma parte de nossas mentes “entendesse” o real significado da história: o homem sempre paga um alto preço pela ousadia de querer ser Deus.

Enquanto o inconsciente pessoal consiste fundamentalmente de material reprimido e de complexos, o inconsciente coletivo é composto fundamentalmente de uma tendência para sensibilizar-se com certas imagens, ou melhor, símbolos que constelam sentimentos profundos de apelo universal, os arquétipos: da mesma forma que animais e homens parecem possuir atitudes inatas, chamadas de instintos, também é provável que em nosso psiquismo exista um material psíquico com alguma analogia com os instintos. Talvez, as imagens arquetípicas sejam algo como que figurações dos próprios instintos, num nível mais sofisticado, psíquico. Assim, não é mais arriscado admitir a hipótese do inconsciente coletivo, comum a toda a humanidade, do que admitir a existência instintos comuns a todos os seres vivos.

Assim, em resumo, o inconsciente coletivo é uma faixa intra-psíquica e inter-psíquica, repleto de material representativo de motivos de forte carga afetiva comum a toda a humanidade, como, por exemplo, a associação do feminino com características maternas e, ao mesmo tempo, em seu lado escuro, cruéis, ou a forte sensação intuitiva universal da existência de uma transcendência metaforicamente denominada Deus.

A mãe boa, por exemplo, é um aspecto do arquétipo do feminino na psique, que pode ter a figura de uma deusa ou de uma fada, da mãe má, ou que pode possuir os traços de uma bruxa; a figura masculina poderá ter uma representação num sábio, que geralmente é representado por um ermitão, etc. As figuras em si, mais ou menos semelhantes em várias culturas, são os arquétipos, que nada mais são que “corpos” que dão forma aos conteúdos que representam: o arquétipo da mãe boa, ou da boa fada, representam a mesma coisa: o lado feminino positivo da natureza humana, acolhedor e carinhoso.

Este mundo inconsciente, onde imperam os arquétipos, que nada mais são que recipientes de conteúdos ainda mais profundos e universais, é pleno de esquemas de reações psíquicas quase “instintivas”, de reações psíquicas comuns a toda a humanidade, como, por exemplo, num sonho de perseguição: todas as pessoas que sonham ou já sonharam sendo perseguidas geralmente descrevem cenas e ações muito semelhantes entre si, senão na forma, ao menos no conteúdo.

A angústia de quem é perseguido é sentida concomitantemente ao prazer que sabemos ter o perseguidor no enredo onírico, ou a sua raiva, ou o seu desejo. Estes esquemas de reações “instintivas” (uso esta palavra por analogia, não por equivalência) também se encontram nos mitos de todos os povos e nas tradições religiosas. Por exemplo, no mito de Osires, na história de Krishna e na vida de Buda encontramos similaridades fascinantes.

Sabemos que mitos encobrem freqüentemente a vida de grandes homens, como se pudessem nos dizer algo mais sobre a mensagem que eles nos trouxeram, e quanto mais carismáticos são esses homens, mais a imaginação do povo os encobrem em mitos, e mais esses mitos têm em comum. Estes padrões arquetípicos expressos quer a nível pessoal que a nível mitológico relacionam-se com características e profundos anseios da natureza humana, como o nascimento, a morte, as imagens paterna e materna, e a relação entre os dois sexos.

Outra temática famosa com respeito a Jung é a sua teoria dos “tipos psicológicos”. Foi com base na análise da controvérsia entre as personalidades de Freud e um outro seu discípulo famoso, e também dissidente, Alfred Adler, que Jung consegue delinear a tipologia do “introvertido” e do “extrovertido”. Freud seria o “extrovertido”, Adler, o “introvertido”.

Para o extrovertido, os acontecimentos externos são da máxima importância, ao nível consciente; em compensação, ao nível inconsciente, a atividade psíquica do extrovertido concentra-se no seu próprio eu. De modo inverso, para o introvertido o que conta é a resposta subjetiva aos acontecimentos externos, ao passo que, a nível inconsciente, o introvertido é compelido para o mundo externo.

Embora não exista um tipo puro, Jung reconhece a extrema utilidade descritiva da distinção entre “introvertido” e “extrovertido”. Aliás, ele reconhecia que todos temos ambas as características, e somente a predominância relativa de um deles é que determina o tipo na pessoa. Seu mais famoso livro, Tipos Psicológicos é de 1921. Já nesse período, Jung dedica maior atenção ao estudo da magia, da alquimia,das diversas religiões e das culturas ocidentais pré-cristãs e orientais (Psicologia da Religião Oriental e Ocidental, 1940; Psicologia e Alquimia, 1944; O eu e o inconsciente, 1945).

Analisando o seu trabalho, Jung disse: “Não sou levado por excessivo otimismo nem sou tão amante dos ideais elevados, mas me interesso simplesmente pelo destino do ser humano como indivíduo – aquela unidade infinitesimal da qual depende o mundo e na qual, se estamos lendo corretamente o significado da mensagem cristã, também Deus busca seu fim”. Ficou célebre a controvertida resposta que Jung deu, em 1959, a um entrevistador da BBC que lhe perguntou: “O senhor acredita em Deus?” A resposta foi: “Não tenho necessidade de crer em Deus. Eu o conheço”.

Eis o que Freud afirmou do sistema de Jung: “Aquilo de que os suíços tinham tanto orgulho nada mais era do que uma modificação da teoria psicanalítica, obtida rejeitando o fator da sexualidade. Confesso que, desde o início, entendi esse ‘progresso’ como adequação excessiva às exigências da atualidade”.

Ou seja, para Freud, a teoria de Jung é uma corruptela de sua própria teoria, simplificada diante das exigências moralistas da época. Não há nada mais falso. Sabemos que foi Freud quem, algumas vezes, utilizou-se de alguns conceitos de Jung, embora de forma mascarada, como podemos ver em sua interpretação do caso do “Homem dos Lobos”, notadamente no conceito de atavismo na lembrança do coito.

Já por seu turno, Jung nunca quis negar a importância da sexualidade na vida psíquica, “embora Freud sustente obstinadamente que eu a negue”. Ele apenas “procurava estabelecer limites para a desenfreada terminologia sobre o sexo, que vicia todas as discussões sobre o psiquismo humano, e situar então a sexualidade em seu lugar mais adequado. O senso comum voltará sempre ao fato de que a sexualidade humana é apenas uma pulsão ligada aos instintos bio-fisiológicos e é apenas uma das funções psico-fisiológicas, embora, sem dúvida, muitíssimo importante e de grande alcance”.

Carl Gustav Jung morreu a 6 de junho de 1961, aos 86 anos, em sua casa, à beira do lago de Zurique,em Küsnacht após uma longa vida produtiva, que marcou – e tudo leva a crer que ainda marcará mais – a antropologia, a sociologia e a psicologia.

Freud e Jung: Estudos Críticos

A fecunda e tumultuada amizade entre Freud e Jung, nas palavras de Paul Roazen, é um dos marcos da história do pensamento e da cultura ocidental.

O rompimento dessa amizade entre os dois maiores cientistas e sábios do século impediu a continuação de  uma parceria que poderia ter contribuído para um desenvolvimento ainda maior da ciência da psique e para o alargamento dos horizontes de conhecimento da interioridade do homem.

Muito já se disse e se escreveu sobre o assunto. Mas não há conclusão que se imponha de modo a silenciar a polêmica que se arrasta e prossegue entre os discípulos menos avisados de cada um dos mestres.

Relacionamos a seguir textos que iluminam a questão, embora alguns dos seus aspectos permaneçam obscuros e possivelmente nunca venham a ser completamente elucidados. Talvez porque sejam manifestações cujas origens estão fincadas nas mais abissais regiões do inconsciente dos protagonistas.

De qualquer sorte, talvez seja necessário àqueles que se propõem seguir as orientações teóricas de Freud ou de Jung ou, ainda, de Freud e Jung – mergulhar na história dessa turbulenta amizade e extrair as suas próprias conclusões. É possível que esse mergulho termine por ser um encontro pessoal de cada um com a sua própria verdade. Um confronto rico e saudável com o seu inconsciente. Então, quem sabe, talvez tenhamos aprendido a lição maior desses mestres segundo a qual pessoa alguma pode acompanhar ou orientar uma jornada que ela mesmo não a tenha feito.

O confrontar-se com o inconsciente e o defrontar-se com a própria sombra parece ser o exemplo maior de coragem pessoal e honestidade intelectual que Freud e Jung legaram às gerações de estudiosos da alma humana que os sucederam.

Esse entendimento poderá ser útil à compreensão aprofundada das teorias do Dr. Sigmund Freud e do Dr.Carl Gustav Jung.

E, parafraseando o bardo inglês, o resto é silêncio!

Sigmund Freud – Biografia

Embora Freud fosse agnóstico (A posição agnóstica é caracterizada por considerar que certas realidades são icognoscíveis, o que tornaria supérflua qualquer especulação ou discussão sobre, nesse caso, a existência de Deus (Loureiro (2005)), a educação judaica lhe proporciona um sólido conhecimento da Bíblia, bem como a familiaridade com procedimentos e técnicas de interpretação dos textos sagrados.

Influências das Artes e Literatura

Em suas obras Sigmund Freud cita grandes nomes da literatura universal (Sófocles, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Henrik Ibsen, Fiodor Dostoieski) e contemporâneos de todas as matizes (Thomas Mann, Emile Zola, Mark Twain); sobressaem os autores de língua alemã, como Heinrich Heine, Friedrich Schiller e Johann Wolfgang von Goethe (figura central no universo intelectual de Freud, e citado por ele mais de uma centena de vezes em seus escritos). Demonstra também grande interesse pela escultura (Michelangelo) e pela pintura (Leonardo da Vinci, Herman von Riju Rembrandt).

Em 1896 Freud iniciou sua célebre coleção de antiguidades, composta por mais de 2000 peças, das mais variadas procedências; que testemunha o grande interesse de Freud por civilizações antigas e pela arqueologia.

FreudO interesse artístico-literário de Freud se infiltra profundamente na psicanálise, e estilo freudiano de escrita e argumentação é bastante “literário”.  Loureiro (2005) relata que a prosa elegante de Freud foi admirada por muitos críticos e o único prêmio que Freud recebeu em vida, o Prêmio Goethe (1930), foi-lhe atribuído pelas qualidades literárias de sua obra.

Sob a influência de uma amizade formada na escola com um menino mais velho, Freud desenvolveu o desejo de estudar direito e de dedicar-se a atividade sociais. Ao mesmo tempo, as teorias de Darwin atraíram-lhe a atenção, “pois ofereciam esperanças de extraordinário progresso em nossa compreensão do mundo” (Freud, 1935); e foi ouvindo o ensaio de Goethe sobre a Natureza, lido em voz alta numa conferência popular pelo professor Carl Brühl pouco antes de ter deixado a escola, que Freud resolveu tornar-me estudante de medicina.

Ao completar a escola secundária, o jovem Freud já sabia latim, grego, judeu, alemão, francês, inglês e tinha ainda noções de italiano e espanhol.

Formação Médica e Estudos em Fisiologia

Em 1873 ingressou na universidade de medicina, sofrendo grande preconceito por ser judeu. Entre 1876 e 1888 com breves interrupções trabalhou no laboratório de fisiologia de Ernst Brücke e seus assistentes Sigmund Exner e Ernst Fleischl von Marxow.  Recebeu seu título de doutor em 1881.

Devido a sua situação financeira desfavorável, Freud se viu impelido a abandonar a carreira de teórico ingressou no Hospital Geral como Aspirant (assistente clínico). Logo depois foi promovido a Sekundararzt (médico estagiário ou interno), e trabalhou em vários departamentos do hospital, entre outros por mais de seis meses sob a orientação de Meynert, cujo trabalho e personalidade muito lhe haviam impressionado quando ainda era estudante.

Meynert propôs que Freud devia dedicar-se inteiramente à anatomia do cérebro e prometeu passar-lhe suas atividades como conferencista, visto sentir-se velho demais para lidar com os métodos mais novos. Havia naquela época, em Viena, poucos especialistas em neurologia, o material para seu estudo estava distribuído por grande número de diferentes departamentos do hospital, não havia oportunidade satisfatória para aprender a matéria, e se era forçado a ser professor de si mesmo. (Freud, 1935)

Em 1885, foi nomeado conferencista (Dozent) de neuropatologia com base em suas publicações histológicas e clínicas. Logo depois, como resultado de caloroso testemunho de Brücke, foi concedida uma bolsa de estudos que possibilitou sua viajem para Paris para assistir às aulas de Charcot.

Aulas com Charcot

Freud (1935) declara que no início Charcot dispensava-lhe pouca atenção; mas Charcot um dia em uma de suas aulas declarou que estava necessitando de um tradutor de alemão para suas conferências, prosseguiu dizendo que ficaria satisfeito se alguém se encarregasse de verter o novo volume de suas conferências para o alemão. Freud ofereceu-lhe seus préstimos. Charcot aceitou a oferta, foi admitido no círculo de seus conhecidos pessoais, e a partir dessa época tomou parte integral em tudo que se passava na clínica.

Antes de partir de Paris, Freud examinou com Charcot um plano para um estudo comparativo das paralisias histéricas e orgânicas. Freud desejava estabelecer a tese de que na histeria as paralisias e anestesias das várias partes do corpo se acham demarcadas de acordo com a idéia popular dos seus limites e não em conformidade com fatos anatômicos. Mas na realidade Charcot não teve qualquer interesse especial em penetrar mais profundamente nesse estudo. (Freud, 1935)

No outono de 1886, fichou-se em Viena como médico e casou-se com Martha. Cabia-lhe apresentar um relatório perante a ‘Gesellschaft der Aerzte’ (Sociedade de Medicina) sobre o que vira e aprendera com Charcot. Teve, porém, má recepção. Pessoas de autoridade declararam que o que ele disse era inacreditável. Meynert desafiou-lhe a encontrar alguns casos em Viena semelhantes àqueles que ele descrevera e a apresentá-los perante a sociedade. Foi excluído do laboratório de anatomia cerebral e durante intermináveis trimestres não teve onde pronunciar suas conferências; afastou-se da vida acadêmica e deixou de freqüentar as sociedades eruditas.

Josef Breuer

Enquanto ainda trabalhava no laboratório de Brücke, Freud travara conhecimento com o Dr. Josef Breuer que era um dos médicos de família mais respeitados de Viena. Antes da viagem de Freud a Paris, Breuer já havia lhe falado sobre um caso de histeria que, entre 1880 e 1882, ele havia tratado de maneira peculiar, o qual lhe permitira penetrar profundamente na acusação e no significado dos sintomas histéricos. Freud fez um esboço desse caso a Charcot, que não demonstrou nenhum interesse no assunto.

A paciente, que mais tarde ficou conhecida nos livros de psicanálise como Ana O. (Berta Papenheim), tinha sido uma jovem de educação e dons incomuns, que adoecera enquanto cuidava do pai, pelo qual era devotamente afeiçoada. Quando Breuer se encarregou do caso, esta apresentava um quadro variado de paralisias com contraturas, inibições e estados de confusão mental. Ela podia ser aliviada de seus sintomas se fosse induzida a expressar em palavras a fantasia emotiva pela qual se achava no momento dominada. A partir dessa descoberta, Breuer chegou a um novo método de tratamento. Ele a levava a uma hipnose profunda e fazia-a dizer-lhe, de cada vez, o que era lhe oprimia a mente. Esta paciente, durante o estado de transe hipnótico, recordava uma série de ocorrências traumáticas que aconteceram em um passado remoto, e das quais ela não lembrava quando em estado consciente.Por esse processo Breuer conseguiu, após longos e penosos esforços, aliviar a paciente de seus sintomas.

Freud começou então a repetir as pesquisas de Breuer com seus próprios pacientes. Após observar durante vários anos que os achados de Breuer eram invariavelmente confirmados em cada caso de histeria acessível a tal tratamento, e depois de haver acumulado considerável quantidade de material sob a forma de observações análogas às dele, Freud propôs a Breuer lançar uma publicação conjunta.

Freud (1935) diz que, no início, Breuer objetou com veemência, mas por fim cedeu, especialmente tendo em vista que, nesse meio tempo, as obras de Janet haviam previsto alguns dos seus resultados, tais como o rastreamento de sintomas histéricos em fatos da vida do paciente e sua eliminação por meio da reprodução hipnótica in statu nascendi. Em 1893 foi lançado uma comunicação preliminar, “Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos”, e em 1895 seguiu-se o livro, Estudos sobre a Histeria.

Entre Comunicação Preliminar e Estudos Sobre Histeria, Freud publicou o artigo As Neuropsicoses de Defesa (1894) onde já demonstra sua independência em relação às idéias de Breuer. É nesse trabalho que Freud começa a tratar de forma intensa o fenômeno da defesa; mas é importante sublinhar que ele só entende de forma profunda esse fenômeno quando abandona a hipnose e passa para o método de associação livre. Foi o conceito de defesa que rompeu de forma decisiva com a concepção neurologizante do conflito psíquico.

Freud (1935) diz que Estudos sobre a Histeria não procurou estabelecer a natureza da histeria, mas apenas lançar luz sobre a origem de seus sintomas. Assim, dava ênfase à significação da vida das emoções e à importância de estabelecer distinção entre os atos mentais inconscientes e os conscientes (ou, antes, capazes de ser conscientes). O livro introduziu também a noção de um fator dinâmico, supondo que um sintoma surge através do represamento de um afeto, e um fator econômico, considerando aquele mesmo sintoma como o produto da transformação de uma quantidade de energia que de outra maneira teria sido empregada de alguma outra forma.

Freud passou a sustentar que não era qualquer espécie de excitação emocional que estava em ação por trás dos fenômenos da neurose, mas habitualmente uma excitação de natureza sexual. Passou, então, a investigar a vida sexual dos chamados neurastênicos, que costumavam visitar-lhe em grande número durante suas horas de consulta. Essa experiência custou-lhe a popularidade como médico. Ele percebeu que em todos esses pacientes graves irregularidades da função sexual se encontravam presentes.

Breuer tentava explicar a divisão mental nos pacientes histéricos pela ausência de comunicação entre vários estados (estados de consciência) e construiu então, a teoria dos “estados hipnóides”. Freud encarava a divisão psíquica como efeito de um processo de repulsão, que na época ele denominou de “defesa” e depois de “repressão”. Com o tempo as duas teorias, “da defesa” e “hipnóide” se opuseram. Mas segundo Freud (1916) o que realmente causou o rompimento os dois foi a ênfase de Freud na significação da sexualidade na etiologia das neuroses.

Durante os anos que se seguiram à publicação dos Estudos sobre Histeria, Freud leu alguns artigos sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses perante várias sociedades médicas, mas só obteve incredulidade e contradição. Breuer tentou por algum tempo usar sua influência pessoal a favor de Freud, mas nada conseguiu. Sendo que Breuer não estava inclinado a reconhecer a etiologia sexual das neuroses.  Breuer abandonou Freud a própria sorte, mas também nunca usou sua autoridade como o terapeuta de Ana O para atacar Freud diretamente. E Freud (1935) relata que não entendeu esse silêncio de Breuer. Só depois, quando reviu o caso Ana O pôde entender a atitude de Breuer. Nesse momento ele “descobre” a transferência e a contratransferência. A paciente de Breuer desenvolvera uma condição de ‘amor transferencial’, Breuer não havia feito a ligação disso com sua doença e então se afastara desalentado.

A teoria do trauma

Freud acreditava que o conflito psíquico e sua conseqüência, a neurose era resultante de repressões impostas por traumas de sedução sexual que realmente teriam ocorrido no passado, e que retornavam sob a forma de sintomas. (Zimerman, 1999).

Freud (1935) menciona que seus pacientes com freqüência reproduziam cenas nas quais eram seduzidos sexualmente por adultos; ele acreditava nessas historias e pensou ter descoberto as raízes da neurose subsequente nessas experiências de sedução sexual na infância.

Freud tentava de forma coercitiva estimular os pacientes a recordar o trauma que havia sido esquecido e que tinha relação direta com os sintomas histéricos. Primeiramente para superar as resistências dos pacientes Freud se utilizou da sugestão, do estímulo e da insistência. No entanto esse método foi substituído por outro, onde em vez de incitar o paciente a dizer algo sobre algum assunto específico, solicitava que se entregasse a um processo de associação livre — isto é, que dissesse o que lhe viesse à mente, sem dar qualquer orientação consciente a seus pensamentos.

A partir de 1896 Freud passa a empregar o método da associação livre, abandonando o método hipnótico, por considera-lo um meio artificial de neutralizar as resistências.

Por volta de 1897, Freud se deu conta de que o trauma psíquico era insuficiente para explicar todos os sintomas neuróticos. Ele percebeu que suas pacientes não contavam sempre a verdade e que seus discursos estavam cheios de idéias fantasiosas. Os sintomas neuróticos não estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos; e, como destaca Freud (1935), no tocante à neurose, a realidade psíquica era de maior importância que a realidade material. A sedução durante a infância retinha certa parcela, embora mais humilde, na etiologia das neuroses. Mas os sedutores vieram a ser, em geral, crianças mais velhas.

Freud com o tempo pôde concluir que tudo que tinha sido esquecido de alguma forma fora aflitivo; e que ao mesmo tempo havia algo no próprio individuo que tentava a todo custo não ser lembrado. Surgia a teoria da resistência e por conseguinte, a do recalque.

A teoria dos sonhos

Sigmund FreudA teoria dos sonhos também veio trazer novas possibilidades para a psicanálise; abriu um caminho que conduzia muito longe, até as esferas do interesse universal. O sonho é de grande importância na psicanálise, porque não são manifestações patológicas como os sintomas, mas uma manifestação da vida mental normal que poderia ocorrer em qualquer pessoa sã. (Freud, 1935)

A Interpretação dos Sonhos (1900) marca a passagem para um modelo que investiga não apenas as manifestações psicopatológicas, mas capaz de dar conta do psiquismo em geral. No Capitulo VI da Interpretação dos Sonhos Freud formula o primeiro grande modelo do aparelho psíquico (a primeira tópica). O psiquismo é composto por dois grandes sistemas – inconsciente e pré-consciente/consciente – que são separados por uma barreira (a censura) que através do mecanismo do recalque expulsa e mantêm certas representaçoes inaceitáveis fora do sistema consciente. Mas essas representações exercem uma pressão para tornarem-se conscientes e ativas. Ocorre um jogo de forças, entre os conteúdos reprimidos e os mecanismos repressores. Como resultado desses conflitos há a produção das formações do inconsciente: os sintomas, sonhos, lapsos e chistes. Essas formações representam o fracasso e o sucesso das duas forças conflitantes e representam uma espécie de acordo entre elas.

Em 1905 veio a público os Três Ensaios para uma Teoria da Sexualidade. Esse texto situa a sexualidade como a base da vida psíquica. Loureiro (2005) diz que a psicanálise efetua uma verdadeira ruptura naquilo mesmo que era considerado sexualidade. Ao contrário dos discursos normativos da sexologia e da criminologia, que priorizavam a explicação dos desvios sexuais com base em teorias da hereditariedade e da degenerescência, a concepção psicanalítica da sexualidade embaralha as fronteiras entre normal/patológico, bem como prescinde da categoria de instinto sexual (impulso pré-formado, comum à espécie como um todo, dotado de objeto e finalidade fixos).  Freud usa o termo Trieb (impulso ou pulsão); pulsão não implica nem comportamento pré-formado, nem objeto específico. A pulsão demonstra a múltiplas, contingentes e mutantes feições que pode assumir a sexualidade humana.

O Fim do isolamento de Freud

Até 1906, Freud já havia lançado as bases fundamentais da psicanálise: a primeira tópica com a divisão do psiquismo em três instancias (consciente, pré-consciente e inconsciente); as fases psicossexuais da sexualidade infantil; Complexo de Édipo; os conceitos de transferência e contratransferência; a importância das resistências etc..
Por mais de dez anos após o seu afastamento de Breuer, Freud não teve seguidores. Ficou completamente isolado. Em Viena, foi evitado; no exterior, ninguém lhe deu atenção. A Interpretação de Sonhos Freud (1900), mal foi objeto de críticas nas publicações técnicas.

Após 1906 seu isolamento gradativamente chegou ao fim. Para começar, um pequeno círculo de alunos reuniu-se em torno de Freud em Viena; depois chegou a notícia de que os psiquiatras de Zurique, E. Bleuler, seu assistente C. G. Jung e outros, estavam adquirindo vivo interesse pela psicanálise. Entraram em contato pessoal, e na Páscoa de 1908 reuniram-se em Salzburg, concordaram com a realização regular de outros congressos informais semelhantes e adotaram providências para a publicação de um órgão que foi organizado por Jung e que recebeu o título de Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen (Anuário de Pesquisas Psicanalíticas e Psicopatológicas). Veio a lume sob direção de Freud e Bleuler, deixando de ser publicado no início da Primeira Guerra Mundial. Ao mesmo tempo em que os psiquiatras suíços ingressavam no movimento, o interesse pela psicanálise começou também a ser despertado em toda a Alemanha, tornando-se tema de grande número de comentários escritos e de vivos debates em congressos científicos. Mas sua acolhida em parte alguma foi amistosa ou mesmo benevolentemente neutra. Segundo Freud (1935), após travar o mais leve conhecimento com a psicanálise, a ciência alemã estava coesa para rejeitá-la.

A partir de 1906 Freud e passou a reunir-se na sala de espera com um seleto grupo de brilhantes colaboradores: Abraham, Fereczi, Rank, Steckel, Sanchs, Jung, Adler. Eram as chamadas “Reuniões das Quartas-Férias”.

Entre 1914 e 1917 Freud produz seus “artigos metapsicológicos” que buscavam sintetizar o conhecimento teórico até então construído. Sobre o Narcisismo’ (1914) ‘As Pulsões e suas Vicissitudes’ (1915), ‘Repressão’ (1915), ‘O Inconsciente’ (1915), ‘Luto e Melancolia’ (1917) etc. vem fazer parte dessa tentativa de construção de uma Metapsicologia. Com isso Freud queria construir um método de abordagem de acordo com o qual todo processo mental é considerado em relação com três coordenadas, as quais descreveu como dinâmica, topográfica e econômica, respectivamente.

Em sua Teoria Sobre o Narcisismo (1914) Freud atribui novas dimensões ao conceito de libido e, consequentemente, à psicanálise.O desenvolvimento do conceito de narcisismo coloca a prova o dualismo entre pulsões do ego (pulsões de autopreservação) e pulsões sexuais.

Em Além do Princípio do Prazer (1920), Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1921c) e O Ego e o Id (1923), Freud considera uma nova solução para o problema das pulsões. Combinou as pulsões para a autopreservação e para a preservação da espécie sob o conceito de Eros e contrastou com ele um instinto de morte ou destruição que atua em silêncio. A pulsão, em geral, é considerada como uma espécie de elasticidade das coisas vivas, um impulso no sentido da restauração que outrora existiu, mas que foi conduzida a um fim por alguma perturbação externa. Esse caráter essencialmente conservador dos instintos é exemplificado pelos fenômenos da compulsão de repetição. O quadro que a vida nos apresenta é o resultado da ação simultânea e mutuamente oposta de Eros e do instinto de morte.

Em O Id e o Ego Freud (1923) entrega-se à tarefa de dissecar o aparelho mental, com base no ponto de vista analítico dos fatos patológicos, e o divide em um ego, um id e um superego. O superego é o herdeiro do complexo edipiano e representa os padrões éticos da humanidade.