Arte e psicanálise: desejo, amor e morte

UM homem – UMA Mulher: Desejo e a/morte.

Trabalho apresentado na Reunião Laconoamericana de Psicanálise de Buenos Aires 2013.

um homem uma mulher 1966Cineastas, poetas, roteiristas, dramaturgos, atores, diretores, músicos, artistas! Todos esses nos ensinam! A arte nos ensina, da DOR, fazer arte! Muitas vezes, de forma poética eles trazem um discurso sobre o desejo, amor, como também a morte. Ousam definir um abismo intransponível que separa o homem da mulher.

São sempre vivos em nossos consultórios. Como alguns filmes são eternos, não importa, se cronologicamente já se passaram quarenta e sete anos, no discurso do analisante, o filme é atual.

Um homem, uma Mulher é um filme francês, de 1966, dirigido por Claude Lelouch. E muito esse filme tem a ensinar, dizer e a tornar claro a teoria. Por quê? Me diz esse analisante em várias sessões e de todas as formas:

“o filme é lindo! É lindo porque o amor é aquilo ali! Nada mais que aquilo! Há uma impossibilidade de nós homens chegarmos até uma mulher! As mulheres são muito complicadas, cultivam os mortos, cultivam o passado e se esquecem de viver!”

Nas sessões que seguem o analisante vai contando a história do filme e se vê na tela projetiva do cinema. Diz, que ele se parece com o piloto de corrida Jean – Louis Duroc (Jean – Louis Trintignant), porque assim como o personagem do filme, é um viúvo que todos dias leva o filho para escola. E na reunião de pais, conheceu uma mulher, mãe de uma criança, colega de escola do filho. Assim começam as semelhanças e os entrelaçamentos da vida desse analisante com os protagonistas do filme de Claude Lelouch. O filme é um clássico, está na qualificação daqueles, que podemos chamar de obra de arte: situa a relação sexual como impossível, preocupado em mostrar o que falta à completude desejada, porém jamais obtida pelos sujeitos. Ganhador do Oscar em 1967, venceu nas categorias de melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original. Indicado nas categorias de melhor atriz (Anouk Aimée) e melhor diretor. Vencedor do Festival de Cannes em 1966 (França) e do Globo de Ouro em 1967 (EUA) nas categorias de melhor filme estrangeiro e melhor atriz de cinema – drama (Anouk Aimée). Indicado nas categorias de melhor diretor de cinema, melhor trilha sonora e melhor canção para cinema. Em 1968, BAFTA, no Reino Unido, venceu na categoria de melhor atriz estrangeira e foi indicado na categoria de melhor filme de qualquer origem. Claude Lelouch, argumentista, produtor e realizador de cinema francês que com maestria e delicadeza dirige e o produz esse filme, se eterniza por todas as gerações. Tem algo de interessante no cinema, que de certa forma captura o espectador, pois ele ousa definir e se impor

como uma linguagem privilegiada para a veiculação de um saber sobre o amor e o sexo. Seja pela duração média de um filme, cujo tempo imprime um ritmo preciso que exige que, tal como uma fantasia onírica, uma história seja contada com rapidez do princípio ao fim; seja pela estrutura envolvente da narrativa cinematográfica, com seu poderoso apelo simultâneo à imagem, à palavra, à música e a tantos outros recurso cênicos; (JORGE, 2012, p. 175)

Foi nesse ritmo que o diretor Lelouch utilizou a cor para localizar os espectadores no tempo, há quem escreva, que por falta de dinheiro na época, o diretor intercala cenas coloridas, com cenas em preto e branco. Efeito esse que em psicanálise, permite ter uma outra leitura e analisar: o colorido representa as lembranças, vivas! Presentes! Enquanto que as cenas em preto e branco, são as cenas cotidianas. O jogo de cores, faz efeito analítico. Pois diversas vezes escutamos em nossos consultórios:

“o passado está vivo! Enquanto minha vida na cena cotidiana…em preto e branco se apresenta.”

As cenas coloridas do filme, são as cenas, que Anne (Anouk Aimée) fala para Jean – Louis (Jean-Louis Trintignant) a respeito do seu esposo. Sim, Anne, conta a sua história para Jean – Louis, pois ambos, antes de se envolverem sexualmente, tornaram-se amigos. Como? um homem uma mulher 1986 O piloto de corridas Jean-Louis Duroc e Anne Gauthier, dois viúvos recentes, encontram-se por acaso quando visitam seus respectivos filhos num colégio interno, e isso se repete todos os finais de semana. Um dia, Anne perde o trem e Jean-Louis oferece-lhe uma carona de volta a Paris, eles acabam por se tornar amigos e depois aparentemente enamorados, mas…. as lembranças do cônjuge falecido ainda são muito fortes para Anne. O que a psicanálise pode nos dizer sobre isso? Não sou roteirista, logo, não tenho roteiro fixo e nada sei. Mas já li em algum lugar da psicanálise, que para uma história de amor acontecer…..é porque duas fantasias se cruzaram! Só isso, nada mais que isso! Até porque, o amor é uma grande fantasia! Duas fantasias se cruzam em determinado momento, e aquilo, que é do sujeito, ele transfere para o Outro. Podemos dizer que isso é amor! O amor, está na capacidade que o sujeito tem de DAR….de dar o DOM, que é do sujeito e nada mais que isto, porque o Outro é sempre uma invenção. O objeto amado é criado, inventado, muitas vezes transformado por quem ama. Por isso que amar, é também muitas vezes morrer. Ir junto com quem se ama, não é ilusório ou impossível. Quantos mortos ainda estão vivos se fazendo presente em suas vidas. Assim acontece com Jean – Louis e Anne, ambos viúvos, Jean Louis, piloto de corridas, viúvo, pois sua esposa suicida-se por acreditar que em um dos seus acidentes de corrida, ele não teria recuperação e assim, a mesma não suportaria, viver sem Jean – Louis. Anne por sua vez viúva, vivendo o luto pela morte do marido, fala dele como se este ainda vivo estivesse. E em uma das cenas descreve a sua admiração:

“ele é dublê de filme, ator, ele me levou ao Brasil e me apresentou o Samba, sem em eu nunca ter ido ao Brasil. Ele se dizia o Francês mais brasileiro que existia, assim como Vinícius de Moraes se dizia o branco mais preto do Brasil.”

Para amar, é preciso antes de mais nada admirar, e não especificamente o Outro, mas o seu mundo. Sim, nos enamorados pelo mundo que o Outro pode nos oferecer. Percebemos a ligação entre Anne e seu esposo falecido: ela roteirista, ele ator, dublê – há uma parceria entre mundos. E nessa cena colorida do filme em que Anne descreve para Jean Louis a sua admiração pelo seu marido, como trilha sonora temos o nosso poeta Vinicius de Moraes juntamente com Baden Powell, em uma das suas parcerias mais lindas, poéticas e viva para descrever uma mulher….

Senão é como amar uma mulher só linda. E daí? Uma mulher tem que ter. Qualquer coisa além de beleza. Qualquer coisa de triste. Qualquer coisa que chora. Qualquer coisa que sente saudade. Um molejo de amor machucado. Uma beleza que vem da tristeza. De se saber mulher. Feita apenas para amar. Para sofrer pelo seu amor. E pra ser só perdão.

(MORAIS, Vinicius & POWELL, Baden. Samba da Benção, 1966.)

jacques lacanSim, uma mulher é não – toda. Há uma porção da mulher que não pode ser tocada pelo homem, permanecendo sempre virgem, intocada. O homem pode até possuir uma mulher falicamente, mas, não – toda! O não – todo é o que a há especifica enquanto mulher – impede que ela seja toda possuída. É o que Lacan (foto) introduziu em seu seminário livro 20: mais, ainda é uma seminário que fala do amor, bem como da sexualidade feminina. As afirmativas polêmicas de Lacan da década de setenta: A mulher não existe e não há relação sexual, Melman (2004) muito claramente nos afirmou: Para um homem, a imagem de uma mulher é o suporte desse objeto pequeno a, quer dizer, objeto de sua fantasia. Ou seja, mais uma vez é a parte do corpo da mulher, aqui parte imaginária, que vai ser o suporte do desejo. O que significa portanto, dizer que a relação sexual se estabelece não entre dois parceiros, que vão reciprocamente gozar de seus corpos, mas entre dois objetos que não são os mesmos para um e nem para o outro. As cenas passam, e entre tantas idas e vindas de Deauville – Paris; os amigos trocam suas confidências, os fins de semanas passam a ser divertidos com (ou sem) seus respectivos filhos. Eis que da amizade, surge o desejo de um homem para uma mulher; e vice-versa. Mas também com o desejo, eis que chega a inquietude e confusão. O desejo é, enquanto tal, irrepreensível e inominável; só há desejo se houver falta. Desejar é manter-se vivo, e talvez seja mais importante desejar do que realizar o desejo. É algo meio “louco” e repetitivo, mas na verdade o desejo almeja sua preservação, ele é desejo de desejo e, assim mantêm distância de sua própria realização. (Jorge, 2012) Nessa esfera do desejo, Anne, quando Jean Louis vence a corrida de carros, o passa um telegrama com os seguintes significantes: “Parabéns! Amo você. Anne”, o mesmo por sua vez, ao receber a mensagem, deixa todas as comemorações e seus amigos numa mesa de bar, enfrenta a noite e uma longa estrada para encontrar sua amada – amiga em Paris. Mas, não há nada de simples no desejo. Ao passo que Anne envia para Jean- Louis um telegrama, a relação é paradoxal. Algo constante entre “o feminino e o masculino: o amor próprio ao campo do feminino barra o gozo sexual inerente ao campo do masculino. Nessa tensão entre ambos, se situa o desejo e a castração”. (Jorge, 2012, p.172) E no ato sexual, as cenas em preto branco entre Anne e Jean-Louis, intercalam com cenas coloridas, recordações vivas que Anne possui do esposo falecido. Jean – Louis estranha o comportamento da parceira, pergunta o motivo e então ela responde: “Por causa do meu marido”; Jean – Louis pontua: “mas ele está morto.” Anne apenas diz que não, mesmo sem palavras…. freudPara Anne, o marido morto, ainda estava vivo. Eram recordações ainda não sepultadas, questões da própria Anne que naquele momento, Jean – Louis não poderia dar conta. Freud em 1910 em Um tipo de escolha de objeto feita pelo homem (Contribuições à Psicologia do Amor I); apontou como primeira condição para o amor a seguinte questão:

A primeira dessas condições para o amor pode ser designada como realmente específica; tão logo é encontrada, deve-se aguardar a presença das outras características desse tipo. É possível chamá-la de condição de um “terceiro prejudicado”; consiste em que o interessado nunca toma por objeto amoroso uma mulher que esteja livre, isto é, solteira ou sozinha, mas apenas uma mulher sobre a qual outro homem possa ter direitos, como noivo, marido ou namorado. Tal condição mostra-se inexorável, em alguns casos, que uma mulher poder ser ignorada ou mesmo desprezada, enquanto não pertence a ninguém, e logo se tornar objeto de paixão, ao estabelecer relação de um daqueles tipos com outro homem. (FREUD [1910] 2013; p.336)

Jean – Louis, seria o preterido em um determinado momento após despedir-se de Anne, ficou a pensar: “Não entendo nada de psicologia feminina. O marido de Anne deve ter sido um grande homem, talvez se fosse vivo…virasse um velho idiota, mas virou um grande cara e sempre será um cara formidável”… devaneia pensando nas mil e umas possibilidades. Quando na verdade podemos imaginar, que nesse momento, entram em cena as questões de Jean – Louis; pois….o amor parece que é afirmado diante da possibilidade do desaparecimento. É a aspiração de um mais além da morte, à perpetuação da vida além da morte. “Trata-se, nesse caso de afirmar o simbólico em toda a sua potência e, com isso, produzir um anteparo para o real”. (Jorge, 2012, p.174). E esse real, que naquele momento Anne não poderia viver com Jean – Louis, porque, Lacan vai um pouco além quando pontuou que não há relação sexual, pois não é o corpo da mulher enquanto tal que interessa a um homem, mas esse objeto pequeno a, objeto de sua fantasia que lhe empresta. E para uma mulher, da mesma maneira, é um objeto preciso do corpo do homem que lhe interessam e é exatamente por isso que, na relação sexual, cada um dos dois parceiros tem o sentimento de que sua existência enquanto tal, enquanto sujeito, não é reconhecida, que não é isso que interessa ao outro. Acrescentou Melman (2004), na verdade, apenas o re- afirmando: é a fantasia que sustenta uma relação sexual. Caso essa fantasia seja inexistente, serão apenas dois corpos estirados em cima de uma cama. Acredito: na verdade não fazemos amor com corpos….. mas sim, com idéias e são por esses mundos e idéias que as pessoas se enamoram e fazem amor. Talvez seja por isso, que não raro, a morte sobrevenha de forma natural após a perda do amor: “sem o amor, Tânatos toma conta de todo território que antes pertencia a Eros”. (Jorge, 2012, p. 172) Mas entre a pulsão de morte e a pulsão de vida, embora Freud, em Os Instintos e seus Destinos ([1915]2010) defina que a pulsão morte é responsável pela tendência ao retorno a um estado anterior, e a vida tende a retornar à morte. Em nossa prática clínica escutamos: quem é da vida? É também da morte. E qual a relação entre AMOR E MORTE? Ainda preciso perguntar a vocês? Quem ama….um dia morre….embora ressuscite em novos amores, mas amar…é dar o que não se tem a alguém que não o é. Amar é a capacidade de dar…de dar o DOM, que DOM? Um DOM, um dó que antecede uma escala simples, sem nenhum sustenido ou bemol, podemos pensar numa pauta, antecedida por uma clave de sol; significante este, que aponta para um vida. Ainda que toquemos seguidamente esta simples escala: dó – ré – mi – fá – sol –lá – si viciosamente há que se terminar no dó. E dó? Dó de quem? Dó do que? Dó de que escala? E o M que está a posterior do D – O + M = DOM. M de morte ou de Melancolia? No século XX, Sigmund Freud retoma a palavra melancolia para garantir–lhe um espaço no campo da sua invenção: a psicanálise. Segundo Peres (2012) invenção que bordeja arte e ciência, lamento e criação, capaz de acolher as “dores da alma”, gravadas na singularidade das marcas que definem a fortuna de cada ser humano. vinicius-por-david-zinggEssa fortuna consequentemente, gera um tormento de difícil tradução, pois não se alcança o enigma de nossa existência, que se trama na vicissitude das perdas e seus respectivos lutos. Mas lutos precisam ser vividos, é preciso sangrar, é preciso sentir dor, porque até para fazer samba, Vinícius de Moraes já nos fez sua chamada:

Porque o samba é a tristeza que balança E a tristeza tem sempre uma esperança A tristeza tem sempre uma esperança De um dia não ser mais triste não Falado Feito essa gente que anda por aí Brincando com a vida Cuidado, companheiro! A vida é pra valer E não se engane não, tem uma só Duas mesmo que é bom Ninguém vai me dizer que tem Sem provar muito bem provado Com certidão passada em cartório do céu E assinado embaixo: Deus E com firma reconhecida! A vida não é brincadeira, amigo A vida é arte do encontro Embora haja tanto desencontro pela vida Há sempre uma mulher à sua espera Com os olhos cheios de carinho E as mãos cheias de perdão Ponha um pouco de amor na sua vida Como no seu samba Cantado Ponha um pouco de amor numa cadência E vai ver que ninguém no mundo vence A beleza que tem um samba, não Porque o samba nasceu lá na Bahia E se hoje ele é branco na poesia Se hoje ele é branco na poesia Ele é negro demais no coração Falado Eu, por exemplo, o capitão do mato Vinicius de Moraes Poeta e diplomata O branco mais preto do Brasil Na linha direta de Xangô, saravá! A bênção, Senhora A maior ialorixá da Bahia Terra de Caymmi e João Gilberto A bênção, Pixinguinha Tu que choraste na flauta Todas as minhas mágoas de amor A bênção, Sinhô, a benção, Cartola A bênção, Ismael Silva Sua bênção, Heitor dos Prazeres A bênção, Nelson Cavaquinho A bênção, Geraldo Pereira A bênção, meu bom Cyro Monteiro Você, sobrinho de Nonô A bênção, Noel, sua bênção, Ary A bênção, todos os grandes Sambistas do Brasil Branco, preto, mulato Lindo como a pele macia de Oxum A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim Parceiro e amigo querido Que já viajaste tantas canções comigo E ainda há tantas por viajar A bênção, Carlinhos Lyra Parceiro cem por cento Você que une a ação ao sentimento E ao pensamento A bênção, a bênção, Baden Powell Amigo novo, parceiro novo Que fizeste este samba comigo A bênção, amigo A bênção, maestro Moacir Santos Não és um só, és tantos como O meu Brasil de todos os santos Inclusive meu São Sebastião Saravá! A bênção, que eu vou partir Eu vou ter que dizer adeus

Para mim, no ano do seu centenário, eis aqui neste trabalho, uma homenagem ao Bacharel em letras, em direito, diplomata, ao branco mais negro do Brasil, ao nosso eterno poeta, quem mais nos ensinou sobre o amor, e a vida. A esse homem, que casou nove vezes e amou muito, a esse homem que entendeu da alma feminina como ninguém. E é o próprio Vinícius de Moraes que em outra canção chamada de “Pra que chorar” nos deixou um legado:

Pra que chorar Se o sol já vai raiar Se o dia vai amanhecer Pra que sofrer Se a lua vai nascer É só o sol se pôr Pra que chorar Se existe amor A questão é só de dar A questão é só de dor Quem não chorou Quem não se lastimou Não pode nunca mais dizer Pra que chorar Pra que sofrer Se há sempre um novo amor Em cada novo amanhecer

um homem uma mulher filmeSerá que depois da voz do poeta, ainda preciso dizer mais alguma coisa? Desejam saber o fim do filme? Para mim, a versão do filme de 1966 é uma obra de arte, e obras de artes no cinema, não estão preocupadas com “final feliz” e sim, em mostrar o que falta à completude desejada; talvez por isso fique a cargo do espectador a dúvida se Anne e Jean – Louis terminam ou não juntos….ainda que Jean Louis vá ao encontro de Anne na estação de metrô em Paris….o filme…acaba…e naquele ano de 1966, não temos como saber se ficaram ou não juntos. Vinte anos depois o mesmo diretor e os mesmo atores reaparecem em cena para contar a história de “Um homem e uma mulher, 20 anos depois” – em 1986, talvez o filme não mais estivesse no estilo das obras de artes. Mas….isso fica para posteriores escritas, por hoje, fico com a obra de arte, com Vinicius de Morais me dizendo que….se a questão é só de dar e dor….há sempre um novo amor…em cada amanhecer!

Referências:
FREUD, Sigmund. Os Institutos e seus Destinos (1915). In: Obras completas, volume 12: Introdução ao Narcisismo: ensaios sobre a metapsicologia e outros textos (1914 – 1916)/ Sigmund Freud; tradução e notas de Paulo César de Souza – 1ª ed. - São Paulo: Companhia das, 2010, p.51 – 81.
FREUD, Sigmund. Um tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem. (Contribuições à Psicologia do Amor I) (1910). In: Obras completas, volume 9: observações sobre um caso de neurose obsessiva [“o homem dos ratos”], uma recordação de infância de Leonardo da Vinci e outros textos (1909 – 1910)/ Sigmund Freud; tradução e notas de Paulo César de Souza – 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.334 – 346.
JORGE, Marco Antonio Coutinho. Amor e Morte. In: JORGE, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da psicanálise de Freud à Lacan, vol. 2: a clínica da fantasia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p . 159 – 179.
LACAN, Jacques. Seminário livro 18: de um discurso que não fosse semblante(1971). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 2009.
LACAN, Jacques. Seminário livro 20: mais, ainda. (1972 – 1973) 3ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.
LELOUCH, Claude. Biografia, filmografia. In: http://www.adorocinema.com Acesso em 21 de outubro de 2013.
MELMAN, Charles. Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem? Ed. Tempo Freudiano, Rio de Janeiro, RJ. 2004.
MORAES, Vinicius e POWELL, Baden. Samba de Benção, 1966. In: http: // www. viniciusdemoaris.com.br Acesso em 21 de outubro de 2013.
PERES, Urania Tourinho. Uma ferida a sangra-lhe a alma. In: FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. São Paulo: Cosac Nanify, 2011, p. 100 – 137.
Filmes:
Um Homem e uma Mulher, 1966, de Claude Lelouch.
Um Homem e uma Mulher, 20 anos depois, 1986, de Claude Lelouch.

“Amores Livres” ou Paixões do ser?

Como psicanalista, faço minhas as palavras de Lacan em um dos seus seminários, abrimos mão do nosso ser, para poder ocupar essa função analista. Função do “lixo”, dejeto, depositário do horror de um Outro.

Ser praticante da psicanálise, é meu ofício. Chego ao ponto de meus analisantes brincarem comigo dizendo: “a melhor coisa que você fez, foi fazer um consultório de psicanálise em seu próprio apartamento, uma vez que você praticamente morava no consultório”.

amores livresMeus analisantes que comigo convivem diariamente, sabem que não sou psicanalista ortodoxa, tenho minhas críticas inclusive à própria psicanálise em alguns aspectos, critico também algumas relações de analista com seus respectivos analisantes e essa psicanálise clássica, onde o analista nem sequer responde ao chamado de um analisante via WhatsApp porque “infringe” a regra psicanalítica? Bem, essa psicanalista? Não sou!

Pontuo sempre, cabe ao psicanalista o momento de espera, bem como perceber como a relação de transferência, singular para cada analisante se instaura. Salvador – Bahia é uma cidade muito pequena no que tange as fragmentações das classes sociais, é muito comum analistas e analisantes se encontrarem não só pela rua bem como nos “guetos” da psicanálise. A mim? Como analista? Para cada analisante, uma analista, fico à espera de como cada um se comporta na esfera pública.

Alguns analisantes me encontram nas ruas, falam comigo, me apresentam mãe, pai, as vezes filhos. Outros vão às minhas palestras para me escutarem e ao final me cumprimentam, como também tem uns que declaram “se algum dia te encontrar na rua? Eu troco de calçada! Não quero jamais me bater com o meu pior de frente!” Ok, transferência é terra que ninguém passeia.

joão jardimMas toda essa volta foi para tentar esboçar, sobre a nova série documental “Amores Livres” dirigida por João Jardim (foto) que estreou na quarta-feira, 5 de agosto, no canal fechado GNT.

As chamadas da série chamava atenção, de repente questionava: Epa? Meus casos clínicos viraram documentário? Como é que isso vai ser exibido, elaborado, como algo da esfera privada irá para uma esfera pública?

Sim, no privado, tudo aquilo que a série documentário mostrou, ao menos no primeiro episódio, de uns tempos para cá escuto no meu consultório cotidianamente. Mas…com uma grande diferença!

Escuto o que a televisão não mostra e nem pode mostrar, escuto os embaraços, as atuações histéricas e que não há como o sujeito escapar dessas paixões do ser; que são as três paixões fundamentais em relação com os três registros, real, simbólico e imaginário.

No seminário, livro 1 “Os escritos técnicos de Freud” Lacan situa as três paixões fundamentais e as situará enquanto verdadeiras interseções parciais do sujeito: o amor: se situa na junção do simbólico e do imaginário; o ódio, na junção do imaginário e do real; e a ignorância, na junção do real e do simbólico.

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A primeira pergunta que ao ver aquele documentário fiz foi no que tange ao título desta escrita: “Amores Livres” ou “Paixões do ser”? (Para assistir ao trailer da Série documental dirigida por João Jardim, que estreou em agosto no GNT, clique na imagem abaixo).

amores livres serie gntComo psicanalista, escuto de tudo, na função analista, me cabe pontuar quais as implicações que afeta a vida do sujeito que fala dessas relações abertas. E, ainda que o objeto pequeno “a” seja perdido, algo sempre a ser buscado, o sujeito é sempre faltante, há sempre o desejo, mas foi o próprio Lacan que nos disse: Não devemos ceder ao desejo. Há desejos irrealizáveis pois tudo na vida se paga um preço, às vezes, quando não sempre o preço que se paga é muito alto. Ainda que se divida em suaves prestações, há sempre os juros e a correção monetária!

Faço todo essa análise, do ponto de vista psicanalítico da questão. De forma alguma sou moralista, careta, ou qualquer coisa do tipo; inclusive muitos analisantes me procuram e trazem em seus significantes coisas do tipo: “Te escolhi como psicanalista porque já escutei que você é descolada! É uma psicanalista Up!” Entretanto cabe refletir de forma cuidadosa, as palavras de Marco Antonio Coutinho Jorge, um psicanalista que de forma declarada já disse a ele: Tenho por você uma transferência de trabalho desde a minha época de estudante de psicologia. Amo, quando temos nossos encontros na cidade maravilhosa, mais ainda quando vou a sua bela casa em Santa Thereza, bairro da minha infância “carioca” e para além disso quando logo na primeira sala me identifico quando vejo o piano de cauda.

Marco, no seu livro Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan (Volume I) na página 149, diz:

A paixão amorosa, por sua vez exacerba esse sentimento inerente ao amor, de que se trata de uma complementaridade entre dois sujeitos. Por isso, a paixão não correspondida tem muitas vezes, no seu horizonte, o crime passional – o assassinato – que, para Lacan, é a única maneira de atingir, ilusoriamente, a relação sexual, com a eliminação radical da diferença do desejo do Outro, o qual sempre introduz, naturalmente, em toda relação, alguma forma de castração. Desse modo, o polo inicial do gozo absoluto revela seu aspecto mortífero e sua relação indissociável com a pulsão de morte, pois a ilusão de seu atingimento e sua perda se ilustra pelo assassinato passional.

Por isso que na sexta-feira, ao ler a crônica de Xico Sá no El País, tomei um susto. Uma porque Xico é meu objeto pequeno “a” (risos), acho que meu e de todas as mulheres, curto a escrita dele, muitas vezes bato um papo com ele pelo messenger do Facebook. Claro, li sua crônica, admiro a forma chistosa com que ele escreve. Como Jornalista, não cabe a ele tecer elaborações do conceito de pulsão. Mas, na hora que li? Escrevi para ele de imediato – e olhe que ele sempre responde minhas mensagens, mas…essa ainda não respondeu.

Todo o texto de Xico Sá que está na crônica do El País, quando ele escreve instinto, para a psicanálise, é pulsão. Estamos falando dos “amores livres”….logo, para não me chamarem de piegas ou de qualquer coisa do tipo, recorri ao seminário de Livro 11 de Lacan “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”; e de fato, não estava enganada. Lacan no capítulo XV Do Amor à Libido pontua:

(…)Freud, de um lado põe as pulsões parciais, e do outro, o amor. Ele diz – não é a mesma coisa.

As pulsões nos necessitam na ordem sexual – isso, vem do coração. Para nossa maior surpresa, ele nos ensina que o amor, do outro lado, ele vem do ventre, é o que é o rom- rom. (…) a pulsão sexual genital, se ela existe, não é de modo algum articulada como outras pulsões. E isto, malgrado a ambivalência amor – ódio. Em suas premissas, e em seu próprio texto, Freud se contradiz propriamente quando ele nos diz que a ambivalência pode passar por uma das características de reversão da Verkehrung da pulsão. Mas quando ele a examina, ele nos diz mesmo que NÃO são de modo algum a mesma coisa, a ambivalência e a reversão. (Lacan, 1964, p.179).

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Então no parágrafo seguinte, descrito dessa aula, tem uma passagem que me faz admirar cada vez mais Lacan, vibrar com ele, escutá-lo e sentir uma dor “retada” porque não consegui assistir nenhum de seus seminários! Ora…no ano que Lacan morria? Eu estava nascendo….Mas, algum de meus leitores já tiveram a curiosidade de assistir um dos seminário dele pelo YouTube? Gente!!! O cara além de muito gato, tinha um jeito histérico de proferir seus seminários….que não era do nada que seus seminários viviam lotados e em sua platéia nada mais, nada menos havia Foucault, dentre tantos outros que fizeram história no século XX.

Pois então, voltemos ao seminário livro 11 de Lacan, na aula supracitada. Assim, vou tentando terminar esse texto, para não receber “bronca” do meu editor (risos) que a todo momento me pontua: “texto de blog é curto Clarissa!”, e respondo: “mas não sou blogueira”….sou uma psicanalista, se duvidar aprendiz de feiticeira!

Mas, vejam essa passagem de Lacan, quando ele diz: “Se então a pulsão genital não existe, ele só pode se f… feiçoar alhures, do outro lado e não do lado onde há pulsão,” (Lacan, 1964, p.179)

E vocês mataram a charada do que é esse f… (com reticências) que aparece no seminário? Não?!? …é o se fuder!!!!

É isso mesmo, afinal….lembram o que escrevi em parágrafos anteriores? As paixões do ser são: amor, ódio e ignorância. – Disso, o sujeito não escapa, e assim, só lamento informar….com a ignorância, não se sabe aonde essas relações irão parar….e então a pergunta que não quer calar é? Você está a fim de bancar isso? Porque tudo pode acontecer….nesses “Amores livres”

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Referencias:

Jorge, Marco Antonio Coutinho. O Objeto perdido do Desejo. In. Jorge, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan v.1: as bases conceituais – 4ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005; p.139 – 158.

LACAN, Jacques. A verdade surge da equivocação. In: LACAN, Jacques. Seminário livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-1943). O Seminário Livro 1: Os escritos técnicos de Freud. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1981, p.297 – 310.

_____________. Do Amor à Libido. In LACAN, Jacques. Seminário Livro 11: Os quatro conceitos cruciais da psicanálise (1964).- 2ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998; p.177 – 189.

Um Sade no divã?

clarissa lago entrevista gil vicente autor de sadeEra quarta-feira, mais ou menos 11h da manhã, quando Valdiky Moura me chama pelo FACETIME: e diz: “olha, estreia SADE amanhã, vamos assistir, não marque nada no feriadão, pois já agendei com GVT uma entrevista para o Blog da Psicanálise, no sábado às 16h, no ICBA!

Respondo: GVT? Quem é GVT? A ficha meio que demorando de cair…

Então VM responde: “GVT = Gil Vicente Tavares!”

Respondo: Ok, mas quinta-feira tenho analisante até tarde da noite aqui no consultório, podemos então assistir à peça no próprio sábado mesmo?

Moura responde: Podemos sim!.

Hoje é madrugada de 7 de setembro, no sábado 16h fomos ao ICBA, Gil nos recebeu super bem, concedeu-nos uma entrevista com mais de 25 minutos gravados, em meio a muitas pausas para várias gargalhadas e brincadeiras alheias, precisava dessa entrevista, material de escrita, e não apenas ficar viajando numa fantasia na minha condição de espectadora ao assistir SADE.

Claro, como psicanalista, sei que a entrevista que Gil concedeu não cabe nem analisar pelo viés da psicanálise! Jamais faria isso! Gil nunca foi meu analisante e me afirma que nunca fez análise. Ele diz, eu acredito!

E meus analisantes sabem, os preservo todos! São meus leitores fiéis, podem até fantasiar que algum dia serão citados em algum texto, ou que determinada matéria escrevi porque os tenho no meu consultório, mas… fantasia é terra que ninguém passeia e é de cada um.

A psicanálise é uma prática que acontece na díade entre um analista (disposto a escutar e operar) e o analisante (disposto a falar), sendo sempre algo de uma esfera privada – isso chamamos de psicanálise em intenção.

Quando saímos dessa esfera do privado para o público estamos então operando com uma psicanálise em extensão, é isso que acontece ao tentar explorar qualquer dramaturgia que seja.

Após assistir SADE, invoco Fleig (2008), ao afirmar que: o desejo, só pode ser perverso.

A etimologia nos ajuda nesse caso: a palavra desejo vem do latim, do desiderium, que, por sua vez, decorre do verbo desiderare, formado do prefixo de mais o verbo siderare. (…) siderar, refere-se ao movimento dos astros, a sua sideração, em rotas imutáveis. Assim, a desideração ocorre quando há ruptura do roteiro fixo e a saída da rota supostamente dada pela natureza. A desideração, ou seja, o desejo, é idêntica à quebra da versão tida como natural, é uma perversão ou inversão. É nesse sentido que o ser humano, pelo fato de estar submetido à linguagem, é um perverso polimorfo, sempre exposto à deriva provocada pela desideração¹ e que somente encontra um frágil amparo nesses meandros das palavras, visto que também essas não se encontram livres da perversão dos sentidos, nas infinitas formas de equivocação. (FLEIG, 2008; p.62).

Mas, todo psicanalista é, sim, um pesquisaDOR inquieto do humano. O nome SADE de fato chama a atenção não só a mim, como talvez a qualquer outro psicanalista.

Poderia escrever um texto libertino? Provocador? Depravado? NÃO!!!!!!!! Até porque não é desse SADE que Gil Vicente trata em sua peça.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Alerto aos voyeuristas que desejam ir assistir SADE, no teatro do ICBA, esperando ver altas cenas de libertinagem e orgias do ato sexual… Optem pelas casas de swing! O Sade que Gil nos apresenta é um SADE, sim, logorreico, um SADE DE LINGUAGEM – uma farsa onde o espectador será preso pela escuta do texto!

A grande sacada de Gil foi prender o espectador pela pulsão invocante! O espectador precisa estar muito mais atento ao texto do que ao “to play” da peça.

Sade está muito bem comportado. Saí com uma sensação esquisita da peça… saí me perguntando: Mas não é teatro? No teatro não cabe encenações mil? Por que Sade e suas respectivas putas estavam tão bem comportados em cena? Não há uma única cena de nudez, só Márcia Andrade que em uma hora mostra um único seio, dispensável. A encenação está classuda, bem construída, ao que se propõe.

Até no figurino, todos estão vestidos! Os atores, o peitoral está coberto com aquele novo tecido que é sucesso em festas de casamentos – parece que estão de peito nu? Não!!!! Essa é uma das chaves de todo o espetáculo.

Ora, ora, ora… embora no texto haja tanto o significante Puta! Puta! Puta! Puta! Todas as putas estão cobertas. Mais parecem freiras! E talvez o “to play” esteja nesse jogo: a mulher desejada? É velada. A sexualidade é velada em todos os momentos da encenação!

O ato sexual não foi posto em cena… Gil foi ao passo que pudico, esperto… porque ele “jogou” o texto e tudo fica a cargo do espectador ter seus devaneios, sejam eles quais forem!

O que o autor e diretor dá ao espectador é a possibilidade deste fantasiar e construir o seu próprio SADE; ou seja: o Sade que cada espectador possui dentro de si.

O autor e diretor da peça é inteligente o bastante para saber que:

O perverso é, portanto, aquele que põe em prática até o fracasso humilhante, a fantasia. Com o fiasco da humilhação, o perverso se angustia, deprime-se, se sente ridículo, o maior idiota do mundo. Sem dúvida, há nos comportamentos perversos algo dolorosamente cômico. (…) ele também se presta ao riso quando vemos desmoronar, como um castelo de cartas, toda a operação que ele instaurou cuidadosamente. É aí que ele goza, por ser rebaixado de maneira aviltante, e encontra sua satisfação na dor masoquista. (NASIO, 2007; p.49).

Foto: Leto Carvalho

Foto: Leto Carvalho

É forçar muito a barra afirmar que a peça SADE, tal como ela está sendo encenada, é uma peça de cunho psicanalítico. Acredito, sim, se entrarmos no terreno das fantasias do espectador… Haverá mil e umas fantasias… mas, escutei muito mais uma peça de cunho político-filosófico do que psicanalítico.

Procurei Freud e Lacan em seus diversos artigos… não encontrei, posso devanear – como ando me dedicando a estudar as pulsões – que localizo “O instinto e suas vicissitudes”, especificamente na página 65, da nova tradução de Paulo César Souza, os seguintes aspectos:

Quanto ao par de opostos sadismo-masoquismo, o processo pode ser apresentado da seguinte forma: a) O sadismo consiste em prática de violência, exercício de poder tendo uma outra pessoa como objeto; b) Esse objeto é abandonado e substituído pela própria pessoa. Com a volta contra a própria pessoa também se realiza a transformação da meta instintual ativa em passiva; c) Novamente se busca uma outra pessoa como objeto, a qual, em virtude da transformação de meta ocorrida, tem de assumir o papel de sujeito. (Freud, 2010[1915], p.65)

Ou seja, especificamente no tópico c, Freud deixa claro que: no par sádico-masoquista; quem está gozando é o masoquista – e mais… se formos para além de Freud sabemos que o sádico, ao final…. Sua tendência é cair no ridículo. Na verdade, só faz … o que o Outro pede!

Lacan, já no Seminário 1, se interessa em discernir o papel da intersubjetividade na perversão e afirma: “Não há uma única forma de manifestação perversa cuja estrutura mesma, a cada instante do seu vivido, não se sustente na relação intersubjetiva.” (p.149). Nesse momento, ele postula que qualquer manifestação perversa se dá na relação intersubjetiva, ao dizer, quanto à relação sádica, que ela “só se sustenta na medida em que o outro está no justo limite em que continua ainda sendo um sujeito”.

marques_de_sadeA relação sádica implica, com efeito, que o consentimento do parceiro seja aprisionado. Sua liberdade, sua humilhação, sua confusão e, em suas formas leves, as manifestações perversas, “em vez de serem levadas até o extremo, permanecem antes na porta de execução, jogando com a espera, o medo do outro, a pressão, a ameaça, observando as formas mais ou menos secretas da participação do parceiro. É o que está assim na base da relação intersubjetiva que alimenta a perversão, é a “anulação, ou o desejo do sujeito”.

O SADE em cartaz no Teatro do ICBA está mais para a descrição que Susine (2006) nos faz quando o chama de autor do crime perverso, Susine (2006) clarifica, que esse criminoso, esse autor de crime perverso, que a mesma se debruça a estudar, não é o perverso no sentindo comum do termo, como maléfico, desviante, manipulador, porque manifestaria uma perversidade, uma malignidade de caráter e de comportamento. Há um mais além, ele é criminoso porque sua relação particular com o Outro, é, antes de mais nada, com o Outro do encontro sexual.

Para Susine (2006), o autor do crime perverso, antes de mais nada, é autor e criador de um espetáculo pouco comum, montado e representado em nossa intenção. Por isso é que no mundo da mídia contemporânea ele prolifera, ao ponto de se tornar vedete de nossa sociedade do espetáculo. Qual o segredo do vedetismo do autor do crime perverso? Qual é, então, a natureza do espetáculo pouco ordinário que ele promove? (p.17).

É ele quem sabe tirar partido da mídia, inaugura com a maestria o divertimento.

A palavra entertainment traduz melhor os componentes de suspense, angústia e horror, aproveitando melhor que qualquer outro a oportunidade de nada esconder, de exibir detalhes mais cruéis de sua sexualidade, o perverso é aquele que tem o trabalho de revelar, tornar pública e difundir esta terrível notícia: existe um crime causado pela busca do prazer, existe um crime em que se acrescenta o gozo.

Foto: Leto Carvalho

Foto: Leto Carvalho

É esse SADE que talvez vocês encontrem no teatro baiano, o SADE que irá cutucar, mexer a sua fantasia… A fantasia inconsciente, isto é, a relação específica do sujeito com seu mundo, pois o espetáculo sustenta a perfeita coerência daquilo que parecia primeiramente aberrante, inexplicável, enigmático.

Se Sade é normalmente colocado do lado do mal, é que por definição a sua condição, a condição de seu gozo, não pode ser um lugar-comum. É necessário que ele seja impensável, fora do senso comum, pelo avesso da comunidade e do laço social.

É desse SADE que Gil Vicente de forma delicada e sutil trata em seu espetáculo. Ele não faz a opção de mostrar SADE pela pulsão escópica! Mas, sim, por uma pulsão invocante o tempo todo. Então… está aí o espetáculo: o primor do texto!

É uma peça para um público antenado, com escuta apurada… talvez seja uma peça para um público especifico…

Gil nunca foi ao DIVÃ. Ok, mas com toda certeza, subverteu a ordem de uma prática psicanalítica; está fazendo os psicanalistas irem assistir à peça dele e o divã está posto em cena!

E bem “perversinho” (risos), Gil coloca o divã no cenário da peça…. dizendo a todos! O DIVÃ É DE FERRO!!!! Ou seja: nada confortável deitar nele… (risos).

Agora, saí com uma sensação esquisita da peça, mas isso já é algo que anda perseguindo minhas escritas; a pergunta que não quer calar é: Será que a sociedade encaretou? Pois já assisti a espetáculos aqui na Bahia lá pelos idos da década de 1990, anos 2000, muito mais “depravados”… “escancarados”…

Ando me fazendo essa pergunta direto… mas não vou me ater a essas questões, por ora! Porque esse texto vai ser jogado na rede e o leitor também terá a meu respeito críticas terríveis.

Mas digo logo! Meu Sade é libertino! Sei, como psicanalista, sei. Eu pago um preço muito alto por isso!

Gil, amigo! Você diz, eu acredito! Você nunca foi a um divã “tradicional” de um analista, mas transpôs o setting psicanalítico para sua peça… o divã de ferro…

Foto: Carlos Barral

Foto: Carlos Barral

Seu divã de ferro! Prova viva do quanto a psicanálise é uma prática cruel e sadiana! Fazer análise dói, mexe, sangra, faz muito barulho mesmo no silêncio.

sade gil vicente icba blog da psicanalise-lagoOs atores quando não estão em cena textual estão sentadinhos com semblan de psicanalista! Sim… tem muito psicanalista careta! Chato! Mesmo em Salvador-Bahia ainda existem aqueles que pregam a psicanálise dos tempos de Freud-Lacan de uma forma totalmente descontextualizada do nosso tempo, quiçá da nossa cidade – baiana e sincrética!

Existem analistas que fazem, sim… aquelas “caras e bocas” de paisagens com seus respectivos analisantes… e pior!!!!! Ficam “mudos”, assim como seus atores em sua peça quando não estão na cena principal.

Escrevo muito tranqüilamente, fiz mais de 30 anos de análise, inclusive troquei umas três vezes, até chegar ao meu terceiro e último analista – com quem convivi longos anos… Ah! E esse último? É um senhor já, mas um cara super up! O tempo passou que nem vi que ele ficou grisalho! Um dia levantei do divã dele e falei: “Nossa, como você já está todo grisalho”! (risos)

Para além desses mais de 30 anos de análise, hoje, como psicanalista, sei que estou longe, aliás, passo muito longe da ortodoxia e de qualquer bíblia sagrada que seja! Ando evitando até as seitas religiosas que também fazem parte do ritual psicanalítico!

Para os ferinos psicanalistas de plantão, que porventura se derem ao trabalho de ler esses humildes escritos, pontuo: minha clínica anda muito bem! Obrigado! Meus analisantes são ótimos! Produtivos, articulados, dispostos a trabalhar! E um vai indicando ao outro… que indica outro… que indica outro… é assim que uma clínica psicanalítica cresce e acontece! Não é somente lendo a bíblia, indo para a igreja toda semana, orando todos os dias as ave-marias não tão cheias de graça e com o mesmo “pai-nosso” que um psicanalista irá avançar em sua clínica!

O psicanalista aprende a operar mesmo é em sua prática clínica e com seus analisantes! É com os nossos analisantes que aprendemos o que é psicanálise, isso Lacan já nos disse!

Talvez seja isto que você esteja fazendo, Gil, ao encenar SADE. Você joga! Ao passo que se veste de analista e escolhe seu público seleto e “cabeção” para assistir a seu espetáculo, você que nunca deitou no divã… entretanto se permite deitar no seu divã de ferro e pede para que o espectador teça com você um diálogo.

Seu espetáculo pede ao espectador, no momento que faz emergir o SADE que cada um tem em si, sair da cadeira do teatro e correr para o divã do analista!

É disso que sua peça trata… sua peça fala… fala! fala! Fala! Fala! FAAALA!!!! Isso é psicanálise.

E é muito justo que se fale de SADE mas não se ponha em ato. É para isso também que as pessoas fazem análise, para falar… falar… falar… e não pôr em ato! O que a análise permite ao sujeito é ter um inconsciente advertido e domar inclusive o Sade que existe em cada um de nós!

sade teatro nu gil vicente tavares icba bahiaPARABÉNS GIL! ESTÁ DANDO UM TAPÃO NA CARA DE TODO MUNDO! Mas de forma tão sutil e delicada, coisa que ainda não sei fazer, mas ao longo da nossa amizade, juro, vou aprender com você! Tem coisas que só o amigo mesmo pode ensinar!

 

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¹(ruptura do roteiro fixo).

REFERÊNCIAS: 
	
DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto, 1997; 
FIRGERMANN, Dominique. Os destinos do Mal: Capitalismo e Perversão. In: FIRGERMANN, Dominique e DIAS, Mendes. Por causa do pior – São Paulo: Iluminare, 2005. p. 73-91;
FEIG, Mario. O desejo só poderá ser perverso. In: O desejo perverso. FLEIG, Mario. O desejo perverso. Porto Alegre: CMC, 2008. p. 59-142;
FREUD, Sigmund. Os Instintos e seus Destinos (1915). In: Obras completas, volume 12: Introdução ao Narcisismo: ensaios sobre a metapsicologia e outros textos (1914-1916)/Sigmund Freud; tradução e notas de Paulo César de Souza – 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.51-81;
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: Obras completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira: Volume XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996 (1925-1926);
FREUD, Sigmund. O problema econômico do masoquismo. In: Obras completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira: Volume XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996 (1924);
FREUD, Sigmund. Bate-se numa criança. In: Obras completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira: Volume XVII. Rio da Janeiro: Imago, 1996 (1927);
GOZO. In: KAUFMANN, Pierre. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1996. p. 221-224;
GUYOMARD, Patrick. A Lei e as leis. In: ALTOÉ, Sônia (org). A Lei e as leis: Direito e Psicanálise. Rio de Janeiro. Ed. Revinter, 2007. p. 3-59; 
JORGE, Marco Antonio Coutinho. Do amor ao gozo: uma leitura de “Uma criança é espancada”. In: JORGE, Marco Antônio Coutinho. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan, vol. 2: A clínica da fantasia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 96-113;
JULIAN, Philippe. Perversão. In: JULIAN, Philippe. Psicose, perversão, neurose: a leitura de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2002. p. 99-131;
LACAN, Jacques. O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud, 1953-1954. Rio Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1986; 
LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise, 1959-1960. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008;
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda, (1972-1973) – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008;
NASIO, Juan David. Primeira Lição: Os dois grandes conceitos: O inconsciente e o Gozo. In: NASIO, Juan David. Cinco Lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 1993. p. 11-46; 
NASIO, Juan David. A Fantasia. In: NASIO, Juan David. A Fantasia: o prazer de ler Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007. p. 25-60;
PERES, Urania Tourinho. Uma ferida a sangrar-lhe a alma. In: FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. São Paulo: Cosac Nanify, 2011;
SUSINE, Marie–Laure. O autor do crime perverso. – Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006;
VALAS, Patrick. A conceituação do gozo no ensino de Lacan. In: As Dimensões do Gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. p. 26-80. 

Mulher e sexo. A pergunta que nunca cala: a mulher existe?

Freud, Lacan, Melman, Zalcberg, Soler, Mannoni, Simone de Beauvoir e Medeiros sexualmente citados na psicanálise de mulher e sexo, por Clarissa Lago.

Contrariando a clínica de Freud, que começou com as mulheres e se debruçou em seus estudos sobre a histeria, no início da minha atividade clínica como analista, deparei-me com uma surpresa. Meus primeiros analisantes eram homens e neuróticos obsessivos.

Enfim….passaram-se mais de 15 anos da minha prática clínica como psicanalista, os quatro, são fiéis analisantes até hoje. Porém meses depois da chegada deles há mais de uma década anos atrás, chegaram as histéricas!!!!!

E quando estas chegaram….aí sim…na função analista, descobri o que era Psicanálise, a linguisteria, a voz pulsante e vibrante de uma histérica, os choros desesperados, os risos, as gargalhadas soltas e o sofrimento estruturado no desejo insatisfeito.

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Naquele momento, acabei por me deparar com o livro de Maud Mannoni (1999): “Elas não sabem o que dizem”.

Hoje, sabemos, a clínica é diversa: há lugar para todos os tipos de sujeitos e suas respectivas estruturas e demandas. E com isso todas as mulheres.

Na verdade, é para elas a quem dedico esta escrita, não muito preocupada em saber se são histéricas, obsessivas, psicóticas, psicóticas ordinárias. Enfim… são mulheres, e com isso afirmo que estou recortando a minha atividade de escrita, a posição feminina que cabe a uma mulher.

Sem dúvida, não é muito simples ser uma mulher. Simone de Beauvoir, já nos afirmou “Ninguém nasce mulher, torna-se”. E é essa questão que norteará a minha escrita.

simone-de-beauvoirA questão do tornar-se mulher era enigmática para Freud: “Como a mulher se desenvolve a partir da criança com disposições bissexuais? ” Sabemos que Freud achava a Psicologia das mulheres mais complicadas que a dos homens. Segundo Mannoni (1999), Freud um dia confessou a Marie Bonaparte. “A grande pergunta que ficou sem resposta, e à qual eu mesmo nunca pude responder, apesar dos meus trinta anos de estudo da alma feminina, é a seguinte: o que quer a mulher? ”

A esta pergunta Freudiana, Lacan responde: ela deseja, muito “simplesmente” (sabemos que não é tão simples assim), acrescento Lacan e afirmo: ela deseja, ardentemente deseja. Nessa perspectiva o falo se situa como faltoso do desejo, no nível da divisão sexual.

Para Mannoni (1999), Freud está à procura do que falta à mulher, observando que a “tensão sexual” desta deve ser mantida em nível relativamente baixo. O destino feminino se situaria, assim, entre o déficit de excitação e a superexcitação. Se a mulher não pode encontrar no homem um sedutor, só lhe resta identificar-se com ele, seduzindo outra mulher – eventualidade que Freud não entendeu no tratamento de adolescentes.

Mas hoje na clínica nós analistas estamos atentos. As adolescentes que chegam aos nossos consultórios e se declaram homossexuais; escute-as direito. Ainda são adolescentes, falta-lhes um bom caminho a percorrer nesse endereçamento ao ser uma mulher.

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Jamais nos esqueçamos de Dora e Sra. K, revisitado por Lacan a nos esclarecer, que Dora, apenas queria saber com Sra. K, o que era ser uma mulher.

Mannoni (1999) retoma a pergunta feita por Freud: As mulheres podem amar? Para Freud essa pergunta é entendida da seguinte forma: é a si mesma que a mulher ama. Seu primeiro objeto de amor foi sua mãe. Somente trabalhando o luto é que o “desvio” desse amor para o pai, e depois para o homem amado, torna-se possível. O primeiro amor (a mãe) sempre deixa uma cicatriz indelével, constituindo o leito dos amores impossíveis.

O que quer a mulher? A pergunta nunca deixou de perseguir Freud. No início, ele sabia: elas desejam o que lhes falta, o pênis; essa teoria falocêntrica persegue Freud até 1923, quando ele nos afirmou, não saber mais.

Se Freud perguntou o quer A mulher, Lacan em 1956 retomou essa pergunta Freudiana, retirando o artigo definido A e então nos perguntou: O que é uma mulher.

Lacan (1956) nos disse:

Para a mulher, a realização do seu sexo não se faz no complexo de Édipo de uma forma simétrica à do homem, não pela identificação com a mãe, mas ao contrário pela identificação com o objeto paterno, o que lhe destina um desvio suplementar. Freud jamais largou essa concepção, o que quer que se tenha feito desde então, especialmente das mulheres, para estabelecer a simetria. Mas a desvantagem em que se acha a mulher quanto ao acesso a sua identidade seu próprio sexo quanto à sexualização como tal, na histeria transforma-se numa vantagem, graças à sua identificação imaginária com o pai, que lhe é perfeitamente acessível, em virtude especialmente de sua posição na composição do Édipo. (LACAN, 1956, p.202)

Por isso a histérica sempre é fiel ao pai e se identifica com ele. Ela fica cheia de si quando lhe dizem: “é a cara do pai”, “é outra vez o pai”, “possui o temperamento idêntico ao do pai”. A histérica fiel ao pai segue seus passos, e não adianta a mãe tentar impedir. Ela será fiel – é ela quem estará ao lado dele em seu leito de morte. E se um dia esse pai vier a falecer, ela se sentirá uma viuvinha.

Pais e mães que estão a ler esse texto, penso ser válido pontuar a vocês: Se algum dia vocês tiverem de se separar, por mais que vocês tentem esclarecer às suas filhas que vocês estão se separando da mãe e não delas, só lamento antecipar a vocês e lhes revelar uma péssima notícia: as meninas jamais entenderão. Inconscientemente, vocês estão se separando delas também.

O recado que se permite posso também pontuar às mães: não joguem jamais suas filhas contra os pais, nem muito menos tentem afasta-las dele, pois, pai é insubstituível. Não tentem ser pai e mãe ao mesmo tempo, por mais que vocês se esforcem não conseguirão.

Observem o Caso Dora, Lacan (1956) nos perguntou: Que diz Dora através da sua neurose? Que diz a histérica – mulher? Sua questão é a seguinte: o que é ser uma mulher?

Quando Dora se vê interrogar a si mesma sobre o que é uma mulher? Ela tenta simbolizar o órgão feminino como tal. Sua identificação com o homem, portador de pênis, é para ela, nessa ocasião, um meio de aproximar-se dessa definição que lhe escapa. O pênis lhe serve literalmente de instrumento imaginário para apreender o que ela não consegue simbolizar.

Tornar-se mulher e interrogar-se sobre o que é uma mulher para Lacan (1956) são duas coisas essencialmente diferentes e nos afirmou:

É porque não nos tornamos assim que nos interrogamos, e até certo ponto, interrogar-se é o contrário de tornar-se. A metafísica de sua posição é o subterfúgio imposto à realização subjetiva na mulher. Sua posição é essencialmente problemática, e até um certo ponto inassimilável. Mas, uma vez que a mulher é introduzida na histeria, é preciso dizer também que sua posição apresenta uma estabilidade particular, em virtude de sua simplicidade estrutural – quanto mais simples é uma estrutura, menos ela revela pontos de ruptura. Quando sua questão adquire forma sob o aspecto da histeria, é facílimo para a mulher colocá-la pela via mais curta, a saber: a da identificação com o pai. (LACAN, 1956, p.209)

As afirmativas polêmicas de Lacan da década de setenta: A mulher não existe e não há relação sexual, Melman (2004) muito claramente nos afirmou: Para um homem, a imagem de uma mulher é o suporte desse objeto pequeno a, quer dizer, objeto de sua fantasia.

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Ou seja, mais uma vez é a parte do corpo da mulher, aqui parte imaginária, que vai ser o suporte do desejo. O que significa portanto, dizer que a relação sexual se estabelece não entre dois parceiros, que vão reciprocamente gozar de seus corpos, mas entre dois objetos que não são os mesmos nem para um e muito menos para o outro.

Não há relação sexual, pois não é o corpo da mulher enquanto tal que interessa a um homem, mas esse objeto pequeno a, objeto de sua fantasia que lhe empresta. E para uma mulher, da mesma maneira, é um objeto preciso do corpo do homem que lhe interessam e é exatamente por isso que, na relação sexual, cada um dos dois parceiros tem o sentimento de que sua existência enquanto tal, enquanto sujeito, não é reconhecida, que não é isso que interessa ao outro.

Acrescento Melman (2004), na verdade, apenas o re- afirmando: é a fantasia que sustenta uma relação sexual. Caso essa fantasia seja inexistente, serão apenas dois corpos estirados em cima de uma cama. Acredito: na verdade não transamos com corpos…. São simples corpos. Transamos com as idéias e é por elas que somos loucamente apaixonadas e é com essas ideias que fazemos amor.

sexo-e-mulher-blog-psicanaliseTalvez nessa perspectiva, as mulheres do século XXI acabaram por se perder em alguns aspectos, como nos afirma Medeiros (2008), penso que talvez o leitor deste texto, já deve ter escutado falar na Mulher Melancia, e a Mulher Jaca. São duas dançarinas do funk que ganharam notoriedade por possuírem quadris avantajados. Essa é toda história do começo ao fim.

Há também aquelas que se intitulam de Mulher – Rodízio, e para elas, é assim que a sua feminilidade se expressa.

No século XXI, existem mulheres que acreditam fielmente que é sendo melancia, jaca ou rodízio que conquistaram sua liberdade sexual. E acreditam gozar disso perfeitamente. Porém, com toda essa liberdade, acabam por esquecer a premissa básica para ser uma mulher: é justamente nesse não ser não toda. É não toda fálica que uma mulher se constitui.

A partir desse exemplo do século XXI, podemos entender quando Lacan (1970) nos afirmou em sua premissa: A mulher não existe. Mulheres existem, isso pode ser mais ou menos verificado, mas “A” mulher, ou seja, aquela que seria definida por um signo específico, como o homem que é especificado na castração, esse signo específico não existe para uma mulher e essa é a razão pela qual as mulheres se queixam de não serem fundadas em sua feminilidade.

Zalcberg (2003) acrescentou que a mulher está se situando numa posição histérica em que ela se crê toda fálica, e, portanto, ela exige que seu parceiro creia nela como A mulher. Nesse caso, evidentemente, isso só pode remetê-la, a ela e remetê-los, ela e a seu parceiro, a uma posição de insuficiência, uma posição sintomática, portanto uma posição sacrificial ao pai.

Por outro lado, ainda Zalcberg (2003) afirmou que, se numa outra posição, uma mulher pode suportar essa relativa insatisfação fálica que lhe é inerente, porque ela é não – toda – fálica, sustentar, então, isso, não faz disso uma queixa, um ressentimento, mas ao contrário, ela pode ir mais além e suportar isso como uma abertura para um gozo Outro, é isso o que lhe daria, o que podemos chamar um estilo próprio.

Lacan (1970) nos afirmou que o estilo é o próprio objeto. É assim que uma mulher se tornaria, então, esse objeto que captura o homem de um modo diferente. Não mais para completá-la, vir a preencher a sua incompletude, mas para mantê-lo numa certa sideração em torno de algo que lhe escapa – e que escapa também a ela – e que decididamente é o que põe, a ambos no caminho do desejo.

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Jamais seremos iguais aos homens, existe uma mulher para um homem, porque então a insistência dessas mulheres no século XXI agirem como homens?

Sim, elas se dizem mulheres, heterossexuais, com vida sexual ativa. Mas a posição sexual que essas mulheres ocupam na dinâmica dos sexos, é muitas vezes masculina.

Gostaria muito de acreditar que elas não sofrem, mas, já nos diz a Psicanálise, o sofrimento é inevitável.

Quando Medeiros (2008) em seu texto jornalístico, também aponta que nesse hortifrúti há espaço para todas, a autora critica a si mesmo, se rotulando de A Mulher Banana. Esta é tolinha, insossa, que não tem corpão, é cultural e intelectualmente sofisticada sendo assim, não inveja as top models.

Confesso, que não acredito ser essa mulher tão banana assim, talvez justamente essa, que mesmo sem saber…sabe, o que é ser uma mulher.

Colette Soler (2005) nos assinalou: Uma mulher não se faz reconhecer como mulher pelo número de seus orgasmos ou pela intensidade de seus êxtases, salvo algumas exceções, é verdade. E, muito longe de exibir-se, sucede a esse gozo esconder-se. Daí a necessidade de um outro recurso e os esforços para se identificar pelo amor. Em outras palavras, na impossibilidade de ser A mulher, resta apenas ser “uma” mulher, a eleita de um homem. Ela toma emprestado do “um” do Outro, para se certificar de que não apenas um sujeito qualquer – o que ela é, a partir do momento em que é um ser falante, sujeito ao falicismo – mas ser, além disso, identificada como uma mulher escolhida. Assim é compreensível que as mulheres, histéricas ou não, mais que os homens, amem o amor.

Assim sendo, Melman (2004) nos faz pensar com o título do seu seminário: Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem?

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Referências:

André, Serge. O que quer uma mulher? – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1999.

Freud, Sigmund. Sexualidade Feminina (1931) in: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: - Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XXI.

Freud, Sigmund. Conferência XXXIII: Feminilidade (1933 [1932]) in: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: - Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XXII.

Lacan, Jacques. O seminário livro 3: as psicoses (1955 – 1956). 2ed. Revista – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.

Lacan, Jacques. Seminário livro 18: de um discurso que não fosse semblante (1971). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 2009.

Lacan, Jacques. Seminário livro 20: mais, ainda. (1972 – 1973) 3ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.
Lacan, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma, 1975 – 1976. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007.

Mannoni, Maud. Elas não sabem o que dizem: Virgínia Wolf, as mulheres e a psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 1999.

Medeiros, Marta. Doidas e Santas. – Porto Alegre, RS: L& PM, 2009.

Melman, Charles. Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem? Ed. Tempo Freudiano, Rio de Janeiro, RJ. 2004.

Soler, Collet. O que Lacan dizia das mulheres. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2005.

Zalcberg, Malvine. A relação mãe e filha. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.

Sexualidade e erotismo em Sigmund Freud

* Palestra proferida no dia 28 de março de 2016 no curso de Psicologia da UNAERP (Universidade de Ribeirão Preto), na disciplina Psicologia do Desenvolvimento Humano II, a convite da Profa. Me. Lilian de Almeida Guimarães.

Gostaria de começar minha fala de hoje com um trecho do romance “O homem sem qualidades” do escritor austríaco Robert Musil, escrito em 1931. Este livro foi considerado um dos maiores romances escritos no século XIX e penso que sua grandiosidade se deve ao fato de o autor ter conseguido captar a essência daquilo que viríamos chamar no século XX de “A era da técnica”.

Mais adiante ficará claro para vocês porque decidi iniciar minha fala com um trecho deste belíssimo romance-ensaio. O trecho que escolhi descreve uma situação aparentemente banal dos grandes centros urbanos. Trata-se de um acidente envolvendo um caminhão e um morto como vítima. Os transeuntes se aglomeram em volta do acidente como abelhas e Musil descreve a conduta de um casal aristocrático frente à cena:

Também aquela dama e seu acompanhante tinham chegado perto e, por cima das cabeças e costas baixadas, olhado o homem deitado. Depois recuaram e ficaram por ali, hesitantes. A dama estava com uma sensação ruim no coração e no estômago, que tinha o direito de considerar compaixão; uma sensação vaga, paralisante. Depois de algum tempo, o cavalheiro disse:

Os caminhões pesados que se usam aqui têm um tempo de frenagem longo demais.

A dama sentiu-se mais aliviada, e agradeceu com o olhar. Devia ter ouvido antes aquela expressão, mas não sabia o que era, nem queria saber; bastava-lhe que aquilo explicasse o terrível acidente, reduzindo-o a um problema técnico, que já não a interessava diretamente. Ouviram a sirene estridente da ambulância e todos ficaram satisfeitos com a rapidez de sua chegada. São admiráveis essas instituições sociais. Colocaram o acidentado numa maça e enfiaram-na no carro. Homens com uma espécie de uniforme cuidaram dele, e o interior do veículo, que se divisava rapidamente, parecia limpo e ordenado como um quarto de hospital. Afastaram-se quase com a justa impressão de que acontecera um fato dentro da ordem e legalidade.

Segundo as estatísticas americanas — comentou o senhor —, morrem lá anualmente 190.000 pessoas em acidentes de automóvel, e 450.000 ficam feridas.

— Acha que ele está morto? — perguntou sua acompanhante, ainda com a sensação injustificada de ter visto algo fora do comum.

O que o autor quer nos instigar a pensar com esta cena.

Penso que Musil nos fala da sua perplexidade frente ao fato de que como a era da técnica parece vir ao encontro do anseio humano de amortecer qualquer tipo de reação emocional frente à dura realidade da vida e da morte.  Depois de algo que talvez mereça o nome de compaixão, a dama vê-se aliviada com a explicação técnica do homem de que os caminhões pesados têm um tempo de frenagem longo demais. Esta explicação técnica parece buscar dar conta de todo o mal-estar e perplexidade que qualquer ser humano sente frente à morte. Com esta explicação fria, tecnicista, a dama vê-se aliviada e “aquilo” (o problema insolúvel da morte) não lhe interessa mais. Tudo volta “ao normal”. Em seguida vemos a aplicação exata e precisa das instituições sociais que visam limpar qualquer vestígio da morte, de percepção da fatalidade. Em seguida o casal se afasta com a justa impressão de que tudo se passou dentro da “ordem e da legalidade”. Mais adiante chegam as estatísticas. Mais uma vez a técnica está a serviço do aplacamento do mal-estar inerente à vida. Como se números frios pudessem dar conta da angústia inevitável do viver. A morte, Musil termina brilhantemente, é para aquelas pessoas algo “fora do comum”.

Pois bem, vocês podem estar se perguntando o que isso tudo tem a ver com o erotismo e com a psicanálise? Tem tudo a ver.

O erotismo, assim como a morte, são realidades inextrincáveis ao ser humano. Não podemos nos livrar do frenesi da vida, assim como não podemos destituir a nossa subjetividade do desejo que pulsa e que desacomoda o sujeito de si mesmo, causando-lhe fissuras irreparáveis.

É, portanto, visando o questionamento do domínio nefasto da técnica sobre o desejo, que Freud constrói a sua teorização sobre a sexualidade e o erotismo na psicanálise na aurora do século XX.

Notem que Musil, assim como Freud que escreve seu primeiro texto teórico sobre a sexualidade em 1905 (portanto, 30 anos antes de Musil) anteveem os estragos que a pretensão da onipotência da técnica sobre as emoções humanas nos deixaria como legado no século XXI. Ambos são visionários nesse sentido e dialogam entre si, embora em campos distintos.

Na psicologia e mais especificamente no campo da sexualidade enquanto prática higiênica, a herdeira da “era da técnica” foi a sexologia, que dominou o pensamento médico e jurídico desde a segunda metade do século XIX.

O que foi a Sexologia?  

Sexologia foi o nome que se deu à disciplina que tomou por objeto de estudo a atividade sexual humana e que tinha como objetivo descrever tais atividades e propor para ela fins terapêuticos.  Ou seja, tratava-se de uma pretensão técnica e científica de agenciar o campo do erótico por meio da disciplina do corpo, visando a domesticação dos desejos e a adaptação do sujeito à sua realidade factual.

Para a instauração de tal projeto tecnicista a sexologia partia da premissa de que a sexualidade dita “normal” era aquela que tinha fins reprodutivos e que estava centrada na atividade genital heterossexual, ou seja, o coito praticado entre o pênis e a vagina. Todas as demais práticas sexuais humanas que buscavam o prazer, ou seja, o erotismo mesmo, mas não a reprodução deveria ser localizadas no pólo da perversão e da patologia e deviam ser extintas e controladas por meio de técnicas médicas e jurídicas.

Pois bem, e o que Freud fez frente a este discurso?

Ele não só dialogou com ele, mas propôs uma nova conceituação sobre a sexualidade, não mais fundamentada na biologia organicista da sexologia, mas na concepção do homem como um ser animado e fraturado desde sempre por desejos irreconciliáveis com a realidade. Daí ser mais interessante, para esta perspectiva freudiana, o uso do termo erotismo. Em resumo, o que Freud fez foi subverter a ordem deste pretenso ideal de que o homem, por meio do fazer técnico, iria alcançar a felicidade e o bem-estar pleno, tornando-se um ser plenamente adaptado à sua realidade factual. Freud com sua psicanálise demonstraram que este anseio é da ordem do ideal e que o homem está, desde sempre, imerso em conflitos internos irresolvíveis, com os quais deve aprender a conviver. Neste sentido, o homem da psicanálise deve aprender a abdicar, com resignação e sabedoria, de qualquer ideário de felicidade e de satisfação plena, e aprender a negociar heroicamente com sua condição trágica por excelência.

Mas, vejamos mais detidamente quais foram as revoluções que Freud propôs para o campo do erotismo.

Visando dissociar do corpo biológico a sexualidade reprodutiva e inscrever esta mesma sexualidade no campo do desejo e da ética, Freud postulou que o homem, ao contrário dos outros animais, é dotado de pulsões.

O que são pulsões?

Pulsão é um conceito criado por Freud para dar conta de explicar o excesso energético que acomete o organismo humano desde o seu interior de uma forma perene, constante. Nesta sua postulação Freud parte da premissa básica de que existem dois tipos de estímulos que afetam o organismo humano: os estímulos externos, que chegam de fora. Para estes o organismo desenvolve formas de proteger o seu interior deste excesso de estimulação. Por exemplo, se somos acometidos por um estímulo visual intenso, podemos fechar os olhos. Entretanto, o organismo humano também é constantemente estimulado por estímulos que o acometem a partir de dentro. Tratam-se dos estímulos ligados às necessidades da vida: a fome e o sexo. Ora, como se proteger de algo que vem de dentro? Como a cria humana pode se a ver com esta fonte de estimulação constante que o afeta e diante do qual nada pode fazer, mediante seu despreparo físico e cognitivo, por exemplo, para conseguir se alimentar sozinho? É para dar conta desta situação problemática que Freud cria o conceito de pulsão.

Nesse sentido, a pulsão é este excesso energético do qual o organismo humano precisa dar conta e do qual ele não se livra nunca. Importante frisar que toda satisfação pulsional nunca é plena. Daí o caráter faltante do objeto e do desejo. O desejo, derivado da pulsão, nunca pode ser plenamente satisfeito. No ser humano o desejo só pode ser satisfeito por metáforas, ou seja, por algo que substitui aquilo que se desejava em termos ideais. Toda a engrenagem da produção cultural humana nasce para dar conta desta busca pela satisfação do desejo que, como eu disse, é sempre parcial, metafórica.

À pulsão sexual Freud deu o nome de libido. Este campo energético é móvel, pode estar investido tanto no próprio corpo do sujeito quanto nos objetos (outro) e possui uma variedade de formas e de fontes de satisfação.

Esta pulsão sexual existe desde sempre no sujeito, afetando-o de várias maneiras. Daí que Freud também contraria a ideia da sexologia de que a sexualidade no homem só começa a florescer na puberdade, sendo a criança um ser assexual. Com sua teoria, Freud mostra que a criança é um ser imerso no campo do desejo sexual para os quais ela busca satisfação através do que ele designou por zonas erógenas. A marca fundamental das zonas erógenas é que elas são fendas, orifícios corporais de onde emanam o erotismo e que pedem um complemento vindo do mundo externo (Outro). As zonas erógenas são uma espécie de delimitação entre o interior e o exterior, entre o dentro e o fora, entre o Eu e o Outro.

Original Caption: Sigmund Freud, 1856-1939, Austrian psychiatrist, in the office of his Vienna home looking at a manuscript. B/w photo ca.1930.

Para Freud, o sexo é um efeito distante do sexual, sendo que estas duas palavras deixam de ser equivalentes. O corpo deixa de ser somente o somático e o orgânico. Ele é um caldo explosivo e marcado inelutavelmente pelas pulsões. Só este campo pulsional que atravessa o corpo orgânico pode explicar o quanto o gozo erótico pode se contrapor à ordem da preservação da vida. Pelo gozo erótico, a vida pode ser colocada em risco. George Bataille corrobora esta premissa freudiana aludindo que o orgasmo é uma pequena morte. A sexualidade freudiana é regida pela economia pulsional, marcada por intensidades e afetos. Aqui o sujeito neurótico não é aquele para quem se devem prescrever comportamentos adequados (conforme a sexologia), mas é tido como um sujeito aprisionado em impasses sexuais que o impedem de gozar e ter prazer. Nesta leitura, o neurótico é uma espécie de resultado do discurso da sexologia, para quem ela fez algum efeito.

Freud também pontua que ao contrário do que pensa a sexologia, o sujeito humano tem uma atividade sexual desde sempre, marcada pelo campo da fantasia.

Dito isso, qual a relação que podemos estabelecer entre o discurso científico da sexologia, com seu corpo biológico dotado de necessidades orgânicas e a psicanálise, com seu homem fraturado pelos desejos?

Eu diria que a psicanálise vem responder a uma espécie de resto criado pelo discurso biologizante com sua ilusão de completude corpórea. Ora, o modelo de onde parte o discurso da sexologia é o do corpo-máquina, com suas engrenagens funcionando de modo sincrônico e perfeito. O problema é que este modelo mecânico não se aplica ao humano. Desde o nascimento, o sujeito humano é marcado por fendas, por incompletudes, por uma dependência inelutável do outro.

Destas fendas, destes orifícios que pedem um complemento e que fazem de tudo para animá-los é que surge o desejo, ou melhor, o erotismo. A sexualidade freudiana é uma ética do desejo, pautada no terrível paradoxo humano: dependemos do outro para erotizar a vida, mas não há encontro humano que seja capaz de fazer cessar o desejo. Este é o grande paradoxo com o qual cada um de nós tem de se a ver. E é para responder a este terrível paradoxo que existe a sexualidade: Sou incompleto, logo erotizo.

Vocês já observaram como é um bebê de dois ou três meses? Não podemos dizer que ele é uma engrenagem perfeita. Muito pelo contrário. Um bebê humano nesta idade é a pura personificação de como nós nascemos biológica e psiquicamente despreparados para reagir às necessidades imperiosas da lei da vida. Podemos dizer que um bebê nesta fase se relaciona com o mundo através da boca. Ele conhece o mundo pela boca. Por que faz isso? Não é obviamente só porque tem fome. Esta seria uma perspectiva organicista e simplista de ver as coisas. Ele erotiza o mundo com seu orifício bucal que pede desesperadamente por um complemento para seu buraco. A falta já está inscrita ali, de maneira radical e trágica. O que ele fará com isso? Freud responde: no início, o bebê reagindo pela sua onipotência primária, irá alucinar o seio porque sua relação com a realidade é problemática e precária, o que aliás, sempre será para o ser humano. No caso do bebê, será a marca de incompletude que o fará erotizar o seio, depois as fezes, a pele, os olhos, as palavras e tudo o mais em que o desejo humano puder inscrever sua marca. Ou seja, por meio do erotismo o sujeito humano busca tamponar suas fendas para barrar o abismo que existe entre o dentro e o fora, entre o eu e o outro.

Portanto, de onde Freud parte para falar que o homem é animado por desejos nunca plenamente satisfeitos?

Ele parte de um início mítico do humano: a de que todos nós ansiamos em nossa mitologia individual inconsciente a um retorno à perfeição indiferenciada entre o eu e o outro, entre o dentro e o fora. Esta origem mítica perfeita seria uma espécie de ponto zero ideal da matemática. Lá neste ponto mítico nós seríamos completos, nada nos faltaria, viveríamos um encaixe perfeito com o Outro que nos satisfaria plenamente. Voltaríamos a ser “à imagem e semelhança de Deus”.  A criança humana fantasia que esta completude mítica se encontra na relação com a figura materna, que Lacan designou como sendo o primeiro grande Outro da criança. Este início mítico, se vocês fizerem uma leitura atenta de gênesis, é o que e personifica, por exemplo, na belíssima mítica da queda do paraíso de Adão e Eva.

Se retomarmos o mito veremos que foi o desejo de Eva de ser perfeita e saber desvendar todos os segredos do bem e do mal, exatamente como Deus sabia, que a fez morder a maça oferecida astutamente pela serpente. Vejam o que diz a serpente a ela, instigando-a a comer o fruto da árvore da vida (a única que Deus proibiu Adão e Eva de comer!):

Eva: Deus disse para eu não comer dele, nem tocar nele para que eu não morra.

Serpente: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e serei como Deus, sabendo o bem e o mal.

Então viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e a árvore desejável para dar entendimento.

A partir daí Eva comeu o fruto da árvore da vida e o deu também a Adão. Por ter sido desrespeitado, Deus ordenou que eles fossem expulsos do Éden. A partir daí o homem ingressou, para sempre, na realidade humana com seus paradoxos irresolvíveis. Interessante destacar que a primeira realidade para a qual Adão e Eva se atentam depois de comido o fruto do conhecimento, era para a nudez de seus corpos, o que pode ser interpretado miticamente como sendo a partir do reconhecimento da diferença sexual, inscrita no corpo, que o homem reconhece pela primeira vez sua realidade incompleta. Freud comprova esta teoria individual mítica quando funda sua teoria de que a criança de ambos os sexos até uma determinada idade só reconhece a existência de um sexo: o masculino. É como se o ser humano negasse o quanto pudesse a percepção de que sua incompletude e fissura radical está inscrita desde sempre em seu próprio corpo.

Mas retomando gênesis, a mensagem contida ali é clara: é o anseio humano de um encontro mítico com o Deus-uno, que o levam a querer superar a si mesmo, mas também muitas vezes a sofrer. É partir daquilo que nos falta desde sempre que construímos realizações sublimes, mas que também pode fazer com que nossa existência seja miserável, repetitiva e estéril. Quando isso acontece? Quando o homem nega sua condição de ser faltante. Quando ele não quer se a ver com isso e busca realidades fictícias, ilusórias, em que as falhas, os desencontros e as frustrações estariam pretensamente ausentes de sua mirada. É isso que faz o neurótico: ele se apega a um modo de gozo infantil e repetitivo, que não lhe cabe mais, tudo para não ter que se a ver com sua condição de sujeito castrado, ou seja, não ideal. O neurótico mantém acessa dentro de si a esperança de um dia vir a ser o Tudo do Outro, situação em que acredita poder finalmente vir a ser satisfeito em suas demandas insaciáveis de amor. O neurótico, portanto, não aceita nem que ele nem que os outros possam ser “mais ou menos”, provavelmente a mesma condição que Eva já não engolia.

Vejam que Eva sabia, pela razão, que não devia comer o fruto. Mas ainda assim, movida pela paixão e pelo desejo, comeu. Ora, é disso que se trata a natureza humana. Nós, como humanos, não somos lineares. Nossas ações não são regidas pela racionalidade tão somente, mas também pelos desejos, pelos excessos, pelas paixões. Somos por natureza incongruentes, paradoxais, conflituais. Sabemos que não devemos fazer e ainda assim fazemos. Tomados pelas pulsões, pelas paixões, somos submetidos à um ímpeto que transcende a razão.

Podemos nesse ponto da discussão nos fazer a interessante pergunta: porque Deus castigou Adão e Eva?

Psicanaliticamente nós responderíamos que eles foram castigados porque eles estavam arrogantemente querendo ser Deus. E homens não podem ser Deus. Por causa de sua arrogância, eles não se contentaram em ser homem e mulher. Queriam mais. Assim como quer a criança ultrajada que deseja crescer rápido para ser adulta. Ao serem castigados, eles são obrigados a reconhecer que não podem conhecer todos os mistérios sobre o bem e o mal. Trata-se do ponto de vista psicanalítico de um processo que chamamos de castração, pelo qual toda criança humana deverá passar para que possa vir um dia pertencer à comunidade simbólica humana.

De que se trata exatamente esta castração? Não é simplesmente o medo da perda do pênis como uma leitura simplificante da psicanálise pode dar a entender. Trata-se da percepção dolorosa, a ser vivenciada pela cria humana, de que ela não pode ser o ideal de si mesma. Dito de outro modo: a criança deve perceber, com muito custo, que há um ideal parental e cultural que lhe transcende (a imagem de Deus), ao qual ela deve se curvar e prestar contas. Explicando melhor, para Freud este ideal parental, cultural e simbólico é o ideal civilizatório que já existia e estava instituído antes de a criança chegar ao mundo e do qual ela depende para sobreviver e vir a se tornar humana.

O que Freud considerou com isso é que todos nós quando nascemos carregamos conosco uma dívida simbólica com as gerações que nos antecederam. Dito de um modo mais simples: nós não nos produzimos por nós mesmos. Para existirmos, dependendo do ato generoso de um casal que decide dar à vida a nós e de uma comunidade humana que nos acolhe quando chegamos ao mundo, dando-nos um status humano e simbólico (com um nome, um sobrenome, uma filiação, um pertencimento cultural, etc). Voltando ao mito, Adão e Eva – os primeiros homens criados miticamente – carregam uma dívida com Deus. Se eles decidem competir com o grande criador, a dívida não pode ser reconhecida e muito menos paga. A cria humana deve se curvar e reconhecer sua necessidade inelutável do Outro.

Nesse sentido ético, a sexualidade na psicanálise tem um caráter iminentemente relacional. Não há sexualidade sem que haja uma dupla por onde circulam os desejos. Por isso não há analista sem analisando, não há aluno sem professor, não há crianças sem pais. Precisamos do Outro caso ainda queiramos receber o nome de seres humanos.

Sexualidade na Psicanálise

images (8)A concepção psicanalítica da sexualidade embaralha as fronteiras entre o normal e o patológico, bem como prescinde da categoria de instinto sexual. Em Psicanálise a sexualidade está divorciada da sua ligação por demais estreita com os órgãos genitais, sendo considerada como uma função corpórea mais abrangente, tendo o prazer como a sua meta e só secundariamente vindo a servir às finalidades de reprodução.

Em seu estudo autobiográfico Freud (1935) declara que poucos dos achados da psicanálise tiveram tanta contestação universal ou despertaram tamanha explosão de indignação como a afirmativa de que a função sexual se inicia no começo da vida e revela sua presença por importantes indícios mesmo na infância.

E contudo nenhum outro achado da análise pode ser demonstrado de maneira tão fácil e completa. Freud ainda neste livro declara que quando modificou a teoria do trauma infantil sendo levado a reconhecer que as cenas de sedução jamais tinham ocorrido e que eram apenas fantasias que os pacientes haviam inventado e que os sintomas neuróticos não estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos; ele abriu o caminho para o entendimento da sexualidade infantil.

Em Freud, a função sexual encontra-se em existência desde o próprio início da vida do indivíduo, embora no começo esteja ligada a outras funções vitais e não se torne independente delas senão depois; ela tem de passar por um longo e complicado processo de desenvolvimento antes de tornar-se aquilo com que estamos familiarizados como sendo a vida sexual normal do adulto. De início a função sexual é não centralizada e predominantemente auto-erótica. A sexualidade começa por manifestar-se na atividade de todo um grande número de pulsões componentes; estas estão na dependência de zonas erógenas do corpo; atuam independentemente umas das outras numa busca de prazer e encontram seu objetivo, na maior parte, no corpo do próprio indivíduo.

Após a fase do auto-erotismo, o primeiro objeto de amor em ambos os sexos é a mãe, afigurando-se provável que, de início, uma criança não distingue o órgão de nutrição da mãe do seu próprio corpo.
A sexualidade está divorciada da sua ligação por demais estreita com os órgãos genitais, sendo considerada como uma função corpórea mais abrangente, tendo o prazer como a sua meta e só secundariamente vindo a servir às finalidades de reprodução.

A homossexualidade pode ser remetida à bissexualidade constitucional de todos os seres humanos e aos efeitos secundários da primazia fálica. A psicanálise não se preocupa em absoluto com julgamentos de valor a respeito da sexualidade.

A maneira como as pulsões sexuais podem ser influenciados e desviados lhes permite ser empregados para atividades culturais de toda espécie, para as quais, realmente, prestam as mais importantes contribuições.

Em psicanálise o conceito do que é sexual abrange bem mais do que seu sentido popular. É reconhecido como pertencente à vida sexual todas as atividades dos sentimentos ternos que têm os impulsos sexuais primitivos como fonte, mesmo quando esses impulsos se tornam inibidos com relação a seu fim sexual original, ou tiveram de trocar esse fim por outro que não é mais sexual. (Freud, 1910)

A ausência mental de satisfação pode existir independente da abstinência de sexo. O coito é apenas uma forma de expressar a sexualidade, mas não a própria sexualidade. (Freud, 1910).

Loureiro (2005) diz que a psicanálise efetua uma verdadeira ruptura naquilo mesmo que até então se considerava sexualidade. Ao contrário dos discursos normativos da sexologia e da criminologia, que priorizavam a explicação com base em teorias da hereditariedade e da degenerescência, a concepção psicanalítica da sexualidade embaralha as fronteiras entre o normal e o patológico, bem como prescinde da categoria de instinto sexual (impulso pré-formado, comum à espécie como um todo, dotado de objeto e finalidade fixos), Freud usa o termo Trieb (impulso ou pulsão). A pulsao não implica nem comportamento pré-formado, nem objeto específico. O conceito de pulsão demonstra as múltiplas, contingentes e mutantes feições que pode assumir a sexualidade humana.

Loureiro, Inês. Luzes e Sombras. Freud e o advento da psicanálise. In: Jacó-Vilela, A. M.; Ferreira, A. A. L.; Portugal, F. T. Historia da Psicologia: rumos e percursos. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2005.

Freud, Sigmund. (1935). Um Estudo Autobiográfico. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas Vol. XX. Rio de Janeiro: Imago editora 1996.

Freud, Sigmund. (1910). A Psicanálise Silvestre. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas: Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

INFORMAÇÃO OU CONHECIMENTO? A SEXUALIDADE ADOLESCENTE NA ERA DA INFORMAÇÃO

Pesquisando sobre o que escrever nesta semana, deparei-me com uma página na internet onde os jovens fazem perguntas abertas sobre qualquer assunto. A página que mais me chamou atenção foi a que continha perguntas relacionadas ao sexo. Eram mais de 180 páginas e cada uma tinha 20 questões!

Fiquei a pensar: nunca nossa sociedade teve tanta facilidade na busca de informação sobre qualquer assunto, mas percebo que na contramão dessa busca fácil está a dificuldade das pessoas terem conhecimento sobre o que buscam.

A quantidade de questionamentos deixa clara que os jovens, embora tenham a informação à mão, muitas vezes não conseguem transformá-la em conhecimento. Falha a família, falha a escola… falham as instituições.

Dos muitos questionamentos selecionei um, que me chamou atenção pela segurança aparente e pelo “grito de socorro” implícito.

O rapaz contava que havia feito sexo com a namorada no dia do questionamento. Tinha certeza que tudo estava bem, mas uma pulguinha atormentava sua tranquilidade. Vamos ao questionamento:

“Fiz sexo com minha namorada duas vezes. Na primeira, o esperma estava todo no reservatório, a camisinha não furou nem nada. Na segunda, ela teve o orgasmo, e a gente continuou normalmente pra eu ter também, só que a camisinha tava muito seca e tava doendo para ambos, então eu tirei e minha namorada fez sexo oral pra eu terminar. Depois mais tarde a gente ficou se esfregando, eu fiquei colocando a cabeça do pênis na calcinha, esfregando. Tenho praticamente certeza que não entrou nem um pouco, mas nessas esfregadas eu devo ter passado um pouco do pênis na entrada da vagina dela e etc (mas isso foi tipo um tempão depois das duas transas). Gente, eu tô com 99% tranquilo que não deu nada, mas mesmo assim queria confirmações e suas opiniões para ficar mais tranquilo. Ela estava fértil quando transamos e fizemos tudo que eu descrevi, mas como disse, foi tudo mais que de boa. Só confirmem pra mim: não há praticamente nenhum risco de gravidez, né? Praticamente nulo…?”

Preocupei-me mais quando vi a resposta dos outros jovens. A maioria afirmava que era impossível a garota estar grávida, só se fosse de outro!

Não sou médica, nem da área médica… mas na vida  conheci algumas garotas que engravidaram exatamente assim.

Independente da questão Médica, o que me chamou a atenção é o despreparo da moçada para viver sua sexualidade de forma segura.

O que observo, sem a intenção de generalizar, é que educação sexual dos nossos jovens, embora tenhamos tantos pais também jovens e aparentemente liberais, ainda é cercada de tabus e segredos.

Precisamos rever isso com urgência. Sexo é algo natural e deve ser vivido com plenitude, com segurança, com afetividade.

Quando falo em afetividade, não quero falar de sentimento de afeto, mas de um conceito mais amplo que na Psicanálise significa ver o outro com os olhos da alma, com a plenitude dos sentidos, estando inteiro naquele momento e naquela relação, cuidando, respeitando e se doando ao outro, na intensidade  e na igualdade que queremos receber.

Pais, precisamos melhorar o diálogo com nossos filhos. Precisamos entendê-los como seres biológicos, que possuem desejos, inicialmente mais físicos do que emocionais, mas nem por isso vamos deixar de educá-los emocionalmente.

Sim, emoção se educa! E isso se faz com bons exemplos, com diálogo aberto, com proximidade e afetividade em seu sentindo mais amplo.

Se continuarmos fingindo que nossos jovens filhos são assexuados, correremos o risco de vê-los correndo sérios riscos… físicos e emocionais!

Pensem nisso. Se você tem reservas em conversar com seu filho sobre sexo, busque entender o que acontece com você… porquê o medo, a vergonha e a resistência? Tente entender suas emoções e o que as motiva. Tente também se lembrar de seus sentimentos quando começou a viver sua sexualidade. E se preciso for, busque ajuda para superar seus conflitos e ajudar seu filho a viver com segurança mais esta fase do desenvolvimento humano! Com certeza eles não dirão… mas no fundo, agradecerão.

Só sexo, ok?

sexo soOlá! Como vão?

Hoje vou abordar um assunto que conversei com uma paciente durante uma sessão de terapia.

Já fazia um tempo que ela não tinha relações sexuais, pois tinha se separado do marido há pouco tempo. Mas a vontade era grande de encontrar uma outra pessoa para transar, gerando até uma certa ansiedade nela.

Falei para ela ter paciência, pois ainda estava digerindo a separação, e que certamente ela iria encontrar alguém para matar aquela vontade, que sem dúvida um dia ela iria ter essa oportunidade.

Bom, o tempo passou e ela encontrou uma pessoa, na verdade ela foi pega de surpresa, pois já fazia um tempo que não via essa pessoa, pois eles já se conheciam, mas há algum tempo não se viam. Papo vai, papo vem, e eles acabaram saindo um dia, até que aconteceu aquilo que ela tanto queria.

Mesmo ela deixando claro para ele, que o interesse dela nisso tudo era apenas sexo, ele cobrou dela um algo a mais, ou seja, que durante aquela transa, ela agisse de uma maneira mais carinhosa, atendendo as necessidades dele tanto fisiológica (sexo), como psicológica (carência afetiva), o que fez com ela na mesma hora perdesse a vontade de continuar com ele.

Não vou aqui julgar se ela ou ele que estão certos, até porque esse pensamento de certo e errado é muito relativo, sempre depende do ponto de vista que observamos uma situação. Mas o que considero válido, é que tanto ela como ele estavam nessa relação apenas para saciar necessidades físicas e psicológicas (apenas dela falar que no caso dela era apenas sexo, e nada mais, ou seja, fisiológica). E também aqui quero deixar claro que não há nada de errado nisso, apenas acho que é bom senso que ambos deixem bem claro um para o outro, qual a real intenção de cada um nessa relação.

Alguns poderão pensar que ele por querer algo a mais, como por exemplo ouvir palavras amorosas, se sentir amado e querido por ela, que ele nesse cenário é uma pessoa melhor que ela, mais empática. Mas que tal pararmos para pensar, e diferenciar uma pessoa “sensível, carinhosa” por interesses egocêntricos, ou seja, visando apenas saciar suas necessidades próprias (carência afetiva), e de outro lado uma pessoa com as mesmas qualidades, mas que age assim porque gosta de ver o outro feliz, quando faz com que o outro se sinta amado, querido, e sem ter necessidade alguma de receber os mesmos elogios em troca? Percebem a diferença? O que eu gostaria que pensassem, é que tanto ela como ele estavam totalmente egocêntricos nesse caso, e que o fato dele agir de uma maneira mais carinhosa com ela, na verdade é porque ele queria ter o retorno disso, ou seja, fez para receber. Não tem nada de empático nisso.

E geralmente quando agimos egocentricamente, a probabilidade de nos frustrarmos é praticamente certa, o que foi que aconteceu com ele, pois criou uma expectativa que ela em momento algum alimentou.

E nesse caso eu me pergunto, até que ponto esse cara não estava mais precisando mesmo era de um colo de mãe, e não de uma mulher para transar? Mas aí já é um outro assunto…

Se a sua relação com outra pessoa é apenas por sexo, ou não, faça o que tiver que fazer porque quer, e não porque quer ter retorno, entende? Quer elogiar, abraçar, beijar, faça, mas não espere nade de volta, ninguém é obrigado a te fazer algo, cada um faz porque quer! E fazer por obrigação é fazer algo contra sua vontade, e isso reflete na sua relação, porque o inconsciente da outra percebe que aquilo não é autêntico, e sim falso.

Seja verdadeiro, e não falso!

Rejeitada, abandonada… Será?

aloneOlá, como estão?

Alguém se sentindo abandonado, rejeitado…?

Tenho certeza de que muitos “levantaram a mão” antes mesmo de acabar de ler a frase acima. E qual o motivo de estarem sentindo isso? Será que esse motivo é real, ou algo que você criou na sua mente, para conseguir algo em troca?

É… A necessidade de ser aceito pelo ser humano é constante. Ser valorizado, reconhecido é uma busca constante na vida de todos nós, em alguns de uma maneira, digamos assim, “normal” (se existe normalidade nisso), para outros a busca é quase que doentia. Entendam que ser aceito, reconhecido e valorizado por todos é impossível! Se Jesus Cristo, que foi uma das pessoas mais iluminadas desse planeta (entre outros seres), não agradou a todos, porque você quer que todos te aceitem ou bajulem constantemente? Eu sei que é gostoso ser reconhecido pela pessoa que você é, e pelos feitos que fez na sua vida, mas acreditem (caso não tenham se atentado para isso), cada um pensa de uma maneira! Não existe uma pessoa em todo esse planeta que pensa igual a você em tudo, então como é que você quer que todos te aplaudam o tempo inteiro pelo que você faz? Somente você se aplaude o tempo inteiro, narcísico como todos somos.

Vamos voltar ao parágrafo em que eu pergunto se o motivo que o faz se sentir rejeitado ou abandonado, e preste atenção na pergunta que vou fazer. Será que você realmente foi abandonado, rejeitado, ou a pessoa que te causou esse sentimento apenas não te deu aquilo que você idealizava? Então, se por acaso você esperava que esta pessoa te beijasse 10 vezes pelo menos por dia, e por exemplo ela “somente” te beijou 5 vezes, isso foi o motivo que fez você se sentir rejeitado? Ou então, se por exemplo você esperava que seu namorado te encontrasse todos os finais de semana, mas por um algum motivo ele não pode ter ver no último sábado (mas te viu no domingo), isso te fez você se sentir abandonada? Percebe as diferenças entre a realidade verdadeira (em psicanálise realidade-realidade), e a realidade que você criou na sua cabeça (realidade psíquica) que está fazendo você sofrer assim?

rejeicao_rejeitada_abandonada_depressaoEm várias situações em consultório eu escuto situações como essa, e falo para a pessoa pensar usando a razão, ou seja, parando para pensar se realmente aconteceu aquilo que está sentindo, sem colocar emoção em seu processo de elaboração, de entendimento daquilo que está fazendo ela sofrer. Na grande maioria das vezes, percebo que após orientar para que a pessoa analise a situação de uma maneira mais “justa”, a reação dela é de perceber que ela estava digamos assim, distorcendo o contexto desse história toda, causando na maioria das vezes uma certa vergonha.

Ok, você pode me falar que mesmo após repensar as situações que te fizeram se sentir mal, que você ainda tem razão para de sentir assim. Lembre-se de que as pessoas estão ao seu lado porque querem estar, e que ninguém ter por obrigação fazer as coisas para você, elas fazem porque querem, seja por algum ganho que terão, ou porque te querem ver feliz. E às vezes acontece daquela pessoa que você espera demais dela (você criou uma expectativa gigante em relação à ela), de repente, por algum motivo deixa de atender uma das suas necessidades, e aí você tem dois caminhos para escolher: ou você compreende que nem sempre as pessoas vão fazer aquilo que você quer, porque todos somos livres para fazer o que bem entendermos como correto (pelos valores de cada um), ou então você fica sofrendo, se queixando da vida, e assim tentando conseguir alguma atenção de alguém, para ficar passando a mão na sua cabeça, porque você é um “coitadinho” ou uma “coitadinha”. Você acha isso algo digno de você fazer? Vitimização e auto-piedade só porque não atenderam as suas necessidades?

Existem os casos mais complexos, em que a pessoa passou por experiência de vida de real abandono e rejeição, e esses devem ser tratados em consultório.

Sejam maduros nos seus pensamentos, realistas. Se por acaso está insatisfeito com algo relacionado a alguém, converse com essa pessoa, e fale o que você espera dela, assim você poderá saber se ela está disposta ou não em atender o que você quer, e posteriormente você decidirá o que fazer sobre cada situação. E não ficar se queixando o tempo inteiro, que é um(a) coitado(a), abandonado(o)… Valorize-se!

Autoestima, corpo ou mente sã?

autoestimaOlá, tudo bem?

Como anda sua autoestima? Bem? Mal? Estável?

Muitos acreditam que falar em autoestima, significa falar em tratar do corpo, ter vaidade física, procurando se tornar uma pessoa linda, com pernos tornadas, barriga sarada, cabelos e tudo mais na mais perfeita sincronia com o que a sociedade considera ser belo.

Tudo bem, concordo que cuidar do corpo faça com que a nossa autoestima melhore, mas e o a sua mente, você cuida dela? O que adiante ter um corpo bonito, e ficar sofrendo com coisas que não controla? Ou ter problemas mais sérios, gerando uma angústia constante na sua vida? Quer ser maravilhosa, e ter algum tipo de neurose que faça com que você não consiga ficar nenhum minuto sem se olhar no espelho, procurando imperfeições? O quanto sadia está a sua maneira de se cuidar?

Lembre-se que mens sana in corpore sano, ou seja, mente sã corpo são!

Até que ponto uma pessoa que se cuida tanto fisicamente, não está tentando resolver um problema na sua mente através do corpo? Se uma pessoa por exemplo tem um complexo de inferioridade grande, fazendo com que ela através do seu corpo “prefeito” equilibre esse sentimento, fazendo com que ela ao invés de cuidar da sua mente, gaste horas se exercitando. E se procura um corpo perfeito, o que está imperfeito na sua mente? Uma sexualidade não resolvida, por exemplo? Ou um conflito com alguém que ama, mas devido ao seu orgulho, não aceita agir humildemente, e assim resolver esse problema?

O quanto alguém que corre todos os dias, em uma ânsia de cada vez mais superar limites, não está inconscientemente fugindo (correndo) de algo que não quer encarar?

É claro que não devemos generalizar, e volto a dizer que se cuidar é muito bom, mas o que assusta é a forma exagerada (formação reativa?) com que as pessoas estão agindo.

Acredite ou não, a sua autoestima está mais ligada a sua mente, do que em relação ao seu corpo. Se você tem sérios problemas pessoais para resolver, e não os resolve, certamente isso irá roubar uma quantidade enorme de energia psíquica, fazendo com que a sua autoestima caia muito. E a cada dia que se passa, você sabe (sua mente sabe) que existem conflitos para serem solucionados. Infelizmente ainda existem pessoas que acreditam que a “perfeição de ser belo”, ou vaidade, vai resolver todos os problemas da sua vida.

A energia que faz com que a sua autoestima fique melhor ou não, está ligada diretamente em como você está lidando com os seus conflitos, seus recalques, e não na sua forma de vestir, ou na sua beleza física. Isso vai ser algo que ajudará você a se sentir melhor, tipo melhorar 5% a sua autoestima, os outros 95% está em como você realmente se vê, pois do que adianta você se achar a pessoas mais linda do mundo, mas ao mesmo tempo não consegue tirar da sua mente que é uma pessoa burra e incapaz?

Cuido do todo, e não de uma parte somente! Os melhores atletas são aqueles que se preparam tanto fisicamente, como psicologicamente. De nada vai adiantar ter uma preparação perfeita para uma prova, se você continuar achando que é um perdedor, certo?

Uma ótima semana!

Abraço!