Mecanismos de Defesa

images (10)Os mecanismos de defesa constituem operações de proteção postas em jogo pelo Ego ou pelo Si-mesmo para assegurar sua própria segurança. Os mecanismos de defesa não representam apenas o conflito e a patologia, eles são também uma forma de adaptação. O que torna “as defesas” um aspecto doentio é sua utilização ineficaz ou então sua não adaptação às realidades internas ou externas. (Bergeret, 2006).

Os mecanismos de defesa fazem parte dos procedimentos utilizados pelo Eu (Ego) para desempenhar suas tarefas, que em termos gerais consiste em evitar o perigo, a ansiedade e o desprazer.

Entre os mecanismos de defesa é preciso considerar, por um lado, os mecanismos bastante elaborados para defender o Eu (ego), e por outro lado, os que estão simplesmente encarregados de defender a existência do narcisismo. Freud (1937) diz que mecanismos defensivos falsificam a percepção interna do sujeito fornecendo somente uma representação imperfeita e deformada.

Os mecanismos de defesa constituem operações de proteção postas em jogo pelo Ego ou pelo Si-mesmo para assegurar sua própria segurança. Os mecanismos de defesa não representam apenas o conflito e a patologia, eles são também uma forma de adaptação. O que torna “as defesas” um aspecto doentio é sua utilização ineficaz ou então sua não adaptação às realidades internas ou externas. (Bergeret, 2006).

Fenichel (2005) diz que as defesas patogênicas, nas quais se radicam as neuroses, são defesas ineficazes, que exigem repetição ou perpetuação do processo de rejeição, a fim de impedir a irrupção de impulsos indesejados; produz-se um estado de tensão com possibilidade de irrupção.

Foi a partir de um desses mecanismos, o recalque, que o estudo dos processos neuróticos se iniciou. Não obstante, o recalque é algo bastante peculiar, sendo mais nitidamente diferenciada dos outros mecanismos do que estes o são entre si.

Os primeiros tradutores de Freud utilizaram o termo “Ego” para dar conta do Ich alemão. Em alemão Ich é um pronome pessoal da primeira pessoa do singular empregado no nominativo, ou seja, sujeito individual ativo da ação. Ich não corresponde portanto, ao ego, que traduziria o Mich alemão, ou seja, um acusativo utilizado para designar o objeto referido pelo verbo, isto é, aqui, o sujeito tomado a ele mesmo (quer dizer, Si-mesmo), ou seja, seu Si-mesmo como objeto. Esse processo concerne à relação narcisista e não a relação de ordem genital, em que o sujeito Eu visa, justamente, a um outro objeto. (Bergeret, 2006).

Existem mecanismos de defesa encarregados de defender as diferentes instâncias da personalidade (id, Ideal de Si-mesmo, Ideal do Ego, Superego) de um conflito que pode nascer entre elas, assim como conflitos que podem opor o conjunto de todas as instâncias (inclusive o Eu e o Si-mesmo) contra algumas provenientes da realidade exterior; ou ainda exclusiva e excessivamente de um mesmo tipo, o que faz com que o funcionamento mental perca a sua flexibilidade, harmonia e adaptação.

Os mecanismos de defesa mais elaborados concernem ao Eu (ego), enquanto que de natureza mais primitiva se refeririam antes ao Si-mesmo. (Bergeret, 2006)

Os mecanismos de defesa não se reduzem apenas ao clássico conflito neurótico. Quando se trata de uma organização de modo neurótico, genital e edipiano, o conflito se situa entre as pulsões sexuais e suas proibições (introjetadas no superego). A angústia, é então, a angústia de castração, e as defesas operam no sentido de diminuir essa angústia, seja facilitando a regressão em relação à libido, sendo organizando saídas regressivas, por exemplo auto e alo-agressivas, retomando e erotizando a violência instintual primitiva. (Bergeret, 2006)

Nas organizações psicóticas toda uma parte predominante do conflito profundo dá-se com a realidade. A angústia é uma angústia de fragmentação, seja por medo de um impacto violento demais por parte da realidade, seja por temor por perda de contato com essa realidade. As defesas contra a angústia de fragmentação podem operar de modo neurótico. Mas, como lembra Bergeret (2006), esse tipo de defesa muitas vezes não basta, e, é quando surgem as defesas próprias ao sistema psicótico: autismo (tentativa de reconstituição do narcisismo primitivo, com seu circuito fechado); recusa da realidade (em todo ou em parte), necessitando às vezes de uma reconstrução de uma neo-realidade, o conjunto desses processos conduzindo à clássica posição delirante.

No grupo dos estados limítrofes o conflito se situa entre a pressão das pulsões pré-genitais sádicas orais e anais, dirigidas contra o objeto frustrante e a imensa necessidade de que o objeto ideal repare essa ferida narcísica por uma ação exterior gratificante. A angústia que disso decorre é a angústia de perda de objeto, a angústia de depressão. As defesas, nesse caso serão essencialmente centradas nos meios de evitar essa perda e devem conduzir a um duplo maniqueísmo: clivagem interna entre o que é bom (ideal do self) e mau (imediatamente projetado para o exterior), e clivagem externa (entre bons e malvados: não Si-mesmo). Há uma tentativa de aliviar a ferida narcísica arcaica por um narcisismo secundário em circuito aberto, árido, mas impotente para preencher a falta narcísica fundamental. (Bergeret, 2006).

Habitualmente em psicopatologia agrupam-se entre as defesas ditas “neuróticas” o recalque, o deslocamento, a condensação, a simbolização, etc. e entre as defesas ditas “psicóticas”, a projeção, a recusa da realidade, a duplicação do ego, a identificação projetiva, etc.

Entretanto encontra-se estruturas autenticamente psicóticas que se defendem contra a decomposição graças à defesas de modalidade neurótica, mais particularmente obsessiva, por exemplo. Há casos de estruturas autenticamente neuróticas que utilizam abundantemente a projeção ou a identificação projetiva em virtude do fracasso parcial do recalque e diante do retorno de fragmentos demasiado importantes ou inquietantes de antigos elementos recalcados, cujos efeitos ansiogênicos devem ser apagados, de modo certamente mais arcaico e mais custoso, e igualmente mais eficaz. É possível também encontrar angústias de despersonalização em uma desestruturação mínima, de origem traumática (por exemplo), sem que tais fenômenos possam ser atribuídos a qualquer estrutura específica.

Bergeret (1998) alerta em ter-se a prudência de falar apenas em defesas de modalidade “neurótica” ou “psicótica”, sem fazer previsões acerca da autenticidade da estrutura subjacente.

Freud (1937) lembra que as defesas servem ao propósito de manter afastados os perigos. Em parte, são bem-sucedidos nessa tarefa, e é de duvidar que o ego pudesse passar inteiramente sem esses mecanismos durante seu desenvolvimento. Mas esses próprios mecanismos, que a priori, são defensivos podem transformar-se em perigos. O ego pode começar a pagar um preço alto demais pelos serviços que eles lhe prestam. O dispêndio dinâmico necessário para mantê-los, e as restrições do ego que quase invariavelmente acarretam, mostram ser um pesado ônus sobre a economia psíquica. Tais mecanismos não são abandonados após terem assistido o ego durante os anos difíceis de seu desenvolvimento.

Nenhum indivíduo, naturalmente, faz uso de todos os mecanismos de defesa possíveis. Cada pessoa utiliza uma seleção deles, mas estes se fixam em seu ego. Tornam-se modalidades regulares de reação de seu caráter, as quais são repetidas durante toda a vida, sempre que ocorre uma situação semelhante à original. Concedendo-lhes um teor de infantilismos. O ego do adulto, com sua força aumentada, continua a se defender contra perigos que não mais existem na realidade; na verdade, vê-se compelido a buscar na realidade as situações que possam servir como substituto aproximado ao perigo original, de modo a poder justificar, em relação àquelas, o fato de ele manter suas modalidades habituais de reação. Os mecanismos defensivos, por ocasionarem uma alienação cada vez mais ampla quanto ao mundo externo e um permanente enfraquecimento do ego, preparam o caminho para o desencadeamento da neurose e o incentivam. (Freud, 1937)

Mecanismos de defesa e Resistências

É comum a confusão entre mecanismos de defesa do Eu (Ego) (utilizados patologicamente ou não) com as resistências.

As resistências são noções que concernem apenas às defesas empregadas na transferência (e no tratamento psicanalítico, em particular) por um sujeito que se defende especificamente do contato terapêutico e das tomadas de consciência dos diferentes aspectos desse contato, em particular da associação livre de idéias.

O paciente repete suas modalidades de reação defensiva também durante o trabalho de análise. Isso não significa que tornem impossível a análise. Constituem a metade da tarefa analítica. (Freud, 1937). A dificuldade da questão é que os mecanismos defensivos dirigidos contra um perigo anterior reaparecem no tratamento como resistências contra o restabelecimento. Disso decorre que o ego trata o próprio restabelecimento como um novo perigo.

Contra-investimento

É sobre os representantes ideativos das pulsões que incidem muitos dos mecanismos de defesa.

Quando o superego e as instâncias ideais se opõem ao investimento pelo consciente de representantes pulsionais indesejáveis, há, inicialmente um desinvestimento da representação pulsional ansiogênica. Mas uma certa quantidade de energia psíquica vai se tornando disponível. Não podendo essa energia permanecer assim, ela deverá ser reutilizada em um contra-investimento incidindo sobre outras representações pulsionais, de aspectos diferentes. (Bergeret, 2006)

Formação reativa

É um contra-investimento da energia pulsional retirada das representações proibidas. Por exemplo, a solicitude pode ser uma formação reativa contra as representações violentas ou agressivas; ou as exigências de limpeza e asseio uma reação reativa contra o desejo de sujar.

Fenichel (2005) define as reações reativas como tentativas evidentes de negar ou suprimir alguns impulsos, ou de defender a pessoa contra um perigo pulsional. São atitudes opostas secundárias.

Bergeret (2006) fala que a formação reativa tem um aspecto funcional e utilitário, contribuindo para a adaptação do sujeito à realidade ambiente. Pois a formação reativa se forma em proveito de valores postos em destaque pelos contextos históricos, sociais e culturais, e em detrimento das necessidades pulsionais frustradas, agressivas ou sexuais diretas, ao mesmo tempo que procura direciona-las de maneira indireta.

Existem mecanismos de defesa que são intermediários entre o recalque e a formação reativa. Por exemplo a mãe histérica que odeia o seu filho é capaz de desenvolver uma afeição aparentemente extrema por ele, a fim de assegurar a repressão de seu ódio, essa solicitude ou beatude permanece limitada a um determinado objeto.

As formações reativas são capazes de usar impulsos cujos objetivos se opõem aos objetivos do impulso original. Podem aumentar os impulsos de ordem reativa para conter o impulso original. De tal forma que um conflito entre em impulso pulsional e uma ansiedade ou sentimento de culpa dele decorrentes podem tomar, por vezes, a aparência de um conflito entre pulsões opostas.

O individuo pode então intensificar sua formação reativa, na luta com contra-investimento do impulso indesejável. Pode tornar-se reativamente heterossexual para rejeitar a homossexualidade; reativamente passivo-receptivo para rejeitar a agressividade.

Formação Substitutiva

A representação do desejo inaceitável é recalcado no inconsciente. Fica então uma falta que o ego vai tentar preencher de forma sutil e compensatória. Tentará obter uma satisfação que substitua aquela que foi recalcada e que obtenha o mesmo efeito de prazer e satisfação que aquela traria, mas sem que essa associação apareça claramente à consciência.

Bergeret (2006) dá como exemplo o transe mítico, que pode constituir somente um substituto do orgasmo sexual: aparentemente não há nada de sexual, na realidade, porém, o laço com o êxtase amoroso e físico se acha conservado, o afeto permanece idêntico. A formação substitutiva vem então constituir um dos modos de retorno do recalcado.

A formação substitutiva pode da-se no sentido inverso. O sujeito pode tentar mascarar por meio de uma pseudo-sexualidade substitutiva de superfície, suas carências objetais e sexuais, ao mesmo tempo que tenta se assegurar contra a carência de suas realidades narcísicas. O sujeito opera no registro das defesas do Si-mesmo.

Formação de compromisso

É um modo de retorno do recalcado, de tal forma a não ser reconhecido, por um processo de deformação. É um processo que procura aliar em um processo de compromisso, os desejos inconsciente proibidos e as exigências dos proibidores.  

Formação de sintomas

Para a psicanálise os sintomas têm um sentido e se relacionam com as experiências do sujeito.

Os sintomas são atos prejudiciais, ou pelo menos, inúteis à vida da pessoa, que por sua vez, deles se queixa como sendo indesejados e causadores de desprazer ou sofrimento. O principal dano que causam reside no dispêndio mental que acarretam, e no dispêndio adicional que se torna necessário para se lutar contra eles. Onde existe extensa formação de sintomas, esses dois tipos de dispêndio podem resultar em extraordinário empobrecimento da pessoa no que se refere à energia mental que lhe permanece disponível e, com isso, na paralisação da pessoa para todas as tarefas importantes da vida. (Freud, 1916-1917).

A formação de sintomas é uma forma de retorno do recalcado. “Quer seja de um modo físico, psíquico ou misto, o sintoma não é causado pelo sintoma em si mesmo. Ele assinala apenas o fracasso do recalcamento; não constitui senão o resultado desse fracasso.” (Bergeret, 2006, pág. 98)

O sintoma resulta de três mecanismos precedentes: a formação reativa, a formação substitutiva e a formação de compromisso. Mas é mais complexa do que cada um deles isoladamente. O sintoma assume, graças ao jogo da formação de compromisso e da formação substitutiva, um sentido particular em cada entidade psicopatológica. Bergeret (2006) aponta que a defesa constituída pelo sintoma vai no sentido da luta contra a angústia específica: evitar a castração, na neurose, evitar a fragmentação, na psicose, evitar a perda do objeto, no estado limítrofe.

Bergeret (1998) lembra que é um pouco equivocado qualificar de saída, demasiado nitidamente, um sintoma como “neurótico” ou “psicótico” sintomas aparentemente neuróticos, por exemplo, podem esconder uma estrutura psicótica ou vice-versa; seria mais prudente falar em sintomas de linhagem neurótica ou psicótica. O autor diz que convém ocupar-se com o sintoma único apenas no uso limitado, para o qual o sintoma foi construído, isto é, “uma manifestação de superfície destinada a expressar a presença de um conflito, o retorno de uma parte do recalque pelos desvios das formações substitutivas ou das realizações de compromisso.” (Bergeret, 1998, pág.48).

Identificação

A identificação é uma atividade afetiva e relacional indispensável ao desenvolvimento da personalidade. “Como todas as outras atividades psíquicas, a identificação pode, por certo, ser utilizada igualmente para fins defensivos.” (Bergeret, 2006, pág. 101)

De acordo com Laplanche e Pontalis, “um processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade ou um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, a partir do modelo deste. A personalidade se constitui e se diferencia por uma série de identificações.”

Existem dois grandes movimentos identificatórios, constitutivos da personalidade: a identificação primária e a identificação secundária.

Identificação primária: “é o modo primitivo de constituição do sujeito sobre o modelo do outro, correlativo da relação de incorporação oral, visando, antes de mais nada, a assegurar a identidade do sujeito, a constituição do Si-mesmo e do Eu.” (Houser, 2006, pág. 43)

Identificação secundária: é contemporânea do movimento edipiano, se fazendo sucessivamente em relação aos dois pais, em suas características sexuadas, e constitutiva da identidade sexuada e da diferenciação sexual. (Houser, 2006)

Bergeret (2006) diz que na identificação primária o objeto deve ser devorado sem distinção prévia entre ternura e hostilidade, nem entre Si-mesmo e não-Si-mesmo, em um movimento que visa precisar a identidade narcisista de base do sujeito.

A identificação secundária, segundo Bergeret (2006), é destinada a afirmar a identidade sexual do sujeito, com todos os seus avatares possíveis em psicopatologia. A criança, primeiro renunciando a incorporar o genitor amado, depois renunciando à idéia de um comércio sexual com ele, vai se consolar absorvendo as qualidades representadas por ele, por meio desse objeto. Esse movimento pode ir até uma regressão defensiva, com todas as perturbações dialéticas possíveis. Mas as identificações ligadas ao genitor do mesmo sexo vêm normalmente completar e organizar genitalmente as identificações primárias, e abrir caminho para as relações posteriores do tipo verdadeiramente objetal e genital.

A partir da psicologia coletiva, Freud descreveu um terceiro tipo de identificação: onde o sujeito identifica seus próprios objetos aos objetos de um outro sujeito, e principalmente aos objetos de um grupo por inteiro. Isso se produz por imitação e contágio, fora do laço libidinal direto. (Bergeret, 2006)

Identificação com o agressor

O indivíduo se torna aquele de quem havia tido medo, ao mesmo tempo, o suprime, o que tranqüiliza. Esse mecanismo, descrito por Ferenczi e Ana Freud, pode ir de simples inversão dos papéis (brincar de doutor , de lobo, de fantasma) a uma verdadeira introjeção do objeto perigoso.

Bergeret (2006) lembra que essa defesa pressupõe uma onipotência mágica do outro e se encontra relacionada com distorções das instâncias ideais, preparando secundariamente para as condutas masoquistas e para as instâncias proibidoras severas.

Identificação projetiva

É um mecanismo descrito por Melanie Klein e faz parte da posição esquizo-paranóide.  É um conceito fundamental para a teoria e clínica, e foi o instrumento teórico com que os kleinianos abordaram a análise dos pacientes psicóticos e limítrofes.

Para Klein a mente tem a capacidade onipotente de se liberar de uma parte do self, colocando-a em um outro objeto; o resultado é uma confusão da identidade, uma perda da diferença real entre sujeito e objeto. (Bleichmar e Bleichmar, 1992).

Através desse mecanismo o sujeito expulsa uma parte de si mesmo, identificando-se com o não projetado; e ao objeto são atribuídos os aspectos projetados, dos quais o sujeito se desprendeu, o que constituiria para Klein uma das bases principais dos processos de confusão.

Esse mecanismo é produzido por uma motivação pessoal que procura se livrar de certas partes de si mesmo (para Klein os processos de desenvolvimento obedecem sempre a uma intenção inconsciente do sujeito). O bebê pode precisar, para aliviar sua angústia, desprender-se de aspectos dolorosos do seu próprio self, usando a identificação projetiva, colocando-os em sua mãe; mas esta mãe, adquirirá um aspecto persecutório.

Na clínica, quando a identificação projetiva é muito intensa o paciente percebe o terapeuta a partir de suas próprias projeções e sua subjetividade. Esse mecanismo permite desprender-se tanto dos aspectos maus, como dos bons de alguém. O individuo pode situar os aspectos bons fora do self para preservá-los dos aspectos maus internos.

Uma das consequências da identificação projetiva excessiva é que o ego se debilita, ficando submetido a uma dependência extrema das pessoas nas quais se projetam os aspectos bons, para voltar a recebê-los delas, ou aspectos maus, para controlá-los e assim poder se proteger da ameaça da introjeção.

Para Klein o equilíbrio entre os processos de identificação projetiva e introjetiva é estruturante do mundo externo e interno. A identificação projetiva constitui-se como um fenômeno normal, base da empatia e da possibilidade de comunicação entre as pessoas. É a intensidade e qualidade que determina se o mecanismo é patológico ou normal.

Bleichmar e Bleichmar (1992) relatam que a identificação projetiva é base de muitas situações patológicas. Se o sujeito tem a fantasia de se meter violentamente dentro do objeto e controlá-lo, sofrerá um temor pela reintrojeção violenta , tanto no corpo quanto na mente. Isto provoca dificuldades na reintrojeção, que levam a alterações no ego e no desenvolvimento sexual; pode levar o indivíduo a se isolar em seu mundo interior, refugiando-se em um objeto interno idealizado.

Projeção

Para Freud, existem nesse mecanismo três tempos consecutivos. Primeiro a representação incômoda de uma pulsão interna é suprimida, depois esse conteúdo é deformado, enfim, ele retorna para o consciente sob a forma de uma representação ligada ao objeto externo.

A projeção ocorre em todos os momentos da vida. Ela é essencial no estágio precoce de desenvolvimento, contribuindo para a distinção entre Si-mesmo e não-Si-mesmo, onde tudo o que é prazeroso é experimentado como pertencente ao Si-mesmo; e tudo o que é penoso e doloroso se experimenta como sendo não-Si-mesmo. Esse é um processo normal que ajuda a fortificar o Si-mesmo e a estabelecer o esquema corporal.

Fenichel (2005) diz que a projeção é uma reação arcaica que nas fases iniciais do desenvolvimento ocorrem de forma automática e ulteriormente é amansada pelo ego e usada para fins defensivos. O autor destaca que esse mecanismo defensivo só pode ser amplamente utilizado se a função que tem o ego de ajuizar a realidade estiver severamente lesada por uma regressa narcísica. Servindo para toldar mais uma vez os limites entre Si-mesmo e não-Si-mesmo.

Bergeret (2006) assinala que a projeção assinala praticamente um fracasso dorecalcamento. Com efeito, com as defesas mais elaboradas, como o recalcamento, principalmente, o ego se defende contra os perigos interiores por meios que utilizam diretamente o inconsciente de maneira imediata e automática. “Se esses procedimentos não bastam mais, torna-se então necessário transformar, pela projeção, o perigo interior em perigo exterior, contra o qual se aplicam os meios de proteção mais arcaicos, mais elementares do Si-mesmo, utilizando e enganando o consciente, tais como a projeção, o deslocamento e a evitação.” (Bergeret, 2006, pág. 103)

Bergeret (2006) destaca que é preciso distinguir na projeção não uma forma de retorno do recalcado, mas um retorno do que, após o recalcamento normal, deveria ter sido recalcado, mas não o pôde ser. A projeção é uma maneira de tratar esse não-recalcado, que, tornando-se incômodo, deve ser eliminado por procedimentos menos eficazes que o recalcamento, mas também menos custosos em contra-investimento.

Na teoria de Melanie Klein a projeção aparece, primeiramente, ligada à pulsão de morte, cuja ameaça de destruição interna é neutralizada, ao ser expulsa para fora do sujeito. Esta projeção de agressão e de libido permite que se constituam os objetos parciais seio bom e seio mau.

Introjeção

Nos estágios iniciais do desenvolvimento tudo o que agrada é introjetado. A introjeção é um mecanismo que repete, com objetivo defensivo e regressivo no adulto, esse movimento que consistia em fazer entrar no aparelho psíquico uma quantidade cada vez maior do mundo exterior. Mas como destaca Bergeret (2006), enquanto na criança o ego se encontra enriquecido com isso, no adulto cria-se assim toda uma série de fantasias interiores inconscientes, organizando uma imagem mental íntima que o sujeito vai terminar por considerar como se ela fosse um objeto real exterior.

A introjeção seria uma defesa contra a insatisfação causada pela ausência exterior do objeto. A incorporação é o objetivo mais arcaico dentre os que se dirigem para um objeto. A identificação, realizada através da introjeção, é o tipo mais primitivo de relação com os objetos. Fenichel (2005) destaca que daí por que todo tipo de relação objetal que depare com dificuldades é capaz de regredir à identificação; e todo objetivo pulsional ulterior é capaz de regredir à introjeção.

Para os autores kleinianos, há um jogo de interações constantes entre os movimentos projetivos e introjetivos, do mesmo modo que entre os mundos objetais interno e externo, o que contribui para a manutenção de boas relações objetais, vitais para o sujeito.

Na teoria de Melanie Klein a introjeção é essencial para o psiquismo, pois é através dela que se constroem os objetos internos, o que permite a formação do ego e do superego. Mas para Klein, os objetos que se introjetam nunca são uma cópia fiel dos objetos externos, mas que estes se encontram deformados por uma projeção das pulsões e sentimentos do sujeito.

Há no nível da introversão, um certo número de confusões, principalmente no que tange as diferenças entre introversão, incorporação, identificação, introversão e internalização.

A incorporação oral descrita por Melanie Klein é essencialmente uma fantasia ligada a representações psíquicas mais corporais do que psíquicas, e não como um mecanismo psíquico propriamente dito.

A identificação secundária incide sobre as qualidades do sujeito e não sobre as recriminações a seu respeito.

A internalização (ou interiorização) concerne ao modo de relação com outrem, por exemplo, rivalidade edipiana com o pai, enquanto que a introjeção comporta o estabelecimento, no interior de si, de uma imagem paterna substitutiva do pai faltante. (Bergeret, 2006)

A introversão, descrita por Jung e retomada por Freud, incide sobre os fenômenos de retirada da libido em relação aos objetos reais. Essa retirada pode se efetuar de duas maneiras: para o ego (narcisismo secundário) ou para os objetos imaginários internos, as fantasias.

Na conferência XXIII – O Caminho da Formação de Sintomas – Freud (1916 – 1917) diz que a retração da libido para a fantasia é um estagio intermediário no caminho de formação dos sintomas e merece ser denominada de introversão. Freud considera que a introversão denota desvio da libido das possibilidades de satisfação real e a hipercatexia das fantasias que até então foram toleradas como inocentes.

Freud diz que um introvertido não é um neurótico, porém se encontra em situação instável, desenvolverá sintomas na próxima modificação da relação de força, a menos que encontre algumas outras saídas para sua libido represada.

Bergeret (2006) aponta que o neurótico busca um ser exterior, objeto edipiano deformado pelos conflitos; o psicótico procura voltar seu amor sobre si mesmo, mas sem sucesso; nos estados-limítrofes o individuo ama um ser imaginário, que se assemelha a seu Ideal de Si-mesmo e ao mesmo tempo um ser real, mas escolhido porque justamente afastado e inacessível. “Esse parece ser o verdadeiro domínio da defesa por introversão, ou seja, uma retirada não estritamente autística, mas constituída por fantasias interiores.” (Bergeret, 2006, pág. 104)

Anulação

Freud diz que é um processo ativo consiste em desfazer o que se fez. O sujeito faz uma coisa que, real ou magicamente, é o contrario daquilo que, na realidade ou na imaginação se fez antes.

Bergeret (2006) lembra que é conveniente que as representações incômodas, evocadas em atos, pensamentos ou comportamentos do sujeito sejam considerados como não tendo existido. Para isso, o sujeito coloca em jogo outros atos, pensamentos ou comportamentos destinados a apagar magicamente tudo o que estava ligado às representações incômodas.

A anulação ocorre nos atos expiatórios no animismo, em certas necessidades de verificação e, em geral, em todo mecanismo obsessivo, onde uma atitude é anulada por uma segunda atitude, destinada, segundo Bergeret (2006), não somente às consequências da primeira atitude, mas essa atitude em si, pelo próprio fato de que ela constitui um suporte para a representação proibida. Fenichel (2005) diz que a própria idéia de expiação nada mais é do que a expressão da crença na possibilidade de anulação mágica.

Há vezes em que a anulação não consiste em compulsão em fazer o contrário do que se fez antes, mas em compulsão em repetir o mesmíssimo ato. Fenichel (2005) destaca que o objetivo de repetir (que tem a compulsão) consiste em praticar o mesmo ato liberto do seu significado inconsciente, ou com o significado inconsciente contrário. E se ocorre de o material reprimido se insinuar outra vez na repetição, a qual visa a expiação, uma terceira, quarta, quinta repetição talvez se faça necessária.

A anulação constitui um mecanismo narcisicamente muito regressivo. Ela deve operar quando os processos mentais mais clássicos, à base de desinvestimento e de contra-investimento não sejam mais suficientes. A anulação irá incidir sobre a própria realidade, pois é a temporalidade, elemento importante do real, que se acha negada, alterada.

Denegação

É um mecanismo mais arcaico que o recalcamento. Na denegação o representante pulsional incômodo não é recalcado, mas o indivíduo depende dele, recusando-se a admitir que possa se tratar de uma pulsão que o atinja pessoalmente.

Segundo Bergeret (2006) com esse mecanismo defensivo uma representação pode, tornar-se assim consciente, sob a condição de que sua origem seja negada.

Recusa 

A recusa trata-se de eliminar uma representação incômoda, não a apagando (anulação) ou recusando (denegação), mas negando a própria realidade da percepção ligada a essa representação. (Bergeret, 2006).

Não há necessidade de recalcamento, a recusa incide sobre a própria realidade, que se tornou consciente e não é levada em conta como tal.

A recusa é essencialmente um mecanismo que se dá nas psicoses e perversões. Na psicose há a recusa de toda a realidade incômoda, sem especificidade, e o delírio vem, se necessário, sobre-investir em uma neo-relaidade compensadora. No perverso a recusa incide sobre uma parte muito focalizada da realidade, ficando o resto do campo perceptivo intacto.

Isolamento

Esse mecanismo é descrito por Freud desde 1894, e consiste em separar a representação incômoda do seu afeto. No isolamento o paciente não esquece os traumas patogênicos, mas perde o rastro das conexões e o significado emocional. Os fatos importantes de sua vida (e que podem ter forte teor patogênico) perdem o significado afetivo, são isolados de sua carga emotiva.

Bergeret (2006) diz que o isolamento constitui uma forma de resistência freqüente no tratamento analítico, por interrupção defensiva do processo associativo, quando ele põe em evidência elementos angustiantes.

Fenichel (2005) relata que há casos em que o paciente tenta impedir todo efeito terapêutico de sua análise, realizando-a, toda ela, “isolada”. O paciente aceita a análise enquanto está no consultório, mas ela permanece isolada do resto da sua vida. Há sujeitos que começam e terminam a entrevista com rituais que se destinam a isolá-la daquilo que ocorre antes e depois.

Fenichel (2005) relata que um tipo de isolamento que ocorre com muita frequência em nossa cultura é aquele dos componentes sensuais e amorosos da sexualidade. Muitas pessoas não conseguem obter satisfação sexual plena porque só são capazes de gozar a sensualidade por pessoas pelas quais não sentem amor ou até com pessoas que desprezam.

Deslocamento

Nesse mecanismo a representação incômoda de uma pulsão proibida é separada de seu afeto e este é passado para uma outra representação, menos incômoda, mas ligada à primeira por um elemento associativo (Bergeret, 2006). O afeto contido em relação a um certo objeto explode contra outro objeto.

Bergeret (2006) diz que o deslocamento trata-se de um mecanismo muito primitivo e bastante simples, ligado aos processos primários. O deslocamento opera habitualmente nas fobias, diante do fracasso do recalcamento. O isolamento, nos obsessivos, e o deslocamento nas fobias, são complementados pela evitação, destinada a poupar o sujeito a encontrar mesmo a representação isolada ou deslocada.

Sublimação

Na sublimação o alvo é abandonado em proveito de um novo alvo, valorizado pelo superego e ideal de Si-mesmo. A sublimação não necessita de nenhum recalcamento.

Bergeret (2006) diz que a sublimação constitui um processo normal, e não patológico, à condição de que ela não suprima por si só, toda atividade sexual ou violenta propriamente dita.

Freud, Sigmund (1916-1917). Conferências Introdutórias de Psicanálise, Conferência XVII – O Sentido dos Sintomas. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol.XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, Sigmund (1937). Análise Terminável e Interminável. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Bergeret, J. O problema das defesas. In: Bergeret, J. …[et al.]. Psicopatologia: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Fenichel, Otto. Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo: Editora Atheneu, 2005

Bergeret, J. A personalidade Normal e Patológica. Porto Alegre: Artmed, 1998.

Laplanche, J. e Pontalis, J. B. Vocabulaire de Psychanalyse. Paris: PUF, 1967. 520 páginas.

Metapsicologia freudiana

Sigmund-Freud-006

A metapsicologia freudiana traz os princípios, os modelos teóricos e os conceitos fundamentais da clínica psicanalítica. É um método de abordagem de acordo com o qual todo processo mental é considerado em relação com três coordenadas: dinâmica, topográfica eeconômica.

Estrutura e funcionamento do psiquismo

Pouco a pouco o psiquismo se organiza, se estrutura como um todo complexo, com traços originais que não poderão variar depois. Bergeret (2006) fala que essa organização e estruturação do psiquismo individual começará desde a tenra infância; antes do nascimento em função da hereditariedade para certos fatores, mas sobretudo do modo de relação com os pais, desde os primeiros momentos da vida, das frustrações, dos traumas e dos conflitos encontrados, em função também das defesas organizadas pelo ego para resistir às pressões internas e externas, das pulsões do id e da realidade.

Em seus aportes teóricos Freud foi levado a elaborar um modelo de funcionamento mental. Desde cedo ele forjou o termo metapsicologia mental para designar os aspetos teóricos da Psicanálise. Essa metapsicologia busca dar conta dos fatos psíquicos em seu conjunto, principalmente de sua vertente inconsciente. A metapsicologia freudiana traz os princípios, os modelos teóricos e os conceitos fundamentais da clínica psicanalítica.

Em 1915 fez uma tentativa para produzir uma ‘Metapsicologia. ‘Sobre o Narcisismo’ (1914) ‘As Pulsões e suas Vicissitudes’ (1915), ‘Repressão’ (1915), ‘O Inconsciente’ (1915), ‘Luto e Melancolia’ (1917) etc. vem fazer parte dessa tentativa. Com isso queria construir um método de abordagem de acordo com o qual todo processo mental é considerado em relação com três coordenadas, as quais descreveu como dinâmica, topográfica e econômica, respectivamente.

Ponto de vista dinâmico

O ponto de vista dinâmico explica os fenômenos mentais como sendo o resultado da interação e de contra-ação de forças mais ou menos antagônicas. A explicação dinâmica examina não só os fenômenos, mais também as forças que produzem os fenômenos. Aspulsões¹ são um tipo especial de fenômeno mental que força no sentido de descarga, experimentada como uma “energia urgente”. Zimerman (1999) define pulsão como necessidades biológicas, com representações psicológicas que urgem em ser descarregadas.

Segundo Freud (1915) as pulsões são o representante psíquico dos estímulos somáticos. As pulsões tendem a baixar o nível de tensão através da descarga de forma imediata, mas existem contra-forças que se oporão a essa descarga (satisfação da pulsão). E a luta que se cria constitui a base dos fenômenos mentais.

Em Psicopatologia da Vida Cotidiana Freud (1914) diz que os lapsos de língua, erros, atos sintomáticos, sonhos são os melhores exemplos de conflitos que se produzem entre a luta pela descarga das forças que a isso se opõem. Em Conferências Introdutórias Freud (1916) defende que o produto do lapso pode ele próprio ter o direito de ser considerado como ato psíquico inteiramente válido, que persegue um objetivo próprio. Para Freud os fenômenos lacunares – sonhos, atos falhos, parapraxias, sintomas constituem um meio – êxito e um meio – fracasso para cada uma das duas intenções.

Quando as tendências à descarga e as forças repressoras que inibem essa descarga são igualmente fortes a energia consome-se em luta interna e oculta; o que se manifesta clinicamente com sinais de exaustão sem produção de trabalho perceptível. (Fenichel, 2005).

Ponto de vista econômico

O ponto de vista econômico considera a energia psíquica sob um ângulo quantitativo. Esse ponto de vista econômico se esforça em estudar como circula essa energia, como ela é investida e se reparte entre as diferentes instâncias, os diferentes objetos ou as diferentes representações. (Boulanger, 2006)

A energia das forças pulsionais e das forças repressoras que estão por trás dos fenômenos mentais é deslocável. Algumas pulsões são mais fortes e mais difíceis de reprimir, mas podem sê-lo se as contra-forças forem igualmente poderosas. Que quantidade de excitação pode ser suportada sem descarga é problema econômico.

A pulsão é um elemento quantitativo da economia psíquica. As pulsões são constituídas pelas representações e pelos afetos que lhes estão ligados. o termo afeto designa o aspecto qualitativo de uma carga emocional, mas também, o aspecto quantitativo do investimento da representação dessa carga. Investimento é o nome dado à ação de que uma certa quantidade de energia psíquica esteja ligada a uma representação mental. Freud diz que investimento pode ser aumentado, diminuído, deslocado, descarregado e que se estende sobre as representações, um pouco como uma carga elétrica na superfície dos corpos.

Teoria Topográfica

A concepção tópica do aparelho psíquico ocorreu progressivamente e desde os primeiros trabalhos de Freud sobre a histeria. O primeiro esquema topológico do aparelho psíquico está descrito no capitulo VII da Interpretação dos Sonhos (1900) e no ensaio sobre O Inconsciente (1915).

É no capítulo VII da Interpretação dos Sonhos que Freud formula o primeiro grande modelo do aparelho psíquico (a primeira tópica). Nesse texto Freud teoriza um psiquismo composto por dois grandes sistemas – inconsciente e pré-consciente/consciente – que são separados por uma barreira (a censura) que através do mecanismo de recalque expulsa e mantêrm certas representações inaceitáveis fora do sistema consciente. Mas essas representações exercem uma pressão para tornarem-se conscientes e ativas. Ocorre um jogo de forças, entre os conteúdos reprimidos e os mecanismos repressores. Como resultado desses conflitos há a produção das chamadas formações do inconsciente: sintomas, sonhos, lapsos e chistes. Essas formações representam o fracasso e o sucesso das duas forças em conflito, uma espécie de acordo entre elas.

A palavra “aparelho” é usada para caracterizar uma organização psíquica dividida em sistemas, ou instâncias psíquicas, com funções especificas para cada uma delas, que estão interligadas entre si. (Zimerman, 1999).

Consciente

Localizado entre o mundo exterior e os sistemas mnêmicos; é encarregado de registrar as informações oriundas do exterior e perceber as sensações interiores da série prazer – desprazer. (Boulanger, 2006).

Recebe informações provenientes do exterior e do interior que ficam registradas qualitativamente (prazer x desprazer); mas não tem função de inscrição; não conserva nenhum traço duradouro das excitações que registra; pois funciona em registros qualitativos enquanto o resto do aparelho mental funciona em registros quantitativos.

Faz a maior parte das funções perceptivas, cognitivas e motoras, como a percepção, o pensamento, juízo critico, evocação, antecipação, atividade motora.

Pré-Consciente

O conteúdo do pré-consciente não está presente na consciência, mas é acessível a ela. Ele pertence ao sistema de traços mnêmicos e é feito de representações de palavras.

Funciona como um pequeno arquivo de registros (representações de palavras) que consiste num conjunto de inscrições mnêmicas de palavras oriundas e de como foram significadas pela criança. (Zimerman, 1999).

A representação da palavra é diferente da representação da coisa, cujas inscrições não podem ser nomeadas ou lembradas voluntariamente.

Inconsciente

É a parte do psiquismo mais próxima da fonte pulsional. É constituído por representantes ideativos das pulsões. Contém as representações das coisas, as quais consistem em uma sucessão de inscrições de primitivas experiências e sensações provindas dos órgãos dos sentidos o que ficaram impressas na mente antes do acesso à linguagem para designá-las.

O inconsciente opera segundo as leis do processo primário e além das pulsões do id, esse sistema também opera muitas funções do ego, bem como do superego.  

Segunda tópica

As primeiras linhas dessa conceituação aparecem em Além do Princípio do Prazer (1920) e será desenvolvida em o Ego e o Id (1923). Introduz a existência de três instâncias: o Id, o Ego e o Superego. Essas três estruturas separadamente têm funções especificas, mas que são indissociadas ente si, interagem permanentemente e influenciam-se reciprocamente.

Id

O id tem um correspondente quase exato na primeira tópica: o inconsciente. É o pólo pulsional. Na segunda tópica pulsão de vida e pulsão de morte pertencem a ele. No id não há lugar para a negação, nem o princípio da não-contradição, ignora os juízos de valor, o bem, o mal, a moral.

Em Esboço de Psicanálise Freud (1930) diz que na origem tudo era id; o ego se desenvolveu a partir do id, sob a influência persistente do mundo externo.

Sob o ponto de vista econômico, o id é a um só tempo um reservatório e uma fonte de energia psíquica. Do ponto de vista funcional ele é regido pelo princípio do prazer; logo, pelo processo primário. Do ponto de vista da dinâmica psíquica, ele abriga e interage com as funções do ego e com os objetos, tanto os da realidade exterior, como aqueles que, introjetados, estão habitando o superego, com os quais quase sempre entra em conflito, porém, não raramente, o id estabelece alguma forma de aliança. (Zimerman, 1999).

Ego

O ego é o pólo defensivo do psiquismo. É um mediador. Por um lado pode ser considerado como uma diferenciação progressiva do id, que leva a um continuo aumento do controle sobre o resto do aparelho psíquico. Por outro ponto de vista, o ego se forma na seqüência de identificações a objetos externos, que são incorporados ao ego. De qualquer forma, o ego não é uma instância que passa a existir repentinamente, é uma construção.

O ego não é equivalente ao consciente, não se superpõe ao consciente, nem se confunde com ele. O ego tem raízes no inconsciente, como é o caso dos mecanismos de defesa, que são funções do ego, assim como o desenvolvimento da angústia.

A função do ego é mediadora, integradora e harmonizadora entre as pulsões do id, as exigências e ameaças do superego e as demandas da realidade exterior.

Ao contrário do id, que é fragmentado em tendências independentes entre si, o Ego surge como uma unidade, e com instância psíquica que assegura a identidade da pessoa. (Boulanger, 2006). Também tem a função de consciência assegura a auto-conservação.

Superego

É o herdeiro do Complexo de Édipo. É estruturado por processos de identificação. A identificação com o superego dos pais. Assume três funções: auto-conservação; consciência moral; função de ideal – ideal de ego.

O superego é constituído pelo precipitado de introjeções e identificações que a criança faz com aspectos parciais dos pais, com as proibições, exigências, ameaças, mandamentos, padrões de conduta e o tipo de relacionamento desses pais entre si. Zimerman, 1999).

Freud, S. (1916/1917) Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Zimerman, David E. Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.

Freud, Sigmund (1915). O Inconsciente. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, S. (1914). Psicopatologia da Vida Cotidiana Freud. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Fenichel, O. Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo: Editora Atheneu, 2005.
Bergeret, J. Noção de Estrutura. In: In: Bergeret, J. …[et al.]. Psicopatologia: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Boulanger, J. –J. Aspecto Metapsicológico. In: Bergeret, J. …[et al.]Psicopatologia: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Freud, S. Esboço de Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1998.

Sexualidade na Psicanálise

images (8)A concepção psicanalítica da sexualidade embaralha as fronteiras entre o normal e o patológico, bem como prescinde da categoria de instinto sexual. Em Psicanálise a sexualidade está divorciada da sua ligação por demais estreita com os órgãos genitais, sendo considerada como uma função corpórea mais abrangente, tendo o prazer como a sua meta e só secundariamente vindo a servir às finalidades de reprodução.

Em seu estudo autobiográfico Freud (1935) declara que poucos dos achados da psicanálise tiveram tanta contestação universal ou despertaram tamanha explosão de indignação como a afirmativa de que a função sexual se inicia no começo da vida e revela sua presença por importantes indícios mesmo na infância.

E contudo nenhum outro achado da análise pode ser demonstrado de maneira tão fácil e completa. Freud ainda neste livro declara que quando modificou a teoria do trauma infantil sendo levado a reconhecer que as cenas de sedução jamais tinham ocorrido e que eram apenas fantasias que os pacientes haviam inventado e que os sintomas neuróticos não estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos; ele abriu o caminho para o entendimento da sexualidade infantil.

Em Freud, a função sexual encontra-se em existência desde o próprio início da vida do indivíduo, embora no começo esteja ligada a outras funções vitais e não se torne independente delas senão depois; ela tem de passar por um longo e complicado processo de desenvolvimento antes de tornar-se aquilo com que estamos familiarizados como sendo a vida sexual normal do adulto. De início a função sexual é não centralizada e predominantemente auto-erótica. A sexualidade começa por manifestar-se na atividade de todo um grande número de pulsões componentes; estas estão na dependência de zonas erógenas do corpo; atuam independentemente umas das outras numa busca de prazer e encontram seu objetivo, na maior parte, no corpo do próprio indivíduo.

Após a fase do auto-erotismo, o primeiro objeto de amor em ambos os sexos é a mãe, afigurando-se provável que, de início, uma criança não distingue o órgão de nutrição da mãe do seu próprio corpo.
A sexualidade está divorciada da sua ligação por demais estreita com os órgãos genitais, sendo considerada como uma função corpórea mais abrangente, tendo o prazer como a sua meta e só secundariamente vindo a servir às finalidades de reprodução.

A homossexualidade pode ser remetida à bissexualidade constitucional de todos os seres humanos e aos efeitos secundários da primazia fálica. A psicanálise não se preocupa em absoluto com julgamentos de valor a respeito da sexualidade.

A maneira como as pulsões sexuais podem ser influenciados e desviados lhes permite ser empregados para atividades culturais de toda espécie, para as quais, realmente, prestam as mais importantes contribuições.

Em psicanálise o conceito do que é sexual abrange bem mais do que seu sentido popular. É reconhecido como pertencente à vida sexual todas as atividades dos sentimentos ternos que têm os impulsos sexuais primitivos como fonte, mesmo quando esses impulsos se tornam inibidos com relação a seu fim sexual original, ou tiveram de trocar esse fim por outro que não é mais sexual. (Freud, 1910)

A ausência mental de satisfação pode existir independente da abstinência de sexo. O coito é apenas uma forma de expressar a sexualidade, mas não a própria sexualidade. (Freud, 1910).

Loureiro (2005) diz que a psicanálise efetua uma verdadeira ruptura naquilo mesmo que até então se considerava sexualidade. Ao contrário dos discursos normativos da sexologia e da criminologia, que priorizavam a explicação com base em teorias da hereditariedade e da degenerescência, a concepção psicanalítica da sexualidade embaralha as fronteiras entre o normal e o patológico, bem como prescinde da categoria de instinto sexual (impulso pré-formado, comum à espécie como um todo, dotado de objeto e finalidade fixos), Freud usa o termo Trieb (impulso ou pulsão). A pulsao não implica nem comportamento pré-formado, nem objeto específico. O conceito de pulsão demonstra as múltiplas, contingentes e mutantes feições que pode assumir a sexualidade humana.

Loureiro, Inês. Luzes e Sombras. Freud e o advento da psicanálise. In: Jacó-Vilela, A. M.; Ferreira, A. A. L.; Portugal, F. T. Historia da Psicologia: rumos e percursos. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2005.

Freud, Sigmund. (1935). Um Estudo Autobiográfico. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas Vol. XX. Rio de Janeiro: Imago editora 1996.

Freud, Sigmund. (1910). A Psicanálise Silvestre. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas: Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

Desenvolvimento psicossexual

images (7)A sexualidade infantil se diferencia da sexualidade do adulto em vários aspectos. A maior excitação não precisa necessariamente ser localizada nos genitais. Não levam necessariamente ao contato sexual, mas alongam-se em atividades que vêm a desempenhar papel futuramente no prazer. Pode ser auto-erótica. Excitação e satisfação não estão nitidamente diferenciadas.

O desenvolvimento do Ego não é um processo homogêneo. Quando nasce, o organismo emerge de um ambiente relativamente tranqüilo para entrar num estágio de estimulação esmagadora com pouca proteção contra os estímulos. (Fenichel, 2005, pág. 30).

No início da vida, o bebê não é capaz de fazer uma diferenciação entre mundo externo e mundo interno; ele não tem noção das dimensões do seu corpo, não se vê unificado com braços, pernas e cabeça etc. Fenichel (2005) diz que a origem do Ego e a origem do senso de realidade são dois aspectos de uma mesma etapa de desenvolvimento. O conceito de realidade é que também cria o conceito de Ego; somos indivíduos na medida em que nos sentimos distintos e separados de outras pessoas.

A primeira percepção de objeto (externo) virá do desejo de alguma coisa que já é familiar ao bebê – alguma coisa capaz de gratificar necessidades, mas ausente no momento. Os primeiros sinais de representação objetal devem originar-se no estado de fome. (Fenichel, 2005, pág. 31).

“A primeira aceitação da realidade é somente um estágio intermediário no caminho de se afastar dela.” (Fenichel, 2005, pág. 31). É o ponto em que surge a contradição básica da vida humana, a contradição entre o desejo de relaxamento completo e o desejo de objetos (fome de estímulo). O fato de objetos externos haverem trazido o desejado estado de satisfação relaxada introduziu a complicação de que os objetos se tornaram desejados.

A primeira realidade é a que se engole. O “pôr na boca” vem a ser uma das primeiras formas de relação com os objetos externos. Essa incorporação é a percussora das atitudes sexuais e destrutivas ulteriores; destrói, em sentido psicológico, a existência do objeto. Como a forma como o Ego primitivo percebe o mundo é incompleta ele vem a sentir-se onipotente. É uma “onipotência ilimitada, a qual persiste enquanto não existe concepção dos objetos.” (Fenichel, 2005, pág. 34)

Quando a criança é obrigada a renunciar a crença na sua onipotência, passa a considerar onipotentes os adultos “e tenta mediante a introjeção , partilhar-lhes, desta vez, a onipotência. Há sentimentos narcísicos de bem-estar que se caracterizam pelo fato de que se sentem como reunião a uma força onipotente existente no mundo exterior, força que se obteve ou pela incorporação de partes deste mundo, ou pela fantasia de que se é por ele incorporado” (Fenichel, 2005, pág. 36)

Na criança maior todo o sinal de amor que vem do adulto, mais poderoso e admirado, tem o mesmo efeito que o leite teve sobre o bebê.

Fenichel (2005) caracteriza amor objetal passivo o período durante o qual a criança quer obter do objeto alguma coisa sem com nada contribuir. Nessa época do desenvolvimento para a criança o objeto ainda não é personalidade, é apenas um instrumento com que obter satisfação. Nesse período o medo de perda de amor significa perda de ajuda e proteção que acarretam perda de auto-estima.

O desamparo inicial do bebê leva-o a estados de alta tensão dolorosa , estados nos quais o organismo é inundado por quantidades de excitação que lhe excedem a capacidade de controle: são os chamados estados traumáticos. O sofrimento dos estados traumáticos representa a raiz comum de vários afetos futuros, entre eles a angústia. (Fenichel, 2005).

As sensações desta angústia primária podem ser consideradas , de um lado, como a maneira pela qual a tensão se faz sentir e, de outro lado, como a percepção de descargas de emergência vegetativas involuntárias. (Fenichel, 2005).

A libido, a princípio é toda armazenada no ego.

E este estado absoluto é chamado de narcisismo primário. Ele perdura até o ego começar a catexizar as idéias dos objetos com a libido, a transformar a libido narcísica em libido objetal. Durante toda a vida o ego permanece sendo o grande reservatório, do qual as catexias libidinais são enviadas aos objetos e para o qual elas são também mais uma vez recolhidas (…) (Freud,1932, pág 18)

Durante a fase oral já ocorrem esporadicamente impulsos sádicos, juntamente com o aparecimento dos dentes. Porem sua amplitude é muito maior na fase seguinte, a fase anal-sádica, por ser a satisfação então procurada na agressão e na função excretória . (Freud, 1932)

Na fase Sádico-anal o objetivo primário do erotismo anal é o gozo de sensações prazerosas na excreção. (Fenichel, 2005). Os primeiros desejos anais são auto-eróticos. Subdivide-se a fase de organização anal da libido em um período inicial, que teria um objetivo sádico no prazer excretório, sem consideração do objeto; e um período ulterior, que se caracterizaria por um prazer prevalente de retenção, no qual se conserva o objeto.

Na fase fálica o órgão que desempenha o papel principal é o pênis, os órgãos genitais femininos por muito tempo permanecem desconhecidos. Nas primeiras fases, os diferentes componentes das pulsões empenham-se na busca de prazer independentemente uns dos outros, na fase fálica, há os primórdios de uma organização que subordina os outros impulsos à primazia dos órgãos genitais e determina o começo de uma coordenação do impulso geral em direção ao prazer na função sexual. (Freud, 1932)

Em Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise Freud (1933) fala que as crianças de tenra idade não possuem mecanismos internas contra seus impulsos que buscam o prazer. O papel que mais tarde é assumido pelo superego é desempenhado, no início por um poder externo, pela autoridade dos pais. A influência dos pais governa as crianças, concedendo-lhe provas de amor e ameaçando com castigos; os quais para a criança são sinais de perda de amor e se farão temer por essa mesma causa. Essa angústia realística é precursora da angústia moral subseqüente.

Ao abandonar o Complexo de Édipo, a criança deve renunciar às intensas catexias objetais que depositou nos seus pais, e é por compensação a essa perda de objetos que existe uma intensificação tão grande das identificações com os pais. (Freud, 1933).

 

Recalcamento (Die Verdringung)

163264_640O recalcamento é o mecanismo de defesa mais antigo, e o mais importante; foi descrito por Freud desde 1895.  Está estritamente ligado a noção de inconsciente e é um processo através do qual se elimina da consciência partes inteiras da vida afetiva e relacional profunda.

Sob seu aspecto estritamente funcional, o recalcamento é indispensável à simplificação da existência corrente e não implica sempre uma presunção mórbida. Quando entra em cena de maneira patológica trata-se de organizaçõesneuróticas ou sistemas defensivos de modo neurótico (mesmo no seio de estruturas diferentes). (Bergeret, 2006)

Freud (1915) em seu artigo metapsicológico sobre o recalcamento se questiona sobre por que deve um impulso pulsional sofrer tal vicissitude (ser recalcada, tendo seu acesso negado), já que a satisfação de um impulso sempre provoca prazer. Seria necessário supor a existência de certas circunstâncias peculiares, algum processo através do qual o prazer da satisfação se transforma em desprazer.

Freud diz que o recalque não é um mecanismo defensivo presente desde o início; só pode surgir quando tiver ocorrido uma cisão marcante entre a atividade mental consciente e a inconsciente (o recalcamento só está presente a partir da divisão entre sistema consciente/pré-consciente e sistema inconsciente). E que antes da organização mental alcançar essa fase a tarefa de rechaçar os impulsos pulsionais cabia à outras vicissitudes, as quais as pulsões podem estar sujeitas.

Bergeret (2006) define o recalcamento como um processo ativo, destinado a conservar fora da consciência as representações inaceitáveis. Distinguem-se três níveis nos quais esse mecanismo ocorre: o recalcamento primário; recalcamento secundário ou recalcamento propriamente dito; e retorno do recalcado.

Recalcamento primário

“É o resto de uma época arcaica, individual ou coletiva, em que toda representação incômoda (imagens da cena primitiva, de ameaças à vida ou seduções pelo adulto) se encontrava automática e imediatamente recalcada, sem ter-se tornado consciente; é o pólo atrativo a seguir, os pontos de fixação dos recalcados ulteriores relacionando-se aos mesmos gêneros de representações.” (Bergeret, 2006, pág. 99).

O recalcamento primário, segundo Bergeret (2006) pressupõe a presença de uma inscrição sexual no imaginário primitivo da criança, desde o nascimento. E pressupõe também a impossibilidade dessa inscrição sexual se tornar, desde já operatória, em razão de um recalcamento primário imediato. A inscrição sexual primitiva só poderá se mostrar operatória em uma estrutura mais avançada do aparelho psíquico, o que irá preparar a instalação do Édipo e de todas as suas vicissitudes, que convém, afastar então, do registro consciente, sob a pressão de um recalque secundário, gerador do inconsciente secundário.

Antes de serem formados os sistemas inconsciente e pré-consciente/consciente, certas experiências cuja significação inexiste para o sujeito são inscritas no inconsciente e têm seu acesso à consciência vedado a partir de então. Essas inscrições vão funcionar como o recalcado original (Urverdragngung) que servirá de pólo de atração para o recalcamento propriamente dito (Nachdangen). Para Freud esse “recalque primevo” consiste em negar entrada no consciente ao representante psíquico (ideacional) da pulsão. Com isso, estabelece-se uma fixação.

Recalcamento secundário (ou recalcamento propriamente dito)

Consiste em um duplo movimento de atração pelas fixações do recalcamento primário e de repulsão pelas instâncias proibidoras: superego (e ego, à medida que ele se torna aliado do superego). ( Bergeret, 2006)

Segundo Freud (1915) o recalque propriamente dito afeta os derivados mentais do representante recalcado, ou sucessões de pensamento que, originando-se em outra parte, tenham entrado em ligação associativa com el. Por causa dessa associação, essas idéias sofrem o mesmo destino daquilo que foi primevamente recalcado.

Portanto, para Freud para que haja o recalcamento não é suficiente a ação exercida pelo sistema pré-consciente-consciente, é necessário também a ação exercida por representantes inconsciente. Roza (2005) diz que o que ocorre no recalcamento originário não é nem um investimento por parte do inconsciente, nem um desinvestimento por parte do pré-consciente/consciente, mas um contra-investimento. “No caso, a noção de contra-investimento está sendo utilizada para designar uma defesa contra um excesso de excitação proveniente do exterior, capaz de romper o escudo protetor contra os estímulos”. (Roza, 2005, pág. 161).

Retorno do recalcado

O recalcamento não pode impedir que as representações recalcadas se organizem no inconsciente, se enlacem de forma sutil e dêem mesmo nascimento a novos derivados, que irão tentar se manifestar no nível do consciente.

O retorno do recalcado pode consistir ou em uma simples “escapada” do processo de recalcamento, válvula de escape funcional e útil (sonho, fantasias), ou em uma forma às vezes já menos anódina (lapsos, atos falhos), ou, ainda, em manifestações francamente patológicas de fracasso real do recalcamento (sintomas). (Bergeret, 2006)

As formações substitutivas, as formações de compromisso e os sintomas são fenômenos que assinalam o retorno do recalcado. O recalcamento não organiza essas formações.

O recalcamento incide sobre os representantes pulsionais proibidos, através de um jogo de desinvestimento (dos representantes angustiantes pelo pré-consciente) e de contra-investimento da energia pulsional disponível, ao mesmo tempo reinvestida sobre outras representações autorizadas.

Fenichel (2005) define o recalque como consistindo no esquecimento inconscientemente intencional, ou na não-conscientização de impulsos internos ou de fatos externos, os quais, via de regra, representam possíveis tentações ou castigos de exigências pulsionais censuráveis, quando não meras alusões a estas.

Fenichel (2005) aponta ainda que há casos em que certos fatos são lembrados como tais, mas as conexões respectivas, o significado, o valor emocional são reprimidos.

Freud (1915) diz que o representante pulsional se desenvolverá com menos interferência se for retirado da influencia do sistema consciente – ele “prolifera no escuro”, e assume formas extremas de expressão, que uma vez traduzidas e apresentadas ao neurótico irão não só lhe parecer estranhas mas também assustá-lo, mostrando-lhe o quadro de uma extraordinária e perigosa força da pulsão.

O recalque não retira do consciente todos os derivados daquilo que foi primevamente recalcado. Quando esses derivados se tornam suficientemente afastados do representante recalcado – quer devido à adoção de distorções, quer por causa do grande numero de elos intermediários inseridos -, eles terão livre acesso ao consciente. Mas não é possível determinar qual o grau de distorção e de distancia no tempo necessário para a eliminação da resistência por parte do consciente. E, via de regra, o recalque só é removido temporariamente, reinstalando-se imediatamente.

Freud esclarece que o processo de recalcamento é altamente individual (cada derivado isolado do reprimido pode ter sua própria vissicitude especial, e um pouco mais ou um pouco menos de distorção altera completamente o resultado) em seu funcionamento e extremamente móbil. O recalque não é um fato que acontece uma vez, produzindo resultados permanentes; ele exige um dispêndio persistente de força, e se esta viesse a cessar, o êxito do recalque correria perigo, tornando necessário um novo ato de recalque. O recalcado exerce uma pressão contínua em direção ao consciente, exigindo uma contrapressão incessante.

Bergeret, J. O problema das defesas. In: Bergeret, J. …[et al.]. Psicopatologia: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Fenichel, Otto. Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo: Editora Atheneu, 2005.

Freud, Sigmund. (1915). O Recalcamento. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Roza, L. A. G-. Freud e o Iconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

Introdução à Histeria

O conceito de histerias abrange muitas modalidades e graus de quadros clínicos dentro da categoria de “neurose histérica”, porém pode ser abordado sob outros vértices, como o de uma personalidade (ou caracteriologia) histérica ou ainda da presença de “traços histéricos” que está presente em praticamente todas as personalidades normais ou psicopatológicas (Zimerman, 1999). Do ponto de vista psiquiátrico pode ser dividida em dois tipos: conversiva e dissociativa.

Alguns autores acreditam que a histeria se modifica conforme o contexto sócio-cultural vigente em cada época. A histeria é tão plástica proteiforme que de alguma forma, ela está presente em todas as psicopatologias, sendo que a compreensão dos psicanalistas deixou de ser unicamente da psicodinâmica dos conflitos sexuais reprimidos, mas também como uma expressão de problemas relacionados e comunicacionais (Zimerman, 1999).

Bergeret (2005) fala da estreita relação da histeria com o corpo. A histeria leva plenamente em conta a onipotência da pulsão e assume suas conseqüências “da percepção vertiginosa de seu limite extremo, o desejo de desejo insatisfeito, a sua incorporação maior, a saber, a fantasia incestuosa. É nesse sentido que, com a histeria toda pulsão irá se tornar incestuosa” (Bergeret, 2006, p. 149)

Histórico

A palavra histeria está em circulação há mais de dois mil anos. Desde a antiguidade e em particular com Hipócrates a histeria já era usada para designar transtornos nervosos em mulheres que não haviam tido gravidez. Em manuscritos egípcio muitos séculos mais antigos que a acepção de Hipócrates, aparece uma doença identificável correspondente ao termo.

A palavra histeria – histeros, que em grego, quer dizer útero- ao longo da história estava, por definição ligada de forma indissociável ao feminino e com o sexual. Na Idade Média a Histeria passou a ser definida como possessão pelo demônio.

Charcot no século XIX soube distinguir a histeria de epilepsia, ainda classificava a Histeria como transtorno fisiopático do sistema nervoso. Charcot investigava a Histeria através da hipnose.

Foi durante as aulas de Charcot que Freud ficou intrigado com o fato de que a Histeria, embora não demonstrasse nenhuma perturbação neurológica orgânica, não se caracterizava como fingimento e ainda o fato da Histeria não se apresentar somente em mulheres.

Depois de Charcot, Babinsky com quem Freud também estudou, sublinhando a sugestibilidade e cunhando o termo “pitiatismo”, permitiu separar o que pertence à Psiquiatria e o que concerne à neurologia.

Janet concebia a Histeria como tratando-se essencialmente de uma diminuição da tensão psíquica que pode ser provocada por choques emocionais e recordações traumáticas

Histeria na Psicanálise

A Histeria, como o próprio inconsciente, tem um jeito todo seu de guardar segredos. A Psicanálise de certa forma, surgiu como uma conseqüência lógica de perguntas sobre sexo, conflito e poder que a Histeria apresenta ao longo dos séculos, e ela tem uma maneira própria de colocá-las em prosa, em histórias próprias. (Borossa, 2005).

Na Europa do século XIX a Histeria viria a ser a doença do momento, coincidindo com as profundas mudanças que afetaram a estrutura familiar sob a pressão da industrialização, quando os papéis de homens e mulheres se polarizaram como nunca.

Embora não fosse manifestamente culpável o paciente histérico era estigmatizado por seus sintomas, era um suspeito, oriundo de uma linhagem talvez suspeita. Existia ainda a suspeita de que o ser humano era dividido num eu consciente, moral e em alguma outra coisa, problemática, irracional, que precisava ser contida.

Entre os sintomas clássicos das manifestações histéricas encontravam-se: sensação de sufocação, tosse , acessos dramáticos, paralisia dos membros, desmaios, incapacidades repentinas de falar, perda de audição, esquecimento de língua materna, vômitos persistentes e incapacidade de ingerir alimentos.

No século XIX, em um mundo predominantemente patriarcal, “a Histeria passou a incorporar a própria feminilidade como problema e enigma” (Borossa, 2005, p. 5).

O encontro de Freud com a Histeria e com a histérica está na origem da Psicanálise. Freud, em um mundo patriarcal, ousou ouvir a histérica, e ele via na histeria uma manifestação psíquica, como uma forma de significar o corpo e o mundo. Ele pôde perceber o “valor do sintoma” e estuda-los sob uma nova óptica.

A histérica foi considerada vítima das condições sociais opressivas ou rebelde, por contestar aquelas condições cujo comportamento estranho, perturbador, exprimia um sentimento de desconforto profundo e/ou um protesto contra as limitações de sua situação (Borossa, 2005)

Em Estudos sobre Histeria (1905), Freud e Breuer apresentaram três pontos fundamentais da Histeria: os sintomas histéricos faziam sentido; existia um trauma que causara a doença, que tinha ligação com impulsos libidinais que haviam sido reprimidos; a lembrança desse trauma e sua catarse era o caminho para a cura.

Com a lembrança das histórias que estavam por trás dos sintomas estes seriam eliminados através da sugestão. No final do livro Estudos sobre Histeria, no caso de Elizabeth Von R. Freud chega a noção de um conflito entre dois impulsos contrários, o que acarreta nos sintomas histéricos e traz junto a idéia de recalque já que aquelas idéias não são lembradas.

Vem depois a idéia de uma sexualidade problemática, onde o desejo entra em contradição com a incapacidade de realização. “Os sintomas da Histeria eram manifestações físicas de queixas que não tinham expressão” (Borossa, 2005)

A Histeria ao mesmo tempo em que era um sofrimento e uma passividade era uma forma de fugir da realidade, ou de pelo menos se abster das obrigações que essa realidade impunha.

A histérica, de acordo com Freud é aquela cujas fantasias não lhe permitiram entre ser menino ou ser menina. Elas querem mas não conseguiram assumir as responsabilidades desse querer.

Transferência

images (6)A transferência é um fenômeno que ocorre na relação paciente/terapeuta, onde o desejo do paciente irá se apresentar atualizado, com uma repetição dos modelos infantis, as figuras parentais e seus substitutos serão transpostas para o analista, e assim sentimentos, desejos, impressões dos primeiros vínculos afetivos serão vivenciados e sentidos na atualidade.

O manuseio da transferência é a parte mais importante da técnica de análise. Em Um Estudo Autobiográfico Freud (1925) faz uma explanação geral do mecanismo de transferência. A transferência logo que surge substitui na mente do paciente o desejo de ser curado, e, enquanto for afeiçoada e moderada, torna-se o agente da influência do médico e nem mais nem menos do que a mola mestra do trabalho conjunto de análise

Posteriormente, quando se tiver tornado arrebatada ou tiver sido convertida em hostilidade, torna-se o principal instrumento da resistência. Poderá então acontecer que paralise os poderes de associação do paciente e ponha em perigo o êxito do tratamento. Não é possível falar em análise sem transferência. Não se deve supor, todavia, que a transferência seja criada pela análise e não ocorra independente dela. A transferência é meramente descoberta e isolada pela análise. Ela é um fenômeno universal da mente humana, decide o êxito de toda influência médica, e de fato domina o todo das relações de cada pessoa com seu ambiente humano.

Em A História do Movimento Psicanalítico (1914) fala que o surgimento da transferência sob forma francamente sexual- seja de afeição ou hostilidade – no tratamento das neuroses, apesar de não ser desejada ou induzida pelo médico nem pelo paciente, sempre lhe pareceu a prova mais irrefutável de que a origem das forças impulsionadoras da neurose está na vida sexual. E ainda que a transferência seja ponto de partida do trabalho da psicanálise.

Se o paciente coloca o analista no lugar do pai (ou da mãe), está também lhe concedendo o poder que o superego exerce sobre o ego, visto que os pais foram, como sabemos , a origem do seu superego. O novo superego dispões agora de uma oportunidade para uma espécie de pós-educação do neurótico. (Freud, 1930, pág. 49)

Na transferência o paciente produz com clareza plástica, uma parte importante da história de sua vida, da qual de outra maneira, ter-nos-ia fornecido apenas um relato insuficiente. Ele a representa diante de nós, por assim dizer, em vez de apenas nos contar. (Freud, 1930)

A transferência permite que o analista se aproprie do saber inconsciente que se insinua na fala do sujeito. A interpretação da transferência é perigosa, pois tal procedimento pode até aliviar a angústia do sujeito, e com isso gratificar o analista, mas pode ser que o analisando esteja apenas substituindo sua associações pelas interpretações do analista, numa tentativa de recuperar a estabilidade que as defesas conferem à neurose.

Em A Questão da Análise Leiga Freud (1927) declara que toda análise digna dessa nome institui uma neurose de transferência, que constitui o sintoma, um sintoma analítico.uma responsabilidade maior do analista na condução da análise reside no manejo da transferência, num manejo analítico da neurose de transferência. Ele dizia que o neurótico não quer curar-se, mais precisamente não quer curar-se dessa neurose de transferência.

A transferência se constitui a partir da realidade psíquica do analisando, por meio dos seus desejos, medos e outros aspectos da sua subjetividade. Em Recordar, Repetir e Elaborar, Freud (1914) esclarece que a transferência cria uma região intermediária entre a doença e a vida real, através da qual a transição de uma para a outra é efetuada. A nova condição assumiu todas as características da doença, mas representa uma doença artificial, que é, em todos os pontos acessível à nossa intervenção. Trata-se de um fragmento que foi tornado possível por condições especialmente favoráveis, e que é de natureza provisória

O Método da Associação Livre

A associação livre é o método terapêutico por excelência da psicanálise. Freud o inventou em substituição ao hipnotismo no tratamento das neuroses. Começou a utilizá-la no tratamento de Elizabeth Von R. que solicitou que Freud a deixasse associar livremente, sem pressionar a busca de uma lembrança específica.

A associação livre e os sonhos formam o queFreud chama de via régia para o inconsciente.

FreudNa associação livre o paciente é orientado a dizer o que lhe vier à cabeça, deixando de dar qualquer orientação consciente a seus pensamentos. É essencial que ele se obrigue a informar literalmente tudo que ocorrer à sua autopercepção, não dando margem a objeções críticas que procurem pôr certas associações de lado, com base no fundamento de que sejam irrelevantes ou inteiramente destituídas de sentido.

Em seu Estudo Autobiográfico Freud (1925) lembra-nos que devemos ter em mente que a associação livre não é realmente livre. O paciente permanece sob a influência da situação analítica, muito embora não esteja dirigindo suas atividades mentais para um assunto específico: nada lhe ocorrerá que não tenha alguma referência com essa situação. Sua resistência contra a reprodução do material reprimido será agora expressa de duas maneiras.

Em primeiro lugar, será revelada por objeções críticas; e foi para lidar com tais objeções que a regra fundamental da psicanálise foi inventada. Mas se o paciente observar essa regra e assim superar suas reservas, a resistência encontrará outro meio de expressão. Tal regra a disporá de tal forma que o próprio material reprimido jamais ocorrerá ao paciente, mas somente algo que se aproxima dele de maneira alusiva; e quanto maior a resistência, mais remota da idéia real, da qual o analista se acha à procura.

O analista, que escuta serenamente, mas sem qualquer esforço constrangido, à torrente de associações e que, pela sua experiência, possui uma idéia geral do que esperar, pode fazer uso do material trazido à luz pelo paciente de acordo com duas possibilidades. Se a resistência for leve, ele será capaz, pelas alusões do paciente, de inferir o próprio material inconsciente; se a resistência for mais forte, ele será capaz de reconhecer seu caráter a partir das associações, quando parecerem tornar-se mais remotas do tópico em mão, e o explicará ao paciente. A descoberta da resistência, contudo constitui o primeiro passo no sentido de superá-la.

A associação livre oferece inúmeras vantagens: expõe o paciente à menor dose possível de compulsão, jamais permitindo que se perca contato com a situação corrente real; e garante em grande medida que nenhum fator da estrutura da neurose seja desprezado e que nada seja introduzido nela pelas expectativas do analista. Deixa-se ao paciente, em todos os pontos essenciais, que determine o curso da análise e o arranjo do material; qualquer manuseio sistemático de sintomas ou complexos específicos torna-se desse modo impossível. Em completo contraste com o que aconteceu com o hipnotismo e com o método de inicitação, o material inter-relacionado aparece em diferentes tempos e em pontos diferentes no tratamento. Deve, teoricamente, sempre ser possível ter uma associação, contanto que não se estabeleçam quaisquer condições quanto ao seu caráter.

Com a ajuda do método de associação livre e da arte correlata de interpretação, tornou-se possível provar que os sonhos têm um significado, e que é possível descobri-lo. A estrutura dos sonhos não pode ser vista como absurda ou confusa; é um produto psíquico inteiramente válido; e o sonho manifesto não passa de uma tradução distorcida, abreviada e mal compreendida, e na sua maior parte uma tradução em imagens. Esses pensamentos oníricos latentes encerravam o significado do sonho, enquanto seu conteúdo manifesto era simplesmente um simulacro, uma fachada, que poderia servir como ponto de partida para as associações, mas não para a interpretação.

“A associação livre é uma maneira de fazer surgir o desejo nas representações. Essa operação é uma tarefa do analisante. A associação livre foi o dispositivo descoberto por Freud que consiste no desenrolar das cadeias significantes do sujeito, sustentado pelo amor de saber dirigido ao analista: a transferência. Desenrolar este que permite desatar os nós do recalque do sintoma, cabendo, por sua vez, ao analista a direção da análise apontada para a construção da fantasia fundamental no intuito de fazer o sujeito atravessá-la, ou seja, ir para além desta. Se a fantasia é uma resposta do sujeito ao enigma do sexo que representa o desejo do Outro, atravessá-la é experimentar o estado de desolação absoluta ou de desamparo – Hilflosigkeit, ou seja, a mais completa solidão e a inexistência do Outro – S(A/).” (Jorge A. Pimenta Filho Carta Acf)

A associação livre como regra fundamental da psicanálise, constitui um convite a que o sujeito da experiência tome distância da coerência, como condição de poder bem dizer da verdade do sintoma que o invade. Assim a psicanálise valoriza mais o incoerente que o coerente do sintoma e o consultório do analista é o lugar de se desfazer desses laços da coerência do sintoma para na linha de um novo laço – transferencial, o sujeito, enlaçado não ao analista, mas a esse lugar do desenlaçamento, buscar dar conta de seu sintoma e elabora-lo. (Jorge A. Pimenta Filho Carta Acf)

O Conceito de Narcisismo Na Construção Teórica da Psicanálise

O Narcisismo, em psicanálise, representa um modo particular de relação com a sexualidade. É um conceito crucial no seu desenvolvimento teórico. O narcisismo é um protetor do psiquismo e um integrador da imagem corporal, ele investe o corpo e lhe dá dimensões, proporções e a possibilidade de uma identidade, de um Eu. O narcisismo ultrapassa o auto-erotismo e fornece a integração de uma figura positiva e diferenciada do outro.

Narciso de Michelangelo CaravaggioEm 1899 Paul Näcke introduziu pela primeira vez o termo “narcisismo” no campo da psiquiatria. Para Närcke seria um estado de amor por si mesmo que constituiria uma nova categoria de perversão.

Provavelmente a primeira menção pública de Freud do termo “narcisismo” se encontra na nota de rodapé acrescida à segunda edição de Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (o prefácio traz a data de dezembro de 1909). Ernest Jones relata que em uma reunião da Sociedade Psicanalítica de Viena, a 10 de novembro de 1909, Freud havia declarado que o narcisismo era uma fase intermediaria necessária entre o auto-erotismo e o amor objetal.

Em maio de 1910 no livro “Leonardo” Freud fez uma referencia consideravelmente mais extensa ao narcisismo. Depois se seguiram à análise do Caso Schreber (1911) e Totem e Tabu (1912-1913).

Em 1914 Freud lança seu artigo “Sobre a Introdução do Conceito de Narcisismo”. Esse artigo é um de seus trabalhos mais importantes, podendo ser considerado como um dos fatores centrais na evolução de seus conceitos. Nesse texto é traçada uma nova distinção entre “libido do ego” e “libido objetal”; e é introduzido os conceitos de ‘ideal do ego’ e do agente auto-observador (que constitui a base do que veio a ser descrito como superego em o Eu e o Isso em 1923).

Elia (1992) diz que do ponto de vista da impelência clínica da produção teórica freudiana, foram as psicoses que produziram a teoria do sujeito implicada na teoria do narcisismo.

Freud (1914) diz que a necessidade de discutir sobre um narcisismo primário normal surgiu quando se fez a tentativa de incluir o que era conhecido como demência precoce (Kraepelin) ou da esquizofrenia (Bleuler) na hipótese da teoria da libido – denominados por Freud de parafrênicos.

Freud acreditava que na esquizofrenia a libido afastada do mundo externo é dirigida para o ego e assim dá margem a atitude que pode ser denominada de narcisismo, mas esse seria um narcisismo secundário, superposto a um narcisismo primário. Freud propõe que há uma catexia libidinal original do ego, parte da qual é posteriormente transmitida aos objetos, mas que fundamentalmente persiste e está relacionada com as catexias objetais.

Jung, junto a Eugen Bleuler em Zurique vinha se dedicando às psicoses; e suas pesquisas o levaram a produzir uma teorização enfraquecedora da teoria freudiana da sexualidade. Jung propunha retirar o caráter sexual da libido, que passaria a significar a energia psíquica geral.

Houser (2006) diz que a saga de Narciso (um herói devorado de amor por um objeto que não é outro senão ele próprio) leva a pensar no narcisismo como uma relação imatura, auto-centrada, erotizada, mais que sexualizada, detida em uma contemplação especular do idêntico ao “Si-mesmo” do sujeito. Mais o narcisismo também promove a constituição de uma imagem de si unificada, perfeita, cumprida e inteira, que ultrapassa o auto-erotismo primitivo para favorecer a integração de uma figuração positiva e diferenciada do outro, e, sobretudo, do outro em seu estatuto sexuado.

Luciano Elia (1995) define o narcisismo como o processo pelo qual o sujeito assume a imagem do seu corpo próprio como sua, e se identifica com ela (eu sou essa imagem). Implica o reconhecimento do eu a partir da imagem do corpo próprio investida pelo outro.

O narcisismo primário

NarcisoFreud em 1914 fala que o “eu” não é inato e que resulta de uma nova ação psíquica que se faz como um acréscimo ao auto-erotismo. Essa nova ação psíquica é o narcisismo.

Narcisismo não é igual a auto-erotismo, pois uma unidade comparável ao ego não existe desde o início, ele tem que ser desenvolvido; os instintos auto-eróticos se encontram desde o início.

Freud postula que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais – ele próprio e a mulher que cuida dele – o que leva a considerações de um narcisismo primário em todos, o qual, em alguns casos, pode manifestar-se de forma dominante em sua escolha objetal.

Freud (1914) diz que o grande encanto de uma criança reside em grande medida em seu narcisismo, seu auto-contentamento e inacessibilidade.

Para Freud o desenvolvimento do ego consiste em um afastamento do narcisismo primário e dá margem a uma vigorosa tentativa de recuperação desse estado. Esse afastamento é ocasionado pelo deslocamento da libido em direção a um ideal do ego imposta de fora, sendo a satisfação provocada pela realização desse ideal.

Le Poulichet (1997) diz que o que vem a perturbar o narcisismo primário é o Complexo de Castração. É através dele que se opera o reconhecimento de uma incompletude que desperta o desejo de recuperar a perfeição narcisista. O narcisismo secundário se define como o investimento libidinal da imagem do eu, sendo essa imagem constituída pelas identificações do eu com as imagens dos objetos.

O narcisismo e a constituição da noção de “EU”

Num primeiro momento, o ego (eu) para Freud era o ego (eu) da psicologia corrente. Com o conceito de narcisismo Freud (1914) propôs a constituição do ego (eu) a partir de ser ele o objeto da pulsão. O narcisismo seria o momento organizador das pulsões parciais, permitindo a passagem do auto-erotismo para o investimento libidinal de um objeto exterior.

Em Freud o Eu (ego) não existe desde de o início, deve se constituir através de um ato pelo qual o eu identifica-se com a imagem de seu corpo, imagem que assume como sua, e mais ainda, como sendo ele próprio(Elia, 1995).

Embora o bebê humano não tenha condições neurológicas para dominar a organização de seu esquema corporal (ainda não pode coordenar seus movimentos) pode reconhecer-se no espelho. O conhecimento, a organização do próprio corpo, vem do exterior. Leite (1992) diz que haverá uma primazia, uma antecipação do psicológico sobre o fisiológico, e é assim que se constituirá a estrutura do sujeito humano.

Elia (1995) diz que é contra o estilo freudiano a tradução de Ich por Ego, e porta as marcas do positivismo cientificista na linguagem. Ich é “Eu”, e o sentido que ele assumirá em Freud será devido à subversão de seu sentido na teoria e não ao uso de uma palavra incomum.

Antes da Introdução do Narcisismo (1914) o “EU” é uma massa ideacional consciente cujo principal objetivo é conservar a vida e reunir o conjunto de forças que, no psiquismo, se opõe à sexualidade (Elia, 1995). É a sede das pulsões de auto-conservação (pulsões de vida) e é o pólo defensivo do psiquismo, interessado em conservar a vida.

Mas desde as Neuropsicoses de Defesa (1894), com a ênfase do conceito de defesa (ato e função do eu) Freud rompe com a concepção neurologizante e passiva do eu. Elia (1995) diz que por essa relação com a conservação da vida (com afastamento/oposição ao sexual) a noção de Eu está aprisionada ao discurso psicobiológico.

Freud ainda não havia elaborado uma teoria do eu consistente, que o concebesse a partir de uma perspectiva rigorosamente pulsional

O eu poderia ser definido como o resumo do esforço de viver, trincheira de um desejo, no máximo, natural – o desejo de viver e manter-se vivo, campo natural da vida, conexo porém oposto ao sexual, este perverso – polimorfo, subversivo, voltado para o gozo e para o prazer, mais que para a vida(Elia, 1992, p. 117).

Elia (1992) diz que antes do conceito de narcisismo o Eu estava situado diante dos investimentos pulsionais (uma pulsão sexual, sem sujeito, oriunda do inconsciente), defendendo-se, recalcando, produzindo e administrando conflitos, mas não entrava enquanto instancia subjetiva, como efeito do circuito pulsional.

Com a introdução do narcisismo anuncia-se o risco da totalização da pulsão na esfera do sexual. A libido é sempre sexual, consistindo o narcisismo precisamente na sexualização do Eu, sua erotização. Mas para Freud o sexual é não-todo. O narcisismo destitui o estatuto pulsional das pulsões do Eu ou de auto-conservação.

Freud (1914) chega ao questionamento da necessidade de diferenciar uma libido sexual de uma energia não-sexual das pulsões do Eu, se o Eu tem um investimento primário da libido. Freud ficou diante do que fazer com as antigas pulsões (não-sexuais) do Eu, de autoconservação.

Elia (1992) lembra que diluir os interesses egóicos e autoconservadores do Eu na libido narcísica equivaleria a totalizar a experiência subjetiva em torno do sexual, excluindo da teoria o que escapa a significação sexual.

Elia (1992) enuncia que a posição teórico-clínica e ética de Freud sobre a sexualidade pode ser resumida em duas proposições complementares: (1) A sexualidade para a psicanálise é absoluta; (2) A sexualidade para a psicanálise é não-toda (não diz todo o sujeito).

O termo absoluta atribuído à sexualidade na psicanálise quer exatamente expressar que nenhum sujeito, e nenhum fenômeno do sujeito escapa às incidências do sexual, como tal articulado por Freud ao desejo inconsciente. E o caráter não-todo do sexual em Freud visa precisamente a expressar a impossibilidade de que a incidência do sexual recubra a totalidade da subjetividade, lhe seja co-extensiva (Elia, 1992, p. 128).

Com a introdução do narcisismo Freud altera seu esquema pulsional anterior, postula a existência de uma só pulsão, a pulsão sexual, a libido, que passa a ter o Eu como uma de suas localizações possíveis.

Elia (1992) lembra que agora também o Eu é um dos alvos da libido, tanto quanto os demais objetos, mas não do mesmo modo. O Eu é irredutível ao mundo dos demais objetos e assume a força suficiente para constituir uma libido de natureza distinta, a que Freud dá o nome de libido narcísica. Não há assim, uma só libido e dois pólos de investimento (o Eu e os objetos), há duas libidos: o Eu, de um lado, constituindo a libido narcísica; e os outros objetos, do outro, constituindo a libido objetal.

Em 1920 Freud introduz o “Além do princípio do prazer”. Nessa obra ele estabelece uma nova teoria pulsional, a dualidade entre pulsões sexuais (ou Eros, ou pulsões de vida) e pulsões de morte (Thanatos, pulsão de destruição). As pulsões de auto-conservação são subsumidas pelas pulsões de morte, como pulsão parcial dessas últimas na medida em que o esforço do Eu para viver não terá outro objetivo se não o de garantir que venha a morrer.

Elia (1992) diz que a pulsão de morte define é o para além da sexualidade e do princípio do prazer. Ele diz que trata-se de afirmar a exclusividade do sexual, mas ao mesmo tempo circunscrevê-lo impedindo sua plenificação.

O sexual é não-todo, não se fecha numa totalidade, contendo, nos seus confins , uma dimensão de furo, de impossibilidade radical e estrutural de significação. Nem tudo poderá ser significado, nem tudo fará sentido, nem tudo será recalcado no inconsciente, e portanto nem tudo será recordável na experiência analítica. No lugar do não recordável, do não-interpretável, Freud coloca a compulsão de repetição: em vez de recordar, o sujeito repete, em ato, o que não pôde se tornar inconsciente recalcado (Elia, 1992, pág. 136).

O narcisismo em Klein

Para Melanie Klein as relações de objeto existem desde o início da vida, refutando a idéia de narcisismo primário de Freud, pois não considera processos anobjetais.

Para Klein no vínculo narcisista há uma identificação do ego com o objeto idealizado interno, o que permite dissociar e negar o objeto persecutório externo. A estrutura narcisista é instável, pois é produzida por uma desintegração ou dissociação do ego, e conserva o perigo diante da ameaça persecutória negada (Bleichmar e Bleichmar, 1992).

Na teoria kleiniana o interesse puramente narcisista é uma atitude agressiva em relação ao objeto; existe uma intenção de agredir, por inveja ou por ciúme, que é expressa pelo narcisismo. Quando o sujeito é narcisista em seus interesses, sempre haverá alguém que sofrerá com isso. A resolução do narcisismo é realizada pelo interesse e amor em proteger os objetos externos e internos.

A renúncia ao desejo narcisista é resultado da posição depressiva, quando se opta por deixar de lado os interesses pessoais narcisistas em favor do parental e por amor aos objetos.

Narcisismo em Lacan

O narcisismo corresponde ao investimento do eu pela libido que, neste ato constitui-se como libido narcísica. Lacan assinala que este investimento se faz sobre a imago do corpo próprio, no que ele concebeu como estagio do espelho, e que esta imago não pode ser da mesma ordem da imagem dos objetos a serem investidos pela outra libido; para Lacan, na anterioridade lógica do narcisismo não há investimento objetal possível. Não há relação de objeto que não pressuponha o narcisismo (o que se evidencia pela impossibilidade de que haja relação eu-objeto antes da constituição do eu) (Elia, 1992).

Por volta dos seis meses de idade o bebê reage jubilosamente diante da percepção de sua própria imagem no espelho. Para Lacan o bebê tem uma representação fantasmática do corpo, na qual este aparece fragmentado (a imago do corpo fragmentado continua a se expressar durante a vida adulta nos sonhos, delírios, e processos alucinatórios). A imagem no espelho antecipa para o lactante a coordenação e integridade que não possui naquela etapa da vida (Bleichmar e Bleichmar, 1992).

Na experiência do espelho o sujeito se identifica com algo que não é; ele acredita ser o que o espelho lhe reflete, acaba se identificando com um fantasma, é uma ilusão da qual procurará se aproximar.

Em Lacan o estágio do espelho não é apenas um momento no desenvolvimento do ser humano; é uma estrutura, um modelo de vínculo que operará durante toda a vida.

O espelho situa a instância do eu, ainda antes de sua determinação social, em uma linha de ficção. O Eu aí constituído é o ego ideal, diferente do ideal de ego. O ego ideal é uma imago antecipatória prévia, o que o sujeito não é mas deseja ser. É uma imagem mítica, narcisista, incessantemente perseguida pelo homem (Bleichmar e Bleichmar, 1992).

O ideal do ego surge da inclusão do sujeito no registro simbólico.

Na conferencia “A agressividade em Psicanálise” Lacan enuncia que a agressividade, como vivência essencialmente subjetiva, surge de encontro entre a identificação narcisista, da qual o indivíduo é portador, e as fraturas, às quais esta imago está submetida (Bleichmar e Bleichmar, 1992).

O estágio do espelho traz a reflexão sobre a intersubjetividade humana. O olhar do outro produz no sujeito sua identidade, por reflexo. Através do olhar do outro, o sujeito sabe quem ele é, e nesse jogo narcisista, se constitui a partir de fora.

Lacan retoma a reflexão hegeliana da Fenomenologia do Espírito, especifica a Dialética do Senhor e do Escravo.“Nada irrita mais do que a intenção do outro de sair do jogo, pois tropeça no que sou”. Lacan considera a pulsão de morte como expressão do narcisismo.

Leite, Marcio P. de S. A Negação da Falta: cinco seminários de sobre  Lacan para analistas kleinianos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1992.

Elia, Luciano. Corpo e Sexualidade em Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Ed. UAPÊ, 1995.

Houser Aspecto genético. In: Bergeret, J. …[et al.]. Psicopatologia: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Le Poulichet, Sylvie. O Conceito de Narcisismo. In: Nasio, Juan-David. Lições sobre os sete conceitos cruciais de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

Freud, S. (1894).  Neuropsicoses de Defesa. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

Bleichmar, N. M. e Bleichmar, C. L. A Psicanálise depois de Freud: teoria e clínica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

Freud, S. (1914) Sobre a Introdução do Conceito de Narcisismo. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

Freud, S. (1910) Leonardo. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

Freud S. (1911) Caso Schreber. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

Freud S. (1912) Totem e Tabu. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

Freud, S. (1923) O Eu e o Isso. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

Considerações sobre Luto e Melancolia (Trauer und Melancolie) de Freud

Freud busca nesse texto fazer considerações a respeito da natureza da melancolia comparando-a com o afeto normal do luto e limitando-se a discutir apenas suas manifestações de origem psicogênica. A correlação colocada por Freud entre luto e melancolia justifica-se pela semelhança no quadro geral dessas duas manifestações. O luto caracteriza-se pela reação normal relativa à perda de um ente querido e a melancolia, hoje nomeada como depressão, é um diagnóstico de grande incidência na população mundial. Tenta-se a seguir fazer breve apanhado desse escrito de Freud relacionando-o com outros estudos na área.

Luto

O luto, de maneira geral, manifesta-se como estado de reação a perda de algo amado e não implica condição patológica desde que seja superado após certo período de tempo. Suas características assimilam-se muito as da melancolia que possui como traços marcantes desânimo profundo e penoso, cessação de interesse pelo mundo externo e inibição de toda e qualquer atividade. A característica de maior peso na diferenciação dos dois estados é presença de baixa auto-estima e auto-recriminação muitos comuns na Melancolia e inexistentes no luto normal.

No luto profundo existe a perda de interesse pelo mundo externo a não ser que se trate de circunstâncias ligadas ao objeto perdido. Há a dificuldade de adotar um novo objeto de amor. A inexistência do objeto exige grande esforço para redirecionamento da libido. A oposição a esse redirecionamento da libido pode acontecer de maneira tão intensa que dá lugar a um desvio de realidade (psicose alucinatória), entretanto, essa manifestação não ocorre no luto normal.

Com relação ao luto normal é importante salientar que a perda do ente amoroso não constitui presença de auto-recriminação, mas, em pessoas nas quais existe pré-disposição para neurose obsessiva pode haver a culpa pela perda. O sujeito pode ter a sensação que pode ter ajudado no processo de perda, pode vir a achar que a desejou

A superação do luto é realizada pouco a pouco e com grande gasto de energia. O desligamento do objeto perdido se dá através da evocação e hipercatexização de cada lembrança relativa ao objeto. Quando o trabalho de luto se conclui o ego fica outra vez.

Em meados da década de 1960, a psiquiatra Kübler-Ross, estuda a partir de sua experiência profissional com pacientes terminais as fases pelas quais passaria o luto. A obraSobre a morte e o morrer, publicada em 1969, analisa os estágios pelos quais passam as pessoas no processo de terminalidade: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação (COMBINATO e QUEIROZ, 2006)

As reações de luto, que se estabelecem em resposta à perda de pessoas queridas, caracterizam-se pelo sentimento de profunda tristeza, exacerbação da atividade simpática e inquietude. As reações de luto normal podem estender-se até por um ou dois anos, devendo ser diferenciadas dos quadros depressivos propriamente ditos. No luto normal a pessoa usualmente preserva certos interesses e reage positivamente ao ambiente, quando devidamente estimulada. Não se observa, no luto, a inibição psicomotora característica dos estados melancólicos. Os sentimentos de culpa, no luto, limitam-se a não ter feito todo o possível para auxiliar a pessoa que morreu; outras idéias de culpa estão geralmente ausentes (DEL PORTO, 1999)

Melancolia

Melancolia, de Edvard MunchA melancolia também pode vir a ser reação de perda do objeto amado, objeto este que não precisa ter necessariamente morrido e sim ter sido perdido enquanto objeto de amor. Em alguns casos pode-se constatar a perda, entretanto, não se sabe exatamente o que se perdeu (sabe-se, por exemplo, quem se perdeu, mas não se sabe o que se perdeu nessa pessoa). No melancólico não se pode ver exatamente qual o conteúdo da perda.

Diferentemente do processo de luto, apresenta o ego como desprovido de valor, incapaz de qualquer realização. A baixa auto-estima pode estar associada à insônia e a recusa em se alimentar. A gênese da melancolia, segundo Freud, estaria numa ligação objetal que mostrou ser uma catexia de pouco poder de resistência sendo logo liquidada.

A libido nesse caso, sem ter direcionamento, desloca-se para o ego estabelecendo uma espécie de identificação deste com o ente perdido. A perda objetal passa a ser uma perda do próprio ego.

Nos casos de catexia de pouca resistência constata-se que a escolha amorosa é feita sob uma base narcísica, dessa forma, a libido ao deparar-se com obstáculos pode retroceder ao narcisismo. Conclui-se, portanto, que mesmo em conflito com a pessoa amada não é preciso renunciar à relação amorosa.

O amor pelo objeto não pode ser renunciado, mesmo que o próprio objeto o seja. Sendo assim, o afeto volta-se contra o ego como substitutivo fazendo-o sofrer e tirando satisfação sádica de seu sofrimento. Esse aspecto solucionaria o enigma do suicídio. Isso só ocorreria, no entanto, quando o ego trata a si mesmo como objeto de forma a encaminhar-lhe toda a hostilidade originalmente pertencente ao mundo exterior.

A melancolia tem uma tendência a se transformar em mania. O conteúdo relatado pelos pacientes com mania na prática clínica, segundo FREUD (1917), em nada difere do conteúdo da melancolia, como se ambos lutassem contra o mesmo complexo. Na melancolia o ego sucumbiria ao mesmo e na mania já o teria superado resultando disso um estado de alegria por alívio, de economia de energia. Nesse último caso a libido fora liberada para novas catexias objetais.

Nos critérios atuais colocados pelo DSM-IV conta ainda com muitos critérios, similares aos antes mencionados por Freud como perda de peso por recusa à alimentação, insônia e mesmo sentimento de inutilidade e culpa excessiva, sendo esta última diferencial importante com relação à melancolia e luto patológico. A correlação da melancolia com a mania é explicitada pela grande ocorrência casos de Transtorno Bipolar, corroborando em muito também algumas das afirmações de Freud.

COMBINATO, Denise Stefanoni; QUEIROZ, Marcos de Souza. Morte: uma visão psicossocial. Estud. psicol. (Natal),  Natal,  v. 11,  n. 2, Aug.  2006 .   Available from . access on01  July  2009.  doi: 10.1590/S1413-294X2006000200010

DEL PORTO, José Alberto. Conceito e diagnóstico. Rev. Bras. Psiquiatr.,  São Paulo, 1999. Available from . access on01  July  2009.  doi: 10.1590/S1516-44461999000500003.

FREUD, Sigmund. (1917 [1915]). Luto e melancolia. In: FREUD, Sigmund. Obras Completas. v. 14. Rio de Janeiro: imago Editora, 1969.