O Lado Obscuro da Paternidade: Pais que Intencionalmente Matam seus Filhos

386-500x359O amor paternal é um dado inquestionável em nossa sociedade. Acredita-se que os pais amam e veneram seus filhos acima de qualquer coisa, evitando, assim, muitas vezes pensar na violência familiar, que é parte inerente de nossas vidas e esteve presente desde os tempos mais remotos. Por mais que temos a certeza de que a violência é comum com crianças, negamos falar sobre estes assuntos, e evitamos ainda mais falar ou pensar na morte de um filho. E quando esta morte é praticada pelo próprio pai é como se todos os sonhos e perspectivas futuras fossem esvaídos. Desta forma, este artigo tem o objetivo de investigar e analisar os aspectos envolvidos em pais que intencionalmente mataram seus filhos. A pesquisa foi realizada por meio da entrevista psicanalítica na modalidade de estudo de caso, com um pai que ateou fogo em sua própria casa, matando três de seus filhos. O método utilizado para a interpretação dos dados foi o psicanalítico, no qual o objeto de pesquisa e o pesquisador são formados no próprio ato de pesquisa, e não se considera hipóteses prévias ou etapas predefinidas. Com esta pesquisa se pode perceber que, apesar do pai estar envolvido no assassinato dos filhos, este nega o crime, mesmo havendo evidências e condenação para tal. Constatou-se nessa pesquisa que apesar do pai considerar o filho como tudo em sua vida, ele coloca fim a esse tudo e as expectativas e desejos futuros em relação ao filho. Nesta perspectiva, torna-se fundamental o estudo sobre o filicídio e os aspectos envolvidos na relação parental.

Palavras-chaves: Filicídio, Assassinato de um filho, Morte.

1. Introdução

Desde os primórdios, formar uma família era fundamental para a perpetuação da espécie. Assim como no reino animal, o principal intuito consistia no equilíbrio da natureza e, na passagem geracional de pais para filhos, o núcleo familiar era visto como o primeiro local no qual a criança era inserida, onde seria amada e cuidada incondicionalmente. Isso se torna comum também em nossa sociedade atual, visto que se tornar pai é um papel produzido socialmente, já que existe uma crença de que as pessoas devem ter filhos e passar os ensinamentos de geração para geração. Nesta perspectiva, tudo o que nos é dado é herdado, e deve ser passado adiante.

A ideia de família ideal nos é dada desde o nascimento, em que, segundo as leis e normas estabelecidas social e religiosamente, esta deveria ser formada por duas pessoas, e que de seu amor surgisse um novo ser, para que mais tarde este possa dar continuidade ao ciclo geracional. Observam-se estes fatos como uma forma de organização social, sobretudo como uma forma para a manutenção dos valores instituídos moralmente. O ciclo geracional é estabelecido e idealizado como um elemento de organização social, como uma forma de dar continuidade à transmissão de culturas, costumes, formas de como se relacionar, de criar os filhos, de mensagens preestabelecidas.

Roudinesco (2003) enfatiza que, apesar de observarmos mudanças importantes na estrutura familiar, a família contemporânea, em sua dimensão e em redes, não se mantém apenas como estrutura organizadora e segura para seus membros, mas também se constitui em um espaço fundamental para a troca afetiva e a transmissão simbólica. “A família é único valor seguro ao qual ninguém quer renunciar.” (ROUDINESCO, 2003, p. 198).

A família não é um grupo apenas natural, mas também cultural. Dolto (1996) afirma que ela constitui antes uma estruturação psíquica, na qual cada um de seus membros ocupa um lugar, uma função. Ser pai e ser mãe na ótica psicanalítica não implica apenas paternidade biológica, demanda, também, sentimentos e atitudes de adoção que decorrem do desejo pelo filho. A forma que se organizam as funções maternas e paternas são um conjunto de fatores conscientes e inconscientes, e estas funções vão além do cumprimento de tarefas, são estabelecidas culturalmente e devem ser exercidas pelo casal, como cuidados, educação, amor incondicional.

Conforme Eizirik (2001), tornar-se pai e mãe é um dos acontecimentos mais marcantes no ciclo de vida de qualquer indivíduo, já que ocorrem profundas alterações na personalidade do sujeito. Segundo Lebovici (1987), o processo de filiação se inicia antes do nascimento do bebê, a partir da transmissão consciente e inconsciente da história infantil dos pais, de seus conflitos inconscientes, da relação com seus próprios pais, que colorem sua própria representação sobre a parentalidade. O desejo de ter um filho reatualiza às fantasias de sua própria infância e do tipo de cuidado parental que puderam ter, assim como as representações parentais sobre o bebê se iniciam muito antes do seu nascimento.

O pai, que segundo a psicanálise desempenha um papel estruturante, é visto como a possibilidade da criança investir no mundo real. A necessidade da figura paterna ganha contornos no processo de desenvolvimento, de acordo com a etapa da infância. Apesar da fundamental importância em relação ao tornar-se pai, o homem tende a ficar tênue frente à responsabilidade, pois esta implica a mudança entre a infância e a vida adulta, o filho transforma a vida do pai, fazendo com que este se torne objeto de identificação para o filho, carecendo a ele razões para tal identificação, enquanto a mãe responsabiliza-se pelos cuidados maternais (ABERASTURY, 1991).

Bornholdt e Wagner (2005) apontam que o pai desde o início da gestação desempenha um papel diferenciado se comparado ao papel materno; a gravidez acarreta para o pai uma gama de processos psicológicos. Estes por sua vez influenciam desde sua relação conjugal até o vínculo que o pai estabelecerá com seu filho. Sendo assim, tornar-se pai é algo além do procriar, é implicar-se de forma significativa no processo da paternidade.

A concepção de filhos caracteriza-se como um momento marcante da vida das pessoas. No entanto, junto com ela instaura-se o desejo e a ideia de que os filhos não devem morrer antes dos pais; nesta perspectiva, a morte de um filho causa uma ruptura na continuidade da linha geracional. Como afirmam Carter e McGoldrick (1995), perder alguém que amamos causa muita dor, mas perder um filho é inexplicável, uma vez que a maioria dos pais vê os filhos como extensões de suas esperanças e sonhos de vida.

Klaus e Kennel (1992, p. 21) relatam que “[…] na vida de cada pessoa, grande parte da alegria e da tristeza gira em torno de ligações de relacionamentos afetivos – estabelecendo-os, rompendo-os, preparando-se para eles e ajustando-se à sua perda pela morte.”

E o que dizer quando esta ruptura é causada pelo próprio pai que mata intencionalmente seu filho? Qual o significado da paternidade nesses casos? Quais os aspectos emocionais envolvidos?

Pensar no rompimento de uma vida causado pelo próprio pai é incabível. A negação sobre o filicídio é mostrada, segundo Rascovsky (1973, p. 30), no próprio uso do termo, que não é utilizado pela legislação penal brasileira, pois aparece como homicídio ou infanticídio, explicando que isto “[…] conota a intensidade da defesa universal diante da revelação linguística de um fato, e decreta o desterro da palavra filicídio como se fosse um tabu.”

Não existe uma palavra que nomeie a quem tenha matado intencionalmente seu próprio filho, pois este comportamento vai contra as leis e normas estabelecidas moral e socialmente. O tema se trata de um tabu, que se relaciona com comportamentos inaceitáveis, proibidos e impensáveis, talvez não possui termo específico para afastar a ideia de que é um fato presente em nossa sociedade, evitando-se, assim, que ocorra o que é temido.

Sófocles (2005), em sua obra Édipo Rei, escrita em 427 a.C., relata que antes do desejo de parricídio a tentativa de filicídio estava presente. Nesta obra podemos compreender de forma clara e cruel o que um pai insatisfeito com a ideia de conceber um filho é capaz de realizar: Laio, o rei de Tebas, não acreditou que teria um filho com Jocasta, logo se arrependeu do que havia feito e abandonou a criança em uma montanha com os tornozelos furados para que morresse. No entanto, o menino não morreu, e foi encontrado por pastores que o criaram; já adulto, Édipo procurou o oráculo para saber seu destino, e este consistia em matar o pai e se casar com a mãe.

O assassinato dos filhos é um comportamento menos raro do que se deseja imaginar, é encontrado nos diversos grupos, mas é negado, pois faz parte do asco social, porém a datar da mitologia estas práticas de assassinato aos filhos eram perpetradas e fundaram a cultura, pois descrevem a maneira de se relacionar com a deidade. Na mitologia grega, por exemplo, Medeia mata seus dois filhos como forma de retaliação a Jasão, seu cônjuge traidor. Atualmente, é muito complexo e inadmissível compreender que a grande deusa fosse venerada não apenas como a mãe que ama, protege e alimenta, mas também como a destruidora dessa vida, como um poder mórbido que age com destruição. No entanto, na antiguidade defendiam a ideia de que como a mãe que da vida, ela é também capaz de tirar. Eurípedes (1991, p. 63) coloca estes termos nas palavras de Medeia. “Seja como for, perecerão! Ora: se a morte é inevitável, eu mesma, que lhes dei a vida, os matarei!”

Este ato escrupuloso é também identificado na narrativa em que se apresenta o mito de Cronos. Este era filho de Urano e Geia, e cada vez que Geia dava a luz a um filho o pai devolvia-o ao seu ventre. Cansada disto, Geia tramou com seu filho Cronos a morte de Urano por meio da castração, atirando a genitália ao mar, de onde brotou Afrodite. Ocupando o lugar do pai, Cronos casou-se com sua irmã, tornando-se o primeiro rei e tendo seis filhos. Temendo que futuramente seus filhos o destronassem, como o fizera com o pai, Cronos devorava-os ao nascer. Escapando da morte e crescendo, Zeus, filho de Cronos, forçou o pai a vomitar a pedra e seus irmãos, e o destronou (GRIMAL, 1992).

No mito proposto por Freud (1913), o pai totêmico, por seu poder, parecia-se com um deus; este tudo podia, possuía todas as mulheres, enquanto por outro lado seus filhos sentiam-se oprimidos e privados, não tinham acesso a nada, viviam em completa escuridão se comparados ao pai visto como o poderoso. Alimentados por estes sentimentos, os filhos sentiam ódio pela supressão do pai, mas, ao mesmo tempo, manifestavam profundo amor e admiração além do desejo de ocupar o lugar exercido pelo pai totêmico. Tomados pelo ódio, os filhos assassinam o pai e o devoram, buscando absorver seu poder. O pai que tanto amavam fora morto por eles, então surge à culpa, originando o complexo de Édipo, onde os filhos perceberam o que haviam cometido, e iniciaram a briga entre si para decidir quem ficaria no poder. Uma nova lei foi necessária, já que o totêmico fora morto. Enriquez (1990, p. 34) escreve: “[…] a civilização não somente se inicia com o crime, mas se mantém através dele. Mesmo quando o crime real é suspenso, ele permanece admissível.”

Em Totem e tabu (1913), Freud caracteriza a horda primitiva como constituída por um pai todo-poderoso e submetedor, da mesma forma que as histórias mitológicas e as diversas fontes encontradas nos mostram os sentimentos hostis presentes atual ou antigamente, e a violência que todo pai exerce sobre seu filho.

Para Freud (1913), esse ato criminoso seria o exórdio da organização social, em função do ocorrido: a ambivalência emocional dos filhos com o pai satisfaz um de seus polos ao assassiná-lo o ódio, e o amor advém sob a forma de remorso e culpa. Para aplacar este sentimento que os filhos interditam a morte do substituto do totem e renunciam às mulheres, instituem o incesto, salvaguardam a organização que os fortaleceu. Freud (1913) afirma que a lei do pai se tornou mais forte e eficaz após seu assassinato, pois foi internalizada por cada membro da horda. O pai morto se torna símbolo de uma proibição, restrição, e abre o sujeito para o desejo do objeto.

Corroborando, Winnicott (1975) afirma que criamos um filho para ser suplantado por ele, para invejá-lo na sua juventude, força e potencialidades, para que demonstre definitivamente a inexorável marca da passagem do tempo. Winnicott (1998) aponta, ao examinar o ódio inconsciente reprimido dos pais em relação às crianças, que os pais amam e odeiam naturalmente seus filhos, e as razões para que o ódio exista são muitas, afirmando ainda ser inerente a inclusão de um bebê dentro de uma família. O ódio inconsciente e reprimido dos pais refere-se a chegada de um bebê (um terceiro) na matriz preexistente do casal, criando, assim, um novo triângulo, ou signo de relações edípicas. Este novo arranjo desperta dificuldades até então adormecidas, e ativa forças de amor e ódio (SEEWALD et al., 2004).

Nesta perspectiva, Freud (1920), sobre as pulsões de vida e de morte[01], afirma que o homem seria alguém dotado constitucionalmente da capacidade de amar e de odiar. O ódio é ainda mais antigo que o amor, postula o autor. Montgomery (1992) cita que no psiquismo dos pais estão em jogo conflitos relacionados a sensações de vida e de morte na medida em que filhos têm vários significados na vida dos pais:

[…] vida na medida em que filho significa: situações de perpetuação, renascimento, encontro, movimento, aprendizado, energia, aventura e sentimentos de beleza, poesia, esperança, coragem, prazer, confiança, alegria, ousadia, transcendência, amor […] Morte na medida em que filho representa situações de perda de liberdade, comodidade, posição infantil, irresponsabilidade e sentimentos de ambivalência, insegurança, dúvida, medo, frustração, ódio (MONTGOMERY, 1992, p. 23).

Existe em diversos animais – e não somos exceção nesse aspecto – uma prontidão para agredir e destruir, para remover qualquer tipo de obstáculo desde que a relação custo/benefício compense. Mezan (1982) comenta esse destaque dado à agressividade,

[…] a violência. Este é o referencial para pensar todos os conceitos desta quarta fase da obra de Freud […] A pulsão de morte é violência contra o sujeito e o outro, sob a forma de agressividade; o superego é violência introjetada pela violência da cultura; o id é violência pela sua índole passional; o conflito defensivo é violência pelo controle do ego; a castração é violência pela mutilação psíquica, quando não física, que acarreta […]. (MEZAN, 1982, p. 326)

Freud (1930, p. 134) afirma que “[…] chega à hora em que cada um de nós tem de abandonar, como sendo ilusões, as esperanças que, na juventude, depositou em seus semelhantes, e aprende quanta dificuldade e sofrimento foram acrescentados à sua vida pela má vontade deles.”

Em seu livro O mal-estar da civilização, Freud (1930) argumenta que a explicação para isto adviria da existência de uma pulsão de morte nos seres humanos, que poderia ser “[…] desviada no sentido do mundo externo e vem à luz como um instinto de agressividade e destrutividade [e] qualquer restrição dessa agressividade dirigida para fora estaria fadada a aumentar a autodestruição.” (FREUD, 1930, p. 141). Ele relata na mesma obra a existência de resistências a esta teoria e as explica dizendo que “[…] as criancinhas não gostam quando se fala na inata inclinação humana para a ‘ruindade’, a agressividade e a destrutividade, e também para a crueldade.” (FREUD, 1930, p. 142). Freud, no capítulo V de sua obra, diz que dotes instintivos se deve levar em conta uma poderosa quota de agressividade.

Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. Homo homini lúpus.[02](FREUD, 1930, p. 133).

Na perspectiva materna à filiação é dada como certeza, pois o filho sai de seu interior. No entanto, para o pai, a paternidade sempre tem um espaço de dúvida. Corneau (1991) ressalta que o pai é o primeiro outro que a criança encontra fora do ventre de sua mãe, ele é indistinto ao recém-nascido, mas ao bloquear o desejo incestuoso sua figura vai se diferenciando, permitindo o nascimento da interioridade do filho; “o pai encarna inicialmente a não mãe e dá forma a tudo que não seja ela”.

O pai sente-se, de acordo com Pincus e Dare (1987), excluído porque terá de lutar com o sentimento de perda até que a família possa encontrar um lugar para ele, criando um novo relacionamento a três. Isso ocorre porque, para o homem, o medo maior de perder sua mulher pode ser, de fato, o temor de perder a exclusividade do amor. Ao mesmo tempo que o nascimento de uma criança traz consigo expectativas de que possa reparar falhas da história parental, provoca também uma ruptura no equilíbrio do casal, pois é comum que o pai se sinta excluído da relação entre mãe-bebê e veja este como rival, reativando a própria vivência infantil de se sentir excluído da relação dos pais.

Freud (1914), em Sobre o narcisismo[03], afirma que a consciência emergente do bebê quanto à dependência física dos pais acarreta seu primeiro amor, que é dirigido à mulher que o alimenta e ao homem que o protege. O reconhecimento que a criança desenvolve a respeito do controle dos pais sobre suas necessidades e desejos também transforma a possível perda do amor parental em uma perspectiva assustadora. Ele nos fala ainda que o amor dos pais pelos filhos é o narcisismo destes renascido e transformado em amor objetal. Ainda segundo Freud (1914), o narcisismo primário representaria, de certa forma, uma espécie de onipotência que se cria no encontro entre o narcisismo do bebê e o narcisismo dos pais. “Se prestarmos atenção à atitude de pais afetuosos para com os filhos, temos de reconhecer que ela é uma revivência e reprodução de seu próprio narcisismo, que há muito abandonaram.” (FREUD, 1914, p. 97).

O nascimento do filho desperta no homem desejos inconscientes e fantasias relacionadas à morte e a situações ligadas a resolução de conflitos parentais. “É por isso que, ainda que desejado pelo homem, feliz em ser pai, o nascimento se anuncia e é vivido num clima emocional que varia segundo o tempo e os indivíduos; cada homem reage a sua maneira.” (THIS, 1987, p. 96).

Conforme Dor (1991), o pai tem um papel muito importante no processo edipiano, pois é portador da lei de interdição do incesto, é que este personagem vai articular uma história onde todos os outros personagens entrarão em ação, como também haverá aí um ponto de extrema delicadeza em função da constituição do sujeito. Lacan (1999, p. 171) afirma que “[…] não existe a questão do Édipo quando não existe o pai, e, inversamente, falar do Édipo é introduzir como essencial a função do pai.”

Barros (2001, p. 95) pontua: “[…] o Nome-do-Pai[04] não é o patronímico, isto deve estar claro, sua dimensão é da ordem do significante, uma ordenação capaz de produzir um esvaziamento do gozo.” Nesta perspectiva, é por meio do complexo de Édipo que o psíquico irá se organizando, o sujeito se constituindo, deparando-se com o Outro e se inserindo na cultura, mediado pela função desse significante. O pai, como diz Lacan (1999, p. 174), “[…] antes de mais nada, interdita a mãe. Esse é o fundamento, o princípio do complexo de Édipo, é aí que o pai se liga à lei primordial da proibição do incesto […]”, fazendo com que o desejo da mãe seja submetido ao Nome-do-Pai e desta forma a criança deixa de ser assujeitada à mãe.

O amor parental é um dado inquestionável na nossa cultura, pelo fato que a possibilidade de um pai fazer mal ao seu filho não é geralmente considerada. Para a maioria dos indivíduos, pensar no fato de um pai tirar a vida do próprio filho evoca profundos sentimentos de repulsa, bem como faz com que a ideia de amor materno e paterno instaurada em nossa sociedade seja reavaliada, pois custamos a acreditar na premissa de que o homem é capaz de tal ato de crueldade e que o amor incondicional não se configura da forma como concebemos.

2. Método

Para pesquisar acerca do significado da paternidade e os aspectos emocionais envolvidos no assassinato de um filho pelo próprio pai, realizou-se uma pesquisa classificada como psicanalítica, no qual o objeto de pesquisa e o pesquisador são formados no próprio ato de pesquisa, não constatando hipóteses prévias ou etapas predefinidas na modalidade de estudo de caso.

Garcia-Roza (1991) pontua que na pesquisa psicanalítica se deve tratar o material deixando que o texto fale, deixando que ele nos imponha suas questões, seus furos, suas falhas, da mesma forma como fazemos com um paciente, deixando que ele diga a verdade, não impomos de forma alguma. Os dados de uma pesquisa psicanalítica que construirão seus conceitos, ou na modificação destes, “[…] não são retirados da realidade a partir da observação, mas criados com a finalidade de construir uma nova inteligibilidade […] Mais do que taparem os furos do saber existente, eles evidenciam esses furos ou criam novos.” (GARCIA-ROZA, 2000, p. 80). Segundo Corrêa e Hausen (2007): “Para a psicanálise, o pesquisador não é uma variável a ser controlada, mas, ao contrário, deve ter uma participação ativa no processo justamente para a emergência do material.”

Lo Bianco (2003) ressalta que o pesquisador deve ter uma atitude especial em relação ao material trabalhado, visto que na pesquisa psicanalítica o pesquisador não deve se manter neutro, deve-se deixar seduzir pelo texto, e ser seduzido por ele. Cabe ao pesquisador a não intrusão de seus preconceitos e aversões ao material estudado, pois desvirtuariam a pesquisa.

Este trabalho irá se desenvolver na modalidade de estudo de caso, que, segundo Ponte (1994), é caracterizado como um estudo de uma entidade bem-definida, com o objetivo de conhecer em profundidade o seu “como” e os seus “porquês”, evidenciando a sua unidade e identidade próprias.

As entrevistas foram gravadas mediante a assinatura de um termo de consentimento livre e esclarecido, que objetiva a fidedignidade dos dados e o sigilo, e posteriormente foram transcritas com integridade para a análise.

3. Apresentação e Discussão dos Resultados

Para este estudo, foram realizadas duas entrevistas com um homem que nesta pesquisa será chamado de Ravi, assim como teve-se acesso ao processo dele. Ravi foi condenado a 134 anos de prisão por atear fogo em sua residência, em que assassinou quatro crianças, e pela tentativa de assassinato de outras três. Entre as que morreram, três eram seus filhos, com as idades de um ano, dois anos e meio e três anos, a outra criança morta era seu sobrinho. No momento do crime, as crianças estavam sozinhas na residência e a mãe da família havia saído para fazer uma visita no mesmo bairro. Ravi trabalhava em uma cidade vizinha e só ia ao encontro da família nos finais de semana; no entanto, neste dia, o casal havia discutido durante o dia e o pai prometeu que colocaria fogo na casa e matar todos que ali estavam, e foi o que fez no final deste mesmo dia.

A forma como o incêndio aconteceu traz muitas dúvidas ao pai, e também à entrevistadora. Ravi, por muitas vezes na entrevista, diz ser inocente e não saber o porquê estava preso, sendo que no ato do crime houve testemunhas que o viram ateando fogo na casa e saindo em seguida. Um dos filhos que estava na casa pediu ao pai que não cometesse tal ato, e como foi um dos sobreviventes do acontecimento testemunhou contra seu pai.

[…] o crime ocorreu em uma sexta-feira, e eu estava em uma cidade vizinha, as perícias não indicaram as causas do incêndio, se foram criminosas ou não, não entendo o porquê da condenação, eu estava em outra cidade quando tudo aconteceu […].

Pensador de importância mundial, Rascovsky (1995) afirma: “Os atos de agressão e destruição total ou parcial promovidos pelos pais contra seus próprios filhos são universais e podem ser encontrados em todos os grupos sociais, tanto primitivos quanto modernos.” Ainda acrescenta: “A punição mental ou corporal, o desprezo ou abandono, a mutilação ou assassinato dos filhos, crianças ou jovens dos quais a guerra é o maior exemplo são praticados em todas as regiões do mundo.” (RASCOVSKY, 1995, p. 275).

A violência doméstica e/ou intrafamiliar contra crianças e adolescentes não é um fenômeno da contemporaneidade. Relatos de filicídios, de maus-tratos, de negligências, de abandonos, de abusos sexuais, são encontrados na mitologia ocidental, em passagens bíblicas, em rituais de iniciação ou de passagem para a idade adulta, fazendo parte da história cultural da humanidade.

Desde a origem mais remota, a nossa civilização está marcada por um conflito dramático entre pais e filhos. Esses conflitos são contados hoje em forma de mitos, como citados anteriormente[05], que formam a base da cultura ocidental e se baseiam no conflito em duas esferas: o filicídio (quando os pais matam ou maltratam os filhos); e o parricídio (quando os filhos matam ou maltratam os pais). O mito mais famoso conhecido é o de Édipo, que constitui a base da Psicanálise. Neste mito não é apenas o filho que deseja matar seu pai para tomar seu lugar, antes disso o pai deseja matar seu filho. No entanto, em nossa sociedade atual, o amor incondicional aos filhos é tido como lei universal e instintiva, assim como nos tempos primitivos, o que faz com que o ato de assassinato ao próprio filho seja, muitas vezes, ignorado, pois existe um desejo de que isso não seja real ou de que não venha a acontecer, o que faz com que tal ato seja negado e inadmissível para a sociedade, influenciando também no pensamento de quem o comete. É ignorado ao ponto dos próprios assassinos negar, como é o caso de Ravi:

“[…] ninguém iria matar seus próprios filhos, isso não é aceito.”“[…] nunca um homem ia matar seus filhos, nem os animais fazem isso.”

No mundo animal, há muitas espécies que matam suas crias como ato de seleção natural da espécie, mas este fato fere os preceitos sociais estabelecidos desde o exórdio da civilização; são poucos grupos que admitem tal fato, e quando isso ocorre trata-se de uma questão cultural. Então, por que negamos um fato existente desde o início da civilização? Por que negamos o fato no mundo animal com seres que não possuem consciência de tal ato? Negamos para afastar a ideia de existência? Ou para não negar o amor incondicional entre pais e filhos? A resposta para estas questões é justamente nossa entrada no mundo simbólico, uma concepção para além dos estudos psicanalíticos, até mesmo na antropologia a proibição ao incesto e parricídio existia, e isso é a base do mundo em que vivemos hoje, ou seja, o mundo humano, o mundo simbólico. Lévi-Strauss (1976, p. 55) afirma: “Mas não há nada mais duvidoso que esta suposta repugnância instintiva.” Lévi-Strauss considerava esta afirmação baseado no incesto, que, embora proibido pela lei e pelos costumes, existe, sendo mais frequente do que se imagina, assim como o assassinato de um filho, que, apesar de ser negado, está presente em nosso mundo simbólico. Logo, “[…] explicar a universalidade teórica da regra pela universalidade do sentimento ou da tendência é abrir um novo problema, porque o fato admitido como universal não é tal de modo algum […]” (LÉVI-STRAUSS, 1976, p. 55), pois não existe nenhuma razão para proibir aquilo que, sem proibição, não correria o risco de ser executado.

A lei natural, a lei da vida, é a de que os filhos devem enterrar os pais e sucedê-los. Nesta perspectiva, a morte de um filho rompe a ideia de continuidade geracional e imortalidade do ego, sobrevive-se a quem teria de ter nos sucedido, a linha do tempo se desvia da sua ordem habitual e, de certa forma, é como se tivéssemos superando nossa própria morte e entrando na eternidade. Nada mais pode acontecer, rompemos o limite da finitude, de transcendência sobre a morte (SEEWALD et al., 2004).

“[…] um filho é tudo na vida da gente, mas quando um filho morre a gente fica assim como eu, sem nada.”

Afirmações como esta, escutada pela entrevistadora, tomam esse sentido de quebra de linha geracional, de finitude de um ciclo de maneira não natural. Assim, podemos nos questionar: se uma criança é tudo na vida de um pai, este queria ficar sem nada a matando?

Walsh e McGoldrick (1998, p. 63) afirmam que: “Quando seus pais morrem você perde seu passado; quando os filhos morrem você perde seu futuro.” Nesta perspectiva, podemos compreender que se as crianças são o símbolo do nosso futuro, são a continuação da linha geracional, matá-las ou maltratá-las seria uma forma de destruir o amanhã, quebra-se o universo simbólico, como aconteceu no exórdio da civilização em Totem e Tabu, onde o pai que era tão amado pelos filhos foi morto por eles. Justamente por isso, com a criação da proibição, a cultura foi criada. Ou seja, fica explícito a pulsão de morte, neste caso dos pais assassinarem os próprios filhos evidencia-se a pulsão de morte voltada para o exterior, na forma de autodestruição, agressividade, destrutividade. Desta forma, questionamo-nos o que esse pai queria matando seus filhos? Ficar sem futuro? Promover a quebra da linha geracional? Superar a própria morte e eternizar-se? Estes fatos fogem dos padrões e talvez só possam ser “explicados” pela quebra do universo simbólico que permitiria este assassinato, da mesma forma como, por não viverem no simbólico, os outros animais podem fazer isso sem contrariedade.

A partir disto, cabe-nos indagar se essa forma de considerar o filho como tudo na vida de um pai é uma forma de afastar de si a culpa, ou de querer mostrar aos outros e a si mesmos a importância de ter um filho, pois, apesar de cometer o ato, o pai afirma ser inocente e amar os filhos acima de tudo, demonstrando uma grande preocupação com o que a sociedade pensa a seu respeito.

Brandão (2009) afirma que a morte de um filho é considerada a perda mais difícil, por ser um evento não normativo, porque a ordem esperada do ciclo vital é invertida: espera-se que os pais morram primeiro que os filhos, e que estes suplantem a linha geracional. Falar sobre a morte de crianças é chocante para toda a sociedade, talvez porque nos remete a pensar em nosso passado, na nossa infância, mais difícil e chocante ainda se torna falar do assassinato de uma criança cometido pelo próprio pai, o que pode ser observado quando Ravi afirma:

“[…] porque eu estou preso né, devem pensa tipo mato os filhos porque teve vontade, saber que as pessoas pensam isso de ti é complicado, os pais devem morrer antes dos filhos.”

Essa negação pelo assassinato dos filhos pode estar relacionada aos conceitos estabelecidos socialmente, em que um pai deve amar seus filhos acima de tudo, e a dor que estes assuntos causam, mas sabemos que, apesar da ideia de amor incondicional que possuímos entre pais e filhos, não nos faltam fundamentações mitológicas e religiosas, como já citado anteriormente, para incluir sentimentos menos amorosos e incondicionais em relação aos filhos. O que ocorre é a negação e a aversão/asco cultural no sentido de que um pai pode e comete, em alguns casos, a destruição física, mental ou psíquica de um filho. Como já decorrido anteriormente neste estudo, sabemos da existência do ódio inconsciente e inerente dos pais em relação a criança, que se configura como um novo ser que adentra na vida do casal e traz consigo uma nova configuração familiar, causando, muitas vezes, sentimentos não tão amorosos aos filhos (WINNICOTT, 1998).

O novo contexto familiar que surgiu com a entrada de um bebê na vida do casal, a gravidez não foi planejada, e a matriz preexistente foi alterada, como indaga Ravi:

“[…] eu tinha dezoito anos né, a gente não planejou né, mas já que tava ali… eu trabalhava né…”

Nesta fala de Ravi, fica claro que o casal não esperava um filho para fazer parte da família, e que o momento em que aconteceu não seria o apropriado. Entretanto, supomos que a mãe falhou no processo de inserção do pai na vida dos filhos, pois o amor incondicional com o qual a sociedade vê a relação entre mães e filhos não se dá da forma desejada e sonhada socialmente neste caso. O papel dos pais é dar proteção aos filhos e nesse caso não ocorreu desta forma, pois a construção da família de Ravi deu-se de forma rápida e precoce. Ele teve o primeiro filho ainda adolescente, e desde então assumiu os outros filhos de sua esposa. Os filhos nesta família, diferente da maioria das demais, não aparecem como o centro das atenções, nem mesmo os pais projetam neles seus desejos e expectativas de vida, ou será que projetam desejos e expectativas de morte?

Podemos afirmar que um dos principais fatores a se considerar na constituição da função materna e paterna é o lugar que o filho tem ocupado no desejo dos pais. Para a psicanálise, este lugar ocupado pelo filho pode fornecer informações de como a função materna e paterna se estabelecem. No entanto, também é necessário considerar as vivências transgeracionais que os pais trazem para a constituição de uma nova família; a parentalidade não consiste apenas no fator biológico, mas também nas experiências transmitidas transgeracionalmente. Winnicott (1975) explana que as interações com o bebê começam antes do seu nascimento, em que a mãe é suficiente boa para o bebê e projeta nele desejos inconscientes. Parkes (1999) afirma que a relação entre pais e filhos é muito mais complexa, mais íntima do que qualquer outra relação que estabelecemos, e quando nos referimos a essa relação não falamos apenas de impulsos amorosos, mas também de impulsos agressivos.

Na etapa inicial, a função do pai é também tolerar uma exclusão temporária desta relação dual e aguardar a hora de participar de forma ativa nesta relação. No caso de Ravi, podemos perceber que as vivências e experiências trazidas de sua infância são parecidas com as que aconteceram em sua vida, até mesmo se torna compreensível à constituição de sua família:

“[…] eu fui criado sem pai né, ele me abandonou né, mas até que não senti muita falta dele, meu padrasto ficou meu pai dai né, o homem que casou com minha mãe, ele me dava tudo o que eu queria.”

Para Freud (1914, p. 150), “[…] o paciente não se lembra de nada do que ele esqueceu e reprimiu, mas ele o atua. Ele o reproduz não como memória, mas como uma ação; ele repete, sem saber, é claro, que está repetindo.” Para a psicanálise, nossa energia libidinal está na infância ligada à mãe quando esta cria um elo entre mãe e filho. Na fase adulta, essa energia será investida na busca do nosso parceiro amoroso, já que inconscientemente retornaremos a fase infantil em que ganhávamos todo aquele amor e cuidado da nossa mãe, gerando uma procura por alguém que se assemelha a esta que deu tanto cuidado e carinho (FREUD, 1910). Isso fica evidente quando Ravi indaga:

“[…] eu tenho quatro irmãos né, e só dois é do mesmo pai, o resto é tudo de pai diferente, minha mulher também, três filhos que morreu era meu os outros três era de outros pais.”

Ravi escolheu, para constituir uma família, uma mulher com traços parecidos com os da sua mãe. A maneira com que foi criado deixou marcas em sua vida, e seu relacionamento baseado em relações infantis com aqueles pais que não desempenharam todo o carinho e atenção, criando uma estrutura psicológica frágil. Conforme Olds e Papalia (2000), as pessoas tentam buscar uma repetição na sua vida adulta, buscando a mesma felicidade e união de seus pais se assim o tiveram. Na entrevista de Ravi, podemos perceber que a felicidade e a união de seus pais não são as mais aceitas e desejáveis socialmente, mas fica evidente que a constituição de sua família e a forma de tratamento com seus filhos foram em grande parte parecidas com a que teve em sua infância. Inconscientemente, Ravi pode ter tentado reconstruir seu contexto familiar original, estes são muitas vezes frutos de identificação, no qual idealiza-se o futuro com base em um sentimento considerado amoroso. Mas agora sabemos que a sua essência já é bem mais complexa, pois assassinar um filho não pode ser visto como um sentimento amoroso. Esse sentimento é desenvolvido por uma pessoa geralmente membro da família; neste caso, Ravi pode ter tomado como norte modelos antigos de vivências para construir sua vida, fazendo uma transferência da vida de seus pais e experiências passadas para sua própria vida atual, de uma forma considerada não amorosa, e até mesmo perversa (FREUD, 1912). Aqui é o exemplo de uma reimpressão. Ou seja, é uma ideia de que passado e presente ficam misturados: se o passado não é visto como passado, nada se aprende e apenas se repete. Pode-se até dizer que esta repetição é própria da pulsão de morte (ETCHEGOYEN, 1989).

“[…] fui criado pelo meu padrasto, que não era meu pai, como eu que era padrasto dos outros filhos da minha mulher, era como se fossem meu, mas não era, mas gostava dele assim como dos outros.”

Segundo Ferrari (1999), “[…] a presença de ambos os pais é que permite à criança viver de forma mais natural os processos de identificação e diferenciação […]”. Quando um falta, ocorre sobrecarga no papel do outro, gerando um desequilíbrio que pode causar prejuízo na personalidade do filho. Comentando o complexo de Édipo no menino, Ferrari diz que, “[…] para o menino, a ausência do pai significa que nada se interpõe entre ele e sua mãe, o objeto desejado, que é toda sua. Mas esta mãe tão amada também começa a dar limites, e se inicia a guerra.” (FERRARI, 1999, p. 91-117). Com a falta da presença do pai, Ravi pode ter sobrecarregado o papel da mãe, e como nada se impôs entre mãe e filho, ele pode ter desenvolvido a ideia de que pode obter tudo o que deseja, e satisfazer a qualquer modo.

Corroborando ainda, Ferrari (1999) aborda também a questão dos pais substitutos, afirmando que estes também podem se afastar, deixando a criança novamente com a sensação de abandono. A situação se torna mais complicada neste aspecto quando a mãe tem relacionamentos instáveis e rápidos, o que conota a história de Ravi, que foi criado sem pai, e pela mãe que teve diversos relacionamentos e filhos. Podemos pensar desta forma que a função paterna falhou na vida de Ravi, pois o pai o abandonou antes mesmo dele nascer, e a mãe não mantinha relacionamentos estáveis e duradouros. A função materna também não ocorreu conforme o desejado ou esperado, pois a maternidade deve proporcionar e criar um vínculo afetivo com o bebê, garantindo a ele as necessidades precisas, além de garantir ao filho confiança e independência. Mas sabemos que neste caso, no qual havia negligências principalmente afetivas entre pais e filhos, Ravi pode ter impresso uma ideia distorcida de família ideal, pois sugere-se que este não recebia atenção e afeto da forma como deveria para se desenvolver positivamente. Esta negligência por parte dos pais resultou em sentimentos negativos sentidos por Ravi em relação aos seus filhos e enteados e ao seu pai, que o abandonou antes mesmo de conhecê-lo. Em um momento da entrevista, Ravi afirma:

“[…] porque estou preso devem pensar tipo, nem o pai quis quando era pequeno, e meu pai sempre foi meu padrasto né que me dava tudo o que eu queria e precisava.”

Quando questionado pela entrevistadora sobre o significado de “tudo o que queria”, Ravi diz:

“[…] tudo as coisas, presentes, brinquedos, dinheiro, mas eu sempre trabalhei né, desde os dezoito anos…”

Desta forma, pode-se sugerir que Ravi considerava os objetos que ganhava importantes para a relação pai e filho, pois ele mesmo afirma que seu padrasto era bom, pois lhe dava tudo o que queria e precisava, para substituir o afeto. Esta relação com objetos e dinheiro é encontrada por diversas vezes nas falas do entrevistado, imprimindo em suas vivências atuais a falta de afeto sentida por ele e substituindo o afeto com bens materiais:

“[…] ser pai é uma coisa que todo mundo quer, que as pessoas pedem quando vai vir o bebê, pra mim veio com 18 o primeiro, eu não queria, mas trabalhava e tudo… e depois dali veio um atrás do outro, nenhum planejado, mas a gente podia cuida né, trabalhava.”

Ravi afirma diversas vezes que a gravidez não foi desejada e sempre se justifica pela questão de ter um trabalho, de poder prover os filhos de bens materiais. E o afeto onde está? Podemos compreender que o afeto se inicia desde a concepção da gestação, o que no caso de Ravi tanto como filho quanto como pai não foi planejada, e vista como algo pelo que o casal esperasse. Podemos sugerir que Ravi repete os comportamentos de seu padrasto, que lhe presentava com bens materiais, mas o afeto era esquecido, e em nenhum momento das entrevistas foi citado. Não é preciso grandes estudos para reconhecermos que o afeto faz parte da construção do caráter de qualquer indivíduo, é só olharmos para nosso lado que encontraremos vários traços que sem o afeto ou a falta de afeto não existiriam.

As trocas afetivas na família imprimem marcas que as pessoas carregam a vida toda, definindo direções no modo de ser com os outros afetivamente e no modo de agir com as pessoas. Esse ser com os outros, aprendidos com as pessoas significativas, prolonga-se por muitos anos e frequentemente projeta-se nas famílias, que se formam posteriormente. (SCHREIBER, 2001).

A forma de criação adotada pela família influencia a conduta social dos membros. Ravi vivenciou situações de falta de afeto e preenchimento com objetos, reflexo este de uma desestrutura no âmbito familiar. Desta forma, podemos compreender os comportamentos de Ravi com seus filhos, e enteados, que são reflexos de experiências passadas. Bowlby (1981, p. 13) refere que “[…] a qualidade dos cuidados parentais que uma criança recebe em seus primeiros anos de vida é de importância vital para a sua saúde mental futura.” Sendo assim, percebe-se que a qualidade das relações afetivas contribui de modo significativo na manutenção da saúde dos indivíduos e na entrada destes no mundo simbólico.

Quando indagado pela entrevistadora sobre a importância que ele parece ter sobre trabalho e criação de filhos, Ravi afirma:

“[…] é se tu trabalha, tu tem dinheiro, tu pode ter um filho, ter dinheiro é o mais importante pra ter um filho.”

Isso nos faz refletir sobre a infância e construção psíquica que Ravi estabeleceu desde cedo. Mesmo depois de adulto, repete comportamentos que causam não apenas prazer, mas também desprazer em algumas situações. Não podemos lidar com estes fatos apenas como meros acontecimentos do acaso, mas temos de refletir sobre o que leva Ravi a colocar-se e colocar os próprios filhos de forma repetida em situações dolorosas como as vividas em suas experiências dolorosas. Corroborando com tais constatações, podemos citar Freud (1920), que em seu texto Além do princípio do prazer estabelece o dualismo de pulsão de vida e pulsão de morte. É através da compulsão a repetição que o autor teoriza a pulsão de morte como a força que leva o indivíduo a se colocar repetidamente em situações dolorosas e reviver experiências antigas que nunca provocaram prazer. Por isso estão além do princípio de prazer, ou seja, estão além de qualquer mecanismo psíquico, que devem ser capturadas pelo aparelho psíquico para poderem ser processadas. Se capturadas pelo aparato psíquico, poderemos ter uma descarga mais saudável; no entanto, quando ficam soltas no aparelho psíquico, coisas mais graves podem acontecer. No caso de Ravi, podemos sugerir que tenha acontecido a quebra do universo simbólico, a compulsão, a repetição está intimamente ligada com o tipo de repetição que nos referimos neste estudo, como fica explícito na afirmação de Ravi:

“[…] minha mulher era bem parecida com minha mãe, tinha vários filhos de pais diferentes…”“[…] minha mulher tinha outros filhos, não eram meus, mas eu gostava assim como se fosse, mas não era, como eu e meu padrasto…”

Como Freud propôs em 1920, em uma de suas obras, os indivíduos são seres complexos e, segundo sua teoria, possuímos um impulso destrutivo sempre presente em todos nós, da mesma forma que existe um impulso para a vida. Esses impulsos vivem em permanente conflito no íntimo de todos nós, em todos os dias de nossas vidas.

No entanto, o que fazemos é negar estes fatos. Desta forma, neste estudo podemos pensar que impulsos agressivos e destrutivos estavam presentes, pois, apesar do pai atear fogo na casa, a mãe agiu de forma conivente ao assassinato. Durante as entrevistas, teve-se evidências de que o casal havia discutido pela manhã quando Ravi descobriu que estava sendo traído por sua esposa, e reiterou que colocaria fogo em sua casa no final do dia, com o intuito de matar todos que ali estavam. Porém, no final do mesmo dia em que Ravi prometeu isso, sua mulher deixou os filhos em casa e dirigiu-se a casa de um vizinho em seu bairro, que, segundo Ravi, era a casa de seu amante. Desta forma, podemos afirmar que a mãe, apesar de ter ouvido as promessas de realização do crime declaradas por Ravi, deixou seus filhos sozinhos, esperando que a hora de atear fogo na casa chegasse, e ela estivesse a salvo. No entanto, a mãe não foi condenada ao crime, mas podemos considerar que ela não fez nada para evitar que tal ato ocorresse, e ainda porque não afirmar que a mãe se livrou da morte deixando a casa, e abandonou os filhos deixando que estes ficassem no local que mais tarde seria incendiado. Nesta perspectiva, podemos pensar que esta mãe quebrou todos os paradigmas e colocou os filhos para a morte, não cometeu o ato, mas guiou-os para a morte, ou seja, o inconsciente não comete o ato, mas o deseja. E isso, para a realidade psíquica, é a realidade que importa. Compreende-se, assim, que esta mãe possuía sentimentos ambivalentes pelos filhos, ou seja, nesse caso sentimentos perversos e negligentes.

Para Benhaim (2008, p. 11-13), a popular crença de que o “amor materno é único e verdadeiro” é mito de um amor inteiramente devotado ao objeto. A ambivalência materna é, entretanto, uma necessidade estruturante; de acordo com a ambivalência, pode ser positiva ou negativa, ou ainda, o ódio pode ser estruturante ou destruidor ao bebê. No caso em questão, essa ambivalência foi negativa ao ponto da mãe ser conivente com a morte de três de seus filhos, e tentativa de assassinato de outras crianças.

Não nos faltam, como sabemos e citamos anteriormente, comprovações mitológicas, religiosas e sociais para afirmar que nas raízes humanas existem sentimentos menos amoroso em relação aos filhos. Mesmo o filicídio sendo negado, a sociedade está abarrotada de formas de negligência com crianças: a mídia, os pais, os castigos. Está em nosso cotidiano, cada momento da história foi marcado por momentos trágicos, e atualmente vivemos em um mundo onde a falta de empatia cresce cada vez mais – abandonam-se filhos, matam-se mais, faltam respeito com os outros, criam-se as próprias leis e vive-se como se não existisse leis –, ou seja, o mundo está sendo habitado por pessoas que acreditam que “tudo é possível, que tudo podem”. Atualmente, são necessárias campanhas para proibir e orientar, sendo muitas vezes inúteis e desconsideradas, e a lei não está internalizada e não está sendo respeitada.

“Entender e considerar estes movimentos é diferente do que perder de vista o papel da castração como ocorre com muitos pais na atualidade, este sintoma não pode ser atribuído apenas a cultura, a perda de controle não o autoritário, mas o da autoridade.” (CORRÊA; 1991). A psicanálise é agente de mudanças, seja onde ela for inserida. Desta forma, cabe a esta linha de estudo questionar e influenciar os acontecimentos marcantes em nossa sociedade atual, buscando uma compreensão para a falta de repressão no mecanismo psíquico (NASIO, 1989).

Todas as pessoas foram vítimas ou presenciaram algum tipo de violência na vida, pois é o que está estampado em jornais, revistas, televisões, o consumismo se torna o centro das relações familiares, a falta de tempo e os meios tecnológicos adentram na vida das famílias de forma descontrolada, o afeto muitas vezes se torna esquecido, ou substituído por objetos, e bens materiais, a essência da família está se perdendo, cada vez menos famílias se formando. Estamos na era em que cada um deve agir e pensar em si mesmo, visando lucros e interesses. Será que vivemos um egocentrismo/narcisismo descontrolado? Ou isto já nos é inato, e se tornou parte de nossos dias?

4. Considerações Finais

Falar sobre morte implica em sentimentos negativos. Por mais que seja esse o destino de todos nós, quando se trata da perda de uma pessoa importante em nossas vidas se torna ainda mais difícil falar sobre. E quando essa morte é de um filho causado pelo próprio pai a revolta, dor, tristeza e indignação são ainda maiores.

Detivemo-nos neste trabalho ao estudo de um pai que intencionalmente matou seus filhos. A partir das entrevistas realizadas, pode-se sentir um pouco do que isso significa para o pai, além de compreender como este lida com esses sentimentos atualmente. Talvez por isto tenha sido por momentos difíceis de realizar tal pesquisa, já que a falta de sentimentos afetivos pelos filhos e a forma apática com que falava de sua família despertavam sentimentos de vazio, isolamento, e até mesmo resistência em continuar escrevendo, além de questionamentos sobre o amor paternal que nos cerca.

O acesso ao processo e as entrevistas tiveram grande produtividade e riqueza de informações. O primeiro contato foi realizado apenas para criar vínculo com o entrevistado, a fim de, posteriormente, adentrar-se nos objetivos da pesquisa. Foi possível perceber o quão difícil é para o pai admitir ter cometido tal ato, apesar deste não apresentar culpa em nenhum momento das entrevistas, assim como se notou a dificuldade de falar sobre o assunto, pois o entrevistado afirma que “nem os animais matam seus filhos”. Ou seja, existe uma resistência e negação dos fatos talvez pelo motivo de ser aceito socialmente, além de ser visto como algo fora da realidade, mesmo sabendo que esses crimes existiram desde o início da civilização, como foram citados no decorrer do trabalho.

A partir deste estudo foi possível compreender o porquê falar sobre o assassinato de um filho cometido pelo próprio pai, e de morte de crianças em geral, se torna tão difícil. Não existe uma forma de descrever tais situações, nem mesmo nomenclatura possui para tal ato, o que, de certa forma, dificulta a produção de um trabalho científico sobre o tema. Pode-se perceber que esse tipo de crime é visto como inconcebível, inaceitável, e um sentimento carregado para a vida toda. Desta forma, também devemos questionar a sociedade em geral, que se isenta muitas vezes de sua responsabilidade e oferece às crianças formas negligentes de vida cotidiana, tornando-as vítimas de descaso.

Mesmo salientando e considerando que existem pais que se dedicam incondicionalmente aos seus filhos, e os desejaram e os amam de forma intensa, existem outros que não são capazes de deixar de lado suas motivações e necessidades internas para oferecê-las a outro ser.

Em virtude da riqueza de material que emergiu, optou-se por deixar alguns pontos de ser explorado devido ao espaço disponível para a análise destes. Desta forma, torna-se importante dar continuidade a este estudo, pensando também em englobar mais casos deste tipo, assim como as mães que também cometem tal ato.

No momento em que se decidiu pela realização deste trabalho houve resistência de muitas pessoas, as quais comentavam de diversas formas a impossibilidade de isso acontecer, e de qual a necessidade de estudar “esse tipo de pessoas”. E foi isso que despertou ainda mais o interesse pelo desenvolvimento do trabalho: abordar questões que se evitam ser tocadas, e dedicar meu tempo a estar com essas pessoas vistas como o asco da sociedade. Durante a realização desta pesquisa, observou-se a escassez de materiais que abordam e estudam pais que intencionalmente mataram seus filhos, afinal falar sobre estes assuntos se torna difícil.

Realizar este trabalho foi muito gratificante, apesar de intenso e triste. Da mesma forma, fiquei grata ao entrevistado por ter compartilhado comigo sua história, e confiar em mim na realização deste trabalho de grande valia, que sempre será lembrado, pois estive com o entrevistado no momento da pesquisa sem preconceitos, acusações ou ideia preconcebidas. Assim, considero um desafio a realização deste trabalho, pois foi necessário chegar a questões obscuras e doloridas de um pai, que de forma intencional assassinou seus filhos, e como este afirma: “fiquei sem nada eles eram tudo para mim”, e desfazer-se de prejulgamentos pessoais e sociais para falar sobre morte que consiste em uma tarefa exaustiva e chocante.

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