O incesto e o abuso sexual

Trabalho como psicanalista em meu próprio consultório há 32 anos. E já há algum tempo fui convidado pelo ilustre colega e amigo, grande pioneiro neste campo, o professor doutor Claudio Cohen, a colaborar, como supervisor convidado, com o Centro de Estudos e Atendimento Relativo ao Abuso Sexual (CEARAS) do Instituto Oscar Freire na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. É onde acontece um extenso trabalho de pesquisa e psicoterapia com famílias incestuosas (pais com filhas/filhos, irmãos entre eles, mãe/filhos/filhas, avós/netas/netos, padrastos/madrastas/enteados, tios etc.), que revela o quanto a situação é ampla na sociedade, das classes mais baixas às mais privilegiadas. No trabalho feito com famílias encaminhadas por fóruns de justiça e que estão, portanto, sendo acompanhadas juridicamente, tratamos do grupo (família), que percebemos como “um indivíduo”, assim como no consultório analítico também podemos entender que uma pessoa é um “grupo de entidades”. Neste trabalho do CEARAS, em que a dimensão psíquica da situação é a prioridade, não é possível, por exemplo, haver uma “discriminação simplificada” entre vítima e algoz, pois o que se verifica é uma questão dinâmica de todo o grupo, em que a capacidade para pensar e simbolizar em geral é muito precária (o que não implica obviamente na desresponsabilização dos adultos envolvidos). O trabalho é focado na captação dessa problemática, na sua exposição e possível conscientização, para que se possa desenvolver alguma possibilidade de ela ser pensada e elaborada, visto que admoestações morais e repressão policial podem ser muito úteis e importantes para o grupo manter sua organização social, mas insuficientes e quase sempre inúteis para uma efetiva realização por parte da família e de seus membros do significado psíquico desse tipo de atuação.

Freud, Klein e Bion perceberam o aspecto fundamental da existência do tabu sobre o incesto, intrinsecamente associado ao desenvolvimento da capacidade para reconhecer e lidar com frustração, o que implica no crescimento da capacidade para pensar dos seres humanos, algo essencial no processo civilizatório. Sem isso, em pouco ou nada nos diferenciamos dos outros mamíferos superiores ou das feras selvagens, que permanecem sempre potenciais dentro de nós. Não obstante, o que se verifica é que essa capacidade civilizatória e para pensar é muito mais incipientemente desenvolvida do que se costuma acreditar. O que se observa, na prática, é que os aspectos mais primevos encontram pouco equipamento mental para elaborá-los e o incesto e o abuso sexual (além de toda a violência que observamos no cotidiano, o que não é novidade na história de nossa espécie) são muito mais comuns do que o tabu que os envolve leva a crer.

* Psicólogo formado pela Universidade de São Paulo e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Claudio Castelo Filho é membro efetivo e analista didata da SBPSP, doutor em Psicologia Social e professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP. Castelo Filho é autor do de “O Processo Criativo: Transformação e Ruptura” (Ed. Blucher, 2015) e produziu este texto como parte da apresentação que fará na “I Jornada Sobre Abuso Sexual – Consequências para a subjetividade – Prevenção”, que a SBPSP realiza nos dias 1 e 2 de abril de 2016.

O psicanalista no hospital

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos.” (Rubem Alves)

Como é trabalhar com uma equipe multidisciplinar e não sozinho? Como é trabalhar sem o divã, sem agendamentos, sem horários fixos e sendo interrompido a todo instante? Como é trabalhar em um setting tão diferente do habitual? São perguntas que o psicanalista se faz quando pensa em trabalhar em um hospital.

O hospital é um lugar onde vários profissionais com formações diferentes atendem pessoas assustadas e fragilizadas emocionalmente à espera da visita cotidiana de um médico, do médico que trará o prognóstico de sua doença.

As pessoas hospitalizadas têm seu caminho de vida interrompido: deixaram de trabalhar, deixaram de estudar, em um momento adoeceram, pararam e se encontram ali, no leito de um hospital, distante de sua casa, de sua família, fora da rotina de seu dia a dia e, muitas vezes, sozinhos. Essa situação é mais evidente, principalmente, em hospitais públicos, lugar dos mais pobres e desamparados, o que os torna ainda mais desvalidos e inseguros.

Diante da descoberta de doenças graves, como o câncer e a AIDS, por exemplo, diante de procedimentos médicos invasivos, como a retirada de órgãos ou a amputação de membros, pacientes são tomados pela ansiedade e o medo da morte se presentifica.

A permanência em um hospital constitui-se portanto como um momento de reflexão profunda, momento de revisão de vida e de considerações sobre o futuro. O que fazer quando voltar para casa? Será que a vida será a mesma? Poderei fazer as mesmas coisas que fazia antes?

Pacientes terminais, principalmente, costumam fazer uma retrospectiva de sua vida. Revêem o que construíram e se perguntam como ficará sua família quando eles partirem. Falam de mágoas, de perdão e procuram deixar tudo resolvido. Diante da proximidade da morte, alguns pedem para rever determinadas pessoas com a finalidade de perdoá-las ou de serem perdoados.

Nesses casos e nesses momentos, a presença do psicanalista no hospital se consolida. A estrutura emocional adquirida por meio de sua análise pessoal, longa e frequente, lhe respalda para lidar e aguentar o intenso sofrimento físico e psíquico dos doentes.

Muitas vezes, basta estar presente para amparar o paciente nesse mergulho interior e oferecer-lhe uma escuta atenta, acolher seus conteúdos mentais, guiando-se pela atenção flutuante. Estar disponível para a interlocução e o diálogo, permite ao paciente associar livremente e expressar sua dor. O atendimento pode ser realizado no leito, nos corredores ou em qualquer outro lugar do hospital onde a presença do analista é solicitada.

O constrangimento de alguns pacientes em falar de suas questões íntimas em lugares coletivos, próximos de pessoas que não conhecem, é visível pelo tom de sua voz, e procuram falar baixo. Na hora da medicação, a auxiliar de enfermagem chega com o remédio que não pode esperar. As visitas do médico também têm prioridade e o atendimento é interrompido. Diferentemente de um consultório, onde o psicanalista atende com hora marcada, situações inesperadas acontecem a cada instante e não existe privacidade. No hospital, analista e analisando estão expostos.

Ademais, trabalhar com uma equipe multidisciplinar, muitas vezes fragmentada na qual cada um age isoladamente, tendo o prontuário como único meio de comunicação para dar ciência do estado emocional do paciente aos outros profissionais, é uma dificuldade suplementar.

Como é, então, trabalhar com tantas variáveis? Condição sine qua non é a disponibilidade para ouvir, escutar e acolher a angústia do paciente com uma escuta qualificada e diferenciada. Mesmo com todos esses obstáculos, o psicanalista tem um papel fundamental dentro da instituição, pois pode fazer o paciente sentir-se cuidado, olhado, considerado e compreendido.
Por outro lado, as experiências vividas em instituições enriquecem o psicanalista e o habilitam para o trabalho no consultório, ampliando sua visão de mundo, possibilitando-lhe entender a história pessoal de cada um e tratá-lo de forma mais humanizada.

*Marília Ribeiro Alves é membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, membro do Núcleo de Psicanálise de Santos e região, possui especialização em Psicologia Clínica pela PUC- SP e especialização em Psicologia e Saúde – Psicologia Hospitalar também pela PUC – SP.

In-Tolerância – O que a psicanálise tem a dizer?

Na visão freudiana, o trabalho cotidiano de criar laços, estabelecer e sustentar relações e identificações, construindo valores e projetos,  é o único caminho para instaurar a tolerância entre os homens.

Por Ilana Waingort Novinsky *

Observamos todos os dias nos jornais, nas redes sociais ou na TV, conflitos, atentados e guerras causados pelos mais diversos tipos de intolerância  –xenofobia, racismo,antissemitismo, nacionalismos, homofobia–, que muitas vezes nos surpreendem por sua violência. No dia a dia, também experimentamos “pequenas” intolerâncias no trânsito, com vizinhos ou com nossos familiares. Todas estas situações causam angústia, insegurança, sofrimento e preocupação.

Como a psicanálise pode ajudar a compreender estas diversas demontrações de intolerância?

Sigmund Freud, com a criação da psicanálise, mudou para sempre a experiência humana. Seu legado representa uma força e uma abertura para que nos tornemos conscientes de nossa precariedade, das ambiguidades da existência humana e especialmente mais livres frente ao destino. Durante toda a vida e através de sua obra, Freud lutou contra a discriminação, a hipocrisia, contra a intolerância social ou política. Lutou sobretudo pela liberdade humana.

Os tempos sombrios em que viveu, sua trajetória pessoal, assim como o trabalho clínico com suas primeiras e mais importantes pacientes – as histéricas, foram as três vertentes fundamentais da formulação das teorias  freudianas.

Nestas três facetas encontramos experiências de intolerância: em sua história de vida, Schlomo Sigismund Freud sofreu, por sua origem judaica, inúmeras experiências de preconceito e discriminação;  no trabalho de construção da psicanálise, com as teorias sobre o inconsciente – o estranho e o inacessível em nós – e por sua visão da sexualidade foi, por muito tempo, duramente combatido.

A própria origem da psicanálise está repleta de experiências de perseguição e de intolerância, tanto por parte de uma moral hipócrita da época – que a rejeitava – quanto dos governos totalitários, como o nazismo e o stalinismo, que proibiram os estudos psicanalíticos e queimaram seus livros.

Por tudo isso podemos dizer que a psicanálise não apenas está apta a contribuir para a compreensão da intolerância, mas também tem, junto com outros campos de saber, um grande compromisso com esta questão.

Os mais de cem anos de prática psicanalítica hoje nos contam uma história de lutas pela tolerância com o Outro, pelo reconhecimento do estrangeiro que vive em cada um de nós, e para manter viva a psicanálise como prática não totalizadora, sempre aberta ao desconhecido.

Freud descreveu em seus textos teóricos e meta-psicológicos as bases do psiquismo na psicanálise, e o reconhecimento e a aceitação  – ou não – do outro, pelo que nos é estranho ou diferente. Já nos alertava, entretanto, que algo sempre permanecerá misterioso em nós, que o mal estar na cultura é o mal radical, inerente à condição humana, do qual não podemos nos livrar, apesar de tentarmos transformá-lo pela construção da civilização.

Como dizia Freud, o “narcisismo das pequenas diferenças” permite alguma satisfação “conveniente e relativamente inócua da inclinação para a agressão, através da qual a coesão entre os membros da comunidade torna-se mais fácil” (S. Freud, O Mal Estar na Civilização-1930, Imago Editora, 1969, p.136). Cita como exemplo a animosidade entre populações que habitam regiões próximas como os alemães do norte e os do sul, os ingleses e os escoceses, os portugueses e os espanhóis ou mesmo os  argentinos e os brasileiros. Esta é também a base de muitas formas de intolerância que vivemos cotidianamente.

De acordo com Freud, as relações de intolerância nos remetem às relações de agressividade primeva, “essa pulsão agressiva que é o derivado e o principal representante da pulsão de morte, que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo”. (Freud, 1930) Na espécie humana há, para Freud, uma constante luta entre uma pulsão de vida e outra de destruição e, portanto, “a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida”.

Criamos leis e regras na tentativa de controlar nosso desejo de causar dano ao outro, num processo a serviço de Eros, “cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, mais tarde, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade”. (Freud, 1930).

Na visão freudiana, o trabalho cotidiano de criar laços, estabelecer e sustentar relações e identificações, e a partir dessas práticas construir valores e projetos, é o único caminho que pode instaurar a tolerância entre os homens.

Ainda hoje estamos compreendendo o enorme legado de Freud e todas as implicações de suas descobertas.  A psicanálise criou uma nova definição do destino humano, colocando em nossas mãos os meios que permitem transformar situações antes consideradas irremediáveis.

Freud apontou que não precisamos ser vítimas do passado, ou do meio em que vivemos. Fez surgir um novo tipo de liberdade, ideia que era seu valor fundamental.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que contribuiu, através da psicanálise, para a modernidade e para a construção do homem moderno, Freud teve vida e obra marcadas pelas perseguições e pelo nazismo, frutos deste mesmo mundo que ele ajudou a criar.

Os psicanalistas, seus herdeiros, têm como missão levar adiante seu legado, através do estudo e da crítica tanto da própria prática clínica, quanto do mundo em que vivemos.  Ao desconfiar das respostas fechadas, simplistas e reducionistas muitas vezes dadas aos fenômenos humanos, podemos procurar contribuir para compreender a crescente complexidade do mundo com estranhas e dolorosas manifestações como a intolerância.

*A psicanalista Ilana Waingort Novinsky é  Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e o texto acima é primeira parte de um ensaio em que discute e intolerância.

Mentira: Um mecanismo de defesa

Um psicoterapeuta tem muita facilidade de reconhecer quando está diante de um mecanismo de defesa de seu paciente. Os mecanismos de defesa foram definidos com muita clareza no livro: O ego e os mecanismos de defesa, de autoria de Anna Freud, filha de Sigmund Freud.

Entre os mais conhecidos, encontram-se: a regressão, a negação, a racionalização, a fixação e a sublimação.

MAS, O QUE VEM A SER UM MECANISMO DE DEFESA, AFINAL?

Grosso modo, um mecanismo de defesa é um “recurso” ou “um álibi” que, de maneira inconsciente, o paciente apresenta, frequentemente de modo extremamente assertivo, quando o terapeuta chega muito próximo, do “núcleo de sua neurose”, uma vez que a neurose (o conflito entre um desejo e uma censura) trabalha contra a cura do indivíduo.

Resultado de imagem para MentiraNo entanto, na vida real, alguns indivíduos utilizam-se de pseudos “mecanismos de defesa”, dentre os quais destacamos, por ser o objetivo deste post, a mentira.

MENTIRA, UM TERRÍVEL “MECANISMO DE DEFESA”

Conheço ( e você também deve conhecer!) um batalhão de pessoas estropiadas por completo na vida, porque, infelizmente, foram impiedosamente enganadas por outras em quem sempre acreditaram leais, e a quem devotavam a mais pura e cega confiança, o mais belo, cuidadoso e devotado amor.

Mas…foram apunhaladas pelas costas.

Pessoas que ferem, sem piedade, como foi dito, e pisoteiam o coração de outras, que as amam, tratando-as como tijolos ou pedras; e não como seres humanos que possuem alma, coração e sentimentos, estão mais perto da animalidade irracional do que da humanidade concedida pelo Criador.

Por isso, o seu “mecanismo de defesa” não merece eufemismos, não.

São, para vergonha delas, hipocrisia e falta de caráter, sim – um câncer que invade e toma conta da alma de seres humanos mesquinhos e rasteiros, movidos pela única força que conhecem: a nojenta força do egoísmo.

Que Deus nos proteja de tais pessoas! E que tenhamos a capacidade de discernimento para reconhecê-las e afastar-mo-nos delas!

Tony Ayres

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Explicando a angustia através da psicanálise

Todos nós já experimentamos em nossa vida, em alguma ou diversas ocasiões, a dolorosa sensação de angústia; que nos apavora e amedronta.

Mas o que vem a ser a angústia, afinal?

Para Freud, o criador da psicanálise, a angústia é um estado afetivo, próprio da condição humana. Esse estado resulta de uma consciência que temos de um estado de desamparo a que estamos submetidos.

Esse estado de desamparo provoca em cada um de nós tensões muito dolorosas e intensas, as quais, em sua fase mais primitiva, constituem a raiz dos diferentes afetos e, particularmente, da angústia propriamente dita.

Segundo Freud, a manifestação mais primitiva do sentimento de angústia é a chamada angústia do nascimento, provocada pela separação e expulsão do novo ser do corpo de sua mãe.

Ele distingue com clareza dois tipos de angústia, assim descritos:

1. Angústia Real: é a reação à percepção de um perigo externo, ou seja, um dano previsto e esperado, uma atitude ligada ao reflexo de fuga. Pode ser, portanto, positiva.

2. Angústia Neurótica: é aquela que tem um caráter “flutuante”, pois não se liga a nenhuma realidade concreta. A pessoa espera atentamente o aparecimento de qualquer situação que possa justificar tal angústia.

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Como consequência, a angústia deixa de ser um sinal adaptativo, um modo de reação (como a angústia real) e se transforma em algo patológico, que seria uma “angústia derivada”, cuja origem estaria em impulsos sexuais reprimidos.

O papel da psicanálise seria trazer o conteúdo reprimido no inconsciente de volta ao consciente, fazendo com que a pessoa descubra por si mesma e assuma sem traumas, o que esse estado oculta, desenvolvendo, para isso, mecanismos normais de adaptação.

Toni Ayres

Quais os benefícios da psicanálise

A motivação na busca da Psicanálise pode surgir quando a pessoa percebe que está diante de alguns acontecimentos e fatos na sua vida que parece estar causando um “desprazer”significativo que o leva a um considerável sofrimento aparentemente inorgânico.

Quando parece que a vida não tem mais sentido ou não existe mais gozo, prazer que satisfaça sem sofrimento; fazer análise pode ser bom para o analisando. Embora não exista anestésico ou mágica alguma em fazer análise, é importante pois é uma empreitada do “conhecer-se a si mesmo”. Em algumas situações mesmo que tudo pareça estar normal e sob controle, ainda que se tenha família, amigos e sucesso no trabalho; muitas pessoas sente-se tristes e com uma série de limitações na sua vida. Seja pelos sentimentos de ansiedade, depressão, solidão, ou um quadro de diversas doenças e alergias que podem ter como pano de fundo o psicossomático.

Daí, muitas vezes a necessidade de recomendar ao analisando que faça exames clínicos e procure seu médico de confiança periodicamente conforme for recomendado, investindo assim em prevenção e qualidade de vida. A Psicanálise jamais vai substituir exames médicos e clínicos. Algumas pessoas apresentam sintomas como, medos irracionais, baixa auto-estima, pensamentos repetitivos e rituais (próprios seus) e acabam virando escravos disso; seja em casa, no trabalho ou nas suas relações familiares e sociais. A análise psicanalítica consegue levar a pessoa ao mergulho e elucidação dos conteúdos do inconsciente humano, e lá pode ser encontrado grandes tesouros ou também grandes fantasmas. Fazer a travessia sem mergulhar no conteúdo submerso e quase que infinito do seu inconsciente, pode transformar a caminhada em tudo, menos em Psicanálise. É no inconsciente que pode existir um quadro de repreensões, desejos reprimidos, recalques, traumas com algumas penalizações extensivas (até para o Hoje de cada um).

Há pessoas que podem apresentar dores ou sintomas físicos sem que uma causa orgânica ou patológica clínica venha justificar esses sintomas; há ainda os que vivem em desânimo, são solitários com dificuldades para trabalhar, ou que experimentam repetidos fracassos profissionais ou até mesmo em suas relações afetivas. Muitos vivem numa tensão permanente nas relações pessoais/afetivas, a desconfiança é quase que constante com respeito às demais pessoas, a incapacidade para manter relações amorosas mais duradouras e ainda as dificuldades na área da sua sexualidade; tudo isso são sinais de alguma neurose que pode ser conhecida e conseqüentemente analisada. Nem sempre esses distúrbios surgem como sintomas conscientes e racionais no tempo e em sua forma de viver o dia-dia de cada um que chega ao consultório. Pois a própria queixa inicial do analisado pode ser um “mecanismo de defesa” que só é transgredido após a parceria psicanalítica. O psicanalista poderá observar se há também certos traços peculiares na maneira de ser da pessoa.

O que o leva a repetir padrões de comportamento que limitam suas potencialidades e a capacidade de usufruir e gozar a vida com mais harmonia, equilíbrio e domínio de si. Uma vez formado o “par analítico” , após algumas sessões, qualquer uma dessas situações de conflito emocional-psíquico do analisado pode ir se elucidando gradativamente. Já que não existe prazo de validade e de garantia na análise, mesmo que durem meses ou até anos; o analisado só vai mudar aquilo que ele mesmo julgar “conveniente” “per-si” já que o Psicanalista não é seu (patrão, pai, chefe, Deus), o livre arbítrio do analisado é sempre e eticamente respeitado. A função da psicanálise é levar o analisado conhecer-se a si mesmo; isto é, leva-lo ao auto conhecimento. Não existe nenhuma restrição médica ou clínica para a pessoa não ser psicanalisada; desde que possua a capacidade de pensar, falar e raciocinar livremente suas idéias (entre a inteligência e imaginação) e estando em sua normalidade mental. A Psicanálise não possui efeitos colaterais ou indesejados à saúde física e mental; ela não prescreve medicação alguma, apenas lida com o conteúdo submerso no inconsciente humano, no intento de re-orientar o ser humano.

Descobrindo assim suas neuroses e com liberdade de pensamento e verbalização das emoções e desejos reprimidos; a pessoa estará habilitada para re-organizar e re-orientar a sua vida. A persistência e freqüência nas sessões também pode ser um fator decisivo. Psicanálise só não é indicada para quem não quer mudar nada e que não queira conhecer-se! Fazer análise é ter coragem para fazer uma travessia de ida e volta ao nosso “Céu” ou ao nosso “inferno” sem querer aqui dar uma conotação religiosa aos termos, mas sim filosófica. Fazer análise nos ensina como melhor lidar com as “próprias” neuroses e aflições humanas! Na análise há a verdadeira possibilidade da libertação do “humano mais humano” que reside dentro de cada um. O trabalho de “cura psicanalítica”, consiste em tornar possível o advento da palavra no lugar do sintoma; o ser humano fisicamente é um mamífero e psiquicamente, é um ser de filiação lingüística.

O Psicanalista trabalha com o ouvir sem julgo, preconceitos, castigos, punições (sejam elas culturais ou religiosas) que morem no inconsciente humano ou faça parte do seu cotidiano. O Psicanalista é o maior de todos os ouvidos do inconsciente humano; ele ouve “o que ninguém mais quase sabe ou aprendeu a ouvir” ele vê o que a pessoa comum é ensinada a não ver. A máxima de Freud é a associação livre das idéias e é nisso que o analisado vai elaborando com o seu Psicanalista uma travessia de confiança e libertação das suas neuroses. Assim poderá ser o “divã” um verdadeiro altar sagrado para o Psicanalista!

História da Psicanálise

A psicanálise é uma ciência e ao mesmo tempo uma arte que tem como objetivo a transposição inconsciente/consciente e é considerada como uma forma de tratamento das neuroses denominadas de “PSICONEUROSES”. Seu método de tratamento consiste em:

1 – LIVRE ASSOCIAÇÃO DE IDÉIAS

2 – INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS

3 – ANÁLISE DOS ATOS FALHOS, denominados de PARAPRAXIAS.

Para Freud a psicanálise é: ” uma profissão de pessoas leigas que curam almas, sem que necessariamente sejam médicos ou sacerdotes”.

A psicanálise não é psicologia e/ou medicina. Porém o médico e/ou psicólogo podem ser psicanalista, mas não é exclusividade deles o exercício da psicanálise. Para ser psicanalista é necessário uma formação especifica, através de cursos LIVRES.

A psicanálise surgiu em1890 através do médico SIGMUND FREUD que centrou seus trabalhos nos pacientes com sintomas neuróticos e/ou histéricos. Ao falar com seus pacientes Freud acabou descobrindo casualmente que a maioria dos seus problemas eram originados nos conflitos culturais, sendo então reprimidos seus desejos inconscientes e suas fantasias sexuais.

O principal método da psicanálise é a interpretação da transferência e da resistência com análise da livre associação. O analisado em uma postura relaxada passa a contar tudo o que vem em sua mente, incluindo sonhos, desejos, fantasias etc, bem como as lembranças dos seus primeiros anos da sua vida. O psicanalista somente escuta fazendo breves comentários que leva o paciente a se auto-conhecer. O papel do psicanalista é de neutralidade, um mero “espelho”.

A originalidade do conceito de inconsciente introduzido por Freud se deu devido a proposição de uma realidade psíquica, característica dos processos inconscientes.

Muitos colocam a questão de como observar o inconsciente. Se a Freud deve-se o termo “inconsciente”, pode-se também perguntar como foi possível a ele, Freud, ter tido acesso a seu inconsciente para poder ter tido a oportunidade de verificar seu mecanismo, já que é justamente o inconsciente que apresenta as coordenadas da ação do homem na sua vida diária. É nesse sentido que Freud formulou a expressão Psicopatologia da vida cotidiana.

A pergunta por uma causa ou origem pode ser respondida com uma reflexão sobre a eficácia do inconsciente. Que se faz em um processo temporal que não é cronológico e sim lógico.Diversas dissidências da matriz freudiana foram sendo verificadas ao longo do tempo, desde a fundação da psicanálise.

A visão da psicanálise de Sigmund Freud trouxe avanços importantes para os estudos mais atuais. Podemos observar isso na aprendizagem, cura de fobias e traumas, medos, estado emocional e outras contribuições de problemas originados no processo emocional.

A contribuição de Freud para o conhecimento humano e para os estudos mentais são inegáveis. O verdadeiro choque moral provocando pelas idéias de Freud serviu para que a humanidade rompesse seus tabus e preconceitos na compreensão da sexualidade. Sendo assim, a psicanálise estuda de forma aleatória a mente do ser humano baseado em seus relatos.A Psicanálise já completou mais de um século como a ciência do inconsciente.

A Psicanálise, apesar de não ser ciência no sentido cartesiano, é um método de tratamento dos transtornos psíquicos e, inclusive, um método de pesquisa. A fonte teórica inicial da Psicanálise é a Neuropatologia. Após Freud, muitos outros psicanalistas contribuíram para o crescimento do corpo teórico da Psicanálise, pois todo o conhecimento científico é acumulativo e progressivo A formação de um psicanalista é um processo lento, longo e difícil. É feita em Institutos,sociedades escolas e afins relacionados a Psicanálise . Entretanto é comum confundirem psicólogos com psicanalistas.

A sexualidade humana, berço da vida e do amor, pode ser ao mesmo tempo o inicio das neuroses, psicoses, desvios narcisistas de personalidades e também a nascente da Psicanálise. A sexualidade em Freud deve ser entendida em seu sentido amplo e não restrito, ou seja, a sexualidade como manifestação do prazer no organismo.

A cura psicanalítica, segundo os psicanalistas, é um processo lento e gradativo. Quando uma pessoa precisar de um psicanalista, deve recorrer a uma Instituição Psicanalítica que lhe indicará alguns nomes para a sua escolha.

Antigamente as consultas de psicanálise eram bastantes caras e somente possíveis para pessoas de alto poder aquisitivo. Porém nos dias atuais com a popularização da psicanálise e a possibilidades das formações de mais profissionais, cada dia mais os preços das consultas psicanalíticas estão se adaptando a realidade da população brasileira. Além da percepção cada vez maior que a sociedade tem tido da importância do trabalho profissional do psicanalista.È obvio que a formação do psicanalista evoluiu e se aliou aos novos conceitos existentes nos dias atuais. Mas sua formação continua LIVRE e seu exercício profissional é destinado a todos aqueles que fizeram um curso LIVRE de FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE.

Posso fazer o curso?

NÃO SOU PSICÓLOGO, PSIQUIATRA OU MÉDICO. MESMO ASSIM, POSSO FAZER O CURSO?

Sim, qualquer pessoa com uma graduação completa pode se matricular no curso e estudar psicanálise, este será reconhecido com um analista leigo, aquele que não é da área médica, mas que possui conhecimentos psicanalíticos.

Roudinesco retratou a condição atual da psicanálise: “A psicanálise passou a ser praticada não apenas por médicos e psiquiatras, mas por psicoterapeutas formados em psicologia. Depois de ter sido engolida pela psiquiatria, ela corria o risco de ser tragada pela psicologia e confundida com diferentes psicoterapias. Por isso, os psicanalistas reafirmaram vigorosamente a existência de suas próprias instituições, as únicas capazes de definir os critérios da formação psicanalítica”.

O que é curso livre?

Curso Livre significa não existe a obrigatoriedade de: carga horária, disciplinas, tempo de duração, e diploma ou certificado anterior.

Existe no Congresso Nacional há anos um projeto de lei para regulamentar os cursos livres no MEC, mas não existe consenso, pois há diferentes métodos, currículos e material didático; tornando-se difícil criar um padrão pelo MEC.

Por esse fato, nenhum curso livre tem vínculo nem reconhecimento pelo MEC/CAPES, eles têm validade legal para diversos fins, porém não podem ser convalidados, validados ou chancelados por escolas reconhecidas por essas instituições, além disso, todas as escolas de curso livre são proibida de oferecer graduações como OFICIAIS reconhecidos pelo MEC/CAPES e, nem emitir diplomas como SUPERIOR.