Introdução ao Conceito de Neurose Obsessiva

lavarmaosA neurose obsessiva situa-se no campo de estudo da psicanálise de Sigmund Freud, podendo ser entendida a partir de uma experiência traumática que acomete a estrutura do sujeito. O presente artigo tem a finalidade de fomentar discussões sobre a utilização das terminologias usadas pelo DSM-IV, fazendo uma inter-relação com a psicanálise. Assim como apresentar algumas ideias psicanalíticas sobre a neurose obsessiva e introduzir o aspecto obsessivo no caso “homem dos ratos”. Nesse sentido, o estudo se torna relevante para apontar novas vertentes sobre a temática, bem como possibilitar diálogos com a psicanálise e a psicologia.

 Palavras-chave: Neurose Obsessiva, Sigmund Freud, Psicanálise.

1. Considerações Iniciais

A neurose obsessiva se caracteriza como uma doença mental grave, podendo ser entenda a partir de um conflito decorrente de uma experiência traumática que acomete a estrutura do sujeito no contexto libidinal. O trabalho defensivo da neurose obsessiva consiste, portanto, em transformar a representação forte da experiência infantil penosa numa representação enfraquecida e em orientar para outros usos a soma de excitação, por esse estratagema, foi desligada de sua fonte verdadeira.

Desse modo, a neurose obsessiva se desenvolve a partir do Complexo de Édipo, onde a libido do indivíduo encontra-se fixada no estágio anal de maturação da sexualidade. O sentimento de culpa, pode se caracterizar como uma forte tendência do neurótico obsessivo, em que tentam usar objetos como tentativa de aliviar conflitos internos.

As obsessões podem ser identificadas a partir de pensamentos, ideias, sentimentos, frases, números, superstições mágicas, atitudes compulsivas que invadem a consciência de forma repetida e recorrente, o que provoca no sujeito uma sensação de mal-estar e impotência diante de tais pensamentos.

Assim, o pensamento do sujeito obsessivo é abstrato, não tem uma ligação com a realidade. Os obsessivos se preparam constantemente para o futuro, e não conseguem viver o presente. Na psicanálise, há mais dificuldade no tratamento desse indivíduo tendo em vista a dificuldade de associação livre, assim como na internalização do conflito apresentado.

2. DSM-IV e Neurose Obsessiva: um paradoxo

O DSM-IV, considera-se o Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva (F60. 5 – 301.4) um padrão invasivo de preocupação com organização, perfeccionismo e controle mental e interpessoal, às custas da flexibilidade, abertura e eficiência, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, indicado por pelo menos quatro dos seguintes critérios:

“(1) preocupação tão extensa, com detalhes, regras, listas, ordem, organização ou horários, que o ponto principal da atividade é perdido; (2) perfeccionismo que interfere na conclusão de tarefas (por ex., é incapaz de completar um projeto porque não consegue atingir seus próprios padrões demasiadamente rígidos); (3) devotamento excessivo ao trabalho e à produtividade, em detrimento de atividades de lazer e amizades (não explicado por uma óbvia necessidade econômica); (4) excessiva conscienciosidade, escrúpulos e inflexibilidade em assuntos de moralidade, ética ou valores (não explicados por identificação cultural ou religiosa); (5) incapacidade de desfazer-se de objetos usados ou inúteis, mesmo quando não têm valor sentimental; (6) relutância em delegar tarefas ou ao trabalho em conjunto com outras pessoas, a menos que estas se submetam a seu modo exato de fazer as coisas; (7) adoção de um estilo miserável quanto a gastos pessoais e com outras pessoas; o dinheiro é visto como algo que deve ser reservado para catástrofes futuras;  (8) rigidez e teimosia.”

Tais critérios levantam as características psiquiátricas desse adoecimento, criadas com base no contexto geral, o que leva ao debate sobre destacar e entender também a história individual de cada sujeito. Essa ideia apresentada pelo DSM-IV entra em contradição com a psicanálise, que nomeia o problema de neurose obsessiva.

Uma questão que é levantada é que o DSM, ao lado da CID-10, exclui a subjetividade e toma o sintoma pela estrutura, ou seja, aquilo que responde à uma classe, esmaga o sujeito e o exclui de cena, uma vez que a particularidade do sujeito não tem a ver com a classificação, mas com aquilo que escapa a ela (GOMES, 2009).

3. Um Ideia Psicanalítica sobre a Neurose Obsessiva

Entende-se que a neurose obsessiva é uma das psiconeuroses de defesa, pelo fato de ser resultante de uma ação “traumática” de experiências sexuais na vida infantil e se constitui um esforço de defesa contra qualquer representação e qualquer afeto oriundo de tais experiências e tendem a perpetuar o que elas tinham de incompatível com o eu.

 Freud (1996), em seu texto sobre as neuroses, apresenta sua preocupação com tal problema e a partir de seus estudos sobre o tipo clínico Neurose Obsessiva, pode entender que o paciente que analisou gozava de boa saúde mental até o momento em que houve uma ocorrência de incompatibilidade em sua vida representativa – isto é, até que seu eu se confrontou com uma experiência, uma representação ou um sentimento que suscitaram um afeto tão aflitivo que o sujeito decidiu esquecê-lo, pois não confiava em sua capacidade de resolver a contradição entre a representação incompatível e seu eu por meio da atividade de pensamento.

Assim, a tarefa que o eu se impõe, em sua atitude defensiva, de tratar a representação incompatível, simplesmente não pode ser realizada por ele. Tanto o traço mnêmico como o afeto ligado à representação lá estão de uma vez por todas e não podem ser erradicados. Mas uma realização aproximada da tarefa se dá quando o eu transforma essa representação poderosa numa representação fraca, retirando-lhe o afeto – a soma de excitação – do qual está carregada. A representação fraca não tem então praticamente nenhuma exigência a fazer ao trabalho da associação (GOMES et al 2009).

Desse modo, o que caracteriza a construção de uma neurose, é que o Eu está submetido às exigências da realidade e imposições do superego. Nesse sentido, o sujeito obsessivo passa a ter falsas conexões psíquicas, e assim, tem a tentativa de retirar do pensamento alguma representação incompatível, através de outros pensamentos, o que geram diversos pensamentos ritualísticos, para conseguir lidar com tal incompatibilidade.

4. O Caso “Homem dos Ratos” e a Neurose Obsessiva

Para responder a questão da neurose obsessiva, Freud (1909) se deteve a estudar um caso clínico em específico. Esse estudo pôde ser conhecido como caso “homem dos ratos”, em que tece algumas considerações sobre a neurose obsessiva. Seu protagonista é um jovem advogado que sofria de sintomas clássicos de neurose obsessiva, como ideias terríveis que sempre voltam e que requerem o cumprimento de certos rituais para que não se tornem realidade.

O paciente teme que coisas terríveis ocorram com seu pai e com uma dama venerada. Está submetido a impulsos obsessivos, como o de fazer mal à dama, que lhe ocorrem quando ela está ausente; mas estar longe dela lhe faz bem. Ele se impõe interdições e se atrasa em seus estudos de direito, pois apresenta inibições ligadas ao combate contra seus sintomas. Ele vem consultar Freud porque leu a “Psicopatologia da vida cotidiana”. Pode-se dizer que houve ali o encontro com o sujeito suposto saber, encontro que o conduz à hipótese de que seus sintomas querem dizer alguma coisa (SUAREZ, 2011).

Para analisar a formação da neurose obsessiva, Freud (1909) discorre sobre algumas especificidades acerca da sintomatologia desse indivíduo, como a onipotência de seus pensamentos, bem como a necessidade de incerteza e da dúvida em suas vidas. A onipotência decorre da superestimação dos efeitos de seus sentimentos hostis sobre o mundo externo. Em relação a incerteza e a dúvida, o obsessivo tende a protelar qualquer decisão e são incapazes de chegar a um decisão, especialmente no que tange ao aspecto afetivo.

De acordo com Suarez (2011) o neurótico obsessivo é um sujeito afetado por seu pensamento, que sofre de seus pensamentos. Na neurose obsessiva, contrariamente à histeria, o recalcamento não é ligado à amnésia e ao esquecimento, mas a uma disjunção da relação de causalidade que se produz em função de um deslocamento do afeto. O sintoma obsessivo é o resultado de deformações destinadas a mascarar o pensamento, que provêm da censura primária. O pensamento obsessivo torna-se alheio ao sujeito.

5. Considerações Finais

Com base nas discussões apresentadas nesse trabalho pôde-se compreender que a estrutura neurótica obsessiva é um tipo de estrutura que realiza várias conexões através de pensamentos ritualísticos na tentativa de retirar da consciência algumas representações que foram conflituosas em determinado momento da vida do sujeito. Desse modo, o indivíduo cria uma série de estratégias ou pensamentos obsessivos a fim de lidar com essa situação de forma mais tolerável. O debate empreendido tem a finalidade de apontar qual a função da psicanálise no manejo com o sujeito obsessivo, identificando que a psicanálise pretende fazer o indivíduo falar sobre suas demandas, a fim de que este possa ressignificar o afeto mal elaborado.

FREUD, S. (1909/1996). Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 10. Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 11-154.

FREUD, S.(1894/1996) As neuropsicoses de defesa: tentativa de uma formulação de uma teoriada histeria adquirida, de muitas fobias e obsessões de certas psicoses alucinatórias. In:____________. Edição standard das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. VII. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1996.

GOMES, A.A et al. Algumas questões relativas à neurose obsessiva. Disponível em:http://www.unilestemg.br/kaleidoscopio/artigos/volume1/Algumas%20questoes%20relativas%20a%20neurose%20obsessiva%20(FINOTTI_GOMES_MIRANDA_PEDROSA_SOUZA).pdf. Acesso em 14 de Dezembro de 2013.

SUAREZ, E.S. O homem dos ratos. Opção Lacaniana online nova série. Ano 2. Nº 5. Julho 2011.

O Sono

0a14e52ab972312b178226972687a688O presente trabalho pretende de uma forma resumida, contribuir com conhecimento atualizado sobre o sono: suas fases, características, tipos e ainda apresentar uma breve análise comparativa entre as visões da Psicanálise e da Neurociência sobre o assunto, com o objetivo de identificar possíveis pontos de contato e de divergência entre elas.

Palavras-Chave: Sono, Neurociência, Sonho, Psicanálise

Introdução

Este estudo é importante por abordar o sono, pois o ser humano passa cerca de um terço de sua vida dormindo e esta é a maior prova de que o sono é realmente importante em nossas existências. Uma boa noite de sono pode implicar em uma vida mais saudável e alguns anos vividos a mais. O desempenho das funções do nosso cérebro e do nosso corpo este diretamente ligado ao descanso obtido durante a noite. Uma noite mal dormida pode nos causar danos como falta de coordenação motora e a lentidão no raciocínio. Sabemos que a nossa saúde depende de diversos fatores, mas o sono é primordial, pois não é apenas uma necessidade de descanso mental e físico. É durante o sono que ocorrem vários processos metabólicos e se alterados, podem afetar o equilíbrio de todo o organismo.

Há alguns anos atrás o sono era visto como um período de descanso, cuja única característica era a inconsciência. Nos últimos anos, aprendeu-se bastante sobre o sono, e graças ao desenvolvimento tecnológico e as novas invenções, como por exemplo, o eletroencefalograma, foi possível estudar as ondas cerebrais e demonstrar que o sono não é uma um período inativo de descanso, mas um período de altas atividades. Apesar das inúmeras descobertas a respeito do assunto ainda são necessárias muitas pesquisas, pois esse assunto carece ainda de muitas respostas a muitas indagações, principalmente sobre alguns estágios do sono.

Estudos provam que quem dorme menos do que o necessário tem menor vigor físico, envelhece mais precocemente, está mais propenso a infecções, à obesidade, à hipertensão e ao diabetes.
O presente artigo tem como objetivo descrever a fisiologia do sono, bem como as suas fases e suas características, conhecer as ondas cerebrais para análise dos mecanismos envolvidos no sono, a regulação do ciclo sono vigília, bem como analisar as contribuições da Neurociência e da Psicanálise com relação ao tema.

1.  O Sono

1.1 Fisiologia do Sono

A partir da década de cinqüenta o sono era considerado um processo de desligamento do sistema nervoso central. Na verdade, o Sono é um processo biológico coma finalidade de reparação e manutenção do equilíbrio psicossocial do ser humano e, hoje se sabe que o sono normal está estruturado fases e estágios (PRIMO, s.d.).

De acordo com Bezerra (2003), o sono normal segue uma estrutura que compreende fases e estágios padronizados, e podem ser interrompidos de várias maneiras e por várias causas. As fases do sono diferem entre si em todo seu ciclo e são  divididas em dois estados fisiológicos bem distintos, denominados fase de sono REM (Movimentos Oculares Rápidos) e de sono NREM (Sem Movimentos Oculares Rápidos). O sono leva a uma imobilidade relativa, diminuição das atividades cerebral em diferentes pontos do sono, em determinados estágios. A fase REM possui apenas um estágio e a fase NREM apresenta quatro estágios, onde o sono se inicia através dos estágios do sono NREM. O sono está bem organizado e estruturado em ciclos e o NREM corresponde por 75% do sono total e 25% no estado REM. O sono REM e o sono NREM se alternam durante a noite.

Segundo Konkiewitz (2010) o sono não-REM esta relacionado com o repouso, sendo  excepcionalmente relaxante e está relacionado à diminuição do tônus vascular periférico e de funções vegetativas. Ocorrerá uma redução da pressão arterial  entre 10 a 30% e o ritmo respiratório e o metabolismo também diminuirá. O tônus muscular, a temperatura e o consumo de energia do corpo estão diminuídos o e o movimento corporal é mínimo. Ocorre movimento no corpo durante o sono não-REM.  O ritmo cardíaco, a respiração e os processos renais  ficam diminuídas, enquanto os processos digestivos aumentam.

No sono NREM, as pessoas normalmente não se recordam de nada ou quando se recordam, essas lembranças são muito vagas. Isto não quer dizer que não tenham sonhado o que ocorreu é que não houve consolidação de sonhos na memória durante o sono não-REM. Quando são lembrados, os relatos desses sonhos tendem a ser mais curtos, menos nítidos, com menor conteúdo emocional e mais coerentes que os ocorridos durante o sono REM.

Ainda em Konkiewitz (2010) o sono REM no EEG parece quase indistinguível daquele de um encéfalo ativo, em vigília, com oscilações rápidas e de baixa voltagem, muito mais parecido com o do estado acordado que com o de dormindo. O consumo de oxigênio pelo encéfalo é mais elevado no sono REM do que quando estamos acordados e concentrados. Há uma perda quase total do tônus muscular esquelético e o corpo está realmente incapaz de movimentação. As freqüências cardíacas e respiratórias aumentam, mas tornam-se irregulares. Os músculos que controlam o movimento dos olhos e os pequenos músculos do ouvido interno estão nitidamente ativos. Com as pálpebras fechadas, os olhos ocasionalmente movem-se com rapidez de um lado para o outro.

1.2 Ondas Cerebrais e os Estágios do Sono REM e do Sono NREM

Conforme citado no Wikipédia s.d., são quatro os tipos de ondas cerebrais detectadas no EEG, denominadas beta, alfa, teta e delta. As ondas beta são as mais rápidas, maiores que 14Hz e sinalizam um córtex em vigília. As ondas alfa situam-se próximo a 8 e 13Hz e estão presentes em estados de vigília, em repouso e sonolência. As ondas teta estão entre de 4 a 7Hz e ocorrem durante alguns estados de sono. Já as delta, muito lentas e menores que 4Hz, indicam um sono profundo.

Segundo Primo, s.d., o sono na fase REM constitui cerca de 20 a 25% do tempo total do sono, caracterizando um sono curto, onde o padrão de ondas do EEG é similar ao estado de vigília, porém a pessoa está totalmente adormecida. O sono REM é responsável pelo reparo cerebral, especialmente processos sintéticos cerebrais, e relacionados com a recuperação psicológica.

De acordo com Konkiewitz  (2010), os 4 estágios não-REM do sono são divididos de acordo com a atividade elétrica cerebral em cada momento do sono, captada no Eletroencefalograma (EEG). O registro do EEG é um conjunto de muitos traçados irregulares simultâneos, que indica alterações de voltagem nas correntes que fluem durante a excitação dos neurônios do córtex cerebral. A classificação dos quatro estágios NREM do sono segundo Primo, s.d. é a seguinte:

Estágio 1: é a transição do estado de vigília para o sono. O ritmo beta do estado de vigília vai se modificando (ondas de 15 a 30 hertz, por segundo), o tônus muscular diminui e as ondas cerebrais agora variam em torno de 7 a 11 hertz, é o ritmo, alfa. Observado logo após a vigília, dura poucos minutos e corresponde a 5% do sono.

Estágio 2: constitui a maior parte do sono (cerca de 50% do sono). O sono é leve, onde as ondas são mais lentas e irregulares do que no estágio 1 (ondas de 1 a 5 hertz de amplitude) Nesse estágio predomina o ritmo alfa.

Estágios 3 e 4- (sono profundo) totalizam de 10 a 20% do período total do sono e se caracteriza por ondas lentas e longas (1 a 2Hz), são ondas delta de alta amplitude. Os estágios 3 e 4 estão ligados ao crescimento e reparo dos tecidos e parecem estar relacionados com a recuperação física. Nesse período é difícil acordar uma pessoa.

 1.3 Ciclo Sono e Vigília

Na medida em que o indivíduo vai passando de um estágio a outro o sono vai se aprofundando. No estágio 4, que é atingido em média 50 minutos após a pessoa adormecer, o indivíduo está totalmente relaxado e se encontra bastante insensível aos estímulos exteriores. Há alguns minutos no estágio 4, o sono volta os seus estágios iniciando em ordem decrescente, estágio 4, estágio 3, estágio 2 e inicia o primeiro sono REM da noite. Este ciclo de oito estágios tem em média uma hora e meia do inicio do sono. Começando o segundo ciclo, após terminar o sono REM do primeiro ciclo, volta no estágio crescente do sono NREM, estágio 2, estágio 3, estágio 4 e para completar o ciclo em ordem decrescente até o sono REM, formado por sete estágios. (INOCENTE, 2005)

 1.4 Função do Sono:

Mesmo com todas as informações sobre os processos fisiológicos, anatômicos e químicos do Sistema nervoso, não se sabe ainda de forma clara a função do sono. Por isso, surgiram teorias que foram construídas segundo algumas evidências observadas. De acordo com Bezerra (2003), são elas:

1.2.1 Teoria da conservação de energia: O animal com metabolismo maior dorme mais horas do que o animal com metabolismo menor.

1.2.2 Teoria da termorregulação: Observaram a redução na temperatura corporal de ratos que foram privados por duas semanas de sono, concluindo-se então que o sono é retentor de  calor do corpóreo.

1.2.3 Teoria do metabolismo anabólico: Propõem que durante o sono, ocorre a liberação dos hormônios envolvidos com o catabolismo (cortisol) e na diminuição da produção dos hormônios envolvidos com o anabolismo (GH).

1.2.4 Teoria da restauração tecidual: diz essa teoria que no sono REM ocorre um aumento da síntese de proteína no tecido cerebral e no sono não-REM ocorre aumento da síntese de proteína no tecido corporal.

1.2.5 Teoria da consolidação da memória e do aprendizado: Esta teoria refere-se apenas ao sono REM, em que os hormônios e determinadas substâncias químicas (neurotransmissores) facilitariam o processo e a modulação da memória. Sono REM está relacionado com o reforço e consolidação da memória e neste sentido são os estudos que detectaram aumento da atividade em áreas do cérebro que lidam com a memória e as emoções para as outras fases onde não há capacidade de gravação mnéstica.

2. Os Sonhos Segundo a Psicanálise e a Neurociência

“Enquanto os neurocientistas se dedicam ao estudo das estruturas e funções cerebrais envolvidas na produção do sonho, os psicanalistas se interessam pelo significado deste, considerando os aspectos biológicos irrelevantes para a sua compreensão.” (CHENIAUX, 2006)

De acordo com Cheniaux, s.d., apesar de o estudo dos fenômenos mentais seja algo compartilhado pela psicanálise e pela neurociência, a idéia de uma aproximação entre essas disciplinas não é aceita tanto por muitos psicanalistas como para os neurocientistas. A relação entre essas duas ciências tem sido caracterizada por falta de valorização e de crédito de ambas as partes. Na segunda metade do século XX, a psicanálise e neurociência colocaram-se praticamente em lados opostos, marcando grande rivalidade.

Todavia, psicanálise e neurociência já estiveram muito próximas. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, iniciou sua carreira como neuroanatomista e neurologista e, até o final de sua vida, jamais abandonou a idéia de que os fenômenos mentais possuem um substrato biológico. Em um dos seus últimos trabalhos – Esboço de Psicanálise – ele ainda afirmava que a psicanálise deveria “ocupar seu lugar como uma ciência natural como qualquer outra”. (CHENIAUX, s.d.)

Segundo Soussumi (2001), a grande maioria dos neurocientistas, o trabalho do sonho fica restrito a visão neurobiológica, neurofisiológica do sono REM. Para os neurocientistas de base psicanalítica, há uma nítida distinção entre a gênese dos fenômenos do sonho e do sono, permitindo a compreensão do significado das localizações e dinamismos com as funções do sonho, dos conteúdos e elementos constituintes como concebeu Freud.
“O que a neurociência pode proporcionar à psicanálise é a validação objetiva das teorias desta, por meio do emprego do método experimental de investigação, que se caracteriza por um maior rigor científico.” (CHENIAUX, s.d.)

2.1 O Sonho e a Neurociência

Primo (s.d.) afirma que somente na década dos 50, com a descoberta dos movimentos rápidos dos olhos, o sono REM passou a ser um indicativo de que o indivíduo estava sonhando, então, novas pesquisas sobre os sonhos emergiram. Para a neurociência, o sonho é resultado da ativação de certas estruturas cerebrais, como o tronco cerebral.

Estudiosos teorizaram que os sonhos consistem de associações e memórias eliciadas da parte frontal do cérebro, em resposta a sinais randômicos do tronco encefálico. Estes autores sugeriram que os sonhos são o melhor “ajuste” que o cérebro frontal poderia fornecer a este bombardeamento randômico do tronco cerebral. Nesta proposição, os neurônios da ponte, via tálamo, ativariam várias áreas do córtex cerebral eliciando imagens bem conhecidas ou mesmo emoções, e o córtex então, tentaria sintetizar as imagens disparadas. (CARDOSO, s.d.)

De acordo com Cardoso (s.d.) a função dos sonhos ainda permanece bastante desconhecida e ainda descreve alguns tipos de sonhos:

a) Sonhos bizarros: Esta teoria diz que falhas no momento do sono REM, podem causar fantasias, alucinação e obsessão. Eles também acreditam que o cérebro necessita eliminar informações processadas durante o estado de vigília, e os sonhos seriam um modo de livrar o cérebro destas informações para a realização de ajustes.

b) Sonhos Emocionais: Sonhos emocionais podem ser a manifestação da personalidade do sonhador, bem como a sua situação no estado de vigília. Eles podem ser a expressão de desejos, preocupações, ciúmes, idéias grandiosas, insegurança, amor, medos entre outros.

c) Sonhos Com Atos Anti-Sociais e Com Pessoas Mortas: No estado de vigília, o córtex analisa com precisão os impulsos que chegam dos vários órgãos receptores do sistema sensorial, chegando a uma decisão e gerando uma resposta integrada. Nesse caso, a integração da resposta cortical é incompleta e o sonhador é muitas vezes levado a cometer imaginariamente atos anti-sociais.

Segundo Cheniaux (2006), sabe-se que, embora os sonhos sejam muito mais comuns durante o sono REM, eles podem ocorrer também durante o sono profundo. Calcula-se que  de 5 a 30% dos períodos de sono REM acontecem sem nenhum sonho. Os sonhos da fase da fase REM são mais vívidos e mais bizarros, apresentando uma maior atuação de quem sonha. Os sonhos do sono NREM são compostos por fragmentos da realidade não organizados e não narráveis, raramente são lembrados e apresentam uma participação mais passiva do sonhador

2.2 O Sonho e a Psicanálise

Antes de Freud, os sonhos eram considerados apenas símbolos, analisados como se fossem premonições ou manifestações divinas. De acordo com Primo, s.d., em 1900, Sigmund Freud em seu livro “A interpretação dos Sonhos”, defendia a idéia de que os sonhos eram um reflexo da experiência inconsciente e era um guardião do sono. Segundo a psicanálise a função principal do sonho é guardar o sono do sonhador, ao permitir a realização dos desejos inconscientes, criando condições psíquicas para que o indivíduo continue dormindo, a fim de que seu sono não seja perturbado.

Freud demonstrou a existência do inconsciente, fazendo a análise de sonhos, acreditando que estes eram instrumentos reveladores da personalidade humana. “O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente”, escreveu Freud em sua obra-prima A Interpretação dos Sonhos.

Para Freud, o sonho constitui “uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)”. Possui um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, e ainda um conteúdo latente, considerado inconsciente. Este é composto por 3 elementos: as impressões sensoriais noturnas (por exemplo, a sensação de sede durante o sono), os restos diurnos (registros dos acontecimentos da véspera) e as pulsões do id (relacionadas a fantasias de natureza sexual ou agressiva)  (CHENIAUX, 2006).

Conclusão

O sono não é um estado que ocorre passivamente, mas sim, um estado que é ativamente gerado por regiões específicas do cérebro. Todas as funções do cérebro e do organismo em geral estão influenciadas pela alternância da vigília com o sono, além disso, o sono funciona como um fixador de memória. Durante o sono, o cérebro classifica e armazena memórias e o corpo se recupera dos desgastes do dia.

Uma aproximação entre a Neurociência e a Psicanálise sobre o sonho e o sono não implicará em uma substituição desta por aquela. O diálogo entre a Psicanálise e Neurociência, apesar da recusa de alguns estudiosos, vem se desenvolvendo de modo bastante fértil.

BEZERRA, M.L.S. et al. Transtornos do Sono: Uma Revisão da Sua Dimensão, 2003. Disponível em: < http://www.praticahospitalar.com.br/pratica%2029/paginas/materia%2023-29.html>. Acesso em: 09 de junho de 2011.

CARDOSO, H. Silvia. Entendendo os Sonhos. Disponível em: http://www.cerebromente.org.br/n02/mente/sonhos1.htm . Acesso em: 17 de junho de 2011.

CHENIAUX, Elie. Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul, Porto Alegre, v. 28,  n. 2, 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81082006000200009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 17 de Junho de   2011.

CHENIAUX, Elie, CARVALHO, Luis Alfredo Vidal. Psicanálise e neurociência: um diálogo possível? Disponível em: http://www.academialetrasbrasil.org.br/neuroensaios.htm#. Acesso em: 18 de junho de 2011.

INOCENTE, Nancy Julieta (Orient.), et al. Sono um fenômeno fisiológico. Universidade do Vale do Paraíba. São José dos Campos, 2005. Disponível em: http://biblioteca.univap.br/dados/INIC/cd/inic/IC4%20anais/IC4-15OK.pdf. Acesso em: 9 de junho de 2011.

KONKIEWITZ, E. C.[organizadora]. Tópicos de neurociência clínica. Dourados, MS Editora da UFGD, 2010.

PRIMO, P.C. Sono e sonhos, s.d. Disponível em:  http://www.edumed.org.br/cursos/neurociencia/01/Monografias/Sono-Sonhos-pedro.doc. Acessado em: 09 de junho de 2011.

SOUSSUMI, Yusaku. Sonhos: uma visão neuro-psicanalítica. Rev. bras. psicanál;35(3):665-685, 2001.

WIKIPEDIA. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sono>. Acesso em: 10 de junho de 2011.

Fantasia e Gozo na Obra O Pequeno Príncipe

pequeno_principe_1Este artigo propõe um diálogo entre a Literatura e a Psicanálise, através da história de um menino que sente a necessidade de fugir do seu planeta e desbravar pelo desconhecido em busca de respostas. Trata-se da conhecida história do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry. Temos, então, um príncipe que sente a responsabilidade de cuidar e proteger sua rosa, único ser que lhe faz companhia e que, ao mesmo tempo, demanda-lhe um amor quase insuportável. A busca do garoto é alucinante, ele percebe que há um vazio e vai ao encontro daquilo que supostamente possa preencher essa hiância, mesmo que não compreenda exatamente o que é.

Palavras-chave: Fantasia, Gozo, Literatura, Psicanálise.

1. Introdução

A literatura trouxe-nos um belo exemplo da perfeita associação entre o desenho e a linguagem verbal através do livro O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry (2003). Uma obra que se coloca acessível à compreensão de qualquer leitor, de todas as faixas etárias, e que permite entrar para o campo da linguagem metafórica evocando diversas interpretações.  Procurando atravessar o desejo de desbravar a Psicanálise através da Literatura e da obra em questão, busco sustentar esse trabalho com as teorias psicanalíticas de Freud e Lacan, dialogando com teóricos contemporâneos.

Saint Exupéry (2003) nos apresenta a relação do personagem principal, um menino, com o mundo que é mediado pela palavra, em diálogos constantes, pelo afeto e pelo desenho, o que permite a esse personagem encontrar as diferenças entre uma realidade e outra. Percebe-se na trama da obra uma transferência de afetos entre o garotinho e quem ele vai encontrando pelo caminho, assim como a escuta do sofrimento psíquico deste e dos questionamentos que ele faz principalmente ao narrador. Os desenhos apresentam-se expressivos e revelam o simbólico e as associações feitas pelo menino ao desbravar o mundo.

Em uma primeira reflexão, o artigo irá se debruçar sobre a busca do Príncipe pelo objeto a, ou seja, o reencontro do menino com o objeto perdido, algo impossível de ser atingido. Sua busca é quase alucinante, ele possui um desejo de satisfação e preenchimento de um vazio que o consome, mesmo que não compreenda exatamente o que é.

2. O Príncipe: Fantasia e Gozo

Articulando a questão do vazio com o conceito de falta em Psicanálise, Lacan, durante seu ensino, enfatiza a dimensão da falta de objeto, trabalha o fato de que o objeto em jogo para o sujeito não é harmonioso, ou seja, “não é o objeto genital e sim um objeto apreendido na busca pelo objeto perdido” (LACAN, 1956-57/1995, p. 13). Retomando Freud, Lacan se refere ao objeto da pulsão, que este é variável e por isso, não está fadado a satisfazê-la, apontando sempre em direção à falta. Ainda nesse mesmo seminário, Lacan destaca o lugar central da falta, no que concerne ao objeto na psicanálise e que este é apreendido pela via da busca doobjeto a, uma busca frustrada por excelência. Nas palavras de Lacan:

[…] no centro da relação sujeito-objeto, uma tensão fundamental que faz com que o que é procurado não seja procurado da mesma forma que o que será encontrado. É através da busca de uma satisfação passada e ultrapassada que o novo objeto é procurado, e que é encontrado e apreendido noutra parte que não noutro ponto a que se procura (LACAN, 1956-57/1995, p. 13).

Esse objeto perdido que na teoria lacaniana é denominado de objeto a, configura-se como produto da entrada na linguagem, da divisão que permite com que o sujeito advenha. Para Lacan (1962-63/1995), o sujeito advém da introdução primária de um significante e formula uma imagem de si, enquanto eu, a partir do outro, a imagem de um corpo próprio.

O objeto a faz referência à falta, não sendo especular nem apreensível na imagem. A falta, segundo Lacan, não existe no real e só seria apreensível através do simbólico. E é também através do simbólico e do imaginário que há a tentativa de preenchê-la. Lacan enfatiza, ainda, a irredutibilidade dessa falta que é radical na própria constituição do sujeito. É a partir desse posicionamento que o objeto a assume sua função de causa de desejo. Na medida em que ele é sobra, Lacan o reconhece estruturalmente como objeto perdido. O objeto a “é o que lidamos no desejo e por outro lado na angústia” (LACAN, 1962-63/1995, p. 179).

Na história literária em questão, o menino sai de seu planeta para desbravar o mundo, por estar cansado de se dedicar a uma flor que só o repreende para satisfazer suas vaidades. Ele duvida do amor de sua Rosa e se dá conta da rotina de sua vida, deixando-o insatisfeito consigo mesmo, gerando nele uma angústia incontrolável, passível de uma fuga para superá-la. O Príncipe faz os preparativos da viagem, enfrenta as acusações de abandono de sua amada Rosa e ela se despede dizendo: “- Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Então vai!” (EXUPERY, 2003, p. 36). E ele aproveita uma migração de pássaros selvagens para fugir.

A questão do fugir remete a algo que diz do desejo desse menino por um lugar. O desejo se configura a partir da falta e essa falta se presentifica a partir da perda de gozo. Segundo Jorge (2010), “O gozo no sentido lacaniano é algo perdido para sempre, é a perda que se inscreve na medida em que houve a entrada no mundo simbólico” (p. 83). No entanto, na medida em que o menino toma para si o saber ou o conhecimento, esse desejo, momentaneamente satisfeito, reaparece, pois inconscientemente estará sempre no âmbito do impossível, do desconhecido. Esse autor propõe uma definição de desejo: “o desejo é uma perda de amor e uma perda de gozo, ou seja, a dimensão da falta que fala Lacan ao tratar do desejo se traduz aqui numa falta de amor e numa falta de gozo” (p. 86).

Assim, o desejo é a expressão de um anseio de retorno à origem que, acaso recuperada, exigiria a dissolução do próprio sujeito. Segundo Lacan, é justamente essa impossibilidade de recuperação das origens que traz ao sujeito um limite para a satisfação. É por isso que o desejo é tido como um querer-ser ou uma falta-a-ser (LACAN, 1962-63/1995, p. 33), perpetuamente frustrada por causa de sua sujeição à Lei do Significante.

A fantasia fundamental, como é concebida por Lacan, perpassa os personagens menino e narrador na obra literária. Segundo Jorge:

O que instaura o lugar onde o sujeito pode se fixar  como desejo, pode ser considerado uma espécie de prisão domiciliar do sujeito: nela ele se encontra confortavelmente instalado e rodeado pelos objetos  investidos por sua libido e pelos objetos que lhe são  familiares […] (JORGE, 2010, p. 79).

Nesse sentido, podemos propor que a relação entre os dois personagens encontra-se no polo do amor e da fantasia. O menino busca constantemente por respostas que dêem sentido à sua existência como sujeito. Fantasia, esta, que negada pela realidade continua sendo requisitada pelas pulsões.

A fantasia é uma saída que, por si só, concilia duas exigências é altamente imperiosa: a pulsional, que exige a satisfação a qualquer custo, e a renúncia exigida pela realidade, que coloca obstáculos continuamente para a obtenção dessa mesma satisfação pulsional (JORGE, 2010, p. 60).

Já a necessidade, como destaca Ribeiro (1999), é um dado biológico e exige um objeto único para satisfazê-la, tomado em sua plena realidade. Portanto, a necessidade, atravessada pela linguagem, transforma-se em demanda. Segundo Jorge (2010), “o desejo não possui objeto, mas a fantasia é o suporte do desejo na medida em que ela o fixa numa certa relação estável com determinado objeto” (p. 78).

A história do Pequeno Príncipe proporciona ao leitor uma reflexão sobre o quanto o ser humano é responsável por aquilo que conquista ou cativa. O cativar implica uma grande responsabilidade entre os sujeitos.  Além do que, a identificação com o outro faz com que o sujeito se interrogue, “não sobre seu lugar, mas sua identidade; tem que se situar, não no interior de um recipiente limitado que seria seu corpo, mas no real total e bruto com o qual ele tem de lidar” (LACAN, 1960-61/2010, p. 101). Essa relação com o outro lhe permite buscar algo que este outro tem para lhe dar e que vai supostamente suprir a falta.

Exupéry conquistou leitores de diversas gerações com a máxima: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” (EXUPÉRY, 2003, p. 74), na passagem da obra em que o Principezinho recebe conselhos da Raposa em não abandonar a Rosa que ele possuía lá no planeta de onde veio. A Rosa era para ele única no mundo e ele sentia-se responsável por ela; no entanto, a necessidade de partir o fez deixá-la sozinha por conta própria, até que ele voltasse. O reconhecimento da importância que a Rosa tinha na sua vida fez o menino valorizá-la ainda mais, e reconhecer-se como alguém amado e necessário. Reconhecer-se como sujeito desejante e constantemente em falta.

O menino demanda seus desejos pela palavra, suas demandas articulam-se pela linguagem. Foi assim que ele entra em contato pela primeira vez com o narrador da história que, por sua vez, também é um personagem, pedindo que o homem lhe que desenhasse um carneiro. Não podia ser um “elefante dentro de uma jiboia” (EXUPÉRY, 2003, p. 14), como havia desenhado o narrador anteriormente, pois o elefante ocupava muito espaço e a jiboia era perigosa. Sendo assim, no lugar onde ele habitava havia espaço somente para o carneiro, e ainda existia um desejo de que o animal vivesse por muito tempo. O Príncipe, na verdade, queria não um carneiro, mas poder imaginar um carneiro!

Todos nós necessitamos imaginar um carneiro quando estamos perdidos e sós. O carneiro pode representar o mistério da vida, a busca por algo que se imagina e ainda não ganhou uma forma, não foi simbolizado. No entanto, algo que pode vir a ser a resposta a um questionamento que fizemos ou que supra nossa falta, tire-nos da angústia. Através da insistência do menino, o narrador cria um meio de não decepcioná-lo e faz várias tentativas para suprir a demanda do garoto misterioso. O homem, impressionado com o mistério do aparecimento de um menino sozinho no meio do deserto, começa a refletir e imaginar a história do Principezinho. “Quando o mistério é impressionante demais, a gente não ousa desobedecer. Por mais absurdo que aquilo me parecesse… tirei do bolso uma folha de papel e uma caneta” (EXUPÉRY, 2003, p. 12).

O Príncipe supõe que a presença de um carneiro, em seu planeta, o deixaria mais tranquilo. Por uma questão de necessidade ele deveria arrancar as mudinhas de baobás que insistiam em crescer, e que se porventura virassem árvores, poderiam sufocar não só o menino e a Rosa, como destruir todo o pequeno planeta em que vivia. As raízes dessa planta infestavam o solo, penetrando no planeta inteiro, atravancando-o. “E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando” (EXUPÉRY, 2003, p. 23). O carneiro simbolizava a resolução de um problema para o menino, tirando de seus pequenos ombros uma imensa responsabilidade de sobrevivência de um planeta inteiro. “É uma questão de disciplina… quando a gente acaba o toalete da manhã, começa a fazer com cuidado a toalete do planeta… É um trabalho sem graça…” (p. 24). O carneiro era a imagem construída como suporte de um desejo do menino.

O homem, narrador, mesmo sem compreender os porquês do desejo do garoto, e sem satisfazer-lhe com os vários carneiros, utiliza, então, a fantasia de que o bicho estaria dentro de uma caixa com buracos para que pudesse respirar, desenha-o, desse modo, e entrega a folha ao Príncipe. Esse ato instiga o menino a buscar outra representação simbólica para o tal carneiro. O homem arrisca-se, perdendo a paciência com os pedidos infantis, e cria uma situação imaginária, projetando o objeto de desejo do garoto em um desenho que o faria imaginar a presença desse objeto.  Sendo assim, podemos supor que a presença do Outro se torna indispensável na constituição do sujeito, o desejo do menino se inscreve numa relação simbólica com o Outro, através do desejo desse Outro. “É esse Outro que inscreve a criança num referencial simbólico, imerso num discurso e na linguagem, dando sentido às suas manifestações” (RIBEIRO, 1999).

A quem o Príncipe poderia, então, endereçar a sua demanda?  O desejo aparece como uma fenda, uma discrepância, um significante ausente e, neste sentido, só aparece como aquilo que não pode verdadeiramente aparecer. Isto porque o desejo nunca se materializa ou se concretiza na linguagem, mas é apenas indicado através de seus interstícios, ou seja, através daquilo que a linguagem não pode representar em termos absolutos.

Ao atravessar a fantasia, o sujeito passa, então, à fantasia que tem uma estrutura inconsciente e permanece em um lugar privilegiado para ele. Segundo Jorge (2010), o sujeito pode entrar e sair desse lugar quando quiser, pois não está mais encerrado em seu interior. A fantasia não está mais presa a movimentos limitados do sujei-   to, ela foi construída como uma fantasia de completude, e é  a partir daí que o sujeito vai em busca da realização de seus desejos inconscientes. Esses desejos, quando acionados, na fantasia, em relação ao objeto, faz com que o sujeito se ligue a esse objeto através das palavras e das imagens.

Na medida em que o desejo busca implicitamente a recuperação impossível do gozo, através de um Outro que não é o seu objeto originário, o processo desejante transforma-se numa série de desconhecimentos necessários que nunca são completamente resolvidos. Como é o recalque que funda o desejo, a decepção parece ser sua única contrapartida necessária. Com isso, a apreensão do desejo como desejo do Outro só é possível através da escuta do que não é dito, do que é denegado, omitido ou deslocado. Para Lacan (1956-1957), “o sujeito encontra uma falta na própria intimação que o Outro lhe faz através de seu discurso” (p. 223).

Segundo a teoria freudiana, as forças mentais relativas ao princípio do prazer manifestam-se no inconsciente e operam através dele. O consciente é regido pelo princípio da realidade. O homem, então, é afastado de seus anseios e acaba vivendo em contato não com o objeto que deseja e busca, mas com um mero reflexo, incapaz de causar satisfação. A criança une esses dois mundos através da brincadeira e cria um mundo só seu, onde vai enfrentar os desafios e tentar suprir as necessidades deste mundo imaginário, projetando-as para o seu dia a dia.

Ao passar o tempo, o princípio de realidade acaba se impondo e o adulto perde por completo o contato com a fantasia. Um exemplo marcante disso está no início da história, quando o narrador conta sua própria trajetória e os motivos que o levaram a se retrair. Ele, aos seis anos, desenha o elefante dentro da jiboia, o mesmo desenho que faz ao Príncipe, e questiona os adultos quanto ao que eles vêem. Para sua decepção, os adultos não compreendem a imagem, sempre necessitam de explicações. Inclusive, as pessoas grandes, como são referidos os adultos no livro, incentivam-no a deixar os desenhos de lado, não dando importância ao que eles representavam para o, então, menino.

O narrador, quando criança, fora desestimulado, desencorajado, reprimido; como se a expressão através da arte, do desenho, não fosse algo sério. O medo de que os adultos, talvez os pais, deixassem de amá-lo por dar vazão a sua criatividade, fez com que o narrador se dedicasse, segundo seu próprio relato, às coisas mais importantes, como à geografia, à história, à matemática, à gramática, e abandonasse o direito à criatividade e à inteligência. Tornar-se adulto transformou-se em um efeito de mutilação, de enrijecimento. Ele escolheu outra profissão que não a de artista e aprendeu a pilotar aviões.

O desejo de ser um desenhista e sua arte ser apreciada revela-se na oportunidade dele desenhar para o Príncipe o que este lhe pedia. Através do garotinho e sua aparição, volta à tona a vontade reprimida do narrador em dar vazão à sua criatividade.

A visão do próprio narrador, um adulto, sobre os adultos é totalmente estarrecedora e castradora. Os adultos não dão vazão às fantasias, “as pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, as pessoas grandes jamais se interessam em saber como ele realmente é” (EXUPÉRY, 2003, p. 19). O homem demonstra-se frustrado com seus semelhantes, adultos, e compreende que para o real significado da vida, os números são insignificantes. Usar a imaginação e a fantasia seria muito mais interessante, como por exemplo, se ele tivesse começado a narrar a história com um era uma vez; no entanto, ele correria o risco de que o seu livro fosse lido superficialmente. “As pessoas grandes são assim”, diz o narrador.

A fantasia desvelada na obra pelo menino e pelo narrador traz o desejo de completude, e a operação de castração produz a perda e a necessidade de resgatar essa completude pelo viés do amor. Se o desejo exprime a falta, então é a fantasia que inventa e imagina, fantasia o que falta.

A obra aborda questões importantes sobre o pensamento adulto e o infantil, bem como as dificuldades em se conciliar esses dois mundos. No entanto, a forma como Exupéry escreve o romance, configura-se quase como uma mensagem à humanidade e a cada um de nós.

Segundo Willemart (1995), para Freud a escrita continua sendo uma forma de expressão do artista, no sentido de que ela provém de seu psiquismo. Através da escrita, ou qualquer outra forma de arte, o artista exprime-o e explica-o. Ou seja, a obra de arte é a forma como o artista articula o Imaginário com o Simbólico, dando sentido a sua criação e projetando-a para fora dele. O resultado disso é uma obra com sentido plural, que oferece mil interpretações ao leitor, como um cristal que possui diversas facetas brilhantes.

O desejo do artista e seus fantasmas são absorvidos pela escritura, atravessando o nível da linguagem para o nível da poética. “A escritura representa os fantasmas dos contemporâneos e, se a obra continua sendo lida, da humanidade em geral” (WILLEMART, 1995, p. 85). A forma como o leitor se apropria do romance, da trama, da história é como se ele fosse capturado em armadilhas postas pelo seu inconsciente para liberar o verdadeiro gozo.

“A arte e particularmente a literatura e o cinema levam o esteta, o espectador e o leitor a um mundo tão verdadeiro quanto o mundo real, capaz de barrar o trágico da existência” (WILLEMART, 1995, p. 87). No entanto, na superfície do que é lido, o leitor não tem como saber se o enunciado é uma coisa verdadeira ou representativa daquele indivíduo e autor, porque quando colocado no papel, linguagem vira ficção, e o que importa mesmo é a mensagem.

O mundo da ficção não se contenta em divertir nem em levantar um véu cobrindo o trágico da morte, mas tem a capacidade de trabalhar nosso Simbólico e de influenciar nosso Real. Em outras palavras, atrelado a um outro mundo que trabalha os três Registros, o RSI do leitor, isto é, o nó constituído pelo Real, o Simbólico e o Imaginário do inconsciente do leitor transforma-se em algumas condições  (WILLEMART, 1995, p. 87).

Voltando à obra literária e ao personagem Pequeno Príncipe, é particularmente interessante a relação do menino com a sua Rosa; a dependência emocional ali presente; o gozo da Rosa no sofrimento do menino em ter que deixá-la para desbravar o mundo; o processo de individualização em que a Rosa se submete, pois há milhões de outras flores por aí, no entanto, ela é única para o garoto; a amizade como valor fundante e a demanda de amor do garoto para com ela; a relação com o Outro, sendo que ela só é única se for para alguém (menino); o afeto presente entre os dois personagens.

Julien (2000) discorre sobre as respostas aos desejos do Outro, o que dialoga com a busca constante do principezinho na obra O Pequeno Príncipe. O menino se reconhece ou não no desejo advindo do Outro, e angustia-se ao deparar-se com a falta de resposta frente a esse desejo. Tanto a Rosa como a Raposa demandam ao menino certo laço de parentalidade, colocando-se na figura materna.  E, então, surge a pergunta frente a esse materno: O que quer ela, então, de mim? O abandono e o sentimento de dívida do menino, para com essas duas personagens retratam bem essas questões. Há uma estranheza surpreendente. Segundo Julien (2000), “pode o gozo que o outro tem de mim, não implicar meu bem e minha felicidade, mas meu mal e minha infelicidade. Horror do gozo do outro: não te reconheço; não te compreendo mais!” (p. 42-43). Essa estranheza habita o menino e traz à tona o sentimento de se tornar um traidor, infiel à lei do amor.

Amar implica, portanto, na suposição de se tocar a verdade e vai depender do modo como um sujeito foi submetido à castração, como ele foi submetido à Lei e à renúncia ao incesto. Para amar, o sujeito denota ser um impossibilitado em alcançar o verdadeiro desejo inconsciente e primordial.

Importante é destacar que amar é diferente de desejar e de gozar; no entanto, isto não significa que não haja articulações entre o amor, o desejo e o gozo, como destacou Lacan no decorrer de seus estudos.

O gozo acontece no corpo do sujeito, e esse, ao ser inscrito na linguagem, no simbólico, faz com que o gozo seja sempre partido, pois o gozo se separa do corpo. E ao desejar sempre o que lhe falta, o sujeito sofre por amor e retira o gozo deste sofrer de amor.

Da extração de um gozo pela dor de amor, o sujeito se petrifica, cedendo ao gozo e estancando o movimento do desejo, que não é outro, senão que está girando em torno do que ainda falta, do que sempre irá faltar. É nesse sentido que se pode falar de antinomia entre desejo e gozo. Entre eles, novamente o amor. Ama-se para se desejar, ama-se para gozar do sofrimento de amor (FERREIRA, 2008, p. 5).

A Rosa exige do menino uma fidelidade e um cuidado que vai além da responsabilidade dele como sujeito. Ele sofre, angustia-se, pois precisa demonstrar amor e, de certa forma, satisfazer as demandas da flor. O gozo da Rosa é perceptível no decorrer da trama, ela chantageia emocionalmente, vitimiza-se, mente, inventa histórias e perigos iminentes para dissuadir o garoto da viagem certa.  “Encabulada por ter sido surpreendida com uma mentira tão tola, tossiu duas ou três vezes e, para fazê-lo sentir-se culpado pediu: – E o para vento? – Então ela forçou a tosse para causar-lhe remorso” (EXUPÉRY, 2003, p. 33).

A flor, com atitudes como essas, faz com que o Principezinho duvide da sinceridade e até mesmo do amor dela por ele. A importância que ele dava a todas as palavras de sua companheira fez com que ele se sentisse mal quando descobriu que, sim, mesmo ela amando-o, poderia enganá-lo para satisfazer algo que pertencia somente a ela, uma demanda de amor ligada a uma dependência. Dependência da presença física do menino junto a si, da companhia, da admiração e adoração constante dele por ela. Ela exalava perfume e agradava o Principezinho, fazendo-o sentir-se bem. Ele conseguia perceber ternura, apesar das palavras e das tolas mentiras da flor, e quando se lembrava dela, sentia-se ingrato e triste, angustiado por tê-la abandonado. “Não podia jamais tê-la abandonado. Deveria ter percebido sua ternura por trás daquelas tolas mentiras. As flores são contraditórias! Mas eu era jovem demais para saber amá-la” (EXUPÉRY, 2003, p. 33).

A Rosa representava para o menino a segurança emocional e o suprimento de sua demanda de amor, como fornecido pelas nossas mães. Ela o amava, e mesmo que tentasse segurá-lo no planeta para que ele não se aventurasse sozinho pela vida afora, sabia que deveria deixá-lo ir. E antes dele partir, declarou seu imenso amor: “É claro que te amo – disse-lhe a flor. – Foi minha culpa não perceberes isto. Mas não tem importância. Foste tão tolo quanto eu; tenta ser feliz… Larga esta redoma, não preciso mais dela” (EXUPÉRY, 2003, p. 36).

O amor dele por ela estava simbolizado, paradoxalmente, naquele instante, pela redoma de vidro que havia tentado colocar sobre a Rosa para protegê-la dos perigos. Encontramos um filho submetido ao papel de proteger a mãe e mesmo assim ele a abandona e sente culpa. “Como sair da alternância entre a culpa do outro e a sua própria? Como ir além da dívida a ser cobrada, seja ao outro seja a si mesmo? A lei do dever deixa-nos sem resposta” (JULIEN, 2000, p. 43).

Nós somos tudo de bom e de mau que passamos desde os nossos primeiros dias de vida; somos reflexos daquilo que recebemos do mundo exterior e do que sentimos no nosso mundo interno. Todas nossas experiências, felizes ou infelizes, as relações pessoais que estabelecemos ao longo da vida, nossos pensamentos, ou seja, tudo o que vivemos constrói nossa personalidade.

O encontro do Príncipe com outras rosas, uma infinidade delas, a princípio o deixou confuso e triste. Achava que sua Rosa era única no mundo. No entanto, ele percebeu que o amor por ela era incrivelmente grande e que, não importaria onde estivesse, sua Rosa seria sempre frágil e efêmera, ou seja, poderia desaparecer para sempre e esse pensamento causou-lhe uma grande aflição. Ele sabia que ela estaria lá a esperá-lo depois daquela viagem e nunca havia pensado em perdê-la.

O menino se deu conta que nenhuma outra era igual a Rosa dele, principalmente porque as rosas do campo não haviam sido cativadas, e nem haviam cativado ninguém. “- Sois belas, mas vazias. Não se pode morrer por vós. Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha Rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais que todas vós…” (EXUPÉRY, 2003, p. 72). E ele atribui a esse amor todo o cuidado que teve com a sua Rosa: a redoma que ele queria colocar-lhe antes de partir, todas as vezes que a regou, as larvas que matou, todas as vezes que escutou as queixas dela, ela gabar-se ou mesmo calar-se. Morrer por quem se ama, ou protegê-la da morte, ou então deixar-se morrer para os outros em prol de uma única pessoa, parece ser o que ele quer afirmar quando percebe que foi o tempo que perdeu com a Rosa que a fez tão importante.

A fidelidade do menino pela flor comoveu o narrador da história, a imagem da flor que brilhava no menino deixava-o frágil. Ele sentia solidão, mesmo depois de ter desbravado o mundo, e foi essa solidão que o fez movimentar-se de volta ao planeta. “- Os homens do teu planeta – disse o Pequeno Príncipe – cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim… e não encontram o que procuram. E o Principezinho acrescentou: – Mas os olhos são cegos. É preciso ver com o coração…” (EXUPÉRY, 2003, p. 81).

E a realização do desejo não é, justamente, posse de um objeto” (LACAN, 1960-61/2010, p. 89). Na teoria de Lacan, aquele que ama, vai buscar no amado algo para lhe dar. Trata-se de uma troca, um investimento psíquico. Segundo o autor, desejar é propiciar o nascimento do amor:

O amor é aquilo que se passa nesse objeto em direção ao qual estendemos a mão pelo nosso próprio desejo e que, no momento em que nosso desejo faz eclodir seu incêndio nos deixa aparecer essa resposta, essa outra mão que se estende para nós, bem como seu desejo. Esse desejo se manifesta sempre na medida em que não sabemos (LACAN, 2010, p. 255).

A troca foi estabelecida, a busca por um motivo para amar. E amar nem sempre é fácil.  A lei religiosa: amarás teu próximo como a ti mesmo, apresenta uma exigência tamanha que é difícil cumpri-la.

Primeiro, porque ser sujeito é ter que traçar um percurso singular; é ter de lidar com seu desamparo em um mundo que não é universal e total e sim um lugar em que a cultura transformou-se em “uma estetização do eu, em quem o sujeito vale pelo o que ele parece ser” (BIRMAN, 2000, p. 167), pelo que ele se apresenta na cena social. Na atualidade, por exemplo, o que se vê é a cultura da imagem, e uma predação do corpo do outro. Indivíduos que exaltam a si mesmos, sem se importarem com os afetos, os sentimentos pelo outro. O outro é tomado como objeto de gozo apenas, um instrumento de valorização da autoimagem. Indivíduos que se interessam apenas por si só, e desejam a satisfação custe o que custar. Não se vê a solidariedade como solução às mazelas daqueles que necessitam de maior atenção e condição de suprir suas demandas de amor.

Amar alguém que lhe é desconhecido ou estranho é um dever muito difícil de cumprir, “se eu amar uma pessoa, ela deve merecê-lo de algum modo” (FREUD, 1930/1974, p. 119). Algo nela precisa estar relacionado a nós mesmos, podemos amá-la se ela estiver vinculada ao ideal de nossa própria pessoa, ou seja, é preciso de alguma forma, que o sujeito se reconheça nela. Há algo de muito valioso no amor para que se ame o outro e ele faça por merecer. Necessita-se de sacrifício do próprio sujeito para que se cumpram as exigências da demanda do amor.

Para que se ame outra pessoa é necessário certo conhecimento sobre ela, e que ela exerça uma atração de valores e significação; caso contrário, é difícil amá-la. Quando acontece, por exemplo, dessa pessoa ser indigna de ser amada, ou se ela não tem o mínimo de amor por nós, é quase um absurdo obedecer a tal condição religiosa em amar a qualquer um, a menos que essa pessoa me ame como ame a si mesmo ou eu o ame como me amo. Freud chega a propor uma mudança na lei religiosa: “Amarás o teu próximo como ele te ama” (FREUD, 1930/1976, p. 122).

Todo esse referencial freudiano nos remete ao diálogo entre a raposa e o príncipe, quando ele, na necessidade de fazer amigos, suplica à raposa uma chance de, ao menos, conversar com ela. No que a personagem exige que ele a cative. Há uma demanda muito grande de confiança e amor ali presentes nessa cena, bem como um gozo que chega a ser perverso em provocar o menino e quase não aceitá-lo, suscitando um sentimento imenso de angústia na criança. Como cativá-la? Para isso é necessário um doar-se, uma troca que nem sempre é possível.

A falta e a demanda de amor presentes nas relações entre o menino e os outros personagens escolhidos para a análise a partir da obra literária, remete-nos ao que dizia Lacan (2010) “Será que nunca lhe chamou atenção que num dado momento, naquilo que vocês deram aos que lhes são mais próximos, alguma coisa faltou?” (p. 53). O autor continua refletindo sobre o quanto, ao nos relacionarmos com nossos próximos, deixamos que a fantasia que fazemos em relação a eles seja o que tem de mais importante na busca pela satisfação. “O que falta a um não é o que existe, de escondido, no outro. Aí está o problema do amor. […] Basta amar, para ser presa desta hiância, dessa discórdia” (p. 56).

Na relação do garoto com a Raposa, o animal se vê na condição gozante, ao destituir do menino o papel de amigo; ele só poderá se aproximar da raposa, manter contato e conhecê-la, se esperar e cativar. A Raposa coloca uma condição em troca da amizade, e faz o garoto refletir o quanto é importante criar laços e distribuir afetos. “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos” (EXUPERY, 2003, p. 72). Ela provoca no Príncipe o desejo de buscar algo que faça sentido à sua existência; a procura de uma felicidade, que resulta na demanda de amor que nem sempre é possível de satisfação.

“A lei do dever deixa-nos sem resposta” (JULIEN, 2000, p. 43). A Raposa submete o menino ao questionamento de sua condição como sujeito desejante. Ele quer se relacionar com o animal, ele mesmo se questiona o quanto isso é importante para sua vida e, principalmente, o que ele fará para que aconteça. Percebe-se o animal na condição materna, uma vez que “a mãe simboliza o que lhe falta, o filho pode querer ser para ela a imagem mesma da significação de seu desejo, para dela obter, em troca, sinais de amor” (p. 49).

O que ela, a Raposa, possui para suprir a falta nele presente? Que imagem essa amizade simboliza para ele? O menino precisa buscar na raposa uma identificação e vice-versa, pois é na reciprocidade do amor que a troca pode durar muito tempo e valer a pena.

A Raposa impõe condições para desejar aquela amizade, ela também. O animal necessita de um devotamento, de uma atenção constante do menino, quer lhe conhecer, caso contrário não irá lhe querer bem. “Com efeito, amar é constituir um todo de que o outro e si mesmo fazem parte” (JULIEN, 2000, p. 33).

Por fim, pudemos supor que o Príncipe torna-se um instrumento de gozo da Raposa. Ela desafia-o, para que a partir do desejo do Outro e em si mesmo, tenha acesso a um conhecimento de sua própria hiância, do vazio que carrega dentro de si.

3. Considerações Finais

Ao pretender analisar uma obra literária e fundamentar alguns aspectos relevantes com a teoria psicanalítica, não se imaginava o quão complexo seria. No entanto, havia o desejo de ir além e houve a descoberta de que a Literatura e a Psicanálise podem sim, caminhar de mãos dadas, como já dizia Freud, “provavelmente bebemos na mesma fonte e trabalhamos com o mesmo objeto, embora cada um com seu próprio método” (FREUD, 1907/1974, p. 93). Através da arte pode-se colher um testemunho do inconsciente, não o inconsciente do autor, porque não se analisa o sujeito em questão, mas se tem acesso às manifestações do saber inconsciente. “Freud tentou ver na arte uma espécie de testemunho do inconsciente, o que não significa de modo algum analisar o artista. Toda interpretação é apenas uma conjectura” (JORGE, 2010, p. 39).

Na obra literária, o leitor depara-se com o Príncipe, um menino que devolve a cada um de nós o mistério da infância. De repente retornam os sonhos, reaparecem as lembranças de questionamentos, desvelam-se incoerências acomodadas em cada um de nós, que já são imperceptíveis com a pressa do nosso dia a dia. O que acontece com o menino a partir do momento em que ele vai conhecendo e questionando os personagens pelo caminho é um reencontro dele consigo mesmo. Na imagem do Outro é que ele se enxerga e são os laços construídos que tornam a jornada preciosa e assustadora ao mesmo tempo. Ao criar laços, ele toma tempo para se dedicar àqueles que lhe tornam importantes e se dá conta, que mesmo amando incondicionalmente a sua Rosa, foi necessário fugir, abandoná-la, destituir-se do papel de objeto de prazer e gozo para então, reconhecer-se como sujeito. Sujeito inserido numa sociedade culturalmente diversa e muitas vezes fria e insensível.

Somente aquilo que passou por uma emoção, que evocou um sentimento profundo e provocou cuidado em nós é que nos deixa marcas indeléveis e permanece definitivamente, não importa onde estejamos e como optamos por viver.

Quando o menino sai em busca de respostas pegando carona com os pássaros, a fantasia que carrega é que o mundo obtém as respostas e que os mistérios do desconhecido é que irão responder-lhe as demandas. Ele cria um mundo de fantasias que leva a sério, e investe uma grande quantidade de emoção. É como o brincar para a criança, em que “ela liga os objetos e as situações imaginadas às coisas visíveis e tangíveis do mundo real” (JORGE, 2010, p. 45). O Príncipe acaba percebendo a importância que seu planeta tem para ele e, principalmente, que lá está o elo dele com o mundo exterior, a sua Rosa. Ele renuncia ao prazer das descobertas, daquilo que obteve ao desbravar o planeta terra, para retornar às origens e, ao mesmo tempo, ao gozo materno representado pela Rosa. “A fantasia é uma saída que, por si só, concilia duas exigências altamente imperiosas: a pulsional, que exige a satisfação a qualquer custo, e a renúncia exigida pela realidade, que coloca obstáculos continuamente […]” (p. 60).

O menino não encontra só respostas, mas educação, que lhe é atribuída pelos personagens que vai encontrando pelo caminho. E é essa educação que lhe auxilia no processo de desenvolvimento, no controle do princípio do prazer pelo princípio de realidade. A recompensa para ele está no “ganho de amor dos educadores” (JORGE, 2010, p. 59). Percebe-se como um ser incompleto, com demandas não satisfeitas, e conjectura a possibilidade de voltar àquilo que é familiar e conhecido, buscando uma redenção possível na presença do outro, ou seja, da Rosa.

Por outro lado, o modo como o Príncipe percebe possível sua volta é submetendo-se à picada mortífera de uma serpente, que ele encontrou no deserto e prometeu-lhe tornar fácil a travessia, ou seja, de sair do planeta Terra e voltar para casa, de forma rápida e certeira.  “Posso levar-te mais longe que um navio – disse a serpente. Ela enrolou-se no tornozelo do pequeno príncipe, como se fosse um bracelete de ouro. – Aquele que eu toco, eu o devolvo à terra de onde veio – continuou a serpente…” (EXUPÉRY, 2003, p. 60).

“Querer e desejar é manter-se vivo, e talvez seja mais importante do que realizar o desejo” (JORGE, 2010, p. 169). O Príncipe frente à realização de seus desejos recua, para de avançar em direção às possibilidades infinitas de realização, caso ele continue sua aventura pelo planeta Terra. Ele percebe-se triste, saudoso, porque a vida não lhe deu o que quis no momento em que quis, é mais óbvio, então, voltar. Além do que, é através da morte, que ele consagra o amor absoluto que ele tem pela Rosa e pelo seu planeta. Ela “representa, no fundo, o único lugar onde se pode realizar um amor tão grande” (JORGE, 2010, p. 179).

O narrador, a Rosa e a Raposa suscitaram no menino o reconhecimento do amor e da falta. Fizeram-no questionar o que realmente valia a pena e o que ele desejava.

Ao afirmar seu amor imediatamente antes de morrer, o sujeito parece estar envelopando a si mesmo e a pessoa amada com uma espécie de proteção narcísica que lhe permita morrer sem a sua unidade e o sentido de sua vida. Afirmar o amor, nesse caso, seria quase como nascer de novo e dar vida ao outro igualmente, uma vez que a vida depende – como vimos – do desejo e do amor do Outro. Trata-se, então, de afirmar radicalmente vida diante da morte. Pois como afirma Lacan, no amor, o que se visa, é sujeito, sujeito como tal, enquanto suposto a uma frase articulada, a algo que se ordena ou pode se ordenar por uma vida inteira. Parafraseando Ferenczi, trata-se aqui, paradoxalmente, da morte bem acolhida e sua pulsão de vida (JORGE, 2010, p. 175).

Ao perceber a perda que há em se afastar de seu planeta, da companhia de sua Rosa, o menino sofre, não só pela perda do objeto amado, mas por ter que se defrontar com a falta originária; novamente ver-se como um ser em falta, em que o objeto de desejo já não é mais o mesmo. Ele deve desejar, e só haverá desejo se houver a falta, portanto, ele não vê mais a necessidade de permanecer no planeta Terra, apesar dos laços que criara. O Príncipe, parte, então, mesmo sem se dar conta que, agora o objeto a, a causa de seu desejo é outro e está distante, lá no planeta que ele deixou para trás, onde a sua Rosa o espera.

Novamente ele faz uma escolha e mata tudo aquilo que se pronuncia como um determinado futuro. Ele pode escolher e como dizia um velho ditado: Cada escolha é uma renúncia.

O Príncipe tem o direito de ser feliz simplesmente porque existe, e a quem cabe garantir esse desejo? Talvez a Rosa, que toma o lugar de sua mãe? A relação deles está estabelecida nos vínculos genuínos de amor e não construída sobre uma ilusão, portanto não há fingimento. Ela sofre quando ele a abandona, mas sabe que é necessário deixá-lo partir. É como se ela precisasse dizer: “Se vira, meu filho. Você poderá sempre contar comigo e voltar aos meus braços, mas essa briga é sua”. O menino precisa assumir a narrativa de sua própria vida, como ele faz, e assumi-la com coragem. Ele aprende que isso não é fácil, vai trazer-lhe medo, sofrimento, angústia e confusão; no entanto, vai aprender que crescer é compreender que na vida sempre haverá faltas e hiâncias, porém nada a torna menor. A vida pode ser insuficiente, mas é a que ele tem e, apesar de suas aventuras, suas descobertas e de seu aprendizado, é melhor não perder tempo porque um dia ela acaba.

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Um Estudo sobre o Conceito de Narcisismo

 

9846_1O conceito de narcisismo se estabelece a partir da psicanálise como a ideia de um sujeito que admira exacerbadamente sua própria imagem e nutre uma paixão por si mesmo. Este artigo visa promover discussões sobre o conceito de narcisismo e identificar como ele se constitui na formação do sujeito. Para tanto, realizou-se um levantamento bibliográfico na perspectiva de alguns autores, como: Freud, Heinz Kohut e Alexander Lowen. Nessa perspectiva, é possível construir um embasamento teórico que explique esse processo.

Palavras-chave: Psicanálise, Freud, Heinz Kohut, Narcisismo, Alexander Lowen.

1. Considerações Iniciais

O conceito de narcisismo se estabelece a partir da psicanálise como a ideia de um sujeito que admira exacerbadamente sua própria imagem e nutre uma paixão por si mesmo. Para a psicanálise o narcisismo se caracteriza como aspecto fundamental na constituição do sujeito, um tanto de amor por si é necessário para confirmar a auto-estima, todavia, os excessos podem se configurar prejudicial ao convívio do indivíduo em sociedade.

A criação do termo narcisismo se associa à história da mitologia grega, diz o mito que Narciso era uma criança tão linda e admirada por sua mãe, Liríope, que estando preocupada com o excesso de sua beleza, levou-o até um sábio, que, por sua vez, disse que o menino só teria uma longa vida se jamais visse sua imagem. Durante muito tempo, esse fato conseguiu ser guardado, mas diante dos acontecimentos, Narciso, viu sua própria imagem em um lago de águas límpidas e se apaixonou pelo seu reflexo. O mito diz que Narciso mergulha no espelho das águas e desaparece no encontro impossível

O termo narcisismo também foi utilizado pelo senso comum para caracterizar alguém vaidoso ou egoísta. O primeiro autor a se valer do mito de Narciso foi Havelock Ellis, em 1898 com o intuito de explicar o comportamento infantil das mulheres diante do espelho. Em 1899, Paul Näcke introduziu esse conceito na esfera psiquiátrica para introduzir um novo tipo de perversão – o amor pela própria imagem.

Entretanto, Sigmund Freud já usava essa concepção antes mesmo de mencioná-la em “Uma Introdução ao Narcisismo”, estabelecendo uma ligação de como esse mito grego podia estar associado à psicanálise.

Ao longo de sua obra, Freud fala do termo narcisismo e utiliza várias formas para explicitar o tema, caracterizando o termo como narcisismo, narcisismo primário, narcisismo do ego e narcisismo secundário. Nesse sentido, são conceitos relacionados entre si, mas cada um tem sua especificidade, cada um apresenta distintos modos de subjetividade.

2. Narcisismo Primário

De acordo com o aporte psicanalítico o narcisismo situa-se como um modo peculiar de relação com a sexualidade.  Para ELIA (1995) o narcisismo é um processo pelo qual o sujeito assume a imagem do seu corpo próprio como sua, e se identifica com ela (eu sou essa imagem).

Segundo Freud (1981) em seu texto “Introdução ao Narcisismo” [1914], haveria um primeiro estágio do narcisismo permeado pelo auto-erotismo que se manifestaria como um narcisismo primário, no qual toda a energia libidinal se concentraria no Ego. Esse investimento da energia libidinal sobre o Ego primitivo serviria de proteção, além de fonte alimentadora das fantasias de grandeza e de poderes mágicos do tipo megalomaníaco, sendo, portanto, uma etapa indispensável ao desenvolvimento normal e não referente a uma patologia ou perversão.

Antes de Freud elaborar a segunda tópica, nos textos do período de 1910-1915, o narcisismo primário é localizado entre o autoerotismo primitivo e o amor de objeto, e aparece como contemporâneo ao surgimento de uma primeira unificação do sujeito, o surgimento do ego. Com a elaboração da segunda tópica, ele exprime pelo termo narcisismo primário sobretudo um primeiro estado de vida, anterior até à constituição de umego, sendo que a distinção entre auto-erotismo e o narcisismo é suprimida (MAGALHÃES, 2004).

Essa concepção sobre narcisismo primário é mais utilizada no campo psicanalítico atualmente, aqueles que têm essa postura, partem do pressuposto que a vida intra-uterina tem função primordial nesse processo.

3. Ideal do ego

O desenvolvimento do ego consiste, segundo Freud, num distanciamento do narcisismo primário em razão da crítica que os pais exercem com relação à criança, seguido pelo deslocamento da libido a um ideal de ego. Freud, afirma, que não consideraria estranho se encontrasse uma instância distinta do ideal do ego, interiorizada como uma instância de censura e de auto-observação (FERNDANDES, 2002).

Freud (1914) relata que o narcisismo do sujeito surge deslocado em direção a esse ego ideal, que como o ego infantil, se acha possuidor de toda perfeição e valor. O indivíduo não está disposto a renunciar à perfeição narcísica de sua infância. O que o indivíduo projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido da infância na qual ele era seu próprio ideal.

O ideal do ego funcionaria como condição para a repressão, pois sua formação se daria sob a influência dos pais, educadores e outros. Sendo, portanto, resultante da convergência do narcisismo (idealização do ego) e das identificações com os pais, seus substitutos e os ideais coletivos27. A formação do ideal é vista como o mais forte favorecedor da repressão porque aumenta as exigências do ego. A sublimação surgiria como forma de escapar dessa exigência e, ao mesmo tempo, da repressão. A sublimação compreende o processo pelo qual a pulsão se lança para outra meta, distante da satisfação sexual (FERNANDES, 2002).

4. Narcisismo na Perspectiva de Heinz Kohut

Heinz Kohut tem sua trajetória na psicanálise e psiquiatria e desenvolveu a escola psicanalítica da psicologia do self. Algumas de suas obras de referência: Introspecção, empatia e psicanálise (1959); A análise do self (1971); A restauração do self (1977), e a publicação póstuma Como cura a psicanálise? (1984).

No que tange sobre suas contribuições acerca do narcisismo, sua posição é de que o narcisismo é uma fase do desenvolvimento normal na vida do indivíduo, que sofre o uma influência direta do meio externo, passa por transformações e pode evoluir de forma saudável ou patológica.

De acordo com KOHUT (1971) estas pessoas necessitam espelhar-se e idealizar os outros; queixam-se de sentimentos inespecíficas de vazio, depressão ou insatisfação nos relacionamentos, além de se caracterizarem por uma auto-estima muito vulnerável, altamente sensível ao descaso dos amigos, familiares, amantes, colegas, entre outros, e por um sentimento de vazio dilacerante.

Enquanto FREUD (1914) propõe que o sujeito deveria passar do narcisismo primário até o amor objetal, tendo que vencer as demandas narcísicas. Em contrapartida, Kohut acredita que as necessidades narcísicas persistem ao longo de toda à vida.

Nessa linha de pensamento,  Kohut ao discutir o narcisismo defende a ideia de que este surge numa linha de desenvolvimento independentemente das pulsões, consistindo uma fase de desenvolvimento que sobre uma evolução paralela a da libido objetal.

O narcisismo não é idêntico ao revestimento libidinal do sistema do ego ou de suas funções, uma vez que se refere a catexia libidinal da representação do self no ego – isto é, ao modo como a pessoa se vê. Referindo-se ao amor pela própria imagem especular, Kohut propõe em suas formulações metapsicológicas, a trajetória do narcisismo que vai do auto-erotismo, passa pelo narcisismo e evolui para formas mais elevadas do narcisismo (SUERTEGARAY, 2002).

5. Narcisismo na Perspectiva de Alexander Lowen

Alexander Lowen, teve uma formação de base psicanalista. Na sua trajetória  foi um dos estudante de Wilhelm Reich nos anos 1940 e também trouxe suas contribuições para o entendimento do narcisismo sob a sua ótica.

Segundo LOWEN, o narcisismo “indica uma perturbação da personalidade caracterizada por um investimento exagerado na imagem da própria pessoa à custa do eu”. Desse modo, o sujeito que apresenta características narcísicas se configuram como aqueles que perdem o contato com seu “ser”, ou seja, seu corpo e seus sentidos, e encontra-se “alienado” quanto ao seu mundo exterior.

A partir dessa busca desenfreada por uma imagem idealizada, o indivíduo busca reconhecimento no outro, ou seja, o seu “eu” não se reconhece enquanto tal, senão através de sua imagem idealizada por outro.

Segundo SCHILDER (1981), “nossa própria beleza não contará apenas com a imagem que temos de nós mesmos, mas também, com a que os outros constroem a nosso respeito, a qual tomaremos de volta.  A imagem corporal é o resultado da vida social que temos”.

6. Considerações finais

Para concluir, entende-se que cada autor nomeia um percurso para a constituição do narcisismo no sujeito, Freud traça um caminho que surge com base do ego ideal, que como ego infantil, se acha possuidor de toda perfeição e valor. Na opinião deHeinz Kohut sua posição é de que o narcisismo é uma fase do desenvolvimento normal na vida do indivíduo, que sofre o uma influência direta do meio externo, passa por transformações e pode evoluir de forma saudável ou patológica. E para Alexander Lowen o narcisismo indica uma perturbação da personalidade caracterizada por um investimento exagerado na imagem da própria pessoa à custa do eu. Nesse sentido, todas as idéias trazem contribuições diferentes que podem construir novas visões acerca do narcisismo.

Ampliando as Visões sobre a Formação da Neurose

PlanejamentopessoaldeacoesO presente artigo visa apresentar e discutir algumas visões diferentes no entendimento da formação da neurose. Nesse aspecto, o trabalho objetivou compreender o olhar da psiquiatria frente à neurose, bem como os seus subtipos e ainda sistematizar a compreensão da psicanálise sobre esse fenômeno. Desse modo, foi possível examinar as principais características, além de verificar o processo de formação da neurose no sujeito.

Palavras-chave: neurose, formação, sujeito

Considerações Iniciais

A palavra “neurótico” tem sido usada pelo senso comum, como sinônimo de loucura, o que classifica um pensamento impróprio. Nesse sentido, entende-se neurose como uma determinada forma de subjetividade, ou seja, como o indivíduo reage e interpreta às situações da sua vida.

Define-se neurose ou psiconeurose como quadros de origem psíquica que podem estar relacionados a situações externas na vida do sujeito, os quais provocam desordem na saúde mental, física ou da personalidade do indivíduo, podendo gerar angústia e ansiedade em vários contextos.

Do ponto de vista psicanalítico a neurose é decorrente de tentativas ineficazes para lidar com conflitos e traumas inconscientes. Por assim dizer, o que diferencia a neurose da normalidade é a intensidade do comportamento e a incapacidade do sujeito em resolver conflitos de maneira satisfatória.

O conceito de neurose foi estabelecido em 1769 pelo médico William Cullen para fazer menção a “desordens do sentido e ação”. Para ele, a neurose descreve várias desordens nervosas e sintomas que não poderiam ser explicados psicologicamente.

Neurose deriva da palavra grega neuron (nervo) com o sufixo osis (doença ou condição anormal). Entretanto, o termo neurose foi mais influenciado por Sigmund Freud e Carl Jung mais de um século depois.

Para a teoria psicanalítica pode ter origem nos mecanismos de defesa do ego, e podem ser classificados nesse aspecto pessoas que possuem alguma desordem psíquica que as impede de ter uma vida saudável.

Do Ponto de Vista da Psiquiatria

A psiquiatria compreende as neuroses como transtornos menores em relação às psicoses. Isso é atribuído ao fato de o neurótico preservar em sua personalidade alguns critérios de avaliação da realidade semelhante ao padrão comum.

O termo neurose tratava-se de um conjunto heterogêneo de doenças atribuídas a um ataque de nervos e foi introduzido no século XVIII, em 1777, por um médico escocês chamado Willian Cullen (MIJOLLA, 2005).

O termo aparece em um tratado de medicina desse médico escocês, no qual a segunda parte da obra era intitulada “Neurose ou doenças nervosas”. Na referida seção eram apresentadas não só as doenças mentais, mas também palpitações cardíacas, cólicas e hipocondria. Já no século XIX, o termo abarcava doenças de três campos: neurose, psicossomática e neurologia (Parkinson, epilepsia, por exemplo) (POLETTO, 2012).

No entanto, ao mencionar em “transtorno menor”, não estamos nos referindo a algum critério de prognóstico. O mais comum é que a neurose tenha um curso crônico e, se não tratada, pode levar a algum grau de incapacidade social e/ou profissional.

Tipos de Neurose

De acordo com Mijolla (2005), as neuroses são transtornos psíquicos sem substrato anatômico detectável. Sua sintomatologia está relacionada à expressão simbólica de um conflito intrapsíquico entre ideias fantasmáticas inconscietes, associadas ao complexo edípico, e às defesas que elas provocam, que possuem raízes na história infantil do sujeito.

Existem formas específicas de manifestação da neurose, dentre elas: neurose obsessiva, histérica, (na qual a ansiedade pode ser descarregada através de sintoma físico), e grandes variedades de fobias.

Nesse ínterim, o estudo abordará apenas os tipos de neurose mais comuns na bibliografia.

  • Neurose Fóbica – o sujeito exterioriza sua angústia através das fobias, que é resultante da fixação da angústia sobre situação ou objeto, o neurótico fóbico aproxima-se do sujeito angustiado, porém, mantém um comportamento de evitação do objeto que teme, como meio para escapar da sua angústia.
  • Neurose Obsessiva – se caracteriza por uma elevada freqüência de pensamentos obsessivos, que mantém o sujeito em conflito permanente; estabelece uma relação com o mundo exterior que se manifesta por meio de ritos conjugatórios.
  • Neurose Histérica Dissociativa – reação histérica em o que o paciente se defende de seus conflitos por meio de dissociação: confusão, personalidade múltipla, amnésia, etc.
  • Neurose de Angústia – um dos tipo mais simples de neurose, em que a angústia é o sintoma principal; a evolução ocorre a partir de crises mais ou menos próximas (sempre diante de um perigo simbólico ou real).

Como a Psicanálise Compreende a Formação da Neurose

De acordo com a psicanálise, a maioria das pessoas é afetada de alguma forma pela neurose, seja a partir de uma angústia ou ansiedade, alguma expectativa desagradável ou ainda um medo sem causa, indefinível, mas que toma o sujeito completamente.

Os primeiros escritos da obra freudiana categorizavam os transtornos emocionai em três grupos e Freud os denominava de psiconeuroses (ZIMERMAN, 1999).

As neuroses atuais compunham o primeiro agrupamento, caracterizando-se como transtornos emocionais resultantes da ausência ou inadequação da satisfação sexual; seus sintomas não eram de natureza simbólica. Para tal transtorno a investigação deveria ser direcionada para as desordens sexuais atuais e não em acontecimentos importantes da vida passada. Sua etiologia, neste sentido, é somática e não psíquica (LAPLANCHE; PONTALIS, 1998).

As neuroses de transferência são referenciadas como o segundo o grupo dessa classificação, assim, foram chamadas também de psiconeuroses de defesa. Nesse enfoque, abrange as histerias, as fobias e as neuroses obsessivas.

Segundo Freud, apenas estas poderiam produzir a transferência, pois para isso seria necessário dirigir catexias libidinais às pessoas (FREUD, 1916-17).

O terceiro grupo compreende as neuroses narcísicas, ou seja, as psicoses. De acordo com Freud, a psicanálise não reunia condições para tratar pacientes acometidos desse tipo de neurose (ZIMERMAN, 1995).

A justificativa usada pelo fundador da psicanálise era a de que tais pacientes não conseguiam a revivescência do conflito patogênico e a superação da resistência devido à regressão. Freud supunha que essas pessoas abandonavam as catexias objetais e que sua libido objetal se transformava em libido do ego (FREUD, 1916-17).

A princípio, Freud estudou a neurose sobre a perspectiva da teoria do trauma, cuja natureza da neurose estava contida em um trauma sexual vivenciado pelo sujeito, porém com o abandono dessa teoria, surge o conceito empírico do Complexo de Édipo no entendimento dessa formação.

Nesse momento houve uma ruptura em que Freud passa a perceber a importância do conflito psíquico na produção dos sintomas e percebe que a criança tem sentimentos ambivalentes com seus pais, que são em parte, reprimidos.

Laplanche e Pontalis (1998, p.296) definem a neurose como uma “afecção psicogênica em que os sintomas são a expressão de um conflito psíquico que tem raízes na historia infantil do sujeito e constitui compromissos entre o desejo e a defesa”.

Para a psicanálise as neuroses podem ter origem a partir de conflitos interiores, cujo significado inicial lhe escapa, remetendo para os conflitos infantis recalcados que podem ser acessíveis pelo processo de transferência.

Considerações Finais

As discussões apresentadas nesse trabalho são alicerçadas na investigação da formação na neurose que visa esclarecer a essência da neurose a partir do ponto de vista psicanalítico e psiquiátrico, bem como a partir das reflexões teóricas que abrangem esse estudo. De tal modo, pôde-se verificar que a formação da neurose ocorre a partir de conflitos interiores dados na infância que por vezes são recalcados por gerarem angústia para o sujeito, e, posteriormente, são manifestados em forma de sintoma em algum momento da vida. A revisão de literatura mostra-se relevante no que concerne a ampliar visões e mostrar novos pontos de vista com base nas afirmações já existentes. Portanto, é significativa para o aporte psicanalítico, bem como para a construção do saber na psicanálise e psicologia.

As Interfaces Entre Depressão e Psicanálise

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Este artigo tem como objetivo identificar a depressão por meio do viés psicanalítico com enfoque na prevenção, diagnóstico, tratamento. Realizou-se uma revisão de literatura sobre a temática em livros e periódicos, e bases de dados de pesquisa científica. O uso atual de antidepressivos e dos processos psicoterápicos são essenciais para o tratamento da depressão. O diagnóstico da depressão é facilitado por meio da presença dos sintomas descritos como: apatia, irritabilidade, perda de interesse, tristeza, atraso motor ou agitação, idéias agressivas, insônia, fadiga e anorexia. Com base nos achados da literatura, depressão é um transtorno de humor severo que pode comprometer a vida familiar e social do indivíduo.

Palavras-chave: prevenção, diagnóstico, tratamento

Introdução

O sofrimento psíquico e o esvaziamento afetivo do homem moderno têm levado a depressão. O que se observa hoje é uma nova concepção do luto e da depressão, agregada ao novo homem deste século. Um homem com inúmeras possibilidades, porém perdido, desamparado e que não sabe do que é preciso para ser suprido. Entretanto, como a psicanálise compreende os estados depressivos do homem atual?

A depressão é um transtorno do humor com dados epidemiológicos distribuídos por faixa etária: infância, adolescência e senectude se não tratada corretamente, pode perdurar por muito tempo, com prejuízos a vida dos pacientes.

O termo “depressão” vem do latim e da junção de dois radicais: depressio e onis, que agrega a palavra depressun cujo sentido é baixo. A psicanálise tem dissertado sobre a etiologia dos quadros depressivos e se percebe a prevenção em episódio de suicídio da depressão (GABBARD, 1998).

Assim, o objetivo deste estudo foi identificar a depressão por meio do viés psicanalítico com enfoque na prevenção, diagnóstico, tratamento. Ademais, propõe-se uma reflexão sobre as interfaces entre a depressão e Psicanálise.

A Prevenção da Depressão na Visão Psicanalítica

FREUD (1917) estabeleceu uma diferença entre luto e depressão melancólica. A perda real de um objeto refere-se ao luto. Na melancolia o objeto perdido é mais emocional que real. Além disso, segundo o autor, o paciente melancólico sente uma profunda perda de auto-estima, acompanhada de auto-acusação e culpa, enquanto que, a pessoa de luto mantém um senso de auto-estima razoavelmente estável.

Ainda de acordo com FREUD (1917) o quadro de depressão melancólica tem relação com a autodepreciação, estado em que os pacientes depressivos tendem a sentir raiva de si mesmos. Mais especificamente, a raiva é dirigida internamente pelo fato de o self do paciente se identificar com o objeto perdido (GABBARD, 1998).

FREUD (1923) acrescentou que os pacientes melancólicos tem um superego severo por relacionar a própria culpa em direção aos objetos amados. Assim, manter a dinâmica da depressão supõe ao sujeito que a instância do ego poderia matar a si próprio apenas tratando-se como um objeto. Isso implica no fato de o suicídio resultar no deslocamento de desejos destrutivos em relação a um objeto internalizado que é dirigido contra o self .

MELANIE KLEIN (1996) agregou a depressão à perda do objeto amado. Os estados maníaco-depressivos podem ser reflexos da falha da infância em estabelecer objetos internos bons.

De acordo com STELLA, GOBBI, CORAZZA e COSTA, (2002) para identificar os fatores que estariam desencadeando o surgimento de um processo depressivo, ou até mesmo agravando uma depressão existente, é importante verificar se o paciente possui alguma doença clínica que esteja associada à depressão, como também o uso de alguma medicação pode causar sintomas depressivos.

Diagnóstico e Aspectos Clínicos da Depressão   

O diagnóstico da depressão perpassa por várias etapas: anamnese com o paciente e a família, exame psiquiátrico, exame clínico geral, avaliação neurológica, identificação de efeitos adversos de medicamentos, exames laboratoriais e de neuroimagem. Estes são procedimentos para verificar o diagnóstico da depressão.

A depressão tem causas desconhecidas, porém, fatores genéticos, psicológicos, ambientais, anatomopatológicos e bioquímicos podem estar envolvidos na sua gênese e evolução.

Em pacientes idosos, a depressão costuma ser acompanhada por por queixas somáticas, hipocondria, baixa auto-estima, sentimentos de inutilidade, humor disfórico, tendência autodepreciativa, alteração do sono e do apetite, ideação paranóide e pensamento recorrente de suicídio. Sabe-se que nos pacientes idosos deprimidos o risco de suicídio é duas vezes maior do que nos não deprimidos (PEARSON, BROWN, 2000).

Tratamento da Depressão

O tratamento da depressão intenciona reduzir o sofrimento psíquico causado por esta enfermidade. O paciente em tratamento diminui o risco de suicídio, melhora o estado geral dele e garante qualidade de vida.

Com relação aos distúrbios afetivos, o tratamento poderá incluir psicoterapia individual, terapia familiar, grupoterapia e psicofarmacoterapia.

Como formas de intervenção, a psicoterapêutica é indicada para o depressivo como modalidade a psicoterapia breve – minimiza o sofrimento psíquico do paciente.

A intervenção com medicações é necessária por meio dos antidepressivos. Os autores SILVA, SOUZA, MOREIRA e GENESTRA (2003) alertaram que a depressão não tratada coloca em risco a vida do paciente e eleva o sofrimento.  Por isso, o tratamento medicamentoso, na opinião dos autores, constitui o primordial da intervenção terapêutica para reduzir a duração e a intensidade dos sintomas atuais e prevenção da recidiva.

A indicação do tipo de abordagem terapêutica dependerá da precisão diagnóstica e dos riscos inerentes a cada paciente. Poderá se escolher um tratamento em consultório, ambulatório institucional ou ambiente hospitalar. No momento contemporâneo, avalia-se a necessidade do uso de psicofármacos e se associa a psicoterapia.

Metodologia

O método utilizado neste trabalho envolveu revisão de literatura sobre à presente temática em livros, artigos e base de dados.

Após a compreensão dos autores reunidos, seguiu-se com análise descritiva e comparação entre cada autor e subtópicos relacionados.

Resultado e Discussão

Enfatiza-se na literatura (BECK, ALFORD, 2011) que a depressão é um transtorno grave que pode comprometer toda a vida familiar e social do paciente, pois destroi famílias, carreiras e relacionamentos. Nessa direção, os autores (ESTEVES, GALVAN, 2006) observaram que preconceitos e estigmas existentes em relação a ter uma doença mental só podem ser suplantados com o conhecimento e a informação para o paciente, a família e a sociedade.

No sentido da prevenção, os autores (ESTEVES, GALVAN, 2006) sugeriram que a base encontra-se nas primeiras relações objetais dos indivíduos que funcionam como modelo para todas as relações futuras.

Com relação ao diagnóstico, (BECK, ALFORD, 2011) apontaram que pelos sintomas – apatia, irritabilidade, perda de interesse, tristeza, atraso motor, insônia, fadiga e outros podem facilitar o diagnóstico, assim como também um bom conhecimento teórico da patologia.

E com relação ao tratamento, a intervenção clínica com uso de antidepressivos e psicoterapia associada, na opinião dos autores, mostra-se fundamental. Destacou-se na literatura essa intervenção com os antidepressivos tricídicos, os inibidores da monoaminoxidase e os inibidores seletivos da recaptação de serotonina são abordados de forma abrangente (LAFER, ALMEIDA, FRÁGUAS, MIGUEL, 2000).

Os tratamentos farmacológicos e os psicoterápicos são essenciais para a depressão. Em diversas ocasiões, o medicamento fará com que o paciente se recupere e admita a necessidade de se tratar tanto com a medicação e ou de prevenção quanto com psicoterapia que ampliará o autoconhecimento e ajudará na reintegração social e na retomada de sua individualidade (LAFER, ALMEIDA, FRÁGUAS, MIGUEL, 2000).

A partir da percepção de que a depressão é observada como um estado sintomático e não como uma categoria de patologia, a literatura convergiu no sentido de que a depressão necessita ser prevenida, diagnosticada e devidamente tratada (SILVA, SOUZA, MOREIRA, GENESTRA, 2003). Os autores consultados pontuaram a depressão como forma de sofrimento psíquico vivido pelos homens da sociedade moderna. No Brasil, aproximadamente 54 milhões de pessoas em algum momento da vida terão algum tipo de depressão, sendo que 7,5 milhões terão episódios agudos ou graves com risco de suicídio (LAFER, ALMEIDA, FRÁGUAS, MIGUEL, 2000).

Considerações Finais

Com base na literatura consultada, as interfaces entre depressão e psicanálise podem ser entendidas a partir da detecção ou diagnóstico do quadro, prevenção e tratamento combatente.

Na atualidade os relatos ditos aos sintomas depressivos como desinteresse, apatia, tristeza, nem sempre estão associados a uma perda. Estes sintomas são interpretados pela literatura clássica como os indicadores da depressão e melancolia. Entende-se que outros fatores podem causar sintomas depressivos, os quais decorrem das relações e situações do cotidiano vivido pelo homem moderno.

BECK, A.T; ALFORD, B.A. Depressão causas e tratamento. Porto Alegre: Artmed, 2011.

ESTEVE, F. C; GALVAN, A.L. Depressão numa contextualização contemporânea. Revista Atletheia, n.24.p. 127-135, jul./dez. 2006.

FREUD, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira.Volume XVII (1917-1919). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira.Volume XIX (1923-1925). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GABBARD, G.O. Psiquiatria psicodinâmica. 2ed. Porto Alegre: Artmed,1998.

GUEDES – SILVA, Damiana et AL. Depressão pós-parto: prevenção e conseqüências. rev. Mal – Estar Subj., Fortaleza, v.3, n.2, set 2003. Disponível em < http:// pepsic. bvsalaud.org/scielo.php?scrip=sci_arttext&pid=s1518-61482003000200010&Ing=PT&nrm=isso>.acessos em 24 nov. 2011.

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LAFER, B; ALMEIDA, O.P; FRÁGUAS, R .Jr; MIGUEL. E.C. Depressão no ciclo da vida. Porto Alegre: Artmed, 2000.

PEARSON, J.L; BROWN, G. K. Suicide prevention in late life: directions of suicide for science and pratice. ClinicalandPsychologicalReview, 2000.

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SOUZA,F.G.M.Tratamento da depressão.Ver.Brás.Psiquiatr.,SãoPaulo:2011.Disponível emhttp://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s1516-4461999000500005&Ing=pt&Ing=iso. Acessos em 24 nov. 2011.

SUKIENNIK, P.B; SEGAL, J; SALLE, E. Implicações da depressão e do risco de suicídio na escola durante a adolescência. Revista Adolesc. Latinoam., jun.2000, vol.2. n.1, p. 36-44. ISSN 1424-7130.

Os Sonhos como Manifestação de Desejos Inconscientes

dormindo-significa-sonho1A teoria dos sonhos proposta por Sigmund Freud em 1900 atrai cada vez mais interesse sobre o “conhecer” desse mundo tão misterioso, rico e cheio de emoções, que dá margem a muitas especulações, criticas e novas teorias. O que antes, era interpretado como meros símbolos ou premonições, agora são vistos como características de nosso inconsciente.

Objetiva-se destacar a importância dos sonhos na vida de qualquer indivíduo, assim como a influência que exerce sobre os mesmos, sua análise em terapia e como isso auxilia o terapeuta durante o tratamento. Através de pesquisa quantitativa bibliográfica, os dados que povoam este trabalho foram discutidos, analisados e comparados a alguns autores, tendo como base a teoria psicanalítica.

É fundamental para o psicólogo entender tal formação dos sonhos e como serão elaborados seus mecanismos de defesa, bem como os princípios de sua devida interpretação.
Palavras-chave: Sonhos, Freud, Psicanálise, Inconsciente, Terapia.

Introdução

Para alguns, os sonhos são uma ferramenta muito utilizada para se prever acontecimentos ou até mesmo acreditam ser vozes de entidades divinas, devido a isso, acaba-se despertando grande interesse nos indivíduos que cada vez mais estão ligados a assuntos místicos, por trazerem uma carga de mistério, e por estarem mais voltadas ao narcisismo, ao seu ego, procurando dessa forma um autoconhecimento ou buscando uma falsa segurança, através de hipóteses e métodos falhos, embora na realidade o significado dos sonhos não seja bem essa.

Os sonhos possuem grande importância nas terapias psicanalíticas por proporcionarem ao terapeuta um conhecimento mais profundo do que se passa no íntimo de seus pacientes, pois são carregados de informação sobre a vida destes e concomitantemente oferecem ao analisando um conhecimento maior de si mesmo.

É importante ressaltar o quanto é desafiador o estudo e análise dos sonhos, pois eles trazem ao indivíduo forte influência em sua psique, podendo em alguns casos, alterar significativamente seu comportamento.

Através de uma pesquisa bibliográfica este trabalho objetiva-se a analisar os conteúdos dos sonhos, por que ocorrem e as influências que exercem na psique dos indivíduos e sua importância, possibilitando assim, em caráter sucinto, aos estudantes e interessados uma idéia geral sobre a interpretação dos sonhos segundo a teoria freudiana.

Conceitos Básicos da Teoria Psicanalítica

Antigamente os povos primitivos acreditavam que os sonhos teriam um conteúdo adivinhatório, que os sonhos traziam mensagens e revelações de deuses

e demônios e sendo assim, fariam vir à luz fatos que pudessem ocorrer no futuro. Era simplesmente uma forma de se obter uma interpretação e significação do que se sonhava, dando a eles um caráter de adivinhação. Não a respeito de quem sonhava, mas com conteúdo geral, entretanto, estando contido neles uma carga de acontecimentos relacionados com as instâncias divinas ou demoníacas, que tinham como objetivo desorientar a pessoa que sonhava.

Antes de Freud se dedicar a interpretação dos sonhos, estes eram vistos como indecifrável devido seu caráter divino ou demoníaco que lhe atribuíam. É através dos sonhos que podemos nos encontrar com nosso eu verdadeiro, pois são através das imagens de nossa vida onírica que entramos em contato com aquilo que realmente somos ou queremos, mas que por diversos motivos acabamos escondendo de nós mesmos. Para Freud não existe nos sonhos algo que lhe dê simbolismo dedutivo e que possa assim prever o futuro e também não há nos sonhos os sentimentos morais, por isso da importância de se interpretar os sonhos na terapia, pois eles são carregados de emoções e sentimentos de nosso verdadeiro eu.

Antes de mergulharmos no universo de nossa vida onírica é necessário entender os conceitos primordiais que nos levam a entender a significação de nossos sonhos.

Alguns conceitos muito utilizados em psicanálise e que neste presente trabalho serão muito visto são a idéia de id, ego e superego e o mecanismo de recalque e sublimação que são muito empregados nos sonhos, como forma de esconder algo ou dar uma forma mais amena ao que realmente se quer dizer.

Segundo a teoria freudiana o id, ego e superego são estruturas da personalidade, onde se tem que o id é o responsável pelos nossos instintos e impulsos mais primitivos “temos, pois, que o id é o verdadeiro inconsciente ou a parte mais profunda da psique” (CABRAL. A. NICK. E, .2006, p. 157). Enquanto que o ego é o mediador entre o id e o superego, ele é o responsável pela relação da pessoa com seu meio circundante.

É através do ego que aprendemos tudo sobre a realidade externa e orientamos o comportamento no sentido de evitar os estados dolorosos, as ansiedades e punições. (CABRAL. A. NICK. E, 2006, p. 94)

Enquanto que o superego é o autor de grande parte dos fatos reprimidos, pois é ele que no direciona para determinadas atitudes que condizem com leis morais, com o que deve ou não ser feito, nos segura para não agirmos de maneira instintiva e nos priva muitas vezes de fatos que julga não ser ideal.

O superego é o representante de uma natureza superior no eu (Freud), atuando no sentido de evitar punições por transgressões morais ou de fomentar a realização de ideais moralmente aceitos. (CABRAL. A. NICK. E. 2006, p. 321)

Já os conceitos de recalque e sublimação pode-se fazer uma analogia a um traficante que tenta passar a barreira do país, na primeira tentativa, ele tenta passar pelos policias sem disfarce algum, mas é impelido a continuar pelos guardas quando estes verificam sua documentação. Os guardas neste exemplo fizeram o papel do recalque.

Operação pelo qual o sujeito procura impelir ou manter no inconsciente representações (pensamentos, imagens, recordações) ligadas a uma pulsão. (Laplanche e Pontalis, 2001, p.430)

Neste exemplo, o desejo de se passar pela barreira foi recalcado tendo que voltar a sua origem, em nosso inconsciente ocorre exatamente assim, quando algo que desejamos não é realizado por ação muitas vezes de nosso superego, este desejo volta para o inconsciente ficando “guardado” lá, até que algo o impulsione a sair novamente.

Já a sublimação tem papel importante neste caso, pois se o traficante tentasse passar a barreira de maneira disfarçada e com documentação falsa, ele conseguiria de forma muito tranqüila e sem ser pego. É assim também que ocorrem com nosso inconsciente, muitos fatos que a primeira vista são proibidos, ele automaticamente “disfarça” para que ao tomar consciência não nos afetem diretamente. “Freud descreveu como atividades de sublimação principalmente a atividade artística e a investigação intelectual” (Laplanche e Pontalis p.495). Sendo assim, nossos desejos são realizados não de forma nua, mas configuram-se de maneira delicada aos nossos olhos.

Os Sonhos

Sem dúvidas podemos dizer que o marco da grande história de Sigmund Freud foi “A Interpretação dos Sonhos”, obra na qual antes não tinha grande importância para a ciência, e que logo após tal publicação ganhou de fato seu devido valor. Através destes estudos, foi possível trazer ao consciente os conteúdos inconscientes, na qual tal processo, o fenômeno sonhar, traz o inconsciente de uma forma tão reveladora e acessível para estudo. “Temos que concordar com Freud de que, os sonhos é o caminho para uma estrada que leva aos recessos inconscientes e obscuros da mente”. O sonho é um fenômeno regressivo; no qual nos devolve aos estados primitivos da infância.

O sonho, no entanto é decorrência de fatores diários psíquicos e do sono; portanto julgamos necessário expor o processo do sono, para depois centrarmos nossa atenção nos sonhos, que como expôs Freud, são os guardiões do sono.

Os Processos do Sono

O primeiro aspecto que a psicologia descobriu em relação ao sono é que existem dois tipo de sono: NREM ( No Rapid Eye Movements) e REM (Rapid Eye Movements). A diferença encontra-se na observação de tal ato. Durante o sono

REM observa-se uma variação no Sistema Nervoso Autônomo, a respiração e o ritmo cardíaco ficam irregulares e mais rápidos, a pressão arterial fica mais elevada e há um aumento na produção de hormônios supra-renais. Dentro do sono REM, nos meninos e nas meninas ocorre a ereção. Tais pesquisas são medidas através de um estudo feito em laboratório chamado eletroencefalograma, na qual mede as ondas cerebrais.

No sono REM há quatro estágios, onde cada um é caracterizado por um padrão de ondas cerebrais. O primeiro é chamado de sono leve, com duração de alguns minutos e é o inicio do sono, o indivíduo nesse estágio pode, dependendo do individuo, pode dar início aos sonhos; já o segundo estágio denominado de sono intermediário, onde há um relaxamento maior, podem ocorrer experiências sensoriais, alucinações, exemplo disso é quando temos a sensação de que estamos caindo; o estágio de sono profundo, assim chamado o terceiro, é caracterizado por tornar o individuo insensível aos sons e já oferece resistência ao acordar. O quarto e ultimo estágio chamado de sono mais profundo, há uma “total entrega”, um relaxamento total, no que diz respeito ao individuo; é o mais profundo desligamento do mundo exterior, nesta fase pode haver irregularidades como o sonambulismo.

O sonho é também chamado de onírico, tal conteúdo é fundamental para a psicanálise, pois é através dele que é feito grande parte da interpretação do “conflito” que o paciente traz para a terapia. Através da descoberta de Freud, de que os sonhos têm conteúdos fundamentais para análise de um paciente, tiramos por concluir de que, é através do mesmo que podemos gozar pelos nossos verdadeiros prazeres, fugir de uma sociedade que censura e dita regras, tanto de caráter e conduta, é nele e através dele que podemos de fato vivenciar o que realmente gostaríamos de viver.

Chama-se de sonho manifesto, a experiência consciente durante o sono, que a pessoa pode ou não recordar depois do despertar. Os conteúdos de latente do sonho é aquilo que ameaçam acordar a pessoa. As operações mentais inconscientes que existem por meio das quais o conteúdo latente do sonho se transforma em sonho manifesto, e chamamos de elaboração do sonho. Sintetizando, porém, a teoria dos sonhos da seguinte maneira, a experiência subjetiva que aparece na consciência durante o sono e que, após o despertar, chamamos de sonho são apenas resultados finais de atividades mentais inconscientes que ocorrem durante esse período fisiológico que por sua natureza ou intensidade ameaça interferir no próprio sono.

O Sonho à Luz da Psicanálise

Diante de tantos acontecimentos vividos diariamente, tantos compromissos e atividades efetuadas de forma sistemática, acabamos nos defrontando com o cansaço e o stress da vida moderna. Quando conseguimos nos desligar deste mundo atribulado e cheio de informações, só pensamos em descansar a nossa mente e o nosso corpo e prepará-lo para uma bela noite de sono.

Quando dormimos entramos em um “processo mágico”, pois é durante o sono que alcançamos e sentimos o poder de mergulhar em um mundo totalmente novo e secreto: o nosso Inconsciente.

Durante o sono dispomos de forças inconscientes que nos levam a sonhar, todas as pessoas sonham e os sonhos como nos diz Freud, são a realização de um desejo. Desejos esses que existem dentro de cada um, mas que devido aos costumes, cultura, educação e a moral da sociedade, foram recalcados, reprimidos ficando assim, no mais fundo e obscuro de nosso inconsciente, só manifestando seu poder durante os sonhos.

Os sonhos á luz da psicanálise são como uma válvula de escape para nossos desejos mais secretos, desejos vistos como proibidos por nós mesmos através do que a sociedade nos impõe, sublimados e manifestados nos sonhos.

A interpretação dos sonhos do qual Freud se dedicou a estudar nos diz que os sonhos são, “a principal estrada que leva ao conhecimento dos aspectos inconscientes de nossa vida psíquica” (FREUD, 1900, apud ESTEVAM, 1995, p. 44). Freud concebe a idéia de que um insight (intuição) de algo proibido (desejo inconsciente) só ocorre uma vez na vida.

Os conteúdos inconscientes sempre estiveram presentes e se manifestam em nossa vida de diversas formas, entretanto, essas manifestações inconscientes só tiveram total atenção com os trabalhos de Freud sobre a interpretação dos sonhos, que até então era desprezada pelos cientistas da época.

Freud sempre focalizou aquilo que durante milênios foi o “ponto cego” de nossas percepções, sentimentos e pensamentos, aquilo que, de uma certa maneira, sempre esteve presente e ao que, no entanto, recusávamos conferir a dignidade de nossa atenção. (MONZANI, 1989, p.57)

Os sonhos possuem conteúdos manifestos e latentes e fazer a distinção destes conteúdos para Freud foi um canal de encontro para a estranheza das pessoas que deparavam com seus pensamentos. Pois, os conteúdos latentes dos sonhos, indicavam manifestações do inconsciente e eram necessários métodos exclusivos para se entender o real significado, feito isso, os sonhos acabavam se revelando como desejos inconscientes sempre com material recalcado e infantil indicando uma relação com algo de caráter sexual.

Entender os significados dos sonhos a priori foi de extrema importância para a teoria psicanalítica, pois através de suas interpretações, foi possível desvendar o material oculto de cada individuo e concomitantemente entender a sua construção psíquica. “Freud compreendia que tudo o que sabemos a respeito de nós mesmos representa apenas uma pequena parte daquilo que somos na realidade” (ESTEVAM, 1995, p. 46). Os sonhos aparecem como forma de externalizarmos conhecimentos que possuímos, mas que insistimos em dizer que desconhecemos.

Os sonhos configuram-se como métodos de descargas de pensamentos, que são sublimados para que dessa forma não afetem diretamente nosso imaginário, por isso muitos sonhos são vistos como absurdos e ilógicos à primeira vista, embora seja totalmente o contrário. O material dos sonhos possui conteúdo psicológico fundamental para o estudo da mente. Como nos diz Freud “O sonho possui um sentido”. (FREUD apud ESTEVAM, 1995, p. 47).

Para se analisar os sonhos são imprescindíveis que não se direcione a atenção somente aos conteúdos manifestos, mas principalmente nos conteúdos latentes dos sonhos, pois é ai que se encontra seu verdadeiro significado. “O conteúdo manifesto é, assim, uma espécie de tradução resumida do conteúdo latente; um trailer de um filme de longa-metragem” (FORRESTER, 2009, p.12).

Acontecimentos recentes (resíduos diurnos, elementos transferenciais) se ligam a lembranças do passado, inclusive a “fantasias ou lembranças encobridoras” temporárias – ou, quem sabe, mais permanentes. (FORRESTER, 2009, p. 79)

Portanto, dar atenção aos sonhos e aos seus significados é ao mesmo tempo dar atenção aos conteúdos mentais que foram recalcados e sublimados da consciência pela ação de nosso ego e superego, pois é nos sonhos que nossos desejos primitivos e instintivos (id) encontram vazão para conquistar seu lugar ao sol.

Ao falarmos de sonho, estamos nos referindo ao termo “sonho manifesto”, que é quando o indivíduo faz o relato do que vivenciou dentro do sonho, logo após ter acordado, ou seja, é o ato de lembrar-se. Quando nos referimos ao que o sonho traz, seu significado, dizemos que este ato é especificado como “conteúdo latente do sonho”.

O conteúdo latente do sonho é a primeira parte do processo de sonhar formado por três componentes: I- impressões sensoriais noturnas; II- pensamentos e idéias relacionadas às atividades do dia (fragmentos do nosso cotidiano, antes de pegamos no sono); III- impulsos do ID.

São as impressões sensoriais do indivíduo que se referem ao que os sentidos capturam mesmo durante o período de dormência ( os barulhos ao seu redor; seus desejos, como beber água, calor, frio,etc.) tudo o que podemos adquirir nesse estágio se refere ao conteúdo latente do sonho.

Em relação aos pesadelos, eles foram um dos maiores desafios que Freud encontrou, ele era a prova de fogo que desafiava a doutrina do pai da psicanálise. Pensando que o sonho era a realização de um desejo reprimido; não poderíamos sentir a tristeza, ou seja, o desespero e a angústia do pesadelo, se de certa forma o objetivo central do sonho era a realização do próprio desejo e por conseqüência a nossa realização.

É em nossos sonhos que procuramos realizar os nossos mais profundos e sinceros desejos que, se feitos à luz do dia seriam motivo de vergonha e horror para aqueles que junto conosco compõem uma sociedade impostas de valores e conceitos. Quando temos o ato de fecharmos nossos olhos, temos isso como um passaporte para outro país, o país das maravilhas, bom de certo modo a maravilha que gostaríamos que fosse nossa vida.

Entrando profundamente nesse vasto mundo de desejos reprimidos e não realizados; fazemos um mergulho direto para nosso inconsciente, ou seja, para dentro de nós mesmos, tentando procurar o máximo de realização.

Há dentro de nós certo grau elevado de aspirações sociais; tendências em que somos criados, e que cria em nós mesmos certo tipo de CENSURA.

O pesadelo se dá quando há uma satisfação consciente da personalidade que visa os princípios morais, em vez de haver uma satisfação dos desejos reprimidos instintivos. Buscamos em primeiro lugar a “tranqüilidade” em estabelecer uma satisfação com nossa consciência moral do que com nossos desejos, é assim que acontecem os pesadelos.

Os desejos que provocam os sonhos não são; freqüentemente; desejos aceitos pelo consciente; ao contrário, são desejos que ele combate, reprime e censura. Por conseguinte, o retorno desses desejos recalcados, embora seja uma causa de desprazer para a parte superior. Esquecemo-nos freqüentemente que o homem é um ser duplo, disputado por tendências de sentido contrário. A censura reage pela angústia quando ela não pode dominar o desejo animalesco que sobe das profundezas do inconsciente. (ESTEVAM, 1995, p. 61-62.)

Os fatos que em si visam os princípios morais nos angustiam e nos desesperam a certo ponto em que acordamos, e quando isso não ocorre, vivenciamos um sonho em que se torna “torturante” e mesmo embora sua principal função seja o de dar prazer, ficamos expostos ao desgosto de um sonho não prazeroso.

O pesadelo é freqüentemente a realização não velada de um desejo, mas de um desejo que, em vez de ser bem vindo, foi repelido e recalcado. A angústia que acompanha a realização desse desejo recalcado mostra-se mais forte do que a censura e de que ele esta realizando ou vai se realizar, contrariando a censura. O sentimento de angústia diante da força desses desejos que, até aquele momento, tínhamos conseguido reprimir. (ESTEVAM, 1995, p.63)

E por que não nos lembramos do sonho? Por que só tomamos ciência dos sonhos logo após acordamos; ao refazer o ato de relembrar do mesmo, temos a sensação de que sempre há algo a mais, isso significa que lembramos fragmentos deste sonho.

Acontece na maioria dos casos o ato de saber que se sonhou; mas sem saber o que foi sonhado. Podemos associar esse fato do esquecimento do sonho em relação a “excitação” tanto referente ao dia a dia quanto aos fragmentos em que nosso sonho nos proporciona, isto é; quando estamos acordado nos esquecemos de muitas sensações e percepções de imediato; seja talvez pela quantidade de excitação que damos as mesmas, a importância, a atenção dada a certos detalhes do cotidiano em que demos menos energia psíquica, tem menos influência em nossa mente e psique, isso se aplica as imagens oníricas, as partes esquecidas, são aquelas em que os nossos desejos se manifestam com menos intensidade, a energia psíquica que damos a tal desejo em que nosso inconsciente não lhe dá a atenção que dá a imagens que temos como mais interesse; mas o fato da intensidade aplicada as percepções, não é o suficiente por si só, para determinar se uma imagem onírica será lembrada ou não.

Logo após o despertar o mundo do lado de fora, faz como uma “pressão” sobre os sentidos e se apossam de imediato das atenções do individuo; fazendo com que muitas poucas imagens conseguem resistir. ”Os sonhos cedem ante as impressões de um novo dia, da mesma forma que o brilho das estrelas cede à luz do sol.” (Freud, 1900, p. 63)

Há um fato em que é fundamental para que se lembre dos sonhos, é necessário interesse pelos mesmos, o indivíduo em que se aplica mais na interpretação de seus sonhos, por conseqüência passará a sonhar mais, isto

significa que ele passou e passará a sonhar mais nitidamente e com muito mais freqüência lembrará seus sonhos. “Como o fato que, quando um sonho parece pela manhã, ter sido esquecido, ainda assim pode ser recordado no decorrer do dia, caso seu conteúdo, embora esquecido, seja evocado por alguma percepção casual” (FREUD, 1900, p. 63)

Os Mecanismos dos Sonhos como Forma de Realizar Desejos

Como já vimos, os sonhos possuem conteúdo manisfesto e latente e a forma com que o sonho se apresenta para que seu conteúdo latente se traduza em manifesto, Freud deu a isso o nome de trabalho do sono.

Existem quatro tipos de mecanismos sendo eles, a condensação, o deslocamento, a dramatização e a simbolização. Essas são as formas com que os conteúdos latentes se transformam em manifestos.

O mecanismo de condensação “tem a ver com um certo laconismo do sonho em relação aos pensamentos oníricos que subjazem a ele” (FORRESTER, 2009, p. 12). É como se fosse um resumo do sonho, daquilo que realmente sonhamos segundo Estevam (1995), seria igual quando queremos escrever uma carta, mas não temos tempo, então enviamos um telegrama.

Os sonhos normalmente são curtos, são meros resumos do que realmente acontece, do que nos leva a sonhar. Os processos psíquicos envolvidos e que ocasionam os sonhos são complexos, eles acontecem no inconsciente, mas só são manifestados nos sonhos de maneira lacônica.

O outro mecanismo é o deslocamento, que afasta de seu objeto real seu valor desviando para outro objeto sua carga afetiva. “a carga afetiva desvia sua direção e vai recair sobre um objeto secundário, aparentemente insignificante” (ESTEVAM, 1995, p.67) Por exemplo, quando se sonha com uma briga com uma pessoa aparentemente inocente ou desconhecida, é o deslocamento entrando em ação, que faz com que a raiva sentida por alguém do individuo que sonha seja transportada para um terceiro.

O mecanismo de dramatização consiste na imaginação de nossa mente, pois quando estamos acordados racionalizamos tudo que entra em contato conosco, (idéias, pensamentos, sentimentos), entretanto, quando estamos dormindo esse processo se desliga e entra em ação a capacidade de imaginar tudo àquilo que durante o dia racionalizamos, entra em ação o papel de formular imagens para aquilo que vivemos. Segundo Estevam (1995), é uma atividade mental inferior ao pensamento racional, cabe aos sonhos a tradução dos pensamentos e idéias em imagens, por isso a interpretação dos sonhos deve ser feita de maneira minuciosa e criteriosa para se desvendar o significado das imagens dos sonhos, pois elas trazem uma bagagem de conteúdos racionais importantíssimos.

A simbolização, outro mecanismo do sonho se dá quando as imagens presentes no sonho trazem relação com outras imagens, quando a pessoa sonha com algum objeto e este objeto é mascarado e diz respeito a algo que a pessoa viveu ou desejou. Um exemplo segundo Estevam (1995) diz de uma moça que sonhou com um homem que tentava montar em um cavalo castanho e só conseguiu depois da terceira vez. Esta moça na terapia revelou que seu namorado havia tentado abusar dela três vezes e em seu sonho ela apareceu simbolizada pelo cavalo.

Os sonhos utilizam esses mecanismos para trazer a consciência seus verdadeiros conteúdos inconscientes de maneira delicada, pois:

À noite o relaxamento muscular provocado pelo sono reduz a censura interna, a resistência aos desejos, nessas horas de recolhimento sobre si mesmo a resistência perde um pouco de seu poder. (FORRESTER, 2009, p. 13)

Com isso, vemos que “a força motivadora dos sonhos é a realização de desejos” (FORRESTER, 2009, p. 12). Os desejos reprimidos em nosso inconsciente acham lugar para se chegar à consciência através dos sonhos, pois neles não há resistência e nem a ação de nosso superego.

Freud nos diz a respeito dos desejos que eles são a falta de alguma coisa que desejamos, mas que não conseguimos realizar, ou por que algo nos impede ou devido ao nosso ego e superego, que exercem força considerável em nossa consciência reprimindo o desejado.

Os desejos que provocam os sonhos não são, freqüentemente, desejos aceitos pelo consciente, ao contrário são desejos que ele combate, reprime e censura. Por conseguinte, o retorno desses desejos recalcados, embora seja uma causa de prazer para a parte inferior do homem, é uma causa de desprazer para a parte superior. (FREUD, 1900 In. apud ESTEVAM, 1995, p. 62)

Ou seja, a angústia que sentimos quando acordamos é fruto da guerra entre o desejo e a censura, quando durante o sonho o fato reprimido vem à tona “sem censura”, nos sentimos angustiados ao acordar, ou se não acordamos, temos sonhos sofridos, dolorosos, os pesadelos.

Freud (1900) relata em sua interpretação dos sonhos que os desejos podem ter origens do tipo, o desejo despertado durante o dia, e que não pode ser satisfeito e também aquele que é abandonado pela psique, vindo a ser reprimido; também relata dos estímulos do qual o corpo sofre durante a noite, a fome, por exemplo; e finalmente o desejo de nosso inconsciente que se manifesta durante o sono, nos sonhos.

A Importância do Sonho na Terapia

Durante a terapia o paciente em seus relatos pode descrever algum sonho que lhe ocorra de maneira recorrente ou não, depois de se verificar durante o processo de análise deste paciente, a transferência, a resistência e demais mecanismos do mesmo, é possível assim, fazer a análise do material descritivo e significativo que este paciente traz ao analista. Através do método de associações livres em que o paciente fala tudo o que lhe vem à mente em relação ao fato, é possível ir montando o quebra-cabeça do sonho.

Para analisar os sonhos é necessário “decompô-lo em elementos e aplicar a cada um deles a técnica da associação livre” (FORRESTER, 2009, p.26), pois, não é possível interpretá-lo em sua totalidade, porque ele é formado pelo inconsciente e, portanto, de meros fragmentos da realidade, configurando-se muito confuso e fantástico. Durante o sono, tomamos as imagens oníricas por imagens reais graças ao nosso hábito mental (que não pode ser adormecido) de supor a existência de um modo externo com o qual estabelecemos um contraste com o nosso ego.

A análise do sonho possibilita acompanhar a evolução do caso, do tratamento, pois os sonhos são a expressão de nosso mundo interno aquilo que sentimos, vivemos ou desejamos, mas que não encontram a maneira certa de se externalizar, ficando a cargo dos sonhos esse papel.

Por agirmos muitas vezes baseados em nosso ego e superego, naquilo que é tido como certo aos olhos da sociedade, negligenciamos o papel fundamental de nosso id, pois seu conteúdo pode fugir ao controle e aos moldes das leis morais e também de nosso ideal de eu. Contudo, surgem assim os conflitos psíquicos inconscientes que nos atormentam e nos angustiam, causando sofrimentos ao individuo, e que encontram nos sonhos um meio de se libertarem.

Os indivíduos acometidos por esses sofrimentos psíquicos, não se sentem preparados para lidar com essas mudanças de pensamentos e ações, pois os sonhos interferem em sua vida e em seus comportamentos de maneira significativa, principalmente quando são mal elaborados e colocados à prova. Devido isso, o individuo procura ajuda e orientação profissional para melhor compreender o que se passa em seu interior, para entender quais são as suas necessidades psíquicas. “Não é possível dizer que um sonho é “somente” um sonho, na medida em que ele é um ato mental a parte integrante da vida interior de cada um” (SAROLDI apud FORRESTER, 2009, p. 16)

O recalcamento e sublimação de fatos, pensamentos, idéias ou imagens que foram jogados no inconsciente por ação do ego e do superego impedindo a ação do id, acarreta um dos motivos para o surgimento das neuroses, pois esse indivíduo tem forte poder de reprimir o que deseja anulando a voz de seu id, e esse fato o leva a gerar conflitos internos, como a neurose.

Logo, a análise dos sonhos na terapia é imprescindível, pois é através dessa análise juntamente com todas as técnicas de psicanálise, que o terapeuta pode focalizar no paciente quais são seus conflitos internos, suas angústias, medos e porque eles ocorrem com maior ou menor intensidade. Os sonhos são capazes de nos dar informação suficiente, para entender o indivíduo muito mais do que as palavras proferidas por ele na terapia, pois os sonhos possuem conteúdos que nós mesmos “desconhecemos”.

Considerações Finais

Os sonhos trazem do nosso inconsciente para a consciência desejos mais reprimidos e “proibidos”, desejos recalcados, no qual sublimamos, ou seja inibimos nossos objetos de desejo, é que através do sonhos temos a capacidade de vivenciá- los.

Sua linguagem simbólica; traz para o psicólogo um desafio na capacidade da interpretação; cada sonho vivido pelo paciente, pode ser visto como uma carta enigmática que com o auxilio de um psicólogo deverá ser traduzida. Há certa luta entre paciente e psicólogo, onde de um lado o paciente com seu sonho puxa de um lado, utilizando de mecanismos de defesa, e transformando o sonho em uma fantasia em si, e do outro o psicólogo com sua perspicácia e observação.

Freud traz e nos ensina através de sua obra que se tornou essencial na área de psicanálise a importância dos sonhos, quando escreve A Interpretação dos Sonhos, mostra que acabamos realizando nossos desejos que não conseguimos admitir querê-los, ou muitas vezes nos envergonhamos tanto por desejá-los que a sociedade nos “proibiu” ou determina “proibidos”, colocando nossos valores morais em primeiro lugar, reprimimos tais desejos e os jogamos no nosso mais profundo e obscuro abismo, o Inconsciente. Quando conseguimos sair de uma rotina, uma

sociedade que impõe sobre nós, suas aquisições, mergulhamos através do sonho nesse abismo em busca de realizá-los, uma busca em satisfação de nossas realizações, pois os sonhos são a única forma de realização de desejos reprimidos inconscientizados.

É fundamental para o psicólogo entender tal formação dos sonhos e como serão elaborados seus mecanismos de defesa, bem como os princípios de sua devida interpretação.

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Psicanálise Infantil: nuances do atendimento à criança com necessidades especiais

sindrome[1]A prática clínica infantil constitui-se em grandes desafios para o psicanalista. Embora a Psicanálise seja a clínica do sujeito, a clínica com crianças nos coloca frente a algumas questões relevantes. Receber uma criança para tratamento já nos coloca diante da interrogação: de quem se trata, quando se trata de uma criança?

Há que se considerar a relação de transferência, fundamental num processo analítico, atravessada por algumas especificidades que são diferentes para o sujeito adulto. A demanda, comumente, não nos chega enquanto demanda da criança, mas do casal parental, de um técnico ou de uma Instituição. Sendo necessário que haja um desdobramento transferencial para possibilitar o surgimento da demanda da criança.

É preciso lembrar que estamos diante de um corpo-sujeito em processo de formação biológico e psico-estrutural (necessariamente não correspondentes), atravessado por uma multiplicidade de saberes a ele destinado, quais sejam: a Pediatria, a Pedagogia, a Psicologia, entre tantos outros das áreas de Saúde e de Educação; existe uma demanda social estabelecida. Os clichês de normalidade já estão montados quanto aos ideais de desenvolvimento, enquadrando como patologias ou desvios os indivíduos fora dessa ordem preestabelecida, obturando exatamente a possibilidade de subjetivação desse corpo sujeito em formação.

Considerando esse contexto social e de desenvolvimento humano, peculiar a condição e de ser da criança, o desafio é ainda maior em se identificar e sustentar a demanda quando o atendimento é solicitado para um portador de necessidades especiais. É recorrente que os pais tragam a criança, em seu discurso, como um objeto real, excluída de sua subjetividade.  Também é frequente buscarem o atendimento infantil, ainda, tomados pelo lamento ou angústia sobre a perda do filho “ideal”, aderidos à marca real no corpo de seu filho; perdidos em sua função tutelar, buscando orientações em como proceder.

Nesse sentido, já fica explicita uma demanda do par parental, e a existência implícita ao atendimento infantil, de que há um luto a ser trabalhado e elaborado pelo grupo familiar. Há uma tentativa de recobrir a falta, há um pedido de algo seja curado, retirado. Como manejar com o pedido dos pais de homogeneizar a heterogeneidade do pequeno sujeito em formação?

O bebê humano nasce em condições precoces, inscreve-se na cultura sempre pela via do desejo de “um” outro, é Desejo de Desejo; a linguagem incide sobre o corpo engendrando as pulsões. A criança não traz inscrito no corpo nenhum sistema ou código que lhe defina com o que acalmar seu mal estar. A priori é um feixe pulsional fragmentado e é uma ação psíquica de fora, ou seja, os significantes da mãe, ou de quem ocupe esse lugar, que age sobre ela na tentativa de responder às suas insatisfações (JERUSALINSKY, 1989).

 No plano imaginário, um bebê é engendrado para obturar a falta, ser o falo da mãe. O investimento narcísico de uma mãe faz de sua criança o resumo de suas idealizações, mesmo não o sendo. O nome do pai precisa fazer-se presente, operando enquanto barra ao gozo da simbiose mãe e filho. A função paterna em alguma medida vai ser falha, visto que, a demanda imaginária que ela engendra é total e a resposta possível é sempre parcial.

O filho desejado, idealizado, é incompleto.  Qualquer humano ao nascer o que traz em termos constitucionais é a atividade reflexa com expressões do tônus muscular; existindo assim no nascimento a dimensão de um luto, o filho, obturador da falta é faltante. Essa dimensão de luto se agrava, quando essa criança traz no corpo algum impedimento de conferir aos pais a ilusão de resposta esperada; devolver ao retorno do investimento libidinal feito sobre o mesmo.

Acolher ao discurso dos pais é a abertura para que um processo possa ser constituir. Sustentar a relação transferencial com esses é a condição de assegurar, pelo menos um espaço para que a criança possa advir. É a possibilidade de fazer emergir o lugar desse filho no mito familiar. “O sintoma da criança se encontra no lugar de responder àquilo que há de sintomático na estrutura familiar” (Lacan 1998).

Um filho ao ser desejado e idealizado vem com a “missão” impossível de preencher um lugar, atender a suposição de que há um objeto apaziguador que recobre a falta. Visto que, o objeto adequado não existe e é como faltante que um sujeito se constitui, é preciso que haja uma queda desse lugar idealizado viabilizando o pequeno ser a construir as próprias respostas, escapando do lugar a ele destinado no desejo do mito familiar.

O casal parental procura tratamento para seu filho com uma demanda recoberta pela prevalência do imaginário. Eles vêem queixar-se de alguma coisa. “O sintoma, eis o fato fundamental da experiência analítica, se define nesse contexto como representante da verdade” (Lacan, 1998). Há que se possibilitar de que possam se utilizar da linguagem e depositar, pela via da transferência, seu “mal estar” no sujeito suposto saber, eleito por eles para o tratamento de seu filho.

O desdobramento da fala dos pais constitui-se em campo aberto para o deciframento da verdade desse par no projeto a que foi destinado esse filho. “O sintoma pode representar a verdade do casal. Aí está o caso mais complexo, mas também o mais aberto às intervenções” (Lacan, 1998). Qual a verdade do casal que o sintoma da criança oculta?

Quando a criança nasce com qualquer indicativo orgânico que a impede de responder as expectativas imaginárias dos pais, o embotamento da verdade da estrutura familiar torna-se mais mistificado ainda e com maior resistência a sua decifração. Uma vez que há dificuldade de um reconhecimento narcísico e, conseqüentemente de investimento libidinal.

É inevitável que haja certo impasse nesse contexto, não se trata de negar a realidade dos fatos. Porém, é preciso que o analista atente para esse embotamento e que não se coloque também aderido a essa demanda imaginária da impossibilidade orgânica da criança. “O sintoma somático dá a máxima garantia a esse desconhecimento; ele é o recurso inesgotável conforme os casos, a testemunhar culpabilidade, a servir de feitiço, a encarnar uma primordial recusa” (Lacan, 1998).

Outra questão peculiar nesses casos, testemunha da recusa, e da vacilação da parceria, é um dos pares se ausentar da cena e deixar a cargo apenas de um, a procura incessante por diversos profissionais “da infância” na busca da cura do incurável. É importante intervir acolhendo a quem vier fazer-se cargo dessa função e convocar o genitor ausente a vir depor sua queixa, falar de seu luto e colocar-se a trabalhar a sua própria decifração.

Muitas são as nuances que se apresentam na clínica infantil. O mito da estrutura familiar se reedita não apenas no casal que representa a criança, mas ainda pertinente ao mito das gerações passadas na família de cada genitor em particular.  No infantil que repercute na estruturação desses sujeitos que agora respondem pela continuidade do romance familiar.

Sustentar a demanda dos pais é importante, tem sua função, mas segue até o limite que viabilize a escuta da criança. Faz-se necessário preservar o espaço próprio para a análise da criança, na medida em que ela suporte o corte e a ausência dos pais da cena. Atentando para a singularidade de cada situação, às vezes, para que a escuta continue profícua, é preciso encaminhar os pais para o próprio tratamento, fato que favorece a separação e a análise da criança.

Refletir a clínica psicanalítica com crianças é aprender e produzir na singularidade de cada caso. Nessa medida é recorrer à experiência própria que fundamenta a psicanálise, a experiência do inconsciente do sujeito aprisionado em sua verdade, uma verdade da qual ele nada quer saber e menos ainda se haver com ela. Em se tratando da criança, é sempre ameaçador o encontro desse pequeno sujeito com sua verdade diluída no mito familiar.

Cito a poeta Lya Luft:

Fruto de enganos ou de amor,
Nasço de minha própria contradição.
O contorno da boca,
A forma da mão, o jeito de andar
(sonhos e temores incluídos)
Virão desses que me formaram.
Mas o que eu traçar no espelho
Há que se armar também
Segundo o meu desejo.
Terei meu par de asas
Cujo vôo se levanta desses
Que me dão a sombra onde eu cresço
– como, debaixo da árvore,
Um caule
E sua flor.

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Anorexia Nervosa e Bulimia: uma abordagem interdisciplinar

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A adolescência, como período do desenvolvimento é marcado por conflitos e desafios na construção da identidade do sujeito. O processo social e econômico da atualidade traz desafios adicionais, que expõe o adolescente ao culto ao consumo e prazeres imediatos. A anorexia nervosa e a bulimia se apresentam como novos sintomas, surgidos dessas novas interações. Este artigo aponta a Psicanálise como uma abordagem capaz de propor uma escuta diferenciada dos novos sintomas, apontando caminhos para o acolhimento e tratamento do sujeito que sofre, nos novos tempos, com estes desconfortos.

Palavras-chave: Adolescência, Anorexia Nervosa, Bulimia, Interação Social, Novos Sintomas.

1. Introdução

Preliminarmente é necessário estabelecer um campo de entendimento do que venha a ser uma proposta de abordagem interdisciplinar de um tema. A Interdisciplinaridade parece ser uma solução para a reintegração da vida que se fragmentou ao longo dos anos, em função da complexidade trazida pela crescente especialização no domínio do conhecimento.

O progresso econômico e o processo de globalização criaram muitos paradoxos que são frutos da exploração dos mais pobres e das vantagens implicadas nos negócios financeiros dos mais desenvolvidos. Essa disparidade gerou o que Bauman (2001; 258) chama de depósito que comporta o excedente, ou melhor, o lixo desnecessário que precisa ser repelido, seja o lixo industrial ou as “pessoas residuais” numa sociedade de consumo.

Nesse contexto, o adolescente estrutura a sua identidade, sendo capaz de decidir sobre as direções de sua vida.  Quais os novos desafios do  vir a ser sujeito, íntegro e integrado que os novos tempos imputam ao adolescente? Que  sintomas surgidos a partir dessas novas interações com o consumo de valores do homem massificado e hipnotizado pelo prazer imediato e pelo consumo, são experimentados por ele nesse processo? Qual a visão da psicanálise no encaminhamento desses novos quadros, especificamente, o da Anorexia Nervosa e da Bulimia?

A proposta deste trabalho interdisciplinar é fazer a verificação de como algumas escolas oferecem seus saberes  na abordagem da Anorexia Nervosa e Bulimia na experiência do adolescente, usando como referências a Psicanálise, as Neurociências, e, buscando também,  enfocar os sintomas de um ponto de vista histórico e social, no que diz respeito a esta etapa do desenvolvimento humano.

 O Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia-NIAB, na pessoa de um dos seus fundadores, ofereceu as referências no campo, que sustentam este trabalho, através da exposição do modelo de abordagem e tratamento dos sintomas.

2. O Período Da Adolescência no Desenvolvimento Humano

O período da adolescência apresenta vários caminhos para ser abordado, onde vários autores buscaram uma definição que visa conceituar, diferenciar e, sobretudo, limitar, onde iniciam e onde terminam o período caracterizado  como adolescência . Trata-se de uma busca que vem ocorrendo há séculos, e sem resultados que sejam satisfatórios à hegemônica linha de pensamento cartesiano, adotado pela maioria das academias.

Segundo Groisman (2012), desde a Grécia antiga até o século V, as raízes filosóficas tinham suas âncoras em Homero, Sócrates, Platão e Aristóteles. Neste período, a vida era organizada em função  do efebo. Por volta do século VI e VII, na idade média, as delimitações começavam a assumir características etárias, definidas como: infância (de 0 a 7 anos), puberdade (de 8 a 13 anos), adolescência (de 14 a 21 anos) .Na Roma antiga, que tem início em 753 a.C., os estudiosos consideravam  que os meninos de 16 anos eram inseridos em uma classe denominada “príncipes da juventude”.

No séc. XIX, a sociedade se tornou uma vasta população anônima, marcada pelo fortalecimento dos Estados Nacionais, pela redefinição dos papéis sociais de mulheres e crianças, pelo avanço acelerado da industrialização e da técnica, e, pela organização dos trabalhadores. Groisman (2012) aponta que este  movimento atinge a infância e a adolescência, pois estes indivíduos passam a ser encarados como pessoas. Este é período em que a figura do adolescente é encarada com mais precisão. A adolescência, então, passa a ser vista como momento crítico da vida humana. É temida como uma fase de potenciais riscos para o próprio indivíduo e para a sociedade como um todo, o que provocou um crescente interesse médico e de educadores, mobilizados pelos processos de amadurecimento biológico e pelas manifestações decorrentes de seu comportamento e pelas transformações sexuais.

O séc. XX, marcado pelas guerras, um novo estilo de mobilização e contestação social marca a vida do adolescente, que passou a negar todas as manifestações visíveis dessa sociedade vigente, usando ora o poder da “paz e do amor”, ora o poder das armas e da violência. Nos nossos dias, tempos em que as comodidades tecnológicas, de produção em massa, de mundo fragmentado e mecanizado, onde a separação dos saberes, da hipersensibilizarão e das linhas de montagem são a tônica do desenvolvimento de uma sociedade de bases capitalista, quais são os novos desafios do adolescer?

Bulimia e Anorexia, são reações patológicas mais comuns para as contradições e os desafios típicos de nosso modo de vida atual, vinculadas aos  aspectos egocêntricos e consumistas. O processo econômico criou paradoxos,  são frutos da exploração e das vantagens implicadas nos negócios, que no processo de amadurecimento, que para alguns adolescentes, torna-se um grande desafio de elaboração  (Bauman, 2004).

Em Vidas Desperdiçadas, Bauman (2005; 170) aponta que o principal nos tempos atuais é a crise das relações. Crê que o progresso econômico e o desenvolvimento urbano descontrolado geram uma imensa massa de “resíduos humanos”, “populações supérfluas” onde as pessoas, a mídia e as instituições que formam o aparelho estatal cobram e preveem o sucesso. Além disso, é um tempo que aponta para um mercado flutuante, porém rigoroso em suas exigências, que marcam em nossa existência laços,  compromissos e contratos permeados por essa fluidez:  “Não devemos nos prender a um trabalho, a um caso amoroso, pois as portas podem ser fechadas para as possibilidades” (Bauman, 2005; 170).

(Um autor importante para contextualizar a dinâmica do adolescer é Erik Erikson (2002, p. 84)), defende que a energia ativadora do comportamento é de natureza psicossocial, integrando não apenas fatores pulsionais biológicos inatos, como a libido, mas também fatores sociais, apreendidos em contextos histórico-culturais específicos.

Erikson (2002; 85) considera a adolescência como fase crítica do ciclo vital, apesar de considerar que a crise da identidade pode ocorrer em qualquer fase da vida do indivíduo, se evidenciando como um mal estar de quem não se sente bem na sua própria pele.

Afirma que um indivíduo deve construir a sua identidade na adolescência, mas que essa identidade não ocorre de forma padronizada e linear. A adolescência é uma etapa que impele o indivíduo a uma redefinição da própria identidade, ao avaliar sua inserção no plano espaço-temporal, integrando o passado, com suas identificações e conflitos, ao futuro, com suas perspectivas e antecipações (Erikson 2002; 85).

Outro autor, Knobel (2002; 115), afirma que, para a psicanálise, não se obtém a evolução normal da adolescência sem que o sujeito passe pelo grau de conduta patológica, denominada como patologia normal. Para Piaget, ninguém atravessa este período da vida sem conflito. O conflito marca o crescimento. O mesmo período  é qualificado por Erikson como crise ( Piaget,apud Knobel. 2002, p.116).

De acordo com Knobel (2002), a normalidade é um conceito que se altera em relação ao meio social, econômico, político e cultural. O autor deixa claro que esta normalidade não se constitui na submissão ao meio, mas sim na habilidade de aproveitar os dispositivos para atender às exigências circunstanciais do indivíduo a ele

Ana Freud menciona ser muito difícil encontrar o limite entre o normal e o patológico na adolescência, pois todo o entusiasmo, alvoroço deste período, deve ser avaliado como normal (Ana Freud apud Knobel. 2002; 116).

Em nossa cultura adolescente, Knobel (2002, p. 116) aponta para a Síndrome normal da adolescência, que se apresenta sob a forma de desequilíbrios e instabilidades extremas, audácia, timidez, desinteresse, apatia, conflitos afetivos, crises religiosas, intelectualização, postulações filosóficas, condutas sexuais orientadas para a heterossexualidade e mesmo para a homossexualidade ocasional,  entre outros. Esta sintomatologia pode ser assim apresentada: busca de si mesmo e da identidade; tendência grupal; necessidade de intelectualizar e fantasiar; desorientação temporal; evolução sexual do autoerotismo; atitude social reivindicatória; contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta; separação progressiva dos pais; constantes flutuações do humor e do estado de ânimo.

2.1 A Anorexia e a Bulimia: Etiologia e Tratamento Médico

Atualmente o termo “anorexia” não é utilizado em seu sentido etimológico para a “anorexia nervosa”, visto que tais pacientes não apresentam real perda de apetite até estágios mais avançados da doença, mas sim uma recusa alimentar deliberada, com intuito de emagrecer ou por medo de engordar.

Durante a idade média, as práticas de jejum foram compreendidas como estados de possessão demoníaca ou milagres divinos conhecidos como “anorexia sagrada” que se expressavam pela supressão de necessidades físicas e sensações básicas de corpo para alcançar metas espirituais superiores.

Embora não se possa afirmar que a atual concepção de anorexia nervosa esteja relacionada aos casos de “anorexia sagrada”, em virtude de documentação falha e incerteza quanto às reais motivações, sentimentos e crenças das santas, alguns paralelos são evidentes: ambas não toleram as consequências do “comer”, ambas representam “estados ideais”

O primeiro relato médico sobre anorexia nervosa, data  de 1689, em livro sobre doenças consumptivas, o qual descreve dois casos de origem nervosa.

É ainda na segunda metade do século XIX que a anorexia nervosa emerge como uma entidade clínica independente, com sintomatologia e patogenia distintas, com os relatos quase que simultâneos em 1873, do médico inglês Gull e do psiquiatra francês Lasègue. É provável que Charcot tenha sido o primeiro a detectar, por volta de 1889, o aspecto psicopatológico central que motivava as mulheres anoréticas a jejuar: (a “idée fixe d’obesité”) ou fobia de peso.

A partir de 1914, ocorre uma mudança marcante na compreensão da anorexia nervosa, que passa a ser vista como uma doença puramente orgânica (somática) quando Simmonds descreveu um caso fatal de caquexia, no qual a autópsia revelou atrofia do lobo anterior da hipófise. A anorexia nervosa passou a ser confundida com a Doença de Simmonds (hipopituitarismo) com sérias implicações terapêuticas (Groisman, 2012). Outra forma de se conceber a anorexia nervosa foi como variante de outras doenças psiquiátricas, principalmente da histeria, da esquizofrenia, do transtorno obsessivo e da doença afetiva.

Na década de 1970, começam a surgir critérios padronizados para o diagnóstico da doença com base nos distúrbios psico biológicos e psicopatológicos, desenvolvidos para atender tanto as necessidades clínicas, como as de pesquisa. De modo geral, os critérios ressaltaram: a perda considerável de peso, a preocupação mórbida com o risco de engordar, alterações na percepção corporal e disfunções endócrinas.

Para manter o peso corporal relativamente constante,  vários mecanismos fisiológicos, periféricos e centrais atuam de maneira orquestrada. O peso corporal é mantido dentro de certos limites por vários anos através de sinais de feedback que controlam a ingestão de nutrientes. Grandes lesões no hipotálamo, além de fatores hormonais, plasmáticos de glicose, controle externo e neuroquímico do organismo, afetam invariavelmente muitos sistemas de controle alimentar. O comportamento alimentar, portanto, é um processo multimediado. Dentre as perturbações alimentares importantes do organismo, a Anorexia Nervosa e a Bulimia, envolvem as causas apontadas por este autor, de origem hipotalâmica (Brandão1995, p.65).

Para o diagnóstico da Anorexia nervosa, é necessária uma redução de 15% do peso físico original, e não pode existir qualquer doença física intercorrente. É uma das poucas doenças psiquiátricas que podem ter um curso progressivo até à morte. Acentuada queda do interesse sexual, comportamento obsessivo-compulsivo, ansiedade e depressão, frequentemente acompanham a anorexia nervosa. Acredita-se que o estresse seja o principal fator desencadeante da anorexia. E segundo o autor, em recentes estudos de casos, observou-se que,  subjacente ao estresse que precipitou a anorexia, estava o medo de um fracasso, baixo desempenho escolar e perfeccionismo.

O tratamento inicial é hospitalar e consiste na restauração do estado nutricional do paciente, uma vez que o seu desequilíbrio pode levar ao óbito.

A Bulimia, por sua vez, apresenta-se como um distúrbio caracterizado por comportamento alimentar excessivo, compulsivo e episódico. O desconforto físico, como dor abdominal ou sensações de náusea, que é seguido por depressão e pensamentos autodepreciativos, além de exercícios físicos em excesso, indução do vômito, uso regular de laxantes e diuréticos. A Bulimia e a Anorexia ocorrem geralmente na adolescência e início da idade adulta, e acomete principalmente indivíduos do sexo feminino.

2.2 A abordagem psicanalítica da Anorexia nervosa e da Bulimia

Freud (1904-1905) fala sobre as contradições e das contra indicações da psicanálise para os casos de anorexia, uma vez que a prática psicanalítica não visa a eliminação dos sintomas. Esta é uma tarefa médica. Entretanto, em 1893, nos Estudos sobre histeria, Freud e Breuer consideram a presença de vômitos crônicos e anorexia, levados ao extremo de rejeição de todos os alimentos como um dos principais sintomas que estariam ligados à histeria. Pouco depois, em 1895, Freud apresentou novamente a anorexia como sintoma histérico. A magreza decorrente de a restrição alimentar era entendida como sintoma conversivo, não podendo se separar da estrutura da histérica.

No rascunho G (1895), Freud estabeleceu a relação entre a anorexia e a melancolia, por um lado, e entre a melancolia e a histeria, por outro, e foi nesse trabalho que Freud também associou a anorexia nervosa como sendo análoga da anestesia sexual, evidenciando a relação entre a aversão sexual e à repulsa alimentar. A falta de apetite estaria presente, portanto em sua vertente alimentar e sexual, principalmente nas jovens nas quais a sexualidade não teria se desenvolvido, isto é, estaria recalcada. O recalque da sexualidade na melancolia e a alta incidência da anorexia no sexo feminino reforçam a relação entre esses quadros e a histeria.

Foi somente anos depois, com o caso do Homem dos Lobos (1918), que Freud voltou a mencionar a anorexia, onde relatou o distúrbio do apetite de seu paciente como resultado de algum processo de sexualidade, ocasião em que relatou que a anorexia nervosa como característica das meninas, cuja irrupção se daria no período pubertário.

Freud introduz algo novo, sugerindo uma relação ente a anorexia e a fase oral ou canibalesca do desenvolvimento libidinal.

É sabido que existe uma neurose nas meninas que ocorre numa idade muito posterior, na época da puberdade ou pouco depois, e que se exprime à aversão à sexualidade por meio da anorexia. Esta neurose terá   que ser examinada em conexão com a fase oral da vida sexual. (FREUD, 1918; 133)

Em Luto e Melancolia, (1917-1918)Freud apontou a recusa de alimentos como sendo decorrente de uma melancolia severa. Pela impossibilidade de investir libidinalmente em novos objetos, o sujeito ficaria reduzido ao seu próprio eu, se autoconsumindo. Portanto, a recusa de alimentos, seria um sintoma presente em formas graves de melancolia.

A partir da década de sessenta houve uma mudança na literatura sobre a anorexia nervosa. Alguns autores deixam de enfocar a relação com a fase oral e conflitos intrapsíquicos e passam a considerar as relações interpessoais, dando relevo à relação mãe e filha.

Nos dias atuais, a psicanálise discute a clínica dos chamados novos sintomas (Recalcati, 2004), apontando para o fato de que vivemos numa época, onde o discurso capitalista e o da ciência realizarem uma “expulsão-anulação do sujeito do inconsciente”. Os novos sintomas, segundo o autor, “configuram- se como um efeito desta expulsão, sendo produtos específicos do discurso capitalista em seu enredamento espectral com o discurso da ciência”. Ao valorizar o particular do sujeito, eixo de sua ética, a psicanálise promove um enfraquecimento das referências descritivas da Anorexia e Bulimia Nervosa como comportamentos, distúrbios ou transtornos observados a nível fenomenológico.

Com Freud e Lacan, pode-se afirmar que não se trata de uma disfunção nutricional a ser retificada por uma reeducação alimentar,  como se esses distúrbios estivessem ligados a uma desregularão das necessidades vitais. Diferentemente desse ponto de vista, a psicanálise aponta para a perspectiva de se considerar os sintomas anoréxicos e bulímicos a partir do campo  da linguagem e do gozo. Recalcatti (2004), a prática bulímica não é realmente uma formação do inconsciente no sentido clássico, mas apresenta-se como prática pulsional, como pura forma de gozo que contrasta com o sujeito do inconsciente.

Em Silva e Bastos, (2003), citando Lacan (1956; 57 \1995), a anorexia  apresenta-se como “um comer nada” e não como um “não comer”. Nesse sentido, ela se  constitui como um sintoma que coloca em ato a falta através “desse nada”. Comer nada é uma maneira encontrada pelo sujeito para introduzir uma falta no Outro, para interpor um “não” a “papinha” sufocante que o Outro oferece incessantemente. Essa forma do  sujeito colocar-se diante doOutro, cria uma defasagem  entre o que este sujeito tem  e o que ele de fato deseja, colocando em jogo algo de ordem estrutural, constitutiva do sujeito.

Com Lacan, a psicanálise buscou encontrar resposta para o fato de como este processo evolui, mais tarde para as formas de anorexia.  E, os autores apontam, a partir do ensino lacaniano, que na anorexia, ao ser convocado no lugar daquele que não tem, daquele marcado pela falta, o Outro primordial responde com o alimento, ou seja, “confunde seus cuidados com o dom de seu amor” (Lacan, 1958/1998: 634, apud Silva e Bastos)

Diante da angústia por não saber o que o sujeito lhe está demandando, por não entender o que o choro do bebê significa, o Outro responde com o alimento, ou seja, reduz a falta à falta de alimento. O sujeito, massacrado pelos cuidados do Outro, encontra como solução, como via de sustentação do desejo, a recusa do objeto oral. O sujeito propõe que o Outro busque um objeto de desejo além dele, fora dele, porque assim ele próprio encontrará o rumo do desejo. Recusar o alimento é, portanto, uma forma de assegurar que algo falta ao Outro, que a falta não pode ser reduzida à falta de alimento, e mais, que a falta é estrutural, não podendo ser suprimida por nenhum objeto (Silva e Bastos, 1958/1998).

2.3 A Clínica Psicanalítica Frente ao Sintoma

Este é o relato de uma entrevista realizada com Roberto Assis Ferreira, médico, fundador e coordenador do Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia-NIAB, do Hospital das Clínicas da UFMG, e coordenador do Núcleo de pesquisa em Psicanálise e Medicina do IPSMMG.

O NIAB- Núcleo de investigação em anorexia e bulimia  funciona desde 1996 e não só investiga como também trata os casos de Anorexia e Bulimia.

A investigação do núcleo surgiu a partir de 2001, quando alguns profissionais que trabalhavam no NIAB fundaram um núcleo de estudos, para que fosse possível investigar e estudar mais profundamente os casos de anorexia e bulimia.

Segundo o seu coordenador, o objetivo não é apenas diagnosticar o paciente, mas realizar um acompanhamento ambulatorial, com um atendimento interdisciplinar, ou seja, cada profissional atende o paciente de acordo com sua formação e especificidade técnica. Um profissional interage com  o outro, e, dessa forma vai se construindo  a visão do quadro clinico do paciente.

A decisão pelo formato do trabalho com anorexia e bulimia aconteceu pelo fato de pacientes com os sintomas os procurarem. Nas palavras do Dr. Roberto, “

Na verdade eu não fui atrás da anorexia e da bulimia, elas vieram atrás de mim. Sou médico e sempre trabalhei com a questão da desnutrição infantil, no setor de pediatria. Em 1968 comecei a trabalhar com adolescentes. A partir daí foram  surgindo pacientes com quadros clínicos anoréxicos ou de bulimia.

Com o trabalho com os adolescentes, o médico começou a se interessar pela área de saúde mental e pela psicanálise. Em 1996 atendeu  o primeiro caso de anorexia, e depois veio outro, e assim por diante […] Ele relata ainda que a anorexia questiona o saber da medicina tradicional. “Qual atitude o médico vai adotar diante de um paciente anoréxico? Ele vai curar? Não existe essa possibilidade de cura, pois, a anorexia não é uma doença, ela é um sintoma”

O NIAB é um programa do SUS (Sistema Único de Saúde) o que dificulta definir o paciente quanto ao seu nível socioeconômico. A maioria dos pacientes chega através de encaminhamento dos postos de saúde, mas o NIAB também atende muitos pacientes do interior.

A faixa etária é bem abrangente, o medico relata já ter atendido pacientes com 9 anos e com mais de 40, mas a maioria (cerca de 80%) está na fase da adolescência (entre 12 e 20 anos), sendo que cerca de 90% dos pacientes são do sexo feminino.

Nos homens a anorexia parte da vigorexia, que é a vergonha do próprio corpo. Os estudos do núcleo apontam para um quadro de bullying acompanhando o histórico desses pacientes. É realmente, em sua  maioria, uma questão de estética. Já nas mulheres verifica-se uma outra realidade. A anorexia tem uma ligação muito forte com a recusa do corpo feminino, com o fato de negar o amadurecimento presente na  transição do período infantil para o adulto. Muitas vezes vem acompanhado com uma grande recusa da sexualidade. Para a menina se tornar mulher existe uma grande responsabilidade, e essa mudança se inicia pelo corpo.

Quadros de anorexia feminina podem vir acompanhados de um momento em que a menina tem que se separar da mãe sair do mundo protegido pela família e deslocar-se  para o social. A anorexia é uma grande recusa; recusa ao corpo, à sexualidade á maturidade, e a todas as responsabilidades sociais que essa mudança implica. A anorexia também pode ter como fundo alguma doença psiquiátrica.

Dr. Roberto afirma: “Nossa Orientação é a psicanálise, pois acreditamos que a anorexia é um sintoma e não uma doença”.A medicina parte do pressuposto de que a anorexia é um transtorno que gera uma doença. Pensando na anorexia como um sintoma estamos dando espaço para que o paciente se trate. O próprio paciente trabalha seu sintoma, pois, cada paciente, cada caso é único e singular.

Precisamos trabalhar a confiança dele para que ele sinta segurança em se abrir com um de nossos profissionais. É muito complicado e raro um paciente se abrir logo na primeira consulta, por isso os profissionais do NIAB vão, aos poucos conquistando espaço, sempre respeitando o limite do paciente […] Gosto muito de usar o termo “envelope. Cada paciente é como um envelope, pois a carta (o conteúdo) que está lá dentro ainda é desconhecida. A maioria dos pacientes chega com o mesmo discurso, de que queria emagrecer, estava fazendo uma dieta, e que quando percebeu já estava anoréxica.

Como profissionais, a equipe do NIAB sabe que não é tão “simples” assim: Dentro desse “envelope” existe uma carta, que  traz todo um histórico.

E é justamente esse histórico que vai interessar […] Não existe nenhuma possibilidade de intervenção com o paciente se não existir transferência, esse é o ponto principal e básico de partida. Sem a transferência o paciente não vai se abrir com o profissional. Em minha opinião, a psicanálise é a área do saber que mais ajuda a entender a anorexia.

A equipe do NIAB é composta por: Clínico, psiquiatra e nutricionista, alinhados com o mesmo paradigma de intervenção. O primeiro passo da equipe é o acolhimento, à primeira consulta: o paciente já chega através de um encaminhamento, com um diagnóstico médico. Esse profissional que acolhe o paciente na primeira consulta vai criando um laço de confiança com ele, e preparando o espaço para a entrada e intervenção de um próximo profissional:

Aqui temos um trabalho de intercâmbio, discutimos durante quase todos os fins de tarde sobre os atendimentos. Mensalmente acontece uma discussão dos casos mais sérios com toda a equipe, e, semestralmente uma apresentação de pacientes.

O NIAB aborda as questões sociais ligadas ao problema da anorexia nervosa, compreendendo que todas as pessoas vão passar pela puberdade, e que  cada pessoa passa por essa fase de uma maneira diferente da outra. Algumas conseguem passar de maneira mais tranquila, outras, por causa de barreiras encontradas (família, cultura, religião, etc.) apresentam maiores dificuldades. Essas barreiras podem causar sérios problemas na pessoa, e algumas dessas podem desenvolver a anorexia. “Por isso cada caso é extremamente particular”, conclui Roberto, é singular. “Não tem como generalizar. Por isso cada trabalho é único, procuramos ouvir e conhecer o paciente, para que possamos montar um quadro  e ai sim traçar o que é melhor para aquele paciente.”

3. Metodologia

Este trabalho de campo é parte de um projeto interdisciplinar, realizado por um grupo de quatro acadêmicas do curso de Psicologia da FCMMG.

Especificamente, explorou a prática do Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia-NIAB , e buscou contextualizar esta prática dentro dos propósitos de análise temática. O sujeito da pesquisa foi o coordenador do referido Núcleo.

Do ponto de vista qualitativo, foi realizada uma análise temática, feita sobre os dados coletados em questionário semiestruturado que orientou a entrevista e a visitação ao Núcleo. Para a sua realização foi necessária a busca de dados na literatura que constituiu a base para a pesquisa, juntamente com a utilização do instrumento da entrevista. O referencial teórico foi elaborado com base em artigos coletados nas bases eletrônicas de dados científicos e específicos das áreas integradas nesta exploração. Os dados da entrevista foram tratados segundo a compilação das respostas oferecidas pelo entrevistado.

4. Discussão

A Anorexia e a Bulimia estão inseridas em um contexto, onde  um único campo do saber não é suficiente para abordá-las. Por se tratar de um quadro psiquiátrico, que pode inclusive levar o sujeito ao óbito, exige que a discussão interdisciplinar seja feita no sentido de garantir uma abordagem do sujeito em sua integralidade.

O que se demonstrou como grande obstáculo, no entanto, muito mais do que o sintoma, é a realidade atual que não favorece o surgimento do sujeito por trás da máquina do consumo, e também pelo fato da maior incidência de casos acontecer no período da adolescência, o que  pode oferecer espaço para  inferir  uma situação delicada e de risco para meninos e meninas, em processo de crise de crescimento marcada por tantos sobressaltos afetivos, sexuais e sociais.

Conforme abordado na clínica dos Novos sintomas, percebe-se a  necessidade de construção de uma nova postura  clínica capaz de superar o limite das interpretações positivistas e cientificistas dos sintomas, considerando, a partir disso, a implicação do clínico no processo de tratamento.

Expostos a uma força globalizante e massificadora, os adolescentes colocam em jogo  novos impasses à intervenção do analista, que no compreender de Lima ( 2002), o fazem na tentativa de fazer sobreviver uma singularidade ali, no lugar onde estão submetidos às demandas de um discurso social mercadológico, que tenta, de todas as formas, apagar as possibilidades de escolha e de desejo.

Não se trata, portanto, da busca de eliminação do sintoma, mas sim da leitura deste para uma compreensão mais aprofundada. Trata-se, por parte do clínico, da tomada de posição frente ao sujeito em  suas circunstâncias e contingências,  buscando uma rearticulação dos saberes afim de que a excelência de cada um opere a favor  da restauração da saúde em todos os níveis.

Recalcatti ( 2004) afirma que a questão preliminar é o manejo da expulsão ou  exclusão do sujeito do inconsciente, único capaz de garantir singularidade ao desejo. Trata-se de um empreendimento ético que ponta para uma mudança de perspectiva na abordagem clínica dos novos sintomas, capaz de resgatar a dignidade desses sujeitos.

5. Considerações Finais

A adolescência apresenta vários caminhos para ser abordada. Mas, nenhum deles parece ser tão importante quanto os que apontam para o  resgate da integralidade do sujeito, para que assim possa viver seus conflitos e diferenças.

A psicanálise talvez tenha tanto a dizer, pelo fato de Freud e Lacan terem sido grandes investigadores da cultura. Este talvez seja um legado científico capaz de propor saídas para tal resgate e para a construção de uma identidade capaz de não sucumbir diante dos descaminhos propostos pelos novos tempos.  Discutir os novos sintomas é também discutir novas posturas e posicionamentos diante da realidade atual.

A Questão da Dependência Química Associada à Função Paterna e Outros Conceitos da Psicanálise

menino-fumando-maconhaA abordagem desse artigo surgiu a partir de observações em uma comunidade terapêutica religiosa, acerca de atendimentos de acolhimento individual psicológico com indivíduos que faziam uso de drogas, principalmente álcool, crack e cocaína, assim como alguns que se encontravam em situação de rua. Apresentar-se-á o tema sobre a dependência química relacionada com alguns conceitos psicanalíticos, de forma não muito minuciosa, tais como, pulsão, sendo este estimulante de carga energética na vida de qualquer pessoa, será relatado também sobre a transferência e sobre o luto relacionado à execução ou não, da função materna e paterna. Podemos dizer que o pai é o representante da lei, da regra, é o que proíbe. Sendo que, se essa função falhar o sujeito vai estar exposto aos mais variáveis conflitos psíquicos.

Palavras-chave: Dependência química, função paterna, comunidade terapêutica.

Introdução

Uma vez que é importante ressaltar nesse contexto é olhar sugerido voltado para o sujeito, enquanto sua subjetivação e sua funcionalidade, e não o focar em substâncias químicas enquanto isoladas, assim também, como tentar perceber para além da cristalização do diagnóstico que esses dependentes químicos geralmente recebem. “De qualquer forma, entramos em terreno pouco confortável para um debate na perspectiva da Psicanálise, que é o tema da felicidade e o modo como obtê-la. Ainda mais: o que cada um pode fazer para sustentá-la ao seu modo” (CIRINO e MEDEIROS, 2006, p. 101).

O abuso de drogas seria uma busca por alguma solução, que produz efeito imediato de satisfação, podendo fazer com que algum tipo de sentimento desagradável se recolha momentaneamente do estado presente do sujeito. Sabe-se que o desejo do prazer constante é uma falsa ideia do real, pois a relação que estabelecemos com o mundo é caracterizada, também, por acontecimentos de desprazer associados ao prazer.

Uma vez que o ser humano em sua grande parte, tem como proposta para si, a busca da felicidade permanente que vai se relacionar com a ausência de dor e desprazer e a vivência de grandes prazeres, onde o sujeito pode se relacionar estritamente com esta última, enquanto talvez uma busca de sentido de algo que escapa dele. Segundo Freud, no seu texto: “Os instintos e suas vicissitudes” em 1915 vai dizer que, o princípio de prazer, enquanto à série prazer-desprazer está ligada ao poder dos estímulos que, enquanto sentimentos desagradáveis aumentam , os sentimentos agradáveis diminuem. Esses estímulos que tem origem no organismo referem-se, principalmente, ao que diz respeito às pulsões, estas como sendo uma força constante. Onde o sistema nervoso tende ao máximo reduzir ou tentar eliminar esses estímulos. Porém nesse texto Freud deixa essa suposição aberta a novas descobertas possíveis relacionadas, ficando assim, um pouco indefinida. Mas podemos dizer que essa tendência do princípio do prazer, com busca de evitar a sensação de dor e desprazer, o Eu tende a ser contra toda fonte de desprazer, e isso pode se dar através de métodos utilizados do mundo exterior, como por exemplo, o uso de substâncias tóxicas, onde estas, além de produzir efeito imediato, como já mencionado, elas podem proporcionar uma maneira de ‘descolamento’ do mundo externo, no sentido de certa independência, podendo criar assim para o individuo que usa, seu próprio mundo.

“A clinica psicanalítica na urgência denuncia a ilusão de completude e de eternidade, afirmado a finitude. O sujeito está diante de um mundo que lhe aponta muitas impossibilidades e, diante do desamparo e do real da castração, a insegurança e a angustia se multiplicam, revelando para ele sua dimensão dolorosa e sangrenta” (SILVA, p. 14).

Para melhor entendimento a partir dos pontos referidos até aqui, é válido ressaltar o conceito de pulsão, que se dá sobre os termos utilizados sobre sua ‘pressão’ que compreende como fator motor enquanto seu nível de exigência, a sua ‘finalidade’ que é a eliminação de uma necessidade, ou seja, o fornecimento de satisfação, que não será total, o seu ‘objeto’ que é a via pela qual a satisfação vai acontecer que pode ser por meio de alguma coisa ou pelo próprio corpo, e a sua ‘fonte’ que é uma relação somática. Esses termos também são abordados por Sigmund Freud no mesmo texto citado anteriormente.

No caso, poderíamos dizer que essa pulsão se passa no ato, sobre um objeto. Diante do que foi visto até agora, pode-se dizer então que a intoxicação seria um tipo de defesa, uma saída desses dependentes químicos, ou até mesmo, talvez em algum momento a bebida possa nos dizer da impotência para lidar com o real, relacionado também a algo que lhe falta.

Quando Freud relata, em 1904 no seu livro “Os chistes e sua relação com o inconsciente”que as origens do alcoolismo e uso de outras drogas estaria associado à fase oral do desenvolvimento do sujeito, ou seja, em seu estado primário, relacionando-o assim ao conceito de regressão, nos faz associar a ideia da relação mãe-bebê, e secundariamente remete a relação pai-filho. De forma geral o que vamos destacar agora, para o objetivo desse artigo, sem dar ênfase em outros detalhes importantes da teoria psicanalítica, seria a mãe enquanto primeiro contato de prazer e desejo que o filho teve pela via do seio materno. Nesse momento a relação mãe-filho é incestuosa, no imaginário do filho, pois a mãe proporciona por essa zona erógena aquilo que o satisfaz, depois o pai entraria nessa relação, como aquele que viria a fazer essa ‘separação’ entre o filho e mãe, simbolizando aquele que é o representante das proibições, das normas, das regras e das leis. Em relação ao pai e sua função de soberania “a instância do pai simbólico, é antes de mais nada a referência à Lei da proibição do incesto(…)”,(DOR, 1991, p. 16)  podemos também citar:

No sentido habitual do termo, o embaixador representa seu governo junto ao estrangeiro, a fim de assumir a função de ali negociar todas as operações entre eles. Não poderia haver definição mais adequada no que diz respeito aos pais, compreendidos na sua realidade e na sua história. Aproximando-nos da metáfora, designemos então o pai, no real de sua encarnação, como devendo representar o governo do pai simbólico, encarregado por ele de assumir a delegação desta autoridade junto à comunidade estrangeira mãe-filho. (DOR, 1991, p. 14)

Nesse sentido a psicanálise vai dizer que o pai tem grande elevação determinante na vida futura de um filho, sobre vários significantes, “que vão do afetivo ao sexual, e que estes moldam a cognição do individuo e sua relação com o social” (KARDOUS, 2012, p. 19).A função paterna enquanto realmente faltosa, pode levar o filho a querer buscar nas drogas uma manifestação, no que tange uma esperada estrutura familiar, que essas questões interpessoais não vão bem, podendo vir a ser também como uma forma de apelo o uso de álcool e outras drogas, para uma contenção, como no caso quando as atitudes do sujeito fogem a normas regidas pela sociedade como, o desacato à autoridade, por exemplo, quando acontece de os policiais serem agredidos. “O homem de ação não largará o mundo externo, no qual pode testar sua força”(FREUD, 2011, p. 28).

Baseando no acolhimento dos sujeitos que se encontram em uma comunidade terapêutica, observou-se que grande parte teve ausência do pai e/ou da mãe, no sentido da relação faltosa da função deles. Alguns apresentaram em seu contexto familiar conflitos estressantes, causadores de tensão e angústia, no que se refere a discussões entre os próprios pais presenciadas pelo filho, ou somente com este último. Outros diziam do pai alcoólatra, mas a grande maioria dos acolhidos dessa comunidade apresentou perda do pai ou da mãe, e até mesmo de ambos, pelo falecimento, diante esse nível de morte se mostrar elevado, seria interessante enfatizarmos agora na questão da perda, em relação ao luto e sua elaboração:

“A ansiedade em relação à perda vê-se confirmada, enquanto a demanda de amor segue pulsando e exigindo satisfação: isso cria uma atmosfera de falta de segurança, de tristeza e de suspeitas terríveis de ter sido responsável pelo abandono, causador invisível da desgraça. É medo terrível de ser um dos responsáveis pelo estrago das coisas boas ou gerador de morte. (PINTO, 2009, p. 87).

Geralmente, no enlutado, o seu mundo se estabelece com pobreza de sentimentos agradáveis associados com o mundo externo. Então o sujeito supostamente tem-se o pensamento de que ‘algo’ o foi tirado, alguma coisa se perdeu ou, o sujeito sabe que perdeu alguém, mas de fato, não sabe o que, foi perdido dele próprio nesse alguém. No luto, precisa de certo tempo para elaboração da reação à perda para poder se fazer eficaz a compreensão desta, e se esta for bem elaborada pode trazer compreensões internas. Assim vai dizer Freud em 1915 no seu texto sobre “Luto e Melancolia”. Mas a todo o momento estamos a perder ‘alguma coisa’ então, o importante para o papel do analista seria tentar perceber de que maneira essas perdas são internalizadas e reconhecidas pela subjetividade de cada ser humano tentando ajudá-lo a dar um novo significado para sua vida.

“Curar as dores psíquicas não é se anestesiar. Ao contrário, é ampliar as capacidades de suportá-las e transformá-las em beneficio de si e dos outros” (PINTO, 2009, p. 88).

Ao que pertence o papel do analista frente esses sujeitos em posição de tratamento podemos ter em mente o conceito de transferência, que se dá na relação de amor, assim como em qualquer relação, como no caso do analista e analisando, esse primeiro vai ser atribuído pelo segundo com símbolos importantes para ele, ou melhor, dizendo, o analista vai ser imputado pelo paciente, como objeto que tem o que lhe falta, como sendo ele, uma pessoa de suposto saber. Essa relação tem papel muito importante para o tratamento, e quando bem desenvolvida pode proporcionar ressignificação para a vida do sujeito, “toda via, o instrumento principal para reprimir a compulsão do paciente à repetição e transformá-la num motivo para recordar reside no manejo da transferência” (FREUD, 1914, p. 169).

A condução do tratamento depende principalmente de quem esta sendo analisado, mas vai caber ao analista à maneira de como irá relatar as resistências apresentadas, e de não solucionar o problema que vai ser demandado, mas sim, indagar o paciente fazendo possível que o mesmo questione-se sobre sua própria função. Maurano (2006) vai dizer que “Dar o que não se tem é dar a falta. Mas isso só é indício de amor se dar a falta for oferecer de operar com ela, de produzir a partir dela.” (p. 47).

Considerações Finais

Frente a essas questões e conceitos brevemente desenvolvidos no artigo, sugere-se segundo a psicanálise que o sujeito sempre estará em movimento para realização dessa incompletude da qual se nasce, buscando assim, algo a ser construído, algo a ser preenchido. No caso dos indivíduos intoxicados analisados na comunidade terapêutica religiosa, como hipótese, a finalidade da pulsão que regem nestes pode também, estar associada na não elaboração da morte do pai e/ou da mãe, enquanto real ou imaginário, sendo que na maioria dos casos esses faleceram entre a infância e adolescência dos filhos.

Entretanto em geral, o que é de intenção maior desse artigo, é a ênfase na função do ‘Pai símbolo’ enquanto universal, o encarnado como ‘Pai real’, que possivelmente só existiria enquanto ‘Pai imaginário’, nas relações de fantasias ou até reais da criança relacionada ao seu ambiente familiar, assim explica Joel Dor em seu livro: “O pai e sua função em Psicanálise”. Então, supostamente conclui-se que se essa função de Pai simbólico for faltosa, o sujeito exposto a isso pode passar por conflitos internos, e que possivelmente, pode desejar buscar fora do diálogo interpessoal algo que lhe falta, que pela via do contexto do artigo seria pelo álcool e por outras drogas. Sobre a função do analista:

“Não cabe ao psicanalista devolver à família ou ao paciente a harmonia perdida, mas sim possibilitar que eles adquiram mais recursos para lidar com sua angústia. E através da escuta, perceber como o desejo dependa da relação corpo-doença-saúde” (MOURA, p. 18).

FREUD, S. (1996) Luto e melancolia . Edição Standart das Obras Psicológicas Completas.(Vol.: XIV, pp. 243-263). Rio de Janeiro: Imago (Obra original publicada 1917[1915])

FREUD, S.(2011) O mal – estar na civilização. São Paulo: Schwarcz

FREUD, S. (1996) Os instintos e suas vicissitudes. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. (Vol.:XIV, pp. 115-149). Rio de Janeiro: Imago ( Obra original publicada em 1915)

FREUD, S. (1996) Os chistes e sua relação com o inconsciente. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. Vol.: VIII.  Rio de Janeiro: Imago ( Obra original publicada em 1905)

FREUD, S. (1996) Recordar, Repetir e Elaborar : novas recomendações sobre a técnica da psicanálise II. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. (Vol.: XII, pp. 159-171). Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1914)

Coleção memória da psicanálise : Melaine Klein. Pinto, Graziela Costa. (2009) Vol.: IV. São Paulo : Duetto Editorial.

DOR, J.  (1991). O Pai e sua Função em Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda. (Obra original publicada em 1989)

Revista Psique – ciência e vida, AnoVI- Edição 80- Agosto/2012 Editora Escala Ltda.

MAURANO, D.( 2006) A transferência: uma viagem rumo ao continente negro.-  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

MOURA, G. M.. Psicanálise e Hospital 3- Tempo e morte : Urgência subjetiva e Tempo- o que É Isto?

SILVA, D.D.  Psicanálise e Hospital 3- Tempo e morte : A Apropriação Imaginária do Tempo na Práxis da urgência.

CIRINO, O;. M, R. (2006) álcool e outras Drogas : escolhas, impasses e saídas possíveis.Belo Horizonte : Autêntica.