O Conceito de Agressividade na Obra de Winnicott

winnicott-imagesEste artigo aborda alguns dos principais aspectos da concepção winnicottiana sobre a agressividade e a destrutividade humana, à luz da teoria do amadurecimento. Salientando ser esse um dos temas em que melhor se pode constatar a mudança paradigmática operada por Winnicott com relação à psicanálise tradicional, Também examina a posição do autor segundo a qual, em vez de manifestação de forças intrapsíquicas ou de afetos, a agressividade e destrutividade humanas estão intrinsecamente relacionadas à questão da constituição do sentido da realidade externa. Atendo-se, sobretudo aos estágios iniciais, em que se mostram as raízes da agressividade. O estudo explicita a natureza múltipla do fenômeno segundo a sua raiz no processo de amadurecimento, descrevendo o caráter das manifestações agressivas no estágio de dependência absoluta do bebê em relação à mãe e nos estágios em que a dependência se torna relativa.

Palavras-chave: Agressividade, Destrutividade, Realidade, Amadurecimento.

Neste artigo apresento um dos conceitos fundamentais na obra do psicanalista Winnicott, tendo como principal foco de discussão algumas vicissitudes do processo de construção da realidade no desenvolvimento infantil. Originando-se do conceito de uso do objeto. O entendimento da agressividade, segundo o psicanalista, isto num sentido diverso do compreendido até então da psicanálise tradicional, como sendo uma simples reação à frustração imposta pelo contato com o meio externo. Examinando alguns dos elementos conceituais que Winnicott oferece para a compreensão dos vários fenômenos de agressividade é importante destacar aspectos da originalidade da sua concepção, restringindo, basicamente, aos estágios iniciais, em que se mostram as raízes da agressividade.

Ao longo da obra, e já no seu primeiro artigo sobre o tema, “A agressão e suas raízes”, escrito em 1939, à concepção de Winnicott diverge das teorias freudiana e kleiniana. Com relação a Freud, o ponto de discordância central reside no fato de este localizar as raízes da agressividade na reação às inevitáveis frustrações, no contato com o princípio de realidade.

Contudo, para Winnicott, a agressividade, que é relativa à frustração, pressupõe um alto grau de amadurecimento, impossível de ser concebido nos momentos iniciais:

Que a frustração provoque raiva durante tais fases, é óbvio; mas, na nossa teoria dos estágios iniciais, precisamos estar preparados para encontrar a agressão que precede a integração do eu, integração esta que tornará possível, num estágio posterior, a raiva pela frustração instintual e que faz com que a experiência erótica seja uma experiência. (1955c, p. 371)

Winnicott dedicou muito de seu esforço teórico para a elucidação da agressividade e destrutividade inerentes à natureza humana. A questão atravessa toda a sua obra e consiste em um dos melhores exemplos de mudança paradigmática com relação à psicanálise tradicional.

Para o psicanalista inglês em suas analises dá muita ênfase ao ambiente, já o filósofo Heidegger, analisou que para “o ser que nunca se manifesta diretamente, imediatamente, em si mesmo, mas sempre como o ser deste ou daquele ente”.

 Em suas conceituações evidencia que “nós antes de sermos pulsões, somos tensões”.Enquanto Heidegger discursa que a “existência é a partir da ocupação das coisas”.  Em outra contraposição do “ser”, Winnicott “fala do ser a partir do uso do objeto” e Heidegger fala “ser é aparecer”.

A concepção de Winnicott diverge das teorias freudiana e kleiniana. Com relação a Freud, o ponto de discordância central reside no fato de este localizar as raízes da agressividade na reação às inevitáveis frustrações, no contato com o princípio de realidade.

A relação com a teoria kleiniana, os motivos são bem conhecidos: nela, a agressividade humana, que se expressa como inveja, ódio ou sadismo, é sempre uma manifestação da pulsão de morte, ou pulsão destrutiva, e esta é um elemento constitucional do indivíduo, variando de intensidade. Para Winnicott, a agressividade que alguns bebês manifestam, desde o início, nunca é uma questão exclusiva da emergência de instintos agressivos primitivos. Com relação a ambas: as duas teorias deixam de considerar a importância do ambiente nos estágios iniciais, ou seja, a dependência do bebê e o fato de que este reage ao tipo de cuidados que recebe.

O humano é um considerado como ser portador tanto de sentimentos bons como ruins e o reconhecimento da agressividade como uma tendência humana, torna importante compreender como essa tendência surge e seu modo de funcionamento no processo de desenvolvimento da criança. Winnicott defende a ideia de que mesmos os bebês experienciam os sentimentos de ódio e amor e desde o princípio de suas vidas devem encontrar formas de lidar com esses sentimentos.

Identificar o surgimento da agressividade durante o exercício da alimentação possibilitando uma primeira conciliação entre a capacidade de destruição e a capacidade de proteção daquilo que ama. Sendo assim a agressividade se manifesta durante a alimentação e se recolhe quando o bebê sente-se saciado. É importante reconhecer que desde essas primeiras experiências a criança luta para exercer um “controle” sobre seu próprio comportamento, procurando tanto sua satisfação pessoal quanto evitar a destruição da fonte de sua saciação.

A tendência utilizada para dramatizar a realidade interior através da capacidade destrutiva, pode também servir como fonte para a realização de atividades concretas. Entretanto para que isso aconteça à criança primeiramente coloca em prova o ambiente em que vive, ou seja, procura garantir que esse ambiente possa suportar sua capacidade de destruição, e, se sente segurança, consegue então converter seus impulsos agressivos em atividades simbólicas e criativas, como o brincar e o trabalho.

A compreensão e identificação da agressividade com as atividades motoras de exploração do mundo já evidenciam a importância desse comportamento na construção da identidade e por consequência no reconhecimento da alteridade. Ao agir de modo agressivo simplesmente para explorar um objeto, a criança começa um processo de diferenciação entre ela e o mundo exterior. Com o início da capacidade simbólica a criança pode prescindir da realização concreta da destruição e sentir aliviada com suas fantasias destrutivas, conseguindo através dos sonhos e das brincadeiras dar vazão a sua agressividade.

Winnicott adverte que o funcionamento psíquico pode ser afetado quando a pessoa não consegue assumir a responsabilidade pelos seus impulsos agressivos. Conforme sua posição, quando alguém acumula forças que possibilitam a tolerância a sua destrutividade essas são objetivadas na reparação. Entretanto, se ocorre, por algum motivo, o bloqueio da reparação, a pessoa torna-se parcialmente incapaz de assumir a responsabilidade por seus impulsos destrutivos, o que clinicamente, configura a depressão, ou então, busca externamente um responsável por sua destrutividade, através do mecanismo de projeção. Para Winnicott uma pessoa será tanto mais saudável quanto menos utilizar esse mecanismo, ou seja, quanto mais se reconhecer de forma integrada, assumindo a responsabilidade por seus impulsos agressivos.

Conclusão

Com essas reflexões de Winnicott sobre a agressividade, vale salientar a importância que nos leva a instigar a questões de vários conceitos relativos à criança, à infância e à educação. Olhar para a expressão da agressividade como um comportamento saudável tem várias implicações práticas na educação das crianças, colocando como exigências posturas que não podem ser descritas objetivamente. Entretanto, podemos nos debruçar sobre os aspectos da dimensão relacional entre as crianças e seus cuidadores para buscar compreender como estes últimos podem ajudá-las a se desenvolver de modo saudável.

Winnicott, D. W. 1953c [1951]: “Objetos transicionais e fenômenos transicionais”, in Winnicott 1971a.

______1964d: “Raízes da agressão”, in Winnicott 1984a.

______1958j: “O primeiro ano de vida”, in Winnicott 1965a.

______1958b [1950]: “Agressão e sua relação com o desenvolvimento emocional” in Winnicott 1958a.

Psicologia & Religião: Caminho Terapêutico para Dependentes Químicos?

1410277113Este trabalho pretende observar a estrutura da dependência química, a configuração da atuação psicológica de ajuda ao dependente químico, bem como a possibilidade da contribuição religiosa, junto a abordagens psicológicas de apoio e orientação ao dependente químico e codependentes. Para isso apresentamos as características da pessoa enquanto ser humano e suas fragilidades. Fazemos um breve comentário acerca da pessoa enquanto Ser Dependente e pontuações sobre o processo de desenvolvimento e instalação da dependência química. Realizamos pontuações sobre a dependência química no que diz respeito a características socioculturais e familiares, além de fatores de risco para o abuso do uso de substâncias químicas. Apresentamos um breve histórico do desenvolvimento e validade do instrumento de avaliação psicológica, MINI, e da entrevista psicológica, acompanhado pelos teóricos mais reconhecidos nesse processo, que auxiliam no diagnóstico e orientação do processo terapêutico. Além da apresentação de características e especificidades de algumas abordagens psicológicas. Devido ao fato do tratamento a dependentes químicos no Brasil (por meio de comunidades terapêuticas) apresentar quase sempre uma perspectiva religiosa, pontuou-se sobre algumas linhas de aconselhamento psicológico, relacionando-os com processos de orientação cristã, na intenção de reconhecer as semelhanças básicas destes processos de ajuda, por meio da apresentação de idéias mais conhecidas da psicanálise, do behaviorismo, da logoterapia e do pessoalismo (ACP), seguidas da apresentação das orientações cristãs de cura do passado, aconselhamento pastoral, aconselhamento bíblico e aconselhamento cristão. Após a breve apresentação de cada orientação relacionada, são realizadas considerações sobre algumas das semelhanças encontradas. Por fim, apresentamos um breve relato sobre o processo terapêutico centrado na família e a compreensão sistêmica do processo terapêutico, bem como seus aspectos e alvos mais conhecidos. E seguimos com considerações sobre a funcionalidade das perspectivas terapêuticas centradas na família, quando relacionadas especificamente no trato de famílias compostas por dependentes químicos.

Palavras chave: Psicologia, Religião, Dependência Química.

Introdução

A proposta deste trabalho é discutir aspectos relacionados à compreensão e estruturação do cuidado ao dependente químico. Pode-se afirmar que o problema referente a este cuidado está relacionado a uma questão básica: “A psicologia pode considerar a religião como contribuinte no processo de recuperação de dependentes químicos?” Acredita-se que a metodologia mais adequada para desenvolver essa análise é a comparação entre algumas das orientações religiosas e psicológicas mais reconhecidas, na tentativa de entender as semelhanças dos processos.

Esse questionamento ocorre devido ao fato de que a dependência química é uma realidade conflituosa da modernidade tardia [01], não apenas em grupos específicos, mas, em toda a sociedade, inclusive na igreja. Assim, por vezes, líderes religiosos acabam por intervir em meio ao processo de apoio a dependentes químicos, através de casas de recuperação mantidas por igrejas.

Por isso, é comum perceber alterações religiosas intensas em dependentes internados em comunidades terapêuticas. Essas alterações merecem atenção especial, porque, o dependente químico, em tratamento, apresenta dificuldades com a ansiedade, depressão, ondas de alegria ou tristeza repentina, sensibilidade às palavras, conflitos de interesses, insegurança, desconfiança, dentre outras situações concernentes, a transição de um mundo ilusório, gerado gradativamente pelas sensações produzidas por drogas a uma realidade de fatos e obstáculos que devem ser enfrentados e vencidos de maneira responsável, ética e racional. O indivíduo parece apresentar dificuldades em manter sua estabilidade em múltiplas situações adversas, ou diante de algum tipo de pressão com a qual não esteja acostumado e, como tentativa momentânea de aliviar a tensão, recorre a drogas que produzam bem estar ou alívio. Lidar com o dependente e ajudá-lo a resolver seus problemas de adequação e sentido para a vida não é tarefa fácil e percebe-se que muitas comunidades eclesiásticas não sabem como trabalhar com a dependência.

Essa pesquisa é justificada por um fato específico. Não é difícil perceber que em alguns grupos religiosos o dependente químico é visto como alguém possesso, que precisa apenas afirmar-se convertido à determinada religião para ser liberto do mal e em consequência ficar livre das drogas.

Muitos fazem esta declaração de fé enquanto experienciadores de um processo catártico em meio a um culto religioso. Essa catarse proporciona prazer e, quando o período de prazer passa e o indivíduo se depara com as dificuldades naturais, sem um acompanhamento ou apoio, ele volta ao uso das drogas com um agravante, a cobrança da comunidade religiosa. O usuário passa a ser visto como alguém que ainda não foi liberto e precisa de oração, ou como uma pessoa que despreza o poder de divino manifestado sobre ela, no entanto, essa maneira de perceber o usuário, não apenas é errada, mas, prejudicial ao verdadeiro processo de ajuda e crescimento que esta pessoa necessita.

Considerando os fatos citados, pode-se dizer que há uma necessidade de um trabalho contínuo, um acompanhamento que produza uma compreensão real da dependência química e das limitações próprias, bem como da busca por crescimento pessoal e autovalorização, identificando e tratando as especificidades humanas de relacionamentos.

São objetivos desse trabalho: pontuar sobre as principais causas para a dependência, identificar as características dos dependentes químicos, analisar os tipos, as reações e os prováveis níveis de dependência gerados por substâncias químicas e reiterar a necessidade de um acompanhamento psicológico que se interesse pelo aconselhamento qualitativo no trato do dependente químico juntamente com possíveis processos de ajuda religioso oriundos de ações psicológicas.

Na tentativa de alcançar o objetivo citado, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, acrescidas de consulta a documentos virtuais, além da utilização de um genograma organizado a partir da família de um dependente químico [02].

O trabalho é composto por um texto organizado em três capítulos, além da introdução e conclusão. Inicialmente são destacadas características acerca da dependência. Nota-se questões referentes às necessidades básicas do ser humano, quanto ao relacionamento com autoridade, busca de orientação e prazer como resposta à orientação, das quais o indivíduo é naturalmente dependente. Esses fatores podem estar relacionados à dinâmica de vida na modernidade, portanto, a mesma é apontada como um dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas. A atualidade é marcada por inconstâncias e múltiplas compreensões de certo ou errado, o que dificulta o estabelecimento de padrões, limites e valores socioculturais e espirituais, e isso gera no indivíduo uma situação de fragilidade e insegurança que o conduz à possibilidade de se tornar usuário de drogas e provável dependente químico.

No primeiro capítulo o dependente é apresentado como ser humano fragilizado em questões psicológicas, sociais, orgânicas e espirituais, fragilidade essa, que conduz a ações de fuga da realidade e de busca de sentido para viver. Nessa fuga da realidade ou busca de sentido, destaca-se a representatividade das drogas na vida do usuário. Contudo, os efeitos de diversas drogas contribuem para que esse indivíduo permaneça preso num círculo vicioso que gira em torno da ausência e busca de prazer e sentido para vida, de modo que essa fuga e/ou busca nunca terminam.

O segundo capítulo destaca as características da avaliação psicológica em meio à dependência química. Isto, a partir da apresentação do instrumento de avaliação MINI – que foi validado no Brasil e é largamente utilizado para mensurar gravidade e intensidade do abuso do uso de substâncias psicoativas – a partir de uma aplicação realizada por Silva. Além disso, a intervenção psicológica é apresenta por meio da informação sobre o processo da entrevista psicológica, acompanhado por orientações de possíveis problemas para a execução do procedimento e as diferenças do processo em psicoterapias breves.

Para concluir, foram trabalhadas diferentes abordagens psicológicas de acompanhamento, seguidas por comparações para com as perspectivas religiosas de orientação mais conhecidas, tendo em vista o aspecto terapêutico dos sistemas. O trabalho é fechado com a explanação mais detalhada sobre o procedimento psicológico humanista de Carl Rogers, denominado ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que considera todas as vivências – inclusive as vivências religiosas – como ferramenta essencial para o desenvolvimento do chamado empoderamento de si. Estado necessário para o crescimento e cura do indivíduo.

A relevância da pesquisa está relacionada às proporções alcançadas pelo abuso do uso de drogas, que reflete diretamente no desenvolvimento e manutenção da situação de dependência química do ser humano na atualidade, e, do aumento numérico desordenado de comunidades terapêuticas religiosas, que desenvolvem trabalhos variados, com resultados incertos; o que pode proporcionar uma situação agravante quanto à identificação adequada da expansão e controle da doença no Brasil.

1 Dependência Química

Ao considerarmos a modernidade como período marcado pela carência de referenciais, o que gera instabilidade, ausência de rumo e de princípios de autoridade para o indivíduo, podemos afirmar que o ser humano é afetado pelas características desse tempo histórico, tanto emocionalmente quanto na maneira de agir, compreender e valorizar as pessoas, situações e coisas (SAFRA, 2005, p.7).

Tal mudança no modo de agir se deve, segundo Frankl, ao vazio existencial que também é proveniente da atualidade e sua falta de referenciais (FRANKL, 1987, p.123). O que dá sentido a vida é entendê-la enquanto missão individual, ou seja, cada pessoa deve considerar que existe um sentido para a vida do indivíduo e não um sentido para a vida de modo geral (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

A busca de sentido específico para a vida do indivíduo o conduz a compreensão de um trabalho pessoal a ser executado, e este trabalho, tarefa ou missão, não apenas traz sentido a vida, mas serve de estímulo para que o ser humano vença as dificuldades advindas dessa tarefa (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

Frankl afirma ainda que, na busca pela conclusão dessa missão específica, o sofrimento é quase inevitável, mas, diante do sofrimento, o ser humano tem a oportunidade de se transformar naquilo que quiser, e que tem, em si, potencial para ser bom ou ruim, precisando apenas escolher no que quer se tornar. O indivíduo apresenta uma perspectiva de autoridade ou poder sobre si mesmo, que atua a partir de valores criadores, vivenciais, e de atitudes (FRANKL, 1987, p.149).

Os valores são criadores quando se referem a habilidades criativas, intelectuais ou artísticas, são vivenciais, porque dizem respeito à relação com a natureza, com o outro e com Deus, e os valores de atitudes, por sua vez, referem-se à decisão pela ação adequada ante um sofrimento que não se pode evitar (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20).

Além disso, percebe-se que o sofrimento apresenta um aspecto positivo referente à avaliação ou descoberta sobre o sentido da vida, pois, “a preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial” (FRANKL, 1987, p.120) e essa angústia conduz o indivíduo à busca de uma razão pela qual viver, ou seja, quem tem sentido para viver, encontra forças para suportar quase toda e qualquer situação ou adversidade, de modo que o ser humano é capaz de viver e até morrer por seus ideais e valores (FRANKL, 1987, p.117).

Notamos que, no sofrimento, o indivíduo tem também a oportunidade de descobrir ou confirmar sua missão específica e colocá-la em prática por meio de habilidades criativas, experiências de vida e atitudes decisivas (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20). Quando isso não ocorre, pode-se dizer que a pessoa desistiu de encontrar o sentido de sua vida, ou se deixou levar pelo racionalismo, cientificismo e ativismo moderno, que não oferecem tempo ou condições para que o ser humano trabalhe a partir do sentido de suas atividades (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p. 26-27).

Libânio amplia a posição de Frankl, quando afirma que só é possível encontrar sentido para vida inserido em um grupo ou contexto social que estabeleça condutas, mesmo que estas sejam questionadas, pois, limites estabelecidos norteiam decisões e auxiliam na formação de identidade biológica, familiar, afetiva e social (LIBÂNIO, 2004, p.22). Ou seja, é a partir do meio social que o indivíduo desenvolve e experimenta conflitos, e é nesse contexto que ele deve aprender a vencê-los.

Assim, podemos entender que o usuário de drogas vive uma situação de vazio existencial, que o induz à busca por um sentido de vida que lhe dê forças para suportar as adversidades.

Essa busca de sentido possibilita que o ser humano encontre e experimente substâncias químicas, que, inicialmente, respondem à busca desorientada por prazer e segurança, porém, posteriormente fragilizam-no emocionalmente, tornando-o mais suscetível à dependência química.

1.1 Pessoa enquanto SER dependente químico

Carmo afirma que alguns dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas, segundo a Organização Mundial de Saúde, são a falta de informação acerca dos efeitos das drogas, enfermidades gerais, insatisfação com a vida, personalidade fraca e fácil acesso às drogas (CARMO, 2000, p. 143).

A relação de dependência enquanto necessidade de prazer inerente ao ser humano, às influências da modernidade para o desenvolvimento da dependência química, devido à crise de identidade, de sentido e valores existenciais, e a ausência de informação ou educação adequadas acerca do uso, abuso e efeitos gerados pelas drogas, favorece a formação de um indivíduo propício ao uso indiscriminado de substâncias, das quais, muitas vezes, não tem controle. O uso dessas substâncias gera dificuldades no desenvolvimento das relações, além de danos fisiológicos no indivíduo.

Giddens afirma que, geralmente, as pessoas se tornam dependentes químicos, devido à ausência de um acompanhamento dentro de padrões de desenvolvimento natural do ser humano, em que um aprende com o outro a aceitar o mundo real como real e adquirir segurança a partir da confiança estabelecida nas primeiras relações humanas (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

Afirma ainda que, as pessoas sofrem influências do meio social em que estão inseridas, e essas influências refletem em suas questões relacionais, sejam no trato da segurança ou insegurança, submissão ou prepotência, satisfação ou insatisfação. E isso, porque a modernidade foge a este padrão de desenvolvimento recusando o relacionamento interpessoal, e, com isso produzem-se a exclusão e a marginalização (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

A marginalização deteriora a estrutura do ser humano, minimiza as possibilidades de que o indivíduo adquira bons referenciais, torna-o acessível ao conhecimento, administração e uso da droga e amplia a necessidade de busca de prazer devido à sensação de abandono causada pela marginalidade (SCHMIDT, 1976, p.25).

No que diz respeito ao ser humano enquanto necessitado de referenciais sociais, a atualidade apresenta duas características negativas: a carência de bons referenciais e o marketingda droga.

Sobre os referenciais, podemos afirmar que há uma desvalorização dos relacionamentos interpessoais e das preocupações com limites e ordem, além de um esforço em busca da liberdade e de relações convenientes e utilitaristas, logo, não há uma preocupação ou desejo no indivíduo de se tornar referencial ou exemplo para o outro, e sim, a expectativa de que esteoutro seja referencial para o indivíduo (ROUANET, 1987, p.233, 236).

Quanto ao marketing da droga, importa ressaltar que as propagandas, sejam a favor ou contra o uso indiscriminado de drogas, aumentam a curiosidade dos que veem e isto funciona como facilitador para que mais pessoas procurem experimentar drogas tornando-se possíveis dependentes químicos (LIBÂNIO, 2004, p.159).

Os indivíduos que se tornam usuários de drogas são, geralmente, pessoas que não conseguem administrar bem circunstâncias de conflito, pressão ou rejeição naturais no processo de ascensão e reconhecimento social. São pessoas que não têm ou não sabem como se manter diante dessas dificuldades e por isso, recorrem a substâncias que lhes proporcionem um período de estabilidade e segurança, que, mesmo sendo ilusória, causa a sensação de alívio que o usuário deseja (LEON, 2003, p. 39).

1.2 Característica dependente

No que diz respeito à dependência química, podemos falar que as perspectivas alcançam várias interpretações. Uma delas está associada à situação de sujeição de uma pessoa em relação à outra, de modo que o dependente ocupe a postura de submissão ou se sinta parte de algo, de alguém ou de uma situação (AULETE, 1964, p. 1090).

Uma segunda visão considera a característica natural de dependência do ser humano, a partir da necessidade de organização temporal, espacial, psicológica e também de personalidade, que é inerente ao indivíduo desde a mais tenra idade, e que, só pode ser constituída a partir de referenciais externos, ou seja, a presença de alguém que se torna referencial junto a esse processo (SAFRA, 2005, p. 7).

Em terceiro lugar, existem afirmativas a favor da ideia de que a modernidade tardia atua como motivador de uma conduta que contribui para com o surgimento e desenvolvimento da dependência química. Conforme Rouanet, a atração ou sedução das coisas sobre as pessoas é uma marca da modernidade que influencia no modo de agir e na construção ou desconstrução de valores do mesmo (ROUANET, 1987, p. 233).

A psicóloga Daniela Bessa reforça a compreensão de Rouanet e afirma que o ser humano deseja conquistar status e reconhecimento, seja social e/ou familiar, através da aquisição de bens, mesmo que por meio disso, aconteçam perdas significativas no desenvolvimento de relações profundas e verdadeiras, seja com as pessoas ou mesmo com Deus (BESSA, 2002, p. 31).

Portanto, podemos compreender a dependência química como relação de sujeição, bem como de referência e de sedução. O dependente é a pessoa que se submete a qualquer coisa que lhe pareça importante ou que lhe cause medo, e, a partir disso, passa a seguir os exemplos ou as referências daquilo que se tornou o alvo das expectativas do indivíduo, de modo que este pode se deixar conduzir pela sensação de sedução de tudo o que lhe afeta os sentidos e as emoções (MOREIRA JR, 2011, p.78).

Logo, podemos entender que a dependência química é desenvolvida de acordo com o lugar que as drogas ocupam na vida das pessoas. Assim, o indivíduo pode: se sujeitar à dominação física gerada pela substância; adquirir comportamentos comuns às pessoas que se tornaram referenciais – como o grupo de amigos; e até mesmo, se abandonar ante a sedução causada pelas ilusões proporcionadas por meio das drogas.

1.3 Fatores de risco

É perceptível que algumas situações favorecem para o desenvolvimento e manutenção de situações de dependência química. Alguns dos fatores que são encontrados nos âmbitos sociais e familiares, são características comuns à modernidade.

Benedicto afirma que existe na modernidade um vício pela busca de soluções rápidas e que uma das provas disso é a utilização excessiva de medicamentos, mesmo sem orientação médica. As pessoas de modo geral, acreditam que as drogas – lícitas – resolvem praticamente tudo: da mais simples dor de cabeça, até dificuldades para com estresse e depressão. Esta crença auxilia na modificação da conduta do indivíduo ante as situações de crise e dor, de modo que, este, passa a entender que pode encontrar respostas para seus problemas em comprimidos. Deste modo, acontece a familiarização e facilidade para administração de drogas gerais, o que favorece para que o indivíduo desenvolva um caráter vicioso e possa vir a se tornar um dependente químico, porque os remédios passam a ser vistos como mais fortes que as pessoas (BENEDICTO, 2007, p. 17).

Um agravante pode ser encontrado ao considerar a visão de Nouwen, pois, este afirma que, a sociedade não tem representante ou líderes de modo geral, que sejam exemplos. Isso dificulta a construção social e o crescimento da individualidade constituída a partir de um referencial positivo. Assim, cada pessoa tende a ser seu próprio referencial tornando-se interiorizada e vazia. Ante a isso, os referenciais de grupo ganham força, e, portanto, a dificuldade de exemplos gerais pode se tornar facilitador para que indivíduo comece a seguir os padrões de comportamento do grupo onde estiver inserido e a utilização de drogas pode ser um destes hábitos (NOUWEN apud BESSA, 2005, p. 43).

A perspectiva do prazer também está relacionada como fator de risco. Conforme Freud, o desejo natural de busca do prazer, pode ser motivador para a utilização de drogas. Isso, porque Freud considera a relação funcional da masturbação com a utilização de drogas, ao entender que ambas as situações de prazer são desenvolvidas e manipuladas pelo usuário, em busca de satisfação pessoal e intensa, sem preocupação para com o outro (FREUD apud MARZANO, 2007).

O psiquiatra Eduardo Kalina reforça esta perspectiva quando afirma que o erotismo oral é constante e intenso, durante toda a vida do ser humano e que está particularmente presente nos casos de drogadicção, mesmo quando a substância não é ingerida pela boca. Assim, é mais fácil entender porque algumas pessoas sentem-se seduzidas ao uso contínuo de drogas, mesmo que o prazer seja momentâneo e ilusório (KALINA, 1983, p. 29).

Além disso, percebemos que alguns fatores de risco estão diretamente relacionados às perspectivas familiares (LEITE, 2005, p.40). Dentre as quais, podemos destacar: o nível do envolvimento afetivo dos pais em relação aos filhos; a estrutura hierárquica constituída no âmbito familiar; e o contexto doméstico, ou seja, o fato de os pais fazerem, ou não, uso abusivo de substâncias químicas (HUTZ, 2007, p. 174, 175).

Isto é importante porque quando se fala em violência familiar, por mais causas que possam existir, geralmente podemos dividir em duas grandes áreas: as questões intrafamiliares, ou seja, os relacionamentos de modo geral; e os sociais, dentre os quais se encontram o abuso do uso de substâncias químicas, comportamento considerado comum atualmente (ZAMPIERI, 2004, p.65).

1.4 Farmacologia da dependência

Drogas são substâncias naturais ou sintéticas, que agem diretamente no organismo, modificando suas funções e proporcionando prazer momentâneo (Cf. BENEDICTO, 2007. p. 17).

Considerando que a variedade de drogas de que se têm informações é muito ampla, serão destacados alguns tipos mais comuns, organizados por classes. As drogas geralmente são classificadas como: narcóticos, depressores do sistema nervoso central, estimulantes e alucinógenos.

Os narcóticos, também chamados de entorpecentes, são muito usados na medicina devido ao caráter anestésico de seu princípio ativo. Nessa classificação destacam-se: a morfina, a codeína, a meperidina, e metadona. O ópio e a heroína fazem parte da família dos narcóticos, porém, não são utilizados com fins medicinais (Cf. SANCHEZ, 1982).

Os depressores do sistema nervoso central apresentam sintomas semelhantes à embriaguez. Dentre eles estão: os barbitúricos, remédios mais conhecidos como Gardenal, Vagostencil e Desbutal; a metaqualona, também conhecida como Mesqualon ou Mandrix; tranquilizantes menores, vendidos como Valium, Diempax, Apraz, Frontal, Psicossedim, Rivoltril, Dorminid, Lexotan, Somalium e antidistônicos; solventes, como aguarrás e colas diversas, vendidas em casas de construção; éter e clorofórmio, usado para amenizar as dores de parto até o início do século XX (Cf. MACHADO, 2004).

Dentre os estimulantes, destacam-se: a cocaína, utilizada na oftalmologia no século XIX e com finalidade terapêutica no século XX, tornando-se proibida nos EUA em 1914 (Cf. MACHADO, 2004); o crack, uma forma impura da cocaína; a efedrina, mais conhecida como Rinosteg, descongestionante nasal; anfetaminas, Hipofagin e Moderex, remédios comumente usados por anoréxicos, comprados como Pervitin, Dexedrina e Desbutal que ajudam a controlar o apetite (Cf. MURAD, 1994, p. 59).

Os alucinógenos também são chamados de psicodislépticos. Os mais conhecidos são: LSD, Mescalina, Trixipheidyl, conhecido como Artane e Akineton, que pode ser utilizado contra mal de Parkinson – para PRZEDKORSKI (2002, p. 596), os efeitos do mal de Parkinson podem ser reduzidos com o uso de depressores – e a cannabis sativa, chamada de “alucinógeno menor”, conhecida como maconha ou marijuana (Cf. MACHADO, 2004).

O uso de cada uma destas substâncias altera o comportamento e o funcionamento do corpo do usuário de modo diferente, dependendo do tipo de droga utilizada.

Inicialmente, os efeitos não são muito aparentes, mas, com o uso contínuo, o indivíduo passa a apresentar sinais sociais, emocionais e orgânicos, que indicam não apenas o uso de drogas, mas instalação da dependência, além da necessidade de um cuidado específico.

As questões orgânicas ou fisiológicas são mais perceptíveis diante do uso contínuo de drogas, mesmo que já existam a partir da primeira dose administrada. Cada tipo de substância apresenta um risco específico, por isso as questões serão abordadas a partir das classes já apresentadas, com um destaque para os efeitos dos inalantes.

As pessoas sob a ação dos narcóticos apresentam uma contração acentuada da pupila que pode ficar tão pequena quanto à cabeça de um alfinete. Pode ocorrer paresia – diferente de paralisia, o termo paresia indica uma parada momentânea de órgãos ou tecidos (Cf. ROWLAND, 2002, p. 34) – estomacal e sensação de estômago cheio, como se não tivesse condição de realizar a digestão. Os intestinos também ficam sujeitos à paresia e, em consequência, a pessoa que abusa destas substâncias geralmente apresenta forte prisão de ventre. Com base neste efeito é que os opiáceos são utilizados para combater as diarreias (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007).

Os depressores aumentam as chances de adquirir lesão cerebral, parkinsonismo, cegueira, disfunção renal, disfunção do fígado e insuficiência respiratória, além de promoverem alterações psicológicas (Cf. MACHADO, 2004).

De modo geral, os estimulantes podem causar psicoses, alucinações, impotência, doenças no pulmão, estômago, bexiga, alterações hormonais, pressão alta e até morte súbita (Cf. MACHADO, 2004).

Os alucinógenos têm maior possibilidade de levar à perda de memória, dificuldade de capacidade produtiva -baixo tônus vital, desânimo, cansaço, etc. -, alterações de ordem motora, aumento do risco de infecções, problemas de infertilidade e potência, maiores possibilidades de câncer e aborto, além de cansaço e alterações psicológicas que podem levar ao pânico e até suicídio (Cf. LEMOS, 2007, p. 22).

No caso da maconha, há alterações da percepção temporal e da memória recente, como também aumento do apetite e diminuição do desempenho para tarefas do cotidiano (Cf. JAFFE, 1981, p. 71-72).

Os inalantes produzem reações orgânicas típicas como tosse, irritação no nariz e nos olhos, náusea, vômito, diarréia, dor no peito, dor nas juntas, visão dupla, sensibilidade à luz e até perda de apetite (Cf. JAFFE, 1981, p. 51).

Parece estranho que, diante de reações orgânicas tão agressivas, uma pessoa possa se tornar um dependente químico. Porém, deve-se destacar que essas reações ocorrem gradativamente, de modo que o usuário experimente inicialmente a euforia, relaxamento e prazer que as drogas proporcionam (Cf. VIANA, 2004).

1.5 Reações e níveis de dependência

Os efeitos de cada uma das substâncias químicas utilizadas pelo dependente podem variar de caso a caso, de acordo com a saúde do indivíduo, o quanto ele utiliza, o tipo de droga escolhida, como é administrada: se pela boca, se inalada ou injetada, e do ambiente sociocultural em que ele se encontra. Logo, os efeitos aqui apresentados são prováveis, e como realizado anteriormente, serão apresentados divididos por classes.

Os narcóticos, de modo geral, causam um nível alto de dependência psíquica e física. Considerando a atuação fisiológica dos narcóticos e observando a conduta de diversos usuários, nota-se que não há um comportamento aparentemente agressivo do indivíduo que utiliza tais substâncias, desde que este não seja provocado ou induzido (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007). Geralmente os derivados do ópio causam sensações de exaltação, aumento de energia ou euforia, porém, o uso frequente gera uma tolerância aos efeitos, o que faz necessário um aumento na quantidade de droga administrada, bem como a redução dos espaços de tempo entre uma dose e outra na tentativa de alcançar a sensação desejada (Cf. JAFFE, 1981, p. 32).

As drogas depressoras do sistema nervoso central são hipnóticas, sedativas e anti-convulsivas. São indicadas no tratamento de pânico, ansiedade, insônia e dor crônica. Agem como relaxante muscular e geralmente diminuem a censura, mas podem provocar angústia e uma dependência de alta a média, tanto psíquica quanto física (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Normalmente, os estimulantes aliviam a fadiga e despertam a pessoa, provocando sensação de alerta. Em geral, criam alta dependência psíquica e uma possibilidade de dependência física. Vários são os efeitos produzidos pelos estimulantes: sensação de melhora do funcionamento cognitivo, ansiedade, infatigabilidade, dentre outros. A utilização excessiva ocorre devido a dois efeitos marcantes dessas drogas: a euforia e a perda de apetite, por isso, boa parte dos usuários são anoréxicos, o que fez alguns desses medicamentos ficarem conhecidos como “remedinhos para emagrecer” (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

No que diz respeito às substâncias alucinógenas, pode-se afirmar que provocam reações semelhantes a psicoses, desde delírios a perda parcial ou total de percepção da realidade. Essas substâncias não causam dependência física e o grau de alcance psicológico é desconhecido. Dentre estas drogas, destaca-se a maconha, que relaxa, produz sensação de bem estar e vermelhidão nos olhos, induz, na maioria das vezes a ações extrovertidas, mas pode gerar o desejo de isolamento e reflexão, bem como ansiedade ou pânico. A maconha gera uma dependência psíquica moderada (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Dentre outros efeitos causados pelos diversos tipos de drogas, podem-se relacionar questões emocionais e situações orgânicas do usuário de drogas.

As características emocionais produzidos pelas drogas também podem variar de indivíduo para indivíduo. Cada substância proporciona uma reação diferente de uma pessoa para outra e o contexto do usuário faz diferença no modo de ação da droga.

Porém, de modo geral, destacam-se alterações no pensamento, perda de memória, ações psicóticas, como suspeita de estar sendo seguido ou de que outros estejam falando e conspirando contra eles, comportamento inconstante e incoerente, irritação, e até excitação sexual persistente (Cf. JAFFE, 1981, p. 32-33).

Outras características que podem ser observadas são a perda da distinção entre o certo e o errado, padrões éticos e morais deturpados, dificuldade em discernir entre o real e o ilusório, sensibilidade extrema a palavras e ações, e baixa autoestima (Cf. VIANA, 2004).

Nota-se que os efeitos das substâncias químicas afetam diretamente a sensação de segurança, de direção e prazer: segurança, porque afetam a estabilidade psicológica e deixam o usuário em expectativa de perseguição; direção, porque deturpam os conceitos e limites sociais; e prazer, porque invadem as experiências naturais do indivíduo, modificando-as até no trato sexual.

Logo, a dependência é apresentada como relação de sujeição, referência e sedução, ou seja, o dependente é aquele que se submete a algo que lhe parece maior, mais significativo, ou que lhe proporcione medo. Desse algo ou alguém, o dependente segue o exemplo, as referências do que lhe chamam mais atenção ou lhe parecem mais importante, ou se deixa levar pela sedução daquilo que lhe afeta e envolve seus sentidos e emoções.

A partir disso, pode-se dizer que a dependência química está relacionada ao lugar que as drogas ocupam na vida do individuo. De modo que este pode sujeitar-se ao domínio orgânico da substância, ter os padrões do grupo como referenciais, ou mesmo se deixar seduzir pela viagem ou pelo mundo apresentado a ele por meio das drogas.  De modo especial, percebe-se que há um diferencial no comportamento desta geração que favorece para que a dependência química seja cada vez mais comum.

1.6 Genograma: família, fator de risco e de proteção para o dependente

O genograma é uma ferramenta essencial para acompanhamento de famílias. A partir da construção e interpretação do genograma é possível avaliar o contexto perceber as melhores formas de intervenção de acordo com o comportamento da família avaliada, para que no momento oportuno, as impressões percebidas por meio do genograma sejam apresentadas ao sistema familiar.

A coleta de informações para a composição do genograma deve alcançar ao menos três gerações. O sistema utiliza regras particulares de simbologia, tanto em relação à estrutura familiar, quanto aos dados demográficos, clínicos e relacionais da família.

É indicado como modelo terapêutico de avaliação, em famílias que apresentem dificuldades com: 1) saúde materna; 2) saúde infantil; 3) problemas de desenvolvimento infantil; 4) dificuldades em relação ao trabalho; 5) doença crônica em algum elemento da família; 6) doença mental em algum indivíduo do sistema familiar; 7) morte de um familiar; 8) consumo de drogas; 9) suspeita de violência; 10) depressão ou ansiedade crônica; e 11) falta de adesão aos planos terapêuticos.

A importância do genograma para a atenção familiar está vinculada ao valor que o sistema familiar apresenta enquanto base de desenvolvimento social para o indivíduo. O modelo terapêutico em questão foi elaborado de modo a contemplar todo o ciclo de vida da família, desde a constituição do sistema, por meio do casamento, até a morte dos cônjuges.

O genograma pode ser desenhado pelo médico, paciente ou por contribuições de ambos, tendo início em uma consulta e deve ser construído a partir da composição e estrutura familiar, considerando o ciclo de vida, os padrões de repetição em gerações, além do equilíbrio e desequilíbrio familiar. Para a constituição deste modelo terapêutico é necessário a utilização de símbolos próprios (REBELO, 2007, p. 314).

A interpretação deve considerar resultados de exames médicos (eletrocardiogramas, por exemplo), existência ou não de padrões de repetição em diferentes gerações, além de observações do ciclo da vida familiar em questão, ou seja, é necessário considerar se a família é composta por recém-casados, se tem filhos adolescentes, etc (REBELO, 2007, p. 314).

Símbolos do genograma

Símbolos do genograma

O genograma surgiu em meio a buscas por compreensões de patologias de filhos em relação à mãe ou pai. Posteriormente a teoria da comunicação humana contribuiu por meio da percepção de incongruências na comunicação, seja verbal ou não verbal, além dos estudos realizados em famílias de esquizofrênicos, que auxiliaram no chamado duplo-vínculo, favorecendo no acompanhamento de filhos esquizofrênicos (PRADO, 2009, p. 233).

Houve um avanço do conhecimento sobre as causas da saúde e da doença psíquica, não apenas do indivíduo, mas, nas relações e interações de membros dos sistemas familiares, em direção diferente à dos modelos até então conhecidos, da perspectiva psicanalítica (PRADO, 2009).

Por um período, houve um destaque no trabalho que considerava a família tri geracional, ou seja, a ênfase da importância dos avôs na família.

A partir disso, a história da família ganha valor e as interações passadas são consideradas como influentes no comportamento dos pais e, portanto, afetam toda a vida familiar. Assim, toda a estrutura histórica da família, tudo o que foi construído no passado, como, abusos sexuais, violências, segredos de paternidade, adoções, mitos e crenças, etc., são avaliados como influenciadores na distorção das interações do tempo presente (PRADO, 2009, p236).

Os anos oitenta também contribuíram para a ampliação da perspectiva do genograma e da terapia sistêmica, pois, o movimento feminista impulsiona o desenvolvimento da terapia familiar feminista, valorizando diferenças de gênero e aspectos particulares do papel da mulher na sociedade, família e casamento (PRADO, 2009).

No entanto, todas as considerações, inclusive sobre as particularidades do papel da mulher, devem ser construídas no genograma em conjunto, terapeuta e família, devem buscar compor a história da família com todas as características e problemas que vierem à tona. (PRADO, 2009, p 237)

As alterações e complementos no processo terapêutico chegam ao ponto de influenciar pioneiros na orientação de família, como, Minuchin, ainda vivo, em sua nona década de vida, autor do livro Dominando a Terapia Familiar, publicado em 2008, considerado estruturalista, reconheceu novas visões pós-modernas e acrescentou ao seu próprio trabalho, a avaliação histórica da família (PRADO, 2009).

Outra alteração histórica que influencia no processo terapêutico de família, está relacionada ao sistema familiar contemporâneo, pois, a configuração de família atual é em maioria, composta por famílias de pais sozinhos em decorrência de divórcios, de nascimentos e adoções por pessoas não casadas, indivíduos criados por avós, grupos familiares de filhos de pais diferentes vivendo no mesmo ambiente devido à  casamentos de divorciados, grupos familiares constituídos por casais homossexuais, famílias que vivem em casas separadas, ou mesmo indivíduos que vivem só (PRADO, 2009).

A estrutura do genograma é constituída por uma imagem gráfica, um tipo de mapa e até desenho da família. Esse recurso é utilizado como ferramenta de apoio para um destravamento do sistema, por meio da observação das dificuldades familiares e dos padrões relacionais (WENDT & CREPALDI, 2008).

A avaliação desse mapa favorece para que o clínico examine as prováveis dificuldades e facilidades do eixo familiar. Assim, um dos trabalhos que se utilizam do genograma é na caracterização e cadastramento de grupos familiares, em órgãos públicos que lidam com auxílio à família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Podemos dizer que o genograma é um “mapeamento gráfico da história e do padrão familiar”, onde podemos perceber: a) estrutura básica; b) demografia; e c) funcionamento e relacionamentos; que formam um gráfico dos dados coletados. O mapeamento expõe as etapas familiares através das gerações, além das estruturas emocionais associadas (WENDT & CREPALDI, 2008).

A função mais importante do genograma é cruzar dados familiares em momentos de avaliação, para acompanhamento adequado em meio aos processos relacionais em meio à terapia (WENDT & CREPALDI, 2008).

Para isso, as informações da família são organizadas em estrutura gráfica, para que se tenha uma visão mais clara da complexidade dos padrões de grupo. Supostamente, os membros do grupo são interdependentes, por mais que sejam idiossincráticos. Portanto, quando uma parte do sistema muda, todos os demais membros são afetados (WENDT & CREPALDI, 2008).

Através desse gráfico é possível identificar mitos e crenças que guiam e formam famílias por gerações, bem como sustentam rupturas de relacionamentos e dificuldades de trato.

Uma das formas de se analisar uma família é pela observação dos subsistemas, fronteiras e demais abstrações que podem ser percebidas entre os membros do grupo ao longo da história de vida. Esta construção abstrata indica uma estrutura familiar e delimita configurações do grupo (WENDT & CREPALDI, 2008).

A dinâmica familiar é a forma de relacionamento estabelecida pelos membros do grupo, ou seja, o modo como desenvolvem vínculos ou tratam seus problemas, os ritos, as regras, definição de ordem e papeis de cada membro da família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Os filhos fazem com que a família amplie ou modifique a estrutura interna vigente, o que favorece para o surgimento de novos subsistemas (WENDT & CREPALDI, 2008, p.305).

Enfim, em meio a tantas alterações nas composições de famílias, o genograma segue como ferramenta de auxílio fundamental na construção de um modelo terapêutico que integre e enriqueça as técnicas de apoio a disfunções relacionais.

Em relação à dependência química, o genograma atua como ferramenta de compreensão, pois, a estrutura gráfica proporcionada pelo genograma auxilia no desenvolvimento da compreensão familiar de como a doença surgiu, retirando o estigma do individuo que se tornou dependente químico, por meio de um esclarecimento sobre a realidade patológica de toda a família.

Para exemplificar, será mostrado aqui o genograma de uma família onde foi percebido um histórico de dependência química, inicialmente considerado como algo comum, devido ao fato de bebidas alcoólicas serem drogas lícitas, mas que, proporcionaram o surgimento de dependentes de drogas ilícitas como cocaína e crack.

O dependente titular desse genograma é descendente da junção das famílias O.M. e P.M.

  • Família O.M. (geração de avós)
Família O.M. (geração de avós)
  • Família O.M. (geração de tios)
Família O.M. (geração de tios)
  • Família O.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma

 

  • Família O.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M. (geração de avós)
Família P.M. (geração de avós)
  • Família P.M. (geração de tios)
Família P.M. (geração de tios)
  • Família P.M.
    • Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma

Observações sobre o genograma

Alergias, diabetes, dificuldades oftalmológicas, doenças cardíacas e problemas gerais de pressão, são características comuns a quase todos os membros da família.

O número de alcoolistas chegou a quase 56 membros da família e nove foram usuários de drogas (cocaína e crack). Atualmente, a maioria afirma ter deixado as drogas e bebidas por questões religiosas.

Três pessoas manifestaram câncer, sendo que, no caso de M.A. houve manifestação da doença em três momentos distintos e recuperação da saúde, de modo que permanece viva.

Dois casos de distúrbio psiquiátrico foram confirmados clinicamente, porém, foram tratados e recuperados totalmente.

Não existe padrão em relação à conduta escolar. É possível perceber pessoas de todos os níveis de estudo e atuando em diversas áreas, com predominância nas seguintes profissões: Motorista, Professor, Ourives, Pedreiro e Pastor Evangélico.

Em relação à constituição familiar podemos observar divórcios, relações extraconjugais constituídas paralelamente e mães solteiras.

De modo geral, foi percebido que a maior marca da família é a falta de relacionamento e de interesse mútuo. Isto foi comprovado pela dificuldade em conseguir informações dos membros da família por meio de entrevistas, de modo que, a maior parte das informações desse relatório foi adquirida por meio de pesquisas em cartórios e documentos diversos.

Três questões para exemplificar o nível do distanciamento das pessoas que compõem este grupo familiar.

  • Mesmo os dados mais simples não são de conhecimento de parentes próximos. Por exemplo: Em meio à pesquisa nos cartórios foi descoberto que I. P. (avô do titular do genograma) era gêmeo com G. P. (comprovado vivo até a juventude em documento de cartório) e este era desconhecido de seus sobrinhos, filhos de I.P. , que se surpreenderam ao saber da existência de um tio gêmeo do pai.
  • Em meio às tentativas de entrevista de familiares, houve discussões sobre o distanciamento dos membros da família e alegações do tipo… “Há dez anos não vejo meu irmão! E moramos a em bairros vizinhos!”
  • Também por meio de pesquisa em cartórios, foi descoberto que, B.O. , filha de M.A. , foi registrada em nome de A.O. e criada como filha de J.A.
    • Após a descoberta, discussões explicaram que a situação foi causada em decorrência de que, a gestação de B.O. ocorreu na adolescência de sua mãe, que, ainda solteira, não seria bem vista na sociedade da época, portanto, a criança nasceu em outra cidade e foi registrada como filha de uma prima de sua mãe, contudo, foi criada como filha da própria avó. Obs. Mãe e filha ainda vivem e se tratam como irmãs, a família não comenta o assunto.

Diante disso, pode-se perceber o quanto as ações familiares influenciam na formação do caráter do indivíduo, bem como, as circunstâncias vivenciais modificam os valores e interesses das pessoas. Pode-se perceber que, o titular do genograma, cresce em meio a alcoolistas, dependentes químicos, familiares distantes, mentiras, omissões, doenças e brigas, que proporcionam um ambiente favorável para que este se torne suscetível ao abuso do uso de substâncias químicas, como tentativa de refúgio, busca de segurança e mesmo por meio dos referenciais de pessoas estimadas que, já fazem uso de substâncias psicoativas.

 A partir do reconhecimento de uma situação de dependência química instalada, é necessário o desenvolvimento de uma avaliação psicológica com vistas à intervenção para possível auxílio no controle da situação de dependência.

2 Avaliação & Intervenção Psicológica

A psicometria é um ramo da estatística que estuda fenômenos psicológicos. Não se trata apenas de métodos, ela se insere na teoria da medida que trata da utilização de números no estudo dos fenômenos naturais. O processo de avaliação psicológica começa a ganhar estrutura a partir da elaboração de instrumentos de medida psicológica. Assim, a avaliação tende inicialmente a ocupar lugar de diagnóstico nos âmbitos clínicos e de trabalho e posteriormente repercute em todas as perspectivas do indivíduo. No entanto, apesar do desenvolvimento da área e da solidificação de análises e instrumentos, ainda existem críticas sobre os testes psicológicos.

Atualmente, pode-se dizer que, os instrumentos foram atualizados e compreende-se que o conhecimento é adquirido pela relação com o outro e a observação desta relação. Tornando o diagnóstico uma questão, por um lado racional, por outro, empático (NASCIMENTO, 2005, p. 217).

No Brasil, a psicometria ganha um grande espaço de discussão, devido ao modo como os testes veem sendo utilizados, sem o rigor necessário e estudos adequados, de forma que descaracteriza o método e sua cientificidade (NORONHA; BALDO; ALMEIDA; FREITAS; BARBIN; & COZOLI, 2004).

O rigor do método se deve à importância do mesmo, pois, a partir da psicometria é possível mensurar questões individuais em perspectivas legais, como quando um teste serve de base para distinguir entre dano moral e dano psicológico.

O dano moral é identificado como parte da percepção subjetiva de prejuízo em questões de honra, finanças ou de liberdade, enquanto que o dano psicológico está vinculado à saúde, possibilitando desenvolvimento de patologias (ROVINSK, 2005, p.178).

A avaliação psicológica é um dos principais campos da atuação do psicólogo. E isso, porque, a partir dos resultados dos testes, é possível se fazer inferências acerca do comportamento humano, de modo a auxiliar o indivíduo a tomar decisões diante de situações específicas (ÁVILA-BATISTA, 2011, p. 11).

Assim, o teste mais utilizado no Brasil para avaliação psicológica, tanto em relação à gravidade quanto à intensidade de danos, em casos de dependência química, é o MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview). Seu questionário foi validado para a realidade brasileira e, por isso, sua eficácia tem sido continuamente constatada a cada aplicação, de modo que, muitos pesquisadores se utilizam com tranqüilidade deste instrumento.

2.1 MINI: Características e validação do instrumento

Dentre os métodos psicológicos reconhecidos estão o DSM IV TR (2002) a nível clínico e de diagnóstico de dependência química e o SADD (1983) como avaliador de gravidade da dependência química (SOUZA; BITENCOURTT & OLIVEIRA, 2006, p. 111).

O Mini International Neuropsychiatric Interview, doravante designado MINI, é um questionário de auxílio para desenvolvimento de diagnóstico padronizado breve (15-30 minutos). É compatível com os critérios do DSM-III-R/IV e do CID-10 e sua utilização é indicada na prática clínica e na pesquisa em atenção primária e em psiquiatria. Pode ser utilizado por clínicos após um treinamento rápido (de 1 a 3 horas). O MINI Plus, versão mais detalhada, pode gerar diagnósticos dos principais transtornos psicóticos e do humor do DSM-IV (SCHEFFER; PASA; & ALMEIDA, 2010, p.535).

O MINI é estruturado em módulos diagnósticos independentes, para otimizar a sensibilidade do instrumento, na tentativa de diminuição de falso-positivos. Como meio de redução de tempo da entrevista, são utilizadas as seguintes estratégias: observação dos transtornos atuais, para facilitar a escolha da terapia mais adequada no momento; as questões são de resposta objetiva entre SIM/NÃO; questões de entrada exploram critérios obrigatórios para excluir diagnósticos de respostas negativas; as características e sintomas ocasionais de transtornos não são sistematicamente exploradas; e os algoritmos são integrados à estrutura do questionário, permitindo estabelecer ou excluir os diagnósticos ao longo da entrevista (AMORIN, 2000, p. 107).

Foram desenvolvidas duas versões do MINI para responder aos diagnósticos específicos de contextos diferentes:

1) voltado para ensaios clínicos e cuidados primários. O MINI abrange 19 módulos que alcançam 17 transtornos do eixo I do DSM-IV, o transtorno da personalidade anti-social e o risco de suicídio. O módulo Síndrome psicótica descobre os indícios do critério da esquizofrenia, com a finalidade de eliminar a possível existência de um transtorno psicótico. Os outros módulos determinam análises positivas.

2) proposto para a avaliação aprofundada das desordens mentais ao longo da vida, na pesquisa e na clínica em psiquiatria. O MINI Plus explora ordenadamente todos os critérios de abrangência e de eliminação, bem como a cronologia de 23 classes diagnósticas do DSM-IV. O módulo Transtornos psicóticos produz a análise positiva de 7 subtipos de psicoses: (1) transtorno psicótico sem especificação, (2) transtorno delirante, (3) transtorno psicótico breve, (4) transtorno esquizoafetivo, (5) transtorno esquizofreniforme, (6) esquizofrenia, e (7) transtorno psicótico decorrente de uma condição médica geral e/ou induzido por substâncias (AMORIN, 2000, p. 108).

O método utilizado para a validação do instrumento MINI foi o teste de confiabilidade entre métodos.  Era necessário provar a concordância entre o diagnóstico gerado pelo MINI e aqueles gerados por métodos já reconhecidos. Foram escolhidas duas estratégias para validar o novo procedimento diagnóstico: “compará-lo a diferentes critérios de referência e compará-lo ao Best Diagnosis ou LEAD Standard” (AMORIN, 2000, p. 108).

O MINI/MINI Plus foi comparado a questionários padronizados com características distintas, empregados em pesquisas internacionais – o CIDI e o SCID-P – e com a apreciação de psiquiatras. Além disso, foram realizadas análises quantitativas e qualitativas, pela metodologia do LEAD Standard.

2.1.1 Aplicação do MINI e os resultados obtidos junto a Dependentes Químicos

A dependência química é o resultado de uma relação doentia entre um indivíduo e uma substância psicoativa (SPA). Inicialmente o consumo pode ter diversos motivos que possivelmente prosseguirão após o desenvolvimento da dependência. O abuso do uso de SPA, frequentemente desenvolve a dependência e esta, traz consigo, comorbidades psiquiátricas, o que é desfavorável ao tratamento da dependência química. O episódio de um transtorno adicional pode comprometer o diagnóstico, tratamento e prognóstico de ambos os problemas (SILVA; KOLLING; CARVALHO; CUNHA; & KRISTENSEN, 2009, p.102).

Estudos afirmam que um terço dos alcoolistas demonstra ansiedade em níveis significativos. Uma média de 50 a 67% dos alcoolistas e 80% dos dependentes de outras drogas apresenta características semelhantes ao transtorno do pânico, dos transtornos fóbicos ou do transtorno de ansiedade generalizada. Conforme Silva, “pacientes com comorbidade psiquiátrica, principalmente aqueles com transtornos psiquiátricos graves, apresentam maiores taxas de suicídio, agressividade, detenção por atos ilegais, recaídas, internações, mais gastos com tratamento…” (SILVA et al, 2009, p.104).

Para a aplicação do instrumento, Silva realizou uma pesquisa, a partir de 31 pessoas, diagnosticados dependentes de álcool ou cocaína / crack a partir do CID-10 e DSM-IV. O trabalho foi realizado em um hospital de Porto Alegre – Hospital Parque Belém – tendo como critérios de exclusão: 1) a idade abaixo de 18 anos; 2) estado de abstinência de duas semanas; 3) experimentadores e ex-usuários; 4) dependência de outra substância; 5) menos de um semestre de uso regular de SPA.

A pesquisa foi realizada predominantemente por:

  • pessoas do sexo masculino (84%)
  • entre 20 a 56 anos de idade
  • sendo que, 19,4% dos participantes tinham ensino fundamental incompleto
  • 16,1% terminaram o ensino fundamental
  • 16,1% afirmavam ter ensino médio incompleto
  • 29% concluíram o ensino médio
  • 12,9% tinham ensino superior incompleto
  • e 6,5% possuem ensino superior completo.

 Em média, os envolvidos apresentaram 25 dias de abstinência. A coleta de dados durou em torno de 60 minutos e os instrumentos utilizados foram: formulário padronizado, elaborado por Silva, e o MINI Plus (SILVA et al, 2009, p.106).

Como resultado da aplicação do instrumento foi observado que: 1) os participantes do sexo masculino apresentavam maior tempo de abstinência; 2) os dependentes de cocaína / crack, são mais jovens que os alcoolistas; 3) 67% dos envolvidos na pesquisa, afirmavam ter parentes próximos que faziam uso abusivo de álcool e/ou drogas; 4) 38,7% tem pais dependentes químicos; 5) 25,8% são sobrinhos de dependentes; 6) 22,6% são primos de dependentes; 7) 19,4% são netos de dependentes; 8) 12,9% tem irmãos dependentes; 9) 6,5% tem mães dependentes de SPA; e 10) 3,2% tem filho dependente químico. Transtornos mentais foram percebidos em 83,9% dos participantes, além da percepção de comorbidades múltiplas em grande parte do grupo estudado (SILVA et al, 2009, p.108).

A partir da observação e avaliação dos resultados da aplicação do MINI, é possível que a intervenção psicológica seja mais adequada. Ou seja, torna-se mais difícil que o terapeuta promova um direcionamento errado, de modo a prejudicar o dependente. Tanto em relação ao desenvolvimento do tratamento, quanto no que diz respeito ao surgimento de novos problemas. A partir da avaliação, o passo seguinte é a intervenção.

2.2 Intervenção: Entrevista psicológica

A entrevista psicológica é uma ação entre duas pessoas – das quais, um deve ser profissional da psicologia – onde ocorre uma troca de informações, por meio de diálogo em uma comunicação informal e por tanto, os nomes e conceitos atribuídos a esse diálogo são muitos, de maneira que os teóricos da área ainda discutem o tema com intensidade (ALMEIDA, 2004, p. 34).

A expressão entrevista psicológica é efetuada por psicólogos no exercício de suas atividades. E levam em conta, perspectivas e fatores psicológicos percebidos anteriormente, com o objetivo de resolver problemas que habitualmente fazem parte do quadro da psicologia, ou seja, seleção e orientação profissional, pesquisas psicológicas, estudos de opinião pública, exame de personalidade, etc. No entanto, a avaliação psicológica não é uma prática independente de amarrações teóricas que a direcionem, é necessário identificar as perspectivas teóricas adequadas, de acordo com o que deve ser avaliado e o modo como deve ser analisado, além de forma de utilização dos resultados obtidos (SPARTA; BARDAGI; &  TEIXEIRA, 2006, p. 19).

De acordo com Sullivan (1970), a entrevista psicológica é uma comunicação vocal a partir de duas pessoas, integradas numa estrutura terapeuta-cliente e que se desenvolve progressivamente com objetivo de clarificar situações de vida dos entrevistados, vividas de modo especialmente penoso ou valioso, com objetivo de que esta clarificação possa gerar algum benefício para o cliente (p. 4).

Assim, nos atemos ao estudo da entrevista psicológica, com a intenção de pontuar sobre regras que auxiliam para que a aplicação da técnica seja mais adequada, de modo a facilitar o desenvolvimento da análise. Isto porque, só o cliente realmente tem condição de expressar sobre o próprio sofrimento e, portanto, se faz necessário que o terapeuta consiga identificar o problema e conduzir o cliente no processo de ajuda, a partir desta identificação (OLIVEIRA, 2005, p.1).

A entrevista psicológica deve ser realizada através de procedimentos e técnicas próprias e empíricas. É o ponto de encontro entre a ciência psicológica e a prática. Por tanto, é a partir da entrevista que se é possível aplicar de modo prático, os conhecimentos elaborados sobre as perspectivas psicológicas, por meio de um processo de interação (BLEGER, 1998, p. 1).

Todo o aparato instrumental do profissional da psicologia consiste no resultado das elucubrações do paciente, que voluntariamente ou impulsionado por facilitações do terapeuta, se dispõe e falar sobre aquilo que lhe é problema, ou motivação que o levou à clínica psicológica. As palavras do paciente são na verdade o material sobre o qual irá trabalhar na tentativa de uma melhor compreensão do caso (AUGRAS, 2002, p. 82).

As técnicas da entrevista são ferramentas de auxílio para que o paciente se sinta mais a vontade para expor suas questões e para que o terapeuta tenha maior acesso às informações essenciais na elaboração do processo de ajuda. Por meio da entrevista, é possível testar limites, contrapor, confrontar e buscar esclarecimentos para as respostas do sujeito. Por isso, a entrevista clínica tem lugar de destaque incomparável entre as demais técnicas de avaliação (TAVARES, 2002, p. 75).

2.2.1 Primeiras Entrevistas

O objetivo das primeiras entrevistas é identificar os aspectos mais relevantes do caso e a partir disso, identificar a melhor maneira de deseenvolver o acompanhamento.

No decurso destas primeiras entrevistas, o analista deve: 1) escutar e tentar peceber na historia de vida do paciente, os problemas e perturbações a serem trabalhados; 2) avaliar o nível de vontade e condição do paciente para o acompanhamento terapêutico; 3) observar as características psiquicas, bem como a habilidade de verbalizar e tolerar a condição de analise.

A partir disto, se a analise for realmente indicada ao caso, deve ser fixado um modo de acompanhamento, ao estabelecer a duração, a frequência das sessões, a postura do analisado (divã, por exemplo) e a postura do analista (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

O trabalho do analista é o de observar, escutar, compreender, saber esperar e calar-se e no momento oportuno e dar a interpretação que convêm. Após isto, o terapeuta deve comunicar ao paciente o conteúdo latente do discurso deste.

Esta comunicação deve ser elaborada a partir da reunião de elementos separados do discurso. É um trabalho de reorganização e de atribuição de sentido à narrativa do paciente.

Essa devolução organizada das informações do sujeito precisa ser realizada em momento adequado, que este tenha condição de ouvir e de assimilar as informações apresentadas pelo terapeuta. É um trabalho de cooperação na construção de questões interenas do individuo  (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

É importante saber que, as primeiras entrevistas podem desencadear alguns fatores psicológicos. É imprescindível estar atento a:

  • Resistências – dificuldades gerais que o paciente possa apresentar em relação ao desenvolvimento do processo terapêutico.
  • Transferência – ação inconsciente de vivência momentânea das questões que afligem o paciente, de modo que as emoções sejam transferidas do evento, para o terapeuta.
  • Contratransferência – ação de deslocamento das emoções do terapeuta para com o paciente, ante alguma vivência comum ou situação específica do momento vivencial do terapeuta.

Estas situações podem ocorrer em meio a qualquer processo terapêutico e precisam ser consideradas com cuidado para que o tratamento não seja prejudicado (NETO, A.C.; DAL-BÓ, M. J.; BREDA, R. L.; & CRESTANA, T. 2003, p. 266)

2.2.2 Entrevista nas psicoterapias breves

A psicanálise influenciou a psicologia tanto em questões teóricas quanto a nível de exemplo. Por outro lado, a psicologia auxiliou na propagação da psicanálise em países que demonstravam indiferença à atuação psicanalítica. Ainda assim, é notória as especificidades de cada uma das disciplinas.

Ferenczi, psicanalista contemporâneo de Freud, é um dos precursores das psicoterapias breves. Decidiu por buscar novas maneiras de ajudar os seus pacientes, e para isso, experimentou um certo número de mudanças técnicas. É assim que ele começa por atuar a partir da técnica activa, fundada na observação atenta e empática, que consiste em intervenções directivas por parte do analista: formular, por exemplo, ordens e interdições (OLIVEIRA, 1999, p.10).

Michael Balint propõe a psicoterapia focal; trata-se de entrevistas face a face, cujo número é limitado no tempo, com uma focalização no problema do paciente (PSICOTERAPIA BREVE, 2003-2011).

Alexander e French propõem modificações técnicas da psicanálise e desenvolvem aexperiência emocional correctiva. Alexander propõe trabalhar com base no método das associações livres, mas associa igualmente entrevistas mais directas e dá directivas ao paciente, ele pensa também que as atitudes do terapeuta devem ser suficientemente flexíveis para se adaptarem caso a caso (OLIVEIRA, 1999, p.11).

De um modo geral, podemos dizer que, por meio da entrevista psicológica, o cliente precisa alcançar o relaxamento suficiente, para que o terapeuta consiga perceber as situações que lhe causam desconforto, ansiedade e outros problemas que o motivaram a procurar ajuda terapêutica e apartir disso, seja possível a elaboração – por parte do profissional da psicologia – de um processo terapeutico adequado, considerando as abordagens psicologicas cabiveis.

O objectivo é, portanto, fazer com que o sujeito tome consciência dos seus pensamentos, reconhecer aqueles que são inexactos e substitui-los por ideias positivas.

Para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta a  compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É impressindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E agora, de posse de sua bagagem técnica tecer suas observações, ponderações e considerações, de modo axiomático, considerado que a utópica da neutralidade sempre deverá ser perseguida.

Os princípios éticos serão avivados em cada encontro, e nenhum instrumento poderá adquirir uma aura de prevalência sobre a pessoa do entrevistado, que é mais importante e assim deve ser respeitado.

É fundamental que o profissional se conheça e que tenha como rotineiras, as reflexões sobre suas próprias atitudes, postura e comportamento. É preciso que tenha também flexibilidade em modificar-se, quando a necessário. Muito do trabalho do psicólogo certamente vem em conseqüência do auto conhecimento, que lhe dará a base na qual se apóiam à sua atuação e intervenção com toda transparência.

2.3 Abordagens

No campo da Psicologia, são muitas as abordagens existentes para tratamentos de conflitos. Há aquelas em que o cunho está mais voltada para o autoconhecimento do sujeito, seus traumas e conflitos internos, existem aquelas que trabalham com as crises e suas repercussões no momento, e, há também as de fundo filosófico que vêem o sujeito não somente como uma psique em crise, e sim como um todo levando em conta seu lado social e seu relacionamento com consigo mesmo e com o mundo.

As abordagens que pontuaremos, devido ao reconhecimento e destaque geral no campo da psicologia são quatro: Abordagem Fenomenológica; Abordagem Humanista; Abordagem Sistêmica; e Abordagem Cognitivo Comportamental.

2.3.1 Abordagem Fenomenológica

A perspectiva fenomenológica surge como reação às teses e à maneira de compreender questões patológicas no início do século XIX.

A abordagem surge a parir da filosofia, em particular da filosofia a alemã. Tendo como precursor Edmund Husserl, que elaborou os fundamentos desta idéia. Ele propõe compreender o homem e a sua psicologia a partir da análise dos estados de consciência, das questões vivenciais, da experiência e dos modos de relação do sujeito com o seu meio. Martin Heidegger, discípulo de E. Husserl, propõe uma filosofia que prioriza o conhecimento do ser humano no mundo, da realidade humana a partir da descrição das coisas na sua essência sem qualquer pressuposto teórico (VILA-CHÃ, 1988, pp.357-365).

A filosofia fenomenologica destaca a necessidade de um retorno à experiência humana como objecto de uma descrição; esta enfoque marcou profundamente a psicologia e a psicopatologia. Karl Jaspers é um dos primeiros a introduzir a dimensão fenomenologica em psicopatologia (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Karl Jaspers desenvolveu uma abordagem descritiva da fenomenologia; o seu método consistia em descrever as vivências psíquicas conscientes dos doentes mentais, classificar esses estados entre si e compara-los com as vivências psíquicas do homem normal (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Os fenomenologistas têm como referencia essencialmente Ludwig Biswanger, que pensa que é preciso ampliar a compreensão do doente tal como ele se encontra, mais do que compreende-lo a partir das teorias pré estabelecidas, que pertencem ao terapeuta e não ao doente; ele propõe uma análise que se baseia mais na relação e na experiência vivencial (CHAMOND, 2011, pp. 3-7).

A abordagem fenomenologica não propõe qualquer técnica psicoterapeutica particular, mas insiste na noção de comunicação, a partir de uma comunicação e uma relação verdadeira entre o clínico e o seu paciente. O ênfase está na relação terapêutica, que é considerada como uma relação inter-humana, portanto uma possibilidade de encontro, um face-a-face e uma troca com o outro. Não está baseado em regras técnicas, mas, uma reflexão teórica sobre a noção de psicoterapia e uma reflexão sobre a prática da entrevista, insistindo na experiência comunicativa entre os dois interlocutores (LESSA &  SÁ, 2006, pp. 393-397).

2.3.2 Abordagem humanista: Carl Rogers

As percepções de C. Rogers tiveram grande influência no que diz respeito à psicoterapia. Elas integram uma abordagem humanista bastante próxima do ponto de vista fenomenologico, assumindo uma posição face às teorias psicanalítica e behavioristas, a partir do interesse pela nosografia e pela estrutura da personalidade.

Conforme Rogers, em todo o ser humano existem potencialidades que podem ser desenvolvidas numa relação interpessoal, a partir da aceitação, compreensão empática, e, não diretividade, por meio de uma relação interpessoal e construtiva.

O processo terapêutico, segundo C. Rogers, envolve uma libertação dos sentimentos a partir da experiência vivencial e a percepção disto durante a terapia, para que o indivíduo tenha como modificar sua prática de atitudes e assim, desenvolver congruência consigo próprio (AMATUZZI, & CARPES, 2010, pp. 11-25).

2.3.3 Abordagem Sistêmica

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

2.3.4 Abordagem Cognitiva e Comportamental

A abordagem cognitiva e comportamental representa um conjunto de técnicas baseadas nas teorias da aprendizagem e nos contributos da psicopatologia cognitiva. Todas elas têm em comum um certo número de características: O estabelecimento de um contrato entre o paciente e o terapeuta; A definição clara e precisa dos objectivos terapêuticos, com uma definição das condutas que vão ser alvo das tentativas de mudança; A duração do tratamento, que é geralmente bastante breve, de três a seis meses; A medida quantitativa e qualitativa da mudança obtida.

Têm por objetivo suprimir o comportamento inapropriado para o substituir por um comportamento adaptado, segundo as leis do condicionamento. Por exemplo, a técnica da dessensibilização, utilizada para tratar as fobias (BAHLS; & NAVOLAR, 2004, pp.1-11).

A Psicologia é uma área muito ampla e as abordagens são diferentes entre si. Elas diferem em filosofia, objeto de estudo, teoria, linguagem, formas de pesquisa, dados científicos e práticas de intervenção. Todas essas características resultam em perspectivas muito particulares de como perceber o homem e como lidar com ele profissionalmente, e resultam em certas expectativas de postura do psicólogo, portanto, é necessário cuidado ao escolher a abordagem mais adequada.

3 Psicologia & Religião: Caminho terapêutico para o dependente químico?

Uma das características do processo terapêutico está relacionada ao valor e lugar que o do processo catártico em meio ao tratamento escolhido. Pode-se dizer que catarse é um processo de liberação de angústias e emoções reprimidas, ou de algum modo contidas, que, a partir de certo ponto podem causar distúrbios psicológicos (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O termo Catarse surge com Aristóteles. Por meio da ação poética, o palco tornava-se lugar de liberação das expressões emocionais por meio do drama e da tragédia. Posteriormente a ação catártica de purificação das emoções passa a ser vivenciada também pelo expectador (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Após o estabelecimento do processo catártico, por anos, esta ação foi vivenciada como ritual de purificação de espíritos malignos e/ou influências negativas externas sobre a vida das pessoas, por meio de ações como exorcismos, hipnose e semelhantes (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O processo foi utilizado a partir de diferentes perspectivas, passando por Freud, Diderot, Lessing, Goethe, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Em cada perspectiva a catarse ganhou um nome diferente como: análise do caráter, Gestalt-terapia, terapia primal, analise bioenergética, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

De modo geral pode-se dizer que a catarse atua claramente em três perspectivas humanas: médica, moral e religiosa (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

No que diz respeito ao aspecto médico, a catarse pode ser compreendida como ação homeopática de purificação do corpo (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A perspectiva moral entende que, ao purgar as malignidades por meio da catarse, a conduta do indivíduo seria equilibrada e não haveria riscos de ações imorais / malignas (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A ênfase religiosa da catarse aparece desde o teatro grego, onde a tragédia era compreendida como excitação religiosa e êxtase báquico. É possível citar também a influência hebréia no que diz respeito às experiências de sofrimento de personagens bíblicos como Ana (1 Sam 1:12-16), que não podia ter filhos e por isso, chorava e sofria diante de Iahwe. A oração sofrida acompanhada por movimentos de lábios que lembravam embriaguês, tiveram como resultado, a resposta do clamor, alívio e cura da alma. Além disso, Inácio de Loyola afirmou que a prática da glossolália (dom de línguas) resulta em paz e crescimento (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

Ainda hoje é possível perceber que, algumas linhas de orientação religiosa são desenvolvidas a partir de processos terapêuticos, que promovem reações com caráter catártico, especialmente em comunidades terapêuticas para recuperação de dependentes químicos (em maioria, apresentam fundação religiosa). Diante disto, torna-se imprescindível a observação da prática terapêutica psicológica, paralela ao sistema de orientação religioso que ocorre em meio à essas comunidades.

É fácil perceber a importância da relação de ajuda, desenvolvida por meio do aconselhamento, ante a necessidade humana de apoio e orientação em situações de crise e conflitos de modo geral.

O aconselhamento psicológico é um trabalho realizado por meio de encontros regulares e de caráter profissional, entre um cliente e um psicoterapeuta, com vistas a proporcionar suporte para que o indivíduo ultrapasse dificuldades relacionais ou pessoais. A compreensão de uma situação em particular, pode levar o indivíduo a aceitação ou a mudança de conduta,  de modo que, a pessoa tenha suas questões internas resolvidas (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.207).

 O aconselhamento religioso é um processo de mediação, realizado por um conselheiro, que neste caso, exerce a função de terapeuta, no sentido do grego antigo, que tem a conotação de cuidar, servir, tratar e também render culto. Ou seja, o terapeuta não é responsável pela cura, mas, é quem facilita o encontro entre àquele que cura e o necessitado, seja por meio de orações, de orientações, de imposição de limites ou simplesmente pelo direcionamento, para que o necessitado caminhe em direção àquele que tem o poder de curar (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.208).

Algumas linhas de aconselhamento relacionam, propositalmente ou não, a bíblia ou princípios morais do cristianismo, com linhas psicológicas específicas, como apresentaremos adiante.

3.1 Psicanálise & Cura do Passado

A psicanálise é uma metodologia desenvolvida por Freud, que considera como essencial, compreender o inconsciente do indivíduo e integrá-lo ao consciente, por meio da interpretação das ações e palavras, bem como de produções imaginárias, sonhos, delírios, associações livres e atos falhos (BOCK, 1999, p.70).

Esta interpretação visa promover um equilíbrio que auxilie no ajuste da conduta humana, de modo que seja possível a eliminação do mal-estar e do sofrimento. A idéia central é de que o autoconhecimento desenvolve a capacidade de lidar com as adversidades e superar as dificuldades (CATALDO NETO; GAUER e; FURTADO, 2003, p. 776).

Desse modo, é possível adquirir autonomia, por meio de uma capacidade criativa de cada indivíduo, grupo e instituição, por meio de um processo onde seja possível desfazer calmamente as barreiras do paciente (BOCK, 1999, p.80).

O princípio da desmontagem das resistências do inconsciente, está relacionado ao fato de que Freud considera que experimentamos a ansiedade já no primeiro momento da vida humana e a causa desta angústia é o parto (MEZAN, 2006, p. 527). Portanto, todo o passado do indivíduo, mesmo as coisas que de modo natural não são lembradas, como a sensação do nascimento, são importantes no trato das doenças desenvolvidas por meios de traumas.

A cura do passado é uma metodologia cristã, que afirma a cura por meio de uma volta ou de um relembrar o passado. É conhecida também como cura interior, cura das memórias, cura da árvore genealógica (SEAMANDS, 2007, p.12) dentre outros.

A metodologia foi desenvolvida por um psicanalista austríaco, Otto Rank, discípulo direto de Freud, que se aproxima da psicanálise ainda na adolescência, após a separação de seus pais (HURDING, 1995, p.411).

O trabalho tem como base a terapia desenvolvida durante a imaginação pela fé e o aconselhamento desenvolvido por meio da oração (SHLEMON, 1986, p.12), que visa conduzir o  indivíduo de modo consciente, à uma situação de crise do passado, e, por meio da conscientização da presença de Jesus – enquanto Deus atemporal – no momento em questão (HURDING, 1995, p.416), curar feridas e suas consequências na vida prática da pessoa que se dispõe a ser acompanhada.

A ênfase da cura interior ganha maior repercussão a partir dos estudos de alguns nomes como Anne White, Francis MacNutt e Ruth Stapleton, sendo que esta, afirma a cura interior como ação de restauração das emoções por meio das orientações do Espírito Santo (HURDING, 1995, p.416).

A partir da década de 1960, influenciado pela metodologia da cura interior, Frank Lake, médico missionário com treinamento em psiquiatria, desenvolve o que posteriormente ganha o nome de Teologia Clínica (EVANS, 2002, p.186).

O trabalho considera o princípio freudiano do trauma no nascimento e por isso, Lake utiliza teorias “reichianas e bioenergéticas de respiração profunda” (HURDING, 1995, p.420) para conduzir o indivíduo a reviver a experiência do nascimento e outras experiências traumáticas, na tentativa de resolver os problemas adquiridos durante a gestação e parto.

Lake, afirma que os sentimentos da mãe, sejam bons ou ruins, são transmitidos à criança durante a gravidez e a angústia da separação do bebê com a mãe por meio do parto, é relacionada a angústia gerada pela separação de Cristo com o Pai no Getsêmani e Gólgota.

Nesta pesrpectiva, pode-se entender que, a cura acontece por meio da realização do ego, mas, não o ego como compreendido por Freud, o ego do indivíduo, e sim, um tipo de ego ideal, que é gerado por meio da realização em Cristo, ou seja, o desenvolvimento de uma nova pessoa ou personalidade, ante ao convívio e comunhão com Deus (HURDING, 1995, pp.426,427).

Relação entre Psicanálise e Cura do Passado

Percebemos de modo claro a influência da psicanálise no desenvolvimento da cura do passado, a partir de um ponto específico: o fundador da teoria de cura do passado é de formação psicanalítica.

Diante disso, fica mais fácil identificar a semelhança na compreensão do ser humano enquanto indivíduo fragilizado desde o nascimento e necessitado de apoio para o autoconhecimento, para que este conhecimento auxilie no desenvolvimento do ego – seja o ego freudiano ou o ego ideal de Lake – e a partir disso, o indivíduo seja capaz de constituir forças para superar as adversidades e frustrações, sejam essas forças do próprio indivíduo ou da presença de Deus neste.

Ambas as linhas de orientação, conduzem o indivíduo a olhar para dentro de si, com dois objetivos: compreender a si mesmo, e buscar forças internas para continuar vivendo.

3.2 Logoterapia & Aconselhamento Pastoral

A logoterapia, desenvolvida por Viktor E. Frankl, é a terceira escola de psicoterapia de Viena, também conhecida como Psicologia do sentido da vida, devido a experiência de Frankl no campo de concentração, onde compreendeu o sentido do sofrimento (EINSFELD, 2000, p.18).

A logoterapia pode ser compreendida em três categorias de valores: criadores, vivenciais e de atitudes. Os valores criadores são referentes a capacidade criativa nas questões intelectuais, artísticas, de trabalho, enfim, de toda a liberdade de ação humana; os valores vivenciais são adquiridos por meio das experiências afetivas, seja por meio do desenvolvimento das relações familiares, seja pela contemplação da natureza, de observação da arte e cultura ou mesmo, pelas vivências místicas; e por fim, os valores de atitude, caracterizados pelo posicionamento adequado ante os sofrimentos inevitáveis e a condição ou capacidade de sofrer (LUNA, 2005, p.26).

Einsfeld afirma ainda que, Frankl descobriu a liberdade de observar a vida – mesmo que em condições precárias – e conseguir encontrar um sentido, que não depende da realização pessoal, mas, da maneira como a pessoa se coloca diante da situação vivenciada. Esse sentido surge quando a pessoa transforma o sofrimento em conquista, quando a culpa é transformada em oportunidade de mudança, ou quando a transitoriedade da vida auxilia no desenvolvimento de ações responsáveis (EINSFELD, 2000, p.21.).

Segundo Clinebell, o aconselhamento pastoral considera três aspectos essenciais com vistas ao crescimento: luta, morte e renascimento. O trabalho de orientação pastoral é desenvolvido a partir de uma compreensão particular da vida cristã, ao entender que esta não é apenas uma maneira de crer, mas, uma maneira de vivenciar ou experienciar todas as coisas, logo, tem como objetivo, modificar a motivação do comportamento e não apenas da crença humana. E isto, ante a experiência de luta, morte e renascimento de Cristo (CLINEBELL, 1987, p.56).

Clinebell afirma que as pessoas devem encontrar sentido para a vida, em todas as suas circunstâncias, tendo no sofrimento, o crescimento, seja humano, seja espiritual. Isto, porque, o ser humano é tido como carente de sustento, apoio e cuidado.

Essa carência gera crise no indivíduo que, torna-se perdido em si mesmo, de modo que passa a ter necessidade de apoio externo, de uma relação de ajuda, de alguém que auxilie no processo poimênico de cura da alma, por meio do apoio na compreensão do propósito da vida e de suas crises fundamentais, que estão diretamente relacionadas às percepções de “pecado e salvação, alienação e reconciliação, culpa e perdão, juizo e graça, morte e renascimento espiritual” (CLINEBELL, 1987, p. 47).

Relação entre a Logoterapia e o Aconselhamento Pastoral

Ambas as estruturas consideram como base de trabalho o sentido da vida e tratam disto em três perspectivas. Enquanto a logoterapia considera os valores criadores, vivenciais e de atitudes, como fundamentais para o desenvolvimento da capacidade do indivíduo de suportar o sofrimento, o aconselhamento pastoral aponta a luta, morte e renascimento como princípios de fé que devem não apenas nortear a vida mas, dar sentido a ela.

Outra característica está associada a ideia de realização pessoal como processo logoterapêutico, motivador para a continuidade da vida, e o propósito de vida apresentado pelo aconselhamento pastoral, como suporte e estímulo da esperança ante o sofrimento.

Ambas as orientações consideram as vivências como determinantes, ou seja, as vivências podem favorecer para o desânimo e enfraquecimento, ou para o fortalecimento e esperança, dependendo de como o indivíduo se posiciona.

3.3 Behaviorismo & Aconselhamento Bíblico

O behaviorismo  também conhecido como  comportamentalismo ou análise do comporta-

mento, considera uma espécie de ação e reação. O organismo responde a um estímulo, ante a ajustes ambientais ou por hábitos desenvolvidos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, p.45).

Duas situações são utilizadas na análise, o comportamento respondente e o comportamento operante. O comportamento respondente é composto pelos atos involuntários, por estímulos antecedentes ao ambiente, como salivação ou contração das pupilas. Já o comportamento operante é tudo aquilo que o indivíduo escolhe fazer, tudo o que a pessoa pode realizar para influenciar ou afetar o meio em que está envolvido (SKINNER, 2006, p.59).

   Em síntese, podemos dizer que, o comportamento respondente ocorre quando o indivíduo sofre um estímulo, enquanto o comportamento operante acontece quando o indivíduo produz o estímulo.

Além disso, considera-se o reforço, o controle de estímulos, extinção, punição, discriminação e generalização, como ferramentas de identificação, orientação e avaliação de casos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, pp. 50-54), sendo cada categoria compreendida da seguinte forma:

  • Reforço é tudo o que pode modificar uma ação futura, seja positiva ou negativamente;
  • Controle de estímulos é relacionado aos controles como placas de trânsito ou sinais indicativos, que delimitam os espaços e orientam ações de modo objetivo;
  • Extinção é o mecanismo que capacita a redução de determinada ação até a completa extinção da mesma;
  • Punição, leva a redução temporária de certo comportamento;
  • Discriminação, auxilia na modificação de comportamento de acordo com o ambiente;
  • Generalização, dificulta as reações ante a estímulos semelhantes.

O aconselhamento bíblico é o método utilizado por Jay Adams, para confrontar pessoas por meio de textos bíblicos, com a intenção de promover mudanças comportamentais, na tentativa de ajustar o indivíduo à uma conduta considerada biblicamente adequada ou justa (ADAMS, 1999, pp. 58-59).

A metodologia é diretiva, com a intensão de moldar os padrões de comportamento, invertendo ações tidas como pecaminosas, em atitudes justas e positivas, tendo como estímulos, os exemplos dos personagens e as situações apresentadas nas histórias bíblicas (CRABB, 2000, pp. 80,81).

Os limites estabelecidos estão relacionados à questões éticas de uma cultura específica, e portanto, limita as possibilidades de discriminação ou generalização em situações sociofamiliares, de modo que esse limite pode gerar punição e em alguns casos, extinção de comportamentos.

Relação entre Behaviorismo e Aconselhamento Bíblico

O behaviorismoe oaconselhamento bíblico seguem padrões indutivos para influenciar ou mesmo determinar comportamentos. E tem como ferramentas básicas: reforço, controle de estímulos, extinção, punição, discriminação, e generalização.

O diferencial consiste na base de direcionamento. Enquanto o aconselhamento bíblico tem como determinantes os escritos, a moral e a tradição cristã, o behaviorismo trabalha a partir das extruturas individuais de cultura.

Ambas as perspectivas não se orientam a partir da capacidade individual de construção ou elaboração de superação, mas, conduzem o aconselhando à uma decisão e uma ação específica e padronizada.

3.4 Pessoalismo (ACP) & Aconselhamento Cristão

O pessoalismo ou terapia centrada na pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, considera que o indivíduo tem em si uma tendência atualizante, ou seja, uma capacidade natural de se curar ou de se ajustar às mais diferentes situações, de modo a aprimorar o self. A importância deste aprimoramento se deve ao fato de que o self é tido como a essência da personalidade humana, de modo que, o autodiscernimento apresenta-se como chave para o desenvolvimento do indivíduo (SCHULTZ, 2002, pp.316-317).

Na perspectiva do pessoalismo, pessoas psicologicamente saudáveis percebem a si mesmas, então, não se sentem ameaçadas em seu autoconceito. Isto ocorre com aqueles que receberam considerações positivas e portanto, não sentem necessidade de “internalizar condições de merecimento” (SCHULTZ, 2002, p.321) para realizar o self e adquirir pleno funcionamento. Este fato indica também que o indivíduo não apresenta incongruência, que seria a dificuldade de perceber e vivenciar o verdadeiro self.

O trabalho de Rogers é auxiliar o cliente, através do aconselhamento centrado na pessoa e não no problema. A intenção é de desenvolver empatia em meio ao processo de acolhimento, criando uma identificação com o indivíduo, o que facilita para que o mesmo se compreenda e permita o processo natural de atualização do self, gradativamente, em meio ao processo terapêutico. Assim, o indivíduo adquire maior facilidade de se aceitar e a partir disso, gerar condições de enfrentar as dificuldades do mundo experiencial (MORATO, 1999, p.109).

O aconselhamento cristão, segundo Collins (2004, p.45-46), tem como objetivo gerar:

  • Autoconhecimento, porque compreende a necessidade do indivíduo de se entender,  para posteriormente alcançar cura;
  • Comunicação, porque reconhece a necessidade de expor os sentimentos, pensamentos e emoções de modo preciso;
  • Aprendizado e mudança de comportamento, pois entende que as pessoas agem de acordo com aquilo que aprenderam;
  • Auto-realização, devido à necessidade humana de desenvolver o próprio potencial;
  • Apoio, que é ferramenta facilitadora ante as dificuldades decorrentes no processo de realização pessoal; e
  • Integridade espiritual, por reconhecer a influência da dimensão espiritual em relação aos problemas humanos.

A idéia principal é de que o conselheiro deve: saber dar at

enção; desenvolver habilidades de bom ouvinte; responder objetivamente àquilo que foi ouvido comprovando o comprometimento com a pessoa; saber como conduzir, comentar, perguntar, confrontar, informar e interpretar a fala do aconselhando, de modo que o mesmo possa aprender durante o processo de aconselhamento (COLLINS, 2004, p.48-51).

Relação entre Pessoalismo e Aconselhamento Cristão

O pessoalismo está alicerçado na construção e manutenção do self, ou seja, da característica individual que torna uma pessoa única. A idéia é de personalidade e de capacidade criativa, bem como de idiossincrasia e que precisa, na perspectiva rogeriana, ser reconhecida, aceita e desenvolvida, para que o indivíduo alcance cura e qualidade de vida em todas as perspectivas.

O aconselhamento cristão segue o padrão de autoconhecimento como base para o reconhecimento da dimensão espiritual e da necessidade da mesma para a constituição humana saudável.

 O conhecimento de si, de todas as mazelas e qualidades individuais formam a esfera de atuação destas linhas de aconselhamento, que consideram a liberdade e capacidade humana de decisão, como essenciais para o processo de formação, cura e saúde, mental e espiritual do ser humano.

Relação geral entre os processos

De modo geral, o acompanhamento religioso se apresenta como aconselhamento pastoral, porque tem como princípio a comunicação da palavra de Deus. Assim, difere-se de perspectivas como a psicanálise ou qualquer outra linha psicológica. No entanto, tem como objetivo, ajudar as pessoas a ajustarem-se melhor consigo mesmas e seus ambientes. E essa ajuda pode ocorrer individualmente, em família, ou em grupos afins, com ambiente estruturado, e programas de autoconhecimento, com vistas a superação de crises (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, pp.208,209).

Esta característica de atuação com ambientes estruturados e trabalhos individuais, familiares ou em grupos, também são adotadas nas orientações psicológicas, com objetivo de fundamentar as relações e constituir, indivíduo e sociedade.

Como se pode perceber é possível realizar o processo terapêutico de diversas maneiras, inclusive, em parceria com estruturas eclesiásticas. Para maior esclarecimento sobre a atuação do terapeuta que trabalha em comunidades terapêuticas confessionais, é importante que se fale mais detalhadamente, ao menos sobre uma, dentre as perspectivas citadas. O trabalho humanista, de Carl Rogers, apresenta duas especificidades que favorecem o acompanhamento ao dependente internado em uma instituição religiosa: 1) ênfase na valorização de Si, dificuldade característica do dependente, citada e explicada no capítulo primeiro deste trabalho; e 2) facilidade de aplicação das técnicas da ACP, devido ao fato de que a abordagem partilha de princípios estruturais semelhantes a características da ética cristã, em aspectos  gerais.

3.5 Abordagem centrada na pessoa ou pessoalismo cristão?

A abordagem centrada na pessoa é uma teoria sustentada pela compreensão de Carl Rogers de que as pessoas têm em si mesmas, a capacidade de resolverem seus conflitos internos, desde que consigam uma oportunidade e um ambiente adequado para isso. Rogers afirma que existe uma tendência, chamada de atualizante, que move o indivíduo em direção ao desenvolvimento de suas potencialidades, em busca da própria conservação e/ou enriquecimento. (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Segundo Rogers, essa tendência atualizante é uma característica humana semelhante a princípios fundamentais das plantas e dos animais, no que diz respeito à constituição biológica, de maneira que, a capacidade de crescimento e desenvolvimento permanece inerente no ser e, portanto, sempre que o ambiente e as condições favoráveis existirem, essa capacidade entrará em funcionamento (MOREIRA, 2007, p.53).

A compreensão de Rogers se relaciona à visão cristã, no sentido de entender a existência humana, como parte da criação. Entender o indivíduo como um ser que compartilha das características de surgimento, manutenção e sustento vital, a partir de uma questão interna (no caso, a presença do Espírito de Deus no homem) que favorece a cura, crescimento, ajustamento, etc. desde que não haja empecilhos externos.

Por isso, o conselheiro deve favorecer para que o cliente alcance a condição de se aceitar, de expressar seus sentimentos e atitudes, identificando diferenças individuais, sem, no entanto, comparar-se a outros. É necessário que o terapeuta desenvolva uma compreensão empática, ou seja, não apenas ouvir, mas, tentar perceber as reações do cliente ante a cada situação compartilhada e transmitir essa percepção ao indivíduo (ROGERS, 1983a, p.33).

Rogers afirma que a importância da empatia no processo de aconselhamento, deve-se ao fato de que as pessoas conseguem apresentar maior consideração por si, quando percebem que outros a aceitam e a compreendem (ROGERS, 1983a, p.39). A compreensão empática reflete as informações apresentadas pelo cliente a ele mesmo. Esse reflexo proporciona o autoconhecimento e por consequência, ajuste vivencial (HIPÓLITO, 2010, p.44).

Em outras palavras, podemos dizer que, a função do conselheiro é de agir como um espelho no qual o cliente deve enxergar a si e suas vivências, de modo mais objetivo. A partir desta compreensão, o indivíduo torna-se capaz de assumir seus problemas de forma mais adequada e responsável, porque se sente em uma situação segura para caminhar em direção à maturidade e se libertar das dificuldades (ROGERS, 2000, p.11-19).

Este aspecto também pode ser percebido em algumas ações de Jesus, que, considerava o indivíduo com todas as suas mazelas, independente do que a sociedade da época considerava pecado ou erro. A aceitação de Cristo para com os outros era incondicional e isso proporcionava confiança na relação estabelecida, de modo que as pessoas sentiam-se livres para falar de suas dores e dificuldades. Sentiam-se acolhidas e consequentemente, curadas.

Schultz afirma que, para Rogers, os processos avaliativos da psicologia tornam o paciente dependente, porque cria uma atmosfera de autoridade em torno do terapeuta. E, a partir do momento em que o terapeuta toma conhecimento dos problemas do cliente, o paciente age como se não fosse mais necessário se preocupar com o problema, pois, o alvo agora é seguir a orientação do especialista com a certeza de que tudo será resolvido (SCHULTZ, 2002, p.325).

Por isso, o princípio de Rogers está sustentado na premissa de não contar com uma estrutura teórica determinada, a partir da qual o problema do cliente seria enquadrado, para o desenvolvimento de algum mecanismo de ajuda. O importante é entender e aceitar o valor da pessoa. Logo, o terapeuta não deve expressar julgamentos nem dar conselhos, apenas concentrar-se no cliente, para que este consiga se perceber no terapeuta, de modo a reavaliar suas relações e possivelmente mudar de comportamento (SCHULTZ, 2002, p.325).

O terapeuta atua como facilitador. A sensação de segurança produzida pela empatia do conselheiro será suporte para que o cliente encontre em si mesmo as condições de superação para os problemas (SCHEEFFER, 1976, p.26).

Rogers abre mão de qualquer tipologia de personalidade ou de conceitos psicológicos específicos sobre o ser. Mas, tinha como objetivo, esclarecer o que é e como se estrutura uma relação psicológica que colabore para que o cliente alcance uma visão adequada de si mesmo, para que este consiga progredir a partir de sua própria compreensão (ROGERS, 1987, p.14).

A personalidade, conforme Rogers é o resultado de experiências vivenciadas pelo indivíduo, sendo que a pessoa é o centro dos eventos e consequentemente, influencia e recebe influências destes.  Logo, estes eventos tornam-se concretos para aqueles que o vivenciam (ROGERS, 1961, p.23).

Porém, a construção deste ser, ou como Rogers afirma, a construção deste Si-Mesmo, não é apenas uma percepção de si, mas, uma relação entre a vivência e compreensão, ou a vivência a partir da compreensão (ROGERS & WOOD, 1978, p.197).

De modo semelhante, a visão geral do cristianismo considera que não se deve preocupar com a personalidade, como se fosse algo imutável, pois, a vivência proporciona mudança de conduta. Assim como o apóstolo Pedro, tornou-se grande homem de fé, a partir dos percalços da negação trina de Jesus e da aceitação que recebeu de Cristo ainda na cruz. Cada indivíduo é considerado único e necessitado de um processo distinto de apoio.

Assim, depois da compreensão da aplicabilidade do método de Rogers junto à instituições confessionais, é preciso pensar as duas vertentes de atuação do terapeuta. Dependente químico e familiares (co-dependentes).

3.5.1 Aconselhamento centrado no dependente químico

Podemos dizer que a empatia (ROGERS, 1983a, p.33), enquanto ferramenta do aconselhamento centrado na pessoa pode proporcionar ao indivíduo dependente químico, a segurança necessária para aceitar o mundo real como real (GIDDENS apud Bessa, 2005, p.44), porém, não a partir das relações humanas, mas, a partir da tendência atualizante, ou seja, a partir de si mesmo (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Ao considerar a capacidade humana de crescimento e enriquecimento intrínseca, desde que se encontre o ambiente favorável (MOREIRA, 2007, p.53), é possível que o dependente consiga a partir do aconselhamento, tudo o que precisa para se estruturar e crescer, sem precisar esperar bons referenciais externos (SCHMIDT, 1976, p.25).

A partir do conhecimento pleno, desenvolvido por meio da ação reflexa do terapeuta, a pessoa dependente pode alcançar a condição de mudança e de reestruturação de vida (HIPÓLITO, 2010, p.44), de modo que não mais aguarda por referenciais, mas, torna-se referencial (ROUANET, 1987, p. 233).

Este conhecimento pleno proporciona também a diminuição da curiosidade (LIBÂNIO, 2004, p. 159), pois a mesma é sensação relacionada ao desconhecido. Portanto, o autoconhecimento promove a prevenção do uso de drogas, no que diz respeito à pessoa que ainda não utiliza, e redução de recaídas para os que estão diminuindo o uso.

Se a condição de dependência pode ser desenvolvida por diversos fatores como insatisfação com a vida, personalidade fraca, necessidade de prazer inerente ao ser humano e influências da modernidade (CARMO, 200, p.143), é imprescindível que seja desenvolvido um acompanhamento centrado na pessoa dependente e não nos problemas decorrentes da utilização de drogas, para que o dependente não redirecione a dependência de drogas para uma dependência do terapeuta (SCHULTZ, 2002, p.325).

3.5.2 Terapia familiar

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

Considerações Finais

Durante o desenvolvimento desse trabalho ficou evidente a complexidade das situações que envolvem o dependente químico, bem como as dificuldades encontradas para propiciar um tratamento que seja apropriado.

Tal compreensão fica cada vez mais imprecisa devido ao fato de que a modernidade, marcada por relações momentâneas e utilitárias, influencia diretamente na fragmentação de conceitos e estruturas sociais.

Essa despreocupação para com o próximo gera uma busca individual que sofre influências do coletivo, pois, enquanto ser social, o indivíduo participa se envolve e responde de modo relacional às estruturas sociais em que está inserido, logo, o pensamento vigente na modernidade faz parte da formação do caráter do indivíduo. Por isso, o ser humano não se preocupa em como buscar aquilo de que necessita, de modo que, se entender que é preciso, abre mão de limites, ética e moral, para alcançar seu desejo.

É a partir do rompimento com esses limites, que o indivíduo geralmente, encontra, conhece, experimenta e se entrega à droga. Desse modo, passa a ser dominado por estímulos e sensações produzidas pelas substâncias químicas utilizadas, e, gradativamente, perde qualidade de vida em todos os aspectos, conforme os efeitos da substância escolhida pelo usuário. Esse abandono de si pode conduzi-lo a uma posição indesejável, pois, em muitos casos o usuário, adquire má aparência, passa a ter cheiro desagradável, modifica a maneira de conversar, torna-se inconveniente, e, por fim, pode chegar ao rompimento com as leis, numa tentativa de manter seu vício.

Pode-se afirmar que um acompanhamento compromissado, individual e relacional, possibilita ao dependente químico a organização pessoal necessária para um desenvolvimento integralizado.

É perceptível que a característica da dependência química, enquanto situação que considera a sujeição do indivíduo a algo ou alguém, bem como a necessidade humana de apoio para a organização temporal, social e psicológica – que deve ser desenvolvida em si, mas, a partir do outro – pode ser trabalhada em um processo terapêutico que leva em conta as necessidades intrafamiliares, a partir da compreensão empática. Isto porque, o terapeuta facilita ao grupo familiar, a interpretação das diferentes vivências e das necessidades de cada um.

Em relação aos referenciais que podem influenciar o indivíduo, podemos afirmar que, o enriquecimento familiar proporcionado pela aceitação dos papeis familiares e do valor de cada pessoa, pode promover condições para que cada membro do grupo torne-se referencial um para o outro, e assim, não haja mais a necessidade de busca de referenciais, mas, a potencialidade de ser referencial.

A compreensão de que as dificuldades devem ser aceitas e trabalhadas pela família – mesmo que num primeiro momento uma única pessoa busque o terapeuta e, posteriormente, o grupo se permita ser auxiliado – funciona como ferramenta de apoio contra a ideia de buscar soluções rápidas para os problemas em comprimidos ou ações emergenciais – ação esta que funciona como fator de risco para o desenvolvimento da dependência e codependência química.

A aplicação do MINI utilizada neste trabalho contribui para que os esforços no sentido de auxilio do tratamento dos dependentes tenham uma base mais concreta, a partir de interpretações gráficas sobre a direção e velocidade com que a dependência química está se desenvolvendo no país.

Além disso, o resultado da aplicação do MINI confirma argumentos apresentados por pesquisadores da área, sobre as características dos usuários e suas relações sócio familiares e isso confirma a necessidade de um apoio terapêutico familiar e não individual. A atenção voltada para com a família possibilita que o grupo desenvolva um ambiente equilibrado entre as múltiplas relações intrafamiliares e diminui o risco de que algum dos integrantes do grupo torne-se dependente químico ou mantenha-se em uso de substâncias químicas, como tentativa de refugiar-se de atritos e colusões.

Assim, a avaliação do genograma e a observância de possíveis farmacologias utilizadas em meio ao processo terapêutico devem ser observadas com cuidado, para que o terapeuta não deixe de perceber o quanto as identificações de família, realizadas por meio do genograma, ou os efeitos dos medicamentos, que por ventura o dependente esteja utilizando, interfiram nas ações do aconselhando, seja positivamente ou negativamente, de modo a afetar as intervenções do terapeuta.

É possível perceber o quanto os instrumentos de avaliação psicológica podem ser úteis para o desenvolvimento de uma intervenção eficaz, a partir da visão mais adequada do problema característico do indivíduo, grupo ou patologia específica.

Mas é importante lembrar que, para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta à compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É imprescindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E assim construir suas observações, ponderações e considerações, de modo mais neutro possível.

Assim, é possível perceber a presença de comorbidades psiquiátricas associadas à dependência de substâncias psicoativas e identificar a frequência em que ocorrem, bem como alguns dos sintomas que aparecem associados de forma especial a estas patologias, como sintomas de ansiedade e depressão.

A presença de transtornos psiquiátricos torna-se um dos fatores que compromete efeito do tratamento com pacientes dependentes químicos. Por isso, o diagnóstico apropriado desses transtornos associados pode proporcionar intervenções terapêuticas mais adequadas na interrupção da conduta de consumo de substâncias, amortecendo a ocorrência de recaídas e proporcionando melhora no funcionamento social e familiar.

Em relação às perspectivas religiosas que atuam como ferramenta de ajuda, notamos que alguns casos, a ligação entre as linhas religiosas e psicológicas de orientação ficam evidentes – como no caso da psicanálise e da cura do passado, onde se percebe a influência da psicanálise na vida do fundador da cura do passado. Em outros, essa ligação não fica tão clara, porém, pode ser percebido ante a semelhança no desenvolvimento de técnicas e mesmo na maneira como compreende o problema e pessoa ou cliente, como no caso do pessoalismo e o aconselhamento cristão.

A semelhança ocorre até mesmo no sentido em que a orientação é desenvolvida, ou seja, diretiva ou não, como no caso do behaviorismo e do aconselhamento bíblico, ambos diretivos, determinantes.

Diante disso, podemos afirmar que as linhas de aconselhamento e orientação relacionadas, podem ser apresentadas como estruturas ou processos da relação de ajuda, que, independente de serem psicologias, ou simplesmente terem influências psicológicas, atuam em direção à necessidade humana de apoio e orientação.

Pode-se dizer que a abordagem centrada na pessoa é uma ferramenta particularmente adequada para o cuidado com o dependente químico, porque considera a questão de maior significado para o indivíduo fragilizado e suscetível ao abuso do uso de drogas: a autoestima construída a partir do autoconhecimento, proporcionado pela compreensão empática do terapeuta.

A postura desenvolvida por Rogers, para auxiliar o ser humano em seu crescimento e enriquecimento, a partir das potencialidades intrínsecas, favorece para que o indivíduo se resolva sem necessitar de referenciais externos ou de condições sociais específicas, mas a partir daquilo que já existe dentro do ser e que, no caso do dependente químico, havia sido fragilizado ou momentaneamente impedido de se desenvolver.

Um diferencial desta abordagem está no fato de que, enquanto a mudança ocasionada por uma motivação externa pode ser revertida de acordo com futuras circunstâncias adversas, as alterações de comportamento, geradas por questões internas de auto compreensão, não ficam sujeitas as intempéries sociais ou crises de ordens familiares.

A segurança advinda dessa nova postura, além de proporcionar capacidade para superar adversidades, gera a motivação necessária para continuar se desenvolvendo e se enriquecendo por meio de novas compreensões, geradas a partir de novas vivências, formando um círculo eterno de compreensão e crescimento.

E esse movimento constante de vivência que leva à compreensão e compreensão que leva à vivência, forma uma estrutura de segurança para que o indivíduo não tenha necessidade futura de buscar refúgio em substâncias que produzem alívio passageiro das sensações sem, contudo, resolver o verdadeiro problema.

Logo, é perceptível que a abordagem centrada na pessoa realmente pode alcançar resultados extremamente positivos no acompanhamento para com dependentes e codependentes químicos, tornando-se um possível caminho de apoio. Seja unicamente pelos trilhos da psicologia, seja acompanhada pelo aconselhamento cristão.

Este trabalho pretende observar a estrutura da dependência química, a configuração da atuação psicológica de ajuda ao dependente químico, bem como a possibilidade da contribuição religiosa, junto a abordagens psicológicas de apoio e orientação ao dependente químico e codependentes. Para isso apresentamos as características da pessoa enquanto ser humano e suas fragilidades. Fazemos um breve comentário acerca da pessoa enquanto Ser Dependente e pontuações sobre o processo de desenvolvimento e instalação da dependência química. Realizamos pontuações sobre a dependência química no que diz respeito a características socioculturais e familiares, além de fatores de risco para o abuso do uso de substâncias químicas. Apresentamos um breve histórico do desenvolvimento e validade do instrumento de avaliação psicológica, MINI, e da entrevista psicológica, acompanhado pelos teóricos mais reconhecidos nesse processo, que auxiliam no diagnóstico e orientação do processo terapêutico. Além da apresentação de características e especificidades de algumas abordagens psicológicas. Devido ao fato do tratamento a dependentes químicos no Brasil (por meio de comunidades terapêuticas) apresentar quase sempre uma perspectiva religiosa, pontuou-se sobre algumas linhas de aconselhamento psicológico, relacionando-os com processos de orientação cristã, na intenção de reconhecer as semelhanças básicas destes processos de ajuda, por meio da apresentação de idéias mais conhecidas da psicanálise, do behaviorismo, da logoterapia e do pessoalismo (ACP), seguidas da apresentação das orientações cristãs de cura do passado, aconselhamento pastoral, aconselhamento bíblico e aconselhamento cristão. Após a breve apresentação de cada orientação relacionada, são realizadas considerações sobre algumas das semelhanças encontradas. Por fim, apresentamos um breve relato sobre o processo terapêutico centrado na família e a compreensão sistêmica do processo terapêutico, bem como seus aspectos e alvos mais conhecidos. E seguimos com considerações sobre a funcionalidade das perspectivas terapêuticas centradas na família, quando relacionadas especificamente no trato de famílias compostas por dependentes químicos.

Palavras chave: Psicologia, Religião, Dependência Química.

Introdução

A proposta deste trabalho é discutir aspectos relacionados à compreensão e estruturação do cuidado ao dependente químico. Pode-se afirmar que o problema referente a este cuidado está relacionado a uma questão básica: “A psicologia pode considerar a religião como contribuinte no processo de recuperação de dependentes químicos?” Acredita-se que a metodologia mais adequada para desenvolver essa análise é a comparação entre algumas das orientações religiosas e psicológicas mais reconhecidas, na tentativa de entender as semelhanças dos processos.

Esse questionamento ocorre devido ao fato de que a dependência química é uma realidade conflituosa da modernidade tardia [01], não apenas em grupos específicos, mas, em toda a sociedade, inclusive na igreja. Assim, por vezes, líderes religiosos acabam por intervir em meio ao processo de apoio a dependentes químicos, através de casas de recuperação mantidas por igrejas.

Por isso, é comum perceber alterações religiosas intensas em dependentes internados em comunidades terapêuticas. Essas alterações merecem atenção especial, porque, o dependente químico, em tratamento, apresenta dificuldades com a ansiedade, depressão, ondas de alegria ou tristeza repentina, sensibilidade às palavras, conflitos de interesses, insegurança, desconfiança, dentre outras situações concernentes, a transição de um mundo ilusório, gerado gradativamente pelas sensações produzidas por drogas a uma realidade de fatos e obstáculos que devem ser enfrentados e vencidos de maneira responsável, ética e racional. O indivíduo parece apresentar dificuldades em manter sua estabilidade em múltiplas situações adversas, ou diante de algum tipo de pressão com a qual não esteja acostumado e, como tentativa momentânea de aliviar a tensão, recorre a drogas que produzam bem estar ou alívio. Lidar com o dependente e ajudá-lo a resolver seus problemas de adequação e sentido para a vida não é tarefa fácil e percebe-se que muitas comunidades eclesiásticas não sabem como trabalhar com a dependência.

Essa pesquisa é justificada por um fato específico. Não é difícil perceber que em alguns grupos religiosos o dependente químico é visto como alguém possesso, que precisa apenas afirmar-se convertido à determinada religião para ser liberto do mal e em consequência ficar livre das drogas.

Muitos fazem esta declaração de fé enquanto experienciadores de um processo catártico em meio a um culto religioso. Essa catarse proporciona prazer e, quando o período de prazer passa e o indivíduo se depara com as dificuldades naturais, sem um acompanhamento ou apoio, ele volta ao uso das drogas com um agravante, a cobrança da comunidade religiosa. O usuário passa a ser visto como alguém que ainda não foi liberto e precisa de oração, ou como uma pessoa que despreza o poder de divino manifestado sobre ela, no entanto, essa maneira de perceber o usuário, não apenas é errada, mas, prejudicial ao verdadeiro processo de ajuda e crescimento que esta pessoa necessita.

Considerando os fatos citados, pode-se dizer que há uma necessidade de um trabalho contínuo, um acompanhamento que produza uma compreensão real da dependência química e das limitações próprias, bem como da busca por crescimento pessoal e autovalorização, identificando e tratando as especificidades humanas de relacionamentos.

São objetivos desse trabalho: pontuar sobre as principais causas para a dependência, identificar as características dos dependentes químicos, analisar os tipos, as reações e os prováveis níveis de dependência gerados por substâncias químicas e reiterar a necessidade de um acompanhamento psicológico que se interesse pelo aconselhamento qualitativo no trato do dependente químico juntamente com possíveis processos de ajuda religioso oriundos de ações psicológicas.

Na tentativa de alcançar o objetivo citado, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, acrescidas de consulta a documentos virtuais, além da utilização de um genograma organizado a partir da família de um dependente químico [02].

O trabalho é composto por um texto organizado em três capítulos, além da introdução e conclusão. Inicialmente são destacadas características acerca da dependência. Nota-se questões referentes às necessidades básicas do ser humano, quanto ao relacionamento com autoridade, busca de orientação e prazer como resposta à orientação, das quais o indivíduo é naturalmente dependente. Esses fatores podem estar relacionados à dinâmica de vida na modernidade, portanto, a mesma é apontada como um dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas. A atualidade é marcada por inconstâncias e múltiplas compreensões de certo ou errado, o que dificulta o estabelecimento de padrões, limites e valores socioculturais e espirituais, e isso gera no indivíduo uma situação de fragilidade e insegurança que o conduz à possibilidade de se tornar usuário de drogas e provável dependente químico.

No primeiro capítulo o dependente é apresentado como ser humano fragilizado em questões psicológicas, sociais, orgânicas e espirituais, fragilidade essa, que conduz a ações de fuga da realidade e de busca de sentido para viver. Nessa fuga da realidade ou busca de sentido, destaca-se a representatividade das drogas na vida do usuário. Contudo, os efeitos de diversas drogas contribuem para que esse indivíduo permaneça preso num círculo vicioso que gira em torno da ausência e busca de prazer e sentido para vida, de modo que essa fuga e/ou busca nunca terminam.

O segundo capítulo destaca as características da avaliação psicológica em meio à dependência química. Isto, a partir da apresentação do instrumento de avaliação MINI – que foi validado no Brasil e é largamente utilizado para mensurar gravidade e intensidade do abuso do uso de substâncias psicoativas – a partir de uma aplicação realizada por Silva. Além disso, a intervenção psicológica é apresenta por meio da informação sobre o processo da entrevista psicológica, acompanhado por orientações de possíveis problemas para a execução do procedimento e as diferenças do processo em psicoterapias breves.

Para concluir, foram trabalhadas diferentes abordagens psicológicas de acompanhamento, seguidas por comparações para com as perspectivas religiosas de orientação mais conhecidas, tendo em vista o aspecto terapêutico dos sistemas. O trabalho é fechado com a explanação mais detalhada sobre o procedimento psicológico humanista de Carl Rogers, denominado ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que considera todas as vivências – inclusive as vivências religiosas – como ferramenta essencial para o desenvolvimento do chamado empoderamento de si. Estado necessário para o crescimento e cura do indivíduo.

A relevância da pesquisa está relacionada às proporções alcançadas pelo abuso do uso de drogas, que reflete diretamente no desenvolvimento e manutenção da situação de dependência química do ser humano na atualidade, e, do aumento numérico desordenado de comunidades terapêuticas religiosas, que desenvolvem trabalhos variados, com resultados incertos; o que pode proporcionar uma situação agravante quanto à identificação adequada da expansão e controle da doença no Brasil.

1 Dependência Química

Ao considerarmos a modernidade como período marcado pela carência de referenciais, o que gera instabilidade, ausência de rumo e de princípios de autoridade para o indivíduo, podemos afirmar que o ser humano é afetado pelas características desse tempo histórico, tanto emocionalmente quanto na maneira de agir, compreender e valorizar as pessoas, situações e coisas (SAFRA, 2005, p.7).

Tal mudança no modo de agir se deve, segundo Frankl, ao vazio existencial que também é proveniente da atualidade e sua falta de referenciais (FRANKL, 1987, p.123). O que dá sentido a vida é entendê-la enquanto missão individual, ou seja, cada pessoa deve considerar que existe um sentido para a vida do indivíduo e não um sentido para a vida de modo geral (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

A busca de sentido específico para a vida do indivíduo o conduz a compreensão de um trabalho pessoal a ser executado, e este trabalho, tarefa ou missão, não apenas traz sentido a vida, mas serve de estímulo para que o ser humano vença as dificuldades advindas dessa tarefa (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

Frankl afirma ainda que, na busca pela conclusão dessa missão específica, o sofrimento é quase inevitável, mas, diante do sofrimento, o ser humano tem a oportunidade de se transformar naquilo que quiser, e que tem, em si, potencial para ser bom ou ruim, precisando apenas escolher no que quer se tornar. O indivíduo apresenta uma perspectiva de autoridade ou poder sobre si mesmo, que atua a partir de valores criadores, vivenciais, e de atitudes (FRANKL, 1987, p.149).

Os valores são criadores quando se referem a habilidades criativas, intelectuais ou artísticas, são vivenciais, porque dizem respeito à relação com a natureza, com o outro e com Deus, e os valores de atitudes, por sua vez, referem-se à decisão pela ação adequada ante um sofrimento que não se pode evitar (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20).

Além disso, percebe-se que o sofrimento apresenta um aspecto positivo referente à avaliação ou descoberta sobre o sentido da vida, pois, “a preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial” (FRANKL, 1987, p.120) e essa angústia conduz o indivíduo à busca de uma razão pela qual viver, ou seja, quem tem sentido para viver, encontra forças para suportar quase toda e qualquer situação ou adversidade, de modo que o ser humano é capaz de viver e até morrer por seus ideais e valores (FRANKL, 1987, p.117).

Notamos que, no sofrimento, o indivíduo tem também a oportunidade de descobrir ou confirmar sua missão específica e colocá-la em prática por meio de habilidades criativas, experiências de vida e atitudes decisivas (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20). Quando isso não ocorre, pode-se dizer que a pessoa desistiu de encontrar o sentido de sua vida, ou se deixou levar pelo racionalismo, cientificismo e ativismo moderno, que não oferecem tempo ou condições para que o ser humano trabalhe a partir do sentido de suas atividades (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p. 26-27).

Libânio amplia a posição de Frankl, quando afirma que só é possível encontrar sentido para vida inserido em um grupo ou contexto social que estabeleça condutas, mesmo que estas sejam questionadas, pois, limites estabelecidos norteiam decisões e auxiliam na formação de identidade biológica, familiar, afetiva e social (LIBÂNIO, 2004, p.22). Ou seja, é a partir do meio social que o indivíduo desenvolve e experimenta conflitos, e é nesse contexto que ele deve aprender a vencê-los.

Assim, podemos entender que o usuário de drogas vive uma situação de vazio existencial, que o induz à busca por um sentido de vida que lhe dê forças para suportar as adversidades.

Essa busca de sentido possibilita que o ser humano encontre e experimente substâncias químicas, que, inicialmente, respondem à busca desorientada por prazer e segurança, porém, posteriormente fragilizam-no emocionalmente, tornando-o mais suscetível à dependência química.

1.1 Pessoa enquanto SER dependente químico

Carmo afirma que alguns dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas, segundo a Organização Mundial de Saúde, são a falta de informação acerca dos efeitos das drogas, enfermidades gerais, insatisfação com a vida, personalidade fraca e fácil acesso às drogas (CARMO, 2000, p. 143).

A relação de dependência enquanto necessidade de prazer inerente ao ser humano, às influências da modernidade para o desenvolvimento da dependência química, devido à crise de identidade, de sentido e valores existenciais, e a ausência de informação ou educação adequadas acerca do uso, abuso e efeitos gerados pelas drogas, favorece a formação de um indivíduo propício ao uso indiscriminado de substâncias, das quais, muitas vezes, não tem controle. O uso dessas substâncias gera dificuldades no desenvolvimento das relações, além de danos fisiológicos no indivíduo.

Giddens afirma que, geralmente, as pessoas se tornam dependentes químicos, devido à ausência de um acompanhamento dentro de padrões de desenvolvimento natural do ser humano, em que um aprende com o outro a aceitar o mundo real como real e adquirir segurança a partir da confiança estabelecida nas primeiras relações humanas (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

Afirma ainda que, as pessoas sofrem influências do meio social em que estão inseridas, e essas influências refletem em suas questões relacionais, sejam no trato da segurança ou insegurança, submissão ou prepotência, satisfação ou insatisfação. E isso, porque a modernidade foge a este padrão de desenvolvimento recusando o relacionamento interpessoal, e, com isso produzem-se a exclusão e a marginalização (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

A marginalização deteriora a estrutura do ser humano, minimiza as possibilidades de que o indivíduo adquira bons referenciais, torna-o acessível ao conhecimento, administração e uso da droga e amplia a necessidade de busca de prazer devido à sensação de abandono causada pela marginalidade (SCHMIDT, 1976, p.25).

No que diz respeito ao ser humano enquanto necessitado de referenciais sociais, a atualidade apresenta duas características negativas: a carência de bons referenciais e o marketingda droga.

Sobre os referenciais, podemos afirmar que há uma desvalorização dos relacionamentos interpessoais e das preocupações com limites e ordem, além de um esforço em busca da liberdade e de relações convenientes e utilitaristas, logo, não há uma preocupação ou desejo no indivíduo de se tornar referencial ou exemplo para o outro, e sim, a expectativa de que esteoutro seja referencial para o indivíduo (ROUANET, 1987, p.233, 236).

Quanto ao marketing da droga, importa ressaltar que as propagandas, sejam a favor ou contra o uso indiscriminado de drogas, aumentam a curiosidade dos que veem e isto funciona como facilitador para que mais pessoas procurem experimentar drogas tornando-se possíveis dependentes químicos (LIBÂNIO, 2004, p.159).

Os indivíduos que se tornam usuários de drogas são, geralmente, pessoas que não conseguem administrar bem circunstâncias de conflito, pressão ou rejeição naturais no processo de ascensão e reconhecimento social. São pessoas que não têm ou não sabem como se manter diante dessas dificuldades e por isso, recorrem a substâncias que lhes proporcionem um período de estabilidade e segurança, que, mesmo sendo ilusória, causa a sensação de alívio que o usuário deseja (LEON, 2003, p. 39).

1.2 Característica dependente

No que diz respeito à dependência química, podemos falar que as perspectivas alcançam várias interpretações. Uma delas está associada à situação de sujeição de uma pessoa em relação à outra, de modo que o dependente ocupe a postura de submissão ou se sinta parte de algo, de alguém ou de uma situação (AULETE, 1964, p. 1090).

Uma segunda visão considera a característica natural de dependência do ser humano, a partir da necessidade de organização temporal, espacial, psicológica e também de personalidade, que é inerente ao indivíduo desde a mais tenra idade, e que, só pode ser constituída a partir de referenciais externos, ou seja, a presença de alguém que se torna referencial junto a esse processo (SAFRA, 2005, p. 7).

Em terceiro lugar, existem afirmativas a favor da ideia de que a modernidade tardia atua como motivador de uma conduta que contribui para com o surgimento e desenvolvimento da dependência química. Conforme Rouanet, a atração ou sedução das coisas sobre as pessoas é uma marca da modernidade que influencia no modo de agir e na construção ou desconstrução de valores do mesmo (ROUANET, 1987, p. 233).

A psicóloga Daniela Bessa reforça a compreensão de Rouanet e afirma que o ser humano deseja conquistar status e reconhecimento, seja social e/ou familiar, através da aquisição de bens, mesmo que por meio disso, aconteçam perdas significativas no desenvolvimento de relações profundas e verdadeiras, seja com as pessoas ou mesmo com Deus (BESSA, 2002, p. 31).

Portanto, podemos compreender a dependência química como relação de sujeição, bem como de referência e de sedução. O dependente é a pessoa que se submete a qualquer coisa que lhe pareça importante ou que lhe cause medo, e, a partir disso, passa a seguir os exemplos ou as referências daquilo que se tornou o alvo das expectativas do indivíduo, de modo que este pode se deixar conduzir pela sensação de sedução de tudo o que lhe afeta os sentidos e as emoções (MOREIRA JR, 2011, p.78).

Logo, podemos entender que a dependência química é desenvolvida de acordo com o lugar que as drogas ocupam na vida das pessoas. Assim, o indivíduo pode: se sujeitar à dominação física gerada pela substância; adquirir comportamentos comuns às pessoas que se tornaram referenciais – como o grupo de amigos; e até mesmo, se abandonar ante a sedução causada pelas ilusões proporcionadas por meio das drogas.

1.3 Fatores de risco

É perceptível que algumas situações favorecem para o desenvolvimento e manutenção de situações de dependência química. Alguns dos fatores que são encontrados nos âmbitos sociais e familiares, são características comuns à modernidade.

Benedicto afirma que existe na modernidade um vício pela busca de soluções rápidas e que uma das provas disso é a utilização excessiva de medicamentos, mesmo sem orientação médica. As pessoas de modo geral, acreditam que as drogas – lícitas – resolvem praticamente tudo: da mais simples dor de cabeça, até dificuldades para com estresse e depressão. Esta crença auxilia na modificação da conduta do indivíduo ante as situações de crise e dor, de modo que, este, passa a entender que pode encontrar respostas para seus problemas em comprimidos. Deste modo, acontece a familiarização e facilidade para administração de drogas gerais, o que favorece para que o indivíduo desenvolva um caráter vicioso e possa vir a se tornar um dependente químico, porque os remédios passam a ser vistos como mais fortes que as pessoas (BENEDICTO, 2007, p. 17).

Um agravante pode ser encontrado ao considerar a visão de Nouwen, pois, este afirma que, a sociedade não tem representante ou líderes de modo geral, que sejam exemplos. Isso dificulta a construção social e o crescimento da individualidade constituída a partir de um referencial positivo. Assim, cada pessoa tende a ser seu próprio referencial tornando-se interiorizada e vazia. Ante a isso, os referenciais de grupo ganham força, e, portanto, a dificuldade de exemplos gerais pode se tornar facilitador para que indivíduo comece a seguir os padrões de comportamento do grupo onde estiver inserido e a utilização de drogas pode ser um destes hábitos (NOUWEN apud BESSA, 2005, p. 43).

A perspectiva do prazer também está relacionada como fator de risco. Conforme Freud, o desejo natural de busca do prazer, pode ser motivador para a utilização de drogas. Isso, porque Freud considera a relação funcional da masturbação com a utilização de drogas, ao entender que ambas as situações de prazer são desenvolvidas e manipuladas pelo usuário, em busca de satisfação pessoal e intensa, sem preocupação para com o outro (FREUD apud MARZANO, 2007).

O psiquiatra Eduardo Kalina reforça esta perspectiva quando afirma que o erotismo oral é constante e intenso, durante toda a vida do ser humano e que está particularmente presente nos casos de drogadicção, mesmo quando a substância não é ingerida pela boca. Assim, é mais fácil entender porque algumas pessoas sentem-se seduzidas ao uso contínuo de drogas, mesmo que o prazer seja momentâneo e ilusório (KALINA, 1983, p. 29).

Além disso, percebemos que alguns fatores de risco estão diretamente relacionados às perspectivas familiares (LEITE, 2005, p.40). Dentre as quais, podemos destacar: o nível do envolvimento afetivo dos pais em relação aos filhos; a estrutura hierárquica constituída no âmbito familiar; e o contexto doméstico, ou seja, o fato de os pais fazerem, ou não, uso abusivo de substâncias químicas (HUTZ, 2007, p. 174, 175).

Isto é importante porque quando se fala em violência familiar, por mais causas que possam existir, geralmente podemos dividir em duas grandes áreas: as questões intrafamiliares, ou seja, os relacionamentos de modo geral; e os sociais, dentre os quais se encontram o abuso do uso de substâncias químicas, comportamento considerado comum atualmente (ZAMPIERI, 2004, p.65).

1.4 Farmacologia da dependência

Drogas são substâncias naturais ou sintéticas, que agem diretamente no organismo, modificando suas funções e proporcionando prazer momentâneo (Cf. BENEDICTO, 2007. p. 17).

Considerando que a variedade de drogas de que se têm informações é muito ampla, serão destacados alguns tipos mais comuns, organizados por classes. As drogas geralmente são classificadas como: narcóticos, depressores do sistema nervoso central, estimulantes e alucinógenos.

Os narcóticos, também chamados de entorpecentes, são muito usados na medicina devido ao caráter anestésico de seu princípio ativo. Nessa classificação destacam-se: a morfina, a codeína, a meperidina, e metadona. O ópio e a heroína fazem parte da família dos narcóticos, porém, não são utilizados com fins medicinais (Cf. SANCHEZ, 1982).

Os depressores do sistema nervoso central apresentam sintomas semelhantes à embriaguez. Dentre eles estão: os barbitúricos, remédios mais conhecidos como Gardenal, Vagostencil e Desbutal; a metaqualona, também conhecida como Mesqualon ou Mandrix; tranquilizantes menores, vendidos como Valium, Diempax, Apraz, Frontal, Psicossedim, Rivoltril, Dorminid, Lexotan, Somalium e antidistônicos; solventes, como aguarrás e colas diversas, vendidas em casas de construção; éter e clorofórmio, usado para amenizar as dores de parto até o início do século XX (Cf. MACHADO, 2004).

Dentre os estimulantes, destacam-se: a cocaína, utilizada na oftalmologia no século XIX e com finalidade terapêutica no século XX, tornando-se proibida nos EUA em 1914 (Cf. MACHADO, 2004); o crack, uma forma impura da cocaína; a efedrina, mais conhecida como Rinosteg, descongestionante nasal; anfetaminas, Hipofagin e Moderex, remédios comumente usados por anoréxicos, comprados como Pervitin, Dexedrina e Desbutal que ajudam a controlar o apetite (Cf. MURAD, 1994, p. 59).

Os alucinógenos também são chamados de psicodislépticos. Os mais conhecidos são: LSD, Mescalina, Trixipheidyl, conhecido como Artane e Akineton, que pode ser utilizado contra mal de Parkinson – para PRZEDKORSKI (2002, p. 596), os efeitos do mal de Parkinson podem ser reduzidos com o uso de depressores – e a cannabis sativa, chamada de “alucinógeno menor”, conhecida como maconha ou marijuana (Cf. MACHADO, 2004).

O uso de cada uma destas substâncias altera o comportamento e o funcionamento do corpo do usuário de modo diferente, dependendo do tipo de droga utilizada.

Inicialmente, os efeitos não são muito aparentes, mas, com o uso contínuo, o indivíduo passa a apresentar sinais sociais, emocionais e orgânicos, que indicam não apenas o uso de drogas, mas instalação da dependência, além da necessidade de um cuidado específico.

As questões orgânicas ou fisiológicas são mais perceptíveis diante do uso contínuo de drogas, mesmo que já existam a partir da primeira dose administrada. Cada tipo de substância apresenta um risco específico, por isso as questões serão abordadas a partir das classes já apresentadas, com um destaque para os efeitos dos inalantes.

As pessoas sob a ação dos narcóticos apresentam uma contração acentuada da pupila que pode ficar tão pequena quanto à cabeça de um alfinete. Pode ocorrer paresia – diferente de paralisia, o termo paresia indica uma parada momentânea de órgãos ou tecidos (Cf. ROWLAND, 2002, p. 34) – estomacal e sensação de estômago cheio, como se não tivesse condição de realizar a digestão. Os intestinos também ficam sujeitos à paresia e, em consequência, a pessoa que abusa destas substâncias geralmente apresenta forte prisão de ventre. Com base neste efeito é que os opiáceos são utilizados para combater as diarreias (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007).

Os depressores aumentam as chances de adquirir lesão cerebral, parkinsonismo, cegueira, disfunção renal, disfunção do fígado e insuficiência respiratória, além de promoverem alterações psicológicas (Cf. MACHADO, 2004).

De modo geral, os estimulantes podem causar psicoses, alucinações, impotência, doenças no pulmão, estômago, bexiga, alterações hormonais, pressão alta e até morte súbita (Cf. MACHADO, 2004).

Os alucinógenos têm maior possibilidade de levar à perda de memória, dificuldade de capacidade produtiva -baixo tônus vital, desânimo, cansaço, etc. -, alterações de ordem motora, aumento do risco de infecções, problemas de infertilidade e potência, maiores possibilidades de câncer e aborto, além de cansaço e alterações psicológicas que podem levar ao pânico e até suicídio (Cf. LEMOS, 2007, p. 22).

No caso da maconha, há alterações da percepção temporal e da memória recente, como também aumento do apetite e diminuição do desempenho para tarefas do cotidiano (Cf. JAFFE, 1981, p. 71-72).

Os inalantes produzem reações orgânicas típicas como tosse, irritação no nariz e nos olhos, náusea, vômito, diarréia, dor no peito, dor nas juntas, visão dupla, sensibilidade à luz e até perda de apetite (Cf. JAFFE, 1981, p. 51).

Parece estranho que, diante de reações orgânicas tão agressivas, uma pessoa possa se tornar um dependente químico. Porém, deve-se destacar que essas reações ocorrem gradativamente, de modo que o usuário experimente inicialmente a euforia, relaxamento e prazer que as drogas proporcionam (Cf. VIANA, 2004).

1.5 Reações e níveis de dependência

Os efeitos de cada uma das substâncias químicas utilizadas pelo dependente podem variar de caso a caso, de acordo com a saúde do indivíduo, o quanto ele utiliza, o tipo de droga escolhida, como é administrada: se pela boca, se inalada ou injetada, e do ambiente sociocultural em que ele se encontra. Logo, os efeitos aqui apresentados são prováveis, e como realizado anteriormente, serão apresentados divididos por classes.

Os narcóticos, de modo geral, causam um nível alto de dependência psíquica e física. Considerando a atuação fisiológica dos narcóticos e observando a conduta de diversos usuários, nota-se que não há um comportamento aparentemente agressivo do indivíduo que utiliza tais substâncias, desde que este não seja provocado ou induzido (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007). Geralmente os derivados do ópio causam sensações de exaltação, aumento de energia ou euforia, porém, o uso frequente gera uma tolerância aos efeitos, o que faz necessário um aumento na quantidade de droga administrada, bem como a redução dos espaços de tempo entre uma dose e outra na tentativa de alcançar a sensação desejada (Cf. JAFFE, 1981, p. 32).

As drogas depressoras do sistema nervoso central são hipnóticas, sedativas e anti-convulsivas. São indicadas no tratamento de pânico, ansiedade, insônia e dor crônica. Agem como relaxante muscular e geralmente diminuem a censura, mas podem provocar angústia e uma dependência de alta a média, tanto psíquica quanto física (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Normalmente, os estimulantes aliviam a fadiga e despertam a pessoa, provocando sensação de alerta. Em geral, criam alta dependência psíquica e uma possibilidade de dependência física. Vários são os efeitos produzidos pelos estimulantes: sensação de melhora do funcionamento cognitivo, ansiedade, infatigabilidade, dentre outros. A utilização excessiva ocorre devido a dois efeitos marcantes dessas drogas: a euforia e a perda de apetite, por isso, boa parte dos usuários são anoréxicos, o que fez alguns desses medicamentos ficarem conhecidos como “remedinhos para emagrecer” (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

No que diz respeito às substâncias alucinógenas, pode-se afirmar que provocam reações semelhantes a psicoses, desde delírios a perda parcial ou total de percepção da realidade. Essas substâncias não causam dependência física e o grau de alcance psicológico é desconhecido. Dentre estas drogas, destaca-se a maconha, que relaxa, produz sensação de bem estar e vermelhidão nos olhos, induz, na maioria das vezes a ações extrovertidas, mas pode gerar o desejo de isolamento e reflexão, bem como ansiedade ou pânico. A maconha gera uma dependência psíquica moderada (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Dentre outros efeitos causados pelos diversos tipos de drogas, podem-se relacionar questões emocionais e situações orgânicas do usuário de drogas.

As características emocionais produzidos pelas drogas também podem variar de indivíduo para indivíduo. Cada substância proporciona uma reação diferente de uma pessoa para outra e o contexto do usuário faz diferença no modo de ação da droga.

Porém, de modo geral, destacam-se alterações no pensamento, perda de memória, ações psicóticas, como suspeita de estar sendo seguido ou de que outros estejam falando e conspirando contra eles, comportamento inconstante e incoerente, irritação, e até excitação sexual persistente (Cf. JAFFE, 1981, p. 32-33).

Outras características que podem ser observadas são a perda da distinção entre o certo e o errado, padrões éticos e morais deturpados, dificuldade em discernir entre o real e o ilusório, sensibilidade extrema a palavras e ações, e baixa autoestima (Cf. VIANA, 2004).

Nota-se que os efeitos das substâncias químicas afetam diretamente a sensação de segurança, de direção e prazer: segurança, porque afetam a estabilidade psicológica e deixam o usuário em expectativa de perseguição; direção, porque deturpam os conceitos e limites sociais; e prazer, porque invadem as experiências naturais do indivíduo, modificando-as até no trato sexual.

Logo, a dependência é apresentada como relação de sujeição, referência e sedução, ou seja, o dependente é aquele que se submete a algo que lhe parece maior, mais significativo, ou que lhe proporcione medo. Desse algo ou alguém, o dependente segue o exemplo, as referências do que lhe chamam mais atenção ou lhe parecem mais importante, ou se deixa levar pela sedução daquilo que lhe afeta e envolve seus sentidos e emoções.

A partir disso, pode-se dizer que a dependência química está relacionada ao lugar que as drogas ocupam na vida do individuo. De modo que este pode sujeitar-se ao domínio orgânico da substância, ter os padrões do grupo como referenciais, ou mesmo se deixar seduzir pela viagem ou pelo mundo apresentado a ele por meio das drogas.  De modo especial, percebe-se que há um diferencial no comportamento desta geração que favorece para que a dependência química seja cada vez mais comum.

1.6 Genograma: família, fator de risco e de proteção para o dependente

O genograma é uma ferramenta essencial para acompanhamento de famílias. A partir da construção e interpretação do genograma é possível avaliar o contexto perceber as melhores formas de intervenção de acordo com o comportamento da família avaliada, para que no momento oportuno, as impressões percebidas por meio do genograma sejam apresentadas ao sistema familiar.

A coleta de informações para a composição do genograma deve alcançar ao menos três gerações. O sistema utiliza regras particulares de simbologia, tanto em relação à estrutura familiar, quanto aos dados demográficos, clínicos e relacionais da família.

É indicado como modelo terapêutico de avaliação, em famílias que apresentem dificuldades com: 1) saúde materna; 2) saúde infantil; 3) problemas de desenvolvimento infantil; 4) dificuldades em relação ao trabalho; 5) doença crônica em algum elemento da família; 6) doença mental em algum indivíduo do sistema familiar; 7) morte de um familiar; 8) consumo de drogas; 9) suspeita de violência; 10) depressão ou ansiedade crônica; e 11) falta de adesão aos planos terapêuticos.

A importância do genograma para a atenção familiar está vinculada ao valor que o sistema familiar apresenta enquanto base de desenvolvimento social para o indivíduo. O modelo terapêutico em questão foi elaborado de modo a contemplar todo o ciclo de vida da família, desde a constituição do sistema, por meio do casamento, até a morte dos cônjuges.

O genograma pode ser desenhado pelo médico, paciente ou por contribuições de ambos, tendo início em uma consulta e deve ser construído a partir da composição e estrutura familiar, considerando o ciclo de vida, os padrões de repetição em gerações, além do equilíbrio e desequilíbrio familiar. Para a constituição deste modelo terapêutico é necessário a utilização de símbolos próprios (REBELO, 2007, p. 314).

A interpretação deve considerar resultados de exames médicos (eletrocardiogramas, por exemplo), existência ou não de padrões de repetição em diferentes gerações, além de observações do ciclo da vida familiar em questão, ou seja, é necessário considerar se a família é composta por recém-casados, se tem filhos adolescentes, etc (REBELO, 2007, p. 314).

Símbolos do genograma

Símbolos do genograma

O genograma surgiu em meio a buscas por compreensões de patologias de filhos em relação à mãe ou pai. Posteriormente a teoria da comunicação humana contribuiu por meio da percepção de incongruências na comunicação, seja verbal ou não verbal, além dos estudos realizados em famílias de esquizofrênicos, que auxiliaram no chamado duplo-vínculo, favorecendo no acompanhamento de filhos esquizofrênicos (PRADO, 2009, p. 233).

Houve um avanço do conhecimento sobre as causas da saúde e da doença psíquica, não apenas do indivíduo, mas, nas relações e interações de membros dos sistemas familiares, em direção diferente à dos modelos até então conhecidos, da perspectiva psicanalítica (PRADO, 2009).

Por um período, houve um destaque no trabalho que considerava a família tri geracional, ou seja, a ênfase da importância dos avôs na família.

A partir disso, a história da família ganha valor e as interações passadas são consideradas como influentes no comportamento dos pais e, portanto, afetam toda a vida familiar. Assim, toda a estrutura histórica da família, tudo o que foi construído no passado, como, abusos sexuais, violências, segredos de paternidade, adoções, mitos e crenças, etc., são avaliados como influenciadores na distorção das interações do tempo presente (PRADO, 2009, p236).

Os anos oitenta também contribuíram para a ampliação da perspectiva do genograma e da terapia sistêmica, pois, o movimento feminista impulsiona o desenvolvimento da terapia familiar feminista, valorizando diferenças de gênero e aspectos particulares do papel da mulher na sociedade, família e casamento (PRADO, 2009).

No entanto, todas as considerações, inclusive sobre as particularidades do papel da mulher, devem ser construídas no genograma em conjunto, terapeuta e família, devem buscar compor a história da família com todas as características e problemas que vierem à tona. (PRADO, 2009, p 237)

As alterações e complementos no processo terapêutico chegam ao ponto de influenciar pioneiros na orientação de família, como, Minuchin, ainda vivo, em sua nona década de vida, autor do livro Dominando a Terapia Familiar, publicado em 2008, considerado estruturalista, reconheceu novas visões pós-modernas e acrescentou ao seu próprio trabalho, a avaliação histórica da família (PRADO, 2009).

Outra alteração histórica que influencia no processo terapêutico de família, está relacionada ao sistema familiar contemporâneo, pois, a configuração de família atual é em maioria, composta por famílias de pais sozinhos em decorrência de divórcios, de nascimentos e adoções por pessoas não casadas, indivíduos criados por avós, grupos familiares de filhos de pais diferentes vivendo no mesmo ambiente devido à  casamentos de divorciados, grupos familiares constituídos por casais homossexuais, famílias que vivem em casas separadas, ou mesmo indivíduos que vivem só (PRADO, 2009).

A estrutura do genograma é constituída por uma imagem gráfica, um tipo de mapa e até desenho da família. Esse recurso é utilizado como ferramenta de apoio para um destravamento do sistema, por meio da observação das dificuldades familiares e dos padrões relacionais (WENDT & CREPALDI, 2008).

A avaliação desse mapa favorece para que o clínico examine as prováveis dificuldades e facilidades do eixo familiar. Assim, um dos trabalhos que se utilizam do genograma é na caracterização e cadastramento de grupos familiares, em órgãos públicos que lidam com auxílio à família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Podemos dizer que o genograma é um “mapeamento gráfico da história e do padrão familiar”, onde podemos perceber: a) estrutura básica; b) demografia; e c) funcionamento e relacionamentos; que formam um gráfico dos dados coletados. O mapeamento expõe as etapas familiares através das gerações, além das estruturas emocionais associadas (WENDT & CREPALDI, 2008).

A função mais importante do genograma é cruzar dados familiares em momentos de avaliação, para acompanhamento adequado em meio aos processos relacionais em meio à terapia (WENDT & CREPALDI, 2008).

Para isso, as informações da família são organizadas em estrutura gráfica, para que se tenha uma visão mais clara da complexidade dos padrões de grupo. Supostamente, os membros do grupo são interdependentes, por mais que sejam idiossincráticos. Portanto, quando uma parte do sistema muda, todos os demais membros são afetados (WENDT & CREPALDI, 2008).

Através desse gráfico é possível identificar mitos e crenças que guiam e formam famílias por gerações, bem como sustentam rupturas de relacionamentos e dificuldades de trato.

Uma das formas de se analisar uma família é pela observação dos subsistemas, fronteiras e demais abstrações que podem ser percebidas entre os membros do grupo ao longo da história de vida. Esta construção abstrata indica uma estrutura familiar e delimita configurações do grupo (WENDT & CREPALDI, 2008).

A dinâmica familiar é a forma de relacionamento estabelecida pelos membros do grupo, ou seja, o modo como desenvolvem vínculos ou tratam seus problemas, os ritos, as regras, definição de ordem e papeis de cada membro da família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Os filhos fazem com que a família amplie ou modifique a estrutura interna vigente, o que favorece para o surgimento de novos subsistemas (WENDT & CREPALDI, 2008, p.305).

Enfim, em meio a tantas alterações nas composições de famílias, o genograma segue como ferramenta de auxílio fundamental na construção de um modelo terapêutico que integre e enriqueça as técnicas de apoio a disfunções relacionais.

Em relação à dependência química, o genograma atua como ferramenta de compreensão, pois, a estrutura gráfica proporcionada pelo genograma auxilia no desenvolvimento da compreensão familiar de como a doença surgiu, retirando o estigma do individuo que se tornou dependente químico, por meio de um esclarecimento sobre a realidade patológica de toda a família.

Para exemplificar, será mostrado aqui o genograma de uma família onde foi percebido um histórico de dependência química, inicialmente considerado como algo comum, devido ao fato de bebidas alcoólicas serem drogas lícitas, mas que, proporcionaram o surgimento de dependentes de drogas ilícitas como cocaína e crack.

O dependente titular desse genograma é descendente da junção das famílias O.M. e P.M.

  • Família O.M. (geração de avós)
Família O.M. (geração de avós)
  • Família O.M. (geração de tios)
Família O.M. (geração de tios)
  • Família O.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma

 

  • Família O.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M. (geração de avós)
Família P.M. (geração de avós)
  • Família P.M. (geração de tios)
Família P.M. (geração de tios)
  • Família P.M.
    • Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
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Família P.M. - Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
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Família P.M. - Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
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    • Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma

Observações sobre o genograma

Alergias, diabetes, dificuldades oftalmológicas, doenças cardíacas e problemas gerais de pressão, são características comuns a quase todos os membros da família.

O número de alcoolistas chegou a quase 56 membros da família e nove foram usuários de drogas (cocaína e crack). Atualmente, a maioria afirma ter deixado as drogas e bebidas por questões religiosas.

Três pessoas manifestaram câncer, sendo que, no caso de M.A. houve manifestação da doença em três momentos distintos e recuperação da saúde, de modo que permanece viva.

Dois casos de distúrbio psiquiátrico foram confirmados clinicamente, porém, foram tratados e recuperados totalmente.

Não existe padrão em relação à conduta escolar. É possível perceber pessoas de todos os níveis de estudo e atuando em diversas áreas, com predominância nas seguintes profissões: Motorista, Professor, Ourives, Pedreiro e Pastor Evangélico.

Em relação à constituição familiar podemos observar divórcios, relações extraconjugais constituídas paralelamente e mães solteiras.

De modo geral, foi percebido que a maior marca da família é a falta de relacionamento e de interesse mútuo. Isto foi comprovado pela dificuldade em conseguir informações dos membros da família por meio de entrevistas, de modo que, a maior parte das informações desse relatório foi adquirida por meio de pesquisas em cartórios e documentos diversos.

Três questões para exemplificar o nível do distanciamento das pessoas que compõem este grupo familiar.

  • Mesmo os dados mais simples não são de conhecimento de parentes próximos. Por exemplo: Em meio à pesquisa nos cartórios foi descoberto que I. P. (avô do titular do genograma) era gêmeo com G. P. (comprovado vivo até a juventude em documento de cartório) e este era desconhecido de seus sobrinhos, filhos de I.P. , que se surpreenderam ao saber da existência de um tio gêmeo do pai.
  • Em meio às tentativas de entrevista de familiares, houve discussões sobre o distanciamento dos membros da família e alegações do tipo… “Há dez anos não vejo meu irmão! E moramos a em bairros vizinhos!”
  • Também por meio de pesquisa em cartórios, foi descoberto que, B.O. , filha de M.A. , foi registrada em nome de A.O. e criada como filha de J.A.
    • Após a descoberta, discussões explicaram que a situação foi causada em decorrência de que, a gestação de B.O. ocorreu na adolescência de sua mãe, que, ainda solteira, não seria bem vista na sociedade da época, portanto, a criança nasceu em outra cidade e foi registrada como filha de uma prima de sua mãe, contudo, foi criada como filha da própria avó. Obs. Mãe e filha ainda vivem e se tratam como irmãs, a família não comenta o assunto.

Diante disso, pode-se perceber o quanto as ações familiares influenciam na formação do caráter do indivíduo, bem como, as circunstâncias vivenciais modificam os valores e interesses das pessoas. Pode-se perceber que, o titular do genograma, cresce em meio a alcoolistas, dependentes químicos, familiares distantes, mentiras, omissões, doenças e brigas, que proporcionam um ambiente favorável para que este se torne suscetível ao abuso do uso de substâncias químicas, como tentativa de refúgio, busca de segurança e mesmo por meio dos referenciais de pessoas estimadas que, já fazem uso de substâncias psicoativas.

 A partir do reconhecimento de uma situação de dependência química instalada, é necessário o desenvolvimento de uma avaliação psicológica com vistas à intervenção para possível auxílio no controle da situação de dependência.

2 Avaliação & Intervenção Psicológica

A psicometria é um ramo da estatística que estuda fenômenos psicológicos. Não se trata apenas de métodos, ela se insere na teoria da medida que trata da utilização de números no estudo dos fenômenos naturais. O processo de avaliação psicológica começa a ganhar estrutura a partir da elaboração de instrumentos de medida psicológica. Assim, a avaliação tende inicialmente a ocupar lugar de diagnóstico nos âmbitos clínicos e de trabalho e posteriormente repercute em todas as perspectivas do indivíduo. No entanto, apesar do desenvolvimento da área e da solidificação de análises e instrumentos, ainda existem críticas sobre os testes psicológicos.

Atualmente, pode-se dizer que, os instrumentos foram atualizados e compreende-se que o conhecimento é adquirido pela relação com o outro e a observação desta relação. Tornando o diagnóstico uma questão, por um lado racional, por outro, empático (NASCIMENTO, 2005, p. 217).

No Brasil, a psicometria ganha um grande espaço de discussão, devido ao modo como os testes veem sendo utilizados, sem o rigor necessário e estudos adequados, de forma que descaracteriza o método e sua cientificidade (NORONHA; BALDO; ALMEIDA; FREITAS; BARBIN; & COZOLI, 2004).

O rigor do método se deve à importância do mesmo, pois, a partir da psicometria é possível mensurar questões individuais em perspectivas legais, como quando um teste serve de base para distinguir entre dano moral e dano psicológico.

O dano moral é identificado como parte da percepção subjetiva de prejuízo em questões de honra, finanças ou de liberdade, enquanto que o dano psicológico está vinculado à saúde, possibilitando desenvolvimento de patologias (ROVINSK, 2005, p.178).

A avaliação psicológica é um dos principais campos da atuação do psicólogo. E isso, porque, a partir dos resultados dos testes, é possível se fazer inferências acerca do comportamento humano, de modo a auxiliar o indivíduo a tomar decisões diante de situações específicas (ÁVILA-BATISTA, 2011, p. 11).

Assim, o teste mais utilizado no Brasil para avaliação psicológica, tanto em relação à gravidade quanto à intensidade de danos, em casos de dependência química, é o MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview). Seu questionário foi validado para a realidade brasileira e, por isso, sua eficácia tem sido continuamente constatada a cada aplicação, de modo que, muitos pesquisadores se utilizam com tranqüilidade deste instrumento.

2.1 MINI: Características e validação do instrumento

Dentre os métodos psicológicos reconhecidos estão o DSM IV TR (2002) a nível clínico e de diagnóstico de dependência química e o SADD (1983) como avaliador de gravidade da dependência química (SOUZA; BITENCOURTT & OLIVEIRA, 2006, p. 111).

O Mini International Neuropsychiatric Interview, doravante designado MINI, é um questionário de auxílio para desenvolvimento de diagnóstico padronizado breve (15-30 minutos). É compatível com os critérios do DSM-III-R/IV e do CID-10 e sua utilização é indicada na prática clínica e na pesquisa em atenção primária e em psiquiatria. Pode ser utilizado por clínicos após um treinamento rápido (de 1 a 3 horas). O MINI Plus, versão mais detalhada, pode gerar diagnósticos dos principais transtornos psicóticos e do humor do DSM-IV (SCHEFFER; PASA; & ALMEIDA, 2010, p.535).

O MINI é estruturado em módulos diagnósticos independentes, para otimizar a sensibilidade do instrumento, na tentativa de diminuição de falso-positivos. Como meio de redução de tempo da entrevista, são utilizadas as seguintes estratégias: observação dos transtornos atuais, para facilitar a escolha da terapia mais adequada no momento; as questões são de resposta objetiva entre SIM/NÃO; questões de entrada exploram critérios obrigatórios para excluir diagnósticos de respostas negativas; as características e sintomas ocasionais de transtornos não são sistematicamente exploradas; e os algoritmos são integrados à estrutura do questionário, permitindo estabelecer ou excluir os diagnósticos ao longo da entrevista (AMORIN, 2000, p. 107).

Foram desenvolvidas duas versões do MINI para responder aos diagnósticos específicos de contextos diferentes:

1) voltado para ensaios clínicos e cuidados primários. O MINI abrange 19 módulos que alcançam 17 transtornos do eixo I do DSM-IV, o transtorno da personalidade anti-social e o risco de suicídio. O módulo Síndrome psicótica descobre os indícios do critério da esquizofrenia, com a finalidade de eliminar a possível existência de um transtorno psicótico. Os outros módulos determinam análises positivas.

2) proposto para a avaliação aprofundada das desordens mentais ao longo da vida, na pesquisa e na clínica em psiquiatria. O MINI Plus explora ordenadamente todos os critérios de abrangência e de eliminação, bem como a cronologia de 23 classes diagnósticas do DSM-IV. O módulo Transtornos psicóticos produz a análise positiva de 7 subtipos de psicoses: (1) transtorno psicótico sem especificação, (2) transtorno delirante, (3) transtorno psicótico breve, (4) transtorno esquizoafetivo, (5) transtorno esquizofreniforme, (6) esquizofrenia, e (7) transtorno psicótico decorrente de uma condição médica geral e/ou induzido por substâncias (AMORIN, 2000, p. 108).

O método utilizado para a validação do instrumento MINI foi o teste de confiabilidade entre métodos.  Era necessário provar a concordância entre o diagnóstico gerado pelo MINI e aqueles gerados por métodos já reconhecidos. Foram escolhidas duas estratégias para validar o novo procedimento diagnóstico: “compará-lo a diferentes critérios de referência e compará-lo ao Best Diagnosis ou LEAD Standard” (AMORIN, 2000, p. 108).

O MINI/MINI Plus foi comparado a questionários padronizados com características distintas, empregados em pesquisas internacionais – o CIDI e o SCID-P – e com a apreciação de psiquiatras. Além disso, foram realizadas análises quantitativas e qualitativas, pela metodologia do LEAD Standard.

2.1.1 Aplicação do MINI e os resultados obtidos junto a Dependentes Químicos

A dependência química é o resultado de uma relação doentia entre um indivíduo e uma substância psicoativa (SPA). Inicialmente o consumo pode ter diversos motivos que possivelmente prosseguirão após o desenvolvimento da dependência. O abuso do uso de SPA, frequentemente desenvolve a dependência e esta, traz consigo, comorbidades psiquiátricas, o que é desfavorável ao tratamento da dependência química. O episódio de um transtorno adicional pode comprometer o diagnóstico, tratamento e prognóstico de ambos os problemas (SILVA; KOLLING; CARVALHO; CUNHA; & KRISTENSEN, 2009, p.102).

Estudos afirmam que um terço dos alcoolistas demonstra ansiedade em níveis significativos. Uma média de 50 a 67% dos alcoolistas e 80% dos dependentes de outras drogas apresenta características semelhantes ao transtorno do pânico, dos transtornos fóbicos ou do transtorno de ansiedade generalizada. Conforme Silva, “pacientes com comorbidade psiquiátrica, principalmente aqueles com transtornos psiquiátricos graves, apresentam maiores taxas de suicídio, agressividade, detenção por atos ilegais, recaídas, internações, mais gastos com tratamento…” (SILVA et al, 2009, p.104).

Para a aplicação do instrumento, Silva realizou uma pesquisa, a partir de 31 pessoas, diagnosticados dependentes de álcool ou cocaína / crack a partir do CID-10 e DSM-IV. O trabalho foi realizado em um hospital de Porto Alegre – Hospital Parque Belém – tendo como critérios de exclusão: 1) a idade abaixo de 18 anos; 2) estado de abstinência de duas semanas; 3) experimentadores e ex-usuários; 4) dependência de outra substância; 5) menos de um semestre de uso regular de SPA.

A pesquisa foi realizada predominantemente por:

  • pessoas do sexo masculino (84%)
  • entre 20 a 56 anos de idade
  • sendo que, 19,4% dos participantes tinham ensino fundamental incompleto
  • 16,1% terminaram o ensino fundamental
  • 16,1% afirmavam ter ensino médio incompleto
  • 29% concluíram o ensino médio
  • 12,9% tinham ensino superior incompleto
  • e 6,5% possuem ensino superior completo.

 Em média, os envolvidos apresentaram 25 dias de abstinência. A coleta de dados durou em torno de 60 minutos e os instrumentos utilizados foram: formulário padronizado, elaborado por Silva, e o MINI Plus (SILVA et al, 2009, p.106).

Como resultado da aplicação do instrumento foi observado que: 1) os participantes do sexo masculino apresentavam maior tempo de abstinência; 2) os dependentes de cocaína / crack, são mais jovens que os alcoolistas; 3) 67% dos envolvidos na pesquisa, afirmavam ter parentes próximos que faziam uso abusivo de álcool e/ou drogas; 4) 38,7% tem pais dependentes químicos; 5) 25,8% são sobrinhos de dependentes; 6) 22,6% são primos de dependentes; 7) 19,4% são netos de dependentes; 8) 12,9% tem irmãos dependentes; 9) 6,5% tem mães dependentes de SPA; e 10) 3,2% tem filho dependente químico. Transtornos mentais foram percebidos em 83,9% dos participantes, além da percepção de comorbidades múltiplas em grande parte do grupo estudado (SILVA et al, 2009, p.108).

A partir da observação e avaliação dos resultados da aplicação do MINI, é possível que a intervenção psicológica seja mais adequada. Ou seja, torna-se mais difícil que o terapeuta promova um direcionamento errado, de modo a prejudicar o dependente. Tanto em relação ao desenvolvimento do tratamento, quanto no que diz respeito ao surgimento de novos problemas. A partir da avaliação, o passo seguinte é a intervenção.

2.2 Intervenção: Entrevista psicológica

A entrevista psicológica é uma ação entre duas pessoas – das quais, um deve ser profissional da psicologia – onde ocorre uma troca de informações, por meio de diálogo em uma comunicação informal e por tanto, os nomes e conceitos atribuídos a esse diálogo são muitos, de maneira que os teóricos da área ainda discutem o tema com intensidade (ALMEIDA, 2004, p. 34).

A expressão entrevista psicológica é efetuada por psicólogos no exercício de suas atividades. E levam em conta, perspectivas e fatores psicológicos percebidos anteriormente, com o objetivo de resolver problemas que habitualmente fazem parte do quadro da psicologia, ou seja, seleção e orientação profissional, pesquisas psicológicas, estudos de opinião pública, exame de personalidade, etc. No entanto, a avaliação psicológica não é uma prática independente de amarrações teóricas que a direcionem, é necessário identificar as perspectivas teóricas adequadas, de acordo com o que deve ser avaliado e o modo como deve ser analisado, além de forma de utilização dos resultados obtidos (SPARTA; BARDAGI; &  TEIXEIRA, 2006, p. 19).

De acordo com Sullivan (1970), a entrevista psicológica é uma comunicação vocal a partir de duas pessoas, integradas numa estrutura terapeuta-cliente e que se desenvolve progressivamente com objetivo de clarificar situações de vida dos entrevistados, vividas de modo especialmente penoso ou valioso, com objetivo de que esta clarificação possa gerar algum benefício para o cliente (p. 4).

Assim, nos atemos ao estudo da entrevista psicológica, com a intenção de pontuar sobre regras que auxiliam para que a aplicação da técnica seja mais adequada, de modo a facilitar o desenvolvimento da análise. Isto porque, só o cliente realmente tem condição de expressar sobre o próprio sofrimento e, portanto, se faz necessário que o terapeuta consiga identificar o problema e conduzir o cliente no processo de ajuda, a partir desta identificação (OLIVEIRA, 2005, p.1).

A entrevista psicológica deve ser realizada através de procedimentos e técnicas próprias e empíricas. É o ponto de encontro entre a ciência psicológica e a prática. Por tanto, é a partir da entrevista que se é possível aplicar de modo prático, os conhecimentos elaborados sobre as perspectivas psicológicas, por meio de um processo de interação (BLEGER, 1998, p. 1).

Todo o aparato instrumental do profissional da psicologia consiste no resultado das elucubrações do paciente, que voluntariamente ou impulsionado por facilitações do terapeuta, se dispõe e falar sobre aquilo que lhe é problema, ou motivação que o levou à clínica psicológica. As palavras do paciente são na verdade o material sobre o qual irá trabalhar na tentativa de uma melhor compreensão do caso (AUGRAS, 2002, p. 82).

As técnicas da entrevista são ferramentas de auxílio para que o paciente se sinta mais a vontade para expor suas questões e para que o terapeuta tenha maior acesso às informações essenciais na elaboração do processo de ajuda. Por meio da entrevista, é possível testar limites, contrapor, confrontar e buscar esclarecimentos para as respostas do sujeito. Por isso, a entrevista clínica tem lugar de destaque incomparável entre as demais técnicas de avaliação (TAVARES, 2002, p. 75).

2.2.1 Primeiras Entrevistas

O objetivo das primeiras entrevistas é identificar os aspectos mais relevantes do caso e a partir disso, identificar a melhor maneira de deseenvolver o acompanhamento.

No decurso destas primeiras entrevistas, o analista deve: 1) escutar e tentar peceber na historia de vida do paciente, os problemas e perturbações a serem trabalhados; 2) avaliar o nível de vontade e condição do paciente para o acompanhamento terapêutico; 3) observar as características psiquicas, bem como a habilidade de verbalizar e tolerar a condição de analise.

A partir disto, se a analise for realmente indicada ao caso, deve ser fixado um modo de acompanhamento, ao estabelecer a duração, a frequência das sessões, a postura do analisado (divã, por exemplo) e a postura do analista (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

O trabalho do analista é o de observar, escutar, compreender, saber esperar e calar-se e no momento oportuno e dar a interpretação que convêm. Após isto, o terapeuta deve comunicar ao paciente o conteúdo latente do discurso deste.

Esta comunicação deve ser elaborada a partir da reunião de elementos separados do discurso. É um trabalho de reorganização e de atribuição de sentido à narrativa do paciente.

Essa devolução organizada das informações do sujeito precisa ser realizada em momento adequado, que este tenha condição de ouvir e de assimilar as informações apresentadas pelo terapeuta. É um trabalho de cooperação na construção de questões interenas do individuo  (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

É importante saber que, as primeiras entrevistas podem desencadear alguns fatores psicológicos. É imprescindível estar atento a:

  • Resistências – dificuldades gerais que o paciente possa apresentar em relação ao desenvolvimento do processo terapêutico.
  • Transferência – ação inconsciente de vivência momentânea das questões que afligem o paciente, de modo que as emoções sejam transferidas do evento, para o terapeuta.
  • Contratransferência – ação de deslocamento das emoções do terapeuta para com o paciente, ante alguma vivência comum ou situação específica do momento vivencial do terapeuta.

Estas situações podem ocorrer em meio a qualquer processo terapêutico e precisam ser consideradas com cuidado para que o tratamento não seja prejudicado (NETO, A.C.; DAL-BÓ, M. J.; BREDA, R. L.; & CRESTANA, T. 2003, p. 266)

2.2.2 Entrevista nas psicoterapias breves

A psicanálise influenciou a psicologia tanto em questões teóricas quanto a nível de exemplo. Por outro lado, a psicologia auxiliou na propagação da psicanálise em países que demonstravam indiferença à atuação psicanalítica. Ainda assim, é notória as especificidades de cada uma das disciplinas.

Ferenczi, psicanalista contemporâneo de Freud, é um dos precursores das psicoterapias breves. Decidiu por buscar novas maneiras de ajudar os seus pacientes, e para isso, experimentou um certo número de mudanças técnicas. É assim que ele começa por atuar a partir da técnica activa, fundada na observação atenta e empática, que consiste em intervenções directivas por parte do analista: formular, por exemplo, ordens e interdições (OLIVEIRA, 1999, p.10).

Michael Balint propõe a psicoterapia focal; trata-se de entrevistas face a face, cujo número é limitado no tempo, com uma focalização no problema do paciente (PSICOTERAPIA BREVE, 2003-2011).

Alexander e French propõem modificações técnicas da psicanálise e desenvolvem aexperiência emocional correctiva. Alexander propõe trabalhar com base no método das associações livres, mas associa igualmente entrevistas mais directas e dá directivas ao paciente, ele pensa também que as atitudes do terapeuta devem ser suficientemente flexíveis para se adaptarem caso a caso (OLIVEIRA, 1999, p.11).

De um modo geral, podemos dizer que, por meio da entrevista psicológica, o cliente precisa alcançar o relaxamento suficiente, para que o terapeuta consiga perceber as situações que lhe causam desconforto, ansiedade e outros problemas que o motivaram a procurar ajuda terapêutica e apartir disso, seja possível a elaboração – por parte do profissional da psicologia – de um processo terapeutico adequado, considerando as abordagens psicologicas cabiveis.

O objectivo é, portanto, fazer com que o sujeito tome consciência dos seus pensamentos, reconhecer aqueles que são inexactos e substitui-los por ideias positivas.

Para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta a  compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É impressindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E agora, de posse de sua bagagem técnica tecer suas observações, ponderações e considerações, de modo axiomático, considerado que a utópica da neutralidade sempre deverá ser perseguida.

Os princípios éticos serão avivados em cada encontro, e nenhum instrumento poderá adquirir uma aura de prevalência sobre a pessoa do entrevistado, que é mais importante e assim deve ser respeitado.

É fundamental que o profissional se conheça e que tenha como rotineiras, as reflexões sobre suas próprias atitudes, postura e comportamento. É preciso que tenha também flexibilidade em modificar-se, quando a necessário. Muito do trabalho do psicólogo certamente vem em conseqüência do auto conhecimento, que lhe dará a base na qual se apóiam à sua atuação e intervenção com toda transparência.

2.3 Abordagens

No campo da Psicologia, são muitas as abordagens existentes para tratamentos de conflitos. Há aquelas em que o cunho está mais voltada para o autoconhecimento do sujeito, seus traumas e conflitos internos, existem aquelas que trabalham com as crises e suas repercussões no momento, e, há também as de fundo filosófico que vêem o sujeito não somente como uma psique em crise, e sim como um todo levando em conta seu lado social e seu relacionamento com consigo mesmo e com o mundo.

As abordagens que pontuaremos, devido ao reconhecimento e destaque geral no campo da psicologia são quatro: Abordagem Fenomenológica; Abordagem Humanista; Abordagem Sistêmica; e Abordagem Cognitivo Comportamental.

2.3.1 Abordagem Fenomenológica

A perspectiva fenomenológica surge como reação às teses e à maneira de compreender questões patológicas no início do século XIX.

A abordagem surge a parir da filosofia, em particular da filosofia a alemã. Tendo como precursor Edmund Husserl, que elaborou os fundamentos desta idéia. Ele propõe compreender o homem e a sua psicologia a partir da análise dos estados de consciência, das questões vivenciais, da experiência e dos modos de relação do sujeito com o seu meio. Martin Heidegger, discípulo de E. Husserl, propõe uma filosofia que prioriza o conhecimento do ser humano no mundo, da realidade humana a partir da descrição das coisas na sua essência sem qualquer pressuposto teórico (VILA-CHÃ, 1988, pp.357-365).

A filosofia fenomenologica destaca a necessidade de um retorno à experiência humana como objecto de uma descrição; esta enfoque marcou profundamente a psicologia e a psicopatologia. Karl Jaspers é um dos primeiros a introduzir a dimensão fenomenologica em psicopatologia (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Karl Jaspers desenvolveu uma abordagem descritiva da fenomenologia; o seu método consistia em descrever as vivências psíquicas conscientes dos doentes mentais, classificar esses estados entre si e compara-los com as vivências psíquicas do homem normal (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Os fenomenologistas têm como referencia essencialmente Ludwig Biswanger, que pensa que é preciso ampliar a compreensão do doente tal como ele se encontra, mais do que compreende-lo a partir das teorias pré estabelecidas, que pertencem ao terapeuta e não ao doente; ele propõe uma análise que se baseia mais na relação e na experiência vivencial (CHAMOND, 2011, pp. 3-7).

A abordagem fenomenologica não propõe qualquer técnica psicoterapeutica particular, mas insiste na noção de comunicação, a partir de uma comunicação e uma relação verdadeira entre o clínico e o seu paciente. O ênfase está na relação terapêutica, que é considerada como uma relação inter-humana, portanto uma possibilidade de encontro, um face-a-face e uma troca com o outro. Não está baseado em regras técnicas, mas, uma reflexão teórica sobre a noção de psicoterapia e uma reflexão sobre a prática da entrevista, insistindo na experiência comunicativa entre os dois interlocutores (LESSA &  SÁ, 2006, pp. 393-397).

2.3.2 Abordagem humanista: Carl Rogers

As percepções de C. Rogers tiveram grande influência no que diz respeito à psicoterapia. Elas integram uma abordagem humanista bastante próxima do ponto de vista fenomenologico, assumindo uma posição face às teorias psicanalítica e behavioristas, a partir do interesse pela nosografia e pela estrutura da personalidade.

Conforme Rogers, em todo o ser humano existem potencialidades que podem ser desenvolvidas numa relação interpessoal, a partir da aceitação, compreensão empática, e, não diretividade, por meio de uma relação interpessoal e construtiva.

O processo terapêutico, segundo C. Rogers, envolve uma libertação dos sentimentos a partir da experiência vivencial e a percepção disto durante a terapia, para que o indivíduo tenha como modificar sua prática de atitudes e assim, desenvolver congruência consigo próprio (AMATUZZI, & CARPES, 2010, pp. 11-25).

2.3.3 Abordagem Sistêmica

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

2.3.4 Abordagem Cognitiva e Comportamental

A abordagem cognitiva e comportamental representa um conjunto de técnicas baseadas nas teorias da aprendizagem e nos contributos da psicopatologia cognitiva. Todas elas têm em comum um certo número de características: O estabelecimento de um contrato entre o paciente e o terapeuta; A definição clara e precisa dos objectivos terapêuticos, com uma definição das condutas que vão ser alvo das tentativas de mudança; A duração do tratamento, que é geralmente bastante breve, de três a seis meses; A medida quantitativa e qualitativa da mudança obtida.

Têm por objetivo suprimir o comportamento inapropriado para o substituir por um comportamento adaptado, segundo as leis do condicionamento. Por exemplo, a técnica da dessensibilização, utilizada para tratar as fobias (BAHLS; & NAVOLAR, 2004, pp.1-11).

A Psicologia é uma área muito ampla e as abordagens são diferentes entre si. Elas diferem em filosofia, objeto de estudo, teoria, linguagem, formas de pesquisa, dados científicos e práticas de intervenção. Todas essas características resultam em perspectivas muito particulares de como perceber o homem e como lidar com ele profissionalmente, e resultam em certas expectativas de postura do psicólogo, portanto, é necessário cuidado ao escolher a abordagem mais adequada.

3 Psicologia & Religião: Caminho terapêutico para o dependente químico?

Uma das características do processo terapêutico está relacionada ao valor e lugar que o do processo catártico em meio ao tratamento escolhido. Pode-se dizer que catarse é um processo de liberação de angústias e emoções reprimidas, ou de algum modo contidas, que, a partir de certo ponto podem causar distúrbios psicológicos (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O termo Catarse surge com Aristóteles. Por meio da ação poética, o palco tornava-se lugar de liberação das expressões emocionais por meio do drama e da tragédia. Posteriormente a ação catártica de purificação das emoções passa a ser vivenciada também pelo expectador (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Após o estabelecimento do processo catártico, por anos, esta ação foi vivenciada como ritual de purificação de espíritos malignos e/ou influências negativas externas sobre a vida das pessoas, por meio de ações como exorcismos, hipnose e semelhantes (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O processo foi utilizado a partir de diferentes perspectivas, passando por Freud, Diderot, Lessing, Goethe, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Em cada perspectiva a catarse ganhou um nome diferente como: análise do caráter, Gestalt-terapia, terapia primal, analise bioenergética, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

De modo geral pode-se dizer que a catarse atua claramente em três perspectivas humanas: médica, moral e religiosa (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

No que diz respeito ao aspecto médico, a catarse pode ser compreendida como ação homeopática de purificação do corpo (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A perspectiva moral entende que, ao purgar as malignidades por meio da catarse, a conduta do indivíduo seria equilibrada e não haveria riscos de ações imorais / malignas (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A ênfase religiosa da catarse aparece desde o teatro grego, onde a tragédia era compreendida como excitação religiosa e êxtase báquico. É possível citar também a influência hebréia no que diz respeito às experiências de sofrimento de personagens bíblicos como Ana (1 Sam 1:12-16), que não podia ter filhos e por isso, chorava e sofria diante de Iahwe. A oração sofrida acompanhada por movimentos de lábios que lembravam embriaguês, tiveram como resultado, a resposta do clamor, alívio e cura da alma. Além disso, Inácio de Loyola afirmou que a prática da glossolália (dom de línguas) resulta em paz e crescimento (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

Ainda hoje é possível perceber que, algumas linhas de orientação religiosa são desenvolvidas a partir de processos terapêuticos, que promovem reações com caráter catártico, especialmente em comunidades terapêuticas para recuperação de dependentes químicos (em maioria, apresentam fundação religiosa). Diante disto, torna-se imprescindível a observação da prática terapêutica psicológica, paralela ao sistema de orientação religioso que ocorre em meio à essas comunidades.

É fácil perceber a importância da relação de ajuda, desenvolvida por meio do aconselhamento, ante a necessidade humana de apoio e orientação em situações de crise e conflitos de modo geral.

O aconselhamento psicológico é um trabalho realizado por meio de encontros regulares e de caráter profissional, entre um cliente e um psicoterapeuta, com vistas a proporcionar suporte para que o indivíduo ultrapasse dificuldades relacionais ou pessoais. A compreensão de uma situação em particular, pode levar o indivíduo a aceitação ou a mudança de conduta,  de modo que, a pessoa tenha suas questões internas resolvidas (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.207).

 O aconselhamento religioso é um processo de mediação, realizado por um conselheiro, que neste caso, exerce a função de terapeuta, no sentido do grego antigo, que tem a conotação de cuidar, servir, tratar e também render culto. Ou seja, o terapeuta não é responsável pela cura, mas, é quem facilita o encontro entre àquele que cura e o necessitado, seja por meio de orações, de orientações, de imposição de limites ou simplesmente pelo direcionamento, para que o necessitado caminhe em direção àquele que tem o poder de curar (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.208).

Algumas linhas de aconselhamento relacionam, propositalmente ou não, a bíblia ou princípios morais do cristianismo, com linhas psicológicas específicas, como apresentaremos adiante.

3.1 Psicanálise & Cura do Passado

A psicanálise é uma metodologia desenvolvida por Freud, que considera como essencial, compreender o inconsciente do indivíduo e integrá-lo ao consciente, por meio da interpretação das ações e palavras, bem como de produções imaginárias, sonhos, delírios, associações livres e atos falhos (BOCK, 1999, p.70).

Esta interpretação visa promover um equilíbrio que auxilie no ajuste da conduta humana, de modo que seja possível a eliminação do mal-estar e do sofrimento. A idéia central é de que o autoconhecimento desenvolve a capacidade de lidar com as adversidades e superar as dificuldades (CATALDO NETO; GAUER e; FURTADO, 2003, p. 776).

Desse modo, é possível adquirir autonomia, por meio de uma capacidade criativa de cada indivíduo, grupo e instituição, por meio de um processo onde seja possível desfazer calmamente as barreiras do paciente (BOCK, 1999, p.80).

O princípio da desmontagem das resistências do inconsciente, está relacionado ao fato de que Freud considera que experimentamos a ansiedade já no primeiro momento da vida humana e a causa desta angústia é o parto (MEZAN, 2006, p. 527). Portanto, todo o passado do indivíduo, mesmo as coisas que de modo natural não são lembradas, como a sensação do nascimento, são importantes no trato das doenças desenvolvidas por meios de traumas.

A cura do passado é uma metodologia cristã, que afirma a cura por meio de uma volta ou de um relembrar o passado. É conhecida também como cura interior, cura das memórias, cura da árvore genealógica (SEAMANDS, 2007, p.12) dentre outros.

A metodologia foi desenvolvida por um psicanalista austríaco, Otto Rank, discípulo direto de Freud, que se aproxima da psicanálise ainda na adolescência, após a separação de seus pais (HURDING, 1995, p.411).

O trabalho tem como base a terapia desenvolvida durante a imaginação pela fé e o aconselhamento desenvolvido por meio da oração (SHLEMON, 1986, p.12), que visa conduzir o  indivíduo de modo consciente, à uma situação de crise do passado, e, por meio da conscientização da presença de Jesus – enquanto Deus atemporal – no momento em questão (HURDING, 1995, p.416), curar feridas e suas consequências na vida prática da pessoa que se dispõe a ser acompanhada.

A ênfase da cura interior ganha maior repercussão a partir dos estudos de alguns nomes como Anne White, Francis MacNutt e Ruth Stapleton, sendo que esta, afirma a cura interior como ação de restauração das emoções por meio das orientações do Espírito Santo (HURDING, 1995, p.416).

A partir da década de 1960, influenciado pela metodologia da cura interior, Frank Lake, médico missionário com treinamento em psiquiatria, desenvolve o que posteriormente ganha o nome de Teologia Clínica (EVANS, 2002, p.186).

O trabalho considera o princípio freudiano do trauma no nascimento e por isso, Lake utiliza teorias “reichianas e bioenergéticas de respiração profunda” (HURDING, 1995, p.420) para conduzir o indivíduo a reviver a experiência do nascimento e outras experiências traumáticas, na tentativa de resolver os problemas adquiridos durante a gestação e parto.

Lake, afirma que os sentimentos da mãe, sejam bons ou ruins, são transmitidos à criança durante a gravidez e a angústia da separação do bebê com a mãe por meio do parto, é relacionada a angústia gerada pela separação de Cristo com o Pai no Getsêmani e Gólgota.

Nesta pesrpectiva, pode-se entender que, a cura acontece por meio da realização do ego, mas, não o ego como compreendido por Freud, o ego do indivíduo, e sim, um tipo de ego ideal, que é gerado por meio da realização em Cristo, ou seja, o desenvolvimento de uma nova pessoa ou personalidade, ante ao convívio e comunhão com Deus (HURDING, 1995, pp.426,427).

Relação entre Psicanálise e Cura do Passado

Percebemos de modo claro a influência da psicanálise no desenvolvimento da cura do passado, a partir de um ponto específico: o fundador da teoria de cura do passado é de formação psicanalítica.

Diante disso, fica mais fácil identificar a semelhança na compreensão do ser humano enquanto indivíduo fragilizado desde o nascimento e necessitado de apoio para o autoconhecimento, para que este conhecimento auxilie no desenvolvimento do ego – seja o ego freudiano ou o ego ideal de Lake – e a partir disso, o indivíduo seja capaz de constituir forças para superar as adversidades e frustrações, sejam essas forças do próprio indivíduo ou da presença de Deus neste.

Ambas as linhas de orientação, conduzem o indivíduo a olhar para dentro de si, com dois objetivos: compreender a si mesmo, e buscar forças internas para continuar vivendo.

3.2 Logoterapia & Aconselhamento Pastoral

A logoterapia, desenvolvida por Viktor E. Frankl, é a terceira escola de psicoterapia de Viena, também conhecida como Psicologia do sentido da vida, devido a experiência de Frankl no campo de concentração, onde compreendeu o sentido do sofrimento (EINSFELD, 2000, p.18).

A logoterapia pode ser compreendida em três categorias de valores: criadores, vivenciais e de atitudes. Os valores criadores são referentes a capacidade criativa nas questões intelectuais, artísticas, de trabalho, enfim, de toda a liberdade de ação humana; os valores vivenciais são adquiridos por meio das experiências afetivas, seja por meio do desenvolvimento das relações familiares, seja pela contemplação da natureza, de observação da arte e cultura ou mesmo, pelas vivências místicas; e por fim, os valores de atitude, caracterizados pelo posicionamento adequado ante os sofrimentos inevitáveis e a condição ou capacidade de sofrer (LUNA, 2005, p.26).

Einsfeld afirma ainda que, Frankl descobriu a liberdade de observar a vida – mesmo que em condições precárias – e conseguir encontrar um sentido, que não depende da realização pessoal, mas, da maneira como a pessoa se coloca diante da situação vivenciada. Esse sentido surge quando a pessoa transforma o sofrimento em conquista, quando a culpa é transformada em oportunidade de mudança, ou quando a transitoriedade da vida auxilia no desenvolvimento de ações responsáveis (EINSFELD, 2000, p.21.).

Segundo Clinebell, o aconselhamento pastoral considera três aspectos essenciais com vistas ao crescimento: luta, morte e renascimento. O trabalho de orientação pastoral é desenvolvido a partir de uma compreensão particular da vida cristã, ao entender que esta não é apenas uma maneira de crer, mas, uma maneira de vivenciar ou experienciar todas as coisas, logo, tem como objetivo, modificar a motivação do comportamento e não apenas da crença humana. E isto, ante a experiência de luta, morte e renascimento de Cristo (CLINEBELL, 1987, p.56).

Clinebell afirma que as pessoas devem encontrar sentido para a vida, em todas as suas circunstâncias, tendo no sofrimento, o crescimento, seja humano, seja espiritual. Isto, porque, o ser humano é tido como carente de sustento, apoio e cuidado.

Essa carência gera crise no indivíduo que, torna-se perdido em si mesmo, de modo que passa a ter necessidade de apoio externo, de uma relação de ajuda, de alguém que auxilie no processo poimênico de cura da alma, por meio do apoio na compreensão do propósito da vida e de suas crises fundamentais, que estão diretamente relacionadas às percepções de “pecado e salvação, alienação e reconciliação, culpa e perdão, juizo e graça, morte e renascimento espiritual” (CLINEBELL, 1987, p. 47).

Relação entre a Logoterapia e o Aconselhamento Pastoral

Ambas as estruturas consideram como base de trabalho o sentido da vida e tratam disto em três perspectivas. Enquanto a logoterapia considera os valores criadores, vivenciais e de atitudes, como fundamentais para o desenvolvimento da capacidade do indivíduo de suportar o sofrimento, o aconselhamento pastoral aponta a luta, morte e renascimento como princípios de fé que devem não apenas nortear a vida mas, dar sentido a ela.

Outra característica está associada a ideia de realização pessoal como processo logoterapêutico, motivador para a continuidade da vida, e o propósito de vida apresentado pelo aconselhamento pastoral, como suporte e estímulo da esperança ante o sofrimento.

Ambas as orientações consideram as vivências como determinantes, ou seja, as vivências podem favorecer para o desânimo e enfraquecimento, ou para o fortalecimento e esperança, dependendo de como o indivíduo se posiciona.

3.3 Behaviorismo & Aconselhamento Bíblico

O behaviorismo  também conhecido como  comportamentalismo ou análise do comporta-

mento, considera uma espécie de ação e reação. O organismo responde a um estímulo, ante a ajustes ambientais ou por hábitos desenvolvidos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, p.45).

Duas situações são utilizadas na análise, o comportamento respondente e o comportamento operante. O comportamento respondente é composto pelos atos involuntários, por estímulos antecedentes ao ambiente, como salivação ou contração das pupilas. Já o comportamento operante é tudo aquilo que o indivíduo escolhe fazer, tudo o que a pessoa pode realizar para influenciar ou afetar o meio em que está envolvido (SKINNER, 2006, p.59).

   Em síntese, podemos dizer que, o comportamento respondente ocorre quando o indivíduo sofre um estímulo, enquanto o comportamento operante acontece quando o indivíduo produz o estímulo.

Além disso, considera-se o reforço, o controle de estímulos, extinção, punição, discriminação e generalização, como ferramentas de identificação, orientação e avaliação de casos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, pp. 50-54), sendo cada categoria compreendida da seguinte forma:

  • Reforço é tudo o que pode modificar uma ação futura, seja positiva ou negativamente;
  • Controle de estímulos é relacionado aos controles como placas de trânsito ou sinais indicativos, que delimitam os espaços e orientam ações de modo objetivo;
  • Extinção é o mecanismo que capacita a redução de determinada ação até a completa extinção da mesma;
  • Punição, leva a redução temporária de certo comportamento;
  • Discriminação, auxilia na modificação de comportamento de acordo com o ambiente;
  • Generalização, dificulta as reações ante a estímulos semelhantes.

O aconselhamento bíblico é o método utilizado por Jay Adams, para confrontar pessoas por meio de textos bíblicos, com a intenção de promover mudanças comportamentais, na tentativa de ajustar o indivíduo à uma conduta considerada biblicamente adequada ou justa (ADAMS, 1999, pp. 58-59).

A metodologia é diretiva, com a intensão de moldar os padrões de comportamento, invertendo ações tidas como pecaminosas, em atitudes justas e positivas, tendo como estímulos, os exemplos dos personagens e as situações apresentadas nas histórias bíblicas (CRABB, 2000, pp. 80,81).

Os limites estabelecidos estão relacionados à questões éticas de uma cultura específica, e portanto, limita as possibilidades de discriminação ou generalização em situações sociofamiliares, de modo que esse limite pode gerar punição e em alguns casos, extinção de comportamentos.

Relação entre Behaviorismo e Aconselhamento Bíblico

O behaviorismoe oaconselhamento bíblico seguem padrões indutivos para influenciar ou mesmo determinar comportamentos. E tem como ferramentas básicas: reforço, controle de estímulos, extinção, punição, discriminação, e generalização.

O diferencial consiste na base de direcionamento. Enquanto o aconselhamento bíblico tem como determinantes os escritos, a moral e a tradição cristã, o behaviorismo trabalha a partir das extruturas individuais de cultura.

Ambas as perspectivas não se orientam a partir da capacidade individual de construção ou elaboração de superação, mas, conduzem o aconselhando à uma decisão e uma ação específica e padronizada.

3.4 Pessoalismo (ACP) & Aconselhamento Cristão

O pessoalismo ou terapia centrada na pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, considera que o indivíduo tem em si uma tendência atualizante, ou seja, uma capacidade natural de se curar ou de se ajustar às mais diferentes situações, de modo a aprimorar o self. A importância deste aprimoramento se deve ao fato de que o self é tido como a essência da personalidade humana, de modo que, o autodiscernimento apresenta-se como chave para o desenvolvimento do indivíduo (SCHULTZ, 2002, pp.316-317).

Na perspectiva do pessoalismo, pessoas psicologicamente saudáveis percebem a si mesmas, então, não se sentem ameaçadas em seu autoconceito. Isto ocorre com aqueles que receberam considerações positivas e portanto, não sentem necessidade de “internalizar condições de merecimento” (SCHULTZ, 2002, p.321) para realizar o self e adquirir pleno funcionamento. Este fato indica também que o indivíduo não apresenta incongruência, que seria a dificuldade de perceber e vivenciar o verdadeiro self.

O trabalho de Rogers é auxiliar o cliente, através do aconselhamento centrado na pessoa e não no problema. A intenção é de desenvolver empatia em meio ao processo de acolhimento, criando uma identificação com o indivíduo, o que facilita para que o mesmo se compreenda e permita o processo natural de atualização do self, gradativamente, em meio ao processo terapêutico. Assim, o indivíduo adquire maior facilidade de se aceitar e a partir disso, gerar condições de enfrentar as dificuldades do mundo experiencial (MORATO, 1999, p.109).

O aconselhamento cristão, segundo Collins (2004, p.45-46), tem como objetivo gerar:

  • Autoconhecimento, porque compreende a necessidade do indivíduo de se entender,  para posteriormente alcançar cura;
  • Comunicação, porque reconhece a necessidade de expor os sentimentos, pensamentos e emoções de modo preciso;
  • Aprendizado e mudança de comportamento, pois entende que as pessoas agem de acordo com aquilo que aprenderam;
  • Auto-realização, devido à necessidade humana de desenvolver o próprio potencial;
  • Apoio, que é ferramenta facilitadora ante as dificuldades decorrentes no processo de realização pessoal; e
  • Integridade espiritual, por reconhecer a influência da dimensão espiritual em relação aos problemas humanos.

A idéia principal é de que o conselheiro deve: saber dar atenção; desenvolver habilidades de bom ouvinte; responder objetivamente àquilo que foi ouvido comprovando o comprometimento com a pessoa; saber como conduzir, comentar, perguntar, confrontar, informar e interpretar a fala do aconselhando, de modo que o mesmo possa aprender durante o processo de aconselhamento (COLLINS, 2004, p.48-51).

Relação entre Pessoalismo e Aconselhamento Cristão

O pessoalismo está alicerçado na construção e manutenção do self, ou seja, da característica individual que torna uma pessoa única. A idéia é de personalidade e de capacidade criativa, bem como de idiossincrasia e que precisa, na perspectiva rogeriana, ser reconhecida, aceita e desenvolvida, para que o indivíduo alcance cura e qualidade de vida em todas as perspectivas.

O aconselhamento cristão segue o padrão de autoconhecimento como base para o reconhecimento da dimensão espiritual e da necessidade da mesma para a constituição humana saudável.

 O conhecimento de si, de todas as mazelas e qualidades individuais formam a esfera de atuação destas linhas de aconselhamento, que consideram a liberdade e capacidade humana de decisão, como essenciais para o processo de formação, cura e saúde, mental e espiritual do ser humano.

Relação geral entre os processos

De modo geral, o acompanhamento religioso se apresenta como aconselhamento pastoral, porque tem como princípio a comunicação da palavra de Deus. Assim, difere-se de perspectivas como a psicanálise ou qualquer outra linha psicológica. No entanto, tem como objetivo, ajudar as pessoas a ajustarem-se melhor consigo mesmas e seus ambientes. E essa ajuda pode ocorrer individualmente, em família, ou em grupos afins, com ambiente estruturado, e programas de autoconhecimento, com vistas a superação de crises (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, pp.208,209).

Esta característica de atuação com ambientes estruturados e trabalhos individuais, familiares ou em grupos, também são adotadas nas orientações psicológicas, com objetivo de fundamentar as relações e constituir, indivíduo e sociedade.

Como se pode perceber é possível realizar o processo terapêutico de diversas maneiras, inclusive, em parceria com estruturas eclesiásticas. Para maior esclarecimento sobre a atuação do terapeuta que trabalha em comunidades terapêuticas confessionais, é importante que se fale mais detalhadamente, ao menos sobre uma, dentre as perspectivas citadas. O trabalho humanista, de Carl Rogers, apresenta duas especificidades que favorecem o acompanhamento ao dependente internado em uma instituição religiosa: 1) ênfase na valorização de Si, dificuldade característica do dependente, citada e explicada no capítulo primeiro deste trabalho; e 2) facilidade de aplicação das técnicas da ACP, devido ao fato de que a abordagem partilha de princípios estruturais semelhantes a características da ética cristã, em aspectos  gerais.

3.5 Abordagem centrada na pessoa ou pessoalismo cristão?

A abordagem centrada na pessoa é uma teoria sustentada pela compreensão de Carl Rogers de que as pessoas têm em si mesmas, a capacidade de resolverem seus conflitos internos, desde que consigam uma oportunidade e um ambiente adequado para isso. Rogers afirma que existe uma tendência, chamada de atualizante, que move o indivíduo em direção ao desenvolvimento de suas potencialidades, em busca da própria conservação e/ou enriquecimento. (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Segundo Rogers, essa tendência atualizante é uma característica humana semelhante a princípios fundamentais das plantas e dos animais, no que diz respeito à constituição biológica, de maneira que, a capacidade de crescimento e desenvolvimento permanece inerente no ser e, portanto, sempre que o ambiente e as condições favoráveis existirem, essa capacidade entrará em funcionamento (MOREIRA, 2007, p.53).

A compreensão de Rogers se relaciona à visão cristã, no sentido de entender a existência humana, como parte da criação. Entender o indivíduo como um ser que compartilha das características de surgimento, manutenção e sustento vital, a partir de uma questão interna (no caso, a presença do Espírito de Deus no homem) que favorece a cura, crescimento, ajustamento, etc. desde que não haja empecilhos externos.

Por isso, o conselheiro deve favorecer para que o cliente alcance a condição de se aceitar, de expressar seus sentimentos e atitudes, identificando diferenças individuais, sem, no entanto, comparar-se a outros. É necessário que o terapeuta desenvolva uma compreensão empática, ou seja, não apenas ouvir, mas, tentar perceber as reações do cliente ante a cada situação compartilhada e transmitir essa percepção ao indivíduo (ROGERS, 1983a, p.33).

Rogers afirma que a importância da empatia no processo de aconselhamento, deve-se ao fato de que as pessoas conseguem apresentar maior consideração por si, quando percebem que outros a aceitam e a compreendem (ROGERS, 1983a, p.39). A compreensão empática reflete as informações apresentadas pelo cliente a ele mesmo. Esse reflexo proporciona o autoconhecimento e por consequência, ajuste vivencial (HIPÓLITO, 2010, p.44).

Em outras palavras, podemos dizer que, a função do conselheiro é de agir como um espelho no qual o cliente deve enxergar a si e suas vivências, de modo mais objetivo. A partir desta compreensão, o indivíduo torna-se capaz de assumir seus problemas de forma mais adequada e responsável, porque se sente em uma situação segura para caminhar em direção à maturidade e se libertar das dificuldades (ROGERS, 2000, p.11-19).

Este aspecto também pode ser percebido em algumas ações de Jesus, que, considerava o indivíduo com todas as suas mazelas, independente do que a sociedade da época considerava pecado ou erro. A aceitação de Cristo para com os outros era incondicional e isso proporcionava confiança na relação estabelecida, de modo que as pessoas sentiam-se livres para falar de suas dores e dificuldades. Sentiam-se acolhidas e consequentemente, curadas.

Schultz afirma que, para Rogers, os processos avaliativos da psicologia tornam o paciente dependente, porque cria uma atmosfera de autoridade em torno do terapeuta. E, a partir do momento em que o terapeuta toma conhecimento dos problemas do cliente, o paciente age como se não fosse mais necessário se preocupar com o problema, pois, o alvo agora é seguir a orientação do especialista com a certeza de que tudo será resolvido (SCHULTZ, 2002, p.325).

Por isso, o princípio de Rogers está sustentado na premissa de não contar com uma estrutura teórica determinada, a partir da qual o problema do cliente seria enquadrado, para o desenvolvimento de algum mecanismo de ajuda. O importante é entender e aceitar o valor da pessoa. Logo, o terapeuta não deve expressar julgamentos nem dar conselhos, apenas concentrar-se no cliente, para que este consiga se perceber no terapeuta, de modo a reavaliar suas relações e possivelmente mudar de comportamento (SCHULTZ, 2002, p.325).

O terapeuta atua como facilitador. A sensação de segurança produzida pela empatia do conselheiro será suporte para que o cliente encontre em si mesmo as condições de superação para os problemas (SCHEEFFER, 1976, p.26).

Rogers abre mão de qualquer tipologia de personalidade ou de conceitos psicológicos específicos sobre o ser. Mas, tinha como objetivo, esclarecer o que é e como se estrutura uma relação psicológica que colabore para que o cliente alcance uma visão adequada de si mesmo, para que este consiga progredir a partir de sua própria compreensão (ROGERS, 1987, p.14).

A personalidade, conforme Rogers é o resultado de experiências vivenciadas pelo indivíduo, sendo que a pessoa é o centro dos eventos e consequentemente, influencia e recebe influências destes.  Logo, estes eventos tornam-se concretos para aqueles que o vivenciam (ROGERS, 1961, p.23).

Porém, a construção deste ser, ou como Rogers afirma, a construção deste Si-Mesmo, não é apenas uma percepção de si, mas, uma relação entre a vivência e compreensão, ou a vivência a partir da compreensão (ROGERS & WOOD, 1978, p.197).

De modo semelhante, a visão geral do cristianismo considera que não se deve preocupar com a personalidade, como se fosse algo imutável, pois, a vivência proporciona mudança de conduta. Assim como o apóstolo Pedro, tornou-se grande homem de fé, a partir dos percalços da negação trina de Jesus e da aceitação que recebeu de Cristo ainda na cruz. Cada indivíduo é considerado único e necessitado de um processo distinto de apoio.

Assim, depois da compreensão da aplicabilidade do método de Rogers junto à instituições confessionais, é preciso pensar as duas vertentes de atuação do terapeuta. Dependente químico e familiares (co-dependentes).

3.5.1 Aconselhamento centrado no dependente químico

Podemos dizer que a empatia (ROGERS, 1983a, p.33), enquanto ferramenta do aconselhamento centrado na pessoa pode proporcionar ao indivíduo dependente químico, a segurança necessária para aceitar o mundo real como real (GIDDENS apud Bessa, 2005, p.44), porém, não a partir das relações humanas, mas, a partir da tendência atualizante, ou seja, a partir de si mesmo (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Ao considerar a capacidade humana de crescimento e enriquecimento intrínseca, desde que se encontre o ambiente favorável (MOREIRA, 2007, p.53), é possível que o dependente consiga a partir do aconselhamento, tudo o que precisa para se estruturar e crescer, sem precisar esperar bons referenciais externos (SCHMIDT, 1976, p.25).

A partir do conhecimento pleno, desenvolvido por meio da ação reflexa do terapeuta, a pessoa dependente pode alcançar a condição de mudança e de reestruturação de vida (HIPÓLITO, 2010, p.44), de modo que não mais aguarda por referenciais, mas, torna-se referencial (ROUANET, 1987, p. 233).

Este conhecimento pleno proporciona também a diminuição da curiosidade (LIBÂNIO, 2004, p. 159), pois a mesma é sensação relacionada ao desconhecido. Portanto, o autoconhecimento promove a prevenção do uso de drogas, no que diz respeito à pessoa que ainda não utiliza, e redução de recaídas para os que estão diminuindo o uso.

Se a condição de dependência pode ser desenvolvida por diversos fatores como insatisfação com a vida, personalidade fraca, necessidade de prazer inerente ao ser humano e influências da modernidade (CARMO, 200, p.143), é imprescindível que seja desenvolvido um acompanhamento centrado na pessoa dependente e não nos problemas decorrentes da utilização de drogas, para que o dependente não redirecione a dependência de drogas para uma dependência do terapeuta (SCHULTZ, 2002, p.325).

3.5.2 Terapia familiar

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

Considerações Finais

Durante o desenvolvimento desse trabalho ficou evidente a complexidade das situações que envolvem o dependente químico, bem como as dificuldades encontradas para propiciar um tratamento que seja apropriado.

Tal compreensão fica cada vez mais imprecisa devido ao fato de que a modernidade, marcada por relações momentâneas e utilitárias, influencia diretamente na fragmentação de conceitos e estruturas sociais.

Essa despreocupação para com o próximo gera uma busca individual que sofre influências do coletivo, pois, enquanto ser social, o indivíduo participa se envolve e responde de modo relacional às estruturas sociais em que está inserido, logo, o pensamento vigente na modernidade faz parte da formação do caráter do indivíduo. Por isso, o ser humano não se preocupa em como buscar aquilo de que necessita, de modo que, se entender que é preciso, abre mão de limites, ética e moral, para alcançar seu desejo.

É a partir do rompimento com esses limites, que o indivíduo geralmente, encontra, conhece, experimenta e se entrega à droga. Desse modo, passa a ser dominado por estímulos e sensações produzidas pelas substâncias químicas utilizadas, e, gradativamente, perde qualidade de vida em todos os aspectos, conforme os efeitos da substância escolhida pelo usuário. Esse abandono de si pode conduzi-lo a uma posição indesejável, pois, em muitos casos o usuário, adquire má aparência, passa a ter cheiro desagradável, modifica a maneira de conversar, torna-se inconveniente, e, por fim, pode chegar ao rompimento com as leis, numa tentativa de manter seu vício.

Pode-se afirmar que um acompanhamento compromissado, individual e relacional, possibilita ao dependente químico a organização pessoal necessária para um desenvolvimento integralizado.

É perceptível que a característica da dependência química, enquanto situação que considera a sujeição do indivíduo a algo ou alguém, bem como a necessidade humana de apoio para a organização temporal, social e psicológica – que deve ser desenvolvida em si, mas, a partir do outro – pode ser trabalhada em um processo terapêutico que leva em conta as necessidades intrafamiliares, a partir da compreensão empática. Isto porque, o terapeuta facilita ao grupo familiar, a interpretação das diferentes vivências e das necessidades de cada um.

Em relação aos referenciais que podem influenciar o indivíduo, podemos afirmar que, o enriquecimento familiar proporcionado pela aceitação dos papeis familiares e do valor de cada pessoa, pode promover condições para que cada membro do grupo torne-se referencial um para o outro, e assim, não haja mais a necessidade de busca de referenciais, mas, a potencialidade de ser referencial.

A compreensão de que as dificuldades devem ser aceitas e trabalhadas pela família – mesmo que num primeiro momento uma única pessoa busque o terapeuta e, posteriormente, o grupo se permita ser auxiliado – funciona como ferramenta de apoio contra a ideia de buscar soluções rápidas para os problemas em comprimidos ou ações emergenciais – ação esta que funciona como fator de risco para o desenvolvimento da dependência e codependência química.

A aplicação do MINI utilizada neste trabalho contribui para que os esforços no sentido de auxilio do tratamento dos dependentes tenham uma base mais concreta, a partir de interpretações gráficas sobre a direção e velocidade com que a dependência química está se desenvolvendo no país.

Além disso, o resultado da aplicação do MINI confirma argumentos apresentados por pesquisadores da área, sobre as características dos usuários e suas relações sócio familiares e isso confirma a necessidade de um apoio terapêutico familiar e não individual. A atenção voltada para com a família possibilita que o grupo desenvolva um ambiente equilibrado entre as múltiplas relações intrafamiliares e diminui o risco de que algum dos integrantes do grupo torne-se dependente químico ou mantenha-se em uso de substâncias químicas, como tentativa de refugiar-se de atritos e colusões.

Assim, a avaliação do genograma e a observância de possíveis farmacologias utilizadas em meio ao processo terapêutico devem ser observadas com cuidado, para que o terapeuta não deixe de perceber o quanto as identificações de família, realizadas por meio do genograma, ou os efeitos dos medicamentos, que por ventura o dependente esteja utilizando, interfiram nas ações do aconselhando, seja positivamente ou negativamente, de modo a afetar as intervenções do terapeuta.

É possível perceber o quanto os instrumentos de avaliação psicológica podem ser úteis para o desenvolvimento de uma intervenção eficaz, a partir da visão mais adequada do problema característico do indivíduo, grupo ou patologia específica.

Mas é importante lembrar que, para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta à compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É imprescindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E assim construir suas observações, ponderações e considerações, de modo mais neutro possível.

Assim, é possível perceber a presença de comorbidades psiquiátricas associadas à dependência de substâncias psicoativas e identificar a frequência em que ocorrem, bem como alguns dos sintomas que aparecem associados de forma especial a estas patologias, como sintomas de ansiedade e depressão.

A presença de transtornos psiquiátricos torna-se um dos fatores que compromete efeito do tratamento com pacientes dependentes químicos. Por isso, o diagnóstico apropriado desses transtornos associados pode proporcionar intervenções terapêuticas mais adequadas na interrupção da conduta de consumo de substâncias, amortecendo a ocorrência de recaídas e proporcionando melhora no funcionamento social e familiar.

Em relação às perspectivas religiosas que atuam como ferramenta de ajuda, notamos que alguns casos, a ligação entre as linhas religiosas e psicológicas de orientação ficam evidentes – como no caso da psicanálise e da cura do passado, onde se percebe a influência da psicanálise na vida do fundador da cura do passado. Em outros, essa ligação não fica tão clara, porém, pode ser percebido ante a semelhança no desenvolvimento de técnicas e mesmo na maneira como compreende o problema e pessoa ou cliente, como no caso do pessoalismo e o aconselhamento cristão.

A semelhança ocorre até mesmo no sentido em que a orientação é desenvolvida, ou seja, diretiva ou não, como no caso do behaviorismo e do aconselhamento bíblico, ambos diretivos, determinantes.

Diante disso, podemos afirmar que as linhas de aconselhamento e orientação relacionadas, podem ser apresentadas como estruturas ou processos da relação de ajuda, que, independente de serem psicologias, ou simplesmente terem influências psicológicas, atuam em direção à necessidade humana de apoio e orientação.

Pode-se dizer que a abordagem centrada na pessoa é uma ferramenta particularmente adequada para o cuidado com o dependente químico, porque considera a questão de maior significado para o indivíduo fragilizado e suscetível ao abuso do uso de drogas: a autoestima construída a partir do autoconhecimento, proporcionado pela compreensão empática do terapeuta.

A postura desenvolvida por Rogers, para auxiliar o ser humano em seu crescimento e enriquecimento, a partir das potencialidades intrínsecas, favorece para que o indivíduo se resolva sem necessitar de referenciais externos ou de condições sociais específicas, mas a partir daquilo que já existe dentro do ser e que, no caso do dependente químico, havia sido fragilizado ou momentaneamente impedido de se desenvolver.

Um diferencial desta abordagem está no fato de que, enquanto a mudança ocasionada por uma motivação externa pode ser revertida de acordo com futuras circunstâncias adversas, as alterações de comportamento, geradas por questões internas de auto compreensão, não ficam sujeitas as intempéries sociais ou crises de ordens familiares.

A segurança advinda dessa nova postura, além de proporcionar capacidade para superar adversidades, gera a motivação necessária para continuar se desenvolvendo e se enriquecendo por meio de novas compreensões, geradas a partir de novas vivências, formando um círculo eterno de compreensão e crescimento.

E esse movimento constante de vivência que leva à compreensão e compreensão que leva à vivência, forma uma estrutura de segurança para que o indivíduo não tenha necessidade futura de buscar refúgio em substâncias que produzem alívio passageiro das sensações sem, contudo, resolver o verdadeiro problema.

Logo, é perceptível que a abordagem centrada na pessoa realmente pode alcançar resultados extremamente positivos no acompanhamento para com dependentes e codependentes químicos, tornando-se um possível caminho de apoio. Seja unicamente pelos trilhos da psicologia, seja acompanhada pelo aconselhamento cristão.

Este trabalho pretende observar a estrutura da dependência química, a configuração da atuação psicológica de ajuda ao dependente químico, bem como a possibilidade da contribuição religiosa, junto a abordagens psicológicas de apoio e orientação ao dependente químico e codependentes. Para isso apresentamos as características da pessoa enquanto ser humano e suas fragilidades. Fazemos um breve comentário acerca da pessoa enquanto Ser Dependente e pontuações sobre o processo de desenvolvimento e instalação da dependência química. Realizamos pontuações sobre a dependência química no que diz respeito a características socioculturais e familiares, além de fatores de risco para o abuso do uso de substâncias químicas. Apresentamos um breve histórico do desenvolvimento e validade do instrumento de avaliação psicológica, MINI, e da entrevista psicológica, acompanhado pelos teóricos mais reconhecidos nesse processo, que auxiliam no diagnóstico e orientação do processo terapêutico. Além da apresentação de características e especificidades de algumas abordagens psicológicas. Devido ao fato do tratamento a dependentes químicos no Brasil (por meio de comunidades terapêuticas) apresentar quase sempre uma perspectiva religiosa, pontuou-se sobre algumas linhas de aconselhamento psicológico, relacionando-os com processos de orientação cristã, na intenção de reconhecer as semelhanças básicas destes processos de ajuda, por meio da apresentação de idéias mais conhecidas da psicanálise, do behaviorismo, da logoterapia e do pessoalismo (ACP), seguidas da apresentação das orientações cristãs de cura do passado, aconselhamento pastoral, aconselhamento bíblico e aconselhamento cristão. Após a breve apresentação de cada orientação relacionada, são realizadas considerações sobre algumas das semelhanças encontradas. Por fim, apresentamos um breve relato sobre o processo terapêutico centrado na família e a compreensão sistêmica do processo terapêutico, bem como seus aspectos e alvos mais conhecidos. E seguimos com considerações sobre a funcionalidade das perspectivas terapêuticas centradas na família, quando relacionadas especificamente no trato de famílias compostas por dependentes químicos.

Palavras chave: Psicologia, Religião, Dependência Química.

Introdução

A proposta deste trabalho é discutir aspectos relacionados à compreensão e estruturação do cuidado ao dependente químico. Pode-se afirmar que o problema referente a este cuidado está relacionado a uma questão básica: “A psicologia pode considerar a religião como contribuinte no processo de recuperação de dependentes químicos?” Acredita-se que a metodologia mais adequada para desenvolver essa análise é a comparação entre algumas das orientações religiosas e psicológicas mais reconhecidas, na tentativa de entender as semelhanças dos processos.

Esse questionamento ocorre devido ao fato de que a dependência química é uma realidade conflituosa da modernidade tardia [01], não apenas em grupos específicos, mas, em toda a sociedade, inclusive na igreja. Assim, por vezes, líderes religiosos acabam por intervir em meio ao processo de apoio a dependentes químicos, através de casas de recuperação mantidas por igrejas.

Por isso, é comum perceber alterações religiosas intensas em dependentes internados em comunidades terapêuticas. Essas alterações merecem atenção especial, porque, o dependente químico, em tratamento, apresenta dificuldades com a ansiedade, depressão, ondas de alegria ou tristeza repentina, sensibilidade às palavras, conflitos de interesses, insegurança, desconfiança, dentre outras situações concernentes, a transição de um mundo ilusório, gerado gradativamente pelas sensações produzidas por drogas a uma realidade de fatos e obstáculos que devem ser enfrentados e vencidos de maneira responsável, ética e racional. O indivíduo parece apresentar dificuldades em manter sua estabilidade em múltiplas situações adversas, ou diante de algum tipo de pressão com a qual não esteja acostumado e, como tentativa momentânea de aliviar a tensão, recorre a drogas que produzam bem estar ou alívio. Lidar com o dependente e ajudá-lo a resolver seus problemas de adequação e sentido para a vida não é tarefa fácil e percebe-se que muitas comunidades eclesiásticas não sabem como trabalhar com a dependência.

Essa pesquisa é justificada por um fato específico. Não é difícil perceber que em alguns grupos religiosos o dependente químico é visto como alguém possesso, que precisa apenas afirmar-se convertido à determinada religião para ser liberto do mal e em consequência ficar livre das drogas.

Muitos fazem esta declaração de fé enquanto experienciadores de um processo catártico em meio a um culto religioso. Essa catarse proporciona prazer e, quando o período de prazer passa e o indivíduo se depara com as dificuldades naturais, sem um acompanhamento ou apoio, ele volta ao uso das drogas com um agravante, a cobrança da comunidade religiosa. O usuário passa a ser visto como alguém que ainda não foi liberto e precisa de oração, ou como uma pessoa que despreza o poder de divino manifestado sobre ela, no entanto, essa maneira de perceber o usuário, não apenas é errada, mas, prejudicial ao verdadeiro processo de ajuda e crescimento que esta pessoa necessita.

Considerando os fatos citados, pode-se dizer que há uma necessidade de um trabalho contínuo, um acompanhamento que produza uma compreensão real da dependência química e das limitações próprias, bem como da busca por crescimento pessoal e autovalorização, identificando e tratando as especificidades humanas de relacionamentos.

São objetivos desse trabalho: pontuar sobre as principais causas para a dependência, identificar as características dos dependentes químicos, analisar os tipos, as reações e os prováveis níveis de dependência gerados por substâncias químicas e reiterar a necessidade de um acompanhamento psicológico que se interesse pelo aconselhamento qualitativo no trato do dependente químico juntamente com possíveis processos de ajuda religioso oriundos de ações psicológicas.

Na tentativa de alcançar o objetivo citado, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, acrescidas de consulta a documentos virtuais, além da utilização de um genograma organizado a partir da família de um dependente químico [02].

O trabalho é composto por um texto organizado em três capítulos, além da introdução e conclusão. Inicialmente são destacadas características acerca da dependência. Nota-se questões referentes às necessidades básicas do ser humano, quanto ao relacionamento com autoridade, busca de orientação e prazer como resposta à orientação, das quais o indivíduo é naturalmente dependente. Esses fatores podem estar relacionados à dinâmica de vida na modernidade, portanto, a mesma é apontada como um dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas. A atualidade é marcada por inconstâncias e múltiplas compreensões de certo ou errado, o que dificulta o estabelecimento de padrões, limites e valores socioculturais e espirituais, e isso gera no indivíduo uma situação de fragilidade e insegurança que o conduz à possibilidade de se tornar usuário de drogas e provável dependente químico.

No primeiro capítulo o dependente é apresentado como ser humano fragilizado em questões psicológicas, sociais, orgânicas e espirituais, fragilidade essa, que conduz a ações de fuga da realidade e de busca de sentido para viver. Nessa fuga da realidade ou busca de sentido, destaca-se a representatividade das drogas na vida do usuário. Contudo, os efeitos de diversas drogas contribuem para que esse indivíduo permaneça preso num círculo vicioso que gira em torno da ausência e busca de prazer e sentido para vida, de modo que essa fuga e/ou busca nunca terminam.

O segundo capítulo destaca as características da avaliação psicológica em meio à dependência química. Isto, a partir da apresentação do instrumento de avaliação MINI – que foi validado no Brasil e é largamente utilizado para mensurar gravidade e intensidade do abuso do uso de substâncias psicoativas – a partir de uma aplicação realizada por Silva. Além disso, a intervenção psicológica é apresenta por meio da informação sobre o processo da entrevista psicológica, acompanhado por orientações de possíveis problemas para a execução do procedimento e as diferenças do processo em psicoterapias breves.

Para concluir, foram trabalhadas diferentes abordagens psicológicas de acompanhamento, seguidas por comparações para com as perspectivas religiosas de orientação mais conhecidas, tendo em vista o aspecto terapêutico dos sistemas. O trabalho é fechado com a explanação mais detalhada sobre o procedimento psicológico humanista de Carl Rogers, denominado ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), que considera todas as vivências – inclusive as vivências religiosas – como ferramenta essencial para o desenvolvimento do chamado empoderamento de si. Estado necessário para o crescimento e cura do indivíduo.

A relevância da pesquisa está relacionada às proporções alcançadas pelo abuso do uso de drogas, que reflete diretamente no desenvolvimento e manutenção da situação de dependência química do ser humano na atualidade, e, do aumento numérico desordenado de comunidades terapêuticas religiosas, que desenvolvem trabalhos variados, com resultados incertos; o que pode proporcionar uma situação agravante quanto à identificação adequada da expansão e controle da doença no Brasil.

1 Dependência Química

Ao considerarmos a modernidade como período marcado pela carência de referenciais, o que gera instabilidade, ausência de rumo e de princípios de autoridade para o indivíduo, podemos afirmar que o ser humano é afetado pelas características desse tempo histórico, tanto emocionalmente quanto na maneira de agir, compreender e valorizar as pessoas, situações e coisas (SAFRA, 2005, p.7).

Tal mudança no modo de agir se deve, segundo Frankl, ao vazio existencial que também é proveniente da atualidade e sua falta de referenciais (FRANKL, 1987, p.123). O que dá sentido a vida é entendê-la enquanto missão individual, ou seja, cada pessoa deve considerar que existe um sentido para a vida do indivíduo e não um sentido para a vida de modo geral (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

A busca de sentido específico para a vida do indivíduo o conduz a compreensão de um trabalho pessoal a ser executado, e este trabalho, tarefa ou missão, não apenas traz sentido a vida, mas serve de estímulo para que o ser humano vença as dificuldades advindas dessa tarefa (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.19).

Frankl afirma ainda que, na busca pela conclusão dessa missão específica, o sofrimento é quase inevitável, mas, diante do sofrimento, o ser humano tem a oportunidade de se transformar naquilo que quiser, e que tem, em si, potencial para ser bom ou ruim, precisando apenas escolher no que quer se tornar. O indivíduo apresenta uma perspectiva de autoridade ou poder sobre si mesmo, que atua a partir de valores criadores, vivenciais, e de atitudes (FRANKL, 1987, p.149).

Os valores são criadores quando se referem a habilidades criativas, intelectuais ou artísticas, são vivenciais, porque dizem respeito à relação com a natureza, com o outro e com Deus, e os valores de atitudes, por sua vez, referem-se à decisão pela ação adequada ante um sofrimento que não se pode evitar (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20).

Além disso, percebe-se que o sofrimento apresenta um aspecto positivo referente à avaliação ou descoberta sobre o sentido da vida, pois, “a preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial” (FRANKL, 1987, p.120) e essa angústia conduz o indivíduo à busca de uma razão pela qual viver, ou seja, quem tem sentido para viver, encontra forças para suportar quase toda e qualquer situação ou adversidade, de modo que o ser humano é capaz de viver e até morrer por seus ideais e valores (FRANKL, 1987, p.117).

Notamos que, no sofrimento, o indivíduo tem também a oportunidade de descobrir ou confirmar sua missão específica e colocá-la em prática por meio de habilidades criativas, experiências de vida e atitudes decisivas (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p.20). Quando isso não ocorre, pode-se dizer que a pessoa desistiu de encontrar o sentido de sua vida, ou se deixou levar pelo racionalismo, cientificismo e ativismo moderno, que não oferecem tempo ou condições para que o ser humano trabalhe a partir do sentido de suas atividades (FRANKL apud EINSFELD, 2000, p. 26-27).

Libânio amplia a posição de Frankl, quando afirma que só é possível encontrar sentido para vida inserido em um grupo ou contexto social que estabeleça condutas, mesmo que estas sejam questionadas, pois, limites estabelecidos norteiam decisões e auxiliam na formação de identidade biológica, familiar, afetiva e social (LIBÂNIO, 2004, p.22). Ou seja, é a partir do meio social que o indivíduo desenvolve e experimenta conflitos, e é nesse contexto que ele deve aprender a vencê-los.

Assim, podemos entender que o usuário de drogas vive uma situação de vazio existencial, que o induz à busca por um sentido de vida que lhe dê forças para suportar as adversidades.

Essa busca de sentido possibilita que o ser humano encontre e experimente substâncias químicas, que, inicialmente, respondem à busca desorientada por prazer e segurança, porém, posteriormente fragilizam-no emocionalmente, tornando-o mais suscetível à dependência química.

1.1 Pessoa enquanto SER dependente químico

Carmo afirma que alguns dos fatores de risco para o abuso do uso de drogas, segundo a Organização Mundial de Saúde, são a falta de informação acerca dos efeitos das drogas, enfermidades gerais, insatisfação com a vida, personalidade fraca e fácil acesso às drogas (CARMO, 2000, p. 143).

A relação de dependência enquanto necessidade de prazer inerente ao ser humano, às influências da modernidade para o desenvolvimento da dependência química, devido à crise de identidade, de sentido e valores existenciais, e a ausência de informação ou educação adequadas acerca do uso, abuso e efeitos gerados pelas drogas, favorece a formação de um indivíduo propício ao uso indiscriminado de substâncias, das quais, muitas vezes, não tem controle. O uso dessas substâncias gera dificuldades no desenvolvimento das relações, além de danos fisiológicos no indivíduo.

Giddens afirma que, geralmente, as pessoas se tornam dependentes químicos, devido à ausência de um acompanhamento dentro de padrões de desenvolvimento natural do ser humano, em que um aprende com o outro a aceitar o mundo real como real e adquirir segurança a partir da confiança estabelecida nas primeiras relações humanas (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

Afirma ainda que, as pessoas sofrem influências do meio social em que estão inseridas, e essas influências refletem em suas questões relacionais, sejam no trato da segurança ou insegurança, submissão ou prepotência, satisfação ou insatisfação. E isso, porque a modernidade foge a este padrão de desenvolvimento recusando o relacionamento interpessoal, e, com isso produzem-se a exclusão e a marginalização (GIDDENS apud BESSA, 2005, p.44).

A marginalização deteriora a estrutura do ser humano, minimiza as possibilidades de que o indivíduo adquira bons referenciais, torna-o acessível ao conhecimento, administração e uso da droga e amplia a necessidade de busca de prazer devido à sensação de abandono causada pela marginalidade (SCHMIDT, 1976, p.25).

No que diz respeito ao ser humano enquanto necessitado de referenciais sociais, a atualidade apresenta duas características negativas: a carência de bons referenciais e o marketingda droga.

Sobre os referenciais, podemos afirmar que há uma desvalorização dos relacionamentos interpessoais e das preocupações com limites e ordem, além de um esforço em busca da liberdade e de relações convenientes e utilitaristas, logo, não há uma preocupação ou desejo no indivíduo de se tornar referencial ou exemplo para o outro, e sim, a expectativa de que esteoutro seja referencial para o indivíduo (ROUANET, 1987, p.233, 236).

Quanto ao marketing da droga, importa ressaltar que as propagandas, sejam a favor ou contra o uso indiscriminado de drogas, aumentam a curiosidade dos que veem e isto funciona como facilitador para que mais pessoas procurem experimentar drogas tornando-se possíveis dependentes químicos (LIBÂNIO, 2004, p.159).

Os indivíduos que se tornam usuários de drogas são, geralmente, pessoas que não conseguem administrar bem circunstâncias de conflito, pressão ou rejeição naturais no processo de ascensão e reconhecimento social. São pessoas que não têm ou não sabem como se manter diante dessas dificuldades e por isso, recorrem a substâncias que lhes proporcionem um período de estabilidade e segurança, que, mesmo sendo ilusória, causa a sensação de alívio que o usuário deseja (LEON, 2003, p. 39).

1.2 Característica dependente

No que diz respeito à dependência química, podemos falar que as perspectivas alcançam várias interpretações. Uma delas está associada à situação de sujeição de uma pessoa em relação à outra, de modo que o dependente ocupe a postura de submissão ou se sinta parte de algo, de alguém ou de uma situação (AULETE, 1964, p. 1090).

Uma segunda visão considera a característica natural de dependência do ser humano, a partir da necessidade de organização temporal, espacial, psicológica e também de personalidade, que é inerente ao indivíduo desde a mais tenra idade, e que, só pode ser constituída a partir de referenciais externos, ou seja, a presença de alguém que se torna referencial junto a esse processo (SAFRA, 2005, p. 7).

Em terceiro lugar, existem afirmativas a favor da ideia de que a modernidade tardia atua como motivador de uma conduta que contribui para com o surgimento e desenvolvimento da dependência química. Conforme Rouanet, a atração ou sedução das coisas sobre as pessoas é uma marca da modernidade que influencia no modo de agir e na construção ou desconstrução de valores do mesmo (ROUANET, 1987, p. 233).

A psicóloga Daniela Bessa reforça a compreensão de Rouanet e afirma que o ser humano deseja conquistar status e reconhecimento, seja social e/ou familiar, através da aquisição de bens, mesmo que por meio disso, aconteçam perdas significativas no desenvolvimento de relações profundas e verdadeiras, seja com as pessoas ou mesmo com Deus (BESSA, 2002, p. 31).

Portanto, podemos compreender a dependência química como relação de sujeição, bem como de referência e de sedução. O dependente é a pessoa que se submete a qualquer coisa que lhe pareça importante ou que lhe cause medo, e, a partir disso, passa a seguir os exemplos ou as referências daquilo que se tornou o alvo das expectativas do indivíduo, de modo que este pode se deixar conduzir pela sensação de sedução de tudo o que lhe afeta os sentidos e as emoções (MOREIRA JR, 2011, p.78).

Logo, podemos entender que a dependência química é desenvolvida de acordo com o lugar que as drogas ocupam na vida das pessoas. Assim, o indivíduo pode: se sujeitar à dominação física gerada pela substância; adquirir comportamentos comuns às pessoas que se tornaram referenciais – como o grupo de amigos; e até mesmo, se abandonar ante a sedução causada pelas ilusões proporcionadas por meio das drogas.

1.3 Fatores de risco

É perceptível que algumas situações favorecem para o desenvolvimento e manutenção de situações de dependência química. Alguns dos fatores que são encontrados nos âmbitos sociais e familiares, são características comuns à modernidade.

Benedicto afirma que existe na modernidade um vício pela busca de soluções rápidas e que uma das provas disso é a utilização excessiva de medicamentos, mesmo sem orientação médica. As pessoas de modo geral, acreditam que as drogas – lícitas – resolvem praticamente tudo: da mais simples dor de cabeça, até dificuldades para com estresse e depressão. Esta crença auxilia na modificação da conduta do indivíduo ante as situações de crise e dor, de modo que, este, passa a entender que pode encontrar respostas para seus problemas em comprimidos. Deste modo, acontece a familiarização e facilidade para administração de drogas gerais, o que favorece para que o indivíduo desenvolva um caráter vicioso e possa vir a se tornar um dependente químico, porque os remédios passam a ser vistos como mais fortes que as pessoas (BENEDICTO, 2007, p. 17).

Um agravante pode ser encontrado ao considerar a visão de Nouwen, pois, este afirma que, a sociedade não tem representante ou líderes de modo geral, que sejam exemplos. Isso dificulta a construção social e o crescimento da individualidade constituída a partir de um referencial positivo. Assim, cada pessoa tende a ser seu próprio referencial tornando-se interiorizada e vazia. Ante a isso, os referenciais de grupo ganham força, e, portanto, a dificuldade de exemplos gerais pode se tornar facilitador para que indivíduo comece a seguir os padrões de comportamento do grupo onde estiver inserido e a utilização de drogas pode ser um destes hábitos (NOUWEN apud BESSA, 2005, p. 43).

A perspectiva do prazer também está relacionada como fator de risco. Conforme Freud, o desejo natural de busca do prazer, pode ser motivador para a utilização de drogas. Isso, porque Freud considera a relação funcional da masturbação com a utilização de drogas, ao entender que ambas as situações de prazer são desenvolvidas e manipuladas pelo usuário, em busca de satisfação pessoal e intensa, sem preocupação para com o outro (FREUD apud MARZANO, 2007).

O psiquiatra Eduardo Kalina reforça esta perspectiva quando afirma que o erotismo oral é constante e intenso, durante toda a vida do ser humano e que está particularmente presente nos casos de drogadicção, mesmo quando a substância não é ingerida pela boca. Assim, é mais fácil entender porque algumas pessoas sentem-se seduzidas ao uso contínuo de drogas, mesmo que o prazer seja momentâneo e ilusório (KALINA, 1983, p. 29).

Além disso, percebemos que alguns fatores de risco estão diretamente relacionados às perspectivas familiares (LEITE, 2005, p.40). Dentre as quais, podemos destacar: o nível do envolvimento afetivo dos pais em relação aos filhos; a estrutura hierárquica constituída no âmbito familiar; e o contexto doméstico, ou seja, o fato de os pais fazerem, ou não, uso abusivo de substâncias químicas (HUTZ, 2007, p. 174, 175).

Isto é importante porque quando se fala em violência familiar, por mais causas que possam existir, geralmente podemos dividir em duas grandes áreas: as questões intrafamiliares, ou seja, os relacionamentos de modo geral; e os sociais, dentre os quais se encontram o abuso do uso de substâncias químicas, comportamento considerado comum atualmente (ZAMPIERI, 2004, p.65).

1.4 Farmacologia da dependência

Drogas são substâncias naturais ou sintéticas, que agem diretamente no organismo, modificando suas funções e proporcionando prazer momentâneo (Cf. BENEDICTO, 2007. p. 17).

Considerando que a variedade de drogas de que se têm informações é muito ampla, serão destacados alguns tipos mais comuns, organizados por classes. As drogas geralmente são classificadas como: narcóticos, depressores do sistema nervoso central, estimulantes e alucinógenos.

Os narcóticos, também chamados de entorpecentes, são muito usados na medicina devido ao caráter anestésico de seu princípio ativo. Nessa classificação destacam-se: a morfina, a codeína, a meperidina, e metadona. O ópio e a heroína fazem parte da família dos narcóticos, porém, não são utilizados com fins medicinais (Cf. SANCHEZ, 1982).

Os depressores do sistema nervoso central apresentam sintomas semelhantes à embriaguez. Dentre eles estão: os barbitúricos, remédios mais conhecidos como Gardenal, Vagostencil e Desbutal; a metaqualona, também conhecida como Mesqualon ou Mandrix; tranquilizantes menores, vendidos como Valium, Diempax, Apraz, Frontal, Psicossedim, Rivoltril, Dorminid, Lexotan, Somalium e antidistônicos; solventes, como aguarrás e colas diversas, vendidas em casas de construção; éter e clorofórmio, usado para amenizar as dores de parto até o início do século XX (Cf. MACHADO, 2004).

Dentre os estimulantes, destacam-se: a cocaína, utilizada na oftalmologia no século XIX e com finalidade terapêutica no século XX, tornando-se proibida nos EUA em 1914 (Cf. MACHADO, 2004); o crack, uma forma impura da cocaína; a efedrina, mais conhecida como Rinosteg, descongestionante nasal; anfetaminas, Hipofagin e Moderex, remédios comumente usados por anoréxicos, comprados como Pervitin, Dexedrina e Desbutal que ajudam a controlar o apetite (Cf. MURAD, 1994, p. 59).

Os alucinógenos também são chamados de psicodislépticos. Os mais conhecidos são: LSD, Mescalina, Trixipheidyl, conhecido como Artane e Akineton, que pode ser utilizado contra mal de Parkinson – para PRZEDKORSKI (2002, p. 596), os efeitos do mal de Parkinson podem ser reduzidos com o uso de depressores – e a cannabis sativa, chamada de “alucinógeno menor”, conhecida como maconha ou marijuana (Cf. MACHADO, 2004).

O uso de cada uma destas substâncias altera o comportamento e o funcionamento do corpo do usuário de modo diferente, dependendo do tipo de droga utilizada.

Inicialmente, os efeitos não são muito aparentes, mas, com o uso contínuo, o indivíduo passa a apresentar sinais sociais, emocionais e orgânicos, que indicam não apenas o uso de drogas, mas instalação da dependência, além da necessidade de um cuidado específico.

As questões orgânicas ou fisiológicas são mais perceptíveis diante do uso contínuo de drogas, mesmo que já existam a partir da primeira dose administrada. Cada tipo de substância apresenta um risco específico, por isso as questões serão abordadas a partir das classes já apresentadas, com um destaque para os efeitos dos inalantes.

As pessoas sob a ação dos narcóticos apresentam uma contração acentuada da pupila que pode ficar tão pequena quanto à cabeça de um alfinete. Pode ocorrer paresia – diferente de paralisia, o termo paresia indica uma parada momentânea de órgãos ou tecidos (Cf. ROWLAND, 2002, p. 34) – estomacal e sensação de estômago cheio, como se não tivesse condição de realizar a digestão. Os intestinos também ficam sujeitos à paresia e, em consequência, a pessoa que abusa destas substâncias geralmente apresenta forte prisão de ventre. Com base neste efeito é que os opiáceos são utilizados para combater as diarreias (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007).

Os depressores aumentam as chances de adquirir lesão cerebral, parkinsonismo, cegueira, disfunção renal, disfunção do fígado e insuficiência respiratória, além de promoverem alterações psicológicas (Cf. MACHADO, 2004).

De modo geral, os estimulantes podem causar psicoses, alucinações, impotência, doenças no pulmão, estômago, bexiga, alterações hormonais, pressão alta e até morte súbita (Cf. MACHADO, 2004).

Os alucinógenos têm maior possibilidade de levar à perda de memória, dificuldade de capacidade produtiva -baixo tônus vital, desânimo, cansaço, etc. -, alterações de ordem motora, aumento do risco de infecções, problemas de infertilidade e potência, maiores possibilidades de câncer e aborto, além de cansaço e alterações psicológicas que podem levar ao pânico e até suicídio (Cf. LEMOS, 2007, p. 22).

No caso da maconha, há alterações da percepção temporal e da memória recente, como também aumento do apetite e diminuição do desempenho para tarefas do cotidiano (Cf. JAFFE, 1981, p. 71-72).

Os inalantes produzem reações orgânicas típicas como tosse, irritação no nariz e nos olhos, náusea, vômito, diarréia, dor no peito, dor nas juntas, visão dupla, sensibilidade à luz e até perda de apetite (Cf. JAFFE, 1981, p. 51).

Parece estranho que, diante de reações orgânicas tão agressivas, uma pessoa possa se tornar um dependente químico. Porém, deve-se destacar que essas reações ocorrem gradativamente, de modo que o usuário experimente inicialmente a euforia, relaxamento e prazer que as drogas proporcionam (Cf. VIANA, 2004).

1.5 Reações e níveis de dependência

Os efeitos de cada uma das substâncias químicas utilizadas pelo dependente podem variar de caso a caso, de acordo com a saúde do indivíduo, o quanto ele utiliza, o tipo de droga escolhida, como é administrada: se pela boca, se inalada ou injetada, e do ambiente sociocultural em que ele se encontra. Logo, os efeitos aqui apresentados são prováveis, e como realizado anteriormente, serão apresentados divididos por classes.

Os narcóticos, de modo geral, causam um nível alto de dependência psíquica e física. Considerando a atuação fisiológica dos narcóticos e observando a conduta de diversos usuários, nota-se que não há um comportamento aparentemente agressivo do indivíduo que utiliza tais substâncias, desde que este não seja provocado ou induzido (DEPARTAMENTO DE PSICOBIOLOGIA, 2007). Geralmente os derivados do ópio causam sensações de exaltação, aumento de energia ou euforia, porém, o uso frequente gera uma tolerância aos efeitos, o que faz necessário um aumento na quantidade de droga administrada, bem como a redução dos espaços de tempo entre uma dose e outra na tentativa de alcançar a sensação desejada (Cf. JAFFE, 1981, p. 32).

As drogas depressoras do sistema nervoso central são hipnóticas, sedativas e anti-convulsivas. São indicadas no tratamento de pânico, ansiedade, insônia e dor crônica. Agem como relaxante muscular e geralmente diminuem a censura, mas podem provocar angústia e uma dependência de alta a média, tanto psíquica quanto física (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Normalmente, os estimulantes aliviam a fadiga e despertam a pessoa, provocando sensação de alerta. Em geral, criam alta dependência psíquica e uma possibilidade de dependência física. Vários são os efeitos produzidos pelos estimulantes: sensação de melhora do funcionamento cognitivo, ansiedade, infatigabilidade, dentre outros. A utilização excessiva ocorre devido a dois efeitos marcantes dessas drogas: a euforia e a perda de apetite, por isso, boa parte dos usuários são anoréxicos, o que fez alguns desses medicamentos ficarem conhecidos como “remedinhos para emagrecer” (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

No que diz respeito às substâncias alucinógenas, pode-se afirmar que provocam reações semelhantes a psicoses, desde delírios a perda parcial ou total de percepção da realidade. Essas substâncias não causam dependência física e o grau de alcance psicológico é desconhecido. Dentre estas drogas, destaca-se a maconha, que relaxa, produz sensação de bem estar e vermelhidão nos olhos, induz, na maioria das vezes a ações extrovertidas, mas pode gerar o desejo de isolamento e reflexão, bem como ansiedade ou pânico. A maconha gera uma dependência psíquica moderada (Cf. MACHADO, 2004; SANCHEZ, 1982).

Dentre outros efeitos causados pelos diversos tipos de drogas, podem-se relacionar questões emocionais e situações orgânicas do usuário de drogas.

As características emocionais produzidos pelas drogas também podem variar de indivíduo para indivíduo. Cada substância proporciona uma reação diferente de uma pessoa para outra e o contexto do usuário faz diferença no modo de ação da droga.

Porém, de modo geral, destacam-se alterações no pensamento, perda de memória, ações psicóticas, como suspeita de estar sendo seguido ou de que outros estejam falando e conspirando contra eles, comportamento inconstante e incoerente, irritação, e até excitação sexual persistente (Cf. JAFFE, 1981, p. 32-33).

Outras características que podem ser observadas são a perda da distinção entre o certo e o errado, padrões éticos e morais deturpados, dificuldade em discernir entre o real e o ilusório, sensibilidade extrema a palavras e ações, e baixa autoestima (Cf. VIANA, 2004).

Nota-se que os efeitos das substâncias químicas afetam diretamente a sensação de segurança, de direção e prazer: segurança, porque afetam a estabilidade psicológica e deixam o usuário em expectativa de perseguição; direção, porque deturpam os conceitos e limites sociais; e prazer, porque invadem as experiências naturais do indivíduo, modificando-as até no trato sexual.

Logo, a dependência é apresentada como relação de sujeição, referência e sedução, ou seja, o dependente é aquele que se submete a algo que lhe parece maior, mais significativo, ou que lhe proporcione medo. Desse algo ou alguém, o dependente segue o exemplo, as referências do que lhe chamam mais atenção ou lhe parecem mais importante, ou se deixa levar pela sedução daquilo que lhe afeta e envolve seus sentidos e emoções.

A partir disso, pode-se dizer que a dependência química está relacionada ao lugar que as drogas ocupam na vida do individuo. De modo que este pode sujeitar-se ao domínio orgânico da substância, ter os padrões do grupo como referenciais, ou mesmo se deixar seduzir pela viagem ou pelo mundo apresentado a ele por meio das drogas.  De modo especial, percebe-se que há um diferencial no comportamento desta geração que favorece para que a dependência química seja cada vez mais comum.

1.6 Genograma: família, fator de risco e de proteção para o dependente

O genograma é uma ferramenta essencial para acompanhamento de famílias. A partir da construção e interpretação do genograma é possível avaliar o contexto perceber as melhores formas de intervenção de acordo com o comportamento da família avaliada, para que no momento oportuno, as impressões percebidas por meio do genograma sejam apresentadas ao sistema familiar.

A coleta de informações para a composição do genograma deve alcançar ao menos três gerações. O sistema utiliza regras particulares de simbologia, tanto em relação à estrutura familiar, quanto aos dados demográficos, clínicos e relacionais da família.

É indicado como modelo terapêutico de avaliação, em famílias que apresentem dificuldades com: 1) saúde materna; 2) saúde infantil; 3) problemas de desenvolvimento infantil; 4) dificuldades em relação ao trabalho; 5) doença crônica em algum elemento da família; 6) doença mental em algum indivíduo do sistema familiar; 7) morte de um familiar; 8) consumo de drogas; 9) suspeita de violência; 10) depressão ou ansiedade crônica; e 11) falta de adesão aos planos terapêuticos.

A importância do genograma para a atenção familiar está vinculada ao valor que o sistema familiar apresenta enquanto base de desenvolvimento social para o indivíduo. O modelo terapêutico em questão foi elaborado de modo a contemplar todo o ciclo de vida da família, desde a constituição do sistema, por meio do casamento, até a morte dos cônjuges.

O genograma pode ser desenhado pelo médico, paciente ou por contribuições de ambos, tendo início em uma consulta e deve ser construído a partir da composição e estrutura familiar, considerando o ciclo de vida, os padrões de repetição em gerações, além do equilíbrio e desequilíbrio familiar. Para a constituição deste modelo terapêutico é necessário a utilização de símbolos próprios (REBELO, 2007, p. 314).

A interpretação deve considerar resultados de exames médicos (eletrocardiogramas, por exemplo), existência ou não de padrões de repetição em diferentes gerações, além de observações do ciclo da vida familiar em questão, ou seja, é necessário considerar se a família é composta por recém-casados, se tem filhos adolescentes, etc (REBELO, 2007, p. 314).

Símbolos do genograma

Símbolos do genograma

O genograma surgiu em meio a buscas por compreensões de patologias de filhos em relação à mãe ou pai. Posteriormente a teoria da comunicação humana contribuiu por meio da percepção de incongruências na comunicação, seja verbal ou não verbal, além dos estudos realizados em famílias de esquizofrênicos, que auxiliaram no chamado duplo-vínculo, favorecendo no acompanhamento de filhos esquizofrênicos (PRADO, 2009, p. 233).

Houve um avanço do conhecimento sobre as causas da saúde e da doença psíquica, não apenas do indivíduo, mas, nas relações e interações de membros dos sistemas familiares, em direção diferente à dos modelos até então conhecidos, da perspectiva psicanalítica (PRADO, 2009).

Por um período, houve um destaque no trabalho que considerava a família tri geracional, ou seja, a ênfase da importância dos avôs na família.

A partir disso, a história da família ganha valor e as interações passadas são consideradas como influentes no comportamento dos pais e, portanto, afetam toda a vida familiar. Assim, toda a estrutura histórica da família, tudo o que foi construído no passado, como, abusos sexuais, violências, segredos de paternidade, adoções, mitos e crenças, etc., são avaliados como influenciadores na distorção das interações do tempo presente (PRADO, 2009, p236).

Os anos oitenta também contribuíram para a ampliação da perspectiva do genograma e da terapia sistêmica, pois, o movimento feminista impulsiona o desenvolvimento da terapia familiar feminista, valorizando diferenças de gênero e aspectos particulares do papel da mulher na sociedade, família e casamento (PRADO, 2009).

No entanto, todas as considerações, inclusive sobre as particularidades do papel da mulher, devem ser construídas no genograma em conjunto, terapeuta e família, devem buscar compor a história da família com todas as características e problemas que vierem à tona. (PRADO, 2009, p 237)

As alterações e complementos no processo terapêutico chegam ao ponto de influenciar pioneiros na orientação de família, como, Minuchin, ainda vivo, em sua nona década de vida, autor do livro Dominando a Terapia Familiar, publicado em 2008, considerado estruturalista, reconheceu novas visões pós-modernas e acrescentou ao seu próprio trabalho, a avaliação histórica da família (PRADO, 2009).

Outra alteração histórica que influencia no processo terapêutico de família, está relacionada ao sistema familiar contemporâneo, pois, a configuração de família atual é em maioria, composta por famílias de pais sozinhos em decorrência de divórcios, de nascimentos e adoções por pessoas não casadas, indivíduos criados por avós, grupos familiares de filhos de pais diferentes vivendo no mesmo ambiente devido à  casamentos de divorciados, grupos familiares constituídos por casais homossexuais, famílias que vivem em casas separadas, ou mesmo indivíduos que vivem só (PRADO, 2009).

A estrutura do genograma é constituída por uma imagem gráfica, um tipo de mapa e até desenho da família. Esse recurso é utilizado como ferramenta de apoio para um destravamento do sistema, por meio da observação das dificuldades familiares e dos padrões relacionais (WENDT & CREPALDI, 2008).

A avaliação desse mapa favorece para que o clínico examine as prováveis dificuldades e facilidades do eixo familiar. Assim, um dos trabalhos que se utilizam do genograma é na caracterização e cadastramento de grupos familiares, em órgãos públicos que lidam com auxílio à família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Podemos dizer que o genograma é um “mapeamento gráfico da história e do padrão familiar”, onde podemos perceber: a) estrutura básica; b) demografia; e c) funcionamento e relacionamentos; que formam um gráfico dos dados coletados. O mapeamento expõe as etapas familiares através das gerações, além das estruturas emocionais associadas (WENDT & CREPALDI, 2008).

A função mais importante do genograma é cruzar dados familiares em momentos de avaliação, para acompanhamento adequado em meio aos processos relacionais em meio à terapia (WENDT & CREPALDI, 2008).

Para isso, as informações da família são organizadas em estrutura gráfica, para que se tenha uma visão mais clara da complexidade dos padrões de grupo. Supostamente, os membros do grupo são interdependentes, por mais que sejam idiossincráticos. Portanto, quando uma parte do sistema muda, todos os demais membros são afetados (WENDT & CREPALDI, 2008).

Através desse gráfico é possível identificar mitos e crenças que guiam e formam famílias por gerações, bem como sustentam rupturas de relacionamentos e dificuldades de trato.

Uma das formas de se analisar uma família é pela observação dos subsistemas, fronteiras e demais abstrações que podem ser percebidas entre os membros do grupo ao longo da história de vida. Esta construção abstrata indica uma estrutura familiar e delimita configurações do grupo (WENDT & CREPALDI, 2008).

A dinâmica familiar é a forma de relacionamento estabelecida pelos membros do grupo, ou seja, o modo como desenvolvem vínculos ou tratam seus problemas, os ritos, as regras, definição de ordem e papeis de cada membro da família (WENDT & CREPALDI, 2008).

Os filhos fazem com que a família amplie ou modifique a estrutura interna vigente, o que favorece para o surgimento de novos subsistemas (WENDT & CREPALDI, 2008, p.305).

Enfim, em meio a tantas alterações nas composições de famílias, o genograma segue como ferramenta de auxílio fundamental na construção de um modelo terapêutico que integre e enriqueça as técnicas de apoio a disfunções relacionais.

Em relação à dependência química, o genograma atua como ferramenta de compreensão, pois, a estrutura gráfica proporcionada pelo genograma auxilia no desenvolvimento da compreensão familiar de como a doença surgiu, retirando o estigma do individuo que se tornou dependente químico, por meio de um esclarecimento sobre a realidade patológica de toda a família.

Para exemplificar, será mostrado aqui o genograma de uma família onde foi percebido um histórico de dependência química, inicialmente considerado como algo comum, devido ao fato de bebidas alcoólicas serem drogas lícitas, mas que, proporcionaram o surgimento de dependentes de drogas ilícitas como cocaína e crack.

O dependente titular desse genograma é descendente da junção das famílias O.M. e P.M.

  • Família O.M. (geração de avós)
Família O.M. (geração de avós)
  • Família O.M. (geração de tios)
Família O.M. (geração de tios)
  • Família O.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma

 

  • Família O.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família O.M.
    • Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
Família O.M. - Descendência da mãe do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M. (geração de avós)
Família P.M. (geração de avós)
  • Família P.M. (geração de tios)
Família P.M. (geração de tios)
  • Família P.M.
    • Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do pai do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da primeira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da segunda tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do primeiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência do segundo tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da terceira tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quarta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
Família P.M.- Descendência do terceiro tio do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da quinta tia do dependente químico titular do genograma
  • Família P.M.
    • Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma
Família P.M. - Descendência da sexta tia do dependente químico titular do genograma

Observações sobre o genograma

Alergias, diabetes, dificuldades oftalmológicas, doenças cardíacas e problemas gerais de pressão, são características comuns a quase todos os membros da família.

O número de alcoolistas chegou a quase 56 membros da família e nove foram usuários de drogas (cocaína e crack). Atualmente, a maioria afirma ter deixado as drogas e bebidas por questões religiosas.

Três pessoas manifestaram câncer, sendo que, no caso de M.A. houve manifestação da doença em três momentos distintos e recuperação da saúde, de modo que permanece viva.

Dois casos de distúrbio psiquiátrico foram confirmados clinicamente, porém, foram tratados e recuperados totalmente.

Não existe padrão em relação à conduta escolar. É possível perceber pessoas de todos os níveis de estudo e atuando em diversas áreas, com predominância nas seguintes profissões: Motorista, Professor, Ourives, Pedreiro e Pastor Evangélico.

Em relação à constituição familiar podemos observar divórcios, relações extraconjugais constituídas paralelamente e mães solteiras.

De modo geral, foi percebido que a maior marca da família é a falta de relacionamento e de interesse mútuo. Isto foi comprovado pela dificuldade em conseguir informações dos membros da família por meio de entrevistas, de modo que, a maior parte das informações desse relatório foi adquirida por meio de pesquisas em cartórios e documentos diversos.

Três questões para exemplificar o nível do distanciamento das pessoas que compõem este grupo familiar.

  • Mesmo os dados mais simples não são de conhecimento de parentes próximos. Por exemplo: Em meio à pesquisa nos cartórios foi descoberto que I. P. (avô do titular do genograma) era gêmeo com G. P. (comprovado vivo até a juventude em documento de cartório) e este era desconhecido de seus sobrinhos, filhos de I.P. , que se surpreenderam ao saber da existência de um tio gêmeo do pai.
  • Em meio às tentativas de entrevista de familiares, houve discussões sobre o distanciamento dos membros da família e alegações do tipo… “Há dez anos não vejo meu irmão! E moramos a em bairros vizinhos!”
  • Também por meio de pesquisa em cartórios, foi descoberto que, B.O. , filha de M.A. , foi registrada em nome de A.O. e criada como filha de J.A.
    • Após a descoberta, discussões explicaram que a situação foi causada em decorrência de que, a gestação de B.O. ocorreu na adolescência de sua mãe, que, ainda solteira, não seria bem vista na sociedade da época, portanto, a criança nasceu em outra cidade e foi registrada como filha de uma prima de sua mãe, contudo, foi criada como filha da própria avó. Obs. Mãe e filha ainda vivem e se tratam como irmãs, a família não comenta o assunto.

Diante disso, pode-se perceber o quanto as ações familiares influenciam na formação do caráter do indivíduo, bem como, as circunstâncias vivenciais modificam os valores e interesses das pessoas. Pode-se perceber que, o titular do genograma, cresce em meio a alcoolistas, dependentes químicos, familiares distantes, mentiras, omissões, doenças e brigas, que proporcionam um ambiente favorável para que este se torne suscetível ao abuso do uso de substâncias químicas, como tentativa de refúgio, busca de segurança e mesmo por meio dos referenciais de pessoas estimadas que, já fazem uso de substâncias psicoativas.

 A partir do reconhecimento de uma situação de dependência química instalada, é necessário o desenvolvimento de uma avaliação psicológica com vistas à intervenção para possível auxílio no controle da situação de dependência.

2 Avaliação & Intervenção Psicológica

A psicometria é um ramo da estatística que estuda fenômenos psicológicos. Não se trata apenas de métodos, ela se insere na teoria da medida que trata da utilização de números no estudo dos fenômenos naturais. O processo de avaliação psicológica começa a ganhar estrutura a partir da elaboração de instrumentos de medida psicológica. Assim, a avaliação tende inicialmente a ocupar lugar de diagnóstico nos âmbitos clínicos e de trabalho e posteriormente repercute em todas as perspectivas do indivíduo. No entanto, apesar do desenvolvimento da área e da solidificação de análises e instrumentos, ainda existem críticas sobre os testes psicológicos.

Atualmente, pode-se dizer que, os instrumentos foram atualizados e compreende-se que o conhecimento é adquirido pela relação com o outro e a observação desta relação. Tornando o diagnóstico uma questão, por um lado racional, por outro, empático (NASCIMENTO, 2005, p. 217).

No Brasil, a psicometria ganha um grande espaço de discussão, devido ao modo como os testes veem sendo utilizados, sem o rigor necessário e estudos adequados, de forma que descaracteriza o método e sua cientificidade (NORONHA; BALDO; ALMEIDA; FREITAS; BARBIN; & COZOLI, 2004).

O rigor do método se deve à importância do mesmo, pois, a partir da psicometria é possível mensurar questões individuais em perspectivas legais, como quando um teste serve de base para distinguir entre dano moral e dano psicológico.

O dano moral é identificado como parte da percepção subjetiva de prejuízo em questões de honra, finanças ou de liberdade, enquanto que o dano psicológico está vinculado à saúde, possibilitando desenvolvimento de patologias (ROVINSK, 2005, p.178).

A avaliação psicológica é um dos principais campos da atuação do psicólogo. E isso, porque, a partir dos resultados dos testes, é possível se fazer inferências acerca do comportamento humano, de modo a auxiliar o indivíduo a tomar decisões diante de situações específicas (ÁVILA-BATISTA, 2011, p. 11).

Assim, o teste mais utilizado no Brasil para avaliação psicológica, tanto em relação à gravidade quanto à intensidade de danos, em casos de dependência química, é o MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview). Seu questionário foi validado para a realidade brasileira e, por isso, sua eficácia tem sido continuamente constatada a cada aplicação, de modo que, muitos pesquisadores se utilizam com tranqüilidade deste instrumento.

2.1 MINI: Características e validação do instrumento

Dentre os métodos psicológicos reconhecidos estão o DSM IV TR (2002) a nível clínico e de diagnóstico de dependência química e o SADD (1983) como avaliador de gravidade da dependência química (SOUZA; BITENCOURTT & OLIVEIRA, 2006, p. 111).

O Mini International Neuropsychiatric Interview, doravante designado MINI, é um questionário de auxílio para desenvolvimento de diagnóstico padronizado breve (15-30 minutos). É compatível com os critérios do DSM-III-R/IV e do CID-10 e sua utilização é indicada na prática clínica e na pesquisa em atenção primária e em psiquiatria. Pode ser utilizado por clínicos após um treinamento rápido (de 1 a 3 horas). O MINI Plus, versão mais detalhada, pode gerar diagnósticos dos principais transtornos psicóticos e do humor do DSM-IV (SCHEFFER; PASA; & ALMEIDA, 2010, p.535).

O MINI é estruturado em módulos diagnósticos independentes, para otimizar a sensibilidade do instrumento, na tentativa de diminuição de falso-positivos. Como meio de redução de tempo da entrevista, são utilizadas as seguintes estratégias: observação dos transtornos atuais, para facilitar a escolha da terapia mais adequada no momento; as questões são de resposta objetiva entre SIM/NÃO; questões de entrada exploram critérios obrigatórios para excluir diagnósticos de respostas negativas; as características e sintomas ocasionais de transtornos não são sistematicamente exploradas; e os algoritmos são integrados à estrutura do questionário, permitindo estabelecer ou excluir os diagnósticos ao longo da entrevista (AMORIN, 2000, p. 107).

Foram desenvolvidas duas versões do MINI para responder aos diagnósticos específicos de contextos diferentes:

1) voltado para ensaios clínicos e cuidados primários. O MINI abrange 19 módulos que alcançam 17 transtornos do eixo I do DSM-IV, o transtorno da personalidade anti-social e o risco de suicídio. O módulo Síndrome psicótica descobre os indícios do critério da esquizofrenia, com a finalidade de eliminar a possível existência de um transtorno psicótico. Os outros módulos determinam análises positivas.

2) proposto para a avaliação aprofundada das desordens mentais ao longo da vida, na pesquisa e na clínica em psiquiatria. O MINI Plus explora ordenadamente todos os critérios de abrangência e de eliminação, bem como a cronologia de 23 classes diagnósticas do DSM-IV. O módulo Transtornos psicóticos produz a análise positiva de 7 subtipos de psicoses: (1) transtorno psicótico sem especificação, (2) transtorno delirante, (3) transtorno psicótico breve, (4) transtorno esquizoafetivo, (5) transtorno esquizofreniforme, (6) esquizofrenia, e (7) transtorno psicótico decorrente de uma condição médica geral e/ou induzido por substâncias (AMORIN, 2000, p. 108).

O método utilizado para a validação do instrumento MINI foi o teste de confiabilidade entre métodos.  Era necessário provar a concordância entre o diagnóstico gerado pelo MINI e aqueles gerados por métodos já reconhecidos. Foram escolhidas duas estratégias para validar o novo procedimento diagnóstico: “compará-lo a diferentes critérios de referência e compará-lo ao Best Diagnosis ou LEAD Standard” (AMORIN, 2000, p. 108).

O MINI/MINI Plus foi comparado a questionários padronizados com características distintas, empregados em pesquisas internacionais – o CIDI e o SCID-P – e com a apreciação de psiquiatras. Além disso, foram realizadas análises quantitativas e qualitativas, pela metodologia do LEAD Standard.

2.1.1 Aplicação do MINI e os resultados obtidos junto a Dependentes Químicos

A dependência química é o resultado de uma relação doentia entre um indivíduo e uma substância psicoativa (SPA). Inicialmente o consumo pode ter diversos motivos que possivelmente prosseguirão após o desenvolvimento da dependência. O abuso do uso de SPA, frequentemente desenvolve a dependência e esta, traz consigo, comorbidades psiquiátricas, o que é desfavorável ao tratamento da dependência química. O episódio de um transtorno adicional pode comprometer o diagnóstico, tratamento e prognóstico de ambos os problemas (SILVA; KOLLING; CARVALHO; CUNHA; & KRISTENSEN, 2009, p.102).

Estudos afirmam que um terço dos alcoolistas demonstra ansiedade em níveis significativos. Uma média de 50 a 67% dos alcoolistas e 80% dos dependentes de outras drogas apresenta características semelhantes ao transtorno do pânico, dos transtornos fóbicos ou do transtorno de ansiedade generalizada. Conforme Silva, “pacientes com comorbidade psiquiátrica, principalmente aqueles com transtornos psiquiátricos graves, apresentam maiores taxas de suicídio, agressividade, detenção por atos ilegais, recaídas, internações, mais gastos com tratamento…” (SILVA et al, 2009, p.104).

Para a aplicação do instrumento, Silva realizou uma pesquisa, a partir de 31 pessoas, diagnosticados dependentes de álcool ou cocaína / crack a partir do CID-10 e DSM-IV. O trabalho foi realizado em um hospital de Porto Alegre – Hospital Parque Belém – tendo como critérios de exclusão: 1) a idade abaixo de 18 anos; 2) estado de abstinência de duas semanas; 3) experimentadores e ex-usuários; 4) dependência de outra substância; 5) menos de um semestre de uso regular de SPA.

A pesquisa foi realizada predominantemente por:

  • pessoas do sexo masculino (84%)
  • entre 20 a 56 anos de idade
  • sendo que, 19,4% dos participantes tinham ensino fundamental incompleto
  • 16,1% terminaram o ensino fundamental
  • 16,1% afirmavam ter ensino médio incompleto
  • 29% concluíram o ensino médio
  • 12,9% tinham ensino superior incompleto
  • e 6,5% possuem ensino superior completo.

 Em média, os envolvidos apresentaram 25 dias de abstinência. A coleta de dados durou em torno de 60 minutos e os instrumentos utilizados foram: formulário padronizado, elaborado por Silva, e o MINI Plus (SILVA et al, 2009, p.106).

Como resultado da aplicação do instrumento foi observado que: 1) os participantes do sexo masculino apresentavam maior tempo de abstinência; 2) os dependentes de cocaína / crack, são mais jovens que os alcoolistas; 3) 67% dos envolvidos na pesquisa, afirmavam ter parentes próximos que faziam uso abusivo de álcool e/ou drogas; 4) 38,7% tem pais dependentes químicos; 5) 25,8% são sobrinhos de dependentes; 6) 22,6% são primos de dependentes; 7) 19,4% são netos de dependentes; 8) 12,9% tem irmãos dependentes; 9) 6,5% tem mães dependentes de SPA; e 10) 3,2% tem filho dependente químico. Transtornos mentais foram percebidos em 83,9% dos participantes, além da percepção de comorbidades múltiplas em grande parte do grupo estudado (SILVA et al, 2009, p.108).

A partir da observação e avaliação dos resultados da aplicação do MINI, é possível que a intervenção psicológica seja mais adequada. Ou seja, torna-se mais difícil que o terapeuta promova um direcionamento errado, de modo a prejudicar o dependente. Tanto em relação ao desenvolvimento do tratamento, quanto no que diz respeito ao surgimento de novos problemas. A partir da avaliação, o passo seguinte é a intervenção.

2.2 Intervenção: Entrevista psicológica

A entrevista psicológica é uma ação entre duas pessoas – das quais, um deve ser profissional da psicologia – onde ocorre uma troca de informações, por meio de diálogo em uma comunicação informal e por tanto, os nomes e conceitos atribuídos a esse diálogo são muitos, de maneira que os teóricos da área ainda discutem o tema com intensidade (ALMEIDA, 2004, p. 34).

A expressão entrevista psicológica é efetuada por psicólogos no exercício de suas atividades. E levam em conta, perspectivas e fatores psicológicos percebidos anteriormente, com o objetivo de resolver problemas que habitualmente fazem parte do quadro da psicologia, ou seja, seleção e orientação profissional, pesquisas psicológicas, estudos de opinião pública, exame de personalidade, etc. No entanto, a avaliação psicológica não é uma prática independente de amarrações teóricas que a direcionem, é necessário identificar as perspectivas teóricas adequadas, de acordo com o que deve ser avaliado e o modo como deve ser analisado, além de forma de utilização dos resultados obtidos (SPARTA; BARDAGI; &  TEIXEIRA, 2006, p. 19).

De acordo com Sullivan (1970), a entrevista psicológica é uma comunicação vocal a partir de duas pessoas, integradas numa estrutura terapeuta-cliente e que se desenvolve progressivamente com objetivo de clarificar situações de vida dos entrevistados, vividas de modo especialmente penoso ou valioso, com objetivo de que esta clarificação possa gerar algum benefício para o cliente (p. 4).

Assim, nos atemos ao estudo da entrevista psicológica, com a intenção de pontuar sobre regras que auxiliam para que a aplicação da técnica seja mais adequada, de modo a facilitar o desenvolvimento da análise. Isto porque, só o cliente realmente tem condição de expressar sobre o próprio sofrimento e, portanto, se faz necessário que o terapeuta consiga identificar o problema e conduzir o cliente no processo de ajuda, a partir desta identificação (OLIVEIRA, 2005, p.1).

A entrevista psicológica deve ser realizada através de procedimentos e técnicas próprias e empíricas. É o ponto de encontro entre a ciência psicológica e a prática. Por tanto, é a partir da entrevista que se é possível aplicar de modo prático, os conhecimentos elaborados sobre as perspectivas psicológicas, por meio de um processo de interação (BLEGER, 1998, p. 1).

Todo o aparato instrumental do profissional da psicologia consiste no resultado das elucubrações do paciente, que voluntariamente ou impulsionado por facilitações do terapeuta, se dispõe e falar sobre aquilo que lhe é problema, ou motivação que o levou à clínica psicológica. As palavras do paciente são na verdade o material sobre o qual irá trabalhar na tentativa de uma melhor compreensão do caso (AUGRAS, 2002, p. 82).

As técnicas da entrevista são ferramentas de auxílio para que o paciente se sinta mais a vontade para expor suas questões e para que o terapeuta tenha maior acesso às informações essenciais na elaboração do processo de ajuda. Por meio da entrevista, é possível testar limites, contrapor, confrontar e buscar esclarecimentos para as respostas do sujeito. Por isso, a entrevista clínica tem lugar de destaque incomparável entre as demais técnicas de avaliação (TAVARES, 2002, p. 75).

2.2.1 Primeiras Entrevistas

O objetivo das primeiras entrevistas é identificar os aspectos mais relevantes do caso e a partir disso, identificar a melhor maneira de deseenvolver o acompanhamento.

No decurso destas primeiras entrevistas, o analista deve: 1) escutar e tentar peceber na historia de vida do paciente, os problemas e perturbações a serem trabalhados; 2) avaliar o nível de vontade e condição do paciente para o acompanhamento terapêutico; 3) observar as características psiquicas, bem como a habilidade de verbalizar e tolerar a condição de analise.

A partir disto, se a analise for realmente indicada ao caso, deve ser fixado um modo de acompanhamento, ao estabelecer a duração, a frequência das sessões, a postura do analisado (divã, por exemplo) e a postura do analista (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

O trabalho do analista é o de observar, escutar, compreender, saber esperar e calar-se e no momento oportuno e dar a interpretação que convêm. Após isto, o terapeuta deve comunicar ao paciente o conteúdo latente do discurso deste.

Esta comunicação deve ser elaborada a partir da reunião de elementos separados do discurso. É um trabalho de reorganização e de atribuição de sentido à narrativa do paciente.

Essa devolução organizada das informações do sujeito precisa ser realizada em momento adequado, que este tenha condição de ouvir e de assimilar as informações apresentadas pelo terapeuta. É um trabalho de cooperação na construção de questões interenas do individuo  (DAVIES & HARRÉ citado por PINHEIRO, 2004, p.186).

É importante saber que, as primeiras entrevistas podem desencadear alguns fatores psicológicos. É imprescindível estar atento a:

  • Resistências – dificuldades gerais que o paciente possa apresentar em relação ao desenvolvimento do processo terapêutico.
  • Transferência – ação inconsciente de vivência momentânea das questões que afligem o paciente, de modo que as emoções sejam transferidas do evento, para o terapeuta.
  • Contratransferência – ação de deslocamento das emoções do terapeuta para com o paciente, ante alguma vivência comum ou situação específica do momento vivencial do terapeuta.

Estas situações podem ocorrer em meio a qualquer processo terapêutico e precisam ser consideradas com cuidado para que o tratamento não seja prejudicado (NETO, A.C.; DAL-BÓ, M. J.; BREDA, R. L.; & CRESTANA, T. 2003, p. 266)

2.2.2 Entrevista nas psicoterapias breves

A psicanálise influenciou a psicologia tanto em questões teóricas quanto a nível de exemplo. Por outro lado, a psicologia auxiliou na propagação da psicanálise em países que demonstravam indiferença à atuação psicanalítica. Ainda assim, é notória as especificidades de cada uma das disciplinas.

Ferenczi, psicanalista contemporâneo de Freud, é um dos precursores das psicoterapias breves. Decidiu por buscar novas maneiras de ajudar os seus pacientes, e para isso, experimentou um certo número de mudanças técnicas. É assim que ele começa por atuar a partir da técnica activa, fundada na observação atenta e empática, que consiste em intervenções directivas por parte do analista: formular, por exemplo, ordens e interdições (OLIVEIRA, 1999, p.10).

Michael Balint propõe a psicoterapia focal; trata-se de entrevistas face a face, cujo número é limitado no tempo, com uma focalização no problema do paciente (PSICOTERAPIA BREVE, 2003-2011).

Alexander e French propõem modificações técnicas da psicanálise e desenvolvem aexperiência emocional correctiva. Alexander propõe trabalhar com base no método das associações livres, mas associa igualmente entrevistas mais directas e dá directivas ao paciente, ele pensa também que as atitudes do terapeuta devem ser suficientemente flexíveis para se adaptarem caso a caso (OLIVEIRA, 1999, p.11).

De um modo geral, podemos dizer que, por meio da entrevista psicológica, o cliente precisa alcançar o relaxamento suficiente, para que o terapeuta consiga perceber as situações que lhe causam desconforto, ansiedade e outros problemas que o motivaram a procurar ajuda terapêutica e apartir disso, seja possível a elaboração – por parte do profissional da psicologia – de um processo terapeutico adequado, considerando as abordagens psicologicas cabiveis.

O objectivo é, portanto, fazer com que o sujeito tome consciência dos seus pensamentos, reconhecer aqueles que são inexactos e substitui-los por ideias positivas.

Para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta a  compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É impressindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E agora, de posse de sua bagagem técnica tecer suas observações, ponderações e considerações, de modo axiomático, considerado que a utópica da neutralidade sempre deverá ser perseguida.

Os princípios éticos serão avivados em cada encontro, e nenhum instrumento poderá adquirir uma aura de prevalência sobre a pessoa do entrevistado, que é mais importante e assim deve ser respeitado.

É fundamental que o profissional se conheça e que tenha como rotineiras, as reflexões sobre suas próprias atitudes, postura e comportamento. É preciso que tenha também flexibilidade em modificar-se, quando a necessário. Muito do trabalho do psicólogo certamente vem em conseqüência do auto conhecimento, que lhe dará a base na qual se apóiam à sua atuação e intervenção com toda transparência.

2.3 Abordagens

No campo da Psicologia, são muitas as abordagens existentes para tratamentos de conflitos. Há aquelas em que o cunho está mais voltada para o autoconhecimento do sujeito, seus traumas e conflitos internos, existem aquelas que trabalham com as crises e suas repercussões no momento, e, há também as de fundo filosófico que vêem o sujeito não somente como uma psique em crise, e sim como um todo levando em conta seu lado social e seu relacionamento com consigo mesmo e com o mundo.

As abordagens que pontuaremos, devido ao reconhecimento e destaque geral no campo da psicologia são quatro: Abordagem Fenomenológica; Abordagem Humanista; Abordagem Sistêmica; e Abordagem Cognitivo Comportamental.

2.3.1 Abordagem Fenomenológica

A perspectiva fenomenológica surge como reação às teses e à maneira de compreender questões patológicas no início do século XIX.

A abordagem surge a parir da filosofia, em particular da filosofia a alemã. Tendo como precursor Edmund Husserl, que elaborou os fundamentos desta idéia. Ele propõe compreender o homem e a sua psicologia a partir da análise dos estados de consciência, das questões vivenciais, da experiência e dos modos de relação do sujeito com o seu meio. Martin Heidegger, discípulo de E. Husserl, propõe uma filosofia que prioriza o conhecimento do ser humano no mundo, da realidade humana a partir da descrição das coisas na sua essência sem qualquer pressuposto teórico (VILA-CHÃ, 1988, pp.357-365).

A filosofia fenomenologica destaca a necessidade de um retorno à experiência humana como objecto de uma descrição; esta enfoque marcou profundamente a psicologia e a psicopatologia. Karl Jaspers é um dos primeiros a introduzir a dimensão fenomenologica em psicopatologia (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Karl Jaspers desenvolveu uma abordagem descritiva da fenomenologia; o seu método consistia em descrever as vivências psíquicas conscientes dos doentes mentais, classificar esses estados entre si e compara-los com as vivências psíquicas do homem normal (RODRIGUES, 2005, pp. 754-768).

Os fenomenologistas têm como referencia essencialmente Ludwig Biswanger, que pensa que é preciso ampliar a compreensão do doente tal como ele se encontra, mais do que compreende-lo a partir das teorias pré estabelecidas, que pertencem ao terapeuta e não ao doente; ele propõe uma análise que se baseia mais na relação e na experiência vivencial (CHAMOND, 2011, pp. 3-7).

A abordagem fenomenologica não propõe qualquer técnica psicoterapeutica particular, mas insiste na noção de comunicação, a partir de uma comunicação e uma relação verdadeira entre o clínico e o seu paciente. O ênfase está na relação terapêutica, que é considerada como uma relação inter-humana, portanto uma possibilidade de encontro, um face-a-face e uma troca com o outro. Não está baseado em regras técnicas, mas, uma reflexão teórica sobre a noção de psicoterapia e uma reflexão sobre a prática da entrevista, insistindo na experiência comunicativa entre os dois interlocutores (LESSA &  SÁ, 2006, pp. 393-397).

2.3.2 Abordagem humanista: Carl Rogers

As percepções de C. Rogers tiveram grande influência no que diz respeito à psicoterapia. Elas integram uma abordagem humanista bastante próxima do ponto de vista fenomenologico, assumindo uma posição face às teorias psicanalítica e behavioristas, a partir do interesse pela nosografia e pela estrutura da personalidade.

Conforme Rogers, em todo o ser humano existem potencialidades que podem ser desenvolvidas numa relação interpessoal, a partir da aceitação, compreensão empática, e, não diretividade, por meio de uma relação interpessoal e construtiva.

O processo terapêutico, segundo C. Rogers, envolve uma libertação dos sentimentos a partir da experiência vivencial e a percepção disto durante a terapia, para que o indivíduo tenha como modificar sua prática de atitudes e assim, desenvolver congruência consigo próprio (AMATUZZI, & CARPES, 2010, pp. 11-25).

2.3.3 Abordagem Sistêmica

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

2.3.4 Abordagem Cognitiva e Comportamental

A abordagem cognitiva e comportamental representa um conjunto de técnicas baseadas nas teorias da aprendizagem e nos contributos da psicopatologia cognitiva. Todas elas têm em comum um certo número de características: O estabelecimento de um contrato entre o paciente e o terapeuta; A definição clara e precisa dos objectivos terapêuticos, com uma definição das condutas que vão ser alvo das tentativas de mudança; A duração do tratamento, que é geralmente bastante breve, de três a seis meses; A medida quantitativa e qualitativa da mudança obtida.

Têm por objetivo suprimir o comportamento inapropriado para o substituir por um comportamento adaptado, segundo as leis do condicionamento. Por exemplo, a técnica da dessensibilização, utilizada para tratar as fobias (BAHLS; & NAVOLAR, 2004, pp.1-11).

A Psicologia é uma área muito ampla e as abordagens são diferentes entre si. Elas diferem em filosofia, objeto de estudo, teoria, linguagem, formas de pesquisa, dados científicos e práticas de intervenção. Todas essas características resultam em perspectivas muito particulares de como perceber o homem e como lidar com ele profissionalmente, e resultam em certas expectativas de postura do psicólogo, portanto, é necessário cuidado ao escolher a abordagem mais adequada.

3 Psicologia & Religião: Caminho terapêutico para o dependente químico?

Uma das características do processo terapêutico está relacionada ao valor e lugar que o do processo catártico em meio ao tratamento escolhido. Pode-se dizer que catarse é um processo de liberação de angústias e emoções reprimidas, ou de algum modo contidas, que, a partir de certo ponto podem causar distúrbios psicológicos (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O termo Catarse surge com Aristóteles. Por meio da ação poética, o palco tornava-se lugar de liberação das expressões emocionais por meio do drama e da tragédia. Posteriormente a ação catártica de purificação das emoções passa a ser vivenciada também pelo expectador (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Após o estabelecimento do processo catártico, por anos, esta ação foi vivenciada como ritual de purificação de espíritos malignos e/ou influências negativas externas sobre a vida das pessoas, por meio de ações como exorcismos, hipnose e semelhantes (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

O processo foi utilizado a partir de diferentes perspectivas, passando por Freud, Diderot, Lessing, Goethe, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

Em cada perspectiva a catarse ganhou um nome diferente como: análise do caráter, Gestalt-terapia, terapia primal, analise bioenergética, etc. (Kellermann & Heller, 1998, p. 87-89).

De modo geral pode-se dizer que a catarse atua claramente em três perspectivas humanas: médica, moral e religiosa (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

No que diz respeito ao aspecto médico, a catarse pode ser compreendida como ação homeopática de purificação do corpo (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A perspectiva moral entende que, ao purgar as malignidades por meio da catarse, a conduta do indivíduo seria equilibrada e não haveria riscos de ações imorais / malignas (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

A ênfase religiosa da catarse aparece desde o teatro grego, onde a tragédia era compreendida como excitação religiosa e êxtase báquico. É possível citar também a influência hebréia no que diz respeito às experiências de sofrimento de personagens bíblicos como Ana (1 Sam 1:12-16), que não podia ter filhos e por isso, chorava e sofria diante de Iahwe. A oração sofrida acompanhada por movimentos de lábios que lembravam embriaguês, tiveram como resultado, a resposta do clamor, alívio e cura da alma. Além disso, Inácio de Loyola afirmou que a prática da glossolália (dom de línguas) resulta em paz e crescimento (Oliveira Junior, 2004, p. 133-136).

Ainda hoje é possível perceber que, algumas linhas de orientação religiosa são desenvolvidas a partir de processos terapêuticos, que promovem reações com caráter catártico, especialmente em comunidades terapêuticas para recuperação de dependentes químicos (em maioria, apresentam fundação religiosa). Diante disto, torna-se imprescindível a observação da prática terapêutica psicológica, paralela ao sistema de orientação religioso que ocorre em meio à essas comunidades.

É fácil perceber a importância da relação de ajuda, desenvolvida por meio do aconselhamento, ante a necessidade humana de apoio e orientação em situações de crise e conflitos de modo geral.

O aconselhamento psicológico é um trabalho realizado por meio de encontros regulares e de caráter profissional, entre um cliente e um psicoterapeuta, com vistas a proporcionar suporte para que o indivíduo ultrapasse dificuldades relacionais ou pessoais. A compreensão de uma situação em particular, pode levar o indivíduo a aceitação ou a mudança de conduta,  de modo que, a pessoa tenha suas questões internas resolvidas (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.207).

 O aconselhamento religioso é um processo de mediação, realizado por um conselheiro, que neste caso, exerce a função de terapeuta, no sentido do grego antigo, que tem a conotação de cuidar, servir, tratar e também render culto. Ou seja, o terapeuta não é responsável pela cura, mas, é quem facilita o encontro entre àquele que cura e o necessitado, seja por meio de orações, de orientações, de imposição de limites ou simplesmente pelo direcionamento, para que o necessitado caminhe em direção àquele que tem o poder de curar (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, p.208).

Algumas linhas de aconselhamento relacionam, propositalmente ou não, a bíblia ou princípios morais do cristianismo, com linhas psicológicas específicas, como apresentaremos adiante.

3.1 Psicanálise & Cura do Passado

A psicanálise é uma metodologia desenvolvida por Freud, que considera como essencial, compreender o inconsciente do indivíduo e integrá-lo ao consciente, por meio da interpretação das ações e palavras, bem como de produções imaginárias, sonhos, delírios, associações livres e atos falhos (BOCK, 1999, p.70).

Esta interpretação visa promover um equilíbrio que auxilie no ajuste da conduta humana, de modo que seja possível a eliminação do mal-estar e do sofrimento. A idéia central é de que o autoconhecimento desenvolve a capacidade de lidar com as adversidades e superar as dificuldades (CATALDO NETO; GAUER e; FURTADO, 2003, p. 776).

Desse modo, é possível adquirir autonomia, por meio de uma capacidade criativa de cada indivíduo, grupo e instituição, por meio de um processo onde seja possível desfazer calmamente as barreiras do paciente (BOCK, 1999, p.80).

O princípio da desmontagem das resistências do inconsciente, está relacionado ao fato de que Freud considera que experimentamos a ansiedade já no primeiro momento da vida humana e a causa desta angústia é o parto (MEZAN, 2006, p. 527). Portanto, todo o passado do indivíduo, mesmo as coisas que de modo natural não são lembradas, como a sensação do nascimento, são importantes no trato das doenças desenvolvidas por meios de traumas.

A cura do passado é uma metodologia cristã, que afirma a cura por meio de uma volta ou de um relembrar o passado. É conhecida também como cura interior, cura das memórias, cura da árvore genealógica (SEAMANDS, 2007, p.12) dentre outros.

A metodologia foi desenvolvida por um psicanalista austríaco, Otto Rank, discípulo direto de Freud, que se aproxima da psicanálise ainda na adolescência, após a separação de seus pais (HURDING, 1995, p.411).

O trabalho tem como base a terapia desenvolvida durante a imaginação pela fé e o aconselhamento desenvolvido por meio da oração (SHLEMON, 1986, p.12), que visa conduzir o  indivíduo de modo consciente, à uma situação de crise do passado, e, por meio da conscientização da presença de Jesus – enquanto Deus atemporal – no momento em questão (HURDING, 1995, p.416), curar feridas e suas consequências na vida prática da pessoa que se dispõe a ser acompanhada.

A ênfase da cura interior ganha maior repercussão a partir dos estudos de alguns nomes como Anne White, Francis MacNutt e Ruth Stapleton, sendo que esta, afirma a cura interior como ação de restauração das emoções por meio das orientações do Espírito Santo (HURDING, 1995, p.416).

A partir da década de 1960, influenciado pela metodologia da cura interior, Frank Lake, médico missionário com treinamento em psiquiatria, desenvolve o que posteriormente ganha o nome de Teologia Clínica (EVANS, 2002, p.186).

O trabalho considera o princípio freudiano do trauma no nascimento e por isso, Lake utiliza teorias “reichianas e bioenergéticas de respiração profunda” (HURDING, 1995, p.420) para conduzir o indivíduo a reviver a experiência do nascimento e outras experiências traumáticas, na tentativa de resolver os problemas adquiridos durante a gestação e parto.

Lake, afirma que os sentimentos da mãe, sejam bons ou ruins, são transmitidos à criança durante a gravidez e a angústia da separação do bebê com a mãe por meio do parto, é relacionada a angústia gerada pela separação de Cristo com o Pai no Getsêmani e Gólgota.

Nesta pesrpectiva, pode-se entender que, a cura acontece por meio da realização do ego, mas, não o ego como compreendido por Freud, o ego do indivíduo, e sim, um tipo de ego ideal, que é gerado por meio da realização em Cristo, ou seja, o desenvolvimento de uma nova pessoa ou personalidade, ante ao convívio e comunhão com Deus (HURDING, 1995, pp.426,427).

Relação entre Psicanálise e Cura do Passado

Percebemos de modo claro a influência da psicanálise no desenvolvimento da cura do passado, a partir de um ponto específico: o fundador da teoria de cura do passado é de formação psicanalítica.

Diante disso, fica mais fácil identificar a semelhança na compreensão do ser humano enquanto indivíduo fragilizado desde o nascimento e necessitado de apoio para o autoconhecimento, para que este conhecimento auxilie no desenvolvimento do ego – seja o ego freudiano ou o ego ideal de Lake – e a partir disso, o indivíduo seja capaz de constituir forças para superar as adversidades e frustrações, sejam essas forças do próprio indivíduo ou da presença de Deus neste.

Ambas as linhas de orientação, conduzem o indivíduo a olhar para dentro de si, com dois objetivos: compreender a si mesmo, e buscar forças internas para continuar vivendo.

3.2 Logoterapia & Aconselhamento Pastoral

A logoterapia, desenvolvida por Viktor E. Frankl, é a terceira escola de psicoterapia de Viena, também conhecida como Psicologia do sentido da vida, devido a experiência de Frankl no campo de concentração, onde compreendeu o sentido do sofrimento (EINSFELD, 2000, p.18).

A logoterapia pode ser compreendida em três categorias de valores: criadores, vivenciais e de atitudes. Os valores criadores são referentes a capacidade criativa nas questões intelectuais, artísticas, de trabalho, enfim, de toda a liberdade de ação humana; os valores vivenciais são adquiridos por meio das experiências afetivas, seja por meio do desenvolvimento das relações familiares, seja pela contemplação da natureza, de observação da arte e cultura ou mesmo, pelas vivências místicas; e por fim, os valores de atitude, caracterizados pelo posicionamento adequado ante os sofrimentos inevitáveis e a condição ou capacidade de sofrer (LUNA, 2005, p.26).

Einsfeld afirma ainda que, Frankl descobriu a liberdade de observar a vida – mesmo que em condições precárias – e conseguir encontrar um sentido, que não depende da realização pessoal, mas, da maneira como a pessoa se coloca diante da situação vivenciada. Esse sentido surge quando a pessoa transforma o sofrimento em conquista, quando a culpa é transformada em oportunidade de mudança, ou quando a transitoriedade da vida auxilia no desenvolvimento de ações responsáveis (EINSFELD, 2000, p.21.).

Segundo Clinebell, o aconselhamento pastoral considera três aspectos essenciais com vistas ao crescimento: luta, morte e renascimento. O trabalho de orientação pastoral é desenvolvido a partir de uma compreensão particular da vida cristã, ao entender que esta não é apenas uma maneira de crer, mas, uma maneira de vivenciar ou experienciar todas as coisas, logo, tem como objetivo, modificar a motivação do comportamento e não apenas da crença humana. E isto, ante a experiência de luta, morte e renascimento de Cristo (CLINEBELL, 1987, p.56).

Clinebell afirma que as pessoas devem encontrar sentido para a vida, em todas as suas circunstâncias, tendo no sofrimento, o crescimento, seja humano, seja espiritual. Isto, porque, o ser humano é tido como carente de sustento, apoio e cuidado.

Essa carência gera crise no indivíduo que, torna-se perdido em si mesmo, de modo que passa a ter necessidade de apoio externo, de uma relação de ajuda, de alguém que auxilie no processo poimênico de cura da alma, por meio do apoio na compreensão do propósito da vida e de suas crises fundamentais, que estão diretamente relacionadas às percepções de “pecado e salvação, alienação e reconciliação, culpa e perdão, juizo e graça, morte e renascimento espiritual” (CLINEBELL, 1987, p. 47).

Relação entre a Logoterapia e o Aconselhamento Pastoral

Ambas as estruturas consideram como base de trabalho o sentido da vida e tratam disto em três perspectivas. Enquanto a logoterapia considera os valores criadores, vivenciais e de atitudes, como fundamentais para o desenvolvimento da capacidade do indivíduo de suportar o sofrimento, o aconselhamento pastoral aponta a luta, morte e renascimento como princípios de fé que devem não apenas nortear a vida mas, dar sentido a ela.

Outra característica está associada a ideia de realização pessoal como processo logoterapêutico, motivador para a continuidade da vida, e o propósito de vida apresentado pelo aconselhamento pastoral, como suporte e estímulo da esperança ante o sofrimento.

Ambas as orientações consideram as vivências como determinantes, ou seja, as vivências podem favorecer para o desânimo e enfraquecimento, ou para o fortalecimento e esperança, dependendo de como o indivíduo se posiciona.

3.3 Behaviorismo & Aconselhamento Bíblico

O behaviorismo  também conhecido como  comportamentalismo ou análise do comporta-

mento, considera uma espécie de ação e reação. O organismo responde a um estímulo, ante a ajustes ambientais ou por hábitos desenvolvidos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, p.45).

Duas situações são utilizadas na análise, o comportamento respondente e o comportamento operante. O comportamento respondente é composto pelos atos involuntários, por estímulos antecedentes ao ambiente, como salivação ou contração das pupilas. Já o comportamento operante é tudo aquilo que o indivíduo escolhe fazer, tudo o que a pessoa pode realizar para influenciar ou afetar o meio em que está envolvido (SKINNER, 2006, p.59).

   Em síntese, podemos dizer que, o comportamento respondente ocorre quando o indivíduo sofre um estímulo, enquanto o comportamento operante acontece quando o indivíduo produz o estímulo.

Além disso, considera-se o reforço, o controle de estímulos, extinção, punição, discriminação e generalização, como ferramentas de identificação, orientação e avaliação de casos (BOCK, FURTADO, & TEIXEIRA, 1999, pp. 50-54), sendo cada categoria compreendida da seguinte forma:

  • Reforço é tudo o que pode modificar uma ação futura, seja positiva ou negativamente;
  • Controle de estímulos é relacionado aos controles como placas de trânsito ou sinais indicativos, que delimitam os espaços e orientam ações de modo objetivo;
  • Extinção é o mecanismo que capacita a redução de determinada ação até a completa extinção da mesma;
  • Punição, leva a redução temporária de certo comportamento;
  • Discriminação, auxilia na modificação de comportamento de acordo com o ambiente;
  • Generalização, dificulta as reações ante a estímulos semelhantes.

O aconselhamento bíblico é o método utilizado por Jay Adams, para confrontar pessoas por meio de textos bíblicos, com a intenção de promover mudanças comportamentais, na tentativa de ajustar o indivíduo à uma conduta considerada biblicamente adequada ou justa (ADAMS, 1999, pp. 58-59).

A metodologia é diretiva, com a intensão de moldar os padrões de comportamento, invertendo ações tidas como pecaminosas, em atitudes justas e positivas, tendo como estímulos, os exemplos dos personagens e as situações apresentadas nas histórias bíblicas (CRABB, 2000, pp. 80,81).

Os limites estabelecidos estão relacionados à questões éticas de uma cultura específica, e portanto, limita as possibilidades de discriminação ou generalização em situações sociofamiliares, de modo que esse limite pode gerar punição e em alguns casos, extinção de comportamentos.

Relação entre Behaviorismo e Aconselhamento Bíblico

O behaviorismoe oaconselhamento bíblico seguem padrões indutivos para influenciar ou mesmo determinar comportamentos. E tem como ferramentas básicas: reforço, controle de estímulos, extinção, punição, discriminação, e generalização.

O diferencial consiste na base de direcionamento. Enquanto o aconselhamento bíblico tem como determinantes os escritos, a moral e a tradição cristã, o behaviorismo trabalha a partir das extruturas individuais de cultura.

Ambas as perspectivas não se orientam a partir da capacidade individual de construção ou elaboração de superação, mas, conduzem o aconselhando à uma decisão e uma ação específica e padronizada.

3.4 Pessoalismo (ACP) & Aconselhamento Cristão

O pessoalismo ou terapia centrada na pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, considera que o indivíduo tem em si uma tendência atualizante, ou seja, uma capacidade natural de se curar ou de se ajustar às mais diferentes situações, de modo a aprimorar o self. A importância deste aprimoramento se deve ao fato de que o self é tido como a essência da personalidade humana, de modo que, o autodiscernimento apresenta-se como chave para o desenvolvimento do indivíduo (SCHULTZ, 2002, pp.316-317).

Na perspectiva do pessoalismo, pessoas psicologicamente saudáveis percebem a si mesmas, então, não se sentem ameaçadas em seu autoconceito. Isto ocorre com aqueles que receberam considerações positivas e portanto, não sentem necessidade de “internalizar condições de merecimento” (SCHULTZ, 2002, p.321) para realizar o self e adquirir pleno funcionamento. Este fato indica também que o indivíduo não apresenta incongruência, que seria a dificuldade de perceber e vivenciar o verdadeiro self.

O trabalho de Rogers é auxiliar o cliente, através do aconselhamento centrado na pessoa e não no problema. A intenção é de desenvolver empatia em meio ao processo de acolhimento, criando uma identificação com o indivíduo, o que facilita para que o mesmo se compreenda e permita o processo natural de atualização do self, gradativamente, em meio ao processo terapêutico. Assim, o indivíduo adquire maior facilidade de se aceitar e a partir disso, gerar condições de enfrentar as dificuldades do mundo experiencial (MORATO, 1999, p.109).

O aconselhamento cristão, segundo Collins (2004, p.45-46), tem como objetivo gerar:

  • Autoconhecimento, porque compreende a necessidade do indivíduo de se entender,  para posteriormente alcançar cura;
  • Comunicação, porque reconhece a necessidade de expor os sentimentos, pensamentos e emoções de modo preciso;
  • Aprendizado e mudança de comportamento, pois entende que as pessoas agem de acordo com aquilo que aprenderam;
  • Auto-realização, devido à necessidade humana de desenvolver o próprio potencial;
  • Apoio, que é ferramenta facilitadora ante as dificuldades decorrentes no processo de realização pessoal; e
  • Integridade espiritual, por reconhecer a influência da dimensão espiritual em relação aos problemas humanos.

A idéia principal é de que o conselheiro deve: saber dar atenção; desenvolver habilidades de bom ouvinte; responder objetivamente àquilo que foi ouvido comprovando o comprometimento com a pessoa; saber como conduzir, comentar, perguntar, confrontar, informar e interpretar a fala do aconselhando, de modo que o mesmo possa aprender durante o processo de aconselhamento (COLLINS, 2004, p.48-51).

Relação entre Pessoalismo e Aconselhamento Cristão

O pessoalismo está alicerçado na construção e manutenção do self, ou seja, da característica individual que torna uma pessoa única. A idéia é de personalidade e de capacidade criativa, bem como de idiossincrasia e que precisa, na perspectiva rogeriana, ser reconhecida, aceita e desenvolvida, para que o indivíduo alcance cura e qualidade de vida em todas as perspectivas.

O aconselhamento cristão segue o padrão de autoconhecimento como base para o reconhecimento da dimensão espiritual e da necessidade da mesma para a constituição humana saudável.

 O conhecimento de si, de todas as mazelas e qualidades individuais formam a esfera de atuação destas linhas de aconselhamento, que consideram a liberdade e capacidade humana de decisão, como essenciais para o processo de formação, cura e saúde, mental e espiritual do ser humano.

Relação geral entre os processos

De modo geral, o acompanhamento religioso se apresenta como aconselhamento pastoral, porque tem como princípio a comunicação da palavra de Deus. Assim, difere-se de perspectivas como a psicanálise ou qualquer outra linha psicológica. No entanto, tem como objetivo, ajudar as pessoas a ajustarem-se melhor consigo mesmas e seus ambientes. E essa ajuda pode ocorrer individualmente, em família, ou em grupos afins, com ambiente estruturado, e programas de autoconhecimento, com vistas a superação de crises (MACEDO; FONSECA e; HOLANDA, 2007, pp.208,209).

Esta característica de atuação com ambientes estruturados e trabalhos individuais, familiares ou em grupos, também são adotadas nas orientações psicológicas, com objetivo de fundamentar as relações e constituir, indivíduo e sociedade.

Como se pode perceber é possível realizar o processo terapêutico de diversas maneiras, inclusive, em parceria com estruturas eclesiásticas. Para maior esclarecimento sobre a atuação do terapeuta que trabalha em comunidades terapêuticas confessionais, é importante que se fale mais detalhadamente, ao menos sobre uma, dentre as perspectivas citadas. O trabalho humanista, de Carl Rogers, apresenta duas especificidades que favorecem o acompanhamento ao dependente internado em uma instituição religiosa: 1) ênfase na valorização de Si, dificuldade característica do dependente, citada e explicada no capítulo primeiro deste trabalho; e 2) facilidade de aplicação das técnicas da ACP, devido ao fato de que a abordagem partilha de princípios estruturais semelhantes a características da ética cristã, em aspectos  gerais.

3.5 Abordagem centrada na pessoa ou pessoalismo cristão?

A abordagem centrada na pessoa é uma teoria sustentada pela compreensão de Carl Rogers de que as pessoas têm em si mesmas, a capacidade de resolverem seus conflitos internos, desde que consigam uma oportunidade e um ambiente adequado para isso. Rogers afirma que existe uma tendência, chamada de atualizante, que move o indivíduo em direção ao desenvolvimento de suas potencialidades, em busca da própria conservação e/ou enriquecimento. (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Segundo Rogers, essa tendência atualizante é uma característica humana semelhante a princípios fundamentais das plantas e dos animais, no que diz respeito à constituição biológica, de maneira que, a capacidade de crescimento e desenvolvimento permanece inerente no ser e, portanto, sempre que o ambiente e as condições favoráveis existirem, essa capacidade entrará em funcionamento (MOREIRA, 2007, p.53).

A compreensão de Rogers se relaciona à visão cristã, no sentido de entender a existência humana, como parte da criação. Entender o indivíduo como um ser que compartilha das características de surgimento, manutenção e sustento vital, a partir de uma questão interna (no caso, a presença do Espírito de Deus no homem) que favorece a cura, crescimento, ajustamento, etc. desde que não haja empecilhos externos.

Por isso, o conselheiro deve favorecer para que o cliente alcance a condição de se aceitar, de expressar seus sentimentos e atitudes, identificando diferenças individuais, sem, no entanto, comparar-se a outros. É necessário que o terapeuta desenvolva uma compreensão empática, ou seja, não apenas ouvir, mas, tentar perceber as reações do cliente ante a cada situação compartilhada e transmitir essa percepção ao indivíduo (ROGERS, 1983a, p.33).

Rogers afirma que a importância da empatia no processo de aconselhamento, deve-se ao fato de que as pessoas conseguem apresentar maior consideração por si, quando percebem que outros a aceitam e a compreendem (ROGERS, 1983a, p.39). A compreensão empática reflete as informações apresentadas pelo cliente a ele mesmo. Esse reflexo proporciona o autoconhecimento e por consequência, ajuste vivencial (HIPÓLITO, 2010, p.44).

Em outras palavras, podemos dizer que, a função do conselheiro é de agir como um espelho no qual o cliente deve enxergar a si e suas vivências, de modo mais objetivo. A partir desta compreensão, o indivíduo torna-se capaz de assumir seus problemas de forma mais adequada e responsável, porque se sente em uma situação segura para caminhar em direção à maturidade e se libertar das dificuldades (ROGERS, 2000, p.11-19).

Este aspecto também pode ser percebido em algumas ações de Jesus, que, considerava o indivíduo com todas as suas mazelas, independente do que a sociedade da época considerava pecado ou erro. A aceitação de Cristo para com os outros era incondicional e isso proporcionava confiança na relação estabelecida, de modo que as pessoas sentiam-se livres para falar de suas dores e dificuldades. Sentiam-se acolhidas e consequentemente, curadas.

Schultz afirma que, para Rogers, os processos avaliativos da psicologia tornam o paciente dependente, porque cria uma atmosfera de autoridade em torno do terapeuta. E, a partir do momento em que o terapeuta toma conhecimento dos problemas do cliente, o paciente age como se não fosse mais necessário se preocupar com o problema, pois, o alvo agora é seguir a orientação do especialista com a certeza de que tudo será resolvido (SCHULTZ, 2002, p.325).

Por isso, o princípio de Rogers está sustentado na premissa de não contar com uma estrutura teórica determinada, a partir da qual o problema do cliente seria enquadrado, para o desenvolvimento de algum mecanismo de ajuda. O importante é entender e aceitar o valor da pessoa. Logo, o terapeuta não deve expressar julgamentos nem dar conselhos, apenas concentrar-se no cliente, para que este consiga se perceber no terapeuta, de modo a reavaliar suas relações e possivelmente mudar de comportamento (SCHULTZ, 2002, p.325).

O terapeuta atua como facilitador. A sensação de segurança produzida pela empatia do conselheiro será suporte para que o cliente encontre em si mesmo as condições de superação para os problemas (SCHEEFFER, 1976, p.26).

Rogers abre mão de qualquer tipologia de personalidade ou de conceitos psicológicos específicos sobre o ser. Mas, tinha como objetivo, esclarecer o que é e como se estrutura uma relação psicológica que colabore para que o cliente alcance uma visão adequada de si mesmo, para que este consiga progredir a partir de sua própria compreensão (ROGERS, 1987, p.14).

A personalidade, conforme Rogers é o resultado de experiências vivenciadas pelo indivíduo, sendo que a pessoa é o centro dos eventos e consequentemente, influencia e recebe influências destes.  Logo, estes eventos tornam-se concretos para aqueles que o vivenciam (ROGERS, 1961, p.23).

Porém, a construção deste ser, ou como Rogers afirma, a construção deste Si-Mesmo, não é apenas uma percepção de si, mas, uma relação entre a vivência e compreensão, ou a vivência a partir da compreensão (ROGERS & WOOD, 1978, p.197).

De modo semelhante, a visão geral do cristianismo considera que não se deve preocupar com a personalidade, como se fosse algo imutável, pois, a vivência proporciona mudança de conduta. Assim como o apóstolo Pedro, tornou-se grande homem de fé, a partir dos percalços da negação trina de Jesus e da aceitação que recebeu de Cristo ainda na cruz. Cada indivíduo é considerado único e necessitado de um processo distinto de apoio.

Assim, depois da compreensão da aplicabilidade do método de Rogers junto à instituições confessionais, é preciso pensar as duas vertentes de atuação do terapeuta. Dependente químico e familiares (co-dependentes).

3.5.1 Aconselhamento centrado no dependente químico

Podemos dizer que a empatia (ROGERS, 1983a, p.33), enquanto ferramenta do aconselhamento centrado na pessoa pode proporcionar ao indivíduo dependente químico, a segurança necessária para aceitar o mundo real como real (GIDDENS apud Bessa, 2005, p.44), porém, não a partir das relações humanas, mas, a partir da tendência atualizante, ou seja, a partir de si mesmo (ROGERS & KINGET, 1977, p.159).

Ao considerar a capacidade humana de crescimento e enriquecimento intrínseca, desde que se encontre o ambiente favorável (MOREIRA, 2007, p.53), é possível que o dependente consiga a partir do aconselhamento, tudo o que precisa para se estruturar e crescer, sem precisar esperar bons referenciais externos (SCHMIDT, 1976, p.25).

A partir do conhecimento pleno, desenvolvido por meio da ação reflexa do terapeuta, a pessoa dependente pode alcançar a condição de mudança e de reestruturação de vida (HIPÓLITO, 2010, p.44), de modo que não mais aguarda por referenciais, mas, torna-se referencial (ROUANET, 1987, p. 233).

Este conhecimento pleno proporciona também a diminuição da curiosidade (LIBÂNIO, 2004, p. 159), pois a mesma é sensação relacionada ao desconhecido. Portanto, o autoconhecimento promove a prevenção do uso de drogas, no que diz respeito à pessoa que ainda não utiliza, e redução de recaídas para os que estão diminuindo o uso.

Se a condição de dependência pode ser desenvolvida por diversos fatores como insatisfação com a vida, personalidade fraca, necessidade de prazer inerente ao ser humano e influências da modernidade (CARMO, 200, p.143), é imprescindível que seja desenvolvido um acompanhamento centrado na pessoa dependente e não nos problemas decorrentes da utilização de drogas, para que o dependente não redirecione a dependência de drogas para uma dependência do terapeuta (SCHULTZ, 2002, p.325).

3.5.2 Terapia familiar

A terapia centrada na família compartilha dos mesmos pressupostos da terapia centrada na pessoa, ou seja, o foco do terapeuta não está no problema, mas, nas pessoas e, deste modo, o trabalho é desenvolvido em dois momentos específicos. Num primeiro momento, o terapeuta direciona seu trabalho para o cliente que lhe procura e, portanto, a atuação é centrada na pessoa. Num segundo momento, é realizada uma reflexão para o desenvolvimento de uma intervenção adequada ao contexto antropológico. A partir disso, podemos entender a família como um “sistema multidimensional de relações sociais interdependentes em que estas diferentes dimensões se encontram presentes em grau e correlações variáveis” (HIPÓLITO, 2010, p.76).

A pessoa nesta perspectiva é ao mesmo tempo, o centro e um dos pólos de cada uma das relações familiares. E por isso, o terapeuta deve se utilizar da resposta de compreensão empática para refletir em todo o sistema familiar, as vivências expressas de cada pessoa envolvida no processo terapêutico. Desse modo, é possível que cada membro da família consiga alcançar uma visão mais adequada de si e em si, ou seja, que cada um se observe interna e externamente, e que a partir dessa visão, seja possível um crescimento mais adequado ou haja um enriquecimento familiar por meio das potencialidades individuais (HIPÓLITO, 2010, p 76).

A terapia familiar sistêmica é originária da década de cinquenta e tem como alicerce, aspectos da biologia, química, cibernética, teoria sistêmica e outras. O início das considerações sobre a terapia familiar surge, quando estudiosos começaram a questionar a perspectiva conhecida, até então, sobre a doença mental, pois, acreditava-se que a psicopatologia se desenvolve e é mantida apenas pelo indivíduo e esta interpretação não se sustentava mais, devido à observação das influências do contexto na construção do indivíduo (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

De modo geral, as famílias são percebidas como grupos de pessoas com laços consanguíneos, com intenções de procriação. Na perspectiva sistêmica, as famílias simbolizam sistemas que se relacionam com o meio e/ou com outros sistemas semelhantes (GABEL &  SOARES, 2006, p.59).

A terapia é centrada no sistema e não em cada indivíduo que compõe a família. Por isso, acredita-se ser impossível entender o funcionamento de uma família conhecendo apenas uma de suas partes. Portanto, podem ser desenvolvidas várias técnicas para a ampliação da compreensão das relações familiares, o que favorece na reorganização do grupo (FERES-CARNEIRO, 1994, p.57-58)

 A facilitação terapêutica deve ser desenvolvida de modo que o discurso de cada pessoa seja integrado ao discurso da família, a fim de que o indivíduo não abandone suas perspectivas pessoais e seja respeitado com todas as suas idiossincrasias, e, assim, sinta-se restituído ao grupo familiar identificando o seu valor em relação ao mesmo (HIPÓLITO, 2010, p 78).

O papel do terapeuta é de vivenciar o quadro apresentado pela família e a partir disso comunicar sua compreensão, de modo sensível, respeitando a expressão da vivência de cada um, juntamente com as projeções, mudanças e significados atribuídos por cada pessoa do grupo (HIPÓLITO, 2010, p 79).

Além disso, a família apresenta uma especificidade terapêutica: cada membro, estando presente ou não no momento terapêutico, tem um lugar especial e influencia no desenvolvimento das potencialidades do grupo e, por isso, o terapeuta precisa considerar o indivíduo ausente e atribuir-lhe o lugar conferido pelas pessoas presentes, contando com estas atribuições durante todo o período de acompanhamento (HIPÓLITO, 2010, p 79).

A proposta é auxiliar a família a alcançar o enriquecimento proporcionado pela consciência de que o tema da colusão não afasta ou divide a família, mas, serve de oportunidade para o desenvolvimento da flexibilidade e equilíbrio (FERES-CARNEIRO, 1994, p.54).

Considerações Finais

Durante o desenvolvimento desse trabalho ficou evidente a complexidade das situações que envolvem o dependente químico, bem como as dificuldades encontradas para propiciar um tratamento que seja apropriado.

Tal compreensão fica cada vez mais imprecisa devido ao fato de que a modernidade, marcada por relações momentâneas e utilitárias, influencia diretamente na fragmentação de conceitos e estruturas sociais.

Essa despreocupação para com o próximo gera uma busca individual que sofre influências do coletivo, pois, enquanto ser social, o indivíduo participa se envolve e responde de modo relacional às estruturas sociais em que está inserido, logo, o pensamento vigente na modernidade faz parte da formação do caráter do indivíduo. Por isso, o ser humano não se preocupa em como buscar aquilo de que necessita, de modo que, se entender que é preciso, abre mão de limites, ética e moral, para alcançar seu desejo.

É a partir do rompimento com esses limites, que o indivíduo geralmente, encontra, conhece, experimenta e se entrega à droga. Desse modo, passa a ser dominado por estímulos e sensações produzidas pelas substâncias químicas utilizadas, e, gradativamente, perde qualidade de vida em todos os aspectos, conforme os efeitos da substância escolhida pelo usuário. Esse abandono de si pode conduzi-lo a uma posição indesejável, pois, em muitos casos o usuário, adquire má aparência, passa a ter cheiro desagradável, modifica a maneira de conversar, torna-se inconveniente, e, por fim, pode chegar ao rompimento com as leis, numa tentativa de manter seu vício.

Pode-se afirmar que um acompanhamento compromissado, individual e relacional, possibilita ao dependente químico a organização pessoal necessária para um desenvolvimento integralizado.

É perceptível que a característica da dependência química, enquanto situação que considera a sujeição do indivíduo a algo ou alguém, bem como a necessidade humana de apoio para a organização temporal, social e psicológica – que deve ser desenvolvida em si, mas, a partir do outro – pode ser trabalhada em um processo terapêutico que leva em conta as necessidades intrafamiliares, a partir da compreensão empática. Isto porque, o terapeuta facilita ao grupo familiar, a interpretação das diferentes vivências e das necessidades de cada um.

Em relação aos referenciais que podem influenciar o indivíduo, podemos afirmar que, o enriquecimento familiar proporcionado pela aceitação dos papeis familiares e do valor de cada pessoa, pode promover condições para que cada membro do grupo torne-se referencial um para o outro, e assim, não haja mais a necessidade de busca de referenciais, mas, a potencialidade de ser referencial.

A compreensão de que as dificuldades devem ser aceitas e trabalhadas pela família – mesmo que num primeiro momento uma única pessoa busque o terapeuta e, posteriormente, o grupo se permita ser auxiliado – funciona como ferramenta de apoio contra a ideia de buscar soluções rápidas para os problemas em comprimidos ou ações emergenciais – ação esta que funciona como fator de risco para o desenvolvimento da dependência e codependência química.

A aplicação do MINI utilizada neste trabalho contribui para que os esforços no sentido de auxilio do tratamento dos dependentes tenham uma base mais concreta, a partir de interpretações gráficas sobre a direção e velocidade com que a dependência química está se desenvolvendo no país.

Além disso, o resultado da aplicação do MINI confirma argumentos apresentados por pesquisadores da área, sobre as características dos usuários e suas relações sócio familiares e isso confirma a necessidade de um apoio terapêutico familiar e não individual. A atenção voltada para com a família possibilita que o grupo desenvolva um ambiente equilibrado entre as múltiplas relações intrafamiliares e diminui o risco de que algum dos integrantes do grupo torne-se dependente químico ou mantenha-se em uso de substâncias químicas, como tentativa de refugiar-se de atritos e colusões.

Assim, a avaliação do genograma e a observância de possíveis farmacologias utilizadas em meio ao processo terapêutico devem ser observadas com cuidado, para que o terapeuta não deixe de perceber o quanto as identificações de família, realizadas por meio do genograma, ou os efeitos dos medicamentos, que por ventura o dependente esteja utilizando, interfiram nas ações do aconselhando, seja positivamente ou negativamente, de modo a afetar as intervenções do terapeuta.

É possível perceber o quanto os instrumentos de avaliação psicológica podem ser úteis para o desenvolvimento de uma intervenção eficaz, a partir da visão mais adequada do problema característico do indivíduo, grupo ou patologia específica.

Mas é importante lembrar que, para que a entrevista psicológica tenha resultados adequados, não basta à compreensão ou domínio teórico de utilização deste instrumento de avaliação. É imprescindível que o profissional tenha adquirido sensibilidade adequada para observação do paciente, seja através de estágio, supervisão, laboratório ou oficinas.

É necessário desenvolver sensibilidade e empatia, saber lidar com a própria subjetividade e com a subjetividade do outro (entrevistando). O entrevistador deve ser capaz de adentrar esse universo, sem juízo de valor, sem preconceito, para que assim possa estar com o outro, conhecer, não temer, se perder e se achar e, finalmente, voltar à realidade do contexto. E assim construir suas observações, ponderações e considerações, de modo mais neutro possível.

Assim, é possível perceber a presença de comorbidades psiquiátricas associadas à dependência de substâncias psicoativas e identificar a frequência em que ocorrem, bem como alguns dos sintomas que aparecem associados de forma especial a estas patologias, como sintomas de ansiedade e depressão.

A presença de transtornos psiquiátricos torna-se um dos fatores que compromete efeito do tratamento com pacientes dependentes químicos. Por isso, o diagnóstico apropriado desses transtornos associados pode proporcionar intervenções terapêuticas mais adequadas na interrupção da conduta de consumo de substâncias, amortecendo a ocorrência de recaídas e proporcionando melhora no funcionamento social e familiar.

Em relação às perspectivas religiosas que atuam como ferramenta de ajuda, notamos que alguns casos, a ligação entre as linhas religiosas e psicológicas de orientação ficam evidentes – como no caso da psicanálise e da cura do passado, onde se percebe a influência da psicanálise na vida do fundador da cura do passado. Em outros, essa ligação não fica tão clara, porém, pode ser percebido ante a semelhança no desenvolvimento de técnicas e mesmo na maneira como compreende o problema e pessoa ou cliente, como no caso do pessoalismo e o aconselhamento cristão.

A semelhança ocorre até mesmo no sentido em que a orientação é desenvolvida, ou seja, diretiva ou não, como no caso do behaviorismo e do aconselhamento bíblico, ambos diretivos, determinantes.

Diante disso, podemos afirmar que as linhas de aconselhamento e orientação relacionadas, podem ser apresentadas como estruturas ou processos da relação de ajuda, que, independente de serem psicologias, ou simplesmente terem influências psicológicas, atuam em direção à necessidade humana de apoio e orientação.

Pode-se dizer que a abordagem centrada na pessoa é uma ferramenta particularmente adequada para o cuidado com o dependente químico, porque considera a questão de maior significado para o indivíduo fragilizado e suscetível ao abuso do uso de drogas: a autoestima construída a partir do autoconhecimento, proporcionado pela compreensão empática do terapeuta.

A postura desenvolvida por Rogers, para auxiliar o ser humano em seu crescimento e enriquecimento, a partir das potencialidades intrínsecas, favorece para que o indivíduo se resolva sem necessitar de referenciais externos ou de condições sociais específicas, mas a partir daquilo que já existe dentro do ser e que, no caso do dependente químico, havia sido fragilizado ou momentaneamente impedido de se desenvolver.

Um diferencial desta abordagem está no fato de que, enquanto a mudança ocasionada por uma motivação externa pode ser revertida de acordo com futuras circunstâncias adversas, as alterações de comportamento, geradas por questões internas de auto compreensão, não ficam sujeitas as intempéries sociais ou crises de ordens familiares.

A segurança advinda dessa nova postura, além de proporcionar capacidade para superar adversidades, gera a motivação necessária para continuar se desenvolvendo e se enriquecendo por meio de novas compreensões, geradas a partir de novas vivências, formando um círculo eterno de compreensão e crescimento.

E esse movimento constante de vivência que leva à compreensão e compreensão que leva à vivência, forma uma estrutura de segurança para que o indivíduo não tenha necessidade futura de buscar refúgio em substâncias que produzem alívio passageiro das sensações sem, contudo, resolver o verdadeiro problema.

Logo, é perceptível que a abordagem centrada na pessoa realmente pode alcançar resultados extremamente positivos no acompanhamento para com dependentes e codependentes químicos, tornando-se um possível caminho de apoio. Seja unicamente pelos trilhos da psicologia, seja acompanhada pelo aconselhamento cristão.

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Amar o Outro em Freud

Neste trabalho a ser apresentado pretendemos fazer uma análise breve a partir do texto escolhido, O Mal-Estar na Civilização, escrito por Sigmund Freud em 1929, obra constituída por textos que marcam uma nova concepção de pensamento centrado na reflexão sobre as relações do homem enquanto indivíduo, pressupondo que, tanto o desenvolvimento individual quanto social, articula o dualismo instintivo numa tentativa de manter o desenvolvimento do individuo e da civilização sob pressão através do controle das energias instintivas. Freud busca tecer sua teoria entre a força de autopreservação e autodestruição, remetendo-a para o dualismo instintivo entre amor e agressão. Para explicar a vida mental do individuo, Freud recorre à psicologia nietzschiana e fundamenta sua psicanálise.

Palavras-chave: instinto, amor, neurose, agressão.

1. Introdução

Para compreender e avaliar a natureza do homem, Freud parte do comportamento mental e suas perturbações ocasionadas pelo impulso instintivo que pode, segundo ele, originar o caráter de sintoma normal ou patológico. Para explicar a vida mental e as causas do mal-estar do indivíduo, Freud analisa a evolução da cultura, religião e dos fenômenos sociais. Por agora, tencionamos estudar sobre o conceito moral do amar o próximo como a si mesmo, para desvelar qual a relação entre amar a si mesmo e amar o outro na mesma intensidade, considerando que o amor é instintivo e remonta à origem da vida, um processo de evolução que molda a personalidade individual.

2. Da Psicologia à Psicanálise

Na psicologia nietzschiana, o valor moral imposto pela cultura, afasta o individuo sempre mais de si mesmo. A falta de reflexão sobre a influência cultural faz o homem agir comorebanho. Freud, equilibrando-se a partir da psicologia nietzschiana, trata de fundamentar sua psicanálise firmando, com outras palavras, o que Nietzsche já havia dito. Freud, escondendo debaixo do orgulho psicanalista questões psicológicas centrais pensadas por Nietzsche, compila as noções da origem do instinto da vida e avança sua análise sobre os instintos primitivos e sua força compulsiva associados ao intenso desejo da realização ligado ao organismo humano de modo amoral. Anotemos este caráter inumerável dos instintos em Nietzsche, pelo menos na origem: há instintos por toda parte, como havia, para Heráclito, deuses por toda parte, pelo menos em toda parte onde sucede algo de certa importância. Também não é por acaso que esta evocação inicial da idéia de instinto esteja ligada a algo misto. Toda a atividade considerada unitária revela-se um mar de instintos mantidos unificados. Nietzsche descobre uma diversidade heterogênea dos instintos, cada qual pressionando de modo egoísta para realizar-se.

Por isso, os instintos, afirma Freud, são amorais e intensamente egoístas, porque não estão subordinados às regras morais da sociedade, mas radicalizados à função fisiológica, pulsando para potencializar e preservar a vida. A causa do penoso dilema neurótico do homem civilizado é o desvio do instinto do seu fim original. O mal-estar, uma espécie de sublimação mistificada, na qual os instintos se adaptam aos fins não instintivos imposto pela realidade, assim, a força cega do instinto faz da cultura sua possibilidade de realização, causando um estado alterado de consciência, a neurose. A teoria da neurose pensada por Freud afirma que, desde sua origem, há certa perturbação mental, o que relativiza a antinomia saúde-doença, mas por um caminha diferente do de Nietzsche. Em Nietzsche, na verdade, os conceitos não deixam de ter uma função valorizadora.

3. Amor, Estado de Prazer Individual

Para Freud, a emoção é o efeito instintivo primitivo e as relações de recordação do início da vida vinculadas ao desenvolvimento sexual. Como um sentimento de impulso, passa por vários estágios psicológicos, iniciando na sexualidade infantil à sexualidade adulta, equivale dizer que, os sentimentos instintivos vinculados à consciência refletem como sinais fisiológicos. O impulso instintivo e a experiência do mundo externo, dois fatores que exercem influência imediata à totalidade psicofísica do individuo, e, desde sua origem, se ajusta ao estado psicológico e orgânico da natureza humana.

A mente do individuo, segundo a teoria freudiana divide-se em Id, Ego e Superego, onde os vários impulsos instintivos movem-se interligados para satisfazer necessidades orgânicas. O Id é o motor do Ego e do foco pulsional, mas é contido na relação com as regras. Por isso, volta-se contra o Ego e limita o Superego.  Por ex., o Id é a representação dos instintos biológicos e se ocupa em satisfazer as pulsões de preservação; o Ego é autônomo e age como extensão interna do homem:

Uma reflexão mais apurada nos diz que o sentimento do ego do adulto não pode ter sido o mesmo desde o inicio. Deve ter passado por um processo de desenvolvimento, que, se não pode ser demonstrado […] uma criança recém-nascida ainda não distingue o seu ego do mundo externo como fonte das sensações que fluem sobre ela. Aprende gradativamente a fazê-lo, reagindo a diversos estímulos […] certas fontes de excitação, que posteriormente identificara como sendo os seus próprios órgãos corporais, poderem provê-la de sensações […] entre as quais se destaca a mais desejada de todas: o seio da mãe (FREUD, 1978, p. 133).

Essa espécie de entidade metal inconsciente (FREUD, 1978, p.133), faz distinção entre consciência e organismo, mantendo em si o Id em um só estado, embora não patológico. Quando o instinto de amor aumenta, a fronteira entre o Ego e o Id desaparece e o instinto do Superego passa a agir como regulador dos desejos de prazer, deixando transparecer no indivíduo, visíveis perturbações psicológicas divididas entre sexualidade orientada pela sensação de prazer e o problema da repressão moral externa.

O amor é um estado de prazer individual e superior ao prazer dos órgãos genitais. Nietzsche distingue o amor como realização do ser e procriação como preservação da espécie. Para ele, o instinto sexual nega a igualdade geral e busca seu devir, a procriação não, ela é essencialmente orgânica e quer perpetuar-se. O paradoxo consiste em que, a pulsão sexual é composta de várias pulsões parciais, sua unificação fornece intensa hesitação caracterizada por uma atividade sexual atribuída a uma zona erógena. A mentira moral faz do prazer um dever, assim, o instinto de sobrevivência orgânica ultrapassa a natureza instintiva, transforma o prazer do amor como realização plena do ser em desejo de perpetuação da espécie. Quando o instinto sexual sofre pressão racional, adquire uma nova valoração. Para superar o paradoxo, Freud distingue a pulsão sexual (amor) da pulsão genital (ato da procriação).

4. Entre o Amor e a Agressão

Embora parecesse remontar bem antes do cristianismo, amar o próximo é uma expressão no mínimo paradoxal e estranha em seu próprio conteúdo. Segundo a concepção freudiana sobre a perplexidade do amar o outro, fica evidente que o amor para o individuo, é algo valioso e não deve ser lançado fora sem reflexão (FREUD, 1978, p.165). A máxima impõe amar o outrocomo um dever. O deve amar o outro, soa como uma regra moral, é como estar na obrigação de restituir ao outro algo que não lhe pertence, é como estar em dívida com o outro, é amar o outro por obrigação. A máxima deixa claro que, amar o outro implica até mesmo sacrificar-se por ele.

Para amarmos o outro, segundo Freud, no mínimo, o outro deve merecer nosso amor. Esse mínimo merecer deve anteceder o deve amar o outro. Examinando de perto o conceito do dever, evidencia-se uma não reciprocidade entre intenção e ação. Amar o dessemelhante é não refletir a diferença entre intenção e ação. Amor é um estado mental, uma energia vital instintiva que não se lança fora simplesmente porque a regra impõe: deve amar o outro. Tanto Nietzsche, quanto Freud pensa tal regra como uma ação vazia de valor moral. Uma ação desvinculada da intenção. Porque o amor é egoísta, individual. É a realização do ser.

Para Freud, a pulsão instintiva orienta o individuo para o amor, uma maneira de realização natural do ser ao encontrar compatibilidade no outro. A partir da expressão: amar o outro, inferimos ver no outro o reflexo do nosso amor e merecê-lo, por ser ele igual ou melhor do que nosso amor, um modo de amar mais perfeito que o nosso, nosso ideal, nosso próprio eu! Como amar o outro, se este não tem nada a ver com o nosso eu? Não havendo compatibilidade ao nosso valor, e por serem estranhos, seus valores não nos atraem, neste sentido, fica claro o paradoxo do amar ao outro:

Na verdade, se aquele impotente mandamento dissesse: ‘Ama a teu próximo como este te ama’, eu não lhe faria objeções. E há um segundo mandamento que me parece mais incompreensível ainda e que desperta em mim uma oposição mais forte ainda. Trata-se do mandamento ‘Ama os teus inimigos’ (FREUD, 1978, p.165)

É difícil amarmos o outro, quando este é tão antagônico e incompatível ao nosso amor. É injusto colocar um estranho valor de amor não sinalizando a harmonia espiritual entre ambos. Negar a vida é não termos liberdade de retermos em nós mesmo o valor supremo, o amor! Compartilharmos com alguém que não demonstra a mínima consideração é frustrar a possibilidade de realização da própria vida. Amar é um compartilhar mútuo, um mesmo nível de sentimento, um ato recíproco, jamais pode ser unilateral. Amarmos o outro como um ser da natureza e não mais do que isto, é a forma mais autêntica do amor ao próximo.

O elemento de agressividade do instinto do homem, lobo do homem, é um bom começo para discutirmos a questão do amor ao próximo. Partindo da questão do outro ser um individuo agressivo, o amor ao próximo, obviamente, ficará em desvantagem, caso o outro, não estiver predisposto ao nosso amor. Conforme Freud, a natureza humana é inclinada mais para a agressão. O fator principal e perturbador nas relações com o outro é exatamente a agressão. Há uma hostilidade, uma ação conflitante e contraditória primitiva na existência humana, ligado à consciência e a constituição orgânica. O ideal de amor ao próximo, em outras palavras, justifica o fato de o homem amar a si mesmo e assim não causar dano ao outro. Aquele que vive em estado consciente de amor, não causa dano à natureza, vive em harmonia consigo mesmo e com o todo.  Assim, o termo correto de amor ao próximo é: ama a teu próximo como este te ama (FREUD, 1978, p.166), porque no instinto de amor, há de certo modo, um instinto de morte. Os fenômenos da vida podem ser explicados, pelo movimento de forças opostas desses dois instintos. Porém, como a atividade do instinto de morte, age como um meio de destruição que, em parte se mantém latente, e em outra, se manifesta no sentido de agressividade. Assim, o instinto de morte, é compelido para o serviço do amor. Ao invés de destruir o eu consciente, destrói parte do organismo. Se tal agressividade mantivesse contida a autodestruição ganharia força. Os dois tipos de instintos estão mutuamente mesclados em oposição.

Neste sentido, o instinto da sensualidade, mantém em si uma tendência para o amor e autodestruição.  A libido, Freud fez dela, enquanto força variável, no campo da excitação sexual, relacionando com tudo que se pode entender como amor e denota as manifestações do amor a fim de distingui-las da energia do instinto da morte. A morte, por se ocultar no instinto de amor é mais difícil apreende-la, sua inclinação para a agressão, constitui uma disposição instintiva original que atravanca a civilização. O instinto de agressão é o representante da morte, e, ao mesmo tempo, o mais próximo do amor e com este divide o domínio da existência. Significando que as evoluções da civilização já não são mais obscuras, pois a luta dos opostos: amor e morte, definem o curso e o fundamento da vida: a luta da espécie humana pela vida (FREUD, 1978, p.176).

5. Conclusão

O medo de perder o amor traz consigo a insegurança de sentir-se só, desprotegido, exposto ao perigo do mais forte. Fica estabelecido que, mal é tudo aquilo que, com a perda do amor ameaça à vida. Quando o homem fracassa e não consegue superar limites e frustrações, esgota a consciência e esta o aflige, pois se sente ameaçada. Os infortúnios do mundo exterior, os sofrimentos, são formas de potencializar a vida. Sempre que o homem os castra, o círculo de evolução da vida é interrompido, impedindo que o fluxo da existência perpetue seu curso natural.

O artifício criado pelo homem de amar o próximo é um mecanismo que inibe a realização da própria vida. Construir a vida a partir de artimanhas que manipulam a própria natureza da existência é construir um método de conhecimento que orienta o homem sempre mais ao vazio obscuro e ilimitado do nada, vazio e nada, que antecede o princípio da geração do mundo. Retornando ao niilismo, o homem retorna a grande confusão e desordem do caos.

O instinto primitivo humano, alterado pela civilização, causa o mal-estar, que em outras palavras, é estar mal em si mesmo por não conhecer sua intrínseca natureza. Nos tempos remotos, o homem primitivo seguia seu curso natural em relação com sua existência. Posterior, a civilização age como reflexo de uma continua severidade externa que coíbe as ações do instinto, daí surge o mal-estar, as neuroses e o desamor, porque organismo e consciência estão ligados entre si. O dever moral, suprimindo o instinto, altera a consciência, e, a consciência por sua vez compromete o organismo. No passado, o homem primitivo, ligado ao seu instinto natural atribuía os infortúnios ao seu fetiche por não cumprir seu dever, mas jamais culpava a si mesmo, assim reprimia seu fetiche, mas nunca punia a si mesmo, porque o homem primitivo não tinha a neurose que tem o homem civilizado.

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A Psicodinâmica da Família Como um Possível Sintoma da Contemporaneidade

shutterstock_19509727O objetivo deste trabalho foi abrir um debate sobre o papel das relações familiares como um provável sintoma trazido pela contemporaneidade. Este artigo traz uma revisão literária numa perspectiva psicanalítica onde se articulam conceitos tais como sintoma, recalque, complexo de Édipo e acting out com intuito de explicar o processo de recalque e suas implicações da falha da internalização da lei e suas formas de satisfação. Para tanto, a instituição família é contextualizada historicamente até chegar à contemporânea, onde se discute a dificuldade da transmissão da autoridade. Neste contexto, esse trabalho transporta a experiência clínica para as relações do sujeito em sociedade. Onde o sujeito de desejo, levado pelas descargas pulsionais, não consegue em algumas situações simbolizar algo que foi recalcado, como por exemplo, a falha da internalização da lei, do limite. Na tentativa de recuperação da falha da internalização da lei, o sujeito busca através da ação propriamente dita, ou seja, pela via da agressão física regular o sofrimento sentido pela falha da internalização da lei.

Palavras-chave: Família, Sintoma, Contemporaneidade.

1. Introdução

A psicodinâmica da família contemporânea tem sido uma questão que requer uma compreensão e uma reflexão mais profunda, pois nela pode-se observar a evidência de uma transformação gerada dentro da família. Dentre essas transformações podemos citar o afrouxamento do limite que tem levado de alguma forma a falha da internalização da lei. Como consequência disso pode-se propor em alguns casos como consequência, a impossibilidade da constituição do indivíduo como sujeito sociável, que vem indicando um mal estar tanto para o sujeito, quanto para a sociedade em geral. Por esse motivo se faz necessário a produção e a publicação cada vez mais de trabalhos e pesquisas a respeito do tema, para que haja uma melhor percepção, compreensão e acompanhamento dessa possível metamorfose que abrange família, sujeito e sociedade através de uma arrumação dinâmica e interligada.

Pelo viés da psicanálise e especificamente pela visão freudiana, esse trabalho abre um debate sobre família, sintoma e contemporaneidade, vislumbrando e sinalizando como as relações familiares podem ser um provável sintoma indicativo dessa mutação trazida pela contemporaneidade que se reflete na sociedade e vice versa.

Fazendo assim uma releitura da psicodinâmica familiar contemporânea através da perspectiva psicanalítica freudiana, pode-se observar que a falha da internalização da lei, do limite, tem sido uma problemática do cenário atual, onde se consegue sugerir e visualizar alguns sintomas refletidos pela família contemporânea como a infração e consequentemente, em algumas situações, a agressão, gerando repercussões na vida do sujeito e na ordem social.

É através de um ensaio bibliográfico que este trabalho visa realizar um recorte da família contemporânea e discutir alguns conceitos, tais como o de sintoma, diferenciando os termos sintoma psicanalítico e sintoma médico. Desta forma, far-se-á uma articulação do sintoma infração como substituto do recalcamento da falha da internalização da lei. A falha da internalização da lei será discutida como um possível fruto da relação edipiana, sugerindo assim a infração como um sintoma na tentativa de recuperação da lei, podendo-se chegar a realização da agressão física ou até mesmo o homicídio, pelo intermédio do que Freud chamou de acting out, dependo do contexto de algumas situações. Por fim far-se-á uma discursão, inferindo o impacto que a ausência da lei (autoridade enquanto função paterna) na contemporaneidade vem causando tanto na dinâmica familiar, quanto no âmbito social.

Esse ensaio teórico foi realizado a partir de uma pesquisa literária, feita através de vários livros que constam em acervos espalhados pelas bibliotecas localizadas na cidade do Recife.

Também foi realizada uma busca de artigos científicos, viabilizada por meio eletrônico, através das bases de dados Scielo e Google acadêmico, onde foram utilizadas algumas palavras-chave, como: “sintoma psicanalítico”, “sintoma médico”, “família contemporânea”, “história da família”, ”contemporaneidade”, “lei na visão psicanalítica”, e “limite na visão psicanalítica”.

Para começar, abordaremos o dinamismo da entidade família no decorrer da história, focando nos dias de hoje. Em seguida, o trabalho traz uma visão do sintoma e alguns conceitos psicanalíticos importantes para o entendimento do problema aqui proposto. Para finalizar, a falha da internalização da lei é ressaltada dentro do Complexo de Édipo, onde faz-se uma explanação sobre o mito Édipo Rei e a interpretação psicanalítica sobre o Édipo masculino.

2. A Instituição Família na Contemporaneidade

Segundo Prado (1981), desde os primórdios da história da humanidade não existe uma definição unívoca do que é família, apenas há esclarecimentos através de estudos antropológicos sobre as diversas evoluções sofridas por essa instituição ao longo dos tempos, que por sua vez é marcada pela noção do significado social aos indivíduos que institui laços dentro de uma mesma entidade, revelando assim como existiu e existe a família. Dentre os vários tipos de família existentes na atualidade, a mais conhecida e valorizada em nossos dias é aquela formada por pai, mãe e filhos, a nomeada família nuclear. Em tempo algum iremos encontrar através da narrativa humana uma sociedade que tenha existido fora de qualquer noção de família, ou seja, de alguma ligação institucional entre pessoas de mesmo sangue. Embora no interior das famílias haja transformações ao longo do tempo, ela sempre existirá seja qual for a sua representação ou configuração.

Roudinesco (2003) notabiliza três períodos importantes na evolução da família, onde o primeiro período é marcado pela família tradicional, que se caracterizou pela autoridade patriarcal, pela transmissão de um patrimônio e casamentos arranjados sem que os desejos dos futuros cônjuges fossem levados em consideração. Num segundo período a família foi timbrada como moderna, em que a mesma foi descrita por um modelo do amor romântico consolidado pela lógica imposta entre o final do século XVIII e meados do XX, em que era aprovada a troca mútua entre os cônjuges dos sentimentos e desejos carnais pela mediação do casamento, onde também se consolidou a divisão do trabalho entre os cônjuges. A educação dos filhos era responsabilidade dos pais e dentro desse panorama a autoridade passou a ser atribuída também ao Estado e aos pais, e entre os pais e as mães. A partir de 1960 a família é designada contemporânea, que tem como particularidade dois indivíduos que se juntam através de uma durabilidade relativa em busca de relações íntimas ou realização sexual, de modo que a transmissão da autoridade vai se tornando mais difícil e questionada à medida que os divórcios, a fragmentação e as reorganizações conjugais aumentam, onde a família não é mais garantida pela presença indesatável do divino através da convenção do casamento, tornando-se cada vez mais um acordo livre e outorgado entre os indivíduos enquanto o amor resistir.

Centeno (2001) relata algumas novas configurações familiares assumidas pela família contemporânea, que têm sido influenciadas pelo contexto social atual que atua diretamente nos costumes, evolução e transformação da família. Dentre os novos padrões familiares apresentados na contemporaneidade pode-se destacar: (1) famílias monoparentais, que surge proveniente do divórcio ou separação, onde um dos pais toma para si o cuidado dos filhos e o outro não é eficaz na parentalidade, ou famílias onde um dos pais é viúvo ou solteiro. Alguns dos obstáculos encontrados por essa família é de um genitor assumir as funções que normalmente seriam assumidas por ambos os genitores; (2) famílias reconstituídas, que são oriundas de recasamento e que trazem filhos do primeiro casamento. Umas das possíveis dificuldades encontradas por essa família são os impasses concernente aos direitos e deveres de cada membro, pois a mesma é constituída por filhos do casal atual e filhos dos outros casamentos que podem levar o casal atual a um série conflitos severos; (3) famílias de uniões consensuais é originada na sua maioria por divorciados, separados ou viúvos, casais que preferem morar juntos sem formalizar suas uniões frente ao matrimônio legal, preferindo morar em casas separadas; (4) família constituída por casais sem filhos por opção, procedente de casais que dão preferência ao crescimento profissional, social e a independência financeira, sem optar por filhos; (5) família unipessoais (Meler, apud CENTANO, 2001) é uma designação para aquelas pessoas que escolhem um lugar físico individual. São enumeras as razões dentre elas a oportunidade de trabalho fora do domicílio, independência individual, onde não fazem trocas emocionais compartilhadas; (6) família por associação, que são formadas por amigos sem vínculo de parentesco, onde as pessoas optam por formar uma rede fundamentada na amizade; (7) e por fim a mais polêmica a família formada por casal homoafetivo, formada por uma união estável entre pessoas do mesmo sexo, casal de gays ou lésbicas, com questões complexas de tornar assimilável mediante as coações, mitos e realidades que atingem estes casais.

3. O Sintoma na Perspectiva Psicanalítica e Médica

De acordo com a visão psicanalítica, o sintoma é uma substituição a uma satisfação pulsional, ou seja, indicativo do desejo que foi afastado pelo recalcamento, onde o mesmo indica o retorno do recalcado através de um substituto deformado do desejo não realizado. “Um sintoma é um sinal substituto de uma satisfação instintual que permaneceu em estado jacente” (FREUD, 1925, p.112).

Freud (1925) frisava que diante do conflito entre as exigências do consciente, e das representações recalcadas no inconsciente, surge uma saída, através do ego, a formação de compromisso, ou seja, o sintoma com a função de descaracterizar o que foi recalcado, para que possa ser aceito sem risco na consciência. Poderemos assim afirmar que o ego é o mediador entre o inconsciente e o consciente, fazendo com que haja uma satisfação dos conteúdos recalcados de forma indireta.

Ele não deve ser transformado em ação, pois, como sabemos na repressão o ego está atuando sob a influência da realidade externa e, impede o processo substitutivo exercer qualquer efeito sobre aquela realidade. Do mesmo modo que o ego controla o caminho para a ação, controla o acesso á consciência (FREUD, 1926, vol. xx, p. 116-117).

A partir de todo esse processo dinâmico, não podemos deixar de falar sobre um dos pilares da psicanálise, o recalque, que é a base para a formação do inconsciente.

Para Freud (1915), a essência do recalque consiste simplesmente em afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a á distância. Para que isso aconteça se faz necessário que ocorra uma cisão entre o representante ideativo (vorstellugrepräsentanz) e o afeto (affekt), em que o primeiro é caracterizado por ideias desagradáveis do campo da consciência, que é recalcado, e o segundo como qualidade e a quantidade de energia pulsional, o que não é recalcado, onde o representante ideativo e o afeto são independentes, ou seja, tanto o afeto quanto o representante ideativo têm destinos diferenciados (GARCIA-ROZA, 2008). Ou seja, Freud (1894), na carta 18 que escreveu a Fliess, esclarece que o afeto pode ter três mecanismos de transformação que são eles: transformação do afeto (histeria de conversão), deslocamento do afeto (obsessões) e troca do afeto (neurose de angústia e melancolia).

Freud (1915) nos mostra duas fases do recalque, onde a primeira fase consiste no recalque originário que é fundamental e responsável pela divisão do psiquismo, que se caracteriza pelas representações ideativas ou idéias desagradáveis individuais, que são regidas pelos mecanismos específicos do processo primário, a condensação e deslocamento, que vai atender ao princípio do prazer.

O recalcamento secundário se destaca por sucessões e pensamentos oriundos do pré-consciente/consciente, que é caracterizado pelo processo secundário, que por sua vez entram em contato com as representações recalcadas, que são frutos do recalque originário para satisfazer o princípio de realidade. (FREUD,1915).

No texto o retorno do recalcado, Freud (1939) nos mostra a terceira fase do recalcamento, afirmando que o retorno do recalcado é caracterizado por: “suas características distintivas, contudo é a deformação, de grandes consequências, a que o material que retorna foi submetido, quando comparado com o original.”(FREUD, 1930, p. 150-151). Significa dizer que, o retorno do recalcado é uma saída útil funcional regido pelas leis do inconsciente que se qualifica pelos processos primários de condensação e deslocamento através dos sonhos, fantasias, atos falhos e dos sintomas, que visam a satisfação substitutiva do desejo, satisfazendo tanto o princípio de prazer, quanto o princípio de realidade pela via de satisfação pulsional.

Dentro de uma perspectiva médica, pode-se dizer que o sintoma é da ordem subjetiva descrito pelo paciente que vem acompanhando de manifestações objetivas, ou seja, os sinais que são detectados pelo médico, através de uma anamnese e do método clínico aplicado no organismo, onde o mesmo vai dar uma significação através de um diagnóstico, como sendo ou não uma doença. (PIMENTA; FERREIRA, 2003).

Ainda na linha de pensamento de Pimenta e Ferreira (2003), tanto a psicanálise quanto a medicina partem da conjuntura de que o sintoma é proveniente de sentimentos, mas ao mesmo tempo se distancia no que se diz respeito a interpretação  do sintoma. Na medicina é da competência médica detectar através de um diagnóstico algo no organismo e dar sua significação ao sintoma, decodificando o sinal apresentado como sendo doença ou não. Já em uma perspectiva psicanalítica, o sintoma é visualizado como algo contextualizado dentro da história de cada sujeito, onde indica fragmento do sujeito do inconsciente, que poderá estar passivo de redefinição com a participação do analista, podendo trazer resultado benéfico se o sujeito atribuir algum sentido ao sintoma.

Nasio (1993) indica o sintoma na visão psicanalítica como um mal estar que pode ser descrito de maneira bem singular seja por palavras ou através de maneira metafórica e inopinada, que é revelado de forma involuntária, ou seja, desprovido de qualquer saber consciente, visualizado como uma manifestação do inconsciente ao invés de ser legado a um estado insalubre.

4. Psicodinâmica familiar contemporânea refletindo o sintoma pela ausência da lei

Para que se possa discorrer sobre a lei na visão psicanalítica, se faz necessário citar alguns textos: Totem e Tabu (1913) e A Dissolução do Complexo de Édipo (1925), em que é enfatizada a lei como fator primordial e estruturante do indivíduo como sujeito sociável.

Freud (1913) no texto Totem e Tabu explica o mito da Horda Primeva que consiste em tribos primitivas aborígines da Austrália, em que nessas tribos o predomínio era o totemismo (divinização de esculturas, plantas, animais ou antepassado) e a exogamia, ou seja, proibições sexuais entre os membros do mesmo clã, caracterizada pela proibição do incesto que está ligado diretamente com o desejo de realiza-lo. É também abordada por Freud a questão do tabu, por se tratar de uma palavra polinésia, que por sua vez traz dois sentidos: de sagrado e de proibido, que provoca de uma certa maneira uma ambivalência dos sentimentos de hostilidade e de admiração ao animal totêmico, ou seja, animal esse representado pelo pai.

Por ser um pai tirânico e possuidor de todas as fêmeas do clã, o mesmo expulsava os filhos a medida que cresciam e nutriam desejos incestuosos dentro da horda. Consequentemente os filhos expulsos matariam e tragaria o pai opressor pondo fim a horda patriarcal. Sendo assim é apontado os sentimentos ambivalentes, a medida que os filhos tragavam o pai, ou seja, o odiavam por ele ser o proibidor dos desejos incestuosos, ao mesmo tempo se identificam com o mesmo adquirindo sua força, ou seja, o amavam e admiravam pelo domínio que o mesmo exercia dentro do clã, levantando assim a todos os filhos um sentimento de culpa. Tendo cometido o parricídio, os filhos perceberam que não podiam tomar o lugar do pai, por causa do sentimento de culpa e assim renunciam ao objeto de desejo, que no caso aqui eram as fêmeas do clã.

Nesse texto freudiano, há uma indicação notória da universalidade de um dos conceitos angulares da psicanalise que é o Complexo de Édipo, em que através do mito, Freud abre um debate e faz uma correlação entre a psicologia dos povos primitivos e a psicologia dos neuróticos, ou seja, o homem primitivo e o homem civilizado. Onde ambos são embasados pelos desejos incestuosos e que são marcados por uma proibição, ou seja, uma lei que é representada pelo pai e que são recalcados no inconsciente gerando angustia. Essa interdição constituída contra os desejos incestuosos que é relatada por esse mito, chama a atenção para uma organização social, dando origem à civilização, onde o tabu do incesto surge como a primeira lei que firma uma sociedade, ou seja, viabiliza a passagem do homem da natureza para a cultura, onde o incesto é propagado como sendo de natureza antissocial, evitando assim a destruição do pai real entre os homens civilizados e instituindo novos valores a partir desse interdito.

Freud (1897), na carta 71 dirigida a Fliees, menciona a partir de sua autoanálise pela primeira vez a tragédia grega de Sófocles, Rei Édipo, onde antes do nascimento de Édipo, seu pai Laio casado com Jocasta, resolve consultar o oráculo e recebe a profecia de que iria ter um filho que o mataria e se casaria com a mãe. Quando Édipo nasceu não recebeu nenhum nome e foi condenado a morte por seus pais Laio e Jocasta, sendo assim, Jocasta entregou o filho a um pastor e ordenou que o mesmo matasse o menino. Édipo é levado para o monte Citrão pelo pastor, onde ao invés de ser morto foi lhe furado os pés e amarrado com uma corda e pendurado em uma árvore. Logo em seguida, um outro pastor de Corinto que ao passar por aquele lugar comtemplou a criança dependurada a uma árvore e a salvou, cortando a corda que o amarrava e levando-o para a cidade de Corinto. Chegando em Corinto, Édipo foi amparado por Mérope e Políbio que o criaram como filho legítimo.

Já em sua fase adulta, Édipo é sabedor que não era filho legítimo dos pais que lhe amparou, extremamente desolado procura o oráculo e recebe a profecia que seria assassino de seu pai e casaria com a mãe. Tentando desviar-se de seu destino, Édipo deixa a cidade de Corinto e segue sem destino. Em um determinado ponto de sua jornada, passando por uma encruzilhada, ele se depara com um comboio que fazia a guarnição de um ancião, com quem tem um sério atrito, onde mata o mesmo e alguns do seu comboio. Édipo, nesse momento, acabara de cometer o parricídio, ou seja, mata o próprio pai.

Chegando as proximidades da cidade de Tebas, Édipo é sabedor que na entrada dessa cidade existia uma esfinge, que desafiava com enigmas a quem por ela passasse e devorava aquele que não desvendasse o enigma. Édipo imediatamente aceitou o desafio e se submeteu a decodificar o seguinte enigma feito pela esfinge: “ qual o animal que, pela manhã, anda com quatro pés, ao meio dia com dois e, à tarde, com três pés?” Édipo responde e explica: “ é o homem, que na infância gatinha, na idade adulta anda erguido e, na velhice, se apoia num bastão.” Nesse momento a esfinge de maneira repentina e impulsiva, vira-se para um abismo e se joga resultando em sua morte. Já Édipo, por ter decifrado o enigma e matado a esfinge, recebe como prêmio a mão da rainha de Tebas e viúva de Laio, Jocasta, o qual Édipo matara na encruzilhada. Sendo assim passou a reinar sobre Tebas, cumprindo-se a profecia do oráculo.

Dessa forma, Freud (1925) vem indicar a construção do sujeito desejante, onde o mito ajuda a tornar mais compreensível a dinâmica das relações em que a criança firma mediante as figuras parentais. Desse mito, pode-se dizer que é a partir da fase fálica que o menino apresenta uma grande valorização ao seu órgão genital, que resulta em uma ascensão libidinal, onde o menino deseja a mãe sexualmente e sente ódio do pai representante da lei tomando-o como rival, que vem interditar a satisfação do desejo incestuoso, onde esses sentimentos são demonstrados através de representações dos afetos, amor e ódio, que por sua vez ajudam a fundamentar a construção da subjetividade da criança. Vale a pena salientar que todo esse conflito ocorre de maneira inconsciente.

É na fase fálica que o menino através da representação da castração consegue ultrapassar o complexo de Édipo, que é caracterizada pelo medo que a ameaça da castração provoca, à medida que o menino visualiza a diferença anatômica dos sexos, ou seja, o menino constata de maneira concreta a ausência do pênis tanto na menina quanto na sua mãe. Sendo assim ele fantasia temendo que o mesmo possa lhe acontecer, pelos desejos incestuosos pela mãe e parricidas pelo pai como um castigo. Daí ele automaticamente cria um sentimento de culpa, originando o superego constituindo por uma instância moral. Com o medo de perder o pênis há uma interiorização da renúncia do desejo edipiano, ou seja, a proibição do desejo edipiano é constituída e percebida como a lei, que simboliza o limite, e é representada pelo pai enquanto função.

Quando Freud correlaciona o complexo de Édipo e a castração, percebe-se que há uma identificação do menino com os valores paternos que detém a lei que regula a dinâmica dos desejos edipianos que poderá ser interiorizada. Essa regulação dos desejos é ampliada dentro da construção do sujeito desejante, ou seja, é a lei, o limite que tem a função de barrar de alguma forma o desejo desmedido do menino, destronando-o de sua onipotência e inserindo o indivíduo no âmbito social fazendo-o deslizar da condição de ser para a de ter tornado-o assim um sujeito de desejo e sociável.

Com todo esse processo essencial na vida do menino é possível levantar a premissa de que a lei na visão psicanalítica tem a finalidade de estruturar o desejo, interligando-o com as regras de maneira satisfatória, alinhando assim o indivíduo como sujeito desejante na tentativa de harmonizar o convívio e a ordem social.

Quando este trabalho se refere a falha da internalização ou ao afrouxamento da lei no sentido psicanalítico, se faz necessário retomarmos os textos Totem e Tabu (1913), onde Freud faz com clareza a distinção entre o homem neurótico e o homem primitivo, ou seja, o homem civilizado e o homem selvagem. Sendo assim embasado no pensamento freudiano pode-se sugerir que o neurótico em algumas situações retorna ao seu estado primitivo substituindo e transformando o pensamento pelo ato propriamente dito. No caso do presente trabalho, sugere-se que o recalcamento da falha da internalização da lei, por sua vez pode retornar como o sintoma infração, na tentativa de recuperação dessa lei e ao mesmo tempo sinalizar dizendo que algo não está bem, fazendo, em alguns casos, a substituição pelo ato da agressão física propriamente dita, podendo chegar até a cometer o homicídio, gerando de certa forma uma desordem social que vem dificultar a inserção do sujeito desejante dentro do grupo social.

Mas os neuróticos são, acima de tudo, inibidos em suas ações: neles, o pensamento constitui um substituto completo do ato. Os homens primitivos, por outro lado, são desinibidos: o pensamento transforma-se diretamente em ação. Neles, é antes o ato que constitui um substituto do pensamento, sendo por isso que, sem pretender qualquer finalidade de julgamento, penso que no caso que se apresenta pode-se presumir com segurança que “no princípio foi o Ato” (FREUD, 1913 vol. XIII, p. 190-191).

Freud (1914) vem nos reforçar que o indivíduo em muitas vezes, por não conseguir expressar através de palavras a ideia que foi recalcada expressa pela via da atuação, reproduz como ação o que ele chamou de acting out, agindo sem saber por quê, viabilizando através da transferência o retorno do recalcado pelo caminho da ação, ou seja, não consegue simbolizar a representação que foi recalcada. É essa experiência clínica que Freud relata nos seus escritos técnicos que pode-se ampliar para as vivências do sujeito de  desejo fora da clínica.

Se nos limitarmos a este segundo tipo, a fim de salientar a diferença, podemos dizer que o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem saber que o está repetindo (FREUD, 1914 vol. XII, p.196).

Partindo dessa visão freudiana, esse trabalho transporta essa experiência clínica para as relações do sujeito em sociedade. Onde o sujeito de desejo, levado pelas descargas pulsionais, não consegue em algumas situações relatar através das palavras algo que foi recalcado, como por exemplo, a falha da internalização da lei, na tentativa de recuperar assim essa lei através da ação propriamente dita, pela via da agressão física ou até mesmo o homicídio, com o intuito de regular o sofrimento sentido pela ausência dessa lei que é fundamental na vida do sujeito desejante em sociedade.

Mediante o apontamento teórico que foi descrito, há uma provocação que se leva a refletir acerca do que provavelmente está sendo recalcado através dessa psicodinâmica familiar contemporânea. Diante do cenário que se apresenta, percebe-se que os novos padrões familiares, sugeridos pela contemporaneidade, provocam falhas na institucionalização da lei e do limite, fazendo com que os pais ou cuidadores permitam demais, e assim facilitem a onipotência do desejo exacerbado da criança descaracterizando o referencial de lei dentro do seio da família, que por sua vez é ampliada para as relações sociais. Desta forma a lei passa a ser minimamente reconhecida e em alguns casos não reconhecida, trazendo impactos nas relações familiares e sociais.

O sintoma indicativo e sugerido dessa psicodinâmica é a infração, que se apresenta como um substituto deformado do que foi recalcado, no caso aqui em debate seria a falha da internalização da lei, do limite. Pode-se perceber que o sujeito na maioria das vezes infringe na tentativa de recuperar a lei, o limite, ou seja, uma possibilidade de satisfazer o que foi recalcado. Nessa dinâmica em algumas situações visualiza-se também a recuperação da lei através do acting out, onde o sujeito pode se expressar através da agressão física propriamente dita, podendo chegar até a cometer o homicídio dependo da situação e da estrutura psíquica de cada sujeito.

Esse desejo pela recuperação da lei pode gerar um conflito no âmbito da condição de sujeito faltante e de sujeito desejante, em que, o que ganha notoriedade nesse processo dinâmico é a existência de uma falha, que é demonstrada pela exiguidade da lei, do limite, que estão bem presentes e sugeridos pelos moldes da contemporaneidade.

Diante de todo esse afrouxamento da lei dentro do seio da família, nota-se que o Estado foi constituído de alguma forma como a lei, através de uma figura de autoridade na tentativa de regular a ordem social, que vem sendo atingida pelas consequências das relações familiares, que por sua vez é influenciada e atingida pelos novos padrões familiares estabelecidos pela contemporaneidade.

Por outro lado percebe-se que o Estado, enquanto representante da lei, não tem dado conta de exercer a lei, por estar corrompido e enfraquecido como referencial da lei, sendo assim, o mesmo devolve a responsabilidade da representação da lei e do limite às famílias, onde o sujeito desejante configura-se como um barco a deriva que clama e recorre a outras instâncias sociais como religiões e grupos sociais que são constituídas como lei, na tentativa de que seus desejos sejam regulados.

5. Considerações finais

Chegando ao final desse ensaio bibliográfico e diante do que foi exposto no mesmo, podemos perceber que foi aberto um debate através da perspectiva psicanalítica freudiana sobre a psicodinâmica das relações familiares como um possível sintoma da contemporaneidade. Este artigo aborda a falha da internalização da lei, levando a refletir sobre uma série de transformações impostas pela contemporaneidade, no que se diz padrão familiar, que tem atingido a psicodinâmica das famílias e automaticamente tem afrouxado a lei dentro do seio da mesma.

Sendo assim, para que o debate que foi proposto por esse trabalho atingisse o objetivo esperado, foram explanados alguns conceitos dentro da visão freudiana tais como: sintoma o qual foi articulado como o sintoma infração, como substituto do recalcamento da falha da internalização da lei, que por sua vez foi interligado e sugerido como fruto da relação edípica correlacionada com a castração na tentativa de recuperação da mesma, onde essa recuperação da lei em algumas situações pode chegar ao extremo através da agressão física ou até do homicídio. Tudo isso viabilizado pelo acting out, gerando um mal estar na psicodinâmica da família, na vida do sujeito e na ordem social.

A partir da falha da internalização da lei, do limite dentro da psicodinâmica familiar contemporânea, o sujeito de desejo amplia sua busca pela recuperação da lei para outras instâncias que representa de alguma forma a lei, que no caso podemos citar: o Estado, as religiões e os grupos sociais, na tentativa de suprir a falha dainternalização da lei, que gera de alguma forma um mal estar em todos os aspectos da vida do sujeito desejante.

Diante do que foi exposto, acredita-se que a reflexão levantada é de grande importância para os que se interessam pelo tema família articulado ao contexto social de maneira geral.

Consciente da reflexão que foi proposta nesse trabalho, deixamos um importante debate, e ao mesmo abrimos um caminho para que outros trabalhos venham ampliar essa discursão. A família apresenta relações muito ricas, e ao focar em um tema específico, faz-se um recorte muito pequeno, tirando-se, de certa forma, o foco de sua complexidade.

Outros trabalhos devem ser realizados nessa área para enfocar outros tipos de relações e inferir possíveis explicações dentro da psicanálise. Um exemplo seria ressaltar também o complexo de Édipo na menina, uma vez que o presente artigo abordou o gênero masculino.

Estudos dessa natureza servem para que, cada vez mais, haja uma melhor compreensão e percepção das relações familiares vivenciadas no cenário atual.

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GARCIA – ROZA, L. Freud e o inconsciente. 23. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

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SÓFOCLES. Rei Édipo. Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint LTDA.

A Psicodinâmica da Família Como um Possível Sintoma da Contemporaneidade

shutterstock_19509727O objetivo deste trabalho foi abrir um debate sobre o papel das relações familiares como um provável sintoma trazido pela contemporaneidade. Este artigo traz uma revisão literária numa perspectiva psicanalítica onde se articulam conceitos tais como sintoma, recalque, complexo de Édipo e acting out com intuito de explicar o processo de recalque e suas implicações da falha da internalização da lei e suas formas de satisfação. Para tanto, a instituição família é contextualizada historicamente até chegar à contemporânea, onde se discute a dificuldade da transmissão da autoridade. Neste contexto, esse trabalho transporta a experiência clínica para as relações do sujeito em sociedade. Onde o sujeito de desejo, levado pelas descargas pulsionais, não consegue em algumas situações simbolizar algo que foi recalcado, como por exemplo, a falha da internalização da lei, do limite. Na tentativa de recuperação da falha da internalização da lei, o sujeito busca através da ação propriamente dita, ou seja, pela via da agressão física regular o sofrimento sentido pela falha da internalização da lei.

Palavras-chave: Família, Sintoma, Contemporaneidade.

1. Introdução

A psicodinâmica da família contemporânea tem sido uma questão que requer uma compreensão e uma reflexão mais profunda, pois nela pode-se observar a evidência de uma transformação gerada dentro da família. Dentre essas transformações podemos citar o afrouxamento do limite que tem levado de alguma forma a falha da internalização da lei. Como consequência disso pode-se propor em alguns casos como consequência, a impossibilidade da constituição do indivíduo como sujeito sociável, que vem indicando um mal estar tanto para o sujeito, quanto para a sociedade em geral. Por esse motivo se faz necessário a produção e a publicação cada vez mais de trabalhos e pesquisas a respeito do tema, para que haja uma melhor percepção, compreensão e acompanhamento dessa possível metamorfose que abrange família, sujeito e sociedade através de uma arrumação dinâmica e interligada.

Pelo viés da psicanálise e especificamente pela visão freudiana, esse trabalho abre um debate sobre família, sintoma e contemporaneidade, vislumbrando e sinalizando como as relações familiares podem ser um provável sintoma indicativo dessa mutação trazida pela contemporaneidade que se reflete na sociedade e vice versa.

Fazendo assim uma releitura da psicodinâmica familiar contemporânea através da perspectiva psicanalítica freudiana, pode-se observar que a falha da internalização da lei, do limite, tem sido uma problemática do cenário atual, onde se consegue sugerir e visualizar alguns sintomas refletidos pela família contemporânea como a infração e consequentemente, em algumas situações, a agressão, gerando repercussões na vida do sujeito e na ordem social.

É através de um ensaio bibliográfico que este trabalho visa realizar um recorte da família contemporânea e discutir alguns conceitos, tais como o de sintoma, diferenciando os termos sintoma psicanalítico e sintoma médico. Desta forma, far-se-á uma articulação do sintoma infração como substituto do recalcamento da falha da internalização da lei. A falha da internalização da lei será discutida como um possível fruto da relação edipiana, sugerindo assim a infração como um sintoma na tentativa de recuperação da lei, podendo-se chegar a realização da agressão física ou até mesmo o homicídio, pelo intermédio do que Freud chamou de acting out, dependo do contexto de algumas situações. Por fim far-se-á uma discursão, inferindo o impacto que a ausência da lei (autoridade enquanto função paterna) na contemporaneidade vem causando tanto na dinâmica familiar, quanto no âmbito social.

Esse ensaio teórico foi realizado a partir de uma pesquisa literária, feita através de vários livros que constam em acervos espalhados pelas bibliotecas localizadas na cidade do Recife.

Também foi realizada uma busca de artigos científicos, viabilizada por meio eletrônico, através das bases de dados Scielo e Google acadêmico, onde foram utilizadas algumas palavras-chave, como: “sintoma psicanalítico”, “sintoma médico”, “família contemporânea”, “história da família”, ”contemporaneidade”, “lei na visão psicanalítica”, e “limite na visão psicanalítica”.

Para começar, abordaremos o dinamismo da entidade família no decorrer da história, focando nos dias de hoje. Em seguida, o trabalho traz uma visão do sintoma e alguns conceitos psicanalíticos importantes para o entendimento do problema aqui proposto. Para finalizar, a falha da internalização da lei é ressaltada dentro do Complexo de Édipo, onde faz-se uma explanação sobre o mito Édipo Rei e a interpretação psicanalítica sobre o Édipo masculino.

2. A Instituição Família na Contemporaneidade

Segundo Prado (1981), desde os primórdios da história da humanidade não existe uma definição unívoca do que é família, apenas há esclarecimentos através de estudos antropológicos sobre as diversas evoluções sofridas por essa instituição ao longo dos tempos, que por sua vez é marcada pela noção do significado social aos indivíduos que institui laços dentro de uma mesma entidade, revelando assim como existiu e existe a família. Dentre os vários tipos de família existentes na atualidade, a mais conhecida e valorizada em nossos dias é aquela formada por pai, mãe e filhos, a nomeada família nuclear. Em tempo algum iremos encontrar através da narrativa humana uma sociedade que tenha existido fora de qualquer noção de família, ou seja, de alguma ligação institucional entre pessoas de mesmo sangue. Embora no interior das famílias haja transformações ao longo do tempo, ela sempre existirá seja qual for a sua representação ou configuração.

Roudinesco (2003) notabiliza três períodos importantes na evolução da família, onde o primeiro período é marcado pela família tradicional, que se caracterizou pela autoridade patriarcal, pela transmissão de um patrimônio e casamentos arranjados sem que os desejos dos futuros cônjuges fossem levados em consideração. Num segundo período a família foi timbrada como moderna, em que a mesma foi descrita por um modelo do amor romântico consolidado pela lógica imposta entre o final do século XVIII e meados do XX, em que era aprovada a troca mútua entre os cônjuges dos sentimentos e desejos carnais pela mediação do casamento, onde também se consolidou a divisão do trabalho entre os cônjuges. A educação dos filhos era responsabilidade dos pais e dentro desse panorama a autoridade passou a ser atribuída também ao Estado e aos pais, e entre os pais e as mães. A partir de 1960 a família é designada contemporânea, que tem como particularidade dois indivíduos que se juntam através de uma durabilidade relativa em busca de relações íntimas ou realização sexual, de modo que a transmissão da autoridade vai se tornando mais difícil e questionada à medida que os divórcios, a fragmentação e as reorganizações conjugais aumentam, onde a família não é mais garantida pela presença indesatável do divino através da convenção do casamento, tornando-se cada vez mais um acordo livre e outorgado entre os indivíduos enquanto o amor resistir.

Centeno (2001) relata algumas novas configurações familiares assumidas pela família contemporânea, que têm sido influenciadas pelo contexto social atual que atua diretamente nos costumes, evolução e transformação da família. Dentre os novos padrões familiares apresentados na contemporaneidade pode-se destacar: (1) famílias monoparentais, que surge proveniente do divórcio ou separação, onde um dos pais toma para si o cuidado dos filhos e o outro não é eficaz na parentalidade, ou famílias onde um dos pais é viúvo ou solteiro. Alguns dos obstáculos encontrados por essa família é de um genitor assumir as funções que normalmente seriam assumidas por ambos os genitores; (2) famílias reconstituídas, que são oriundas de recasamento e que trazem filhos do primeiro casamento. Umas das possíveis dificuldades encontradas por essa família são os impasses concernente aos direitos e deveres de cada membro, pois a mesma é constituída por filhos do casal atual e filhos dos outros casamentos que podem levar o casal atual a um série conflitos severos; (3) famílias de uniões consensuais é originada na sua maioria por divorciados, separados ou viúvos, casais que preferem morar juntos sem formalizar suas uniões frente ao matrimônio legal, preferindo morar em casas separadas; (4) família constituída por casais sem filhos por opção, procedente de casais que dão preferência ao crescimento profissional, social e a independência financeira, sem optar por filhos; (5) família unipessoais (Meler, apud CENTANO, 2001) é uma designação para aquelas pessoas que escolhem um lugar físico individual. São enumeras as razões dentre elas a oportunidade de trabalho fora do domicílio, independência individual, onde não fazem trocas emocionais compartilhadas; (6) família por associação, que são formadas por amigos sem vínculo de parentesco, onde as pessoas optam por formar uma rede fundamentada na amizade; (7) e por fim a mais polêmica a família formada por casal homoafetivo, formada por uma união estável entre pessoas do mesmo sexo, casal de gays ou lésbicas, com questões complexas de tornar assimilável mediante as coações, mitos e realidades que atingem estes casais.

3. O Sintoma na Perspectiva Psicanalítica e Médica

De acordo com a visão psicanalítica, o sintoma é uma substituição a uma satisfação pulsional, ou seja, indicativo do desejo que foi afastado pelo recalcamento, onde o mesmo indica o retorno do recalcado através de um substituto deformado do desejo não realizado. “Um sintoma é um sinal substituto de uma satisfação instintual que permaneceu em estado jacente” (FREUD, 1925, p.112).

Freud (1925) frisava que diante do conflito entre as exigências do consciente, e das representações recalcadas no inconsciente, surge uma saída, através do ego, a formação de compromisso, ou seja, o sintoma com a função de descaracterizar o que foi recalcado, para que possa ser aceito sem risco na consciência. Poderemos assim afirmar que o ego é o mediador entre o inconsciente e o consciente, fazendo com que haja uma satisfação dos conteúdos recalcados de forma indireta.

Ele não deve ser transformado em ação, pois, como sabemos na repressão o ego está atuando sob a influência da realidade externa e, impede o processo substitutivo exercer qualquer efeito sobre aquela realidade. Do mesmo modo que o ego controla o caminho para a ação, controla o acesso á consciência (FREUD, 1926, vol. xx, p. 116-117).

A partir de todo esse processo dinâmico, não podemos deixar de falar sobre um dos pilares da psicanálise, o recalque, que é a base para a formação do inconsciente.

Para Freud (1915), a essência do recalque consiste simplesmente em afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a á distância. Para que isso aconteça se faz necessário que ocorra uma cisão entre o representante ideativo (vorstellugrepräsentanz) e o afeto (affekt), em que o primeiro é caracterizado por ideias desagradáveis do campo da consciência, que é recalcado, e o segundo como qualidade e a quantidade de energia pulsional, o que não é recalcado, onde o representante ideativo e o afeto são independentes, ou seja, tanto o afeto quanto o representante ideativo têm destinos diferenciados (GARCIA-ROZA, 2008). Ou seja, Freud (1894), na carta 18 que escreveu a Fliess, esclarece que o afeto pode ter três mecanismos de transformação que são eles: transformação do afeto (histeria de conversão), deslocamento do afeto (obsessões) e troca do afeto (neurose de angústia e melancolia).

Freud (1915) nos mostra duas fases do recalque, onde a primeira fase consiste no recalque originário que é fundamental e responsável pela divisão do psiquismo, que se caracteriza pelas representações ideativas ou idéias desagradáveis individuais, que são regidas pelos mecanismos específicos do processo primário, a condensação e deslocamento, que vai atender ao princípio do prazer.

O recalcamento secundário se destaca por sucessões e pensamentos oriundos do pré-consciente/consciente, que é caracterizado pelo processo secundário, que por sua vez entram em contato com as representações recalcadas, que são frutos do recalque originário para satisfazer o princípio de realidade. (FREUD,1915).

No texto o retorno do recalcado, Freud (1939) nos mostra a terceira fase do recalcamento, afirmando que o retorno do recalcado é caracterizado por: “suas características distintivas, contudo é a deformação, de grandes consequências, a que o material que retorna foi submetido, quando comparado com o original.”(FREUD, 1930, p. 150-151). Significa dizer que, o retorno do recalcado é uma saída útil funcional regido pelas leis do inconsciente que se qualifica pelos processos primários de condensação e deslocamento através dos sonhos, fantasias, atos falhos e dos sintomas, que visam a satisfação substitutiva do desejo, satisfazendo tanto o princípio de prazer, quanto o princípio de realidade pela via de satisfação pulsional.

Dentro de uma perspectiva médica, pode-se dizer que o sintoma é da ordem subjetiva descrito pelo paciente que vem acompanhando de manifestações objetivas, ou seja, os sinais que são detectados pelo médico, através de uma anamnese e do método clínico aplicado no organismo, onde o mesmo vai dar uma significação através de um diagnóstico, como sendo ou não uma doença. (PIMENTA; FERREIRA, 2003).

Ainda na linha de pensamento de Pimenta e Ferreira (2003), tanto a psicanálise quanto a medicina partem da conjuntura de que o sintoma é proveniente de sentimentos, mas ao mesmo tempo se distancia no que se diz respeito a interpretação  do sintoma. Na medicina é da competência médica detectar através de um diagnóstico algo no organismo e dar sua significação ao sintoma, decodificando o sinal apresentado como sendo doença ou não. Já em uma perspectiva psicanalítica, o sintoma é visualizado como algo contextualizado dentro da história de cada sujeito, onde indica fragmento do sujeito do inconsciente, que poderá estar passivo de redefinição com a participação do analista, podendo trazer resultado benéfico se o sujeito atribuir algum sentido ao sintoma.

Nasio (1993) indica o sintoma na visão psicanalítica como um mal estar que pode ser descrito de maneira bem singular seja por palavras ou através de maneira metafórica e inopinada, que é revelado de forma involuntária, ou seja, desprovido de qualquer saber consciente, visualizado como uma manifestação do inconsciente ao invés de ser legado a um estado insalubre.

4. Psicodinâmica familiar contemporânea refletindo o sintoma pela ausência da lei

Para que se possa discorrer sobre a lei na visão psicanalítica, se faz necessário citar alguns textos: Totem e Tabu (1913) e A Dissolução do Complexo de Édipo (1925), em que é enfatizada a lei como fator primordial e estruturante do indivíduo como sujeito sociável.

Freud (1913) no texto Totem e Tabu explica o mito da Horda Primeva que consiste em tribos primitivas aborígines da Austrália, em que nessas tribos o predomínio era o totemismo (divinização de esculturas, plantas, animais ou antepassado) e a exogamia, ou seja, proibições sexuais entre os membros do mesmo clã, caracterizada pela proibição do incesto que está ligado diretamente com o desejo de realiza-lo. É também abordada por Freud a questão do tabu, por se tratar de uma palavra polinésia, que por sua vez traz dois sentidos: de sagrado e de proibido, que provoca de uma certa maneira uma ambivalência dos sentimentos de hostilidade e de admiração ao animal totêmico, ou seja, animal esse representado pelo pai.

Por ser um pai tirânico e possuidor de todas as fêmeas do clã, o mesmo expulsava os filhos a medida que cresciam e nutriam desejos incestuosos dentro da horda. Consequentemente os filhos expulsos matariam e tragaria o pai opressor pondo fim a horda patriarcal. Sendo assim é apontado os sentimentos ambivalentes, a medida que os filhos tragavam o pai, ou seja, o odiavam por ele ser o proibidor dos desejos incestuosos, ao mesmo tempo se identificam com o mesmo adquirindo sua força, ou seja, o amavam e admiravam pelo domínio que o mesmo exercia dentro do clã, levantando assim a todos os filhos um sentimento de culpa. Tendo cometido o parricídio, os filhos perceberam que não podiam tomar o lugar do pai, por causa do sentimento de culpa e assim renunciam ao objeto de desejo, que no caso aqui eram as fêmeas do clã.

Nesse texto freudiano, há uma indicação notória da universalidade de um dos conceitos angulares da psicanalise que é o Complexo de Édipo, em que através do mito, Freud abre um debate e faz uma correlação entre a psicologia dos povos primitivos e a psicologia dos neuróticos, ou seja, o homem primitivo e o homem civilizado. Onde ambos são embasados pelos desejos incestuosos e que são marcados por uma proibição, ou seja, uma lei que é representada pelo pai e que são recalcados no inconsciente gerando angustia. Essa interdição constituída contra os desejos incestuosos que é relatada por esse mito, chama a atenção para uma organização social, dando origem à civilização, onde o tabu do incesto surge como a primeira lei que firma uma sociedade, ou seja, viabiliza a passagem do homem da natureza para a cultura, onde o incesto é propagado como sendo de natureza antissocial, evitando assim a destruição do pai real entre os homens civilizados e instituindo novos valores a partir desse interdito.

Freud (1897), na carta 71 dirigida a Fliees, menciona a partir de sua autoanálise pela primeira vez a tragédia grega de Sófocles, Rei Édipo, onde antes do nascimento de Édipo, seu pai Laio casado com Jocasta, resolve consultar o oráculo e recebe a profecia de que iria ter um filho que o mataria e se casaria com a mãe. Quando Édipo nasceu não recebeu nenhum nome e foi condenado a morte por seus pais Laio e Jocasta, sendo assim, Jocasta entregou o filho a um pastor e ordenou que o mesmo matasse o menino. Édipo é levado para o monte Citrão pelo pastor, onde ao invés de ser morto foi lhe furado os pés e amarrado com uma corda e pendurado em uma árvore. Logo em seguida, um outro pastor de Corinto que ao passar por aquele lugar comtemplou a criança dependurada a uma árvore e a salvou, cortando a corda que o amarrava e levando-o para a cidade de Corinto. Chegando em Corinto, Édipo foi amparado por Mérope e Políbio que o criaram como filho legítimo.

Já em sua fase adulta, Édipo é sabedor que não era filho legítimo dos pais que lhe amparou, extremamente desolado procura o oráculo e recebe a profecia que seria assassino de seu pai e casaria com a mãe. Tentando desviar-se de seu destino, Édipo deixa a cidade de Corinto e segue sem destino. Em um determinado ponto de sua jornada, passando por uma encruzilhada, ele se depara com um comboio que fazia a guarnição de um ancião, com quem tem um sério atrito, onde mata o mesmo e alguns do seu comboio. Édipo, nesse momento, acabara de cometer o parricídio, ou seja, mata o próprio pai.

Chegando as proximidades da cidade de Tebas, Édipo é sabedor que na entrada dessa cidade existia uma esfinge, que desafiava com enigmas a quem por ela passasse e devorava aquele que não desvendasse o enigma. Édipo imediatamente aceitou o desafio e se submeteu a decodificar o seguinte enigma feito pela esfinge: “ qual o animal que, pela manhã, anda com quatro pés, ao meio dia com dois e, à tarde, com três pés?” Édipo responde e explica: “ é o homem, que na infância gatinha, na idade adulta anda erguido e, na velhice, se apoia num bastão.” Nesse momento a esfinge de maneira repentina e impulsiva, vira-se para um abismo e se joga resultando em sua morte. Já Édipo, por ter decifrado o enigma e matado a esfinge, recebe como prêmio a mão da rainha de Tebas e viúva de Laio, Jocasta, o qual Édipo matara na encruzilhada. Sendo assim passou a reinar sobre Tebas, cumprindo-se a profecia do oráculo.

Dessa forma, Freud (1925) vem indicar a construção do sujeito desejante, onde o mito ajuda a tornar mais compreensível a dinâmica das relações em que a criança firma mediante as figuras parentais. Desse mito, pode-se dizer que é a partir da fase fálica que o menino apresenta uma grande valorização ao seu órgão genital, que resulta em uma ascensão libidinal, onde o menino deseja a mãe sexualmente e sente ódio do pai representante da lei tomando-o como rival, que vem interditar a satisfação do desejo incestuoso, onde esses sentimentos são demonstrados através de representações dos afetos, amor e ódio, que por sua vez ajudam a fundamentar a construção da subjetividade da criança. Vale a pena salientar que todo esse conflito ocorre de maneira inconsciente.

É na fase fálica que o menino através da representação da castração consegue ultrapassar o complexo de Édipo, que é caracterizada pelo medo que a ameaça da castração provoca, à medida que o menino visualiza a diferença anatômica dos sexos, ou seja, o menino constata de maneira concreta a ausência do pênis tanto na menina quanto na sua mãe. Sendo assim ele fantasia temendo que o mesmo possa lhe acontecer, pelos desejos incestuosos pela mãe e parricidas pelo pai como um castigo. Daí ele automaticamente cria um sentimento de culpa, originando o superego constituindo por uma instância moral. Com o medo de perder o pênis há uma interiorização da renúncia do desejo edipiano, ou seja, a proibição do desejo edipiano é constituída e percebida como a lei, que simboliza o limite, e é representada pelo pai enquanto função.

Quando Freud correlaciona o complexo de Édipo e a castração, percebe-se que há uma identificação do menino com os valores paternos que detém a lei que regula a dinâmica dos desejos edipianos que poderá ser interiorizada. Essa regulação dos desejos é ampliada dentro da construção do sujeito desejante, ou seja, é a lei, o limite que tem a função de barrar de alguma forma o desejo desmedido do menino, destronando-o de sua onipotência e inserindo o indivíduo no âmbito social fazendo-o deslizar da condição de ser para a de ter tornado-o assim um sujeito de desejo e sociável.

Com todo esse processo essencial na vida do menino é possível levantar a premissa de que a lei na visão psicanalítica tem a finalidade de estruturar o desejo, interligando-o com as regras de maneira satisfatória, alinhando assim o indivíduo como sujeito desejante na tentativa de harmonizar o convívio e a ordem social.

Quando este trabalho se refere a falha da internalização ou ao afrouxamento da lei no sentido psicanalítico, se faz necessário retomarmos os textos Totem e Tabu (1913), onde Freud faz com clareza a distinção entre o homem neurótico e o homem primitivo, ou seja, o homem civilizado e o homem selvagem. Sendo assim embasado no pensamento freudiano pode-se sugerir que o neurótico em algumas situações retorna ao seu estado primitivo substituindo e transformando o pensamento pelo ato propriamente dito. No caso do presente trabalho, sugere-se que o recalcamento da falha da internalização da lei, por sua vez pode retornar como o sintoma infração, na tentativa de recuperação dessa lei e ao mesmo tempo sinalizar dizendo que algo não está bem, fazendo, em alguns casos, a substituição pelo ato da agressão física propriamente dita, podendo chegar até a cometer o homicídio, gerando de certa forma uma desordem social que vem dificultar a inserção do sujeito desejante dentro do grupo social.

Mas os neuróticos são, acima de tudo, inibidos em suas ações: neles, o pensamento constitui um substituto completo do ato. Os homens primitivos, por outro lado, são desinibidos: o pensamento transforma-se diretamente em ação. Neles, é antes o ato que constitui um substituto do pensamento, sendo por isso que, sem pretender qualquer finalidade de julgamento, penso que no caso que se apresenta pode-se presumir com segurança que “no princípio foi o Ato” (FREUD, 1913 vol. XIII, p. 190-191).

Freud (1914) vem nos reforçar que o indivíduo em muitas vezes, por não conseguir expressar através de palavras a ideia que foi recalcada expressa pela via da atuação, reproduz como ação o que ele chamou de acting out, agindo sem saber por quê, viabilizando através da transferência o retorno do recalcado pelo caminho da ação, ou seja, não consegue simbolizar a representação que foi recalcada. É essa experiência clínica que Freud relata nos seus escritos técnicos que pode-se ampliar para as vivências do sujeito de  desejo fora da clínica.

Se nos limitarmos a este segundo tipo, a fim de salientar a diferença, podemos dizer que o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem saber que o está repetindo (FREUD, 1914 vol. XII, p.196).

Partindo dessa visão freudiana, esse trabalho transporta essa experiência clínica para as relações do sujeito em sociedade. Onde o sujeito de desejo, levado pelas descargas pulsionais, não consegue em algumas situações relatar através das palavras algo que foi recalcado, como por exemplo, a falha da internalização da lei, na tentativa de recuperar assim essa lei através da ação propriamente dita, pela via da agressão física ou até mesmo o homicídio, com o intuito de regular o sofrimento sentido pela ausência dessa lei que é fundamental na vida do sujeito desejante em sociedade.

Mediante o apontamento teórico que foi descrito, há uma provocação que se leva a refletir acerca do que provavelmente está sendo recalcado através dessa psicodinâmica familiar contemporânea. Diante do cenário que se apresenta, percebe-se que os novos padrões familiares, sugeridos pela contemporaneidade, provocam falhas na institucionalização da lei e do limite, fazendo com que os pais ou cuidadores permitam demais, e assim facilitem a onipotência do desejo exacerbado da criança descaracterizando o referencial de lei dentro do seio da família, que por sua vez é ampliada para as relações sociais. Desta forma a lei passa a ser minimamente reconhecida e em alguns casos não reconhecida, trazendo impactos nas relações familiares e sociais.

O sintoma indicativo e sugerido dessa psicodinâmica é a infração, que se apresenta como um substituto deformado do que foi recalcado, no caso aqui em debate seria a falha da internalização da lei, do limite. Pode-se perceber que o sujeito na maioria das vezes infringe na tentativa de recuperar a lei, o limite, ou seja, uma possibilidade de satisfazer o que foi recalcado. Nessa dinâmica em algumas situações visualiza-se também a recuperação da lei através do acting out, onde o sujeito pode se expressar através da agressão física propriamente dita, podendo chegar até a cometer o homicídio dependo da situação e da estrutura psíquica de cada sujeito.

Esse desejo pela recuperação da lei pode gerar um conflito no âmbito da condição de sujeito faltante e de sujeito desejante, em que, o que ganha notoriedade nesse processo dinâmico é a existência de uma falha, que é demonstrada pela exiguidade da lei, do limite, que estão bem presentes e sugeridos pelos moldes da contemporaneidade.

Diante de todo esse afrouxamento da lei dentro do seio da família, nota-se que o Estado foi constituído de alguma forma como a lei, através de uma figura de autoridade na tentativa de regular a ordem social, que vem sendo atingida pelas consequências das relações familiares, que por sua vez é influenciada e atingida pelos novos padrões familiares estabelecidos pela contemporaneidade.

Por outro lado percebe-se que o Estado, enquanto representante da lei, não tem dado conta de exercer a lei, por estar corrompido e enfraquecido como referencial da lei, sendo assim, o mesmo devolve a responsabilidade da representação da lei e do limite às famílias, onde o sujeito desejante configura-se como um barco a deriva que clama e recorre a outras instâncias sociais como religiões e grupos sociais que são constituídas como lei, na tentativa de que seus desejos sejam regulados.

5. Considerações finais

Chegando ao final desse ensaio bibliográfico e diante do que foi exposto no mesmo, podemos perceber que foi aberto um debate através da perspectiva psicanalítica freudiana sobre a psicodinâmica das relações familiares como um possível sintoma da contemporaneidade. Este artigo aborda a falha da internalização da lei, levando a refletir sobre uma série de transformações impostas pela contemporaneidade, no que se diz padrão familiar, que tem atingido a psicodinâmica das famílias e automaticamente tem afrouxado a lei dentro do seio da mesma.

Sendo assim, para que o debate que foi proposto por esse trabalho atingisse o objetivo esperado, foram explanados alguns conceitos dentro da visão freudiana tais como: sintoma o qual foi articulado como o sintoma infração, como substituto do recalcamento da falha da internalização da lei, que por sua vez foi interligado e sugerido como fruto da relação edípica correlacionada com a castração na tentativa de recuperação da mesma, onde essa recuperação da lei em algumas situações pode chegar ao extremo através da agressão física ou até do homicídio. Tudo isso viabilizado pelo acting out, gerando um mal estar na psicodinâmica da família, na vida do sujeito e na ordem social.

A partir da falha da internalização da lei, do limite dentro da psicodinâmica familiar contemporânea, o sujeito de desejo amplia sua busca pela recuperação da lei para outras instâncias que representa de alguma forma a lei, que no caso podemos citar: o Estado, as religiões e os grupos sociais, na tentativa de suprir a falha dainternalização da lei, que gera de alguma forma um mal estar em todos os aspectos da vida do sujeito desejante.

Diante do que foi exposto, acredita-se que a reflexão levantada é de grande importância para os que se interessam pelo tema família articulado ao contexto social de maneira geral.

Consciente da reflexão que foi proposta nesse trabalho, deixamos um importante debate, e ao mesmo abrimos um caminho para que outros trabalhos venham ampliar essa discursão. A família apresenta relações muito ricas, e ao focar em um tema específico, faz-se um recorte muito pequeno, tirando-se, de certa forma, o foco de sua complexidade.

Outros trabalhos devem ser realizados nessa área para enfocar outros tipos de relações e inferir possíveis explicações dentro da psicanálise. Um exemplo seria ressaltar também o complexo de Édipo na menina, uma vez que o presente artigo abordou o gênero masculino.

Estudos dessa natureza servem para que, cada vez mais, haja uma melhor compreensão e percepção das relações familiares vivenciadas no cenário atual.

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O Monstro e a Transmissão da Violência

1 a 2 covardiaA violência é um tema que perpassa nossos dias, mas que provavelmente sempre atravessou a história da sociedade. Durante gerações, a violência mudou de formas expressivas e de contextos socialmente aceitos para outros, de um grupo social para outro, mas nunca deixou de existir. Em muitas de suas formas de expressão é possível que a violência resulte em assassinato. Esse ato carrega em si sentimentos como raiva, desejo de vingança e aniquilação do outro, diretamente ou indiretamente ligados à vítima. O autor desse tipo de violência – o assassino – geralmente é visto como um monstro. Porém, a violência só pode ser estudada de forma multidisciplinar, pois são vinculados à violência alguns conceitos culturais, problemas de ordem social e econômica, além das psicopatologias individuais, sendo que ela pode ser perpetuada e tomar para si outros modos de se colocar ao longo das gerações e das relações, instituindo formas de se relacionar com o outro e com a vida. Mas o que leva um indivíduo a cometer o assassinato? Qual a história social e familiar por trás disso? Este artigo, enfim, tem por objetivo discutir a violência e sua transmissão, sendo frequentemente projetados nas vítimas os traumas que se iniciaram com as figuras parentais, tendo concomitantemente o meio social e os problemas de ordem econômica como pano de fundo. Sendo assim, o artigo tem como ilustração o filme “Monster – Desejo Assassino”, dirigido e escrito por Patty Jenkins e baseado em uma história real.

Palavras-chave: Violência, Assassinato, Família, Transmissão, Funcionamento Psíquico.

1. Introdução

De acordo com Araújo (2004), a palavra ‘violência’ vem do latim: violentia, que também significa força. O verbo violare tem o sinônimo de violentar, transgredir e ambos derivam devis: potência, vigor, força física, abundância, essência, emprego da força. A Organização Mundial da Saúde define a violência como:

“[…] o uso intencional da força física ou do poder real ou em ameaça contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação” (OMS, 2002).

A violência é um tema que perpassa nossos dias, mas que provavelmente sempre atravessou a história da sociedade. Calcula-se que ela seja uma das principais causas de morte de pessoas entre 15 e 44 anos em todo o mundo, segundo dados da OMS publicados em 2002. Além dos gastos concretos em dinheiro público com a prevenção, segurança e as consequências da violência, há o custo humano – emocional e psíquico -, o qual é imensurável e configura-se no campo que mais nos interessa aqui.  Com a mídia, constantemente podemos assistir e ouvir sobre a perpetuação da violência nas ruas e a desvalorização do outro que ela projeta em suas ações, através de roubos, sequestros, assaltos, incêndios de ônibus, atropelamentos intencionais, espancamentos, além dos atos terroristas que circulam âmbitos internacionais.

Mas, por detrás das câmeras e flashs fotográficos que conseguem captar essas cenas de horror, há outras muitas cenas que merecem muita atenção e são mais dificilmente captadas. Elas ocorrem dentro de ambientes criados justamente para abrigar, proteger e cuidar de seus entes: o lar, “doce” lar. Muitas das vítimas encontradas nesses espaços familiares são tão jovens (bebês, crianças e adolescentes) e, por isso mesmo, vulneráveis que se veem impossibilitadas de se defender. Vivem, então, à mercê do estado ou vão crescendo em meio a relações frágeis, carentes de contatos genuínos, de vínculos afetivos mais sólidos, além de peregrinarem de lar em lar, de família em família – muitas destas igualmente ou mais violentas que a família de origem -, exaustivamente em busca de alguém e de um lugar que tenham condições de oferecer o que lhes foi negado: proteção, cuidado, atenção e respeito.

Sabe-se que algumas causas da violência são mais facilmente compreendidas, no entanto, muitas outras estão aderidas no tecido social, cultural e econômico da vida humana (DAHLBERG e KRUG, 2006). Para entendermos os motivos que levam um indivíduo a construir uma forma violenta de viver, ou seja, de utilizar desse instrumento de dominação e afirmação da autoridade sobre o outro, devemos refletir sobre duas bases de igual importância em termos de apoio à vida: a família, que deve dar sustentação e servir de facilitadora ao processo de socialização de uma criança; e o Estado, o qual deve garantir nossas condições mínimas de humanidade. Isso quer dizer que a família (não importando a sua configuração nem classe econômica) deveria ter condições de constituir-se como propulsora de uma socialização saudável e funcional do indivíduo com o seu meio, porém, ela tem menos possibilidade de se fortalecer nesses parâmetros caso o Estado não se coloque como sua base primária. E o que acontece com muitas famílias é exatamente isso: são negligenciadas pelo Estado em termos econômicos e sociais, vendo-se impedidas ou prejudicadas em exercer seus papéis fundamentais para o pleno desenvolvimento de uma criança.

Ao Estado, nas sociedades minimamente democráticas, cabe prover seus cidadãos menores de idade com educação adequada, proteção legal, serviços de saúde satisfatórios e demais itens, a fim de proporcionar as condições para uma infância feliz (AZEVEDO e GUERRA, p 90, 2000).

Não podemos nos alienar da realidade: é na população mais carente e miserável que a violência tem solos para se desenvolver, porém, em inter-relação com a família e com a subjetividade de cada sujeito. Seria imprudente relacionar a causa da violência isoladamente ao fator social, cultural e econômico, ou ao ambiente familiar ou a questões psicopatológicas. O que é possível de ser pensado é que a origem e a perpetuação da violência tem uma infinidade de fatores a serem levados em conta e que não acontecem de forma isolada, mas se desenvolvem de forma inter-relacionada um com o outro.

A esperança na vítima em finalmente ser vista como sujeito de direitos, merecedora de contatos humanizados, pode ser claramente passível de transformar-se em raiva, vingança, rejeição a regras sociais e destruição, sendo que parece ser tudo o que essas vítimas têm a devolver ao mundo externo. Como afirma Azevedo & Guerra,

(…) a tendência anti-social implica esperança, um movimento de captura do que foi tirado ou negado. Em virtude de tal tendência, a criança ou adolescente poderá ser considerado desajustado. (…) entre as consequências psicológicas relatadas nos estudos estão: autoconceito negativo e baixa auto-estima, comportamento agressivo, dificuldades de relacionamento com crianças e adultos, capacidade prejudicada de acreditar nos outros e infelicidade generalizada (AZEVEDO e GUERRA, p. 100-162, 2000).

Sendo assim, a família, vista pelo social como uma entidade sagrada e protetora, pode servir também de solo fértil para transmitir a ideia de ‘coisificação’ do outro, lançando mão de abusos, negligência, injustiças e violência de toda espécie. Portanto, o sujeito violento, assassino, pode ter em seu desejo uma demanda familiar.

2. A Violência Transmitida

A vivência marcada pela violência traz em seu bojo o adoecimento psíquico e a deturpação da noção de si, ou seja, ocorrem alguns desvios no processo de construção da imagem de si, além da imagem que o indivíduo constrói do outro e do mundo em que vive. Esse adoecimento acontece de forma gradativa e se processa em meio à violência. A violência intrafamiliar é aquela que, na maioria dos casos, vitimiza crianças, adolescentes, mulheres e idosos no meio familiar e pode ser caracterizada pelo abuso do poder do mais forte em relação ao mais vulnerável. Ela pode se repetir, ou seja, transmitir-se ao longo de gerações, como é o caso de pais violentos que na infância também foram alvos de maus-tratos (BRASIL. Ministério da Saúde, 2001). A concepção de violência nos remete à ideia de força contra alguém, o qual pode ter representado uma ameaça ao ego do sujeito que agiu com violência por trazer a ele, involuntariamente, recordações inconscientes como medo do abandono, da aniquilação do eu, culpa, agressividade e impotência. A violência deixa sua marca em muitas relações, subjuga grupos sociais e também serve como forma de dominação; ecoa nos nossos ouvidos pela mídia em geral, abalando a população e sendo banalizada por ela ao mesmo tempo. Servem-se dela para instituir sistemas e padrões sociais, alimentar egos coletivos e individuais, além de ser usada como instrumento em muitas lutas pela sobrevivência. A violência é usada também como meio de defesa, autoafirmação de superioridade sobre o outro e como expressão de sentimentos que não encontraram possibilidades nem no campo individual nem no social de serem comunicados de outra forma. Ela ronda todos os espaços sociais (até mesmo aqueles criados justamente para reprimir a violência), todas as classes econômicas, raças e etnias.

Essa violência pode então se disseminar e tomar proporções exorbitantes, perpassando todas as relações posteriores da criança/adolescente violentado, negligenciado, abusado, desprotegido. Esses sujeitos podem aprender a reproduzir essa violência sofrida como forma de sobrevivência e defesa do ego, reagindo ao mundo da mesma forma que acreditam e sentem que o mesmo os tratou e os significou. Tendem a desenvolver relações que servem para dissimular a violência marcada em seu próprio ser, criando-se assim uma perpetuação desse modo de ser e estar no mundo.

Com suas relações encobridoras, funciona como uma verdadeira fábrica de violência, produtora de psicopatas, assaltantes, estupradores, assassinos ou oportunistas de todas as espécies, que são simultaneamente vítimas; mas também de pessoas ‘normais’, nas quais a honestidade e integridade aparentes encobrem uma valência relacional violenta oculta e inconsciente, mascarada na habitualidade de relações sociais e interpessoais aceitáveis e respeitáveis, mas simultaneamente opressivas e danosas a muitos de seus semelhantes, violentas na sua essência (AMORETTI, 1992, p. 43).

Sendo assim, indivíduos que sofreram atos de violência podem sofrer transformações psíquicas irreversíveis confrontando a realidade como uma possibilidade de viver sem lei. Parecem não ter conseguido de alguma forma recalcar seus traumas. Em cada dimensão de seu ser eles carregam a marca de um psiquismo deteriorado. Como afirmam, Santos e Teixeira: os efeitos da violência manifestam-se como uma ausência de bússolas radical (SANTOS e TEIXEIRA, 2006). Tal como no filme, Monster – Desejo Assassino, os sujeitos que matam, que sentem necessidade e prazer nisso, como a personagem principal do filme, parecem usar dessa força como forma de se impor sobre o outro e impor seus ideais, sentem-se onipotentes e desejam que seu prazer seja satisfeito, independentemente do desejo do outro. Essa onipotência é construída a partir de um eu ideal, conceito criado por Freud. Esse eu ideal acha-se no centro do universo e não permite ser regulado por leis exteriores a seu desejo, acreditando veemente que pode subjugar os outros e obter assim a sua satisfação (BIRMAN, 1993). Não interiorizaram regras sociais de convivência e não aceitam ser barrados em seus desejos. Muitos costumam taxá-los de Monstro.

3. O Monstro

Segundo Freud, a civilização carrega a marca de um mito que se baseia na lei e garante contratos e regulamentos sociais (Freud, 1913). Porém, a tragédia que marca o drama de Totem e Tabu parece não ser superada, permanecendo desejos assassinos inconscientes no psiquismo humano que se revelam ao longo de sua vida de uma forma mais velada à passagem ao ato propriamente dito (HERZOG e FARAH, 2005).

De acordo com a análise do filme “Monster – Desejo Assassino”, pode-se afirmar que Aileen apresenta um funcionamento psíquico ligado à intenção de conseguir benefícios, independente do que seja preciso fazer para alcançá-los. Esses benefícios pelos quais busca o sujeito assassino nem sempre são de ordem financeira – como bens materiais – ou de imposição de seus ideais, mas podem representar uma exigência em ser visto, em ‘fincar’ o seu lugar no mundo. Esses sujeitos têm em si incorporados uma gama de valores que não fazem parte da sociedade, pois não internaliza as leis, não entende o que são as transgressões e tampouco sente culpa: sentem-se acima da lei.

Aileen procurava fantasiosamente seu ‘príncipe encantado’ em diversos homens, utilizando-se do sexo e do exibicionismo como recurso, sofrendo ridicularizações e desvalorização pessoal pelas suas condutas. Percebe-se que incorporou crenças sobre si ligadas a sua vivência infantil, vendo-se como alguém sem valor, sem importância, sem direitos, não merecedora de amor e cuidados. Sua infância foi marcada por violência e abusos de toda espécie que parecem ter se constituído como fatores traumáticos para sua vida. Viveu o tabu do incesto no real ao invés de tê-lo vivido somente no registro imaginário.

O Complexo de Édipo, segundo Freud, em Sexualidade Feminina (1931), é o propulsor do desenvolvimento da libido dos indivíduos, influenciando a constituição da personalidade e a orientação do desejo humano. A criança deveria ‘superar’ essa etapa, desconsiderando o incesto como algo permitido e abandonando a fantasia incestuosa. Com essa resolução, instauraria no psiquismo do indivíduo o superego, ou seja, a interiorização de normas, valores e moral sociais.

No caso de Aileen, personagem do filme baseado em fatos reais, houve a concretização de sua fantasia incestuosa: de acordo com sua bibliografia, foi estuprada pelo irmão e abusada pelo avô, sendo considerada a hipótese de ter passado por essa mesma experiência com o pai, acusado de pedofilia. Essa experiência, por si só, constitui em um trauma psíquico, como explicam Malgarim e Benetti (2010):

Se em todo sujeito, no período da infância, existe uma fantasia inconsciente de cunho erótico, voltada ao genitor do sexo oposto, devendo ser recalcada e resolvida no desenrolar do Édipo, a psicanálise vem dizer que a concretização desses desejos, sejam eles agressivos ou sexuais, tornar-se-ia, para a criança, uma experiência bizarra e não prazerosa, causando, além de sofrimento, o sentimento de não existência como unidade psíquica independente (FAIMAN, 2004). Além disso, há o que Bollas (citado por FAIMAN, 2004) chama de “transparência psíquica” (p.31), ou seja, a experiência incestuosa desencadeia a sensação de que a realidade pode ser invadida pelos desejos do psiquismo, sem barreiras de contenção para os mesmos. Portanto, a partir destes elementos compreensivos do processo edípico, é possível identificar que vivências concretas de experiências sexuais abusivas, nesta fase de desenvolvimento, são situações extremamente traumáticas e com consequências importantes no processo de desenvolvimento psíquico do sujeito (MALGARIM e BENETTI, 2010).

Sendo assim, Aileen não recebeu de sua família condições mínimas para desenvolver-se satisfatoriamente e em equilíbrio entre seus impulsos psíquicos e as leis sociais, restando a ela a falta de base para socializar com seu meio e interiorizar regras sociais de convivência. Foi negligenciada, abandonada e molestada, além de ter vivido o incesto e o fruto dele (gravidez do irmão).

O sexo, a princípio, parece ter sido o único meio que ela encontrou de se comunicar com o meio social e de sentir-se enxergada e reconhecida como indivíduo, podendo dar e receber prazer. Sendo assim, a prostituição pode ter sido uma escolha que simbolizou esses sentimentos em relação a si e ao mundo. Provavelmente, viu o sexo como única possibilidade de existência e de sobrevivência econômica por muito tempo. Além disso, tomada pela falta de relacionamentos afetivos satisfatórios e tendo sua vida marcada por abusos e decepções, passou a depender emocionalmente da namorada de forma excessiva, tentando satisfazê-la sem nenhum limite, além de buscar freneticamente seu amor. Refugiaram-se então na fantasia onde fugiriam de todos os problemas e traumas do passado, independentemente do mundo a sua volta. Aileen demonstra que sentia prazer em matar indivíduos que simbolizassem a causa de seus sofrimentos: os homens. Ao tentar convencer a parceira em matar todos os homens, pode-se dizer que os mesmos podem ter passado a simbolizar todos os abusos e violência que sofreu ao longo da vida.

Indivíduos que cometem esse tipo de crime, geralmente apresentam destrutividade e raiva em relação ao seu objeto ameaçador, logo o crime surge como meio de aprisionar o outro devido ao seu caráter intrusivo e ameaçador da integridade psíquica (CALHEIROS, 2013). É possível que essa seja a forma como a personagem significou suas vítimas.

4. Considerações Finais

A violência pode ser transmitida e atravessar relações, fixando os sujeitos em modos de funcionamento psíquico que podem prejudicar ou até mesmo destruir e aniquilar a si mesmo e aos outros a seu redor. Seu meio de alcançar a satisfação das pulsões não passa pelas leis e nem pela moral. Porém, não se trata aqui de taxar de Monstro esse indivíduo – autor de atos violentos, como o assassinato -, mas chamar a atenção para as múltiplas facetas possíveis e potencialmente ‘monstruosas’ que ele pode carregar em si e os variados lugares onde pode ser produzida e transmitida essa ‘monstruosidade’. O Monstro não pode dizer respeito a alguém que de certo tenha nascido com uma carga de ‘monstruosidade’ em seu ser, assim como o filme não conta somente a história de como a personagem principal tem em si um desejo assassino, mas traz à tela e à tona assuntos como a prostituição, o preconceito, a homossexualidade, o abandono, o abuso sexual, a coisificação do outro. Ou seja, assim como o filme, o assassino não é um Monstro por si só, mas produzido e fortalecido por diversos territórios, denotando uma tentativa de alcançar na realidade, através da força e da vingança, o que o sujeito nunca conseguiu alcançar internamente.

Não se tem por intenção aqui defender a ideia de que tais sujeitos não devem ser punidos ou afastados, estrategicamente, do convívio social com seus pares, mas de fazer um convite a reflexões acerca do que produz e reproduz a violência e os assassinatos que atravessam e colocam em risco a vida humana.

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A Crise Ético-Religiosa Contemporânea e a Constituição do Sujeito – Ético-Religioso – no Pensamento de Freud

images (2)A sociedade contemporânea experiência um certo amortecimento ético em todos os seus setores. A religião, objeto de nosso estudo, já não consegue dar um respaldo positivo às questões postas. A crise ética à qual estamos imersos tem seu agravante desde Auschwitz. Após esse desastroso evento ficou-se ainda mais difícil falar sobre a formação do sujeito, o que acarretou uma série de crises – que tem suas raízes no campo ético – na sociedade [1]. Propor uma formação do sujeito ético é a tarefa mais difícil na contemporaneidade, haja vista que todas as instituições, com as quais poderíamos contar para essa árdua tarefa, encontram-se em crises, como já foi dito anteriormente; e o pior é quando uma para se eximir joga para a outra a responsabilidade pela formação do sujeito. O certo é que nem a família, nem a escola, nem mesmo a religião conseguem dar respostas plausíveis à problemática existente e que se agrava a cada dia.  E o resultado dessa crise é observável em toda a aldeia global. Ora, estamos experienciando um certo retorno à animalidade, e isso se explica pelos altos índices dos mais variados tipos de violência, física, moral, sexual, como também por um consumismo exacerbado, pelo comércio do corpo, tudo isso pela busca de uma satisfação imediata do prazer.

No campo do sujeito individual estamos vivenciando a “Era de Narciso” em seu agravante, onde tendemos a nos esconder em um mundo irreal. E falar em ética para uma sociedade extremamente egocêntrica, voltada à vivência de um amor-próprio, é algo minuciosamente difícil. Para não incorrermos em um erro ainda mais agravante faz-se necessário ir a fundo na problemática, sem superficialidade nos discursos, buscar no íntimo da subjetividade humana razões para se vivenciar uma ética, pautadas no desejo, que é inerente a sua existência.

No que concerne ao discurso ético-religioso, evidenciar a crise existente e apontar caminhos para a constituição do sujeito ético na atualidade talvez seja a maior contribuição que se possa oferecer a este sujeito que aparentemente parece não ter perspectivas de futuro. Para tanto, é preciso compreender como se deu o processo constitutivo da religião e quais as inferências desta para a vida do homem. Para esse itinerário, Freud pode nos ajudar no sentido de compreender a religião e a ética como algo inerente à civilização, evento que tira o homem da animalidade e o torna um ser sociável.

Aqui, pretendemos restringir o nosso discurso e discorrer, num primeiro momento, acerca da crise ética na religião, evidenciado por Silveira, quando diz que “ao entrar na modernidade a ética e a religião entraram em crise, uma vez que na sociedade da técnica não há mais lugar para a tradição” [2] e, depois oferecer um cabedal de reflexões concernente à constituição do sujeito ético.

O problema da cultura, portanto dessa religião e dessa ética, provindos de uma tradição, já foi evidenciado por Freud, em “O Mal estar na Civilização”, onde nosso autor contesta esse nosso processo civilizatório, embora der nuances duvidosos acerca da possibilidade de que seríamos mais felizes se abandonássemos tudo e retornássemos ao estado primevo [3]. O preço que o homem paga em nome de um projeto civilizatório é muito alto. Sérgio Paulo Rouanet nos explica melhor:

Para Freud, esse mal-estar, Unbehagen, é o desconforto sentido pelo individuo em conseqüência dos sacrifícios pulsionais exigidos pela vida social. No plano erótico, ele abre mão do incesto em benefício da sexualidade exogâmica, da “perversidade polimorfa” em benefício da genitalidade, e da promiscuidade em benefício da monogamia. E abdica da gratificação dos seus impulsos agressivos [4].

Freud não somente evidenciou, como também constatou que a promessa civilizatória fracassou por não corresponder mesmo com os anseios do homem, ou aquilo a que se propunha. Herrero aponta para quatro vergonhas político-morais que afetam gravemente a nossa existência, como conseqüência da falsa promessa do pensamento iluminista, quais sejam:

a fome e a miséria que conduz à inanição e a morte de um número cada vez maior de seres humanos e de nações; a tortura e a contínua violação da dignidade humana; o crescente desemprego e disparidade na distribuição de renda e riqueza; a ameaça de destruição da humanidade pelo perigo, de uma guerra nuclear e pelo desequilíbrio ecológico [5].

No que diz respeito à religião, para Freud, a idéia de Deus surge da necessidade do homem em satisfazer seu desejo primário. Esse desejo primeiro encontra-se na sua relação com a mãe que sustinha suas necessidades e dava segurança e que foi cortada pelo pai. O pai a partir desse momento passa a ser objeto de ódio, por um lado, e por outro, passa a ser objeto de imitação. Quando depara-se com a fragilidade deste, e há também com este um corte – que é morto no complexo de Édipo – ele cria algo que lhe substitua, Deus, na imagem de um Pai, todo-poderoso.

Numa perspectiva mais ampla, tanto a civilização, como a religião são “males” necessários, pois sem elas o homem era movido inteiramente pelos instintos, por sua animalidade primária. Os homens, eles mesmos mataram o pai primevo e criaram, para substituí-lo o Pai todo-poderoso para preencher a lacuna deixada pelo primeiro, neste sentido chegamos à origem da religião, apontada por Freud como uma realidade vinculada ao evento totêmico, junto com ela também nasce a civilização, o “sujeito ético”. A religião nasce de uma culpa, de um vazio, de uma ausência, jamais preenchível. Por isso que Freud diz que a religião é uma ilusão, fruto de uma infantilidade humana [6].

A idéia de religião está mesmo intimamente ligada a norma, que provoca muitas seqüelas no sujeito. É a normatização do sujeito, que o torna um “ser de máscaras”, onde o sujeito submete-se a determinadas regras para inserir-se, ou sentir-se aceito por determinado grupo, o que de certa forma contribui para que a subjetividade do sujeito fique de certa forma inativa. A própria idéia de “socialização” já traz em si, a idéia de “dissociação” do sujeito enquanto ser. Em outras palavras, o sujeito nega a si mesmo, e muitas vezes adere uma imagem, um personagem, que não diz nada do seu verdadeiro EU.

O desafio é pôr fim às máscaras, as quais o sujeito se submete e dar espaço para que o sujeito em sua verdadeira subjetividade se mostre, o que de certa forma parece ser impossível, pelo fato de que o sujeito não se forma apenas mediante a fatores internos.

Vivemos em uma cultura da “inautenticidade”, e essa inautenticidade perpassa todas as áreas ou instituições que formam o conjunto da sociedade, de um modo particular insere-se numa realidade subjetiva e inconsciente do sujeito. Em se tratando da autenticidade do sujeito, numa perspectiva psicanalítica, podemos nos apoiar em Frankl, citado por Valfredo Tepe

O homem, pode pois, ser ‘autêntico’ naquilo em  que é inconsciente; por outro lado, porém, é ‘autêntico’ tão somente quando não está impulsionado, tão somente quando é responsável. O autêntico ‘ser humano’ começa, portanto, somente ali onde já não existe um ser impulsivo e termina ali onde finaliza o ser-responsável. O autêntico ser-humano só pode, pois, realizar-se ao deixar o homem de ser impulsionado pelo ‘Id’, passando a ser um Eu que toma decisões [7].

Partindo dessa constatação de Frankl, a nossa pesquisa pretende analisar a estrutura psíquica elaborada por Freud, buscando nas idéias de Id, Ego e Super-ego, uma compreensão mais elaborada do sujeito, que tem sua fonte no inconsciente.

Alguns questionamentos nos são pertinentes: É possível constituir-se eticamente sem a intervenção de uma instituição, como a religião, por exemplo? Quais as possibilidades? Quais os meios necessários para constituição do sujeito ético na contemporaneidade? Qual a contribuição de Freud e da Psicanálise para a ética do sujeito na atualidade?

O sujeito é jogado em uma instância cultural que lhe parece superior, e é esta quem o forma, quem o socializa. A religião cumpre também esse papel, mas não é a única via, nem a mais favorável ao sujeito. A idéia central é partir do próprio sujeito em sua subjetividade profunda e buscar nesta, as razões para constituir-se eticamente sem precisar de frustrar seus desejos mais profundos. Fazer com que o homem tome consciência do mal-estar na cultura e partindo daí busque as razões subjetivas para um agir ético, realizando seus próprios desejos com o mínimo de normas e o máximo de segurança e eficiência comunitária, como aponta Vincenzo Di Matteo, eis o grande desafio que até agora nenhuma sociedade conseguiu vencer satisfatoriamente [8].

Uma via que resolva de forma favorável a crise ética, é a que leve em consideração o sujeito como construtor ético, partindo de sua subjetividade, considerando o mesmo que é ser de desejo, e buscando nesse desejo as razões que fundamente o agir ético humano em consonância com os seus co-partícipes, pois entendemos que um discurso ético, que não leve em consideração o sujeito está fadado ao fracasso. Fazer com que o homem tome consciência de sua própria verdade e de sua liberdade, e como sujeitos livres e filhos do desejo, exerçam sua capacidade de amar.

Entendemos que sem uma empreitada ética, o homem tende à barbárie. E é isso que presenciamos no cotidiano, violência em todos os graus possíveis, contra o homem, contra a natureza, enfim, contra o nosso ethos, enquanto morada. Sygmunt Bauman aponta para um reencantamento,

o reencantamento pós-moderno do mundo traz a oportunidade de encarar a capacidade moral humana sem reboços, tal como é realmente, sem disfarces e sem deformações; de readmiti-la no mundo humano vindo de seu exílio moderno; de restaurá-la em seus direitos e sua dignidade; de apagar a memória da difamação, o estigma deixado pelas desconfianças modernas [9].

 Finalmente, mais que uma crítica as influências da religião, sob um prisma ainda que negativo, como nos é oferecido por Freud, o que se pretende é, sobretudo, mostrar ao sujeito a sua capacidade de escolhas e torná-lo consciente de suas limitações, que não se encerram com o seu pertencimento a qualquer instância, ainda que se lhe pareça superior. A auto-aceitação é o melhor caminho para um sujeito que quer constituir-se ético e que se compreende como um ser com os outros. Deste modo, a via psicanalítica tem por finalidade desenvolver no homem a capacidade de amar e de conviver consigo mesmo e com os outros. Assim sendo, chegaremos a uma ética, que não é repressora, mas que pode ser pautada pelo desejo, enquanto desejo pelo outro, sem que fira o sujeito, como se tem feito até aqui.

O presente artigo pretende discutir A Constituição do Sujeito Ético-religioso no Pensamento de Freud. Do pensamento de Freud extrairemos as bases para a compreensão antropológica e psíquica da origem da religião, como também suas contribuições acerca da descoberta do inconsciente que legitima até certo ponto sua crítica à “ilusão religiosa”. Com isso, pretendemos oferecer ao sujeito uma justa compreensão do que estar posto, fazendo encontros e desencontros entre religião e ética, dando possibilidades do homem refletir-se enquanto sujeito ético independente dos ditames da religião. Entendemos que o grande desafio para o sujeito pós-moderno é reencontrar-se com sua subjetividade, sem ter que se ferir tanto, como ocorreu todo esse tempo em que o homem decidiu por ser um “ser religioso”.

2. A Crise Ética na Contemporaneidade

A questão Ética sempre esteve presente em toda a história da Filosofia. Existe uma forte tradição filosófica que defende que a verdadeira moralidade humana seria aquela que está completamente livre de nossos instintos animais, prevalecendo somente a nossa parte racional. Kant é um importante expoente deste pensamento, por isso nos apoiaremos neste pensador para melhor ampliar nosso conhecimento acerca da temática proposta.

A crise ética provém e varia de acordo com cada contexto em que se encontra a sociedade da qual ela circunda. Segundo Rocha, “sempre haverá crise, quando a tradição se encontrar em conflito com o progresso, ou vice-versa” [10]. É natural porque a cada dia descobrem-se novos valores que substituem outros tidos como ultrapassados ou que não correspondem com as necessidades do tempo vigente. Ou ainda de acordo com o autor acima citado, “a ética entra em crise quando as particularidades de seu ethos cultural e histórico não encontram mais uma justificação racional na tradição que as vinha sustentando e legitimando” [11].

A crise atual talvez se der pela não correspondência de alguns valores éticos e a não aceitação de outros, por parecerem contrários aos já existentes, ou por serem opostos à tradição. Reporto-me aqui às questões pertinentes da atualidade como a situação da homossexualidade, que tanto no campo social como no religioso, sofre ferrenhas contraposições em nome de uma ética moralista. Isso se dá, sobretudo, no campo religioso, que desconsidera, no campo ético, muitas vezes, a subjetividade individual.

A crise ética e religiosa é visível, no entanto, paralelo a essa situação temos um certo crescimento exacerbado de religiões, sobretudo cristãs. Pensamos ser interessante fazer uma investigação para melhor entender por que se a religião é a depositária dos valores morais e éticos, se cresce a cada dia em números, por que não consegue dar um respaldo positivo a problemática, ou ainda, se ela mesma está em crise por que consegue crescer a cada dia?

3. A Origem da Religião para Freud

Em O Futuro de uma ilusão, O Mal-estar na civilização, Moisés e o Monoteísmo, Totem e Tabu, Freud vai dar uma atenção toda peculiar à problemática da religião. Para Freud a religião não passa de uma mera ilusão infantil. É dessa ilusão que provém e é essa quem a sustém. Freud não só vai mostrar como se dá a ilusão, como também aponta as saídas para o sujeito. Talvez o principal papel da Psicanálise, ancorada pela ciência e pelo “deus Logos”, seja dar ao sujeito a capacidade de adaptar-se a realidade, independente da religião.

O nosso autor tenta nos mostrar que a religião surge como uma resposta imediata a uma ausência deixada pela a perda do pai, como veremos adiante. Mas há também de se notar que a religião busca alicerçar-se sob aquilo que é mais subjetivo no homem, o desejo. É justamente por isso que Freud a denuncia como sendo uma ilusão, porque esse desejo humano é insaciável e é falso querer pretender preencher esse vácuo por intermédio de algo tão indiferente à própria natureza do homem (retomo aqui a idéia de religião enquanto agência “moralista” que se propõe a domar o homem).

A religião, é claro desempenhou grandes serviços para a civilização humana. Contribuiu muito para domar os instintos associais. Mas não o suficiente. Dominou a sociedade por muitos milhares de anos e teve tempo para demonstrar o que pode alcançar. Se houvesse conseguido tornar feliz a maioria da humanidade, confortá-la, reconciliá-la com a vida, e transformá-la em veículo de civilização ninguém sonharia em alterar as condições existentes [12].

A própria religião se autodenuncia, quando propaga a construção de um outro Reino, que se inicia ainda aqui na terra. Tal propagação diz claramente de sua ineficiência responsal quanto aos anseios íntimos do homem. Se ela, de fato, fosse uma resposta não se precisaria propagar um porvir como garantia, pois esse reino que ela propaga já estaria implícito no seu discurso. Acusa Freud, “não é segredo que os sacerdotes só puderam manter as massas submissas à religião pela efetivação de concessões tão grandes quanto essa à natureza instintiva do homem” [13].

A religião nasce juntamente com a civilização, e junto com ambas nasceu também a Lei, a norma e é essa lei ou norma quem as legitima. Nasceram com a pretensão de “civilizar” ou socializar o sujeito. No entanto, o percurso que fizeram todo esse tempo não foi o mais favorável ao sujeito, pois o desconsidera completamente. Não há espaço para o sujeito em sua subjetividade, esse é o mal da civilização.

Segundo Rouanet,

a neurose é o prolongamento intrapsiquico de um processo societário baseado na distorção do processo de comunicação. Ao mesmo tempo, as visões do mundo legitimadoras dessa distorção derivam sua força de sua maior capacidade de satisfazer fantasmas individuais, cuja fonte é a própria repressão pulsional […] A tradição cultural pode ser vista como a sedimentação de fantasias projetivas, destinadas a gratificar, substantivamente os desejos proibidos [14].

Neste sentido, a religião ganha corpo, em se tratando de uma instituição formada por indivíduos ressequidos em seus desejos, que uma vez reprimidos buscam outras formas de satisfazê-los, ainda que seja de forma distorcida, como propõe a religião.

Valfredo Tepe, ancorado pelo pensamento freudiano nos diz que “a religião era-lhe uma “neurose coletiva”, um fenômeno passageiro na evolução da Humanidade que será sucedido e suplantado pelo domínio universal da ciência”[15]. E “a neurose começa quando se lança mão de uma solução inautêntica, tangencial, do conflito”[16].

A religião ainda pode encontrar sua fonte na angústia, que se origina de uma falta, ausência e do conflito entre as energias instintivas e as normas exigentes do ambiente. A angústia o deparar-se do ser com sua finitude. É o descobrir-se enquanto criatura frágil.

A angustia básica nasce da sensação de rejeição, de uma frustração maciça de carinho e afeto. Esta se agrava, exacerba-se pelo sentimento de culpa, oriundo da percepção de conflito entre desejos instintivos e as exigências do ambiente, respectivamente do Superego. O próprio Freud concede ao sentimento de culpa um papel decisivo na formação das neuroses [17].

A fonte primária da angústia provém de uma ausência, que foi gerada no evento totêmico. Para Freud a cultura e a religião nascem de um ato criminoso, segundo nos é relatado no “mito da horda primeva”, onde os irmãos por se sentirem indignados com o Pai, pelo fato deste usufruir todas as mulheres do clã, matam o pai. O sentimento de culpa e a ausência deixada pelo pai, portanto a insegurança leva-os a fazerem entre si um pacto, daí surge a Lei (simbólica), no lugar do pai, como garantia da sociabilidade, da convivência. É importante notar, portanto, que a ausência não se encerra com a pretensa Lei. Desse assassinato coletivo do Pai da horda, comemorado com a refeição totêmica surge à organização social e o fundamento da cultura.

 O parricídio e o devoramento de um pai despótico levam Freud a observar que ‘o pai morto se torna mais forte que o vivo”, pois no lugar de uma lei tirânica do pai onipotente surge um acordo entre os irmãos culpados, ou seja, cria-se uma lei simbólica, à qual todos se sujeitam, “o poder do indivíduo é substituída pelo poder da coletividade [18].

No mito da horda observamos que há uma culpa, proveniente de uma ausência deixada pelo pai. Nesse contexto de ausência podemos entender o que seja o desejo, pois este se remete sempre a uma falta [19]. A ausência do pai se perpetua na história da humanidade e é dessa que se fundamenta a religião.

Assim, seu anseio por um pai constitui um motivo idêntico à sua necessidade de proteção contra as conseqüências de sua debilidade humana. É a defesa contra esse desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer – reação que é, exatamente, a formação da religião [20].

O maior ideário de Freud foi seu pensamento acerca da dimensão psíquica inconsciente do homem. Ele conseguiu colocar em xeque toda uma tradição acerca do sujeito, e descentralizar esse mesmo sujeito. Ora, para nosso autor, o sujeito se revela através de atos falhos, de chistes, insights, sonhos, etc. Com esse enunciado, Freud marca o descentramento do sujeito. O que diz ser o “ser” do sujeito não é apenas aquilo que lhe parece consciente, mas sim e sobretudo, os registros inconscientes. Por isso de ele dizer que “o ego não é senhor de sua própria morada”. Os produtos provindos do inconsciente são sempre enigmáticos, e apresentam-se através de atos, falas ou imagens inesperados.

É na teorização da segunda tópica de Freud, ocorrida entre os anos 1920 e 1923 que temos uma melhor esquematização com uma qualificação do inconsciente em três instâncias: o id (o isso), o ego (o eu) e o superego (supereu).

O id é entendido como sendo uma espécie de reservatório pulsional desorganizado, caótico, dele provém as paixões indomadas que “sem a intervenção do eu, seria um joguete de suas aspirações pulsionais e caminharia inelutavelmente para sua perdição” [21].

O ego é a ponte entre as forças do id e do superego. “Ele é encarregado de funções importantes e, em sua relação com o sistema perceptivo, estabelece a ordenação temporal dos processos psíquicos e os submete à prova de realidade. Intercalando os processos de pensamento, consegue adiar as descargas motoras e domina os acessos à motilidade” [22]. O papel central do ego é filtrar as energias antagônicas do id e do superego e torná-las consciente, ou recalcando-as sem causar danos ao sujeito. Tepe esclarece melhor:

O Eu consciente, para nós a parte mais nobre e importante da personalidade total do homem, é para Freud algo acessório, secundário, produto do Id ao se chocar com o mundo externo. Na teoria de Freud, o Eu aparece ainda demasiadamente amarrado e diminuído. Não dirige, mas serve. Serve a três senhores exigentes: o Id, o mundo exterior e o Superego, procurando, num malabarismo entontecedor, contentar a todos [23].

O superego é a norma, a lei, portanto a proibição. É a repressão aos desejos, sobretudo. Ele é manifestado indiretamente à consciência, sob forma da moral, como um conjunto de interdições e deveres, e por meio da educação, no seu sentido mais amplo, levando em consideração todas as agências formativas, entre elas a religião, objeto de nosso estudo, que tem a pretensão de formar um “eu ideal”, isto é, uma pessoa moral, boa e virtuosa. É com essa instância que podemos dialogar com o imperativo categórico de Kant, vejamos o que Freud diz: “O supereu – a consciência em ação no eu – pode então tornar-se dura, cruel e inexorável contra o eu que está a seu cargo. O Imperativo Categórico de Kant, é assim, o herdeiro direto do Complexo de Édipo” [24]. De acordo com Rudge,

o vínculo do supereu com o imperativo categórico se localiza no ponto em que a lei moral kantiana opera à revelia de qualquer sentimento ou tendência, de qualquer consideração pelo prazer, pela simpatia e pelo amor. É apenas por dever que se cumpre a lei moral[25].

4. Conclusão

A ética e a religião tem seu fundamento no desejo, este por sua vez encontra sua raiz no inconsciente do homem e é dele que provém o agir humano. Este é expressado através de pulsões: Eros (pulsão de vida) e Tânatos (pulsão de morte), mas não se limita a elas, vai além, pois, na verdade o desejo é sempre uma ausência e como já vimos, uma ausência impreenchível, uma “falta-desejante” [26].

O sujeito de desejo se constitui a partir de um conjunto de elementos, mas o que dele se exterioriza em acontecimento só é possível a partir da castração simbólica que instaura o desejo como falta que procura ser preenchida com objetos causa de desejo. Por causa disso

Vivemos em guerra permanente com conosco mesmos. Somos incapazes de ser felizes. Não somos o que desejamos ser. O que desejamos ser jaz reprimido…[…] Não sabemos o que desejamos porque o desejo, reprimido, foi forçado a habitar as regiões do esquecimento. Tornou-se inconsciente [27].

É pela via do desejo que a religião se firma, por representar para o sujeito frágil uma fortaleza, uma garantia de proteção contra as forças da natureza, perdida no evento totêmico. Deste modo, “Deus é este coração fictício que o desejo inventou, para tornar o universo humano e amigo”

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Um Estudo Sobre o Conceito de Perversão

big_7abfeef3469ba41076a39c825f22e990d873f091A perversão é um fenômeno sexual, político, social, físico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas. O construto da perversão percorre um caminho complexo, passou por várias etapas, de modo que existiram pré-conceitos; juízos de valor e idéias moralistas frente à sua principal função. Nesse enfoque, esse estudo tem o objetivo de caracterizar a perversão sob a ótica da psicanálise. Desse modo, pôde-se estudar o conceito de perversão antes e depois de Freud, entender o conceito de estrutura perversa e discutir a perversão à luz da teoria psicanalítica.

Palavras-chave: Psicanálise, perversão, Freud

1. Considerações Iniciais

A palavra “perversão” deriva do verbo latino pervertere, resulta de “per” + “vertere” (quer dizer: pôr às avessas, desviar.), o que significa tornar-se perverso, desmoralizar, corromper, depravar, ou seja, designa o ato de o sujeito perturbar a ordem ou o estado natural das coisas. A perversão em si distingue-se da neurose e da psicose de acordo com sua organização e seu funcionamento. A perversão seria exatamente o resultado da falta de recalque.

A perversão é um fenômeno sexual, político, social, físico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas (ROUDINESCO, 2007).

Em psicanálise o termo perversão tornou-se um conceito para a área por volta de 1896 quando Sigmund Freud o colocou lado da psicose e da neurose. Desse modo, a perversão encontra-se em um amplo campo de estudo, tendo em vista que engloba comportamento, práticas e fantasias correlacionados à norma social.

Com base na historicidade da perversão, detém-se, inicialmente, à Medicina, que trouxe uma visão patológica que a caracterizava como “desvio”. Freud (1905) em os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” traz uma inovação sobre a criança enquanto sujeito sexual e a classifica enquanto possuidora de uma sexualidade perverso-polimorfa, isto é, que pode ter várias finalidades para atingir seu objetivo e que pode permanecer no adulto.

O construto da perversão percorre um caminho complexo, passando por várias etapas, de modo que existiram pré-conceitos; juízos de valor, dentre outros. A partir desse enfoque, surge uma teoria pautada em um conjunto de comportamentos psicossexuais que visam o prazer de modo contínuo, ao passo que considera a verdade ao mesmo tempo que a nega, substituindo-a pelo seu próprio desejo.

2. O Conceito de Perversão Antes e Depois de Freud

Antes de Freud estudar esse conceito, a palavra perversão era tida como algo pejorativo, doença, censura, como algo de desordem orgânica e anormal. A medicina da época tratou a perversão como uma forma de degeneração do sistema nervoso.

A sexualidade era vista somente como modo de reprodução, portanto, toda manifestação sexual que não tivesse o objetivo de reprodução, era vista como patológica, já que colocaria em risco a preservação da espécie e a procriação.

A partir de Freud (1905) em os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” a perversão adquire um aspecto diferente, tendo em vista que irá fazer parte da sexualidade infantil, isto é a sexualidade infantil tem caráter perverso polimorfo, isto é, possui várias formas de obtenção de prazer. Porém, a perversão infantil não deve ser confundida com a perversão do adulto, mesmo que uma seja um ponto de partida para o entendimento da outra, cada uma possui sua especificidade.

Nessa linha de pensamento, a perversão situa-se como algo inerente à condição humana. Após as idéias de Freud, ela deixa de ser vista como algo patológico, sobretudo, o que dá o caráter de patologia à perversão é a fixação objetal.

3. Estrutura Perversa

A partir dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud institui uma distinção entre as inversões e as perversões propriamente ditas. Esta diferença tem seu fundamento na plasticidade do mecanismo pulsional e em sua aptidão a se prestar a “desvios” em relação ao fim e ao objeto das pulsões.  As inversões corresponderiam a desvios concernindo ao objeto da pulsão, enquanto que as perversões remeteriam a um desvio quanto ao fim (DOR, 1991).

No perverso o desejo aparece pela via da atuação, ou, dito de outro modo, o perverso age, ele encena o desejo.

Do ponto de vista freudiano, a estrutura perversa parece, então, encontrar sua origem em torno de dois pólos: de um lado, na angustia da castração; de outro, na mobilização de processos defensivos destinados a contorná-la. A este título, ele evidencia dois processos defensivos característicos da organização do funcionamento perverso: a fixação (e a regressão) e a denegação da realidade (DOR, 1991).

O perverso tem uma vivência da ordem do horror no confronto com a diferença dos sexos e nisto está a confirmação de que ele está condenado a perder o objeto do desejo (a mãe) assim como o seu pênis.

4. Perversão Sob a Ótica da Psicanálise

Historicamente, as perversões de conceitos morais foram atribuídas a perturbações de ordem psíquica, as quais dariam origem a tendências afetivas e moralmente contrárias às do ambiente social do pervertido (FOUCAULT, 1984).

 Os estudos sobre perversão na psicanálise podem ser divididos em três momentos: o primeiro momento se relaciona com a publicação de “a neurose é o negativo da perversão” publicado em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”; o segundo momento se refere à teoria do Complexo de Édipo, que se caracteriza o núcleo das neuroses e das perversões; no terceiro momento Freud define a recusa da castração como mecanismo essencial da perversão.

Segundo Castro (2004), “num primeiro momento de construção teórica freudiana, a expressão perversão sexual designava a qualidade aberrante da própria sexualidade”, o que, em algum nível, encontrava-se em consonância com a visão médica vigente. Vamos observar como a escuta psicanalítica do sintoma perverso foi aos poucos modificando esse entendimento até que Freud chegasse à noção de perversão como condição básica da sexualidade.

De acordo com Freud (1905), a neurose é o negativo da perversão, tendo uma estreita relação com a teoria do Complexo de Édipo, que define a recusa da castração como mecanismo essencial da perversão.

Nesta obra, Freud trata da perversão como desvio da conduta sexual que não visa a genitalidade. Assim, toda criança, ao autossatisfazer-se sexualmente, poderia ser considerada perversa. Portanto, o conceito de recusa aparece como um mecanismo normal da construção da sexualidade. Posteriormente é superado, pois a castração aceita e os desejos incestuosos, juntamente com os desejos de completude, sucumbem ao recalque na normalidade, o que difere da perversão (PFITSCHER; BRAGA, 2012).

O sujeito de estrutura perversa mantém-se, contudo, excluído do Complexo de Édipo e da alteridade, passando a satisfazer sua libido sexual consigo mesmo, sob caráter narcísico. Tal estrutura dá-se por meio de uma fixação numa pulsão parcial que escapou ao recalque, tornando-se uma fixação exclusiva. A recusa da criança, em aceitar a falta fálica da mãe, ocasiona a recusa da percepção da castração, que retorna à ideia da figura da mulher com o pênis, origem da fantasia da mulher fálica (SEQUEIRA, 2009).

O que ocorre na estrutura perversa é a castração edipiana: o perverso não aceita ser submetido às leis paternas e, em consequência, às leis e normas sociais (SEQUEIRA, 2009).

5. Considerações Finais

Portanto, o conceito de perversão esteve imbuído de preconceitos, estigmas e idéias moralistas ao longo do tempo. Com o advento da psicanálise, esse termo ganhou um novo redirecionamento, se caracterizando com um conjunto de comportamentos que buscam o prazer de modo continuado. É a partir da infância que essa estrutura se constrói e se desenvolve no mundo adulto com base na fixação do desvio quanto ao objeto do desejo. Com base nas idéias psicanalíticas o nosso objeto de interesse pode variar ao longo da vida, caracterizando uma perversão ou não.

BRAGA, A.M, PFITSCHER, D.B. Estrutura perversa: Efeitos midiáticos e articulados com o social. Universidade Federal de Santa Maria, 2012.

CASTRO S. (2004).Aspectos teóricos e clínicos da perversão. Dissertação de Mestrado não-publicada, Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica, RJ.

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Obsessão Amorosa

19-05-10O tema obsessão amorosa é muito discutido na mídia da atualidade, contudo não é uma novidade, a primeira vez foi divulgada, em 1761, por John D. Moore em seu livro, confundindo amor com obsessão (Confusing Love With Obsession); Através de uma revisão de literatura, e sob uma ótica psicanalítica, este artigo, procurou analisar a obsessão amorosa dentro da psicanálise, destacando seus sintomas, causas e possíveis tratamentos, tendo como publico alvo às mulheres.

Palavras-chave: Obsessão Amorosa. Fases Psicossexuais. Neurose Histérica

Summary: The theme of love addiction is much discussed in the media today, however is not new, the first was published in 1761 by John D. Moore in his book, confusing love with obsession (Confusing Love With Obsession) Through a literature review, and under a psychoanalytic perspective, this article attempts to analyze the love addiction within psychoanalysis, highlighting its symptoms, causes and possible treatments, having as a target audience of women.
Keywords
: Obsession Amorosa. Psychosexual stages. Hysterical neurosis.

INTRODUÇÃO

O conceito de personalidade ainda é algo em construção, embora se tenha várias definições a respeito desta, há quem defina personalidade como a eficiência que um indivíduo tem para produzir reações positivas nas pessoas, outras avaliam personalidade como a impressão que o indivíduo causa nas outras, e há os que defendem que personalidade é o conjunto de características internas que causam um comportamento e que é proveniente de experiências individuais de cada um.

De forma geral, esse artigo veio caracterizar a obsessão amorosa, segundo o viés psicanalítico, em diferentes épocas, há começar por Freud o fundador da psicanálise, até os psicanalistas atuais, mas sempre retomando os conceitos para Freud; para tanto esse artigo foi elaborado com base em pesquisas feitas a partir de documentos já publicados, como artigo, livros, internet, periódicos na Universidade Estadual do Piauí. Com intuito de facilitar tal compreensão sobre o assunto

Esta pesquisa tem um grande interesse social devido à quantidade de casos existentes e a popularização do assunto devido à evidenciação da mídia onde a população tomou consciência de que às vezes, amar exageradamente pode sim ser uma doença e com isto houve um aumento considerável de pessoas procurando ajuda por identificarem-se com as características deste transtorno.

Os benefícios dessa pesquisa são esclarecer a população sobre o conceito de obsessão amorosa, fatores desencadeantes, diferenciar a neurose obsessiva da neurose histérica, quais suas características e as formas de tratamento dentro do contexto psicanalítico.

1. Personalidade

O ser humano desenvolve-se em um meio sócio – cultural, e é nesse meio que ele vai desenvolver sua personalidade. Personalidade essa que no começo da vida do indivíduo será aprendida mais com o passar do tempo ela será moldada pelo próprio sujeito. Teóricos de várias abordagens psicológicas deram suas colaborações para a formação de um conceito para a personalidade, porém ainda não se definiu um conceito exato para a personalidade, já que esta é muito abrangente. Gardner conceitua personalidade como sendo a eficiência em produzir reações positivas em diversas pessoas e em diferentes situações; mais também a impressão que o indivíduo causa em outras pessoas, podendo-se falar em “personalidade agressiva”, “personalidade passiva” e “personalidade tímida”. (HALL E LINDZEY, 2000).

O conceito formulado por Gardner é mais um dos mais populares, devido ao conteúdo, pois consegue conceituar de uma forma simples e ao mesmo tempo totalizadora.

Alport classifica o conceito de personalidade segundo uma concepção biossocial e biofísica: o biossocial corresponde ao conceito de popular, onde a personalidade é entendida em termos de importância social, um exemplo é quando se diz que o indivíduo é caridoso; já a concepção biofísica, a personalidade apresenta um aspecto aparente e pode estar ligada a qualidades específicas do indivíduo, um exemplo é dizer que o sujeito é alegre. (ALPORT, 1966).

Pode-se entender personalidade como sendo um conjunto de características que são constituídas de acordo com o meio social e as experiências de cada um; é o que ordena o comportamento do indivíduo; pode ser definida como um conjunto de características psicológicas que determinam a forma de pensar e agir do indivíduo.

A formação da personalidade é particular de cada um. Ha várias teorias psicológicas que explicam a personalidade, dentre elas estão à psicanálise, a gestalt terapia, o humanismo e o behaviorismo. Para a Freud a personalidade forma-se aos quatro ou cinco anos já para Piaget, ela começa a se formar somente entre os oito e doze anos de idade.

2. Estrutura da personalidade

Segundo Freud, a personalidade é composta por três estruturas, sendo elas: id (isso), ego (eu), superego (super-eu). Cada estrutura possui sua função e juntas integram e contribuem para o perfeito funcionamento do aparelho psíquico, sendo assim, não há uma estrutura mais importante que a outra. (CALVIN, 2000)

O id é o sistema original da personalidade e é formado pelos impulsos herdados desde o nascimento, inclusive os instintos, sendo assim ele não tem noção da realidade objetiva. O id não tolera aumento de energias e por isso é regido pelo princípio do prazer, princípio este, que busca manter um nível de conforto constante e uma baixa energia e entra em ação sempre que o id está em desconforto devido ao aumento de tensão. (HALL & LINDZEY, 2000).

O ego é regido através do Principio da realidade e opera através da função secundária; ele é a parte racional da personalidade, é ele quem controla quais os instintos serão satisfeitos e de que forma serão satisfeitos. Seu papel principal é o de intermediário entre as exigências pulsionais do organismo e as condições do ambiente. Seus objetivos consistem em manter a vida do indivíduo e garantir a reprodução da espécie. (HALL & LINDZEY, 2000).

Para Jung o ego é o centro da consciência; ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes e contrapõem-se a qualquer coisa que ameace essa consistência. Somos levados a crer que o ego é o elemento central de toda psique e chegamos a ignorar sua outra metade, o inconsciente. (NICOLAU, 2007)

O superego funciona como uma “arma moral” da personalidade, nele estão contidos os padrões morais da sociedade, sendo assim, tem como uma de suas principais funções a preocupação em decidir se alguma coisa é certa ou errada, ele luta constantemente contra os desejos impróprios e procura sempre a perfeição.

Hall e Lindzey afirmam em seu livro:

As principais funções do superego são inibir os impulsos do id, particularmente os de natureza sexual e agressiva; e persuadir o ego a substituir os alvos moralistas por alvos realistas; e por fim ele dizia que o superego tinha por função lutar pela perfeição, ele faz do mundo o reflexo de sua imagem. Ao contrário do ego o superego não somente adia a gratificação do instinto, mas ele tenta bloqueá-lo permanentemente. (HALL & LINDZEY, 2000, p.28)

3. Desenvolvimento psicossexual

O desenvolvimento psicossexual do indivíduo é para Freud o padrão de desenvolvimento possui caráter universal e necessário no desenvolvimento da saúde mental.

Segundo Freud, os estágios psicossexuais são divididos em quatro fases: fase oral, fase anal, fase fálica e a fase genital; os três primeiros estágios psicossexuais acontecem nos primeiros cinco anos de vida, depois acontece o chamado período de latência, onde há uma estabilidade (onde nada acontece) após esse período, na adolescência, começa outra fase, a genital, e essa percorre por toda a vida adulta. (HALL & LINDZEY, 2000)

Na fase oral, que ocorre em crianças recém-nascidas, todo prazer da criança encontra-se na cavidade oral, a priori para satisfazer a fome, mas depois o sugar torna-se uma satisfação sexual, um exemplo disso é quando a criança chupa chupeta, ela não satisfaz a fome, ela satisfaz o impulso sexual. (FREUD, 1905)

Para Gardner (2000) a fase oral é a fase onde comer é a principal fonte de prazer produzido pela boca, pois comer envolve estimulação tátil dos lábios e da cavidade oral, e quando ocorre o aparecimento dos dentes a boca é usada para comer e mastigar. E estes são os protótipos de muitos traços de caráter que podem aparecer mais tarde.

A segunda fase é a anal, que ocorre dos três aos quatro anos de idade, nessa fase o prazer sexual é levado para a região do ânus. Freud ainda subdividiu em duas fases; a primeira que é de expulsão, aonde o prazer vem da expulsão dos excrementos, e a segunda que é a de retenção, onde o prazer advém do acúmulo de fezes. (FREUD, 1905)

Para Hall e Lindzey (2000), quando a mãe é muito rigorosa e repressiva nos seus métodos, a criança pode reter as fezes e constipar-se. Em casos mais graves onde essa mãe tem esse comportamento com freqüência a constipação se generaliza provocando outras formas de conduta, a criança pode adquirir um caráter retentivo. Ela pode tornar-se obstinada e avarenta.

A terceira fase é a fálica, que vai dos três aos cinco anos de idade, nessa fase o prazer vem dos órgãos genitais; o menino possui a satisfação de possuir o pênis e por este a angustia da castração e a menina sofre pela inveja do pênis. (FREUD, 1905)

Para Hall e Lindzey (2000), na fase fálica ao mesmo tempo em que ocorre o desenvolvimento das sensações sexuais ocorre o aumento da agressividade associada ao funcionamento dos órgãos genitais, nessa fase que ocorre o prazer da masturbação, e um investimento sexual nos pais, o que resulta no complexo de Édipo.

Depois de passarem os três primeiros estágios, a criança passa pelo período de latência onde há uma luta constante contra a masturbação e as fantasias ligadas a esta, pois estas dão um sentimento de culpa. (HALL & LINDZEY, 2000)

A quarta fase é a chamada fase genital, que ocorre após o período de latência, nessa fase o adolescente começa a voltar a ter as fantasias sexuais e junto com ele o temor a castração. Nas meninas isso se torna ainda pior com achegada da menarca. A principal função biológica dessa fase é a reprodução. (HALL &LINDZEY, 2000)

Para Hall e Lindzey (2000), é na fase genital que vai se manifestar a atração sexual, a socialização, a atividade de grupo, o interesse profissional, a preparação para o casamento e a preocupação em constituir família; o objetivo desta fase é proporcionar estabilidade e segurança psicológica para o indivíduo.

4. Obsessão amorosa na psicanálise

A obsessão amorosa é um tipo de neurose histérica, também conhecida, como uma psiconeurose de defesa onde a pessoa afetada é totalmente dependente emocionalmente não de um parceiro, mas da relação obsessiva em si. O obsessivo amoroso, enxerga na pessoa amada um ideal de relacionamento que só existe para ele. Devido a isso, podemos pensar que a obsessão amorosa é diferente do amor em si. (LUCHESI, 2007).

Para Zimerman (1999) no início Sigmund Freud dividiu os transtornos emocionais, que ele então chamava de psiconeuroses, em três categorias psicopatológicas: as neuroses atuais, as neuroses narcisistas e as neuroses transferenciais, onde se enquadra a histeria; segundo ele:

A histeria é uma neurose complexa caracterizada pela instabilidade emocional e que tem seu início à partir de lembranças reprimidas que tem uma forte intensidade emocional, sendo que a lembrança desse trauma e sua catarse era o caminho para a cura. (ZIMERMAN, 1999, p.207-208)

Green (1974) destaca o aspecto defensivo da histeria, ele considera que esse caráter exibicionista e histriônico, comum do histérico, sobre tudo o protege contra seus núcleos depressivos, ou seja, por trás “dos escândalos” o histérico possui baixa auto-estima, é extremamente frágil e instável.

Uma característica da neurose histérica é o não controle do ego. A neurose histérica ocorre com mais freqüência nas mulheres, já que estas apresentam uma maior complicação no desenvolvimento sexual devido ao sentimento de inveja do pênis. O indivíduo histérico se fixou na fase fálica, mas com alguns componentes da fase oral.

Para Freud (1906) citado por Zimerman (1999), a histeria pode ser de dois tipos: conversiva – há sintomas físicos – e dissociativa – o estímulo é sentido de forma tão intensa que quebra a desfuncionalidade da mente, levando a pessoa a atos descoordenados da realidade. Percebe-se que a obsessão em si é uma doença que surge de uma de uma fixação da fase fálica, mas que o ambiente em que esta pessoa cresceu influencia muito.

Freitas (2008) diz:

As obsessões estão relacionadas à ansiedade criada em resposta a uma situação muito estressante, esmagadora e dolorosa. Uma frustração amorosa, uma família desestruturada, escola ou ambiente de trabalho nocivo ou ameaçador podem causar um excesso de ansiedade ou a pessoa pode ficar comprometida emocionalmente e tentar buscar uma saída para fugir desta realidade.

Devido às necessidades básicas de amor, assistência e aceitação que foram negados, a pessoa viaja para o mundo das obsessões para evitar a sensação de ansiedade e privação. A necessidade obsessiva cria mecanismos e estratégias para seduzir o outro, originando uma atração fatal que busca a possessão como forma de incluir o outro em sua própria vida, tentando o máximo de controle, pois a falta deste irá provoca intensa dor. (FREITAS, 2008)

O obsessivo amoroso tem uma preferência em ser amado ao invés de amar; torna-se uma pessoa altruísta, inconscientemente procura um parceiro pouco disponível e está disposto a mudá-lo através do seu amor. O obsessivo amoroso é dependente do parceiro e da dor emocional que esse amor lhe proporciona; ele enxerga um relacionamento ideal que só existe para ele. A pessoa que sofre de obsessão amorosa possui uma idéia fixa de poder e domínio sobre a outra pessoa, além de ter uma forte tendência a se fingir de vítima, necessitando assim de dó e de atenção. (MELO, 2008)

De acordo com a enciclopédia:

A palavra histeria é usada desde a antiguidade, por Hipócrates, e era usada para designar transtornos nervosos em mulheres que não haviam tido filhos. Em manuscritos egípcios muitos séculos antes de Hipócrates também apareceu uma doença identificável com o mesmo nome. No século XIX Charcot distinguiu a histeria da epilepsia, foi em aulas com Freud que ele percebeu que a histeria não era um fingimento e não se apresentava somente em mulheres, já Janet concebia a histeria como se tratando de uma diminuição da tensão psíquica que pode ser provocada por choques emocionais e recordações traumáticas. (WIKIPÉDIA, 1999).

Na histeria, as idéias reprimidas ficam inalteradas no inconsciente, mas mesmo assim provocam influência na personalidade do indivíduo. O complexo de Édipo juntamente com os impulsos provenientes da fixação da fase anal será a base para os sintomas da neurose obsessiva. O comportamento do neurótico obsessivo é contraditório, devido à mistura do complexo de Édipo com os impulsos anais tornando-os ora bondosos, ora cruéis. (ZIMERMAN, 1999)

Freud afirma que nas Neuroses Obsessivas, através dos sintomas, o Eu obtém uma satisfação narcísica. Os sintomas do neurótico obsessivo bajulam seu amor próprio, fazendo sentir-se melhor que outras pessoas, por se considerar mais limpo ou especialmente consciencioso. Tudo isto resulta no ganho proveniente da doença que se segue a uma neurose. Freud completa “A formação de sintomas assinala um triunfo que se consegue combinar a proibição com a satisfação… a fim de alcançar essa finalidade muitas vezes faz uso das trilhas associativas mais engenhosas” (FREUD, 1926, p.93-122).

Nas neuroses ocorre à fuga da realidade onde há uma idealização do objeto, por isso, o neurótico obsessivo se parece mais com o psicótico do que o histérico. Apesar da idealização, no fundo o individuo tem a consciência do que é verdadeiro e do que é falso

Para Zetzel (1968) existem quatro tipos de histerias: as “verdadeiras” ou “boas” histéricas, que atingem a condição de casar ter filhos com bom desempenho profissional e que se beneficiam com a psicanálise; outras também “verdadeiras” com casamentos complicados, geralmente com natureza sadomasoquística, que não conseguem manter por muito tempo um satisfatório compromisso com a análise; aquelas pacientes que manifestam sintomas histéricos, que lhes confere uma fachada de pessoas histéricas, mas que, na verdade, encobre uma subjacente condição bastante depressiva, sendo que essas pessoas não se completam em nenhuma área da vida; e as “pseudo-histerias” presentes em personalidades muito mais primitivas, sendo que a sua extrema instabilidade emocional justifica a antiga denominação “psicose histérica”.

O tratamento clínico para obsessão amorosa, num viés psicanalítico, vai depender do analista; Pois cada terapeuta tem sua forma de tratar desse transtorno, uns com a hipnose, outros com terapia.

Segundo Zimerman (1999, p. 213-214) diz que:

A atividade interpretativa do analista deve ficar centrada nos seguintes aspectos: usar a técnica de “confrontação”, levando o paciente a confrontar se há similaridade de como ele se vê o de como os outros os vêem; utilizar a técnica de uma imaginária “dramatização verbal”, onde a paciente troca de lugar, papel e função com outras pessoas do seu convívio; trabalhar com as funções conscientes do ego, ou seja,como ele percebe, pensa, discrimina e comunica seus sentimentos de amor e ódio.

Diante de todos os conceitos, eles trazem à tona a aprendizagem sobre o “Normal” e o patológico, tendo em vista o modelo que foi recebido da sociedade, da cultura, das instituições em que o indivíduo está inserido, porém o indivíduo tem a chance de refletir e tirar suas próprias conclusões a respeito da obsessão amorosa em si.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir desta pesquisa observa-se que a obsessão amorosa classifica-se como uma neurose histérica do tipo dissociativa e ocorre, por natureza, em maior freqüência nas mulheres sendo que as mulheres que cresceram em um ambiente disfuncional são mais propensas a desenvolver a obsessão.

As principais características, da obsessão amorosa, entre outras são: o sentimento de posse em relação ao outro, a idealização de um relacionamento que só existe para ele e a procura inconsciente de um parceiro emocionalmente indisponível. Por ser um tipo de histeria, a pessoa tenderá a sempre assumir o papel da vítima, o que implica a necessidade de receber a dó e complacência das outras pessoas

Conforme aprendemos com Freud, somos necessariamente seres sexuais, comandados por nossas pulsões sexuais; transferindo e liberando nossa libido, e variando inclusive nosso objeto de interesse ao longo da vida, estando ele dentro do “normal”, ou não.

Cabe então ao próprio indivíduo, dentro da sua sociedade, relacionar e discernir o normal do patológico, buscando ajuda profissional se necessário.

JOHN B. CAMPBELL; CALVIN S. HALL ; GARDNER LINDZEY, 2000,Teorias da Personalidade. Ed. Artmed.

DAVID E. ZIMERMAN, 1999, Fundamentos Psicanalíticos, teoria, técnica e clínica.Porto alegre; Ed. Artmed.

MELO. CIDA, 2007, Neurose Histérica. Teresina, disponível em <http://artigos.psicologado.com/abordagens/psicanalise/neurose-histerica >Acesso em: 03 de junho de 2010.

HALL – LINDZEY; JUNG, C. G.; Teorias da Personalidade. 18ª edição; Ed: e.p.u

OTTO FENICHEL, 2000. Teoria Psicanalítica das neuroses; Terapêutica Psicanalista na neurose obsessiva; Ed. Atheneu

Obsessão Amorosa

suicidio

O tema obsessão amorosa é muito discutido na mídia da atualidade, contudo não é uma novidade, a primeira vez foi divulgada, em 1761, por John D. Moore em seu livro, confundindo amor com obsessão (Confusing Love With Obsession); Através de uma revisão de literatura, e sob uma ótica psicanalítica, este artigo, procurou analisar a obsessão amorosa dentro da psicanálise, destacando seus sintomas, causas e possíveis tratamentos, tendo como publico alvo às mulheres.
Palavras-chave: Obsessão Amorosa. Fases Psicossexuais. Neurose Histérica

Summary: The theme of love addiction is much discussed in the media today, however is not new, the first was published in 1761 by John D. Moore in his book, confusing love with obsession (Confusing Love With Obsession) Through a literature review, and under a psychoanalytic perspective, this article attempts to analyze the love addiction within psychoanalysis, highlighting its symptoms, causes and possible treatments, having as a target audience of women.
Keywords
: Obsession Amorosa. Psychosexual stages. Hysterical neurosis.

INTRODUÇÃO

O conceito de personalidade ainda é algo em construção, embora se tenha várias definições a respeito desta, há quem defina personalidade como a eficiência que um indivíduo tem para produzir reações positivas nas pessoas, outras avaliam personalidade como a impressão que o indivíduo causa nas outras, e há os que defendem que personalidade é o conjunto de características internas que causam um comportamento e que é proveniente de experiências individuais de cada um.

De forma geral, esse artigo veio caracterizar a obsessão amorosa, segundo o viés psicanalítico, em diferentes épocas, há começar por Freud o fundador da psicanálise, até os psicanalistas atuais, mas sempre retomando os conceitos para Freud; para tanto esse artigo foi elaborado com base em pesquisas feitas a partir de documentos já publicados, como artigo, livros, internet, periódicos na Universidade Estadual do Piauí. Com intuito de facilitar tal compreensão sobre o assunto

Esta pesquisa tem um grande interesse social devido à quantidade de casos existentes e a popularização do assunto devido à evidenciação da mídia onde a população tomou consciência de que às vezes, amar exageradamente pode sim ser uma doença e com isto houve um aumento considerável de pessoas procurando ajuda por identificarem-se com as características deste transtorno.

Os benefícios dessa pesquisa são esclarecer a população sobre o conceito de obsessão amorosa, fatores desencadeantes, diferenciar a neurose obsessiva da neurose histérica, quais suas características e as formas de tratamento dentro do contexto psicanalítico.

1. Personalidade

O ser humano desenvolve-se em um meio sócio – cultural, e é nesse meio que ele vai desenvolver sua personalidade. Personalidade essa que no começo da vida do indivíduo será aprendida mais com o passar do tempo ela será moldada pelo próprio sujeito. Teóricos de várias abordagens psicológicas deram suas colaborações para a formação de um conceito para a personalidade, porém ainda não se definiu um conceito exato para a personalidade, já que esta é muito abrangente. Gardner conceitua personalidade como sendo a eficiência em produzir reações positivas em diversas pessoas e em diferentes situações; mais também a impressão que o indivíduo causa em outras pessoas, podendo-se falar em “personalidade agressiva”, “personalidade passiva” e “personalidade tímida”. (HALL E LINDZEY, 2000).

O conceito formulado por Gardner é mais um dos mais populares, devido ao conteúdo, pois consegue conceituar de uma forma simples e ao mesmo tempo totalizadora.

Alport classifica o conceito de personalidade segundo uma concepção biossocial e biofísica: o biossocial corresponde ao conceito de popular, onde a personalidade é entendida em termos de importância social, um exemplo é quando se diz que o indivíduo é caridoso; já a concepção biofísica, a personalidade apresenta um aspecto aparente e pode estar ligada a qualidades específicas do indivíduo, um exemplo é dizer que o sujeito é alegre. (ALPORT, 1966).

Pode-se entender personalidade como sendo um conjunto de características que são constituídas de acordo com o meio social e as experiências de cada um; é o que ordena o comportamento do indivíduo; pode ser definida como um conjunto de características psicológicas que determinam a forma de pensar e agir do indivíduo.

A formação da personalidade é particular de cada um. Ha várias teorias psicológicas que explicam a personalidade, dentre elas estão à psicanálise, a gestalt terapia, o humanismo e o behaviorismo. Para a Freud a personalidade forma-se aos quatro ou cinco anos já para Piaget, ela começa a se formar somente entre os oito e doze anos de idade.

2. Estrutura da personalidade

Segundo Freud, a personalidade é composta por três estruturas, sendo elas: id (isso), ego (eu), superego (super-eu). Cada estrutura possui sua função e juntas integram e contribuem para o perfeito funcionamento do aparelho psíquico, sendo assim, não há uma estrutura mais importante que a outra. (CALVIN, 2000)

O id é o sistema original da personalidade e é formado pelos impulsos herdados desde o nascimento, inclusive os instintos, sendo assim ele não tem noção da realidade objetiva. O id não tolera aumento de energias e por isso é regido pelo princípio do prazer, princípio este, que busca manter um nível de conforto constante e uma baixa energia e entra em ação sempre que o id está em desconforto devido ao aumento de tensão. (HALL & LINDZEY, 2000).

O ego é regido através do Principio da realidade e opera através da função secundária; ele é a parte racional da personalidade, é ele quem controla quais os instintos serão satisfeitos e de que forma serão satisfeitos. Seu papel principal é o de intermediário entre as exigências pulsionais do organismo e as condições do ambiente. Seus objetivos consistem em manter a vida do indivíduo e garantir a reprodução da espécie. (HALL & LINDZEY, 2000).

Para Jung o ego é o centro da consciência; ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes e contrapõem-se a qualquer coisa que ameace essa consistência. Somos levados a crer que o ego é o elemento central de toda psique e chegamos a ignorar sua outra metade, o inconsciente. (NICOLAU, 2007)

O superego funciona como uma “arma moral” da personalidade, nele estão contidos os padrões morais da sociedade, sendo assim, tem como uma de suas principais funções a preocupação em decidir se alguma coisa é certa ou errada, ele luta constantemente contra os desejos impróprios e procura sempre a perfeição.

Hall e Lindzey afirmam em seu livro:

As principais funções do superego são inibir os impulsos do id, particularmente os de natureza sexual e agressiva; e persuadir o ego a substituir os alvos moralistas por alvos realistas; e por fim ele dizia que o superego tinha por função lutar pela perfeição, ele faz do mundo o reflexo de sua imagem. Ao contrário do ego o superego não somente adia a gratificação do instinto, mas ele tenta bloqueá-lo permanentemente. (HALL & LINDZEY, 2000, p.28)

3. Desenvolvimento psicossexual

O desenvolvimento psicossexual do indivíduo é para Freud o padrão de desenvolvimento possui caráter universal e necessário no desenvolvimento da saúde mental.

Segundo Freud, os estágios psicossexuais são divididos em quatro fases: fase oral, fase anal, fase fálica e a fase genital; os três primeiros estágios psicossexuais acontecem nos primeiros cinco anos de vida, depois acontece o chamado período de latência, onde há uma estabilidade (onde nada acontece) após esse período, na adolescência, começa outra fase, a genital, e essa percorre por toda a vida adulta. (HALL & LINDZEY, 2000)

Na fase oral, que ocorre em crianças recém-nascidas, todo prazer da criança encontra-se na cavidade oral, a priori para satisfazer a fome, mas depois o sugar torna-se uma satisfação sexual, um exemplo disso é quando a criança chupa chupeta, ela não satisfaz a fome, ela satisfaz o impulso sexual. (FREUD, 1905)

Para Gardner (2000) a fase oral é a fase onde comer é a principal fonte de prazer produzido pela boca, pois comer envolve estimulação tátil dos lábios e da cavidade oral, e quando ocorre o aparecimento dos dentes a boca é usada para comer e mastigar. E estes são os protótipos de muitos traços de caráter que podem aparecer mais tarde.

A segunda fase é a anal, que ocorre dos três aos quatro anos de idade, nessa fase o prazer sexual é levado para a região do ânus. Freud ainda subdividiu em duas fases; a primeira que é de expulsão, aonde o prazer vem da expulsão dos excrementos, e a segunda que é a de retenção, onde o prazer advém do acúmulo de fezes. (FREUD, 1905)

Para Hall e Lindzey (2000), quando a mãe é muito rigorosa e repressiva nos seus métodos, a criança pode reter as fezes e constipar-se. Em casos mais graves onde essa mãe tem esse comportamento com freqüência a constipação se generaliza provocando outras formas de conduta, a criança pode adquirir um caráter retentivo. Ela pode tornar-se obstinada e avarenta.

A terceira fase é a fálica, que vai dos três aos cinco anos de idade, nessa fase o prazer vem dos órgãos genitais; o menino possui a satisfação de possuir o pênis e por este a angustia da castração e a menina sofre pela inveja do pênis. (FREUD, 1905)

Para Hall e Lindzey (2000), na fase fálica ao mesmo tempo em que ocorre o desenvolvimento das sensações sexuais ocorre o aumento da agressividade associada ao funcionamento dos órgãos genitais, nessa fase que ocorre o prazer da masturbação, e um investimento sexual nos pais, o que resulta no complexo de Édipo.

Depois de passarem os três primeiros estágios, a criança passa pelo período de latência onde há uma luta constante contra a masturbação e as fantasias ligadas a esta, pois estas dão um sentimento de culpa. (HALL & LINDZEY, 2000)

A quarta fase é a chamada fase genital, que ocorre após o período de latência, nessa fase o adolescente começa a voltar a ter as fantasias sexuais e junto com ele o temor a castração. Nas meninas isso se torna ainda pior com achegada da menarca. A principal função biológica dessa fase é a reprodução. (HALL &LINDZEY, 2000)

Para Hall e Lindzey (2000), é na fase genital que vai se manifestar a atração sexual, a socialização, a atividade de grupo, o interesse profissional, a preparação para o casamento e a preocupação em constituir família; o objetivo desta fase é proporcionar estabilidade e segurança psicológica para o indivíduo.

4. Obsessão amorosa na psicanálise

A obsessão amorosa é um tipo de neurose histérica, também conhecida, como uma psiconeurose de defesa onde a pessoa afetada é totalmente dependente emocionalmente não de um parceiro, mas da relação obsessiva em si. O obsessivo amoroso, enxerga na pessoa amada um ideal de relacionamento que só existe para ele. Devido a isso, podemos pensar que a obsessão amorosa é diferente do amor em si. (LUCHESI, 2007).

Para Zimerman (1999) no início Sigmund Freud dividiu os transtornos emocionais, que ele então chamava de psiconeuroses, em três categorias psicopatológicas: as neuroses atuais, as neuroses narcisistas e as neuroses transferenciais, onde se enquadra a histeria; segundo ele:

A histeria é uma neurose complexa caracterizada pela instabilidade emocional e que tem seu início à partir de lembranças reprimidas que tem uma forte intensidade emocional, sendo que a lembrança desse trauma e sua catarse era o caminho para a cura. (ZIMERMAN, 1999, p.207-208)

Green (1974) destaca o aspecto defensivo da histeria, ele considera que esse caráter exibicionista e histriônico, comum do histérico, sobre tudo o protege contra seus núcleos depressivos, ou seja, por trás “dos escândalos” o histérico possui baixa auto-estima, é extremamente frágil e instável.

Uma característica da neurose histérica é o não controle do ego. A neurose histérica ocorre com mais freqüência nas mulheres, já que estas apresentam uma maior complicação no desenvolvimento sexual devido ao sentimento de inveja do pênis. O indivíduo histérico se fixou na fase fálica, mas com alguns componentes da fase oral.

Para Freud (1906) citado por Zimerman (1999), a histeria pode ser de dois tipos: conversiva – há sintomas físicos – e dissociativa – o estímulo é sentido de forma tão intensa que quebra a desfuncionalidade da mente, levando a pessoa a atos descoordenados da realidade. Percebe-se que a obsessão em si é uma doença que surge de uma de uma fixação da fase fálica, mas que o ambiente em que esta pessoa cresceu influencia muito.

Freitas (2008) diz:

As obsessões estão relacionadas à ansiedade criada em resposta a uma situação muito estressante, esmagadora e dolorosa. Uma frustração amorosa, uma família desestruturada, escola ou ambiente de trabalho nocivo ou ameaçador podem causar um excesso de ansiedade ou a pessoa pode ficar comprometida emocionalmente e tentar buscar uma saída para fugir desta realidade.

Devido às necessidades básicas de amor, assistência e aceitação que foram negados, a pessoa viaja para o mundo das obsessões para evitar a sensação de ansiedade e privação. A necessidade obsessiva cria mecanismos e estratégias para seduzir o outro, originando uma atração fatal que busca a possessão como forma de incluir o outro em sua própria vida, tentando o máximo de controle, pois a falta deste irá provoca intensa dor. (FREITAS, 2008)

O obsessivo amoroso tem uma preferência em ser amado ao invés de amar; torna-se uma pessoa altruísta, inconscientemente procura um parceiro pouco disponível e está disposto a mudá-lo através do seu amor. O obsessivo amoroso é dependente do parceiro e da dor emocional que esse amor lhe proporciona; ele enxerga um relacionamento ideal que só existe para ele. A pessoa que sofre de obsessão amorosa possui uma idéia fixa de poder e domínio sobre a outra pessoa, além de ter uma forte tendência a se fingir de vítima, necessitando assim de dó e de atenção. (MELO, 2008)

De acordo com a enciclopédia:

A palavra histeria é usada desde a antiguidade, por Hipócrates, e era usada para designar transtornos nervosos em mulheres que não haviam tido filhos. Em manuscritos egípcios muitos séculos antes de Hipócrates também apareceu uma doença identificável com o mesmo nome. No século XIX Charcot distinguiu a histeria da epilepsia, foi em aulas com Freud que ele percebeu que a histeria não era um fingimento e não se apresentava somente em mulheres, já Janet concebia a histeria como se tratando de uma diminuição da tensão psíquica que pode ser provocada por choques emocionais e recordações traumáticas. (WIKIPÉDIA, 1999).

Na histeria, as idéias reprimidas ficam inalteradas no inconsciente, mas mesmo assim provocam influência na personalidade do indivíduo. O complexo de Édipo juntamente com os impulsos provenientes da fixação da fase anal será a base para os sintomas da neurose obsessiva. O comportamento do neurótico obsessivo é contraditório, devido à mistura do complexo de Édipo com os impulsos anais tornando-os ora bondosos, ora cruéis. (ZIMERMAN, 1999)

Freud afirma que nas Neuroses Obsessivas, através dos sintomas, o Eu obtém uma satisfação narcísica. Os sintomas do neurótico obsessivo bajulam seu amor próprio, fazendo sentir-se melhor que outras pessoas, por se considerar mais limpo ou especialmente consciencioso. Tudo isto resulta no ganho proveniente da doença que se segue a uma neurose. Freud completa “A formação de sintomas assinala um triunfo que se consegue combinar a proibição com a satisfação… a fim de alcançar essa finalidade muitas vezes faz uso das trilhas associativas mais engenhosas” (FREUD, 1926, p.93-122).

Nas neuroses ocorre à fuga da realidade onde há uma idealização do objeto, por isso, o neurótico obsessivo se parece mais com o psicótico do que o histérico. Apesar da idealização, no fundo o individuo tem a consciência do que é verdadeiro e do que é falso

Para Zetzel (1968) existem quatro tipos de histerias: as “verdadeiras” ou “boas” histéricas, que atingem a condição de casar ter filhos com bom desempenho profissional e que se beneficiam com a psicanálise; outras também “verdadeiras” com casamentos complicados, geralmente com natureza sadomasoquística, que não conseguem manter por muito tempo um satisfatório compromisso com a análise; aquelas pacientes que manifestam sintomas histéricos, que lhes confere uma fachada de pessoas histéricas, mas que, na verdade, encobre uma subjacente condição bastante depressiva, sendo que essas pessoas não se completam em nenhuma área da vida; e as “pseudo-histerias” presentes em personalidades muito mais primitivas, sendo que a sua extrema instabilidade emocional justifica a antiga denominação “psicose histérica”.

O tratamento clínico para obsessão amorosa, num viés psicanalítico, vai depender do analista; Pois cada terapeuta tem sua forma de tratar desse transtorno, uns com a hipnose, outros com terapia.

Segundo Zimerman (1999, p. 213-214) diz que:

A atividade interpretativa do analista deve ficar centrada nos seguintes aspectos: usar a técnica de “confrontação”, levando o paciente a confrontar se há similaridade de como ele se vê o de como os outros os vêem; utilizar a técnica de uma imaginária “dramatização verbal”, onde a paciente troca de lugar, papel e função com outras pessoas do seu convívio; trabalhar com as funções conscientes do ego, ou seja,como ele percebe, pensa, discrimina e comunica seus sentimentos de amor e ódio.

Diante de todos os conceitos, eles trazem à tona a aprendizagem sobre o “Normal” e o patológico, tendo em vista o modelo que foi recebido da sociedade, da cultura, das instituições em que o indivíduo está inserido, porém o indivíduo tem a chance de refletir e tirar suas próprias conclusões a respeito da obsessão amorosa em si.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir desta pesquisa observa-se que a obsessão amorosa classifica-se como uma neurose histérica do tipo dissociativa e ocorre, por natureza, em maior freqüência nas mulheres sendo que as mulheres que cresceram em um ambiente disfuncional são mais propensas a desenvolver a obsessão.

As principais características, da obsessão amorosa, entre outras são: o sentimento de posse em relação ao outro, a idealização de um relacionamento que só existe para ele e a procura inconsciente de um parceiro emocionalmente indisponível. Por ser um tipo de histeria, a pessoa tenderá a sempre assumir o papel da vítima, o que implica a necessidade de receber a dó e complacência das outras pessoas

Conforme aprendemos com Freud, somos necessariamente seres sexuais, comandados por nossas pulsões sexuais; transferindo e liberando nossa libido, e variando inclusive nosso objeto de interesse ao longo da vida, estando ele dentro do “normal”, ou não.

Cabe então ao próprio indivíduo, dentro da sua sociedade, relacionar e discernir o normal do patológico, buscando ajuda profissional se necessário.

JOHN B. CAMPBELL; CALVIN S. HALL ; GARDNER LINDZEY, 2000,Teorias da Personalidade. Ed. Artmed.

DAVID E. ZIMERMAN, 1999, Fundamentos Psicanalíticos, teoria, técnica e clínica.Porto alegre; Ed. Artmed.

MELO. CIDA, 2007, Neurose Histérica. Teresina, disponível em <http://artigos.psicologado.com/abordagens/psicanalise/neurose-histerica >Acesso em: 03 de junho de 2010.

HALL – LINDZEY; JUNG, C. G.; Teorias da Personalidade. 18ª edição; Ed: e.p.u

OTTO FENICHEL, 2000. Teoria Psicanalítica das neuroses; Terapêutica Psicanalista na neurose obsessiva; Ed. Atheneu