O impulso, a fonte, o objeto e o fim que justifica os meios: pulsões.

O texto a seguir – adaptado ao blog – é fruto de um produto final do cartel “As Pulsões” do qual Clarissa Lago participou como membro numa instituição Psicanalítica entre os anos de 2013-2015. Boa leitura, reflexão e ação!

Pulsões: Um percurso da morte à vida…

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Um encontro marcado, com data prevista, um término? Não é um fim…!! Confortável? Nada! Mas, toda escrita, qualquer que seja ela necessita de um ponto final; ainda que esse ponto possa ser momentâneo.

Penso ser o cartel, o dispositivo capaz de proporcionar esse trabalho da escritura, ou seja, o espaço privilegiado para a experiência do desejo de saber e para a travessia da teoria (Lacan, 1980; p.85).

Como alguns sabem, de todos os lugares da transmissão da Psicanálise, sou daquelas que ainda acredito; a Psicanálise é uma pratica solitária e a transmissão acontece nos pequenos grupos, por isso insisto tanto em uma prática de cartéis.

Ao longo desses dois anos, alguns trabalhos parciais pude escrever fruto das pesquisas bem como das discussões que tínhamos no cartel. Claro, o mais legal do cartel é o respeito ao estilo e o tempo de cada um.

Entretanto, desde do início dos anos 2000, já estavam presentes em minha atividade de escrita; fragmentos originários desse desejo de saber sobre as pulsões, haja vista o artigo: Família, Afeto e Lei – datado de julho de 2009.

A concepção de afeto para a psicanálise é referente ao registro psicológico determinado por Freud (Kaufmann, 1996) que, com sua originalidade, desloca a concepção de afeto do registro neurológico para o registro psicológico, devido aos progressos ocorridos na elaboração do conceito fundamental de pulsão.

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A pulsão é radicalmente inconsciente, por definição ela habita no inconsciente freudiano. A pulsão não é nem um instinto, nem uma espécie de apêndice de algum órgão; ela é em si mesma a montagem de quatros termos. Os quatros termos que compõem a pulsão: o impulso, a fonte, o objeto e o fim. Ou seja: sua fonte é uma zona erógena; o objeto é totalmente contingente já que, como se diz, “o fim justifica os meios”; o fim (o alvo) é a satisfação entendida como uma diminuição da tensão que disparou. (Lajonquière, 2000, p.159)

A noção de “representação pulsional”, segundo a proposta Freudiana segue:

(…) a pulsão é inteiramente reprimida, de tal modo que dela não se encontre nenhum vestígio; ou se manifesta sob a forma de um afeto dotado de uma coloração qualitativa qualquer; ou, finalmente, é transformada em angústia. Estas duas últimas possibilidades nos induzem a levar em consideração um novo destino pulsional: a transmutação das energias psíquicas das pulsões em afetos, e muito particularmente em angustia. (Freud, 1915[2010]p.60)

A teoria das pulsões, desenvolvida por Freud em 1915, até os dias atuais ao relermos e estudarmos, alguns autores do século XXI, chegam ao ponto de afirmar: “que a teoria das pulsões, bem como a teoria do inconsciente ‘está para a Psicanálise assim como a Anatomia e a Fisiologia estão para a Medicina’.” (DUNKER, 2013, p.155).

Segundo Iannini e Tavares (2013) o modo como Freud descreveu a gramática de nossas escolhas e nossos desejos, a lógica de nossas fantasias inconscientes e os processos de transformação envolvida nelas são processos que presidem a eleição por um sujeito de seus objetos de desejo. Para esses autores, Freud apresenta o conceito de pulsão, que está na base dos processos que determinam o modo como os sujeitos amam, desejam e sofrem.

Em a pulsão e seus destinos, percebemos um esforço obstinado de sistematização deste que, não por acaso recebeu o estatuto de conceito fundamental tão ou mais fundamental do que o próprio inconsciente, a pulsão é um conceito fronteiriço, situado entre o corpo e o aparelho psíquico.

Ainda segundo Iannini e Tavares (2013) apesar da relativa obscuridade admitida pelo próprio Freud, o conceito de pulsão ilumina a metapsicologia e demarca a especificidade da clínica psicanalítica. Ao discutir os fundamentos da economia libidinal, Freud também desenha um quadro sinóptico dos destinos das pulsões. Uma pulsão pode, ainda que parcialmente, satisfazer-se num objeto, provocando prazer, pode ser revestida em seu oposto; pode retornar ao próprio “Eu”; pode ser recalcada, sublimada, etc.

Para Dunker (2013) a gramática dessas transformações é apresentada de modo claro e sucinto. Os destinos das pulsões dependem de fatores os mais diversos, ligados às possibilidades de que algo se realize ou não, dos encontros e desencontros da vida de um sujeito.

Entre a pulsão de morte e a pulsão de vida, embora Freud, em Os Instintos e seus Destinos ([1915]2010) defina que a pulsão morte é responsável pela tendência ao retorno a um estado anterior, e a vida tende a retornar à morte.

Torna-se valido pontuar que a repetição não é uma representação, não representa uma coisa. E sim, significa algo, a repetição é em essência, de natureza simbólica.

Concordo com Garcia-Roza (2003); “Aquilo que a psicanálise nos fala é dessa repetição interminável, desse jogo amoroso que constitui a ligação de Eros com um passado reencontrado. ” (p.44). O que se repete é o sexual, esclarecendo: a repetição é constituinte do sexual.

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Ainda Garcia-Roza (2003) acrescentou, repete-se em um encontro amoroso que, em si mesmo, já é máscara. E após essa afirmação o autor pontuou: “a repetição alimenta a pulsão de morte”. (p.45).

Desse modo, o polo inicial do gozo absoluto revela seu aspecto mortífero e sua relação indissociável com a pulsão de morte, pois a ilusão de seu atingimento e sua perda se ilustra pelo assassinato passional.

O que ao seu modo, no seminário Livro 11 “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”; capítulo XV Do Amor à Libido, Lacan (1964) pontuou:

(…) Freud, de um lado põe as pulsões parciais, e do outro, o amor. Ele diz – não é a mesma coisa.

As pulsões nos necessitam na ordem sexual – isso, vem do coração. Para nossa maior surpresa, ele nos ensina que o amor, do outro lado, ele vem do ventre, é o que é o rom- rom. (…) a pulsão sexual genital, se ela existe, não é de modo algum articulada como outras pulsões. E isto, malgrado a ambivalência amor – ódio. Em suas premissas, e em seu próprio texto, Freud se contradiz propriamente quando ele nos diz que a ambivalência pode passar por uma das características de reversão da Verkehrung da pulsão. Mas quando ele a examina, ele nos diz mesmo que NÃO são de modo algum a mesma coisa, a ambivalência e a reversão. (p.179).

Na aula supracitada Lacan (1964), disse: “Se então a pulsão genital não existe, ele só pode se f… afeiçoar alhures, do outro lado e não do lado onde há pulsão”, (p.179)

Vocês mataram a charada do que é esse f… (com reticências) que aparece no seminário? Não?!? Nós “matamos a charada no Cartel” …é o se fuder!!!!

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Portanto, ainda que existam as paixões do ser: amor, ódio e ignorância. – Para se caminhar com a pulsão de vida, torna-se necessário fazer suplência; assim sou levada a acreditar na metáfora do amor onde produz como efeito o sujeito dividido, afastando do seu resto o objeto causa do desejo. Temos então um sujeito barrado, que implica a relação de dependência fundamental do sujeito com o significante.

A constituição do sujeito do desejo pela via simbólica é correlativa da produção do amor como metáfora.

E ainda que a partir do objeto a talvez se situa a vertente terminável da análise, de um cartel ou de uma escrita; prevalece a função disjuntora da pulsão de morte. Neste ponto, temos então, um espaço compreendido entre duas mortes.

Mortes, simbólicas, que nos permite como tantas vezes já pontuei lembrar o poema de Paulo Mendes Campos:

“O amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. ”

Entretanto, diante de tantos “nós” e “tranças” que o sujeito em um percurso de análise faz, ao fim de uma análise é possível se fazer novos enlaces e produzir um novo laço. Cabe ao amor, a tarefa de fazer suplência…se as pulsões podem vir a dilacerar… há de existir o amor… para possibilitar novos enlaces… ainda que na falta tenhamos que viver resta talvez acreditar nas palavras de Ferreira Gullar, ao dizer:

O amor é uma doença como qualquer outra. E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém, meta na cabeça que só existe fulano, ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas…. Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!… (GULLAR, 2005; p.279)

…, mas não morreu… e foi capaz de dizer isso… um dia… comendo um bife com batatas fritas e de paz com a vida … está vivo! Viva a pulsão de vida!!!

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REFERÊNCIAS:

CAMPOS, Paulo Mendes. Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, p. 21;
DUNKER, C. I.L. Uma Gramática para clínica psicanalítica. In: FREUD, Sigmund. As pulsões e seus destinos. In: Obras Incompletas de Sigmund Freud; tradução Pedro Heliodoro Tavares. – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.p.135 – 157;
FREUD, Sigmund. Os Instintos e seus Destinos (1915). In: Obras completas, volume 12: Introdução ao Narcisismo: ensaios sobre a metapsicologia e outros textos (1914 – 1916) / Sigmund Freud; tradução e notas de Paulo César de Souza – 1ª ed. - São Paulo: Companhia das, 2010, p.51 – 81;
GARCIA – ROZA. A Repetição e as Máscaras. In: GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Acaso e Repetição. – 7ª Ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003, p.44 – 52;
GULLAR; Ferreira. “A estranha vida banal”. Editora. Objetiva; Rio de Janeiro. 2005. p. 279;
Jorge, Marco Antonio Coutinho. O Objeto perdido do Desejo. In. Jorge, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan v.1: as bases conceituais – 4ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005; p.139 – 158;
KAUFMANN, Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o legado de Freud e Lacan. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1996;
LACAN, Jacques. A verdade surge da equivocação. In: LACAN, Jacques. Seminário livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-1943). O Seminário Livro 1: Os escritos técnicos de Freud. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1981, p.297 – 310;
_____________. Do Amor à Libido. In LACAN, Jacques. Seminário Livro 11: Os quatro conceitos cruciais da psicanálise (1964). - 2ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998; p.177 – 189; 
LACAN, Jacques: A metáfora do amor: Fedro. In: LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. p. 43-56;
LAJONQUIÈRE, Leandro de. De Piaget a Freud: para repensar as aprendizagens. 9ª Ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1992;
SAMPAIO, Adilson. Do amor à morte: Transferência. In: Amor e morte: anais. / Org. por Urânia Tourinho Peres e Maria Thereza Ávila Dantas [et.al] _Salvador: EGBA, 1998.

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