Choque de gerações: Você acredita nisso?

Recentemente fiz um curso e uma das unidades falava sobre as diferentes gerações que estão convivendo juntas no mercado de trabalho. As gerações Baby Boomers, X, Y e Z. Há também um interessante documentário no youtube (Diferença de valores e culturas entre gerações, reportagem especial da Globo News). Vale a pena assistir e tentar se localizar.

O documentário faz alusão às gerações Baby Boomer, X e Y. Em outras palavras fala sobre as pessoas nascidas na década de 40 a 60, das nascidas no final dos anos 60, início dos anos 70 e daqueles nascidos nos anos 90, mostrando as dificuldades e possibilidades que estas gerações enfretam nas relações profissionais. A geração Z não é citada no documentário, mas a título de curiosidade, é a geração dos nascidos no final dos anos 90, ou seja é geração cem por cento da Era Digital.

Interessante entender como o momento histórico do nascimento determina as atitudes e valores de toda uma geração.

Os Baby Boomers nasceram ao longo do período pós guerra, esta é uma geração que foi educada com valores necessários à reconstrução dos países envolvidos no conflito. Aqui no Brasil vivíamos o período da Ditadura Militar, o lema “Ordem e Progresso” vivido a todo o vapor é o lema desta geração. É uma geração focada na construção de vínculos profundos e duradouros, que valorizava a hieraquia e o esforço para a conquista pessoal.

A geração seguinte, Geração X, viveu as grandes mudanças na cultura de massa. Viu os Beatles, o Festival de Woodstock, o Brasil ser tricampeão mundial de futebol, o fim da Guerra do Vietnã, vivenciou a chegada da tecnologia em nossos lares e aprendeu uma dura lição com o surgimento da aids. É uma galera que vivenciou grandes acontecimentos da história recente da humanidade.

Em passado recente se transformou na geração “Cara Pintada”, que saiu às ruas para exigir o voto direto para presidente do Brasil e que derrubou do poder, pela primeira vez na história deste país, um presidente acusado de corrupção. Uma geração que viveu grandes crises econômicas e que aprendeu a poupar para ter numa eventual necessidade, que valoriza o mérito, que “abomina” a tecnologia e teme a inovação. Vivenciou muitas mudanças e valoriza a estabilidade.

A Geração Y nasceu com a intenet. É uma geração mais imediatista, quer tudo rápido, tudo para agora! Os jovens dessa geração são inovadores e, para nós mais quadradinhos, são tidos como voláteis e desleais, porque não se prendem às pessoas e lugares, são também desapegadas de valores como estabilidade no emprego, apreciando viver desafios. Sem a menor cerimônia abandonam tudo em nome de novas possibilidades. São totalmente digitais. Ao mesmo tempo conversam na internet, assistem televisão, ouvem música, respondem e-mail e ainda conseguem, por frases curtas e diretas, nos contar como foi o dia na escola/trabalho.

As crianças e adolescentes, nascidos a partir dos meados de 90, fazem parte da Geração Z. São muito parecidos com a Geração Y. Não consegue conceber a vida sem que estejam cercados por celulares, jogos eletrônicos e internet. Uma galera que tem pressa para tudo, que é extremamente ansiosa, sendo comum ouvirmos a queixa de que apresentam baixa capacidade de concentração e baixa tolerância à frustração.

Quando assisti ao vídeo e estudei o material do curso, me veio instantaneamente à cabeça os protestos que varreram o Brasil. Num primeiro momento associei as ondas de protestos aos vividos pela minha geração no tempo dos “Caras Pintadas”. Acho que não fui a única. Era comum conversar com meus contemporâneos e ver a empolgação pela situação. Claro, Freud explica, num lance de projeção, fizemos uma regressão e saímos às ruas para protestar.

Hoje me pergunto pelo que exatamente eu protestei nestes dias. Creio que fui porque minhas inscrições emocionais prazerosas do tempo de juventude, quando ao som de “Coração de Estudante”, me senti fazendo parte de um momento histórico, retornaram a toda! Fui reviver as emoções adolescentes. E as gerações mais jovens? O que foram fazer?

Conversando com um professor de Sociologia ele me disse que os protestos tem seu inegável valor histórico, nosso gigante país, há muito deitado em berço esplêndido fez menção de acordar, até acordou, mas como quase tudo que acontece politicamente neste país, fomos manipulados e o gigante voltou a cochilar!

As novas gerações agiram de acordo com sua natureza. Atenderam ao chamamento na rede mundial, aceitaram a inovação e o desafio e foram lá, viver esta farra, esta “have politica”. Poucos foram para protestar por mudanças políticas, a maioria foi porque era uma grande festa, um grande evento do Facebook!

As gerações mais “maduras” foram reviver a glória dos anos 80!

Claro que no meio disso tudo os engajados políticos foram lá realmente protestar!

Observando este episódio de nossa recente história, fiquei a pensar naquilo que tanto ouvia na época em que era adolescente sobre os conflitos das gerações. Todos nós vivemos isto. Minha mãe um dia deixou de ser minha heroína e passou a ser meio que ultrapassada… com certeza minha filha em algum momento da vida pensará (se é que já não pensa!) da mesma forma. Na sua vida isso também acontecerá, se ainda não aconteceu.

Cada geração é dotada da riqueza e da beleza de ser quem é! À geração que antecede fica a tarefa de educar e conter os arroubos próprios dos mais novos, mas fica também a possibilidade de se desarmar a prender com a geração que chega.

Com meus filhos e sobrinhos aprendo todos os dias e ensino todos os dias. Eles me ensinam a não temer o futuro e todas as parafernálias digitais que surgem diariamente. Eu também devo ensinar a cada um alguma coisa. Talvez eu ensine que devemos ser inovadores, sem jamais sermos irresponsáveis, que podemos buscar sempre o melhor, sem que para isso tenhamos que “pisar” nos outros… E você? Tem se permitido aprender com as novas gerações? E o que tem ensinado?.

Sabe, acredito muito nas palavras da música “Como nossos Pais”, docemente cantada pela Elis Regina. Em algum tempo ali no futuro, meus filhos serão uma versão melhorada do meu eu, porque hoje, com certeza e apesar de tudo, ainda sou a mesma e vivo (em muitos aspectos, numa versão melhorada) como minha mãe!

Adolescência, drogas e família

Hoje gostaria de refletir um pouquinho sobre a questão da droga na adolescência. Longe de mim, querer esgotar ou explicar sob apenas um ponto de vista esta questão que assola nossa sociedade. A entrada de alguém neste mundo ocorre por uma multiplicidade de fatores.

Ontem tive uma reunião de trabalho com vários educadores de escolas públicas e, ouvindo os gestores de diferentes escolas, observei que quase 100% dos alunos envolvidos com drogas são vítimas de um desamparo familiar que independe da classe social. Desamparo e drogas se fazem presentes independente da conta bancária dos pais!

Na Psicanálise a adição – ou dependência física ou psíquica – é classificada como uma Neurose Impulsiva.

As Neuroses Impulsivas são aqueles desequilíbrios emocionais cujos sintomas se caracterizam por atos impulsivos, ou seja, por ações prazerosas. O problema é que estas ações não são convencionais e podem prejudicar quem as realiza ou aos outros. São Neuroses Impulsivas: a cleptomania (pegar objetos), a piromania (colocar fogo), os vícios do jogo, dos tóxicos, andar sem destino…

Freud diz que dentro de nós vivem três seres: id, ego e superego. Grosseiramente podemos dizer que o id é nosso polo pulsional, é ele que manda os impulsos para o ego resolver os problemas que surgem diante das insatisfações da vida. Ele é irracional, regido pelo princípio do prazer. É só desejo!

Tudo que gravamos na parte inconsciente do nosso ser é de conhecimento do id. Na parte consciente está o Ego. Ele é a porção do id que foi educada. É regido pelo princípio da realidade. Recebe os impulsos do id, mas só pode atendê-los se o superego deixar! O superego é o juiz, o censor moral que premia, alerta e pune o ego, causando distonias emocionais (angústias, insônias, tristezas sem motivo aparente) e os sintomas neuróticos.

Diante das insatisfações do ego o id manda a ele os impulsos e aqueles proibidos pelo superego são deformados e geram os atos impulsivos com o objetivo de eliminar a tensão interna ameaçadora; são impulsos prazerosos que visam cessar o sofrimento, a dor interna que o indivíduo sente.

A busca pela droga caracteriza uma busca de segurança e apoio, a pessoa passa a depender deste componente para sentir-se alguém, ficando num primeiro momento depende emocional e, posteriormente dependente físico da substância tóxica, a ponto de anular todos os demais interesses da vida.

Os adictos são pessoas para as quais o efeito da droga tem significado específico de provedor de segurança. Não toleram a tensão, não suportam a dor, a frustração, a expectativa. A droga é uma oportunidade de fuga e seu efeito é algo tão gratificante que elimina o sofrimento e a frustração.

Passado o efeito da droga, o sofrimento e a frustração tornam-se ainda mais difíceis de suportar, induzindo novamente o aumento do uso da droga.

O que predispõe um jovem a ser “viciado” ou não é sua estrutura emocional. Jovens criados sem afeto, sem limites, com o mínimo de frustração são presas fáceis do tráfico.

A quem cabe educar o jovem para que ele não desabe diante das tempestades da vida? Nos dias de hoje vemos os pais preocupados em prover seus filhos de bens materiais e se esquecendo de desenvolver valores universais.

Em nome da culpa que desenvolvemos pelo abandono a que sujeitamos nossos filhos, damos a eles tudo que o dinheiro pode (muitas vezes não podemos!) comprar, dizemos “sim” para tudo, temos que ser os “pais amigos” e esquecemos-nos de sermos “pais educadores”, que educam pelos exemplos e pelas palavras.

Afirmamos amar incondicionalmente, mas esquecemos de amar educando. O psiquiatra e educador Içami Tiba afirma que “quem ama, educa”! Eu acredito que educar é muitas vezes dizer não! Quem educa para a vida, corre menos riscos de chorar por um filho “zumbi”, perdido no insano mundo das drogas.

Pensem nisso!

Realmente conhecemos nossos filhos?

No meu “ganha pão” muitas vezes ouço histórias que me fazem refletir sobre minha relação com meus filhos e vezes sem fim faço a mim mesma a pergunta “e se fosse comigo?”.

Nesta semana ouvi o relato de uma Professora Coordenadora, afirmando que em dez anos de carreira, nunca tinha vivido uma situação parecida com a que vivenciara na noite anterior.

Período noturno, alunos de Ensino Médio. Lá estava a Coordenadora no corredor, observando o retorno à aula após o período de intervalo, quando foi abordada por dois alunos, um rapazinho e sua amiga.

Conta ela, sem nenhuma nota de preconceito na voz, que ficou em dúvida se eram duas meninas ou um casal e que a dúvida persistiu até o momento em que perguntou o nome dos alunos. Resposta dada era um casal, um rapazinho e uma mocinha.

A responsável pela abordagem foi a garota. Ela disse à coordenadora que o amigo tinha um problema e precisava de ajuda, mas que estava com vergonha de falar. Então esta profissional solícita, acalmou os ânimos, acolheu o garoto, convidou-o à sua sala e esperou que o mesmo se abrisse com ela.

Passado o mal estar inicial o garoto disse que estava há dois dias com um sangramento anal e que não sabia o que fazer. A Coordenadora mobilizou nela toda empatia necessária ao momento, visto que, não obstante ser hoje comum jovens de 15 anos terem experiências homossexuais abertamente, elas ainda nos assustam, ainda nos causam algum mal estar, talvez porque numa transferência pensemos em todos os preconceitos e perigos a que estes jovens estão sujeitos.

Recobrado o equilíbrio a coordenadora pediu a ele que relatasse o que ocorrera que ocasionara o sangramento. O aluno contou com riqueza de detalhes.

Ele e seu parceiro, uma pessoa mais velha, haviam tido relações anais e depois disso o sangramento começou. Não fora a primeira relação, não fora violenta, Aparentemente nada que justificasse o sangramento. Com o consentimento do aluno, a professora de Biologia, que tem um bom relacionamento com os alunos foi chamada a orientar.

Ao perguntar se eles haviam tomado precauções, como o uso da camisinha, o rapaz respondeu que não, que eles são fiéis um ao outro e que dispensam o uso desta proteção. Ao perguntar se ele tinha certeza que o companheiro era “limpo”, ingenuamente ele disso que sim, que o mesmo toma banho sempre.

Refeita a pergunta quanto a ter certeza que o companheiro não possui nenhuma doença sexualmente transmissível, se já tivera outros parceiros antes dele, o rapaz não soube responder. A Equipe Escolar então encaminhou o menino para o Posto de Saúde com um relatório à Assistente Social.

Diante da gravidade dos fatos, a escola disse ao aluno que precisaria conversar com sua mãe e contar o que estava acontecendo. O aluno aceitou, mesmo porque seria a primeira vez que a mãe ficaria sabendo de sua vida sexual e de sua relação com outro homem.

A mãe atendeu na hora o chamado da escola e ficou muito surpresa com o que ouviu. Ela, apesar de ver que o filho “era um pouco mais delicado que o normal” (palavras da mãe), nunca pensou que ele fosse capaz de fazer as coisas relatadas. A mãe foi orientada a acompanhar de perto a ida ao médico e os resultados do exame.

Não houve gritos, nem choros, nem nenhuma reação emocional desmedida. Talvez, segundo a Coordenadora a mãe até já soubesse, mas não quisesse saber.

Depois desse relato encontrei a Professora Coordenadora e ele me disse que o aluno está se tratando de uma DST – Doença Sexualmente Transmissível e agora faz parte de um grupo de orientação do Posto de Saúde para sexualidade segura.

Fiquei pensando na onipotência da juventude. Esta é uma característica do jovem. Nada de ruim vai acontecer a ele, por isso os jovens se lançam a aventuras onde o bom senso muitas vezes fica esquecido.

Muitas vezes a necessidade de aceitação os faz aceitar as regras do jogo, mesmo que estas coloquem sua vida em risco. Além disso, tem também as idealizações que são aprendidas socialmente, embora seja “cafona” (termo tirado do fundo do baú!) todos nós introjetamos o sonho de viver um grande e idealizado amor!

Depois pensei nesta mãe. Será que algum dia ele olhou de verdade para este filho? Não conheço o rapaz, mas para a Professora Coordenadora ficar em dúvida sobre o sexo dele, é porque os traços físicos são mais femininos que masculinos… Aonde ele vai quando sai à noite? Quem são seus amigos? Onde moram? Como ele volta para casa? Ele tem horário para chegar?

Ser pai é uma tarefa trabalhosa! Encontrar o equilíbrio é algo que devemos exercitar sempre em nós mesmos, para tudo na vida, mas em especial para a tarefa de educar outro ser humano.

Ouvindo esta história parei para pensar: realmente conheço meus filhos? Olho para eles e os vejo como realmente são? Ou apenas vejo o que quero, o que desejo que eles sejam?

E você? Realmente conhece seu filho? Pense nisso.

Educação afetiva, você sabe dar?

Gostaria de conversar sobre um assunto “modernoso” (será?) na educação dos nossos filhos. Vamos falar um pouquinho sobre Educação Afetiva.

Segundo a psicóloga Marilda Lipp, Educação Afetiva “é um conjunto de práticas parentais que objetiva, acima de tudo a valorização do ser humano… (nela) os pais dão liberdade, mas sempre estão presentes para atuar, se for necessário”.

Em outras palavras é a forma como, no cotidiano da vida do adolescente, os pais reconhecem, valorizam e incentivam o florescimento do “lado bom” dos filhos, orientando-os de modo que possam fazer escolhas responsáveis e conscientes e, acima de tudo arcar com os resultados destas escolhas.

Pais que educam os filhos desta forma, não os protegem o tempo todo, não lhes dão tudo que querem, ao contrário, possuem a coragem de dizer “não”; deixam os filhos fazerem escolhas, orientando-os para possíveis consequências, estão vigilantes e alertas para o apoio necessário quando os filhos “erram” e valorização e estímulos quando acertam. Não se projetam nos filhos, não tentam suprir suas lacunas emocionais através da vida deles.

Se observarmos o mundo hoje, veremos que carecemos de educadores que promovam uma Educação Afetiva.

Na luta diária que é educar filhos, percebemos que ceder é geralmente a melhor estratégia, se você, pai/mãe, não quiser ganhar um chapéu pontudo preto, uma vassoura voadora e verrugas no nariz; você é vencido pela incansável capacidade que seu “reizinho mandão” tem de colocar o dedo na sua ferida, indo direto ao point da sua culpa.

Ah, filhos são seres altamente sagazes, observadores, manipuladores e cruéis quando querem algo! E sabem muito bem como conquistar o que desejam… aprenderam isso com quem mesmo?

Diante da culpa, todo e qualquer pai/mãe menos avisado e emocionalmente mais instável cede e o resultado disso vemos aos montes na mídia, nas ruas, nos shoppings.

Filhos de pais permissivos crescem e se tornam adultos ansiosos e com baixa tolerância à frustração, tornam-se depressivos, desenvolvem síndromes mil e são “pessoas metade” (aquelas que precisam receber provisão de segurança e reconhecimento constantemente e usam os outros para isso), altamente infelizes e sofrem e fazem sofrer.

O contrário disso também é um problema! Pais altamente autoritários, com mania de perfeição, geram adultos que têm medo da própria sombra, são inseguros, ansiosos, depressivos, apáticos diante da vida, também desenvolvem síndromes mil, também são “metades”, que sofrem e fazem sofrer.

Como ser um “pai/mãe afetivo(a) e ajudar seu filho adolescente a ser um adulto mais ajustado, mais equilibrado? Esta é uma tarefa trabalhosa, mas possível.

No livro “Adolescentes e seus dilemas”, cuja organização esteve a cargo da psicóloga Marilda Lipp, ela nos dá algumas dicas:

1) Entenda que a adolescência e toda sua montanha russa emocional um dia passarão. Embora hoje seus filhos pareçam rejeitar todos os valores familiares que você tenta lhe ensinar (pelos exemplos, mais que por palavras), passada a crise adolescente, eles serão incorporados e passarão a ser vivenciados;

2) Cuide da sua saúde emocional para não correr o risco de transferir e cobrar de seu adolescente sonhos e atitudes que são suas e não dele. Observe também onde você está descarregando seu stress… Lembre-se, os filhos aprendem pela observação, mais que pela audição;

3) Estabeleça o diálogo, ouvindo o que seu filho adolescente tem a dizer, mesmo que você não concorde. Ajude-o a olhar a situação por diferentes ângulos, dê a ele liberdade de escolha quando for possível. E não tenha medo de dizer não e impor limites quando for necessário. Faça isso sem julgamentos e condenações, estabeleça um juízo de razão, onde você faz um questionamento que promove a reflexão. Trabalhe em você a sua frustração de ser o “desmancha prazeres” e entenda que seu papel é o de educar e proteger, mesmo quando o filho diz não querer;

4) Aja com segurança. Converse com você mesmo e entenda seus motivos. Converse com seu filho e construa acordos e regras com a participação dele. E uma vez fechados os acordos, mantenha-os, independente das “alfinetadas” que você receberá na hora que precisar dizer “não”.

5) Proteja seu filho e, embora pareça polêmico e invasivo, é sua função com o protetor e educador, supervisionar o uso da internet. Temos sido testemunhas do que este mundo maravilhoso e ao mesmo tempo cruel pode fazer com os desavisados. Prevenir os comportamentos é melhor que puní-los!

6) Esteja inteiro no diálogo. Ouça com atenção, com respeito e cordialidade. Não julgue, não ofenda, não menospreze, não critique. Apresente argumentos que façam seu filho adolescente pensar nas questões sob outra ótica. Dê abertura, mesmo quando o ponto de vista dele o chocar, algumas vezes é só para testar você;

7) Pratique as Terapias do Abraço e do Elogio. Não custam nada e agradam muuuuito!;

8) Incentive seu filho adolescente a praticar esportes ou a ter outras atividades que o integrem a outros jovens. Mas não o force, respeite as escolhas dele.

9) Conheça quem são os amigos de seu filho adolescente e se não tiverem valores morais iguais aos de sua família, ajude-o a repensar essa amizade;

10) Mostre a seu filho adolescente o quanto a opinião dele é importante nas decisões familiares, isso fortalecerá o vínculo familiar e o fará sentir-se respeitado e integrado.

Em resumo, procure agir de acordo com a máxima cristã que nos ensina a tratar o outro como gostaríamos de ser tratados. Amor, atenção, proteção e respeito são quesitos fundamentais numa Educação Afetiva. Não custam caro, só dependem do seu querer.

Exercite isso! Seu filho e o mundo agradecerão, tenha certeza.

Hestórias da Psicanálise – Leitores de Freud

Uma análise das temáticas abordadas por Sigmund Freud, o pai da psicanálise, em suas obras e também sobre as diversas leituras realizadas por acadêmicos de todo o mundo e principalmente do Brasil, trazendo novos pensamentos e caminhos para o grande corpo de escritos científicos do austríaco.

O cinema é arte ou comunicação? Ele deve ser um fim em si mesmo, explorando a sua própria linguagem para fornecer uma visão de mundo, ou usar a popularidade do meio para transmitir uma mensagem útil aos espectadores? A questão revela-se pertinente diante de uma obra como o documentário Hestórias da Psicanálise – Leitores de Freud, visivelmente apaixonado pela psicanálise, mas sem demonstrar o mesmo interesse pelo cinema. O diretor e psicanalista Francisco Capoulade entrevista uma dúzia de especialistas no assunto, conduzindo sua exposição através de uma divisão didática e linear em capítulos. 90% do projeto é composto de entrevistas, com os convidados registrados na proporção de dois terços do enquadramento, tendo como pano de fundo grandes estantes de livros ou pilhas de livros, em símbolo clássico de erudição. Estamos diante de eméritos conhecedores do tema, numa configuração solene…

DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E TECNOLOGIA

Atualmente, com os enormes avanços da tecnologia, as crianças estão cada vez mais expostas a aparelhos eletrônicos como smartphones, tablets, computadores e jogos em geral. Essa realidade – que é inerente ao nosso contexto histórico e cultural – afeta sensivelmente o seu desenvolvimento cognitivo e emocional e o seu debate mostra-se fundamental para reduzir alguns possíveis efeitos colaterais. Sobre o assunto, vale conferir a entrevista abaixo, com a psicanalista Maria Aparecida Quesado Nicoletti*.

1) As crianças são expostas, cada vez mais cedo, a smartphones, iPads, computadores, jogos eletrônicos etc. De que forma isso afeta o desenvolvimento tanto cognitivo quanto emocional?
Depende muito da etapa da infância que se examina. Pela construção da pergunta entendo que a questão se refere a crianças que estão na faixa etária pré-escolar e no início do período de escolarização fundamental.

Nessa etapa do desenvolvimento, por volta dos quatro ou cinco anos, talvez o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança já deixou para trás os estágios primários da formação de sua psique. Seu corpo e sua mente estão ávidos por experiências novas e isso faz com que a criança incorpore rapidamente a linguagem corrente, nomes e atividades motoras variadas. Em geral, se lhe for dado a escolher o que fazer, as escolhas recairão sobre atividades prazerosas, sejam elas participar de jogos nos quais têm que fazer esforços físicos, seja interagir com computadores ou usar as mãos para manusear objetos.

Começam aqui algumas das dúvidas sobre o impacto que instrumentos e brinquedos computadorizados terão sobre o desenvolvimento infantil. Nota-se, em diversos espaços de comunicação, a existência de opiniões a favor e contra a exposição das crianças dessa faixa etária aos computadores.

Do ponto de vista da psicanálise, que busca o desenvolvimento saudável e harmonioso das crianças contemporâneas, inseridas em seu contexto de vida, a exposição aos computadores e às novas formas de vivenciar e de aprender o que tais instrumentos trazem consigo constitui movimento adequado para o desenvolvimento cognitivo e emocional infantil, sendo pouco provável que tais atividades tenham impactos negativos, a menos que entre em cena o excesso.
Em resumo, a interação da criança com os computadores faz parte da cultura de nossa época e como tal, não deve ser evitada. Sua influência só será ruim quando houver excesso ou deslocamento de intenção, quando o computador é oferecido de maneira contínua, para mudar o comportamento imediato da criança, como ocorre quando se quer que ela concentre sua atenção no jogo, enquanto seu comportamento está “dizendo” que ela precisa de interação com seus pais ou professores.

2) Qual o papel dos pais na imposição de limites ou no incentivo do aprendizado do uso de aparelhos tecnológicos?

A informática traz oportunidades de comunicação e de interação social que nunca foram experimentadas pelo Homem e, por isso mesmo, ainda não sabemos como lidar com isso. Certamente, não será impondo limites sem fornecer razões que a criança possa aceitar, ou incentivando a criança a usar computadores para aprender sem cuidar que a aprendizagem se dê a partir de uma base apropriada de compreensão, que os pais exercerão as melhores de suas influências. Em linhas gerais, pode-se aconselhar os pais a criarem espaços de participação das crianças no modo de vida da família, oferecendo oportunidades para que as mesmas usem não apenas computadores, mas brinquedos físicos, ouçam a leitura de livros, participem de jogos que exijam atividade física, evitando a rigidez da imposição. Acredito que a “chave do sucesso” para limite/incentivo seja a moderação do uso da tecnologia nessa fase de desenvolvimento precoce.

3) Em que medida o uso de computadores, iPads etc. pode afetar a socialização das crianças?

A socialização das crianças depende de um conjunto de circunstâncias de natureza cultural, que incluem as origens da família, sua situação socioeconômica, suas crenças e práticas religiosas, bem como a qualidade dos vínculos familiares. Computadores, em geral, não têm o poder de influenciar o processo de socialização, salvo onde ocorram falhas relacionadas com uma das dimensões acima citadas como, por exemplo, quando a família descuida da socialização da criança, não lhe oferecendo as vivências necessárias para seu desenvolvimento pleno.

4) Como a tecnologia pode estar sendo usada para facilitar o processo educacional ou mesmo suplantá-lo? (Por exemplo, em um restaurante, ao invés de ensinar algum comportamento, os pais dão um iPad na mão da criança para ela “não incomodar”).

Em uma determinada época, a família “terceirizou” a educação dos filhos para a escola, que, além da responsabilidade do ensino formal, passou a substituir a tarefa de exercer também a “paternidade”. No momento, será que vemos a “terceirização” para os aparelhos eletrônicos? Nota-se que muitos pais parecem estar abdicando da importante tarefa de educar, porque educação requer trabalho. Será que essas crianças se sentirão atendidas com amor ou sentir-se-ão abandonadas, por não encontrar espaço para interagir com seus genitores? O excesso do uso de aparelhos eletrônicos também pode ser observado em adultos. É comum ouvir queixas de adultos reclamando que o cônjuge não deixa o Ipad de lado e que, por isso é difícil conversar.

*Maria Aparecida Quesado Nicoletti é psicanalista e membro da SBPSP.

Por que ler Lacan

Jacques Lacan figura entre os mais importantes psicanalistas do século 20 e sua leitura da obra freudiana – a partir da filosofia hegeliana, da linguística saussuriana e dos trabalhos de Levi-Strauss – deu origem a uma das principais escolas da psicanálise francesa. O artigo abaixo, da psicanalista Sandra Schaffa, percorre alguns dos pontos centrais de seu pensamento e como eles se articulam com a obra freudiana. Vale a leitura!

É possível ler o texto freudiano reconhecendo que o inconsciente está estruturado como uma linguagem, como proposto por Jacques Lacan. Ele criticou a suposição largamente difundida de que a linguagem está a serviço da comunicação. Ao transformar o homem até mesmo em seu corpo, a linguagem não pode ser considerada propriedade humana secundária. O diálogo analítico fundamenta-se na consideração de que somos falados pela linguagem pois é nos momentos de falência do discurso que o desejo inconsciente manifesta uma verdade que o sujeito falante desconhece.

A tese lacaniana de que “O inconsciente está estruturado como uma linguagem” opõe-se à redução do inconsciente a uma reserva de pulsões selvagens que não foram domesticadas pelo Eu. O inconsciente lacaniano é o lugar onde a fala transferencial é mobilizada, onde o sujeito (do desejo) inconsciente se deixa ouvir e pronunciar uma verdade inédita, que escapa à simbolização.

“Wo Es war, soll Ich werden” (“Onde Id era, (ali) devo tornar-me”), Lacan sublinha que na tradução inglesa, que a versão brasileira Standard retomou: “Where the id was, there the ego shall be”, a introdução indevida dos artigos distorce a fórmula de Freud. A interpretação equivocada da sentença freudiana foi base de um modelo de análise, o da Psicologia do Eu. Esse modelo postulava que o processo da análise corresponderia ao desenvolvimento do Eu, “colonizador” das pulsões. Este modelo tem como corolário a suposição de que o Eu (supostamente) mais “desenvolvido” do analista serviria como norteador do processo analítico.

Lacan opõe-se agudamente a essa concepção da análise. Para designar o lugar do analista e o sentido de suas intervenções, propõe a teoria do sujeito suposto saber. O sujeito suposto saber é uma condição intrínseca à experiência da análise, um efeito da estrutura do diálogo analítico. O analista não deve se identificar com essa posição. Nessa concepção, portanto, o Eu do analista não intervém. Ao contrário, o analista deve dispor-se a ser destituído da condição do suposto saber que lhe é atribuído permitindo que, no lugar desse saber, se instaure um vazio. “Wo Es war, soll Ich werden”, a partir de Lacan, significa: “tenho que chegar ao lugar da minha verdade.”

A linguagem está no fundamento da intervenção analítica; entretanto, o texto de Lacan, com suas construções literárias barrocas, contrasta veementemente com a prosa clássica, com a clareza de exposição do pensamento freudiano. “A linguagem de Lacan utiliza-se da seguinte astúcia: a escrita dá sempre mais o que pensar do que achamos ter compreendido – como se cada frase tivesse um resto, que escapa da compreensão unívoca”, observa Alain Badiou. Tal astúcia, contudo, comporta efeitos paradoxais. A dificuldade que coloca aos leitores incita efeitos de imitação e de repetição patéticas do seu estilo.

Lacan chamou certa vez seus leitores da América Latina de lacano-americanos. Supunha que a distância de sua pessoa poderia favorecer a descoberta da significação pura de seu ensino. Que nos seja possível usufruir dessa condição de estranhamento, ler Lacan e ouvir com mais pureza a língua do psicanalista, seu enunciar renovador da descoberta da psicanálise.

*Sandra Lorenzon Schaffa é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Ciúmes dos irmãos

Afinal, o que está em jogo quando uma criança pequena depara-se com a chegada de um irmão mais novo? Quais sentimentos podem surgir? Como é possível compreender esse tipo de situação e eventuais conflitos?
Sobre o tema, vale conferir o artigo abaixo, da psicanalista Luciana Saddi.

Quando os irmãos chegam, ou mesmo quando uma criança se sente ameaçada com a vinda de primos e amigos, o que está em jogo é a disputa pelo amor dos pais.

Imagine o que você sentiria se seu marido voltasse do trabalho trazendo outra mulher e lhe dissesse: – meu bem, te amo tanto que resolvi trazer mais uma esposa para casa!

É assim que muitas crianças se sentem diante da vinda de um novo irmão. Sentimentos de raiva, de menos valia e medo de perder o lugar já conquistado prevalecem. Com o passar do tempo sentimentos de amor podem se fazer presentes.

A chegada dos novos rivais não aguça apenas a forte rivalidade infantil, aguça também a ambivalência entre o amor e o ódio, aumentando ainda mais o sofrimento daquele que se viu ameaçado pela perda do amor dos pais.

Por mais raiva que a criança sinta desse pequeno irmão ou grande rival, ela também o ama e também percebe que seus pais esperam dela um sentimento bom e de cuidado para com o recém-chegado.

Fortes conflitos entre o amor e os impulsos agressivos levam ao sentimento de culpa e ao desejo de oferecer alguma compensação por um dano real ou imaginado.

Na vida adulta encontramos essa mistura de sentimentos não apenas em relação aos nossos irmãos, também em nossas relações sociais e no desejo de compensar e reparar tão forte para algumas pessoas. Muitos dos nossos comportamentos são moldados nos padrões infantis, nascidos de conflitos poderosos quando os sentimentos eram vividos de forma absoluta e sem disfarce algum.

*Luciana Saddi é psicanalista e membro da SBPSP.

Psicanálise da Família

O atendimento psicanalítico de família é uma modalidade bastante importante nas situações em que a criança ou o adolescente sintomáticos expressam, na verdade, algo que não pode ser metabolizado pelo grupo familiar. Há todo um sistema inconsciente de operações exercido pela família e um aparelho psíquico que serve como sustentáculo para os filhos. Nesse processo, há uma comunicação que vai além daquilo que é conscientemente transmitido, com a possibilidade de que os filhos – em algum momento – manifestem algo que se instalou no grupo e que não pode ser elaborado. Sobre esse tema, vale conferir o artigo da psicanalista Vera Lamanno Adamo, especialista no assunto.

Todas as vezes que eles viajavam de perua Deus ia junto. Ele tentava falar, mas todo mundo era surdo.

Isto foi o que disse uma jovem paciente, em meio a um surto psicótico, quando lhe perguntaram sobre a sua família.
Que deus é este que esta jovem criou? O que ele tinha para dizer que ninguém conseguia escutar? O que este deus, ela mesma, tentava dizer que ninguém conseguia ouvir? Estava ela reclamando a presença de um Outro para escutar e dar sentido ao que, ela mesma, mal conseguia ouvir a respeito de si?

A família transmite ao recém-nascido sua maneira de apreender o mundo externo e de organizar o seu espaço interno. Os pais transmitem consciente e inconscientemente a possibilidade de transformar experiências sensoriais e emocionais, em elementos para experimentar o mundo e representa-lo no espaço interior. O funcionamento psíquico dos pais serve de invólucro e de sustentáculo para os filhos, como uma matriz de sentido. Isto é, o funcionamento psíquico dos pais forma uma espécie de aparelho psíquico familiar constituído por um conjunto de recursos psíquicos que oferece à princípio, uma moderação das angustias insuportáveis para evitar uma sobrecarga as quais, posteriormente, podem ser restituídas em elementos utilizados para imaginação, pensamento, sonho.

Há todo um sistema inconsciente de operações exercido pela família para enfrentar ou se evadir do sofrimento mental, de suas histórias de amor e ódio, suas perdas, seus lutos, de suas experiências mais ou menos traumáticas.

As funções do aparelho psíquico familiar, primeiramente tecido pelo casal e que, posteriormente, passam a fazer parte de uma aparelhagem psíquica comum e partilhada por todos, fundamentam-se na capacidade do grupo de receber, conter, ligar e transformar as angustias de cada um, permitindo, assim, uma comunicação entre consciente e inconsciente, realidade interna e realidade externa. Este processamento favorece um trabalho de discriminação entre eu e outro, fantasia e realidade, acontecimentos atuais e acontecimentos passados.

Quando a família busca ajuda através de uma criança ou adolescente sintomáticos compreende-se este fenômeno como a manifestação de uma não metabolização do grupo de vivências muito intensas, experiências esparsas, não representadas, impensáveis.

Quanto mais a família apresenta-se (e muitas vezes por meio de gerações) impossibilitada de viver limitações, privações, doença, dor, sofrimento, morte e luto, mais se instalarão defesas grupais radicais, como por exemplo, recusa de diferenciação entre o que é e o que não é característico do humano, da vida, da morte, da temporalidade, do feminino e do masculino.
Todas as vezes que eles viajavam de perua Deus ia junto. Ele tentava falar, enfatizou a paciente, mas todo mundo era surdo.

Esta não seria a sua forma de dizer que estavam todos mudos e surdos para aquilo que necessitava ser dito, ouvido, contido e transformado em uma linguagem que contivesse sentido e significado ?

Escutar uma família, tarefa essencial de um trabalho analítico, diz respeito à capacidade do profissional de processar como a família efetua a comunicação entre consciente e inconsciente; entre os conflitos atuais e o funcionamento mais arcaico; como manejam a individualidade de cada um; como a família reconhece suas dificuldades enquanto grupo, se tende a projetar os conflitos em um ou mais de seus membros, ou fora dela, se tende a banalizar, minimizar ou anular suas dificuldades. Uma escuta investida de experiência emocional passível de sentido.

*Vera Lamanno Adamo é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas.