Mulher e sexo. A pergunta que nunca cala: a mulher existe?

Freud, Lacan, Melman, Zalcberg, Soler, Mannoni, Simone de Beauvoir e Medeiros sexualmente citados na psicanálise de mulher e sexo, por Clarissa Lago.

Contrariando a clínica de Freud, que começou com as mulheres e se debruçou em seus estudos sobre a histeria, no início da minha atividade clínica como analista, deparei-me com uma surpresa. Meus primeiros analisantes eram homens e neuróticos obsessivos.

Enfim….passaram-se mais de 15 anos da minha prática clínica como psicanalista, os quatro, são fiéis analisantes até hoje. Porém meses depois da chegada deles há mais de uma década anos atrás, chegaram as histéricas!!!!!

E quando estas chegaram….aí sim…na função analista, descobri o que era Psicanálise, a linguisteria, a voz pulsante e vibrante de uma histérica, os choros desesperados, os risos, as gargalhadas soltas e o sofrimento estruturado no desejo insatisfeito.

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Naquele momento, acabei por me deparar com o livro de Maud Mannoni (1999): “Elas não sabem o que dizem”.

Hoje, sabemos, a clínica é diversa: há lugar para todos os tipos de sujeitos e suas respectivas estruturas e demandas. E com isso todas as mulheres.

Na verdade, é para elas a quem dedico esta escrita, não muito preocupada em saber se são histéricas, obsessivas, psicóticas, psicóticas ordinárias. Enfim… são mulheres, e com isso afirmo que estou recortando a minha atividade de escrita, a posição feminina que cabe a uma mulher.

Sem dúvida, não é muito simples ser uma mulher. Simone de Beauvoir, já nos afirmou “Ninguém nasce mulher, torna-se”. E é essa questão que norteará a minha escrita.

simone-de-beauvoirA questão do tornar-se mulher era enigmática para Freud: “Como a mulher se desenvolve a partir da criança com disposições bissexuais? ” Sabemos que Freud achava a Psicologia das mulheres mais complicadas que a dos homens. Segundo Mannoni (1999), Freud um dia confessou a Marie Bonaparte. “A grande pergunta que ficou sem resposta, e à qual eu mesmo nunca pude responder, apesar dos meus trinta anos de estudo da alma feminina, é a seguinte: o que quer a mulher? ”

A esta pergunta Freudiana, Lacan responde: ela deseja, muito “simplesmente” (sabemos que não é tão simples assim), acrescento Lacan e afirmo: ela deseja, ardentemente deseja. Nessa perspectiva o falo se situa como faltoso do desejo, no nível da divisão sexual.

Para Mannoni (1999), Freud está à procura do que falta à mulher, observando que a “tensão sexual” desta deve ser mantida em nível relativamente baixo. O destino feminino se situaria, assim, entre o déficit de excitação e a superexcitação. Se a mulher não pode encontrar no homem um sedutor, só lhe resta identificar-se com ele, seduzindo outra mulher – eventualidade que Freud não entendeu no tratamento de adolescentes.

Mas hoje na clínica nós analistas estamos atentos. As adolescentes que chegam aos nossos consultórios e se declaram homossexuais; escute-as direito. Ainda são adolescentes, falta-lhes um bom caminho a percorrer nesse endereçamento ao ser uma mulher.

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Jamais nos esqueçamos de Dora e Sra. K, revisitado por Lacan a nos esclarecer, que Dora, apenas queria saber com Sra. K, o que era ser uma mulher.

Mannoni (1999) retoma a pergunta feita por Freud: As mulheres podem amar? Para Freud essa pergunta é entendida da seguinte forma: é a si mesma que a mulher ama. Seu primeiro objeto de amor foi sua mãe. Somente trabalhando o luto é que o “desvio” desse amor para o pai, e depois para o homem amado, torna-se possível. O primeiro amor (a mãe) sempre deixa uma cicatriz indelével, constituindo o leito dos amores impossíveis.

O que quer a mulher? A pergunta nunca deixou de perseguir Freud. No início, ele sabia: elas desejam o que lhes falta, o pênis; essa teoria falocêntrica persegue Freud até 1923, quando ele nos afirmou, não saber mais.

Se Freud perguntou o quer A mulher, Lacan em 1956 retomou essa pergunta Freudiana, retirando o artigo definido A e então nos perguntou: O que é uma mulher.

Lacan (1956) nos disse:

Para a mulher, a realização do seu sexo não se faz no complexo de Édipo de uma forma simétrica à do homem, não pela identificação com a mãe, mas ao contrário pela identificação com o objeto paterno, o que lhe destina um desvio suplementar. Freud jamais largou essa concepção, o que quer que se tenha feito desde então, especialmente das mulheres, para estabelecer a simetria. Mas a desvantagem em que se acha a mulher quanto ao acesso a sua identidade seu próprio sexo quanto à sexualização como tal, na histeria transforma-se numa vantagem, graças à sua identificação imaginária com o pai, que lhe é perfeitamente acessível, em virtude especialmente de sua posição na composição do Édipo. (LACAN, 1956, p.202)

Por isso a histérica sempre é fiel ao pai e se identifica com ele. Ela fica cheia de si quando lhe dizem: “é a cara do pai”, “é outra vez o pai”, “possui o temperamento idêntico ao do pai”. A histérica fiel ao pai segue seus passos, e não adianta a mãe tentar impedir. Ela será fiel – é ela quem estará ao lado dele em seu leito de morte. E se um dia esse pai vier a falecer, ela se sentirá uma viuvinha.

Pais e mães que estão a ler esse texto, penso ser válido pontuar a vocês: Se algum dia vocês tiverem de se separar, por mais que vocês tentem esclarecer às suas filhas que vocês estão se separando da mãe e não delas, só lamento antecipar a vocês e lhes revelar uma péssima notícia: as meninas jamais entenderão. Inconscientemente, vocês estão se separando delas também.

O recado que se permite posso também pontuar às mães: não joguem jamais suas filhas contra os pais, nem muito menos tentem afasta-las dele, pois, pai é insubstituível. Não tentem ser pai e mãe ao mesmo tempo, por mais que vocês se esforcem não conseguirão.

Observem o Caso Dora, Lacan (1956) nos perguntou: Que diz Dora através da sua neurose? Que diz a histérica – mulher? Sua questão é a seguinte: o que é ser uma mulher?

Quando Dora se vê interrogar a si mesma sobre o que é uma mulher? Ela tenta simbolizar o órgão feminino como tal. Sua identificação com o homem, portador de pênis, é para ela, nessa ocasião, um meio de aproximar-se dessa definição que lhe escapa. O pênis lhe serve literalmente de instrumento imaginário para apreender o que ela não consegue simbolizar.

Tornar-se mulher e interrogar-se sobre o que é uma mulher para Lacan (1956) são duas coisas essencialmente diferentes e nos afirmou:

É porque não nos tornamos assim que nos interrogamos, e até certo ponto, interrogar-se é o contrário de tornar-se. A metafísica de sua posição é o subterfúgio imposto à realização subjetiva na mulher. Sua posição é essencialmente problemática, e até um certo ponto inassimilável. Mas, uma vez que a mulher é introduzida na histeria, é preciso dizer também que sua posição apresenta uma estabilidade particular, em virtude de sua simplicidade estrutural – quanto mais simples é uma estrutura, menos ela revela pontos de ruptura. Quando sua questão adquire forma sob o aspecto da histeria, é facílimo para a mulher colocá-la pela via mais curta, a saber: a da identificação com o pai. (LACAN, 1956, p.209)

As afirmativas polêmicas de Lacan da década de setenta: A mulher não existe e não há relação sexual, Melman (2004) muito claramente nos afirmou: Para um homem, a imagem de uma mulher é o suporte desse objeto pequeno a, quer dizer, objeto de sua fantasia.

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Ou seja, mais uma vez é a parte do corpo da mulher, aqui parte imaginária, que vai ser o suporte do desejo. O que significa portanto, dizer que a relação sexual se estabelece não entre dois parceiros, que vão reciprocamente gozar de seus corpos, mas entre dois objetos que não são os mesmos nem para um e muito menos para o outro.

Não há relação sexual, pois não é o corpo da mulher enquanto tal que interessa a um homem, mas esse objeto pequeno a, objeto de sua fantasia que lhe empresta. E para uma mulher, da mesma maneira, é um objeto preciso do corpo do homem que lhe interessam e é exatamente por isso que, na relação sexual, cada um dos dois parceiros tem o sentimento de que sua existência enquanto tal, enquanto sujeito, não é reconhecida, que não é isso que interessa ao outro.

Acrescento Melman (2004), na verdade, apenas o re- afirmando: é a fantasia que sustenta uma relação sexual. Caso essa fantasia seja inexistente, serão apenas dois corpos estirados em cima de uma cama. Acredito: na verdade não transamos com corpos…. São simples corpos. Transamos com as idéias e é por elas que somos loucamente apaixonadas e é com essas ideias que fazemos amor.

sexo-e-mulher-blog-psicanaliseTalvez nessa perspectiva, as mulheres do século XXI acabaram por se perder em alguns aspectos, como nos afirma Medeiros (2008), penso que talvez o leitor deste texto, já deve ter escutado falar na Mulher Melancia, e a Mulher Jaca. São duas dançarinas do funk que ganharam notoriedade por possuírem quadris avantajados. Essa é toda história do começo ao fim.

Há também aquelas que se intitulam de Mulher – Rodízio, e para elas, é assim que a sua feminilidade se expressa.

No século XXI, existem mulheres que acreditam fielmente que é sendo melancia, jaca ou rodízio que conquistaram sua liberdade sexual. E acreditam gozar disso perfeitamente. Porém, com toda essa liberdade, acabam por esquecer a premissa básica para ser uma mulher: é justamente nesse não ser não toda. É não toda fálica que uma mulher se constitui.

A partir desse exemplo do século XXI, podemos entender quando Lacan (1970) nos afirmou em sua premissa: A mulher não existe. Mulheres existem, isso pode ser mais ou menos verificado, mas “A” mulher, ou seja, aquela que seria definida por um signo específico, como o homem que é especificado na castração, esse signo específico não existe para uma mulher e essa é a razão pela qual as mulheres se queixam de não serem fundadas em sua feminilidade.

Zalcberg (2003) acrescentou que a mulher está se situando numa posição histérica em que ela se crê toda fálica, e, portanto, ela exige que seu parceiro creia nela como A mulher. Nesse caso, evidentemente, isso só pode remetê-la, a ela e remetê-los, ela e a seu parceiro, a uma posição de insuficiência, uma posição sintomática, portanto uma posição sacrificial ao pai.

Por outro lado, ainda Zalcberg (2003) afirmou que, se numa outra posição, uma mulher pode suportar essa relativa insatisfação fálica que lhe é inerente, porque ela é não – toda – fálica, sustentar, então, isso, não faz disso uma queixa, um ressentimento, mas ao contrário, ela pode ir mais além e suportar isso como uma abertura para um gozo Outro, é isso o que lhe daria, o que podemos chamar um estilo próprio.

Lacan (1970) nos afirmou que o estilo é o próprio objeto. É assim que uma mulher se tornaria, então, esse objeto que captura o homem de um modo diferente. Não mais para completá-la, vir a preencher a sua incompletude, mas para mantê-lo numa certa sideração em torno de algo que lhe escapa – e que escapa também a ela – e que decididamente é o que põe, a ambos no caminho do desejo.

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Jamais seremos iguais aos homens, existe uma mulher para um homem, porque então a insistência dessas mulheres no século XXI agirem como homens?

Sim, elas se dizem mulheres, heterossexuais, com vida sexual ativa. Mas a posição sexual que essas mulheres ocupam na dinâmica dos sexos, é muitas vezes masculina.

Gostaria muito de acreditar que elas não sofrem, mas, já nos diz a Psicanálise, o sofrimento é inevitável.

Quando Medeiros (2008) em seu texto jornalístico, também aponta que nesse hortifrúti há espaço para todas, a autora critica a si mesmo, se rotulando de A Mulher Banana. Esta é tolinha, insossa, que não tem corpão, é cultural e intelectualmente sofisticada sendo assim, não inveja as top models.

Confesso, que não acredito ser essa mulher tão banana assim, talvez justamente essa, que mesmo sem saber…sabe, o que é ser uma mulher.

Colette Soler (2005) nos assinalou: Uma mulher não se faz reconhecer como mulher pelo número de seus orgasmos ou pela intensidade de seus êxtases, salvo algumas exceções, é verdade. E, muito longe de exibir-se, sucede a esse gozo esconder-se. Daí a necessidade de um outro recurso e os esforços para se identificar pelo amor. Em outras palavras, na impossibilidade de ser A mulher, resta apenas ser “uma” mulher, a eleita de um homem. Ela toma emprestado do “um” do Outro, para se certificar de que não apenas um sujeito qualquer – o que ela é, a partir do momento em que é um ser falante, sujeito ao falicismo – mas ser, além disso, identificada como uma mulher escolhida. Assim é compreensível que as mulheres, histéricas ou não, mais que os homens, amem o amor.

Assim sendo, Melman (2004) nos faz pensar com o título do seu seminário: Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem?

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Referências:

André, Serge. O que quer uma mulher? – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1999.

Freud, Sigmund. Sexualidade Feminina (1931) in: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: - Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XXI.

Freud, Sigmund. Conferência XXXIII: Feminilidade (1933 [1932]) in: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: - Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XXII.

Lacan, Jacques. O seminário livro 3: as psicoses (1955 – 1956). 2ed. Revista – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.

Lacan, Jacques. Seminário livro 18: de um discurso que não fosse semblante (1971). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 2009.

Lacan, Jacques. Seminário livro 20: mais, ainda. (1972 – 1973) 3ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.
Lacan, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma, 1975 – 1976. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007.

Mannoni, Maud. Elas não sabem o que dizem: Virgínia Wolf, as mulheres e a psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 1999.

Medeiros, Marta. Doidas e Santas. – Porto Alegre, RS: L& PM, 2009.

Melman, Charles. Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem? Ed. Tempo Freudiano, Rio de Janeiro, RJ. 2004.

Soler, Collet. O que Lacan dizia das mulheres. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2005.

Zalcberg, Malvine. A relação mãe e filha. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.

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