Sobre as Éticas, a Equipe em Saúde Mental e a Psicanálise: uma Transferência de Trabalho

imagesA “loucura”, termo clássico, pode ser apreendida por diferentes olhares, tempos, espaços e perspectivas. A loucura é o avesso da razão, ela faz frente a toda e qualquer ideia de sistematização que busque representar os fatos experienciais, assim, um trabalho que se proponha ético, um norte seria os efeitos de nossas ações e a não sustentação de ideais. Jurandir Freire Costa em “As éticas da psiquiatria”articula a noção de que no hospital psiquiátrico, a ética utilizada é a da tutela, pautada no modelo da ética instrumental; a ética da interlocução pautada no modelo da ética da moral privada, onde a referência ao que foi instituído é desfeita em prol de uma capacidade criativa permanente; a ética da ação social é pautada no modelo da ética pública, que define sujeito e agente terapêutico, acima de tudo, como iguais. A psicanálise, como um saber que pode contribuir para o campo da saúde mental, traz em seu bojo uma ética que leva em consideração a transferência como mecanismo básico para o desenrolar do processo de trabalho. As situações que se apresentam são singulares porque, sendo ou não previsíveis, lançam todos e cada um ao trabalho de dar um novo sentido, modificar ou simplesmente suportar seus efeitos.

Palavras-chave: Ética, equipe, saúde mental, psicanálise.

1. Introdução

A “loucura”, termo clássico, pode ser apreendida por diferentes olhares, escutas, tempos, espaços e perspectivas, visando a elaboração de modelos teóricos que tentam, mas não conseguem representá-la bem, deixando sempre um “ponto manchado”, um furo que escapa a qualquer representação clara da mesma. A loucura é o avesso da razão, ela faz frente a toda e qualquer ideia de sistematização que busque representar os fatos experienciais, “sobre essas profundezas qualitativas da percepção médica, os sistemas nosológicos estiveram em cena, às vezes brilharam, por alguns instantes. Não constituíram uma figura na história real da loucura.” (FOUCAULT, 2004, p. 225). Mas ainda assim, parece que cada discurso supõe atingir “o saber” através de novas descobertas e construções de novas teorias e sua aplicabilidade.

Por não possuírmos uma fala unívoca em nenhum dos campos do saber, assim também no âmbito da saúde mental teremos uma multiplicidade de abordagens da questão. Nosso saber não abarca toda a complexidade do nosso trabalho, principalmente quando trabalhamos em equipe e não falamos a mesma língua, o que nos leva simplesmente a escolher a abordagem e os instrumentos que melhor julgamos, e com isso, preferencialmente, nos apoderamos de um compromisso ético.

Quanto a um trabalho em saúde mental que se proponha ético, um critério seria os efeitos de nossas ações práticas e a não sustentação de ideais teóricos. Levando-se em consideração que há uma brecha entre o pensamento e a ação, cuidar se mostra como uma ética das mais variáveis definições e significados, que só podem ser medidos nos seus e-feitos e consequências cotidianas, como nos diz Ana Cristina Figueiredo no seu texto “A ÉTICA do CUIDAR é o modelo para a ação.” (FIGUEIREDO, 1999, p. 129). E assim, perguntamo-nos quais os princípios éticos no trabalho de equipe que norteiam o cuidado em saúde mental…

2. A(s) Ética(s) em Saúde Mental

O texto de Jurandir Freire Costa “As éticas da psiquiatria” contido no livro Ética e Saúde Mental organizado por Ana Cristina Figueiredo e João Ferreira da Silva Filho, de 1996, nos remete à questão do modo de exercício de uma postura ética, utilizada pelos trabalhadores de saúde mental no cotidiano dos serviços. O autor articula a noção de que no hospital psiquiátrico, a ética utilizada é a da tutela, pautada no modelo da ética instrumental, que lida com objetos da natureza, visando predizer, controlar experimentalmente e intervir naquilo/naquele que é observado. Assim, é o Outro (lê-se grande outro, termo introduzido por Jacques Lacan), enquanto “saber” que decide o que é melhor para o “doente mental” (expressão médica, substituto do termo “louco”), sendo este geralmente encarnado pela figura do médico, profissional este que “responsabiliza-se” pelo paciente sem ouvi-lo em seus apelos e demandas para além do corpo e quadro sintomático.

Na ética da interlocução pautada no modelo da ética da moral privada, onde a referência ao que foi instituído é desfeita em prol de uma capacidade criativa permanente, uma flexibilidade maior que apenas a de recriar crenças ou normas sociais. Aqui temos uma abertura para a escuta do sofrimento subjetivo, porém em moldes restritivos, modelo do “consultório psicológico particular”, que é uma proposta significativa e um avanço em relação ao modelo anterior, mas que não dá conta de muitas das complexas questões vivenciadas pelas pessoas com grave sofrimento mental. (COSTA em FIGUEIREDO e FERREIRA, 1996)

Por sua vez, a ética da ação social é pautada no modelo da ética pública, que define sujeito e agente terapêutico, acima de tudo, como iguais. As virtudes terapêuticas devem equivaler à luta pela cidadania civil, e quando não o são, podem ser relegadas a segundo plano. Tal ética visa a mostrar que fatores socioculturais e mecanismos políticos interferem na determinação do sujeito, dito “sujeito de direito”. Dessa feita, visa a resgatar, portanto, os direitos da pessoa com transtorno mental ofertando-lhe suporte social, sendo este visto como cidadão. (IDEM)

Um ponto a ser retomado quanto à última ética citada, é que ela pressupõe uma “diluição” profissional, senão teórica ou metodológica, para realizar a “verdadeira” equipe multiprofissional ou interdisciplinar, que deveria ir além das profissões, participar de luta social e política. Porém, esse ideal pode gerar um mal-estar de tal intensidade na equipe de modo a mantê-la permanentemente “em crise”, seja numa suspensão das atribuições de cada profissional ou numa descaracterização dessas atribuições que inviabilizando os procedimentos propriamente clínicos, podendo reduzi-los a um assistencialismo indiscriminado.

O que fica claro nas leituras e discussões sobre o tema é que de certa forma, às vezes muito sutil e disfarçada, esses modos de pensar e agir se apresentam no dia a dia da nossa prática em saúde mental, pois atuamos muitas vezes sem o saber de uma dada maneira, sem refletirmos que estamos assumindo uma ou outra postura ética determinada. Outro fator importante é que nenhuma das três éticas pode ou deve predominar num ambiente, com o risco de enrijecer as relações ou deixá-las muito frouxas, comprometendo o trabalho em equipe e com os usuários dos serviços.

3. Ética, Equipe em Saúde Mental e Psicanálise I

Uma articulação possível entre as éticas e organização da equipe é proposta por Figueiredo (2000b, 2004, 2005), onde articula as duas modalidades de composição das equipes — modelo hierárquico x modelo igualitário — aos três modelos caracterizados pelas diferentes formas do fazer — médico, psicológico e psicossocial – conforme o esquematizado abaixo:

— os especialistas instrumentais que sustentam sua ação no sujeito como objeto de intervenção;

— os especialistas interlocutores que se dirigem ao sujeito de vontade, ou livre arbítrio, e sustentam sua ação sobre o diálogo;

— os especialistas psicossociais que sustentam sua ação no sujeito de direito, ou cidadão.

— os “agentes terapêuticos”, não importando qual seja sua profissão ou formação inicial, que privilegiam o sujeito da interlocução podendo incluir o sujeito de direito, mas que, necessariamente, excluem o sujeito-objeto de intervenção. (FIGUEIREDO, 2000b, p. 11)

A ação própria ao psicanalista, esta não deve situar-se nem no especialismo nem na detonação, e consequente descaracterização, de seu saber. O psicanalista, não é o centro das atenções, mas figura como agente importante dentro da equipe, mantida sua especificidade. Não está acima de todas as coisas assim como não pode perder-se numa prática em que tudo pode ser considerado psicanálise. Para praticar sua especificidade, tem que ter clareza de seus propósitos, de seu ofício, ou seja, “para o psicanalista, a justa medida estaria em saber conviver ao invés de convencer e saber de seu ofício sem concessões” (FIGUEIREDO, 2001, p. 77). A partir de sua própria trajetória de analisante à analista, com seu tempo de elaboração, avanços e recuos, é que o psicanalista pode articular um saber sobre a psicanálise a um savoir-faire com a psicanálise, marcando a diferença tanto no trabalho em equipe quanto na clínica que exerce.

A psicanálise, inserida que está, no âmbito da saúde mental e do trabalho em equipe, propõe uma ética a partir da ação analítica estruturante. Lacan em seu Seminário Livro VII, conhecido como “A ética da psicanálise” enuncia que:

“a ética consiste essencialmente – é sempre preciso tornar a partir das definições – num juízo sobre nossa ação, exceto que ela só tem importância na medida em que a ação nela implicada comporta também, ou é reputada comportar, um juízo, mesmo que implícito. A presença do juízo dos dois lados é essencial à estrutura. Se há uma ética da psicanálise – a questão se coloca -, é na medida em que, em alguma medida pelo menos, a análise fornece algo que se coloca como medida da nossa ação – ou simplesmente isso” (LACAN, 2008, P. 364)

A psicanálise, como um saber que pode contribuir para o campo da saúde mental, traz em seu bojo uma ética que leva em consideração a transferência como mecanismo básico para o desenrolar do processo de trabalho, entende que o que está em jogo é o sujeito, não o do razão mas ali onde o discurso desliza ou delira, e que produz um sentido único de expressão e existência no mundo desse “indivíduo”, levando em consideração o saber do “indivíduo” adoecido e sua implicação no processo de adoecimento/sofrimento. (FIGUEIREDO, 2000a)

A questão fundamental é a importância do trabalho em equipe. Há a diferença que se apresenta entre grupo e equipe, o que se percebe muito em nosso meio principalmente nos hospitais e ambulatórios é que há um grupo de profissionais com especialidades diferentes, especificidades, dotados de seu saber, como campo de delimitação para a entrada do outro, mecanismo de defesa mesmo, com pouco ou nenhum diálogo possível quanto aos casos clínicos e muito menos às situações cotidianas do serviço, desconhecendo, por exemplo, se outro colega fez o atendimento do paciente/usuário A ou B.

Acreditamos que equipe se constrói no dia a dia do trabalho, nas situações e casos novos que aparecem, no desafio diagnóstico e de cuidados, no diálogo franco e possível sempre que necessário, no enfrentamento das limitações de espaço físico ou material, pensando sempre na melhoria, facilitação e melhor encaminhamento das situações, até mesmo englobando outros serviços existentes na rede pública, dessa forma, sempre que se fizer necessário, estabelecer parcerias de trabalho.

Grosso modo, as equipes tendem a se organizar no cotidiano dos serviços, visando funcionarem de uma forma que avaliam ser mais conveniente para o seu exercício profissional, sendo que os dois modos mais típicos consistem nos modelos de equipe hierárquica e equipe igualitária, citados anteriormente e retomados na sequência deste trabalho.

A equipe hierárquica preserva, a hierarquia das profissões numa distribuição mais verticalizada do poder de intervenção preservando muitas vezes a figura do médico como sabedor ou qualquer outro profissional que exerça algum tipo de poder, prevalece a autoridade deste. O efeito desse tipo de organização é que a primeira e a última palavra estarão dadas de antemão, tudo o que se passa já está determinado e talvez enrijecido. Sobre esse modo de organização de equipe, Figueiredo (2005) comenta que:

Este é o reino natural das especialidades onde a autorização tende a ser mais restrita, numa espécie de manutenção da atribuição de poder onde outras opiniões devem contar o menos possível, pois, caso contrário, a hierarquia estaria ameaçada em sua base. Ou seja, quanto mais hierárquica for a organização da equipe, mais hierarquia ela produzirá. Esse modelo pode ser mais pregnante nos hospitais gerais ou nos hospitais psiquiátricos e ambulatórios, mas está presente, ainda que de forma velada, no interior das equipes dos CAPS, podendo predominar em diferentes situações, principalmente em relação ao trabalho dos médicos. Nesse caso, a questão da autorização se confunde com a de uma autoridade vertical, inquestionável. (FIGUEIREDO, 2005, p. 44-45)

A equipe igualitária se apresenta no extremo oposto, onde as especialidades sofrem uma “derrubada”, devendo todos os participantes ter o direito a se expressar seja a qualquer momento. A hierarquia dá lugar a uma participação difusa e sempre questionável de um profissional por outro, no sentido construtivo do termo. Sobre esse modo de organização de equipe, Figueiredo (2005) comenta que:

Ao contrário da anterior, as discussões são infindáveis e a cada argumento novo, surge uma nova situação ou uma nova dúvida. Tudo pode ser discutido, e o que prevalece é o confronto de ‘igualdades’, em que cada diferença pode ser tomada como desavença ou ameaça ao equilíbrio harmonioso do todo, no qual se sustenta a equipe. Aqui, a equipe se sustenta na lógica do ‘todo’. O igualitarismo corre o risco permanente de desconsiderar a especificidade de certas ações no trabalho clínico em nome de abolir as especialidades profissionais ou de confrontá-las. (FIGUEIREDO, 2005, p. 45)

Como resolver o impasse entre esses opostos que trazem a marca de uma falta? Não se pode cair na esparrela, e acreditamos que na prática diária ocorra uma rigidez quanto aos papéis e atuações profissionais típicas de uma equipe hierarquizada, visando evitar uma confusão, um igual “dizer-fazer” de todos os profissionais da equipe nos serviços. O que propomos é que possa haver uma “mestiçagem” de posturas, até porque há especificidades entre as diferentes profissões, mas isso não significa que não possa haver troca de informações e muito a se aprender com o colega de trabalho, seja sobre manejo, um melhor entendimento de um caso clínico, modos de relações do sujeito no serviço e com a equipe são situações que desafiam o modus operandi de cada um e de todos os membros da equipe.

Uma compreensão que temos da psicanálise é que o coletivo não se sustenta no todo. Numa direção diferente da máxima da Psicologia da Gestalt que afirma que “o todo é mais do que a soma das partes”, para a psicanálise é possível haver um todo pela somatória das partes. É na abertura, essa lacuna, que permite que no interior da equipe o próprio paciente/usuário, como o que vem do real, faça furo. O impacto do primeiro atendimento pode vir de uma demanda enigmática – seja do paciente, dos familiares, da escola, da clínica médica ou de quem quer que seja –, de uma fala delirante ou de um comportamento disruptivo que fura o suposto “todo” saber da equipe. (FIGUEIREDO, 2005)

O coletivo aqui é entendido no sentido de um conjunto de funções complexas em que se zela para que não haja a homogeneização dos espaços e que se mantenha a diferença, que se sustente uma função diacrítica que possa distinguir os registros, os patamares em que cada sujeito possa articular algo da sua singularidade, mesmo em um meio coletivo (OURY, 2009). Essa ideia, que perpassa por sujeitos dotados de linguagem, logo faltosos e desejantes, marca uma idéia de lacuna, incompletude, não todificada e que devido a isso se põe a construir, difere do coletivismo igualitário que muitas vezes se impõe como garantia da equipe. Não há garantias a priori na clínica, mas há uma direção para o trabalho, um risco calculável. Esse cálculo, no entanto, só é feito a partir do primeiro ato da intervenção, que culmina numa implicação do profissional e equipe no processo de atendimento.

O automatismo dos protocolos de intervenção que ditam o que fazer a priori como, somente funciona como uma espécie de anteparo ao real da clínica dando suporte para as ações, mas não é suficiente para o enfrentamento das situações cotidianas e para uma abordagem continuada de cada caso. A responsabilidade do ato de cada um também é partilhável, e deve ser retomada em momentos do trabalho, como em reuniões de equipe, para discutir os casos clínicos ou a dinâmica institucional, por exemplo.

4. Ética, Equipe em Saúde Mental e Psicanálise II

Uma indicação da psicanálise para esse trabalho coletivo “em equipe” é a referência à transferência de trabalho, proposta por Lacan (2003). Visa uma solução para a denominada “cola imaginária”, isto é, as rivalidades narcísicas provocadas pelas “pequenas diferenças”, entre iguais que levam à exclusão e à segregação. Advém a partir do próprio conceito de transferência, central no tratamento psicanalítico, mas dessa vez como um instrumento do trabalho entre pares.

A condição de estabelecimento de um laço produtivo entre pares visa, por um lado, o fazer clínico, prático e, por outro, a produção de saber que lhe é consequente, teórico. A transferência que deve operar no trabalho em equipe pelo fato de que há um objetivo comum às diferentes profissões que é uma determinada concepção da clínica pautada no sujeito, sendo essa a premissa básica.

Falamos da importância da escolha entre pares em equipe visando ao trabalho em saúde mental. Se no serviço público muitas vezes não é possível escolher nossos pares, no entanto uma escolha deve ser feita pelo trabalho. Isto significa que essa escolha seja pautada na tolerância das diferenças até o limite da incompatibilidade no trabalho e não apenas em gostos ou preferências pessoais. Podemos gostar mais de determinada pessoa do que de outra, mas nosso trabalho não pode se limitar a isso, ou seja, não cabe a nós escolher de quem tratar (a não ser no limite da incompatibilidade) e sim ser escolhidos pelo sujeito. (FIGUEIREDO, 2005)

Se o movimento de transferência (de escolha inconsciente) é do sujeito, na transferência de trabalho, o movimento é de cada um da equipe em direção ao trabalho, tomando seus pares como parceiros da clínica. A clínica em questão é o que se apresenta do sujeito em algum endereçamento a nós, aquilo que é do seu movimento particular e não operado por contingências ou meandros do trabalho. Um campo comum aí se forma cujo referencial, grosso modo, é dado a partir do sujeito que se enuncia.

Sobre o emprego desse termo sujeito, é importante destacar que o diferenciamos de indivíduo, pessoa, personalidade ou qualquer outro termo que signifique unidade ou todo. O sujeito não é todo, ele é antes de tudo um efeito, um efeito da intervenção, da linguagem, dos dizeres do Outro. Assim “não há sujeito sem, em alguma parte, afânise do sujeito, e é nessa alienação, nessa divisão fundamental, que se institui a dialética do sujeito.” (LACAN, 1998, p. 209). Podemos dizer que o sujeito porta o Outro na sua própria constituição, nele se aliena e dele se separa pontualmente, parcialmente, nunca fazendo um com o outro.

O sujeito não faz Um, nem com o outro, nem com seu objeto, nada pode complementá-lo. Pelo contrário, se às vezes temos a impressão de estar diante de um sujeito completo, a quem não parece faltar nada porque nada demanda, este deve estar suspenso em seu próprio isolamento, seu autismo particular, sua recusa ao Outro como o “ponto alto” de sua patologia. Cabe a nós questioná-lo desse lugar. O sujeito é uma abertura, é sobredeterminado, marcado por inúmeros significantes que o constitui e o faz “desfilar”, movimentar-se na vida, em sua abertura ao Outro.

Uma observação sobre o termo “sujeito” que se refere ao que costumamos chamar de “singularidade do sujeito”. A primeira acepção do termo, mais corrente, é a de único, peculiar e exclusivo. Podemos pensá-lo também como um conjunto de fatores num arranjo único, isto é, o que dá a singularidade não é a unidade e sim um composto de fatores estruturais e acidentais que constituem um momento e mesmo de uma trajetória do sujeito. (FIGUEIREDO, 2005)

As situações que se apresentam são singulares porque, sendo ou não previsíveis, lançam todos e cada um ao trabalho de dar um novo sentido, modificar ou simplesmente suportar seus efeitos. Essas duas acepções do termo nos interessam especialmente porque nos serviços como os CAPS o que mais acontece, principalmente a partir da convivência, mas também nos primeiros atendimentos, são situações singulares imprevistas, inusitadas, que nos desafiam a um manejo, digamos significante, de modo a levar adiante nosso trabalho ético a partir dessa perspectiva.

5. Considerações para Finalizar

Situamos as diferentes éticas que regem o campo do cuidado em saúde mental e propusemos uma articulação com os três modelos característicos desse campo. No cerne da discussão sobre a equipe multiprofissional ou interdisciplinar está o viés profissional necessariamente atravessado por essas éticas. Não se trata nem do sujeito de direito, nem do sujeito de vontade, ainda que essas dimensões possam ser recortadas por uma ou outra modalidade de intervenção.

O que propomos no tocante às posturas éticas de trabalho em equipe é que possa haver uma “mestiçagem” de posturas, até porque há especificidades entre as diferentes profissões, significando portanto, que possa e deva haver troca de informações e muito a se aprender com o colega de trabalho, seja sobre manejo, um melhor entendimento de um caso clínico, modos de relações do sujeito no serviço e com a equipe são situações que desafiam o modus operandi de cada um e de todos os membros da equipe em saúde mental.

Se devemos definir esse sujeito, que este não se reduza a uma simples definição pronunciada como a melhor. Em psicanálise, o sujeito aparece ao longo do trabalho analítico, então para que não caia no indizível, podemos articular que seja o “sujeito da palavra”. O que a psicanálise nos aponta, é que a palavra divide o sujeito e este aparece nas entrelinhas como uma centelha, inapreensível, evanescente. Do lado do analista não haveria exatamente um sujeito, mas uma suposição de saber referida ao sujeito da palavra, ali onde ela desliza ou delira. A clínica em questão é o que se apresenta do sujeito em algum endereçamento a nós, o ponto em que a transferência enlaça o analista como suporte mínimo de um trabalho, que vem da palavra como uma tessitura que não se fecha, mas se tece, se abre. Ali onde o psicanalista marca a sua diferença, nos diz Figueiredo que:

As possibilidades de produzir as condições mínimas para que se estabeleça um trabalho psicanalítico são muito variadas. Podem ocorrer nos chamados grupos de recepção ou triagem, ou através de encaminhamentos — muitas vezes apressados — de outros profissionais, ou de uma procura ‘espontânea’. Não há como prever. Trabalha-se sobre os efeitos, ou melhor, como disse uma entrevistada: “trabalhamos sobre os restos”. Trabalha-se sobre o que resta das demandas, das outras modalidades de tratamento, do que ficou sem resposta. Esta é a diferença que diz respeito ao psicanalista. (FIGUEIREDO, 2004, p. 170)

Para concluir, o trabalho do analista não é facilmente localizável ou definível a partir de categorias que não sejam pertinentes ao campo próprio da psicanálise. Daí as dificuldades em situar o psicanalista, sua função, e mesmo sua ação no cotidiano do trabalho em equipe. Isto, porém, não deve fazê-lo recuar diante do desafio de uma ética e prática que só pode ser vislumbrada em seus efeitos num tempo posterior.

COSTA, J. F. “As éticas da psiquiatria”. Em FIGUEIREDO, A.C. e FERREIRA, J. Ética e Saúde Mental. Rio de Janeiro: Toopbooks. 1996, pág. 27 a 31.

FIGUEIREDO, A. C. A Ética do Cuidar em Cadernos IPUB – Práticas Ampliadas em Saúde Mental: desafios e construções do cotidiano, nº 14, p.129-133, IPUB/UFRJ, 1999.

_________________. Do atendimento coletivo ao individual: um atravessamento na transferência, em Cadernos IPUB – A Clínica da Recepção nos Dispositivos de Saúde Mental, vol. VI, nº 17, p. 124-130, IPUB/UFRJ, 2000a.

_____________. O psicanalista e a equipe multiprofissional na assistência em Saúde Mental, em Saúde, Sexo e Educação – Revista do Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação – IBMR, vol.VIII, nº 21, 2000b. (Original da Autora)

_____________. O que faz o psicanalista na saúde mental, em Cavalcanti, M.T. e Venâncio, A.T. (orgs.) Saúde Mental: campo, saberes e discursos, Coleções IPUB, Rio de Janeiro, CUCA-IPUB/UFRJ, 2001, p.73-82.

_____________. Vastas confusões e atendimentos imperfeitos. 4º ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2004

_____________. Uma proposta da psicanálise para o trabalho em equipe na atenção psicossocial, em MENTAL – Revista de Saúde Mental e Subjetividade da UNIPAC – Barbacena, ano III, nº 5, nov. 2005, p.43-55.

FOUCAULT, Michel. História da loucura. 7º ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.

LACAN, J. O Seminário livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

_________. Ato de fundação em Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

_________. O Seminário livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

OURY, J. O Coletivo. 1ª ed. São Paulo: Hucitec, 2009.

A Ética na Psicanálise

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Esse artigo tem como objetivo descrever as diferenças entre ética e moral bem como fazer uma breve análise da Ética na clínica psicanalítica, considerando o Psicanalista na relação consigo mesmo, a sua relação com seus pacientes, a sua conduta como Profissional repensando a sua relação com a Sociedade. Acreditamos que a ética é o que possibilita legitimar a Psicanálise dando-lhe significado.

Palavras-Chave: Ética, Moral, Psicanálise

Introdução

Toda cultura e toda a sociedade institui uma moral, isto é, valores concernentes ao bem e ao mal, ao permitido e ao proibido, e à conduta correta, válidos para todos os seus membros. Culturas e sociedades fortemente hierarquizadas e com diferenças de castas ou de classes muito profundas podem até mesmo possuir várias morais, cada uma delas referida aos valores de uma casta ou de uma classe social. No entanto, a simples existência da moral não significa a presença explícita de uma ética, entendida como filosofia moral, isto é, uma reflexão que discuta problemize e interprete o significado dos valores morais (CHAUÍ, 2000).

Chauí (2000) diz ainda que nossos sentimentos, nossas condutas, nossas ações e nossos comportamentos são modelados pelas condições em que vivemos (família, classe e grupo social, escola, religião, trabalho, circunstâncias políticas, etc.). Somos formados pelos costumes de nossa sociedade, que nos educa para respeitarmos e reproduzirmos os valores propostos por ela como bons e, portanto, como obrigações e deveres. Dessa maneira, valores e deveres parecem existir por si e em si mesmos, parecem ser naturais e intemporais, fatos ou dados com os quais nos relacionamos desde nosso nascimento: somos recompensados quando os seguimos punidos quando os transgredimos. No pensamento filosófico dos antigos a ética era concebida como educação do caráter do sujeito moral para dominar racionalmente impulsos, apetites e desejos, para orientar a vontade rumo ao bem e à felicidade, e para formá-lo como membros da coletividade sociopolítica. Sua finalidade era a harmonia entre o caráter do sujeito virtuoso e os valores coletivos, que também deveriam ser virtuosos.

A psicanálise mostra que somos resultado e expressão de nossa história de vida. Não somos autores nem senhores de nossa história, mas efeitos dela. O sujeito ético, isto é, a pessoa, só pode existir se for consciente de si e dos outros, ser dotado de vontade, capacidade para controlar e orientar desejos, impulsos, tendências, sentimentos e capacidade para deliberar e decidir, ser responsável e ser livre. Como princípios da Ética Psicanalítica consideramos o Psicanalista na relação consigo mesmo, o Profissional e a sua relação com seus pacientes, sua conduta como Profissional de interações e a sua relação com a “sua” Sociedade (CHAUÍ, 2000).

O objetivo desse artigo é abordar alguns conceitos sobre a ética e no pensar a Ética como uma possibilidade de reflexão sobre a profissão do analista e sua relação lógica com a realidade, no que se refere a sua aplicação prática e seus efeitos terapêuticos.

1 A Ética e a Moral

Uma vez que se pretenda estudar a questão ética do analista neste trabalho, é de fundamental importância definir o conceito de ética, fazendo uma breve diferenciação com o termo moral – uma vez que ambos os termos se relacionam e tendem a ser confundidos um com o outro.

Etimologicamente, o termo moral vem do latim mos ou mores, que significa “costume” ou “costumes”, no sentido de conjunto de normas ou regras adquiridas por hábito. Já ética vem do grego ethos que significa “modo de ser” ou “caráter”, enquanto forma de vida também adquirida ou conquistada pelo homem. Originariamente, portanto, ambos os termos não correspondem a uma disposição natural, mas sim a algo adquirido ou conquistado por hábito (SILVA, 1999).

Quando falamos de ética é quase inevitável pensar na moral. A definição de ética e moral leva a insinuação de que ambas assumem a mesma identidade. Neste bojo, a ética seria a teoria dos costumes, ou a ciência dos costumes, enquanto a moral seria tomada como ciência, haja vista ser o objeto da mesma. A Ética é o conjunto de normas morais pelo qual o indivíduo deve orientar seu comportamento na profissão que exerce e é de fundamental importância em todas as profissões e para todo ser humano, para que possamos viver relativamente bem em sociedade (JORGE, s.d.).

Contudo, acreditamos que definir o termo “ética”, e, além disso, diferenciá-lo do termo “moral”, não é tarefa simples, pois existem várias concepções de ética e de moral, inclusive dentro do próprio campo psicanalítico. Quando tentamos incluir nessas definições uma concepção também filosófica do problema, como exige nossa análise (que parte da maneira como o problema ético é construído pela filosofia, para então criticá-lo à luz das teorizações freudianas), a questão da definição desses termos se complica ainda mais (GASPAR, 2007).

Segundo Martins (1998), a ética se diferenciaria da moral por meio do respeito à singularidade dos sujeitos, ou às diferenças que subsistem à revelia das tentativas de padronização pretendidas pelas regras supostamente universais. Nesse sentido, a moral se colocaria contra a singularidade e ao lado da oposição entre o indivíduo e a sociedade, pois obrigaria o sujeito a se submeter a um critério externo, a ceder alguma coisa de sua singularidade em prol da normalização das condutas.

Acreditamos que esta diferenciação entre ética e moral está de acordo com o que Lacan formula sobre esse tema no seminário sobre A ética da psicanálise. Para ele, a moral estaria atrelada à crença em um Bem Supremo e terminaria sempre por engendrar um ideal de conduta para o sujeito. A moral incidiria, portanto, sobre o campo do ideal (o imaginário) (GASPAR, 2007).

2 Ética na Clínica

Segundo Moura (2009), é a Ética que da forma e contornos à Psicanálise; toda a sua conceituação teórica e método terapêutico; suas formas de tratamento e suas possíveis curas implicam a Ética e se fundamentam na Ética. Por considerarmos que não é possível falar em psicanálise sem falar em Ética, abordaremos seus conceitos sob uma perspectiva Ética, em uma tentativa de esclarecer alguns pontos da teoria que por sua vez podem ajudar na compreensão dessa Ética.

Uma questão ética importante a ser considerada é que o analista está ali, naquele lugar, para atender os objetivos daquele que o procura para o tratamento, quaisquer que eles sejam. Objetivo propriamente psicanalítico refere-se, em um primeiro momento, à compreensão da alma do analisando. O mais poderoso instrumento de compreensão do analisando é a capacidade de identificação do analista. O analista poderá se ajudar deixando-se atravessar por três insinuâncias: 1a – o objetivo terapêutico da relação, 2a – percepção de seus próprios conflitos e carências 3a – a compreensão do funcionamento do psiquismo do analisando através das identificações complementar e homóloga (ARMONY, s.d.).

Freud refere-se à análise do terapeuta como uma forma de aprender psicanálise. Freud leva em consideração que o ensino teórico, não pode dar convicção da justeza da teoria. Essa convicção (ética) só se adquire tendo a experiência da justeza desse saber, na própria análise. Portanto são os próprios conceitos psicanalíticos (a sexualidade, o desejo) e o processo analítico que vão configurar e afirmar a Ética na psicanálise (MOURA, 2009).

De acordo com Armony, s.d., o analista deveria ser um observador-participante do jogo subjetivo que se estabelece entre analista e analisando para estar em condições de direcionar suas intervenções no sentido da transformação do analisando. São as necessidades do analisando que deveriam ser atendidas por isso, é preciso que o analista perceba a sua própria dinâmica dentro da relação analítica, a fim de evitar que seus conflitos e as suas dificuldades, fizessem com que ele se aproveitasse do analisando para as suas próprias necessidades psicológicas.

É interessante e importante que o psicanalista exerça sua profissão sem contaminar ou deixar-se contaminar por seus analisandos. Freud, ao falar da transferência, diz que o psicanalista sabe que está lidando com forças altamente explosivas e, por isso, deve avançar com muita cautela. O mesmo vale para a contratransferência, onde o analista tem que ficar atento para que o remédio para seus clientes não vire veneno para ele mesmo. (FERREIRA, 2008)

Segundo Bernardi (2006), ao falar de contratransferência, Freud coloca os aspectos éticos em primeiro plano e com frequência adverte os analistas para o cuidado que devem ter com essa manifestação, já que compreende esse processo primordialmente como obstáculo ao tratamento. A sua ética corresponde as suas recomendações de que, para o estabelecimento do processo analítico e da associação livre do paciente, o analista deve ser como um espelho que irá refletir apenas as revelações dos pacientes, deixando de lado a sua personalidade, convicções e desejos.

Assim como a transferência, a contratransferência teria sua procedência no material infantil recalcado, neste caso, do analista. Freud pensava na contratransferência como uma fonte de perturbação. Decorre então, a exigência do analista de se submeter a uma análise pessoal antes de se permitir iniciar o seu trabalho com pacientes e a obrigação de jamais descurar sua auto-análise. Tornamo-nos cientes da contratransferência que surge no médico como resultado da influencia no paciente sobre os sentimentos inconscientes do seu analista (MOURA, 2009).

Para Lacan, o desejo do analista é o que, em última instância, opera na prática da Psicanálise. Por isso, é ético em Psicanálise que cada analista investigue, em sua análise, o seu desejo de ser analista. Se o analista não dá vazão ao seu desejo, ou seja, coloca em questão o que é melhor para ele, ou ainda, o que ele considera “correto”, ou “ideal” para seu paciente, então isso impossibilitará que o desejo do paciente se manifeste. A regra da abstinência é o correlato direto da livre associação. É esta a máxima lacaniana acerca da ética da psicanálise para o analista: ‘Não ceder quanto ao seu desejo’. A Ética na Psicanálise propõe ao analista acolher, mas nunca responder, à demanda que lhe é dirigida pelo analisando (ROSA & ROSA, 2009).

Ainda em Rosa e Rosa (2009), responder ao que o analisante pede significaria calar o desejo, e, na análise, o que se busca é fazer o homem tornar-se íntimo de seu querer, de seu desejo. Ao não responder à demanda, o analista convida o analisando a deslizar em sua cadeia de significantes, a falar sobre suas fantasias e, com isso, o desejo aparece como resultado do trabalho de análise. Freud, em seus escritos sobre a técnica psicanalítica, fala sobre o que poderia desviar o analista de sua função. O que pode ocorrer é que, por conta de ruídos na escuta, devido a conteúdos próprios, o analista passe a agir como educador, sob a ótica da moral, com planos e anseios para a vida do analisando, deixando de ouvir o sujeito que ali está.

Conclusão

A questão da ética pode ser entendida como uma questão intrínseca ao fazer analítico, e a falta de ética ocorre quando o analista se afasta de seu campo, quando dá respostas antecipadas ao analisante. Por isso, é importante que na sua vida fora da clínica, o analista encontre vários níveis de compensações, suficientes que o preservem da tentação de se satisfazer com seus pacientes. Seu desejo não deve interferir no desejo do analisando. A Ética está presente tanto na formação teórica da psicanálise quanto na sua aplicação prática (clínica)

A Importância dos Sonhos para a Psicanálise

sonhos-1370873663388_615x300A presente análise tem como tema central os sonhos e sua importância para a Psicanálise, um fenômeno de interesse também para a Psicologia tanto quanto para a Psicanálise. Tendo como principal objetivo entender os sonhos como uma necessidade neurofisiológica, uma manifestação da psique que transcendem nossos sentidos, e que podem, na sua linguagem, revelar questões da nossa personalidade que precisam ser trabalhadas e entendidas. Segundo Freud, os sonhos constituem “uma realização (disfarçada) de um desejo reprimido”. É possível que eles exerçam um papel importante na elaboração psíquica de lembranças traumáticas. Em nossa opinião, as visões psicológicas e psicanalíticas sobre os sonhos podem ser complementares e enriquecedoras. Os sonhos podem ser um aliado valioso para a compreensão profunda da interligação corpo e psique fornecerem o mapa para compreensão simbólica de sintomas psicossomáticos e de suas possíveis resoluções, ou seja, uma chave valiosa para nosso autoconhecimento e bem estar, daí sua grande importância para a Psicologia, a qual está inteiramente preocupada com nosso bem estar e para a Psicanálise que está diretamente preocupada com nossos sintomas psicossomáticos.

Palavras–chave: Sonhos, Fases do Sono, Psicanálise, Inconsciente

1. Introdução

O fenômeno do sono tem relevância tanto para a Psicologia como para a Psicanálise, no que tange à compreensão dos mecanismos que regem o sonhar.  Mais especificamente, a Psicologia se dedica em desvendar o funcionamento do sono, deixando de lado o sonho que, para a Psicanálise é de suma importância.

Pensamos que para retratarmos bem os mecanismos que envolvem o sonho, devemos mencionar algumas  das principais descobertas da Psicologia quanto ao fenômeno do sono.  Dormir resulta em sonhar e sonhar é uma necessidade neurofisiológica. Estudos do campo da Psicologia têm determinado que a privação do sono pode ocasionar sérias consequências.

O primeiro aspecto importante que a Psicologia desvendou sobre o sono, é que existem tipos de sono: NREM e REM. O diferencial se encontra na observação de que, durante o sono REM os olhos saltam de um lado para o outro, como se observassem uma cena. Neste, observa-se também uma variação no Sistema Nervoso Autônomo, com a respiração e o ritmo cardíaco tornando-se mais rápidos e irregulares, a pressão arterial mais elevada e um aumento da secreção dos hormônios supra-renais.  Dentro das distinções presentes no sono REM, há também a ocorrência nos indivíduos masculinos (de todas as idades), a ereção peniana. Ocorre também nos indivíduos femininos uma reação correspondente no tecido vaginal.

Os estudos que decifraram este movimento dos olhos no sono foram realizados em 1953 pelo Dr. Nathaniel Kleitman. Tais pesquisas de laboratório mediram as ondas cerebrais de pessoas durante o sono através do eletro-encefalograma, as variações musculares, através do eletro-miograma, e a movimentação específica dos olhos, através do eletroculograma.

Sabe-se também que há quatro estágios no sono REM, onde cada um caracteriza-se por um padrão de onda cerebral.  O primeiro estágio é o sono leve, que marca o iniciar do sono, tem a duração de alguns minutos, quando o indivíduo fica relaxado, com os pensamentos mais ou menos descoordenados, podendo já neste estágio ocorrer sonhos. O segundo estágio é o sono intermediário, ocorrendo um relaxamento maior, podendo ocorrer experiências sensoriais sem base real (alucinações) e crispações súbitas e desordenadas do corpo, seguidas de sensações de queda.

O terceiro estágio é o do sono profundo, quando o indivíduo se torna insensível aos sons e oferecerá resistência em ser acordado.  No quarto estágio, o sono mais profundo, há uma total relaxação, com o mais completo desligamento do mundo exterior.

O conteúdo onírico é de suma importância para a compreensão do inconsciente de quem o produz.  Por isso a Psicanálise vê com tanta atenção este produto da mente, que é o sonho.  Gastão Pereira da Silva tem uma definição de sonho que bem demonstra sua relevância:

“Uma função psíquica encarregada de compensar, de suavizar, de substituir, mesmo, uma realidade que nos  é  hostil,  por  outra,  totalmente  diferente, onde um novo mundo se descortina  diante  da alma e onde todas as nossas   ações parecem absurdas, justamente porque as mais censuráveis, na sociedade em  que  vivemos, gozam, enquanto dormimos de uma espécie de liberdade condicional, quando se expandem nos sonhos”.(Gastão Pereira da Silva)

As descobertas de Freud, de que os sonhos têm um conteúdo psicológico fundamental, revolucionaram o estudo da mente. Antes, os sonhos eram tidos como meros efeitos de um trabalho desconexo, provocados por estímulos fisiológicos. Os conhecimentos desenvolvidos por Freud trouxeram os sonhos para o campo da Psicologia e demonstraram que estes são tão somente a realização de desejos, disfarçados ou não, satisfeitos em pleno campo psíquico.

Podemos sintetizar a teoria psicanalítica dos sonhos da seguinte maneira:  a experiência subjetiva que aparece na consciência durante o sono e que, após o despertar, chamamos de sonho é, apenas, o resultado final de uma atividade mental inconsciente durante este processo fisiológico que, por sua natureza ou intensidade, ameaça interferir com o próprio sono.

Chama-se sonho manifesto a experiência consciente, durante o sono, que a pessoa pode ou não recordar depois de despertar.  Seus vários elementos são designados como conteúdo manifesto do sonho.  Os pensamentos e desejos inconscientes que ameaçam acordar a pessoa são denominados conteúdo latente do sonho.  As operações mentais inconscientes por meio das quais o conteúdo latente do sonho transforma-se em sonho manifesto, chamamos de elaboração do sonho.

2. Desenvolvimento

“O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente”. (FREUD, 1898 e1899). Antes de Freud, os sonhos eram considerados apenas símbolos, analisados como se fossem manifestações sobrenaturais. Quando Freud escreveu, então a sua obra-prima – “A Interpretação dos Sonhos”, e a partir da análise dos sonhos, mostrou que a essência dos sonhos é a realização de um desejo infantil reprimido e a partir daí elaborou bases do método psicanalítico. Por meio dessa análise, mostrou a existência do inconsciente e transformou algo que era tido pela consciência como o “limbo dos pensamentos”, no caso dos sonhos, em um forte instrumento revelador da personalidade humana. Constatou que os sonhos mostram uma óbvia preferência pelas impressões dos dias anteriores, ou seja, das mais primitivas da nossa infância, e fazem surgir detalhes desse período de nossa vida, que acreditávamos ter caído no esquecimento.

Para que aconteça a interpretação de um sonho é importante que não procuremos entendê-lo em sua totalidade em um primeiro momento, pois como é formado no inconsciente, existem fragmentos da realidade, logo vai parecer no primeiro momento, muito confuso. Ele deve ser dividido em partes, de acordo com o contexto vivido e assim vai sendo decifrado lentamente, sem adotar um critério cartesiano, pois o mesmo conteúdo pode guardar sentido diferente, variando de pessoa para pessoa ou situações diferentes.

O sonho é considerado o fenômeno da vida psíquica pelo qual os processos do inconsciente são revelados de uma forma clara e acessível ao estudo. Para Freud, o sonho é produto da atividade do inconsciente e sempre tem sentido intencional, ou seja, a realização, ou não, de um desejo reprimido. Assim eles vão revelando a natureza do homem e são meios os quais podemos ter acesso ao conhecimento do interior oculto da mente.

Carl Jung não reduz os sonhos à satisfação de desejos reprimidos no inconsciente pessoal, como o fez Freud. Ele os toma como mensageiros de complexos. Segundo ele, anexo a nossa consciência imediata existe um segundo sistema psíquico, de natureza coletiva, universal e impessoal, que se revela idêntico em todos os indivíduos.

“Pois a pesquisa psicológica mostra que o sonho é o primeiro membro de uma classe de fenômenos psíquicos anormais, da qual outros membros, como as fobias histéricas, as observações e os delírios, estão fadados por motivos práticos, a constituir um tema de interesse para os médicos”.  (FREUD, – 1898).

Os sonhos e as histéricas foram o sopro inicial para a psicanálise, com Freud. Em sua teoria, eles despertam atos, ideias, sentimentos, que ao dormir surgirão como um episódio onírico que se apresenta em enredos que apreciam nos sonhos, cujos personagens povoam nossa realidade, voltando-se para os objetos do dia a dia, e sendo sempre um amigo ou uma pessoa que nos desperta uma paixão. Os sonhos vão acontecendo até que um deles nos permita a interpretação do seu sentido e despertar do sonho ao qual estávamos mergulhados.

Existem critérios para determinar se estamos ou não sonhando, critério esse que está empiricamente ligado ao fato de acordarmos, assim, tudo que experimentamos enquanto dormimos e acordamos é ilusão até que nos percebemos deitados na cama. Tornar as imagens dos nossos sonhos reais é graças ao nosso hábito mental, assim a interpretação dos sonhos desvela, contudo, os conteúdos mentais, pensamentos, dados e experiências reprimidos ou recalcados, excluídos da consciência pelas defesas do ego e do superego e enviadas ao inconsciente. Já a parte do Id, com acesso impedido à consciência, é o que fica envolvido na origem das neuroses. Daí o interesse de Freud pelos sonhos, que se originam no fato de constituírem processos normais, mas atuantes na formação dos sintomas neuróticos.

Segundo Freud (A interpretação dos sonhos, p. ),existem quatro tipos de fontes de sonho: 1 – Excitação sensorial externa (objetivas, onde todo ruído indistintamente percebido provoca imagens oníricas correspondentes); 2 – Excitações sensoriais internas (subjetivas) dos órgãos dos sentidos; 3 – Estímulos somáticos internos (orgânicos) e 4 – Fontes psíquicas de estimulação: material importante para chegar ao inconsciente, muito necessário para o tratamento psicanalítico.

São diversas as causas para o esquecimento dos sonhos, geralmente esquecemos, e temos dificuldade de lembrar o que nos parece desordenado e confuso, não damos muita importância aos nossos sonhos, daí a facilidade de esquecimento.

“Pois o fato notável é que os sonhos extraem seus elementos não dos fatos principais e excitantes, nem dos interesses poderosos e imperiosos do dia anterior, mas dos detalhes casuais, dos fragmentos sem valor, poder-se-ia dizer, do que se vivenciou recentemente, ou do passado mais remoto. Uma morte na família, que nos tenha comovido profundamente e sob cuja sombra imediata tenhamos adormecido tarde da noite, é apagada de nossa memória até que, com nosso primeiro momento de vigília, retorna a ela novamente com perturbadora violência. Por outro lado, uma verruga na testa de um estranho que vimos na rua, e em quem não pensamos mais depois de passar por ele, tem um papel a desempenhar em nosso sonho…”.    (Hildebrandt (1875, 11)

Embora uma boa parte dos sonhos deva pertencer a um evento mental corrente, esse não é suficiente para produzi-lo, ele só se forma quando esse evento recente entra em contato com um impulso passado, quase sempre um desejo infantil. O que aparece na consciência durante o sono e que quando acordamos chamamos de sonho é o resultado de uma atividade mental inconsciente durante um processo fisiológico que interfere com o próprio sonho, que ao invés de acordar a pessoa sonha.

Nas crianças, os sonhos são frequentemente pura realização de desejos e são desinteressantes comparados aos adultos, pois não levantam problemas para serem solucionados, contudo são importantes para provar que representam realizações de desejos.

Existem sonhos que têm como tema central a frustração de um desejo ou algo claramente indesejado, esses sonhos podem ser elaborados quando um paciente se encontra em um estado de resistência ao analista ou está relacionado a um componente masoquista na constituição sexual de muitas pessoas, pois os sonhos desprazeirosos são realizações de desejos, pois satisfazem suas inclinações masoquistas. Já os sonhos de angústias se originam da vida sexual e corresponde à libido que se desviou de sua finalidade e não encontrou aplicação, ou seja, um desejo recalcado encontrou um meio de fugir à censura. Já o sonho recorrente é quando o sujeito teve, pela primeira vez, o sonho na infância e depois ele reaparece constantemente, de tempos em tempos, nos sonos adultos. Os que ocorrem com situações de morte, de parentes queridos encontramos a situação extremamente incomum de um pensamento onírico formado por um desejo recalcado, no caso da morte, que foge inteiramente à censura e passa para o sonho sem modificações.

As fontes somáticas de estimulação durante o sono, a menos que sejam de intensidade comum, desempenham na formação dos sonhos o mesmo papel das impressões recentes deixadas pelo dia anterior, ou seja, são introduzidas para ajudar na formação de um sonho caso se ajustem apropriadamente ao conteúdo de representações derivados das fontes psíquicas do sonho, mas não de outra forma. Assim podemos explicar que, o fato de o conteúdo onírico resultado de estímulos somáticos de intensidade não incomum, deixa de aparecer nos sonhos.

O fenômeno da distorção dos sonhos acontece quando temos um sonho e não queremos interpretá-lo ou lembrá-lo, porque estamos tentando esconder ou não queremos enfrentar algo que não está muito bem resolvido em nós, ou seja, está recalcado em nosso inconsciente. Podemos reconhecer que os sonhos recebem sua forma em cada ser humano, mediante a ação de suas forças psíquicas e que uma dessas forças constrói o desejo que é expresso pelo sonho, enquanto outra exerce uma censura sobre esse desejo onírico, e através dessa censura carrega forçadamente uma distorção do desejo.

Os sonhos, em sentido teórico, possuem três entidades distintas: o sonho manifesto, os pensamentos oníricos latentes e o funcionamento do sonho. Tudo que o paciente recorda e relata como sonho, sonho manifesto, é uma mensagem que exige decifração. As ideias e os sentimentos, subjacentes ao sonho, muitos pertencentes ao presente, outros do passado, alguns pré-conscientes outros conscientes, é o chamado conteúdo latente. Já os pensamentos latentes dão origem ao sonho manifesto.

O conteúdo latente é a parte mais importante do sonho, pois nele, está toda a significação de desejos, problemas, neuroses e até predisposições psicóticas. Chamamos de elaboração do sonho essas operações mentais inconscientes as quais o conteúdo latente se transforma em sonho manifesto. Todo esse processo responsável por essas transformações, Freud considerava a parte essencial da atividade onírica, e é o funcionamento do sonho. O que se torna claramente compreensiva, para comparar o conteúdo do sonho com os pensamentos oníricos é que ali se efetuou um trabalho de condensação em larga escala. Os sonhos são curtos, insuficientes em comparação com a riqueza dos pensamentos oníricos, se formos escrever um sonho, talvez ocupe uma meia página, já os pensamentos oníricos ocupariam até oito ou doze vezes mais espaço.

“Não há dúvida de que, juntamente com a psicologia dos sonhos, os médicos terão algum dia, de voltar sua atenção para uma psicopatologia dos sonhos”. (FREUD, 1898 ).

O sonho pode tornar-se um veículo de oposição à análise. O analista não deve se sentir perdido quando o sonho for relatado tardiamente, para que possa ser abordada na sessão, sua transferência positiva ou negativa, pode converter-se em uma fonte de resistência obstinada. Quanto mais o paciente aprende da prática da interpretação dos sonhos, mais obscuros seus sonhos posteriores vão se tornando.

3. Considerações Finais

“O sonho é o fiel guardião da nossa saúde psíquica, da nossa alegria de viver, uma vez que a vida não passa de uma contínua procura do prazer, contrariada pela realidade”. (Teoria do Princípio do Prazer). As pessoas que não sonham quando analisadas apresentam recalques profundos, ou até possuem problemas estruturais graves, são psicóticas, daí serem de difícil análise.

Ao analisarmos o assunto abordado, vimos que tem sido demonstrado, por pesquisadores do sono e do sonho, que todas as pessoas sonham regularmente durante todo seu período de sono. Por isso dizemos que “o sonho é o guardião do sono”. O sonho é o fiel guardião da nossa saúde psíquica. A psicanálise, por sua vez, não aceita essa tese tão simplista, segundo ela, o sonho é um meio pelo qual a inconsciente procura alertar a consciência para o que ela não percebe ou não quer aceitar e tenta equilibrar a psique.

Caso pergunte-se se é possível interpretar todos os sonhos, a resposta deve ser negativa. Não se deve esquecer que, na interpretação de um sonho, têm-se como oponentes as forças psíquicas que foram responsáveis por sua distorção.

Pelo que vimos em nossa pesquisa, o diálogo entre a Psicanálise e a Psicologia sobre os sonhos pode ser bastante vantajoso, pois proposições da Psicologia têm inspirado e guiado a Psicanálise, e achados da Psicologia têm sido úteis para um maior refinamento da teoria psicanalítica. Além disso, os sonhos, e a mais importante das psicoses, a esquizofrenia, possui diferenças marcantes do ponto de vista fenomenológico: enquanto os sonhos são constituídos por imagens visuais, na esquizofrenia, predominam as alucinações auditivas, sendo bem mais raras as visuais. E não se pode esquecer que Freud reconheceu a existência de exceções à sua regra: os sonhos repetitivos pós- traumáticos.

A partir de nossa investigação, entendemos os sonhos como expressão simbólica do processo vital e têm implicações profundas e elevadas para o físico e para o espiritual, para o corpo e para a psique. Ele pode ser um aliado valioso para a compreensão dessas ligações. Pode constituir, assim, uma chave preciosa para o nosso autoconhecimento e bem estar.

FREUD, S. A interpretação dos Sonhos, Edição C.100 anos,Imago-RJ.1999.

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Psicanálise e a Religião: algumas contribuições

Este trabalho pretende apresentar algumas contribuições psicanalíticas sobre a religião enquanto instituição e enquanto experiência do sujeito. A psicanálise, concebendo o sujeito enquanto faltoso, nos convoca a pensar na religião enquanto aquilo que oferece o complemento desta falta constitutiva do sujeito. Concebendo o desejo como impossível de ser satisfeito completa e permanentemente, a religião, seria um convite à ilusão da consistência, da completude. A psicanálise vem, então, para denunciar a retirada da responsabilidade e autonomia do sujeito religioso e sua alienação na figura do Outro, enquanto portador de um suposto saber do qual o próprio sujeito desconhece.

Palavras-chave: Psicanálise, Religião, Sigmund Freud

1. Introdução

Na era da ciência, na qual se diz que Deus é um delírio (Dawkins, 2007) e na qual há uma incessante busca (delirante?) pela partícula Deus, poderíamos ficar surpresos quanto ao retorno de questões relativas à religiosidade, à fé, e à espiritualidade. Podemos afirmar que, atualmente, há uma decadência da instituição religiosa, mas uma crescente busca pela religiosidade individual e utilitarista (Mattos, 2009).

O ser humano sempre procurou entender-se e entender o mundo a seu redor recorrendo, para isso, a diversos deuses. Isto porque, como sugere a máxima “conhece-te a ti mesmo”, o homem não pode conhecer-se sem se referir a uma alteridade, ao outro, ao além (Mattos, 2009).  Para a psicanálise, o “sujeito suposto saber” indica esta forma de crença no Outro plenamente consistente, o qual supomos possuir todo o saber que falta ao sujeito, saber este capaz de nos dar o porquê e o “como” de nosso sofrimento, tornando legível nosso destino.

Desde a modernidade inaugurada por Descartes, com seu cogito ergo sum, podemos afirmar que houve um deslocamento na origem de suas respostas: da fé em deus, passou-se à fé na ciência. Questões antes endereçadas ao sistema religioso passam a ser buscas no método científico. Ser ateu, então, torna-se o reflexo do espetáculo da razão, a afirmação do primado da racionalidade sobre a espiritualidade, a renúncia à ilusão de alcançar uma verdade para-além do mundo terreno. Importante observar como esta concepção de ateu está muito mais próxima da figura de onipotência e onisciência do que gostaríamos de imaginar. Deus não morreu, como sugeriu Nietzsche, mas se manteve vivo assumindo a forma de certas idolatrias referentes à ação e ao cálculo, recuperados no cientificismo moderno (Mattos, 2009).

A psicanálise, sempre atenta ao dinamismo cultural, se manteve no seio do debate em relação às mudanças operadas pela modernidade e aos seus novos modos de representação do sujeito. Assim, novas perspectivas acerca da religiosidade são oferecidas pela psicanálise e pela teologia, além das diversas contribuições freudianas, como veremos agora.

2. Freud e a Religião

Freud era declaradamente ateu, tendo rotulado a religião de grande neurose universal, dito que ela é “a realização dos desejos mais antigos, fortes e prementes da Humanidade, e que a sua força é a força desses desejos” (1926/1976, p. 43) e que o diabo nada mais é do que a personificação da vida pulsional inconsciente recalcada (Lopes, 2008). Contudo, o ateísmo de Freud não se reduz à sua opinião, mas parte de constatações da própria clínica, contribuindo para a teoria psicanalítica.

Entretanto, Maciel & Rocha (2008) ressaltam que o fato de Freud não ter atendido em sua clínica particular casos em que houve boa relação entre o sujeito e a religião não deve concluir que esta harmonia é impossível e que casos assim não aconteçam na clínica contemporânea. Mesmo naquela época havia casos em que a religião poderia ser considerada sadia do ponto de vista clínico, e para isso podemos nos referir ao amigo de Freud, pastor Pfister, que lhe mostrou como isso era possível em convívio com a própria teoria psicanalítica.

Apesar de notarmos o ateísmo por parte de Freud, ele mesmo teria dito que a psicanálise não é religiosa nem anti-religiosa, mas um instrumento à disposição da libertação dos que sofrem, sejam estes crentes ou não. Inclusive, assumindo a posição de analista, teria dito ao seu amigo e pastor Pfister que a psicanálise não dependia de seu ateísmo. Talvez mais do que afirmar que o psicanalista é ateu metodologicamente (Mattos, 2009), prefiro me referir ao analista como um agnóstico, buscando recusar qualquer discurso a favor ou contra a fé, e sustentando uma experiência baseada na simples escuta de um sujeito. Como diria Beinaert (1987), esta recusa a qualquer ato de juízo a respeito da fé não tem nada de mais e talvez de menos amedrontador que o silêncio de Deus nas verdadeiras experiências espirituais.

Levando em consideração o objetivo da psicanálise – libertação dos que sofrem -, Maciel & Rocha (2008) afirmam que esta libertação pode sim se fazer a partir de uma experiência religiosa que esteja devidamente integrada ao dinamismo psíquico do sujeito. Entretanto, como veremos mais adiante com Lopes (2008), essa libertação poderia ser comparada ao efeito terapêutico que resultava da análise pelo método hipnótico, datada da época em que Freud ainda não havia assumido a utilização do método de associação livre.

3. Psicanálise e Religião

Tanto Freud como Lacan partem da ideia de que ao ser humano falta algo – algo este que podemos dar vários nomes, como a falta, a coisa, a castração, a ferida narcísica, etc. – e de que seu desejo para ser completo é sempre impossível de ser satisfeito plena e permanentemente. Assim, o sujeito da psicanálise é finito, limitado, e faltoso. Se, por um lado, a psicanálise é o que retifica a absoluta inconsistência e incompletude do ser humano, a religião é o que me alude à completude, é o que me ilude.

Foi em 1910 que Freud, com a obra Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância, estabeleceu pela primeira vez uma ligação entre o complexo paternal e a crença em Deus. Para Freud, “a religião é a neurose obsessiva universal” (Freud, 1907, p. 109). Isso significa que a religião busca obsessivamente o pai idealizado da infância, todo poderoso, onipotente, garantia de completa segurança.

A religião, portanto, é como uma das mais fortes sugestões de que posso ser salvo, de que posso ser completo, de que posso ser consistente comigo mesmo. A ideia de Deus nos remete a um Outro que me protege da minha necessidade de amparo, da minha situação de impotência. É a figura da onipotência que trata de recobrir a angústia. Fica claro, neste caso, como o discurso psicanalítico encontra-se no pólo oposto ao do discurso do monoteísmo.

Inegavelmente podemos constatar de casos clínicos como muitas atitudes religiosas podem ser consideradas verdadeiros sintomas neuróticos, bastando, para isso, tomar exemplos das próprias obras freudianas. Entretanto, como bem salientou Maciel & Rocha (2008), se por um lado Freud nos mostra como se dá a articulação entre a religião e a neurose, por outro ele não deixa de notar como a religião pode mesmo nos proteger do desencadear de um processo neurótico: “o aumento extraordinário das neuroses, desde que decaiu o poder das religiões, pode dar-lhes uma medida disso” (1910/1976, p. 131).     Em Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1921/1976), Freud retoma esta temática e afirma: “mesmo os que não lamentam o desaparecimento das ilusões religiosas do mundo civilizado de hoje admitem que, enquanto estiveram em vigor, ofereceram aos que a elas se achavam presos a mais poderosa proteção contra o perigo da neurose” (p. 178).

A ilusão religiosa, de acordo com Freud, teria seu fundamento no assassinato mítico do pai da horda primeva, escrito em Totem e Tabu (1913). Com isso, ele concebia o sentimento religioso como uma “nostalgia do Pai morto”, como um pseudo-retorno do Pai. De acordo com Rey-Flaud (2002), trata-se de um apelo “contra a castração e a morte em um mundo onde a castração e a morte já estão consumadas” (p. 21). É interessante notar como a representação de Deus, representação que sugere preencher o vazio constitutivo de minha própria existência, pode ser deslocada para diversas outras representações que indiquem um caminho para a salvação, para a proteção, para o amparo, para a união. Fuks (2010) exemplifica isso com a imagem de Führer que, representando um eu ideal, caminhava para tamponar o vazio constitutivo da própria cultura, constitutivo da diferença, da singularidade de cada indivíduo. Assim se dá a ilusão ideológica e religiosa: utiliza-se da unificação dos sujeitos em torno de uma verdade em comum, ou seja, do sentimento de desamparo universal, incitando a intolerância à diferença, ao outro como portador daquilo que não reconheço em mim mesmo. Tal identificação aos ideais religiosos eram testemunhados pelos analistas na clínica, onde “se colocavam pregados a uma cruz imaginária onde sofriam sem morrer” (Mattos, 2009, p. 8).

Aqui entramos num ponto importante, em que é preciso distinguir religião e espiritualidade. Podemos usar a definição de Koenig (2001), que conceitua a religião como um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos projetados a fim de auxiliar a proximidade do indivíduo com o transcendente. Já a espiritualidade seria uma busca pessoal por respostas sobre o significado da vida e, talvez o mais importante, abarcaria o própriorelacionamento com o transcendente. Aqui se trata, portanto, de uma especificidade da religião, que transmite uma verdade na qual o sujeito deve se encaixar para ser auxiliado na busca pelo transcendente, enquanto que o conceito de espiritualidade traz intrinsecamente algo do próprio sujeito, algo da busca por sua própria verdade, abarcando, inclusive, a própria experiência religiosa do sujeito.

Com essa distinção de conceitos, poderíamos pensar se a instituição religiosa não distorceria o caminho do próprio sujeito em sua busca eterna pelo transcendental, uma vez que o insere num sistema já organizado, sistema este que, ao mesmo tempo em que permite a libertação, prende-o à marra de crenças previamente definidas. Com isso, poderíamos concordar com Leonardo Boff (2000), quando diz que enquanto as instituições religiosas separam, a espiritualidade reúne. Isto porque a experiência mística que a última proporciona transmite a possibilidade de uma experiência da verdade de cada um.

De acordo com Lopes (2008), podemos comparar a religião como uma busca pela salvação, com a cura pela hipnose, que Freud recorria antes de construir o método de associação livre. Uma das razões de Freud abandonar a hipnose era o fato de esse método ser um tanto invasivo, no sentido de que eram feitas sugestões ao paciente, encaixando-o em uma verdade da qual ele desconhece. O sujeito era “curado”, mas não era responsabilizado por sua cura. Esta, ao contrário, era atribuída ao hipnotizador, que possuía um suposto saber sobre o paciente e absorvia toda a autonomia e responsabilidade do paciente por sua cura, fazendo este se alienar na verdade do hipnotizador. Como bem disse Lopes (2008), encaixar alguém numa verdade que lhe é exterior constitui uma tremenda violência ao sujeito. Podemos até mesmo pensar no conceito de abuso sexual na criança visto pelos olhos de Ferenczi, como comparação, mas deixemos isto para outro momento.

Se introduzir uma verdade no universo simbólico de alguém, persuadindo-o de que esta verdade também pode ser sua, se constitui numa violência, estamos nos referindo a uma forma de submissão, a uma retirada da autonomia do sujeito, retirada de sua própria verdade. A religião, oferecendo Deus como a restituição do Pai da infância do sujeito, oferece uma relação transferencial destituída de qualquer ética; a mesma ausência de ética que afastou Freud do método hipnótico.

Foi com Artigos sobre técnica (1914) que Freud resguardou uma ética para a relação transferencial, tendo de ser utilizada com muito cuidado, uma vez que poderia se transformar em uma arma muito perigosa; e lucrativa, diga-se de passagem. Assim, na psicanálise a transferência é quase sempre utilizada para ser denunciada, para impedir que ela mesma constitua um obstáculo ao método da livre associação. Em algumas igrejas, poderíamos dizer, a relação transferencial com a imagem de Deus serve de instrumento para a garantia de dinheiro, como bem podemos observar na Igreja Universal do Reino de Deus, onde o único sacrifício possível é a doação de dinheiro. Assim, a religião sugere um encontro com Deus, um encontro com o todo-poderoso, onipotente, enquanto que, de outro lado, ao final de uma análise bem sucedida há, pelo sujeito, a aceitação não de um Pai idealizado, mas a de um pai que foi o pai possível, de um pai humano, demasiadamente humano.

Se Freud defende a ideia de que a crença em Deus é uma busca pela figura de um pai, figura esta que me garante segurança e proteção de doenças e da morte, por outro lado a queda na realidade nos livra de um Pai tirânico, distante, rigoroso e onipotente, que deseja sacrifícios a todo custo.

4. Considerações finais

Podemos observar com o que foi dito até agora que, se por um lado podemos nos apegar à religião como meio de defesa do conflito neurótico, por outro podemos encontrar na religião um campo propício para o desenvolvimento de uma neurose ou psicose (Maciel & Rocha, 2008). Com base nesta ambiguidade, podemos deixar de atribuir à experiência religiosa a causa de uma neurose, deslocando-a para o sujeito, cuja organização psíquica fragilizada encontra na religião a resposta a seu desamparo fundamental. Tratar a religião como causa de uma neurose, portanto, retira a responsabilidade do sujeito por seu próprio sintoma, assim como buscar na religião um encontro com Deus sugere deixar de assumir minha própria indeterminação, enquanto sujeito, para me alienar na figura do Outro. Poderíamos supor, então, que a religião não é a causa da neurose, mas a encarnação desta.

A Psicanálise e a Psicopedagogia: uma Relação nas Intervenções Psicopedagógicas

 

Resumo: Neste artigo visa-se pesquisar os conhecimentos de estudos empíricos e teóricos dentro da psicanálise voltada para psicopedagogia, para a intervenção infanto- juvenil, que sustentam a práxis psicopedagógica clínica. A educação e a psicanálise se correlacionam quando tratamos da relação da aprendizagem e seu aprendiz, uma vez que analisamos o desejo do sujeito que a psicanálise aporta. Nesta pesquisa, algumas obras dos principais psicanalistas do século XX serão utilizadas como base teórica para a sustentação do presente estudo, como Sigmund Freud explicando o início da psicanálise como conhecimento empírico através do método de associação livre sem o uso da hipnose; Anna Freud como percursora da psicanálise infantil, utilizando-se da interpretação de sonhos e brincadeiras para o tratamento das neuroses infanto-juvenil; Donald Winnicott com sua teoria de que a criança é fruto da relação com a mãe quando bebê, usando-se também de brincadeiras e jogos para melhor analisar e suprir as necessidades do paciente durante o tratamento; Jacques Lacan defendendo o fracasso escolar como uma negligência ao prazer do saber por parte do professor, e Pichon-Rivière com a teoria do vínculo e do processo grupal, entre outros, assim como artigos e obras que citam os mesmos.

Palavras-chaves: psicanálise, educação, psicopedagogia clínica, intervenção infanto-juvenil.

1. Introdução

“Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir.” (Michel Foucault)

Dentro do sistema educacional, depara-se com crianças e adolescentes que tem dificuldades de aprendizagem não patológicas, ou seja, não orgânicas, causadas por medos, traumas, baixa autoestima, relação do eu com o ambiente externo, a relação da sociedade com o sujeito e vice-versa. Pais e professores vêm- se por vezes sem meios para lidar com tais conflitos, buscando a ajuda de psicopedagogos para a intervenção terapêutica do jovem ou da criança. Os psicopedagogos clínicos por sua vez, buscam no embasamento teórico de várias literaturas de distintos autores, ferramentas que podem ajudar no tratamento do aluno, dentre eles, obras da psicanálise.

Dentro da literatura da psicologia e da psicanálise se pode encontrar as vertentes da psicopedagogia que trata dos conhecimentos relevantes sobre o aprendiz e o ambiente que o cerca. Organizando o contexto teórico em ordem cronológica, tem-se como um dos objetivos a ascensão da importância da psicanálise nos estudos da psicopedagogia, partindo dos estudos sobre os textos de Sigmund Freud, passando pela leitura das obras de Anna Freud, revisando os conhecimentos e estudos de Donald Winnicott e completando com as contribuições de Jacques Lacan e Pichon-Rivière e assim, levantando as dificuldades afetivas que interferem no desenvolvimento cognitivo e no processo de aprendizagem do aluno. Dessa maneira, sugestões serão propostas, inerentes às questões interrelacionais afetivas aos psicopedagogos clínicos, que possam trazer benefícios aos seus alunos durante as intervenções.

Visando aprofundar os estudos sobre as possíveis causas psicológicas que expressam o sofrimento psíquico com relação às ansiedades e sentimentos através da psicanálise, os psicopedagogos clínicos buscam compreender a psique do aluno e ajudá-lo a desenvolver, fortalecer e conhecer suas habilidades e assim melhorar o desempenho dentro da comunidade escolar.

Primeiramente serão trabalhadas as teorias que envolvem a psicanálise, tendo como início os estudos de Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise.

Em seguida, a literatura de Donald Winicott será trabalhada. Donald Woods Winnicott desenvolveu jogos para que fossem utilizados dentro do espaço terapêutico com crianças e adolescentes, esforçando-se para que a consulta se tornasse algo significativo para a criança. Atualmente, a caixa lúdica utilizada pelos psicopedagogos transparece essa preocupação do ‘brincar para tratar’.

Depois, serão introduzidos os conceitos de Jacques Lacan para mostrar que dentro de seu esquema mental, o bebê introjeta de sua progenitora as experiências subjetivas e cognitivas, dando-lhe uma perspectiva privilegiada e individualizada pela qual apreende também os objetos do mundo. Influenciado pela teoria linguística de Saussure, Lacan defende que o significante é uma realidade psíquica produzida por uma imagem acústica, assim como a importância da função do pai no desenvolvimento da criança.

Então, têm-se os estudos psicanalíticos baseados nos textos de Anna Freud, filha de Sigmund Freud, percursora na psicanálise infantil e sua contribuição dentro da pedagogia. Anna deu muita ênfase ao ego na personalidade, não rejeitando o id nem o superego. Estudou principalmente os mecanismos de defesa do ser humano.

Finalmente, os conceitos de Pichon-Rivière serão utilizados, que sempre questionou a prática do ensinar e buscava entender através da psiquiatria o mistério da tristeza. Concluiu que nem sempre o paciente possui uma lesão orgânica, mas sim, uma condição negativa afetiva, tendo a doença como uma tentativa falha de se expressar em seu meio.

2. A Psicanálise e a Psicopedagogia

“A Psicanálise? Uma das mais fascinantes modalidades do gênero policial, em que o detetive procura desvendar um crime que o próprio criminoso ignora.” (Mario Quintana)

2.1. Sigmund Freud: Início da História da Psicanálise

Sigmund Freud nasceu em 1856 em Freiberg, atual Eslováquia. Em 1873 ingressa na faculdade de Medicina e em 1885, após obter seu doutorado em medicina, passa a trabalhar com Charcot, mas é somente em 1896 que o termo ‘psicanálise’ passa a ser usado por Freud. Em 1900 publica A Interpretação dos Sonhos que traz uma rigorosa análise das palavras pronunciadas pelo sujeito, de suas associações de ideias, de seus pensamentos e de seus sentimentos:

Mesmo quando toda a nossa mente está repleta de algo, quando estamos dilacerados por alguma tristeza profunda, ou quando todo o nosso poder intelectual se acha absorvido por algum problema, o sonho nada mais faz do que entrar em sintonia com nosso estado de espírito e representar a realidade em símbolos.

No final dos anos 1880, Freud é médico e professor especialista em neurologia e seus principais pacientes são os ‘doentes dos nervos’. Ao publicar Tratamento Psíquico em 1890, demonstra a ideia de tratamento da alma, em que o infantil e o passado reminiscente são vistos como causas de doenças psíquicas.

Bertha Pappenhein foi o caso que mais fascinou Freud no final de 1880, caso este mais conhecido como Anna O. Seu amigo Breuer era terapeuta de Bertha, que a abandonou após o caso da ‘gravidez fantasma’ que a paciente delirava e afirmava ser filho de Dr. Breuer. Freud então pegou o caso para si e após várias sessões terapêuticas, surgiu com sua primeira premissa de que a histeria é um assunto de sexo e libido. De acordo com Assis (p.25, 2007), através da expressão do paciente sobre suas lembranças e sentimentos que Freud percebeu a importância da fala, chamando-o de método catártico, criando-se então o método da associação livre.

A ‘teoria da libido’ foi gerada após estudos sobre a transformação do conceito de sexualidade, conferindo a todo prazer uma conotação sexual. Essa sexualidade é entendida como ‘pulsão sexual’ em relação ao ‘objeto’, e os investimentos da pessoa ao objeto são direcionados à satisfação dessa pulsão e apaziguamento de uma tensão. Exemplo disso seria quando uma pessoa investe sua libido em uma atividade intelectual ou artística como forma de reconhecimento social.

Assim, a ‘evolução libidinal’ foi dividida em quatro estágios: oral, anal, fálico e genital. O estágio oral, que ocorre entre o 0 e 2 anos, refere-se ao lábio e à boca como zona erógena, área corporal de prazer. No estágio anal, de 2 a 3 anos, tem-se o controle dos esfíncteres anal e uretral (fezes e urina), onde o controle esfincteriano proporciona à criança o prazer. No estágio fálico, entre 3 e 7 anos de idade, a importância de possuir ou não um pênis faz com que a libido se concentre na região genital. É neste estágio que o complexo de Édipo, o complexo de castração e o processo de identificação ocorrem. Por último, o estágio genital que ocorre entre os 7 anos de idade até a idade adulta, onde ocorre o amadurecimento biológico dos sistemas hormonais, a intensificação dos impulsos, o início da sexualidade genital com o parceiro apropriado e começa a estabelecer um estilo de vida independente, separando seu emocional dos próprios pais.

O complexo de Édipo trata da fantasia de incesto com o sexo oposto, no qual há uma associação a sentimentos de inveja e fúria assassina em direção ao progenitor do mesmo sexo. Para Freud, é no complexo de Édipo que se encontra o núcleo da neurose.

Com relação à educação, Freud sempre deu preferência a uma leitura mais abrangente quanto aos conceitos educativos como crítica ao sistema de educação “ao destacar que reduzia o sujeito a um simples apêndice da sociedade, ao se nortear por ideais sociais e culturais gerais” conforme explica Mrech (p.16,2005). A Educação atual não é uma preparação para a vida do sujeito, ela é a própria vida do aluno.

2.2. Donald Winnicott e a Função da Mãe

Winnicott parte do principio de que a mãe é o sujeito fundamental para o desenvolvimento mental da criança. Em sua visão, a criança não é objeto da natureza, mas uma pessoa que necessita de outra para existir, tendo em questão não sua sexualidade (vida erótica), mas sim a conquista de um lugar para viver. Assis (p.72, 2007) expõe que “dessa forma, as relações familiares são consideradas por ele o fundamento da constituição e do desenvolvimento do bebê e da criança.”.

Na abordagem winnicottiana, o ser humano apresenta potencial criativo que tem a mãe como principal base para a estabilidade mental, tendo a sustentação ou holding a constituição de uma forma de amar através do fator físico, levando em consideração a sensibilidade epidérmica da criança, carregando-a nos braços e cuidando-a ao longo do dia e da noite. A quebra dessa base é o que origina os problemas psicológicos, pois a mãe deve atuar como ‘ego-auxiliar’ da criança, que quando falha, o bebê tem experiência subjetiva de ameaça à sua continuidade existencial, causando na idade adulta a sensação de vazio, futilidade, irrealidade e até mesmo tendências antissociais, psicoses e psicopatia. Para Winnicott, as ‘aberrações’ são causas diretas do mau desenvolvimento emocional infantil.

Quando a mãe não fornece a proteção necessária ao frágil ego do recém- nascido, a criança perceberá tal falha ambiental como uma ameaça, obrigando-a a desenvolver uma ‘casca’ contra a onipotência infantil. A essa casca dá-se o nome de falso self. O verdadeiro self surge através da força que a mãe dá ao ego do bebê quando esta supre as necessidades de onipotência da criança.

Winnicott defende que o desenvolvimento psíquico, ou seja, a maturação emocional se dá em três etapas sucessivas: primeiro, na integração e personalização, onde as experiências iniciais do bebê estruturam o psiquismo, organizando a personalidade e os sintomas da criança. Nesta etapa, a presença de uma mãe confiável que se adapta às necessidades perfeitamente é primordial. A próxima etapa é a adaptação à realidade, na qual o sujeito começa a compreender e a compensar as falhas do ambiente, tornando o mundo externo uma realidade. A mãe tem o importante papel de prover ao filho tais elementos da realidade. Quando isso não ocorre, o pensamento do indivíduo começa a assumir o controle e através de uma hiperatividade mental começa a distanciar-se do verdadeiro self. A última etapa é chamada de crueldade primitiva que remete à relação de amor e ódio que o bebê experimenta com a mãe e objetos. A falta de suporte da mãe resultará em profundas marcas na personalidade, afetando a motivação, a criatividade, a sensação de segurança e confiança na realidade externa.

O brincar faz parte do crescimento, sendo a autêntica aprendizagem por ser espontâneo, criativo e cotidiano. Assis (p.75, 2007) diz que

É muito importante que os educadores notem que os fenômenos e objetos transicionais estabelecem a relação necessária entre o subjetivo e o objetivo, entre o interno ao indivíduo e o que lhe é externo, entre a fantasia e a realidade. Dessa forma, possibilitam o espaço o sonho, a esperança, a criatividade, as artes, a religião, a ciência e, ressaltemos, para a curiosidade e, consequentemente, para a aprendizagem.

Winnicott (p.47,1975) enxerga a psicoterapia como uma brincadeira entre o paciente e o psicoterapeuta, havendo uma comunicação no brincar: “No fantasiar, o que acontece, acontece imediatamente, exceto que não acontece.”. Nota-se como é importante a interação através de brincadeiras entre o terapeuta e o paciente, pois brincam juntos, criando um mundo externo entre o familiar e o não-familiar, onde imaginamos, fantasiamos e trazemos à tona nossas experiências de vida.

O natural é o brincar, e o fenômeno altamente aperfeiçoado do século XX é a psicanálise. Para o analista, não deixa de ser valioso que se lhe recorde constantemente não apenas aquilo que é devido a Freud, mas também o que devemos à coisa natural e universal que se chama brincar. Winnicott (p.63,1975)

Enquanto o professor visa o enriquecimento de conteúdos e conhecimentos, o psicoterapeuta tem como principal função entender os processos de crescimento da criança e eliminar os bloqueios que impendem o desenvolvimento do indivíduo, fazendo assim o uso terapêutico do brincar da criança. Dentro desse contexto, o psicopedagogo também faz uso do brincar para sua terapia com o aluno, que neste caso, utiliza-se, dentre outros recursos, da caixa lúdica. A caixa lúdica, também conhecida como caixa de areia, é composta de uma caixa de madeira, com ou sem areia fina, e componentes a serem inseridos como miniaturas, baralhos, livros, sucatas, etc., que o aprendiz escolhe de acordo com sua vontade de brincar ou contar história no momento. A caixa é utilizada na psicopedagogia para que o aluno possa organizar seu pensamento e emoções envolvidos no processo de aprendizagem. Küster (in Barbosa, p. 70, 2010) diz que “ao brincar com as miniaturas na composição de cenas na areia, o aprendiz exercita a experiência de tomar a realidade do objeto para transformá-la, aceitando os limites que ela impõe”.

2.3. Jacques Lacan e o Nome-do-Pai

“Se Deus está morto, então tudo é permitido” Diálogo do pai Karamazov, obra de Dostoiévski

Jacques Marie Émile Lacan nasceu em Paris em 1901, formou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria. Seus seminários e suas palestras influenciaram o meio cultural francês. Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo diz que “numa época em que a psicanálise buscava fundamentações na Biologia, Lacan escolheu a linguística e a lógica para reconfigurar a teoria do inconsciente”. Para Lacan, o discurso faz com que o ser humano se sujeite à linguagem, submetendo-se aos efeitos do significante, o que varia no discurso é o papel que o sujeito ocupa como agente.

Lacan designou de Simbólico o desejo psíquico ligado à função da linguagem. Esse desejo entende-se como a negatividade do mundo narcísico, que não complementa a imagem e não satisfaz as pulsões, como descreve Pinto (2007). O homem está sempre em conflito com a civilização.

Mrech (in Nova Escola, 2008) explica que sobre a educação, Lacan considera o conhecimento como um ato inerte, já que não há um desejo genuíno desse saber, principalmente porque o professor não busca trabalhar novas possibilidades de prazer (gozo) dos alunos, levando-nos a entender que um dos motivos pelo fracasso escolar seja o desinteresse do aluno. Lacan buscou esclarecer a dinâmica entre o Eu e as instituições de ensino. Mrech (ibid) afirma que “o pai, o professor e as demais figuras de autoridade perderam o lugar simbólico de poder e excelência” e por esta razão, nos deparamos com fatores que dificultam o ensino, como por exemplo, a resistência de alguns alunos em aprender e de alguns professores em ensinar. Mrech (ibid) ainda acrescenta “O ensino não é mais concebido de forma ingênua e, com base nisso, tem-se a certeza de que não é possível haver a transmissão integral de conhecimentos.”.

No entanto, o próprio objeto da Educação, do ponto de vista científico, é difícil de ser apreendido, dificultando o exercício do trabalho do professor, tornando a prática limitada, a Educação limitada e o professor limitado.

A problemática na educação tem como ponto de partida dois elementos: o ensino/aprendizagem e a transmissão. Correa (p.02, 2009) diz que de acordo com a abordagem lacaniana, a transmissão é transferência de saber, e tem como efeito o surgimento do amor ao saber. Essa suposição do saber está presente na literatura de Freud onde o sujeito tem sua estrutura baseada no Outro, ou seja, a transmissão da tradição feita pela figura parental é uma herança simbólica, transmitida entre gerações, no qual Correa (p.07, 2009) defende que “só há transmissão e, portanto, educação, se estivermos submetidos a essa autoridade (do pai)”. Tal autoridade é explicada por Lacan como sendo um segundo momento marcado pela introdução de um outro elemento na vida do bebê que está também relacionado à mãe: Nome-do- Pai no Inconsciente. A figura do ‘pai’ na realidade é dada àquele que exerce tal função, não sendo necessariamente o pai biológico da criança. A função paterna deve ser mediada pela mãe que, quando essa inclusão falha, temos a foraclusão do Nome-do-Pai (a não inclusão), ocasionando em graves rupturas na constituição psíquica na criança, e acarretando a impossibilidade de fundação do sujeito, conforme explica Santana e Lima (p.02, 2006).

Freud (in Correa, p.03, 2009) sugere que a educação bem sucedida deve partir do princípio que a dependência do sujeito com as figuras parentais deve ser superada, e isso para um psicopedagogo pode significar que para entender as atitudes e dificuldades de seu aluno, ele deve entender primeiramente com quem o aprendiz convive e quem são as figuras parentais dele.

2.4. Anna Freud, A Precursora da Psicanálise infantil

Segundo Assis (2007), foi Anna Freud quem buscou estabelecer uma ligação entre a psicanálise e a pedagogia em seus trabalhos sobre o ego e os mecanismos de defesa. Anna defendia que a abordagem psicanalítica deveria vir associada a uma ação educativa, ou seja, a pedagogia psicanalítica.

Após 1940, Anna deu origem ao movimento neofreudiano denominado ‘Psicologia do Ego’. De 1950 até 1982, quando morreu, Anna publicou vários livros e proferiu palestras e cursos pela Europa e Estados Unidos. Em um de seus discursos, quando a questionaram sobre um livro biográfico, Anna disse “E tudo o que vivi poderia ser resumido em uma só frase: passei a vida entre crianças.”.

Durante sua carreira como psicanalista infantil, Anna questionava as teorias de que uma rígida disciplina fazia com que a criança se desenvolvesse de maneira saudável. Tratava das neuroses infantis através de brincadeiras e interpretando seus sonhos, no qual teve imensa contribuição à terapia infantil para os dias de hoje, principalmente para as crianças e adolescentes que padecem de laços afetivos, são filhos de pais separados e sofrem a exclusão social. Com relação à interpretação dos sonhos, Anna (p.40, 1971) esclarece:

Temos na interpretação dos sonhos um campo em relação ao qual podemos aplicar, de forma inalterada, às crianças os métodos que se aplicam aos adultos. Durante a análise as crianças sonham nem mais nem menos que os adultos, a transparência ou a obscuridade do conteúdo dos sonhos se ajustam, como acontece com os adultos, à força da resistência. Os sonhos das crianças são, sem dúvida, mais fáceis de interpretar, ainda que não sejam sempre tão simples quantos os exemplos expostos em A Interpretação de Sonhos.

Quanto às brincadeiras, a psicanalista as utilizava quando as crianças não se mostravam favoráveis ao método de associação livre. Dependendo da idade da criança, esta se mostra insuscetível ao método, ou porque é incapaz de reproduzir seus sonhos por não se lembrar, ou simplesmente porque não quer contar. Anna (p.52, 1971) diz que “A técnica de análise através do brinquedo elaborada por Melanie Klein, é, sem dúvida, de valor para a observação da criança.”. A criança por natureza não é manipulável pelos métodos de terapia científica, por mais eficazes que sejam.

Na educação, o analista, neste caso o psicopedagogo clínico, tem a função pedagógica de entender o que se passa com a criança não somente no âmbito interno, mas também externo, investigando o que ocorre no ambiente em que se encontra, como o núcleo familiar e a escola. Segunda Anna (p.99, 1971) “isso lhe permite examinar e criticar a influência educacional sob a qual a criança está sendo criada”, pois o Ego da criança pode ser inundado de culpa se esta não reage de acordo com o esperado pelo sistema educacional, gerando uma autocrítica que a considera um fracasso, e assim, o sentimento de tensão e ansiedade podem originar a neurose.

2.5. Enrique Pichon-Rivière e a Psicologia Social

Nascido em 1907 na Suíça, Pichon-Rivière formou-se médico psiquiatra em 1936 em Rosário na Argentina e em 1940 fundou a APA (Asociación Psicoanalítica Argentina) e na década de 50, participou da criação da IADES (Instituto Argentino de Estudios Sociales) e da Primeira Escola Particular de Psicologia Social da Argentina. Faleceu em 1977 em Buenos Aires.

Orientado pelos estudos das obras de Freud e tendo como ponto de partida os dados sobre as estruturas e características de conduta desviada que ajudavam no tratamento dos pacientes psiquiátricos, Pichon-Rivière começou sua formação psicanalítica. Em sua obra O Processo Grupal (1985), descreve a importância do vínculo, unidade mínima de análise da psicologia social, como base da necessidade, fundamental para a motivação da internalização do objeto. Essa internalização pode trazer características determinadas pelo sentimento de gratificação ou de frustração, fazendo desse vínculo algo bom ou ruim. Pichon-Rivière explica (p.11,1985) que “las relaciones intrasubjetivas, o estructuras vinculares internalizadas, articuladas en un mundo interno, condicionarán las características del aprendizaje de la realidad”, ou seja, a realidade do sujeito dependerá de como ele o internalizou. A fragmentação desse objeto de conhecimento, produto da fragmentação do vínculo, pode colocar a experiência em sentindo contrário, tendo momentos de divergência e convergência, gerando a dificuldade da integração destes dois momentos no âmbito da aprendizagem. As consequências desse contexto são sérios distúrbios de comunicação e aprendizagem da realidade. Assim Pichon-Rivière (p.14, 1985) conclui: “De esto deriva mi definición de vínculo, sustituyendo la denominación freudiana de relación de objeto.”.

O vínculo afetivo de grupo pelo sujeito começa ainda no útero da mãe, quando a criança estabelece dentro da reação biológica o vínculo com a família. Esse vínculo, de fator social, pode gerar segurança ou insegurança, dependendo de sua convivência após o nascimento com sua progenitora. Temos também o fator constitucional que é o desenvolvimento de seu desempenho dentro do grupo familiar e o fator atual, que indica seu conflito atual com relação ao grupo e, dada às circunstâncias em um âmbito negativo pode dar início à depressão e outras doenças psicológicas: “La tristeza, el dolor moral, la soledad y el desamparo derivan de la pérdida del objeto, del abandono y de la culpa” (Pichon-Rivière, p.25,1985).

Na obra A Teoria do Vínculo (2000), temos que no centro de todo vínculo, seja afetivo, paranoico, obsessivo, entre outros, há uma relação do sujeito com o objeto, seja este interno ou externo. Cada vínculo tem um significado particular para cada indivíduo, podendo ser um livro, um isqueiro, um carro, etc. que de acordo com Pichon-Rivière (p.49, 2000) “forma una estructura perfectamente visible, controlable e investigable con los métodos de la Psicología Social”.

Portanto, na Educação, fica claro que, de acordo com o psiquiatra argentino, o aluno tem de ter um vínculo positivo com a matéria ensinada, motivado pela vontade do conhecer, do saber. Mas não somente com a matéria, mas com todo o ambiente escolar em si, no qual o resultado desse aluno seja a criação, produção ou ação perante os objetos de estudos. Pichon-Rivière (p.79, 2000) defende que “el proceso de aprendizaje debe comprenderse como un sistema de cierre y apertura que funciona dialécticamente. Se cierra en un determinado momento y luego se abre para volver a cerrarse posteriormente”, ou seja, o processo ensino-aprendizagem é um ciclo que se abre e fecha a cada etapa que modifica e enriquece o aluno.

3. Metodologia: artigo de revisão

Para a realização deste artigo, usou-se do conhecimento científico literário, ou seja, pesquisa de caráter bibliográfico, sendo este o produto resultante da investigação científica, sendo utilizado dentro da literatura pertinente ao tema, interpretações textuais e citações de textos originais, obras e artigos.

4. Considerações Finais

A relação de aprendizagem e seu aprendiz estão diretamente relacionados com as dificuldades de aprendizagem não orgânicas, ou seja, conflitos como medos, traumas de infância, baixa autoestima, a relação do eu com o ambiente externo, o aluno e a sociedade que o cerca como a escola, seu lar, seus amigos, etc., e para que o psicopedagogo ajude o aluno a se desenvolver, fortalecer e conhecer suas habilidades, o profissional pode se apoiar nas literaturas de Freud, já que este especifica em suas publicações os estágios psíquicos relacionados à infância do sujeito, seu ambiente externo e seu relacionamento na sociedade, principalmente com o pai e a mãe, tendo como ferramenta o método da associação livre, onde o sujeito fala livremente sobre seus sentimentos e seus medos sem interferência do terapeuta.

Winnicott por sua vez, defende que o brincar faz parte do crescimento como aprendizagem autêntica e tem-se portanto a caixa lúdica como ferramenta para o psicopedagogo ajudar seu aluno a organizar seus pensamentos e assim lidar com seus conflitos. A caixa lúdica faz parte de um brincar utilizada em um contexto interativo e criativo.

Ao se tratar da educação da criança, o psicopedagogo clínico pode buscar apoio nas literaturas de Lacan, Anna Freud e Pichon-Rivière, já que defendem que a disciplina e a aprendizagem fluem somente quando o aluno está motivado afetivamente, e seus traumas superados. Lacan explica que a imagem do pai, depois da relação mãe-bebê, tem função primordial no desenvolvimento da criança na sociedade. Já Anna Freud defende que é através das brincadeiras e interpretações dos sonhos que se consegue tratar as neuroses infantis, e não através de disciplina rígida como acreditava-se antigamente. Para finalizar, o profissional pode se apoiar também nos trabalhos de Pichon-Rivière que defende que a baixo autoestima pode ser tratada quando existe um vínculo afetivo positivo com alguém do meio, neste caso, o psicopedagogo clínico.

Conclui-se, portanto, que a Psicanálise não é mais ignorada pela Educação, já que a educação terapêutica é um tipo de intervenção praticado junto às crianças com problemas no desenvolvimento cognitivo, sendo um conjunto de práticasinterdisciplinares de tratamento com ênfase nas práticas educacionais. Mrech (p.13,2005) afirma “ninguém mais ignora o impacto da obra de Freud na cultura.”.

Tanto a Psicanálise quanto a Educação, buscam ajudar o indivíduo a criar sua autonomia, capaz de refletir e dar sentido às atividades, porém ambas também devem enfrentar, cada uma em seu devido espaço, a questão da instituição escolar na sociedade.

Talvez, a grande contribuição que as articulações entre a Psicanálise e a Educação possam trazer diga respeito a um olhar mais atento para aquilo que fazemos, como fazemos, de que jeito fazemos, com quem fazemos, etc. Mrech (p.156, 2005)

A Psicanálise com Crianças

Criancas-Diva_ACRIMA20110626_0036_23A visão sobre a infância tem passado por diversas transformações ao longo da história, de “pecadora ou anjo” a “esperança da sociedade”. E embora a experiência analítica com crianças não seja um campo a parte do referencial teórico da psicanálise, possui algumas especificidades. Tais particularidades variam de acordo com cada criança e devem estar em conformidade com o momento estrutural no qual esta se encontra. O objetivo final deste artigo é que os leitores tenham uma primeira aproximação com as teorizações referentes à clínica psicanalítica com crianças.

Palavras-chave: Psicanálise com crianças, Clínica psicanalítica, Infância.

1. Introdução

No decorrer dos séculos, o conceito de criança tem sido visto de diversas maneiras. Nota-se que o significante “educação” trouxe consigo a concepção de criança – tal como concebemos atualmente – além de contribuir para a constituição da ordem familiar contemporânea. Foi à psicanálise que subverteu o mito da infância ingênua e bondosa apontando para o fato de que a criança – como os adultos – sentia excitações sexuais (ÁRIES, citado por Rosa, 2009).

Sigmund Freud (1909, citado por Rosa, 2009)  foi o responsável por sinalizar que a clínica psicanalítica com crianças era possível. Segundo o autor, é porque tem suas produções inconscientes que a psicanálise com crianças é possível. E, embora não tenha aprofundado essa discussão, tê-la iniciado propiciou debates dos mais diversos entre os psicanalistas (Freud, citado por Petri, 2008).  Nomes como Anna Freud, Melanie Klein, Françoise Dolto, Maud Mannoni e Rosine e Robert Lefort são referência a todos que desejam se aprofundar nessa temática.  As formulações teóricas realizadas por esses psicanalistas serão, brevemente, apresentados a seguir.

Não é possível falar de clínica com crianças sem contextualizar a importância e o lugar do lúdico no tratamento. O brincar é inevitável para a criança, uma vez que corresponde ao próprio movimento de sua estruturação psíquica: quando uma criança não brinca é sinal que existe algum impedimento em seu processo de subjetivação (PETRI, 2008).

A procura por atendimento clínico de crianças e adolescentes costuma partir da família. Nas entrevistas, ao relatarem a história da criança, frequentemente, nota-se que os pais têm algo a dizer que a criança não pode ouvir, e mesmo longe dela, alteram ou omitem fatos ou partes de eventos ocorridos com a criança ou familiares – sobre os quais, segundo eles, o filho supostamente não sabe. As vivências na clínica demonstram as sequelas do que deveria ter sido falado e não foi. Comprova-se como a decisão de deixar a criança na ignorância tem um preço, pois, sem a verbalização, as chances de elaborar diminuem ou faltam por completo; então, é bem provável que o que não foi falado retorne, gerando inibições, sintomas ou angústia à criança (ROSA, 2009). Vale lembrar: as histórias que não são contadas, as palavras censuradas, as verdades caladas, estas e outras espécies de não-dito acarretam consequências, nunca saudáveis e quase sempre patológicas a criança (ROSA, 2009).

Cabe perguntarmo-nos, o que será que há na criança (de) tão insuportável? Visto que muitos analistas recusam-se a trabalhar com crianças, pois, tomam tempo, exigem cuidados exclusivos e podem vir a causar incômodos dos mais diversos (PETRI, 2008). Como por exemplo, em relação à conduta: escondem-se atrás das cadeiras ou põem a cadeira na frente da porta quando não querem sair, fogem da sala dizendo ‘Você não me pega!’, dão pontapés, cospem, atiram objetos, levam comida, entre outros. Relatado ou expresso, o comportamento é uma questão a ser enfrentada pelo analista (ROSA, 2009).

Nota-se que os pais têm um papel fundamental no tratamento, pois, o discurso da criança é atravessado pelo discurso de seus pais. Um dos objetivos da análise seria, então, o de permitir a criança separar-se do sintoma familiar(VORCARO, 1999). Cabe alertar que, embora a participação dos pais seja essencial ao tratamento, o tratamento é da criança e é com ela que, fundamentalmente, o analista deve trabalhar.  Ao incluí-los na sessão, pensa-se em produzir um efeito analítico que permita a continuação da análise da criança (ROSENBERG, citado por Rosa, 2009).

2. A Clínica Psicanalítica com Crianças

Recorreu-se, inicialmente, a um apanhado histórico a fim de ilustrar as primeiras abordagens da psicanálise neste contexto.  Posteriormente, pretende-se desenvolver as ultimas argumentações teóricas sobre a temática proposta.

As argumentações de Freud (1909, citado por Rosa, 2009) a respeito da psicanálise no contexto infantil se deram em seu texto Análise de uma fobia em um menino de cinco anos – ‘O Pequeno Hans’.  Caso clínico construído em grande parte por intermédio do pai do paciente, o que sinalizou a importância do discurso dos pais na análise com crianças. Fica a questão, que perdurará até os dias atuais, da criança poder ser Sujeito do próprio discurso. Ou seja, é porque a criança tem suas produções inconscientes que a psicanálise com crianças é possível.

Na Conferência 34, das Novas conferências introdutórias em psicanálise (1932), o mesmo autor traz considerações sobre as condições para o exercício da psicanálise com crianças. Averiguou-se que a criança é muito propícia para o tratamento analítico; os resultados são seguros e duradouros  (Freud, citado por Petri, 2008). Recorrendo às palavras do próprio Freud (citado por Petri, 2008, p. 20):

Uma criança é um sujeito psicologicamente diferente do adulto. De vez que não possui superego (…). As resistências internas contra as quais lutamos, no caso dos adultos, são na sua maior parte substituídas, nas crianças, pelas dificuldades externas. Se os pais são aqueles que propriamente se constituem em veículo de resistência, o objetivo da análise – e a análise como tal – muitas vezes corre perigo. Aí se deduz que muitas vezes é necessária determinada dose de influência analítica junto aos pais.

Freud (citado por Petri, 2008) mostrou a possibilidade de realização da psicanálise com crianças, e embora não tenha aprofundado essa discussão, tê-la iniciado propiciou debates dos mais diversos entre os psicanalistas. Vejamos alguns destes.

Duas percussoras foram Anna Freud – filha de Freud – e Melanie Klein ambas trazendo olhares e teorizações bem diferentes do texto Freudiano.

Anna Freud (citado por Petri, 2008), em O tratamento psicanalítico de crianças, não acreditava ser possível – nem desejável – o estabelecimento de uma relação puramente analítica com uma criança. Utilizando de um viés pedagógico-educativo fez um esforço para conduzir a criança ao aprendizado da importância e dos fundamentos da análise a ser empreendida, a fim de driblar as dificuldades iniciais no estabelecimento das condições para a análise, como por exemplo, a não adesão ao tratamento. Coerentemente, deu importância central à colaboração dos pais na análise, responsabilizando-os muitas vezes pelo andamento ou impedimento do tratamento.

Anna Freud (1926, citado por Petri, 2008) argumenta que o analista deveria assumir uma “ação dirigida” – justificada por sua idéia de que a associação livre da criança seria bastante limitada – e combinar em sua própria pessoa duas funções difíceis e absolutamente opostas: analisar e educar. A conseqüência básica dessa posição do analista seria fazer com que a busca do final do tratamento coincidisse com a procura de uma identificação da criança com o ideal de eu – isto é, com quem a criança deseja parecer, ou, que ‘modelo’ deseja seguir – lugar esse ocupado pelo analista.

As formulações teórico-clínicas de Anna Freud representam uma das primeiras tentativas de se pensar à psicanálise com crianças, requerendo do analista um posicionamento diferente do ocupado em relação ao adulto, especialmente no que se refere às condições necessárias para o tratamento. É provável que o maior equívoco de Anna Freud tenha sido legar ao analista, a posição de ideal de eu, forjando a noção de uma “identificação saudável” que acaba por impor à criança ideais alheiros, contradizendo, enfim, os próprios fundamentos da psicanálise, no que concerne sua ética (PETRI, 2008).

Melanie Klein vai desenvolver um novo método de Psicanálise infantil através do jogo, do brinquedo, do desenho e do recorte. Afirmando que a análise através do brincar leva os mesmos resultados que a técnica de adultos, com uma única diferença, a saber, que o procedimento técnico é adaptado à mente da criança (KLEIN, 1997). Opondo-se radicalmente as argumentações de Anna Freud, no livro, A psicanálise de Crianças, Klein (1997), faz um resumo do que chamou de os fundamentos psicológicos da análise de crianças:

A natureza mais primitiva da mente da criança torna necessário encontrar uma técnica analítica especialmente adaptada a ela, e isso nós encontramos na análise através do brincar. Por meio da análise do brincar, ganhamos acesso às fixações e experiências mais profundamente reprimidas da criança e tornamo-nos assim capazes de exercer uma influência radical sobre o seu desenvolvimento (p.35).

Surge neste cenário, Françoise Dolto, dedicando-se à elaboração teórica de sua prática clínica a partir do referencial lacaniano, estabelecendo noções próprias sobre a psicanálise com crianças (PETRI, 2008). O trabalho de Dolto – diferente de Anna Freud e Melanie Klein – buscou identificar na estrutura qual seria a situação problemática (ROSA, 2009).

Dolto (citado por Rosa, 2009) em Seminário de psicanálise de crianças, adverte que, como os pais da realidade praticam uma relação de objeto falseada pela repetição de seu passado sobre o filho, é necessário que o psicanalista escute  – a história de cada um dos pais, assim como a do casal – para saber a que projeções a criança deverá fazer face no dia-a-dia em sua educação. Dolto também permitia que qualquer um que tivesse algo a dizer sobre a criança e sua sintomática entrasse na sessão. E adverte: a situação da chegada da criança em análise auxilia a perceber a questão. Dolto (1985, p.32, citado por Rosa, 2009) conclui:

Quando se trata verdadeiramente de uma criança-sintoma esse fato se esclarecerá por si só. Ou a criança não se interessará por estas entrevistas e sairá da sala, permitindo que seus pais tomem consciência de suas próprias dificuldades, ou expulsará os pais e estes, confusos, precisarão ser ajudados para suportarem esse desmame súbito e a independência manifestada pelo filho diante deles.

Nota-se assim que, as intervenções feitas por Dolto iam em direção aos pais e a criança. Forma de trabalho continuada por Maud Mannoni, que foi outra figura importante no cenário da psicanálise com criança com referencial lacaniano (ROSA, 2009).

Mannoni (1971) deve sua formação como psicanalista de crianças a Dolto e a elaboração teórica de sua experiência, ao ensino de Lacan. Para ela, o campo em que o analista opera é o da linguagem  – mesmo se a criança ainda não fala. O discurso que se processa engloba os pais, a criança, o analista: é um discurso coletivo que se constitui em torno do sintoma apresentado pela criança (MANNONI, citado por PRISZKULNIK, 1995).

Utilizando das palavras da própria autora: “O sintoma da criança vem cobrir no discurso familiar, o vazio criado por uma verdade que não é dita” (MANNONI, citado por Rosa, 2009, p.102).  Isto é, o que faz mal a uma criança não é a situação real que ela vivencia, mas o que nesta situação não foi verbalizado (ROSA, 2009).

Nesse contexto, o sintoma teria valor de comunicação. Considera, então, imprescindível escutar os pais na medida em que eles estão implicados nos sintomas do filho, o que não significa fazer o tratamento psicanalítico deles, mas ajudá-los a se situarem em relação à sua própria história (ROSA, 2009).

Com relação à prática clínica propriamente dita, a autora ressalta que “as reações dos pais são parte integrante do sintoma da criança e da direção do tratamento” (MANNONI, citado por PETRI, 2008, p.31). E, ainda, afirma que “não se pode tratar de uma criança sem tocar em problemas fundamentais dos pais, como suas posições em relação à morte e ao sexo – por exemplo, já que estão profundamente implicados no sintoma do filho” (MANNONI, citado por Petri, 2008, p.31). Em linhas gerais, o importante não é quem tratar – já que as intervenções vão em direção da criança e também dos pais, mas como está estruturado o discurso familiar (ROSA, 2006).

Ressalta-se nesse cenário o trabalho de Rosine e Robert Lefort. Os autores defendem em, A criança do discurso analítico, a unidade da psicanálise, não havendo, uma especificidade na psicanálise com crianças.  Em sua concepção “a estrutura, o significante e a relação com o Outro não concernem de maneira diferente à criança e ao adulto” (LEFORT,  citado por PETRI, 2008, p.31). Sendo, o analista o encarregado a criar condições para a criança encontrar seu próprio discurso na análise (LEFORT, citado por PETRI, 2008).

Portanto, podemos considerar que a psicanálise com crianças não é nem uma especialidade, o que demandaria do analista uma formação técnica determinada, tampouco uma clínica equivalente à realizada com adultos, sem qualquer atenção às singularidades da infância (PETRI, 2008).

A criança é um analisante de pleno direito, e justamente por isso, impõe certas especificidades à clínica que, norteada pelos mesmos eixos teóricos, difere apenas quanto às condições para sua realização (PETRI, 2008). Algumas especificidades, por exemplo, são relacionadas à conduta da criança: trás brinquedos, comida, pessoas à sessão, fecha a porta da sala com o analista para fora, quer pegar um objeto na sala ao lado, pede para levar objetos para casa, cria inúmeras situações, enfim; para as quais o analista precisa inventar uma resposta e/ou construir uma intervenção [01] (PETRI, 2008).

3. A Criança Como Analisante

No decorrer dos séculos, a criança tem sido vista ora como pecadora, ora como boa, sem sexo, anjo e até como vítima da sociedade (ROSA, 2009). Ariès (citado por Rosa, 2009), demonstra em seu livro História Social da Criança e da Família, que o aumento da burguesia dos séculos XVI e XVII acarretaram a preocupação educativa, ideal da nova classe social. Nota-se que o significante “educação” trouxe consigo a concepção de criança, tal como concebemos atualmente, além de contribuir para a constituição da ordem familiar contemporânea (ÁRIES, citado por Rosa, 2009).

Esse novo lugar possibilitou que a criança pudesse ser pensada como objeto de conhecimento e práticas específicas. É no século XX, afirma Volnovich (citado por Rosa, 2009), que a criança torna-se objeto da pediatria. Aqui,  a criança passa a ter corpo, mas não discurso, é dita como boa, mas sem razão ou sentidos próprios. Foi à psicanálise do início do século que subverteu o mito da infância ingênua e bondosa retornando à imagem de criança perversa polimorfa. Em outras palavras: os estudos psicanalíticos iniciados por Sigmund Freud apontaram para o fato de que a criança – como os adultos – sentia excitações sexuais. Chegando a manifestar pulsões agressivas e hostis ao longo de sua constituição (Rosa, 2009). Entretanto, este retorno se deu com algumas diferenças, uma vez que se trata de uma criança que constrói um saber sobre o real e que tem a possibilidade de formular teorias sobre suas relações com os outros e o mundo. Essas teorias – as teorias sexuais infantis –  demarcam toda a experiência do indivíduo, inclusive quando adulto (ROSA, 2009).

Há dois aspectos a serem considerados quanto à criança contemporânea. De um lado, ela adquire no imaginário social o status de esperança da humanidade, refletindo a autoestima e as frustrações do adulto. De outro lado, não tem valor social produtivo, tomando o lugar de objeto de gozo e fascínio do adulto. Examinando melhor: à criança é dado o lugar de tentar preencher as necessidades dos adultos (ROSA, 2009).

4. A Atividade Lúdica na Psicanálise

Freud (citado por Castro, 2010) faz referência pela primeira vez ao ludismo em seu artigo, Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade, acerca da hipótese da origem da satisfação sexual na ação motora, seja de forma passiva – agitação ritmada do corpo, o que explicaria a insistência infantil na repetição de atividades, como balançar, ser jogada para cima, etc. Ou ainda, no exercício muscular ativo – lutas físicas, rodopios, brincadeiras que envolvem movimento em geral. Fazem-se necessárias algumas considerações importantes sobre o brincar na concepção freudiana. De acordo com Castro (2010), o argumento de Freud “se fundamenta no depoimento de pessoas que relataram a percepção dos primeiros sinais de excitação sexual quando, na infância, brincavam de maneira ruidosa com seus pares” (p.71). Nota-se, que neste trabalho de Freud, a compreensão do lúdico está sustentada na motivação pulsional.

Em Escritores criativos e devaneios, Freud (citado por Castro, 2010) faz a comparação do fantasiar, indispensável à criação literária e artística em geral, ao brincar e ao jogar, característicos da vida infantil. Afirmando ainda que, o oposto da brincadeira é a realidade. Freud compreende a atividade lúdica como ficção; deste modo, a atividade lúdica seria ‘transitiva’ à realidade: a criança pega elementos da realidade, utiliza-os na brincadeira transformando-os, sem ignorar que aquela transformação é ‘um faz de conta’ temporário. Sendo assim, a ficção não perde a realidade como referência, pelo contrário, nela se inspira para transformá-la (CASTRO, 2010). O brincar da criança é determinado por desejos: de fato, por um único desejo – que auxilia o seu desenvolvimento, o desejo de ser grande e adulto. A criança está sempre brincando ‘de adulto’, imitando em seus jogos aquilo que conhece da vida dos mais velhos (FREUD, citado por CASTRO, 2010).

A partir do exposto cabe perguntarmo-nos: Porque haveria a criança de ‘simular’ situações de adulto nas brincadeiras? Pelo fato de que a criança busca poder exercer a liberdade atribuída ao adulto, atuar sem as imposições e limitações que a educação dos adultos lhe inculca, executar aquilo que lhe é refreado e da maneira que mais lhe agrada (CASTRO, 2010). Nessa concepção, o brincar então funcionaria como mediador entre o desejo do sujeito e uma realidade que restringe sua realização, mas o aceita sob o apoio do lúdico ou de expressões fantasiosas (CASTRO, 2010).

Em complemento ao enunciado acima, faz-se necessário recorrer às palavras de Melo e Silva (2012) como suporte para destacar o brincar na concepção psicanalítica:

É característica do comportamento infantil, o brincar, por isso a psicanálise tem a proposta de deixar a criança livre para se expressar da maneira que lhe convém, e provavelmente a criança irá brincar. Mesmo que o consultório não tenha brinquedos, ela faz de tudo um brinquedo. Dessa forma, começa a se expressar brincando. Através do brincar a criança irá expressar suas fantasias reprimidas, seu inconsciente. Quando o brincar se dá de forma bizarra ou ele não aparece é sinal de que pode haver alguma psicopatologia grave (s/p).

Como foi mencionado a alguns parágrafos atrás, Melanie Klein desenvolveu um novo método de Psicanálise infantil por meio do jogo, do brinquedo, do desenho e do recorte. Afirmando que a análise por meio do brincar leva os mesmos resultados que a técnica de adultos, com uma única diferença, a saber, que o procedimento técnico é adaptado à mente da criança (KLEIN, citado por ROSA, 2006).

E foi, juntamente com Winnicott (s/d) que Klein (1997) propôs a troca da associação livre pelo brincar, que constitui – segundo eles – uma linguagem pré-verbal. Sendo assim, o jogo por si só fala e não necessário falar sobre o jogo, que tem sentido próprio. Essa postura tem como alicerce a ideia de que quando a criança brinca, a elaboração acontece por si mesma, sem a interferência do adulto. O problemático, que exige interpretação, seria a inibição do brincar, pois, indicaria por si mesma, sinal de patologia (ROSA, 2006).

Cabe ressaltar que, por meio da brincadeira, “a criança põe em jogo suas próprias interpretações, buscando dar um sentido diante da angústia” (PETRI, 2008, p.123). E,  embora faça a diferença entre brincadeira e realidade, a criança ‘brinca a sério’, seu trabalho é o brincar, atividade que consome seu tempo, demandando investimento psíquico (PETRI, 2008). Vale dizer que  – quando brinca em análise – a criança põe em jogo, os significantes que a marcaram, porém, agora, em uma nova combinatória, inédita, criada exclusivamente por ela, de sua própria autoria (CORIAT, citado por PETRI 2008).

Conclui-se que, o brincar é inevitável para a criança, uma vez que corresponde ao próprio movimento de sua estruturação psíquica: quando uma criança não brinca é sinal que existe algum impedimento em seu processo de subjetivação (PETRI, 2008).

5. O Não-Dito na Psicanálise com Crianças

Em geral, a procura por atendimento clínico de crianças e adolescentes costuma partir da família. Nas entrevistas, os responsáveis pela criança apresentam suas preocupações e queixas, a história da criança, os dados de seu desenvolvimento, os fatos – considerados por eles – mais marcantes da vida da criança, e possíveis sinais anteriores da problemática corrente. Frequentemente, nota-se que os pais não conseguem falar da criança em sua presença. Tem algo a dizer que a criança não pode ouvir, e mesmo longe dela, muitas vezes os pais alteram ou omitem fatos ou partes de eventos ocorridos com a criança ou familiares – sobre os quais, segundo eles, o filho supostamente não sabe (ROSA, 2009).

Há pais que afirmam que “as crianças não sabem, ou que algo não as preocupa, quando elas não falam no assunto” (ROSA, 2009, p.86). Estes a imaginam como ingênua e livre de inibições ou preocupações, vivendo um mundo de brincadeiras, indiferentes ao mundo que as cerca. Não é raro os pais ‘pintarem o mundo de cor-de-rosa’ e o apresentá-lo à criança. Por acreditarem que a criança só sabe aquilo que lhes é dito por eles. E, pelo bem da criança, a realidade – às vezes algo que a criança vivenciou – é adulterada ou omitida (ROSA, 2009).

Em cada caso, a criança sofre e, em razão de tais mordaças, produz sintomas. As vivências na clínica demonstram as sequelas do que deveria ter sido falado e não foi menos por que seria impossível de verbalizar, e mais por haver uma proibição de enunciá-lo em voz alta. Comprova-se como a decisão de deixar a criança na ignorância tem um preço, pois, a falta de significantes costuma induzir todo tipo de sentidos alienados.  Sem a verbalização, as chances de elaborar diminuem ou faltam por completo; então, é bem provável que o não simbolizado retorne, gerando inibições, sintomas ou angústia à criança (ROSA, 2009).

6. A Criança como Analisante e o ‘Lugar’ dos Pais no Tratamento

A análise com crianças exige um analista de “pleno’ direito, mas que tem que se regrar pela especificidade das particularidades do encontro com a criança (PETRI, 2008). Como já foi dito anteriormente no subtema ‘A clínica psicanalítica com crianças’ deste trabalho.

Petri (2008) aponta que “é crucial que o analista não responda à demanda, para que a frustração prevaleça, sobre a gratificação, garantindo que o desejo permaneça na relação transferencial, iluminando assim a direção do tratamento” (p.35).

Enquanto os adultos chegam à análise trazendo suas angústias, questionamentos, relacionamentos mal sucedidos, pensamentos e dúvidas obsessivas, fobias, as crianças são trazidas por seus comportamentos, tanto pelo que fazem, como pelo que deixam de fazer. As queixas são de desobediência, agressividade, hiperatividade, birras… Ou, de distração, não fazer lição, falta de interesse na escola, falta de iniciativa, produção pobre (ROSA, 2009).

Mais do que nas queixas, a questão aparece nos atendimentos. Sem dúvida, as crianças falam. Falam, o mesmo que os pais, em um discurso copiado até nas vírgulas, externo a elas, e falam de suas ideias e opiniões. Contudo, o seu discurso, enfático, muitas vezes aparece na ação. Atiram coisas; escondem-se atrás das cadeiras ou põem a cadeira na frente da porta quando não querem sair; fogem da sala dizendo ‘Você não me pega!’; tiram a roupa; urinam; dão pontapés, cospem, atiram objetos; dormem. Relatado ou expresso, o comportamento é uma questão a ser enfrentada pelo analista (ROSA, 2009).

A condição da análise é que o analista saiba em que lugar a criança o coloca; a dificuldade é que ele aí está remetido à posição estrutural da infância, em que a criança é objeto que divide o Outro, em que sua posição é a da disposição perversa polimorfa. Assim, um dos possíveis objetivos da análise é o de permitir a criança separar-se do sintoma familiar (VORCARO, 1999). Este sintoma, segundo Rosa (2009), pode ser entendido como “uma palavra que não pode ser dita, alguma coisa que não consegue atingir o seu pleno sentido na linguagem e que se manifesta como mensagem. Em síntese, a criança e o adolescente são porta-vozes de seus pais” (p.67).

Retomando o que já foi dito a algumas páginas acima, é fundamental ao analista identificar qual o lugar que a criança ocupa no desejo dos pais; nas palavras de Rosa (2009), “a criança se estrutura em função do desejo dos pais e, por isso, é necessário determinar qual é o seu lugar neste desejo”(p. 67).

Temos conhecimento que o nascimento de uma criança jamais corresponde exatamente ao que os pais esperam dela. Visto que, a criança compartilha da imagem criada pelos pais, como os convencendo da sua consistência. Sendo assim, a criança identifica-se com o personagem criado, tomando-o para si, internalizando-o. E, consequentemente, agindo em função dele. Cabe, ainda, ao analista tentar captar no discurso dos pais, em que momento essa criança foi gerada e a que lugar, exigências e projeções veio atender (ROSA, 2009).

Assim, quando estamos diante de pais que solicitam ajuda para o filho, estamos também diante da problemática própria de cada um deles.  Pais e filho, “constroem” uma história cujo enredo os enreda inevitavelmente (PRISZKULNIK, 1995). Podemos, então, dizer que na análise infantil, quando buscamos o sentido do sintoma, acabamos nos defrontando com:

… À maneira pela qual uma criança é marcada, não somente pela maneira como é esperada antes do seu nascimento, como também pelo que vai ela em seguida representar para um e outro dos pais em função da história de cada um. Sua existência real vai chocar-se, assim, com as projeções paternas inconsistentes donde vêm os equívocos. Se a criança tem a impressão de que todo acesso a uma palavra verdadeira lhe é vedado, pode em certos casos procurar na doença uma possibilidade de expressão (MANNONI, citado por PRISZKULNIK, 1995).

É precisamente a constatação dos liames e dos pactos estabelecidos entre os pais e o filho que impõem a questão de escutar os pais em entrevistas durante a análise da criança. Se os pais estão implicados no sintoma do filho precisamos, também, ajudá-los a começar certo questionamento de suas dificuldades. As entrevistas com os pais podem ser esporádicas e o objetivo delas não é, em hipótese nenhuma, de orientá-los ou fazer sua psicoterapia (PRISZKULNIK, 1995).

Nos casos em que a mãe ou o pai procuram insistentemente o psicanalista com o pretexto de falar do filho, não devemos esquecer que esta insistência pode ser indício de que existe algum problema pessoal “mascarado” pelas dificuldades da criança. Numa situação destas podemos atender ao pedido, pois, com a “escuta” psicanalítica, permitiremos que a pergunta colocada por meio do filho, seja formulada através da angústia que surge quando o “disfarce” se desfaz (PRISZKULNIK , 1995). Um simples exemplo pode esclarecer esse ponto: muitos pais começam queixando-se do filho e pedindo “dicas” de como agir com ele. Se esta demanda não recebe resposta e se os pais começam a falar da vida deles, aos poucos surge a “outra” dificuldade, uma dificuldade deles em relação à própria vida; isso é possível graças  a “escuta” psicanalítica permitindo re-situar a “dificuldade” que começa como sendo com o filho e termina sendo com a própria vida deles (PRISZKULNIK,1995).

Todavia, se a procura dos pais continua a serem feitas com insistência e frequência maiores, cria-se uma situação que precisa ser conduzida com muito cuidado, pois, talvez, a indicação de uma análise torne-se  necessária; porém, esta indicação não deve ser feita tendo como causa as  dificuldades do filho do casal (PRISZKULNIK, 1995).

Vimos que muitos psicanalistas de crianças não concordam em receber os pais, nem mesmo esporadicamente, preferindo encaminhá-los a outro analista. Esta posição, entretanto, pode agora ser questionada na medida em que muitos pais têm a necessidade de falar com o analista do filho e não com um outro qualquer, ou seja, devemos lembrar que os pais estão implicados no sintoma do filho e é esta implicação que os  “conduz” a querer falar com o analista da criança. O encaminhamento para outro “lugar” pode resolver um problema do analista, mas pode trazer problemas para o tratamento do cliente, isto é, os pais podem  interrompê-lo ou “sabotá-lo” de diversas maneiras. Nos casos mais graves, tanto o pai quanto a mãe, podem simplesmente surgir, impetuosamente, na frente do analista e, algumas vezes, no horário reservado ao filho (PRISZKULNIK, 1995). Assim:

…dependendo da angústia que a análise da criança desperta nos pais, negar a possibilidade de recebê-los em nome, muitas vezes, de  uma “pureza” técnica, tanto pode criar obstáculos sérios ao ritmo  do tratamento da criança, se ela entrar num estado de insegurança  em face de continuação do mesmo, como pode até interrompê-lo,  mesmo que a criança expresse sua vontade em prosseguir (PRISZKULNIK  citado por PRISZKULNIK  1995).

Ao receber os pais para uma entrevista, devemos ouvir o que eles têm a dizer, tentando também relacionar com o tratamento do filho. Quanto mais pais e filhos estão implicados entre si, tanto mais perceberemos que um pode estar falando no “lugar” do outro como se não fossem “donos das próprias palavras” apesar de falarem, às vezes, até demais. Deste modo, tanto os pais podem fazer a criança “falar por eles”, como a criança pode fazer a mãe ou o pai “falar por ela”. Esta forma direta de receber a mensagem dos pais facilita colocar as palavras nos seus devidos “lugares”, ou seja, ajudar tanto a criança, como os pais a conseguirem falar em nome próprio (PRISZKULNIK, 1995).

Rosenberg (1994) no texto, O lugar dos pais na psicanálise de crianças, faz algumas considerações importantes. Segundo a autora, embora a participação dos pais seja essencial ao tratamento, o tratamento é da criança e é com ela que, fundamentalmente, o analista deve trabalhar.  No entanto, os pais  – ou um deles – entram no exato momento em que, devido ao peso que o intersubjetivo tem na formação do sintoma ou na estruturação das neuroses, faz-se necessário que algo também se modifique no inconsciente de um ou de ambos os progenitores, ou algo de sua relação (PRISZKULNIK, citado por Rosa, 2009).

 Ao incluí-los na sessão, pensa-se em produzir um efeito analítico que permita a continuação da análise da criança. E prossegue, segundo Rosa (2009), dizendo que, se percebermos que em algum momento não é possível promover novas associações, não há sentido em insistir com a interpretação da criança. Devemos indagar quem esta falando e onde se origina esse discurso que não pode ser processado – pronunciado – com a criança (ROSENBERG, citado por ROSA, 2009).

Quanto ao tipo de intervenção com os pais, Rosemberg (citado por Rosa, 2009) posiciona-se:

Faremos, portanto, intervenções que permitam aos pais confrontarem-se com seus desejos e recalques. Às vezes juntos, às vezes separados, com a criança ou sem ela. Não temos regras, pois, cada caso é um caso. Tampouco sabemos, por antecipação,       quando devemos incluir outro discurso no espaço de cura de uma criança, isto irá surgindo como conseqüência da escuta analítica. Deste modo, a conversa com os pais, no caso a caso, pode colaborar no trabalho com a criança e, muitas vezes, é o que dá condições de se chegar ao término da análise da criança.

7. Considerações Finais

O tratamento psicanalítico com crianças  não é um campo a parte do referencial teórico psicanalítico – embora possua suas especificidades. Tais especificidades variam de acordo com cada sujeito e devem estar em conformidade com o momento estrutural no qual a criança se encontra.

Independentemente de quem parta a demanda, a partir das formulações teóricas aqui apresentadas, observou-se ser possível a análise com crianças. Visto que ela pode demandar, a seu modo, a partir das características de seu discurso – discurso atravessado pelo discurso dos pais – e é justamente devido a esse atravessamento que os pais devem fazer parte do tratamento.

No entanto, é importante reconhecer que se o discurso dos pais funciona como uma matriz simbólica de partida, fundamental para a constituição psíquica da criança, o inconsciente infantil não é um simples reflexo do inconsciente parental. Desta maneira, entendemos que a criança deve ser ouvida como sujeito de seu próprio discurso, em que sua construção sintomática traz a marca da função simbólica dos pais, sem, no entanto, ser redutível a ela. Isto significa reconhecer a ligação fundamental entre a criança e seus cuidadores fundamentais, procurando delimitar um espaço no qual os pais e a criança possam diferenciar suas questões, imprimindo um cunho singular e único às suas narrativas.

O tratamento de crianças parece requerer uma delicadeza especial, devendo o analista atentar-se para uma estrutura não totalmente efetuada, um sujeito ainda em constituição. Com efeito, cabe ao analista a tarefa de ler a realidade psíquica da criança localizando as marcas que balizam sua constituição, para reconhecer as senhas que poderão operar sua leitura.

 

MELANIE, K. (1997). A psicanálise de crianças. Vol. 2. Rio de Janeiro: Imago.

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