“Dois Irmãos” e a libertação na literatura

Capa da edição francesa da graphic novel Dois Irmãos, uma adaptação de Fábio Moon e Gabriel Bá ao livro de Hatoum

Segundo romance de Milton Hatoum, Dois Irmãos foi lançado em 2000 e premiado com o Jabuti no ano seguinte. Na época, Hatoum já tinha 48 anos e estava superando momentos pessoais bastante conturbados.

Deixando sua cidade natal, Manaus, um casamento e um emprego como professor universitário, foi para São Paulo iniciar a longa trajetória de Dois Irmãos, obra que levou três anos para ser escrita e muitos outros para ser pensada.

Neste longo período, foram muitas as transformações na vida do autor. A obra, que se tornou a mais lida de Hatoum, também se tornaria um símbolo de sua libertação, como explicou o próprio escritor quando subiu ao palco do Fronteiras do Pensamento, em 2008.

MILTON HATOUM | Dois Irmãos e a libertação na literatura

Quando comecei a fazer análise, eu não sabia o que podia escrever, tinha, mais ou menos, a consciência que eu não queria ser as duas coisas: professor e escritor. Pelo menos naquela minha universidade eu não teria tempo.

Deitado no divã, eu comecei a falar de literatura, dos meus planos, do que eu queria escrever e a psicanalista disse: “Faz o seguinte: vai escrever, porque é isso que você deve fazer. A psicanálise não vai te ajudar nesse sentido. Você tem que colocar para fora todas essas coisas, todos esses fantasmas”.

No fundo, o que a gente escreve é uma espécie de biografia de fantasmas, uma biografia de espectros. Por isso, a literatura e a psicanálise têm tantas coisas em comum. E eu passei muito tempo tentando escrever um segundo romance, mas, infelizmente, não tenho facilidade para escrever. Tentei, durante muitos anos, escrever outro romance que, de fato, não saía.

Em 1997, depois de vários acontecimentos em Manaus – acontecimentos negativos, perdi pessoas queridas, minha relação com a academia foi se deteriorando, eu não tinha mais tempo para ler e escrever – eu saí de novo da cidade, deixei os confins – e agora para sempre, pois eu não volto mais a morar em Manaus – e fui para são Paulo. Larguei a universidade e tudo o que foi possível largar, só não larguei a memória do tempo em que eu morei lá.

Escrevi Dois Irmãos em pouco mais de três anos. Comecei a pensar no livro quando li Esaú e Jacó, que considero um dos grandes romances de Machado de Assis. Para mim, Dois Irmãos foi uma coisa decisiva: ou eu terminava esse romance, ou, de fato, ficaria encalhado como autor de um romance, de Relato de um Certo Oriente, o que não teria problema.

relato de um certo oriente - milton hatoumHá escritores como Rulfo, um dos grandes escritores da América Latina, mas que escreveu só um romance. Só que eu não queria ser um grande escritor nem o autor de um único romance e me enveredei pelo segundo.

Assim, foi com Dois Irmãos que comecei a viver de literatura. Eu escrevia todos os dias. Achava que, de alguma forma, esses Dois Irmãos me libertariam de alguma coisa. E as coisas foram voltando aos poucos. Aos 40 anos, o passado não é só a infância, é, também, a vida aos 20 anos, 25. Você vai envelhecendo e o passado também vai se aproximando, aos poucos, como uma espécie de sombra que te acompanha nessa vida.

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Por isso que, para mim, os momentos seminais da vida de um escritor são a infância e a juventude, pois nessas aconteceram as coisas mais decisivas.

Talvez um psicanalista diga a mesma coisa, Freud falava isso, falava da importância da infância, porque é lá que a gente convive com a família, com outras pessoas. A gente dialoga com o mundo, dialoga com o outro, e a literatura é isso: é um diálogo com o outro, uma reflexão sobre si mesmo e sobre o outro.

Então, a distância é importante até para inventar essas lembranças. Quando você está muito perto do objeto, não o enxerga. E a literatura é a transfiguração dos objetos, é a transcendência dos fatos, da vida.


>> Além da adaptação veiculada pela televisão em janeiro de 2017, Dois Irmãos também virou graphic novel pelas mãos dos premiadíssimos ilustradores Fábio Moon e Gabriel Bá que, por coincidência ou não, são irmãos gêmeos. Com direitos já vendidos para França e EUA, obra é o primeiro livro dos quadrinistas paulistas desde o premiado Daytripper (série vencedora do prêmio Eisner).

No Brasil, a graphic novel e o livro original de Hatoum são editados pela Companhia das Letras.

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